Tiranos
Hitler
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Oratória, propaganda e mentira são usadas sem escrúpulos para fascinar as massas e levá-las ao paroxismo: é a lição que Hitler extraiu da atenta observação das manifestações comunistas, socialistas e católicas. Não que supervalorize as massas, mas sabe que é preciso arrastá-las à ação porque nenhuma grande ideia, "por mais nobre e elevada que seja", poderá ser realizada sem o consenso dos povos; e este consenso não pode ser obtido com conceitos abstratos, mas apenas com base em motivações sentimentais.
Atingida pelo lado do coração, a multidão adquire convicções graníticas, tornando-se assim um instrumento invencível porque "é sempre mais difícil combater contra a fé que contra a razão". Como Stalin, o futuro Führer mantém uma confiança total na interação: a repetição obsessiva de uma fórmula, de um slogan, é o único modo de gravar no cérebro das massas "uns poucos elementos fundamentais", até mesmo porque conceitos demasiado complexos são de todo incompreensíveis para gente de "modesta capacidade de entendimento".
Para criar um circuito magnético com seu auditório, Hitler estuda o ritmo com que deve modular suas intermináveis arengas, tornando-as exaltantes como sermões medievais, além dos gestos com que devem ser acompanhados, possuindo como poucos outros líderes modernos a capacidade de colocar-se em sintonia com os ouvintes, intuindo suas expectativas, seus humores, suas tensões psicológicas. É um bruxo que prega um evangelho bárbaro feito de sugestões arcaicas e de alucinações, cuja difusão é confiada ao partido, comunidade quase eclesial na qual o Führer é o pontífice máximo e também o messias, bem-articulada em suas hierarquias periféricas, em sua propaganda, em seus ásperos críticos e, sobretudo, em seus tribunais de inquisição. O partido se adorna de emblemas, impondo aos militantes, como hábito talar, a camisa marrom de gregário ou então o uniforme negro com a caveira dos carrascos. A comunidade dos fiéis é convocada a espaços consagrados como santuários, mesmo que sejam muitas vezes estádios esportivos (que, aliás, representam os templos de um outro culto muito difundido no mundo moderno), e é convidada a celebrar com solene liturgia um ritual acompanhado pelo canto coral dos hinos, fantasiosos e sugestivos como o gospel dos então odiados negros americanos. E a partir do momento em que a fé em que se inspiram esses ritos é a raça, isto é, a superioridade da raça ariana sobre todas as etnias do mundo, o culto é celebrado em nome do sangue, quase uma eucaristia, e promete a Terra Prometida aos que oram a conquista da Terra, a da marcha em direção ao Oriente, a Drang nach Osten, que permitirá que os nacional-socialistas aniquilem seus repugnantes inimigos marxistas e judeus. Sobretudo os judeus.
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A "noite dos cristais"
Muitos anos decorrerão antes que o projeto de liquidar a questão com um bem-elaborado sistema de duchas possa ser aperfeiçoado, mas o antissemitismo representa a motivação de fundo da estratégia hitlerista, juntamente com a afirmação daquela que ele considera a raça ariana. Não é o único que pensa desta maneira. Desde os primórdios do movimento figuram a seu lado personagens consagrados à mais frenética judeofobia, como Alfred Rosenberg, o intelectual báltico de origem alemã, fugitivo da Rússia revolucionária, que se arroga a teórico do racismo; ou Julius Streicher, um professor primário que fundou um jornal dos esquadrões de assalto e nele divulga fantasias macabras a respeito de ritos cruentos ou delitos atrozes, todos imputados, naturalmente, aos frequentadores das sinagogas. Ele se destacou igualmente pela desfaçatez com que publicou como autêntico um documento falso, o chamado Protocolo dos Sábios de Sião, destinado a confirmar a conspiração mundial dos pérfidos judeus. Não se pensa ainda no gás letal dos lager10 mas fazem-se circular diariamente os venenos da mentira e do ódio que no momento oportuno surtirão seus efeitos.
*Lager- Campos de concentração. ( N. T.)
A constante antissemita corre como um rio subterrâneo nas vísceras do partido para aflorar impetuosamente depois da chegada do Führer à Chancelaria. Tudo acontece com incrível rapidez no decurso de poucos meses.
No verão de 1933, os oposicionistas são liquidados e Hitler obtém plenos poderes com base na já citada lei, pseudojustificada em nome da necessidade de "eliminar os sofrimentos do povo e do Reich", objetivo em honra do qual, no final do mesmo ano e sem suscitar maiores reações, a polícia nazificada tira de circulação cerca de 27 mil adversários políticos, levando-os para o primeiro campo de concentração criado em Dachau, e inaugurado desde março por iniciativa e com projeto de Heinrich Himmler, o fundador das SS. A maior parte dos prisioneiros é de militantes comunistas ou socialistas, mas não se descuida dos judeus, em conflitos com os quais, nos anos que precederam o advento do chanceler, os esquadrões já haviam cometido injustiças, abusos de poder e até mesmo verdadeiras agressões físicas. Poucas semanas depois da tomada do poder, o austríaco toma, contudo, as primeiras medidas dirigidas especificamente contra eles, culpando-os de boicote às atividades econômicas e de uma pesada discriminação de outras presenças nas profissões liberais.
A ideia é, inicialmente, isolá-los da sociedade alemã, apesar de nela se reconhecerem plenamente, por estarem há muito assimilados à língua, à cultura, às instituições de um país que já consideram sua pátria. Talvez também por isso a reação dos "cidadãos alemães de religião judaica" não será nem unitária nem combativa. Os mais ricos, de início, se solidarizam com os conservadores contra os subversivos; os demais, especialmente os artistas e os intelectuais, são apanhados de surpresa pelo recrudescimento de uma barbárie que não poderiam esperar da sua Alemanha. Em seguida começa a difundir-se entre eles a tendência a buscar uma saída na emigração, um fenômeno que irá agigantar-se nos anos seguintes, acabando por transferir para as democracias ocidentais, sobretudo para os Estados Unidos, um autêntico tesouro de competência, de criatividade e de saber científico, com uma perda inestimável para a velha Europa. Somente entre 1933 e 1934 cerca de 60 mil das mais brilhantes personalidades judaicas escolhem o caminho do exílio, em meio ao penoso silêncio da cultura oficial, da universidade e das igrejas alemãs. E quando no exterior, por iniciativa de Albert Einstein e de um comitê organizado na América pelo Rabino Wise, se esboça um enérgico protesto e ventila-se até a ameaça de um boicote dos produtos alemães, a reação da hierarquia nazista é de fúria. O próprio Hitler decide, em represália, dar definitivamente curso a um projeto que havia antes suscitado a perplexidade entre os expoentes conservadores de seu governo, ou seja, o impedimento, por um dia inteiro, de qualquer atividade dos comerciantes e dos professores judeus.
Precedido de um venenoso proclama de Streicher, que convida a população a não utilizar mais os serviços dos médicos e dos advogados judeus, o dia do castigo desejado pelo chanceler se desenvolve pontualmente das 10 às 19 horas de primeiro de abril de 1933. É um sábado. Os esquadrões da tropa de choque não matam ninguém, mas se exercitam em uma aviltante sequência de maus-tratos e provocações, vigiando, em uniforme e fortemente armados, escritórios e lojas aos quais impedem o acesso. Insultam proprietários e clientes, quebram vitrinas e entregam-se a outros destemperos, sob a mais seráfica indiferença da população e das forças de ordem. O castigo se estende logo em seguida aos funcionários da administração pública que sejam "não-arianos" (basta ter um genitor ou um avô da religião mosaica), além de estabelecer-se novamente um número-limite para a admissão de advogados, de notários, de magistrados nos seus respectivos conselhos, fazendo-se o mesmo até para os dentistas e os médicos do serviço de saúde, bem como para os estudantes das faculdades de medicina e direito, que os discípulos de Rosenberg julgam evidentemente as mais perigosas para a pureza da raça. Também nestes casos a indiferença tanto da população como dos círculos acadêmicos e culturais é absoluta: até um filósofo como Heidegger, no discurso de posse como reitor da Universidade de Friburg, demonstra ignorar que nos ateneus alemães aumenta dia a dia o número dos docentes judeus e de esquerda obrigados a se demitir ou que são brutalmente despedidos.
Quando, em fins de 1933, a pressão parece atenuar-se, na comunidade judaica difunde-se a perigosa ilusão de que a perseguição acabara, a ponto de dez mil dos judeus que antes haviam se refugiado no estrangeiro cometerem a ingenuidade de voltar à Alemanha. Na realidade, Hitler precisa do apoio da opinião pública moderada, particularmente da grande indústria, para realizar o rearmamento das Forças Armadas — premissa indispensável à sua política de expansionismo —, e por isso assume nesta ocasião uma atitude respeitável, à qual sacrificará na famigerada "noite dos longos punhais" a ala mais subversiva de seu movimento, até mesmo porque não pensa em uma contrarrevolução permanente — que, aliás, é estranha à cultura alemã — e sim em uma estrutura organizada que garanta, sem excessos aparentes para a plateia e com a máxima racionalidade, um regime de terror permanente para todos os opositores reais e virtuais do milênio nazista. Terá como o instrumento de que precisa para realizar seus planos as SS, as Schutzstaffeln,constituídas como sua guarda pessoal sob o comando de Himmler, que criou igualmente o serviço paralelo, o SD(Sicherheitsdienst), destinado, primeiro, à segurança do partido e, depois, à contraespionagem.
Não se trata de substituir o aparelho do Estado e o Exército, mas de manter tanto um quanto o outro permanentemente sob controle, para que eles correspondam permanentemente aos desígnios de Hitler, a quem as SS estão ligadas por um juramento de fidelidade que é um voto monacal de obediência incondicional. É um corpo selecionado, cujos componentes são recrutados com base em uma fanática fé no nazismo e uma boa formação cultural, com os papéis de comando frequentemente confiados a expoentes da aristocracia e da alta burguesia orgulhosos de se sacrificarem no altar da devoção ao Führer.
Aliás, Himmler nunca age casualmente: até o uniforme de suas SS, o negro da farda, a caveira como insígnia no quepe e nos distintivos, o juramento de fidelidade e de obediência são elementos calculados para criar na tropa uma exaltação coletiva destinada a tornar inalteráveis os hábitos individuais, a ferocidade na repressão, o heroísmo no combate.
A uma estrutura tão exemplarmente ariana não pode senão ser confiada uma tarefa essencial para um regime como o hitlerista, ou seja, a construção, a vigilância e a gestão cotidiana dos campos de concentração nos quais passo a passo, a partir do modelo de Dachau, serão recolhidos e (de início) castigados os cidadãos alemães, judeus ou cristãos, marxistas ou simplesmente democratas, em suma, todos os que não sentem a grandeza do Terceiro Reich.
Surgirão muitos outros, em poucos meses, e quase em todas as partes, com a advertência de que ao Führer e a Himmler não agrada a "violência descontrolada" dos tempos heroicos, mas preferem uma repressão organizada, com regras determinadas, principalmente no que se refere à conduta dos detentos e às eventuais infrações, que, naturalmente, segundo sua gravidade, exigem um severo repertório de castigos, que vão do isolamento ao trabalho forçado, dos castigos corporais à pena capital, que pode variar do fuzilamento ao enforcamento. Na direção do campo de concentração de Dachau, a verdadeira revelação é Theodor Eicke, que Himmler aprecia a ponto de promovê-lo, primeiro, para a cúpula da corporação e, depois, para tê-lo a seu lado, como coordenador de toda a já sólida rede de campos de concentração.
Para espalhá-los por todo o território muito contribuiu também a enérgica iniciativa do boss nazista da Prússia oriental, o herói de guerra Hermann Goering, refinado apreciador de obras de arte.
A pausa de relativa distensão se esgota no verão de 1935. Agora o regime já está forte por muitas razões: reduziu drasticamente o desemprego, sobretudo graças ao rearmamento, que levou à volta ao alistamento obrigatório e à criação da aviação militar, a Luftwaffe, e conseguiu um sucesso internacional com o plebiscito que devolveu a Saar à Alemanha. A assinatura do tratado naval com a Grã-Bretanha sela uma ressurreição que se mostra surpreendente, mesmo tendo sido realizada à custa de todas as liberdades políticas e sindicais. Mas precisamente nestas mesmas semanas chega da União Soviética uma notícia preocupante: a da drástica mudança de rota que, exatamente em vista do ameaçador reforço do Terceiro Reich, Stalin decidiu fazer, aderindo à Sociedade das Nações e pressionando a França para completar o quadro de alianças estratégicas já realizadas com a Tchecoslováquia que deveriam cercar a Alemanha por todos os lados. Em parte para acentuar a abertura em relação à França, em parte para fazer frente à ameaça do nazifascismo, o ditador soviético dá uma guinada ainda mais clara e significativa nas relações com a esquerda, permitindo aos comunistas ocidentais formarem alianças políticas e eleitorais, a chamada Frente Popular, com os partidos socialdemocratas e socialistas, não mais "socialfascistas".
Hitler percebe imediatamente o sentido da mudança, vendo nela a confirmação do inevitável choque frontal com a Rússia bolchevista. Por conseguinte, deslancha a operação de mobilização psicológica indispensável para envolver a opinião pública alemã na temerária aventura, utilizando para este fim o congresso que o partido nazista realiza, a partir de 10 de novembro, em Nurembergue e unindo-o à convocação extraordinária do Reichstag na mesma cidade. O slogan no qual se inspira o congresso — a luta "contra os revolucionários judeus do mundo" — permite ver que o Führer visa a fundir em uma única cruzada anticomunismo e racismo, partindo da tese segundo a qual o Komintern é, na realidade, uma "internacional judaica", e 80% da própria União Soviética é governada por judeus, a começar pelo comissário das Relações Exteriores, Litvinov. São afirmações em sua maioria sem o menor fundamento, mas que servem ao chanceler para criminalizar o inimigo externo cuja existência real ou presumida deveria justificar todos os abusos de poder e todos os sacrifícios que serão impostos ao povo alemão pela guerra contra o Oriente. E para que fiquem também definitivamente excluídos os judeus-alemães, o congresso do verão de 1935 é levado, juntamente com o Parlamento, a discutir o problema de reduzir ainda mais a influência deles, regulamentando juridicamente seu status.
Na noite de 15 de setembro, o Reichstag de camisa marrom aprova em uma artificial atmosfera de união sagrada dois decretos de inaudita rigidez que passarão para a história como as "leis de Nurembergue": o primeiro atinge os judeus em termos de sua participação na vida pública, excluindo-os da obrigação do serviço militar e do exercício dos direitos políticos, em outras palavras anulando-os como cidadãos; o segundo os humilha em termos de sua vida privada, proibindo seu casamento ou qualquer outro tipo de relação sexual com alemães, e até mesmo a possibilidade de terem empregadas domésticas de sangue alemão com menos de 45 anos. As leis de Nurembergue dizem respeito a todos os indivíduos que tenham pelo menos "três ascendentes inteiramente judeus", ou que pertençam à comunidade religiosa judaica, ou que tenham contraído matrimônio com um "parceiro judeu". Esta penalização será furiosamente reafirmada um ano depois, no congresso seguinte, no qual será atribuída também aos pérfidos judeus a responsabilidade de terem fomentado a penetração comunista na cúpula da República espanhola, que justificaria o alzamiento do General Franco.
Estamos já em plena atmosfera de preparação para a guerra, como testemunha no outono de 1936 a escolha de Goering como responsável por um plano quadrienal que deve pôr a economia e as Forças Armadas em condições de fazer frente à guerra no Leste. Para controlar a frente interna, Himmler foi nomeado chefe da polícia e ao mesmo tempo das SS, três regimentos das quais vigiarão os quatro campos de concentração onde estão reunidos todos os presos políticos do momento. Outros lager estão sendo postos em funcionamento como campos de trabalho forçado para aumentar a produção bélica, considerando que, junto com a escassez de matérias-primas, a de mão de obra constitui a preocupação mais urgente, tendo em vista o começo das operações militares. No final de 1937, com a precisão maníaca que o caracteriza, o Führer reúne seus mais íntimos colaboradores para informar-lhes que o início do conflito não pode mais ser adiado para além de 1943 e que deve ser preparado com a anexação da Áustria, e com a liquidação da Tchecoslováquia como nação independente.
A partir do próximo ano, o programa começará a ser pontualmente realizado, com consequências trágicas para as minorias judaicas da Europa Oriental, em primeiro lugar, e depois para todo o continente, à medida que a mortífera expansão do Terceiro Reich for aumentando o número de judeus que caem sob o controle alemão e levando os chefes nazistas a modificar sua abordagem para a solução do problema. Na primeira fase, que coincide com o Anschluss, prevalece a tendência a facilitar a emigração da sólida comunidade judaico-austríaca, e esta tarefa é confiada a Adolf Eichmann, autorizando-o a abrir um escritório para este fim em Viena, tal como fará mais tarde em Praga, e até a reservar 5% dos bens confiscados arbitrariamente dos judeus ricos para o financiamento das viagens dos mais pobres. Em 1961, Eichmann será capturado, julgado e enforcado pelos judeus.
O abuso de poder nos confiscos de propriedades e riquezas dos cidadãos judeus é praticado também, evidentemente, no território alemão, em parte para obrigá-los a ir embora, em parte para financiar o esforço bélico.
Goering aumenta sistematicamente a taxa imposta a quem quer partir, intensificando simultaneamente as medidas repressivas que estão estrangulando a comunidade judaica: o poder já não se limita a estabelecer obrigações de todo tipo para as atividades de profissionais e homens de negócios, mas chega a decretar medidas tão odiosas quanto infantis, tais como impor aos homens que assumam como primeiro nome o de Israel e às mulheres o de Sara, ou então a decisão (por sugestão dos fiscais alfandegários suíços!) de estampar um gigantesco "J" em vermelho, no passaporte dos infelizes: o "J" de Ju de, judeu, ou seja, como uma maldição.
Não faltam durante este período agressões físicas aos cidadãos judeus como nos tempos das SA e as primeiras profanações de sinagogas incendiadas ou arrasadas, como a de Nurembergue. Porém, até o final de 1938 somente um terço dos judeus-alemães está desaparecido ou emigrou regularmente para a Palestina ou para os países da Europa Ocidental, sobretudo para a França, onde se respira um ar de antifascismo militante.
Poucos, não mais de 27 mil, são os que entre 1933 e 1938 puderam escolher emigrar para os Estados Unidos, embora tenham sido suficientes para induzir o Presidente Roosevelt a promover uma conferência internacional, que se realiza no verão de 1938, em Evian, no Lago de Genebra. O congresso resulta em um total fracasso, porque só a República de São Domingo aceita aumentar a cota de imigração para receber os fugitivos.
A indiferença do mundo livre ou as dificuldades objetivas que muitos países encontram para aumentar as cotas de imigração irritam as autoridades alemãs que não conseguem livrar-se dos judeus, especialmente dos mais pobres, os Ostjuden, cada vez mais numerosos nos territórios que o Terceiro Reich vem pouco a pouco ocupando. Quiseram deportar para a Polônia pelo menos os de nacionalidade polonesa, mas o governo de Varsóvia fecha as fronteiras e acaba por aceitar somente uma dezena de milhares de infelizes, submetidos a inenarráveis reveses. Ao saber por sua irmã "da angustiante odisseia" de um destes núcleos familiares, um jovem polaco emigrado para Paris, Herschel Grynszpan, irrompe furioso na sede da embaixada alemã e atira ao acaso contra um diplomata, um tal de Ernest von Rath, ferindo-o mortalmente. O gesto alucinado do rapaz oferece aos nazistas o pretexto para denunciar o atentado como um episódio do complô judaico contra o Reich, complô pelo qual os judeus-alemães são plenamente responsáveis e, como tais, devem ser exemplarmente punidos.
Como de costume, trata-se de uma reação tomada a frio, de uma deliberada provocação. Da noite de 9 de novembro de 1938 até as primeiras horas da manhã seguinte, patrulhas de SS e agentes da Gestapo em trajes civis são enviados, sob as ordens de Heydrich, às principais cidades alemãs para realizar contra os judeus uma operação terrorista estudada em seus mínimos detalhes. É uma noite infernal, a "noite dos cristais": selvagens agressões, destruição e incêndio de habitações e lojas, ateamento de fogo em sinagogas, enquanto, para acentuar o ultraje, os livros sagrados do culto mosaico são jogados na rua. Ao final da operação, o relatório feito pelo mesmo Heydrich avalia, com o escrúpulo habitual nestes burocratas do crime, os prejuízos causados à comunidade judaica: 36 mortos e outros tantos feridos gravemente, 191 sinagogas incendiadas e 36 demolidas, 7.500 lojas e 151 casas particulares devastadas, muitos centros comunitários e capelas de cemitérios violados e queimados. Procede-se assim à detenção de 20 ou 30 mil "homens adultos, sadios" com idade inferior a sessenta anos, a serem deportados para os campos de concentração, onde junto aos judeus-alemães acabam também os austríacos.
Os cristais são quebrados para dar margem a uma campanha de ódio, mas também e principalmente para induzir a minoria judia a abandonar o Terceiro Reich. Para o mesmo fim estudam-se medidas capazes de agilizar os procedimentos de saída dos judeus, sem renunciar, evidentemente, a um aspecto sádico, que consiste em debitar à comunidade judaica uma multa de 1 bilhão de marcos, além de um ressarcimento complementar de 280 milhões em moeda alemã, pelos danos que, paradoxalmente, esta mesma comunidade sofreu durante a Kristallnacht* Em linhas gerais, tomam-se providências administrativas tendentes a obrigar os expoentes mais ricos da minoria a entregar ao governo seus bens por quantias muito inferiores ao seu valor real.
*Kristallnacht — A "noite dos cristais". (N. T.)
Com excesso de zelo, Heydrich propõe que seja negado o acesso aos hospitais, aos meios de transporte, aos locais de espetáculo e até às estações climáticas — projeto de interesse que no momento é posto de lado para que seja rapidamente aprovado um decreto que exclui os judeus até "da economia alemã", nebuloso sinal de uma discriminação que deveria condenar quem ficasse à fome ou a pedir assistência às associações judaicas internacionais.
O objetivo é parcialmente atingido. No ano seguinte, o número dos judeus que emigram, em sua maioria para Israel e para a França, duplica, tanto que no momento em que explode a Segunda Guerra Mundial calcula-se que aproximadamente 50% da minoria judia residente na Alemanha, que antes da chegada de Hitler ao poder era de cerca de 230 mil, tenha abandonado o território alemão. O fenômeno foi ainda mais extenso na Áustria e na Tchecoslováquia.
Nos dois primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, os judeus da Europa Oriental passaram por humilhações inauditas e sofrimentos atrozes, mas não chegaram nunca a ser massacrados de modo sistemático, embora o governador-geral da Polônia ocupada, Hans Frank, tenha tomado, por assim dizer, algumas providências em relação às futuras vítimas dos lager, ordenando que, a partir de primeiro de dezembro de 1939, todos os judeus dos dois sexos acima dos nove anos devam trazer no braço direito uma faixa branca de pelo menos dez centímetros com a estrela de davi estampada em azul.
O selvagem regime de ocupação a cargo principalmente dos esquadrões das SS, denominados "os caveiras", e dos algozes da Gestapo visou em um primeiro momento a empurrar os judeus-poloneses e seus correligionários alemães, austríacos e tchecoslovacos para as margens extremas do grande Reich, na fronteira com a zona soviética; enquanto isto na frente ocidental, junto com os judeus-franceses, grupos de judeus-alemães foram também encaminhados para a zona não ocupada, onde os fascistas franceses se apressarão a interná-los em campos de concentração infames, mas nem de longe semelhantes aos construídos por Himmler e Heydrich.
Como se esta impiedosa marginalização não fosse já suficiente, Hitler tentou persuadir Pétain e seu primeiro-ministro, Lavai, a ceder-lhe a ilha africana de Madagascar, para aí concentrar todos os filhos de Sião, cujo número entre 1939 e 1941 paradoxalmente quintuplicou no grande Reich com as conquistas territoriais da Wehrmacht. Mas nada disto foi feito.
Enquanto esperam retomar o avanço para o Leste, continua a desenvolver-se uma história de perseguição permanente. Contra os poucos judeus ricos que tiveram a sorte ou a habilidade de escapar por entre as malhas da Gestapo, abrigando-se em países neutros ou partindo em direção à salvação, dezenas de milhares de infelizes tiveram seus pertences roubados, foram arrancados de suas casas e de seus países, sendo deportados para guetos improvisados e imundos onde estavam condenados a viver como animais. Calcula-se que, ao todo, entre 1939 e o começo da invasão da Rússia, tenham sido assassinados 5 mil a 10 mil judeus, ao passo que seria duas ou três vezes maior o número de homens e de mulheres mortos por padecimentos ou de doenças nos guetos.
Os que, devido ao avanço germânico na Polônia, foram obrigados a refugiar-se na zona soviética de ocupação — e que chegam a mais de meio milhão — acabam indo parar nos cantos mais remotos da URSS, empregados com ou sem o seu consentimento na indústria bélica, e nem neste caso tratou-se de uma viagem prazerosa, mesmo que não se venha nunca a saber o número exato de vítimas. Por outro lado, o antissemitismo russo, embora bastante forte em termos de preconceito popular, não se transformará em uma orientação racista. Não há dúvida de que o regime é hostil ao cosmopolitismo típico dos intelectuais judeus e, sobretudo, ao movimento sionista; mas somente nos últimos anos de Stalin a pretensa conspiração dos médicos do Kremlin provoca uma chama de judeofobia, que se extingue com a morte do ditador. De qualquer forma, nem o antissemitismo russo, nem o dos poloneses ou dos ucranianos, e nem a própria perseguição nazista entre 1933 e 1941, são de longe comparáveis ao Holocausto, que marca com o selo indelével do horror os últimos quatro anos da guerra.
Obviamente, a "solução final" da pretensa questão judaica não representa uma guinada imprevisível, pois está ligada às características fundamentais do nazismo: o ódio racial, o culto da violência selvagem alternando com uma burocrática crueldade, o dogma da obediência cega. O Holocausto é a história de uma maldade satânica, e também de uma enorme prova de covardia coletiva, da qual podem ser acusados não só os mandantes, os carnífices e os algozes, como os seus cúmplices, mesmo que apenas passivos. Por terem se calado os que o aprovaram explicitamente ou com o seu silêncio, ou que, como o núncio apostólico Pacelli, depois Paapa Pio XII, não fizeram publicamente um decidido protesto por medo de favorecerem indiretamente a causa do comunismo.
A criação dos lager, a adoção de regulamentos concentracionários planejadamente desumanos, a escolha das SS como garantia da disciplina Precedem de vários anos o início das aventuras bélicas de Hitler e correspondem, evidentemente, a seu objetivo de esmagar até em termos físicos não só os judeus, mas também o que ainda resta na Alemanha de militantes de esquerda, das exíguas forças liberais e dos movimentos de inspiração cristã. A crueldade burocrática substituída pela desenfreada violência dos esquadrões da morte das SA ainda não tem como objetivo o extermínio em massa e, ao contrário, no caso da minoria judia, nos primeiros tempos, oferece a alternativa da "desemancipação" (como a chama Amo J. Mayer) e da emigração forçada, embora esta já traga consigo o germe do Holocausto. As deportações e a criação de guetos realizadas no biênio que antecedeu a invasão da URSS representam uma posterior progressão no aperfeiçoamento dos instrumentos, principalmente caso se leve em conta a pressão propagandística exercida sobre os fanáticos das tropas especiais e sobre os próprios militares do Exército regular. Daí se passa a uma segunda etapa: da discriminação à perseguição, que custará a vida de aproximadamente seis milhões de judeus e de dois milhões de ciganos, sem falar nas vítimas de guerra russas, alemãs, inglesas, americanas e italianas.
A pregação hitleriana do ódio, um ódio teológico cultivado durante vinte anos, vinte longos anos, explode com toda a sua fúria destrutiva quando começa o ataque ao Oriente. São palavras de ordem que queimam como chamas do Inferno. À Wehrmacht, à Gestapo e às SS aponta-se como objetivo fundamental a destruição do regime soviético, do partido bolchevique e dos judeus, que seriam o seu coração e a sua mente. A ordem é de usar a máxima violência, a mais brutal e impiedosa, deixando de lado toda e qualquer regra de cavalheirismo, toda moderação e até todo o respeito à Convenção de Genebra ao se confrontarem com os combatentes e com os prisioneiros russos. Para deixar bem claro o que o Führer quer dizer, sugere-se, por princípio, a indulgência para com todos os excessos aos que possam se entregar os soldados, as SS e os policiais alemães na aplicação da lei da guerra, que deverá ser imposta sem inúteis sutilezas de procedimento, sob o controle de Himmler de seus colaboradores, aos quais estarão subordinados os próprios marechais e generais da Wehrmacht.
Trata-se, portanto, de eliminar os comunistas e seus manipuladores, os judeus, no contexto do projeto mais perverso que a mente humana jamais concebeu no centro mesmo da civilizadíssima Europa. É a tarefa para a qual, em termos operacionais, são chamadas antes de tudo as três mil SS de cristalina fé que Himmler e Heydrich mobilizaram na frente russa, dotando-as de armamento de último tipo e dos mais modernos meios motorizados. Na fase preliminar da invasão, os "caveiras" e demais homens dos esquadrões de proteção ficaram sabendo que Hitler espera deles a liquidação dos presos e dos ativistas soviéticos, dos judeus, dos ciganos e de outros elementos "indesejáveis", entre os quais os homossexuais. Porém não são apenas as SS que devem ser inspiradas por um "espírito de cruzada", como se intui pelo nome que foi escolhido para a "Operação Barbarruiva": o Terceiro Reich luta sob as ordens do Führer para salvar a civilização europeia, exatamente como, no século 12, os cavaleiros do Imperador Frederico I partiam para a Terra Santa para libertar o sepulcro de Cristo. E o "espírito de cruzada" implica aquela "fúria destrutiva" que será fatal sobretudo aos judeus, contra os quais Hitler começou a lançar ameaças de extermínio desde o dia em que entendeu que a Inglaterra jamais aceitaria dividir o domínio do mundo com os homens da suástica.
A preparação foi cuidadosa. Poucas semanas depois do início da invasão, Himmler chamou a Berlim um oficial das SS de nível elevado, Rudolf Hess, para comunicar-lhe que ele fora nomeado comandante de um campo de concentração criado em Auschwitz (nome em alemão de uma cidade polonesa, Oshwieçin), aproveitando um velho quartel de artilharia. Naquele campo, Hess deverá dirigir "o maior extermínio da história", ou seja, a eliminação de todos os judeus da Europa — uma ordem que o encarregado confessará ter julgado "inédita e monstruosa", embora, ao final, depois de ter ouvido as tranquilas explicações de Himmler, também a tenha considerado "justa". Como foi dito, os primeiros prisioneiros serão 728 poloneses, e a primeira experiência de extermínio executada com o gás Zyklon B será feita com 850 pessoas, entre prisioneiros e doentes soviéticos. Os judeus começarão a aparecer na "rampa" do conjunto de Auschwitz-Birkenau desfilando em direção às duchas da morte só em fevereiro do ano seguinte, embora a partir daí os carnífices venham a ter meios de refazer abundantemente o grupo.
A preparação intensifica-se em meados de julho, quando Hitler cria o ministério para os territórios orientais ocupados, confiando-o apenas formalmente a Rosenberg, o teórico do racismo, mas reservando os poderes reais a Goering e a Himmler. Os esquadrões das SS recebem instruções bastante detalhadas, recomendando que se vasculhem cuidadosamente os campos de concentração já prontos ou em fase de construção para identificar os elementos "perigosos", em primeiro lugar judeus, aos quais deve ser reservado um "tratamento especial" — expressão que já soa sinistra embora ninguém no mundo pudesse ainda adivinhar a que ponto se chegaria a partir do outono do mesmo ano de 1941, quando o Führer e os seus marechais virão a constatar que desta vez a Blitzkrieg12 apesar dos alardeados avanços e do número significativo de prisioneiros russos capturados no começo, está basicamente falida.
*Blitzkrieg (literalmente, "guerra-relâmpago") — Termo usado de
início para a ofensiva alemã sobre a Polônia, em 1939, que passou a designar uma tática de guerra baseada em três características básicas: surpresa, velocidade e superioridade em matéria de armamentos e poder de fogo. (N. T.)
Só em meados de janeiro de 1942 se conseguirá bloquear a ameaçadora contraofensiva de Konev e Zukov, mas a esta altura a cólera das cúpulas alemãs já se manifestara com uma intensificação feroz dos maus-tratos e das represálias contra a população civil, cuja pesadíssima responsabilidade caberá aos mais graduados da Wehrmacht. Depois de uma ordem do dia do General Wilhelm von Keitel, que proíbe à tropa todo e qualquer relacionamento com judeus, "principais artífices" do bolchevismo, a 10 de outubro de 1941 o Marechal de Campo Walter von Reichenau emite uma aberrante determinação convidando as tropas a irem além do "combate convencional" e a "adotarem duras, mas justificadas represálias contra os sub-homens judeus", instigadores segundo eles do "terrorismo", ou seja, da guerra de resistência. O comandante do 6? Exército afirma que não devem ser feitos prisioneiros onde só existem "guerrilheiros ferozes e mulheres degeneradas" e muito menos distribuir alimentos e gêneros para ajudar às populações inimigas.
A guerra de aniquilação na versão de Reichenau seduz muitos outros generais da Wehrmacht por interpretar com perfeição o humor do Führer, furioso com os relatórios que chegam da frente oriental, onde se esboça uma catástrofe político-militar cujo preço será pago principalmente pelos judeus, tanto os que se concentram nos territórios soviéticos ocupados quanto os que estão espalhados por todos os países europeus. É bom lembrar, contudo, que Hitler já acena explicitamente com a perspectiva do Holocausto desde o dia 30 de janeiro de 1939: "Se as finanças judaicas internacionais", declara ele, "tivessem conseguido levar os povos a uma nova guerra mundial, a consequência não seria a bolchevização do mundo e portanto, o triunfo dos judeus e sim a destruição da raça judaica na Europa." A destruição. Dois anos depois, para justificar a agressão à URSS, ele sustenta que se trata de uma guerra santa contra o "bolchevismo judaico", uma luta de vida e morte, e, aliás, a própria nomeação, mesmo que simbólica, de Rosenberg como ministro dos territórios orientais ocupados demonstra o papel que se atribui à questão racial no contexto de tal operação. A música não muda com o passar do tempo. No final de 1941, quando já está resignado à prorrogação ou até a um epílogo desastroso da ofensiva na Rússia, o austríaco busca reanimar os deprimidos espíritos do Exército e da população alemã na pátria, afirmando que o Exército Vermelho se compõe, em sua maior parte, não de soldados respeitáveis, como os da Wehrmacht, mas de "animais", em consequência de quase 25 anos de domínio judaico "com um sistema bolchevique substancialmente semelhante ao sistema capitalista, pois os artífices de ambos os sistemas são os mesmos, os judeus e somente os judeus".
As ideias expressas tão insistentemente pelo chanceler não ficam sem efeito. O ulterior afrouxamento da "Operação Barbarruiva" e as crescentes derrotas estratégicas multiplicam as represálias mais cruéis contra dezenas de milhares de judeus residentes ou refugiados nos territórios ocupados; mas trata-se já das últimas chamas da etapa dos pogroms: está sendo iniciada a "solução final", concebida há tempos, segundo esquemas de organização testados desde 1940, mas agora acelerada devido o rumo cada vez mais alarmante que estão tomando os acontecimentos. A intervenção dos Estados Unidos leva ao auge a fúria do Führer, que liquida os elementos da cúpula do Exército, assume o comando supremo das Forças Armadas e implanta um plano de vingança tendo em vista a campanha de primavera. O ponto básico do plano é a busca de mão de obra nova para a indústria bélica, em substituição aos trabalhadores alemães convocados em massa às armas para preencher as assustadoras perdas na frente oriental. A questão é discutida em uma reunião de cúpula, convocada em Berlim em 20 de janeiro, e decide-se remediá-la em parte, recrutando mais ou menos pacificamente operários estrangeiros dos países-satélites, e em parte impondo trabalhos forçados aos prisioneiros de guerra, principalmente aos judeus aprisionados nos campos de concentração ou ainda concentrados nos guetos. Os donos e os administradores das indústrias de guerra assinam em baixo, sem discutir.
Na mesma data, por uma coincidência que não é certamente fortuita, organiza-se outra conferência, a de Wansee, para discutir uma solução "ampla e definitiva" para outra questão, a respeito da qual poucos dias antes Julius Streicher escrevera que só vê uma única: "o extermínio". Na mesma linha se expressa obviamente Heydrich, que fora chamado para coordenar a conferência, da qual participa também um representante pessoal do Führer, o Doutor Hans Heinrich Lammers, chefe da Chancelaria do Reich; a conferência conclui com a aprovação de um projeto bem definido: é necessário "rastrear" de Oeste a Leste todas as comunidades judaicas da Europa, inclusive da Grã-Bretanha e da Irlanda, em busca de aproximadamente onze milhões de seres humanos a serem usados "de maneira adequada" (entre os nazistas, eles se entendem com meias palavras) como mão de obra nas regiões orientais ocupadas pela Wehrmacht e pelas SS. A ideia é organizá-los em grandes unidades, separando os homens das mulheres e das crianças, e encaminhá-los para os campos de concentração, com plena consciência de que muitos deles morrerão durante a viagem por depauperamento físico, enquanto os mais robustos, os sobreviventes, ao chegarem nos lager, serão utilizados no interesse da indústria bélica ou segundo as fantasias do comandante do campo. A conclusão da história está implícita no apelo que Heydrich lança aos presentes, ou seja, de que se os sobreviventes fossem novamente libertados poderiam vir a constituir "o embrião da reconstrução do mundo judaico", uma lastimável hipótese que só se pode evitar submetendo-os também a um tratamento "adequado".
Em suma, o oficial das SS imagina todas as etapas do Holocausto, um programa de extermínio que será realizado durante alguns anos, primeiro por meio da deportação e do trabalho forçado, depois com o conforto de uma tecnologia "adequada". Heydrich não fala em seu nome. Poucos dias depois, Hitler torna oficialmente sua a conclusão da Conferência de Wansee, declarando que o judeu "tem de ir embora da Europa", e que se não sair voluntariamente não haverá alternativa senão exterminá-lo. Um mês depois, aumenta a dose,' jurando: "Chegará a hora em que o mais perigoso inimigo mundial de todos os tempos será reduzido à impotência pelo menos por mil anos", Goering explica que "não há lugar para o sentimentalismo. Os judeus merecem a catástrofe na qual estão atirados. Experimentaremos destruí-los, juntamente com a dos outros inimigos nossos". No termo usado — experimentar — pode-se entrever uma espécie de freudiana referência ao tratamento científico que se decidiu dar ao Holocausto. É uma martelagem contínua: quanto mais fracassa a "Operação Barbaruiva", mais se multiplicam as ameaças contra os "parasitas": "A Alemanha ficará saudável", declara o Führer, "se eliminar os judeus." Destruir, exterminar, eliminar: a ordem é inequívoca.
O regente da Solução Final é Himmler, que alertou os dirigentes dos campos de concentração para que se preparem para uma guinada radical: no momento em que diminuírem os grupos de prisioneiros poloneses e soviéticos, já a partir do mês de fevereiro de 1942, os campos de concentração serão equipados para hospedar 100 mil judeus e 50 mil judias, a vanguarda de um interminável exército de "parasitas", condenados, sem motivos e sem julgamento, aos trabalhos forçados e ao massacre. Estão já prontos os contratos entre as grandes indústrias e as SS para a exploração desta mão de obra cuja progressiva extinção por fome, frio, doenças, pancadas, fuzilamento, enforcamento e gás não constituirá nunca um problema, tão incessante é a afluência aos campos de concentração de deportados procedentes de toda a Europa.
Segundo os últimos cálculos, o número de judeus eliminados nos anos do Holocausto — fora os mortos — oscila entre 5 milhões e 5 milhões e meio. Já existem também dados, dentro de certos limites, definitivos, da distribuição das vítimas segundo os países em que se verificou o extermínio por obra dos nazistas alemães e de seus aliados, particularmente húngaros, romenos e croatas:
POLÔNIA 2.900.000/3.000.000
ALEMANHA 134.500/141.500
URSS 1.000.000/1.100.000
HOLANDA 100.000
HUNGRIA 550.000/569.000
BOÊMIA/ROMÊNIA 271.000/287.000
MORÁVIA 78.150
LETÔNIA 140.000/143.000
FRANÇA 77.320
LITUÂNIA 70.000/71.500
ITÁLIA 7.680
ESLOVÁQUIA 68.000/71.000
LUXEMBURGO 1.950
GRÉCIA 60.000/67.000
ESTÔNIA 1.500/2.000
IUGOSLÁVIA 56.200/63.000
NORUEGA 762
ÁUSTRIA 50.000
DINAMARCA 60
BÉLGICA 28.900
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