Tiranos

Antonio Ghirelli · Capítulo 4 de 10 · parte 2/3

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Tiranos

Hitler

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

No torneio eleitoral que se segue, de 1932, embora se apresentando reforçado pelo apoio dos amigos do Presidente Hindenburg, o Führer fica ainda por um ano fora do governo. Só em 30 de janeiro de 1933 consegue de Hindenburg o encargo de formar, com os ministros do Centro Católico, o novo Executivo, desta vez abertamente apoiado pelo General Von Blomberg e por todo o Estado-Maior, que contam com a perspectiva do rearmamento declaradamente previsto no programa hitlerista, em ostensivo menosprezo pelo tratado de paz. Favorecido com a cumplicidade das classes dirigentes e com a surpreendente acomodação da oposição de esquerda, o novo chanceler garante para si o poder absoluto no decurso de poucas semanas. Tendo em vista as eleições gerais, emite um decreto que habilita seu governo a suspender as liberdades constitucionais todas as vezes que considere em perigo a ordem pública. Para estabelecer as premissas da ditadura, move-se habilmente em todas as direções: a casta militar e a grande indústria ficam seduzidas com seu projeto de rearmamento e de expansão para o Leste; os empresários veem sua autoridade restaurada nas fábricas com a liquidação dos sindicatos e consideram-se representados na cúpula pelo Doutor Schacht, ex-presidente do Banco Central, e agora conselheiro financeiro de Hitler; as forças da ordem, e até mesmo o círculo do antigo Presidente Hindenburg — este já totalmente imbecilizado —, assistem, sem intervir, às inauditas violências com que os esquadrões de assalto conduzem a campanha eleitoral. Quanto às esquerdas, socialista e comunista, estão tão divididas entre si que não conseguem sequer organizar uma manifestação de protesto à altura da gravidade do desafio.

A 27 de fevereiro, duas semanas antes das eleições, um misterioso incêndio destrói grande parte do Reichstag. Os nazistas aproveitam a ocasião: a Gestapo, a polícia política criada por Goering, captura um holandês mentecapto, um tal de Marinus Van der Lubbe, e o acusa de ter ateado fogo ao Parlamento a mando de três dirigentes comunistas búlgaros que estavam em Berlim, entre os quais o famoso Dimitrov, que se tornaria futuramente secretário do Komintern. Quer se trate de uma hábil montagem ou de exploração de um gesto individual, a conclusão é que uma magistratura ainda independente condena à morte o infeliz holandês, mas absolve ostensivamente Dimitrov e seus companheiros, que em Moscou são aplaudidos como intrépidos heróis. Na Alemanha, ao contrário, agitando o espantalho do terrorismo comunista, a Gestapo manda prender milhares de dirigentes, militantes e intelectuais de extrema esquerda, ao mesmo tempo que lança outro decreto-lei, destinado a neutralizar uma suposta "traição" ao povo alemão, mas que, na prática, cancela o estado de direito e com ele o sigilo postal e telefônico, a liberdade de imprensa e de associação, bem como todas as garantias de defesa para detentos e prisioneiros políticos, destinados assim a terminar, em sua maioria, nos campos de concentração, nos quais as condições de trabalho e de vida são já desumanas.

A esta altura, Hitler espera que as eleições de 5 de março lhe garantam a maioria absoluta e, no momento em que consegue apenas 44% dos votos, aperfeiçoa pessoalmente o resultado com um discurso muito explícito, pronunciado em presença de todos os Pais da Pátria, por ocasião da inauguração do novo Reichstag. A essência do discurso é que, a partir deste momento, não é mais o Parlamento que faz as leis, e sim o governo, com base em mais um decreto, que pretende — não sem involuntário humorismo — eliminar "os sofrimentos do povo e do Reich", atribuindo ao chanceler a faculdade de modificar a Constituição — ou como se apressa, aliás, a fazer, liquidando os governos regionais e suprimindo todos os partidos, a não ser o seu.

Finalmente, a primeiro de maio, com um toque de perfídia, adota de surpresa a festa proletária como "Dia do Trabalho", mas no dia seguinte liquida as ligas sindicais, manda prender e deportar seus chefes, proíbe os contratos coletivos e o direito de greve. E assim a noite cai sobre a Alemanha de Weimar.

Contudo, embora tenha dado tal golpe de Estado com fulminante eficácia, antes de enfrentar a segunda parte do programa, ou seja, a guerra contra os vencedores de Versalhes e contra o Kremlin, o Führer se empenha em consolidar definitivamente as relações com seus dois grandes e indispensáveis aliados, os empresários e os generais. Para conseguir isto, terá de liberar o campo dos últimos mal-entendidos ocultos no próprio movimento nacional-socialista, onde a esquerda o censura por sua excessiva condescendência para com a grande indústria, e particularmente para com o Major Rohm e os demais chefes das SA, que sonham transformar suas tropas de choque em uma milícia capaz de marginalizar o Exército e seus arrogantes generais. Chega-se, assim, ao verão de 1934. O Führer está em Veneza, onde dá lentamente início a seu primeiro contato com Mussolini, quando de Berlim o avisam do complô das SA. Encerrando os colóquios italianos, o austríaco volta precipitadamente para a Alemanha, decidido a resolver pessoalmente a questão. Começa assim o que passará à história como "a noite dos longos punhais". O Führer aproveita a ocasião para desembaraçar-se de muitos velhos inimigos — inclusive de alguns generais com os quais tem uma dívida de gratidão muito forte — e de alguns colaboradores de Von Papen, que pagam pela escassa confiança do chanceler em seu vice. Mas, naturalmente, se começa com as SA.

Às duas da madrugada de 30 de junho, Hitler, acompanhado por Goebbels, pega um avião para ir a Badtwiessee, localidade às margens do Lago de Tegern, onde sabe que Rohm e seu Estado-Maior estão reunidos, no Hotel Hanselbauer. Na realidade, os chefes das tropas de choque estão entregues a uma orgia desenfreada e os inúmeros homossexuais que fazem parte do Estado-Maior estão em companhia de jovens parceiros. Está amanhecendo sobre as águas do lago quando chega ao hotel um grande comboio de carros, nos quais, junto com o Führer e o ministro da Propaganda, viajam um esquadrão das SA armado até os dentes e um grupo de veteranos bavareses do partido. Mergulhados no sono, ou ainda agarrados a seus amantes, os chefes das SA não colocaram sequer um serviço de guarda: "Subitamente, as portas dos quartos são abertas e ouvem-se gritos de pessoas apanhadas em atitudes inequívocas, muitas das quais não entendem o que está acontecendo, enquanto outras saltam da cama seminuas e tentam escapar."

É uma cena de vaudeville, que terá um final de tragédia. Os SS agarram seus antigos companheiros e os arrastam para o pátio do hotel, onde são imediatamente fuzilados o Vice-Comandante Heines e seu jovem parceiro, enquanto Rohm e os demais são levados para a prisão, em Mônaco. Sobre a mesa da cela em que fica alojado Rohm, dois oficiais das SS deixam um revólver com um subentendido: de que o Führer lhe pede que encerre como homem honrado sua torpe aventura. Mas o comandante das SA se recusa a fazê-lo: "Se tenho de ser morto", responde, "que seja Adolph que o faça."

Porém Adolph já está muito longe quando os dois oficiais das SS voltam à cela: "Ele fica em pé, nu até a cintura, banhado em suor, e faz continência. Gostaria de dizer alguma coisa, faz menção de abrir a boca, mas um dos dois assassinos o detém com um gesto. Fuzilam-no, olhando-o com desprezo."

Liquidada a cúpula das tropas de choque, acertam-se todas as demais contas pendentes. Com a ajuda de Himmler e dos chefes do Exército, dirige a operação, de seu escritório de Berlm, o boss da Prússia, Goering, a quem o Führer dera ordem de "eliminar sem piedade esses tumores". Se 84 SA terminam no paredão e centenas de seus companheiros são jogados na prisão, também o ex-Chanceler e General Von Schleicher e seu colega, Von Bredow, homem de Von Papen, são abatidos junto com Padre Stempfle, furioso racista, mas réu aos olhos do Führer por ter espalhado boatos caluniosos sobre sua relação incestuosa com a sobrinha, Geli Raubal. São igualmente fuzilados pelas SS o chefe da Ação Católica, Erich Klausener, e Gregor Strasser, o homem mais perigoso e determinado da esquerda nazista.

Os liquidados durante a "noite dos longos punhais" oscilam entre 400 e 1.000, alguns dos quais trucidados em circunstâncias particularmente angustiantes. Por exemplo, Ernst, o comandante das tropas de choque de Berlim, famoso por ter queimado o Reichstag dois anos antes, atribuindo a culpa aos comunistas, é surpreendido por seus assassinos em viagem de lua de mel para Bremen. Deixando a mulher em um lago de sangue, é levado de Bonn para Berlim, e ali posto diante do pelotão de execução, para que morra "de pé" — o que ele faz como bom nazista, com o grito de "Heil, Hitler!".

"Naturalmente", admitirá Goering, "na excitação geral foram cometidos alguns erros." De fato, na noite de 30 de junho, Willi Schmid, crítico musical de um grande jornal de Mônaco, está tocando violino pacificamente em sua casa enquanto a mulher prepara o jantar para seus três filhos quando chegam os SS e o arrastam. Dois dias depois, o cadáver é devolvido por aqueles bons rapazes à viúva em lágrimas, a quem explicam ter confundido o músico com um quase homônimo oficial das SA, um tal de Willi Schmidt: um t de diferença foi fatal para o inocente marido da senhora, a quem os SS educadamente pedem desculpas. Afinal, só quem não age, não erra.

A "noite dos longos punhais" obtém calorosa aprovação por parte do Presidente Hindenburg, dos chefes da Reichswehr e dos grandes empresários: quando o Führer oferece uma rica recepção nos jardins da Chancelaria para encerrar a operação, toda a alta sociedade berlinense participa da grande soirée.

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O apocalipse

 

Pouco mais de um mês se passara quando a morte do velho marechal permite que Hitler assuma também o cargo de Presidente da República, além de comandante supremo das Forças Armadas — este último, um hobby, à semelhança de Mussolini. A 4 de setembro, acolhido em Nurembergue com desenfreado entusiasmo por parte dos militantes, pôde inaugurar o congresso do partido com sua coreografia típica, proclamando que "a forma de vida alemã" está já fixada "para os próximos mil anos". Em suma, que ele já cumprira todas as premissas necessárias para dedicar-se à histórica façanha projetada no livro de sua luta: a reconstrução do Reich Imperial por meio da irrefreável expansão para o espaço vital que o espera no Leste. E o primeiro passo nesta direção não pode ser senão a anexação da Áustria, o marco oriental.

Porém não se trata de uma empresa fácil, pelo menos de imediato. No início de 1934, a Áustria está sendo governada por um regime conservador muito próximo do fascismo italiano, sobretudo por sua inspiração antissocialista, mas igualmente desconfiado em relação a Berlim. O Chanceler Engelbert Dollfuss, um católico de pequena estatura e caráter tenaz, é amigo pessoal de Mussolini, que na região danubiana precisa de sua simpatia, e da simpatia dos húngaros, para equilibrar a influência da França, ancorada à Iugoslávia na Pequena Aliança. Em suma, o Duce tem sérias razões de sentir escasso entusiasmo em relação ao chanceler alemão, ainda mais porque está trabalhando na conclusão de um pacto a quatro, com o qual italianos e alemães, franceses e ingleses deverão constituir uma espécie de diretório europeu para garantir a paz no Velho Continente e permitir-lhe conquistar a Etiópia para ressuscitar o Império "sobre as colinas predestinadas de Roma".

Neste momento as relações entre os dois ditadores são paradoxais. O italiano não tem muita estima por Hitler, subestimando-o como político porque lhe faltariam (a seu ver, entenda-se) finura e flexibilidade, e julgando-o, além disto, uma figura "um tanto ridícula e meio exaltada", autor de um livro ilegível como o Mein Kampf e rodado de homens "em sua maioria fanáticos, e não raro imorais". O Führer, ao contrário, sente por ele enorme admiração, considera-o seu mestre, e no que se refere aos destinos imperiais do Littorio5 nutre uma única dúvida, sugerida pelas modestas virtudes guerreiras do povo italiano.

*Fascio Littorio — O emblema fascista. Ver o Capítulo VIL (N. T.)

 

Seja como for, a 17 de fevereiro de 1934, a Agência Stefani divulga uma declaração, acordada entre os governos de Roma, Paris e Londres, de proteção à independência da Áustria: um raio em um céu sereno, que certamente não alegra a Hitler, mas o leva a acelerar o encontro com Mussolini, pedido inutilmente há meses. Conseguindo finalmente marcá-lo para meados de junho, e não em Roma, onde esperava ser recebido com grande pompa, mas em Stra, sobre o Brenta. É na tarde do dia 14 que os dois homens do destino se encontram: faz muito calor, ainda não existem condicionadores de ar e o mormaço pesa sobre o lago. Os membros da hierarquia fascista esperam que do avião que está chegando a San Nicolò dei Lido desça um poderoso guerreiro ariano, agaloado como o Duce, que espera o Junker de transporte em uniforme de cabo de honra da Milizia, o quepe negro com a águia imperial, botinas altas, à frente de uma fila de excelências, cônsules, generais e centuriões de uniforme, com cinturões e punhais, menos agressivos na variante estivai dos uniformes de linho branco. Mas, ao contrário, sobre a escada do avião perfila-se a figura de um quarentão, com a aparência de um funcionário público, com um impermeável claro ajustado na cintura e um chapéu mole na mão. Os presentes ficam igualmente chocados com o topete que o hóspede leva caído na fronte e com o estranho bigode apenas desenhado sob o nariz. Há uma troca de saudações romanas entre os dois ditadores extremamente constrangidos, depois Hitler é apresentado a toda a hierarquia do partido, à qual estende a mão fazendo a devida reverência.

Concluída esta cerimônia preliminar, com que Charlie Chaplin certamente ter-se-ia mais tarde divertido na versão do Cinejornal LUCE, ele e seu interlocutor chegam por lancha à Villa Pisani, de Stra, para transferir-se no dia seguinte, depois de uma noite insone por culpa dos mosquitos, ao Palácio dos Alberoni, em Veneza.

Os colóquios não se encaminham bem. Hitler se entrega a sua aluvial eloquência com um tom monótono que dá sono, mas fica extremamente evasivo no que diz respeito ao tema que mais interessa a Mussolini: suas intenções quanto ao futuro da Áustria. Mussolini, por sua vez, obstina-se em falar alemão, língua que conhece mal e na qual se expressa com lentidão, como o faz aquele que tem de buscar as palavras. À mesa as coisas se tornam ainda piores, porque Mussolini, suando e bufando, se preocupa em manter uma dieta severa por causa de uma hipotética úlcera e o austríaco engole sua sopinha tecendo elogios "ao maior estadista do mundo". Na verdade, o Duce está preocupado com o desfile militar organizado para o hóspede, que mais tarde alguém descreverá de fato como "um desordenado desfile de soldados malvestidos, uma espécie de caminhada de carteiros passeando livremente".

A visita à Bienal de Arte e o concerto à noite no Palácio Ducal, no segundo dia do encontro, aprofundam o tédio e o mau humor de Mussolini, que no discurso oficial declara: "Hitler e eu nos encontramos aqui não para refazer ou modificar o mapa político da Europa e do mundo, nem para acrescentar outros motivos de inquietação aos que já perturbam todos os países do Extremo Oriente e do Extremo Ocidente." Depois, quando a sós, repete por duas vezes ao Führer: "Nós queremos que a Áustria continue sendo a Áustria", mas Hitler provavelmente não dá muita importância a esta peremptória afirmação, até porque já recebeu mensagens de Goering que lhe anunciam como iminente a tentativa de golpe das SA — que ao voltar à Alemanha usará como pretexto para desencadear sua Noite de São Bartolomeu. Quando volta para Roma, o Duce confidencia a Dona Rachel que o austríaco lhe pareceu "um homem violento, incapaz de se controlar e, sobretudo, mais teimoso que inteligente". E quando alguns dias depois vem a saber da matança organizada pelo Führer, comenta estarrecido com Edvige, sua irmã: "Mas de que ferocidade é capaz esse Átila redivivo? Os que ele matou eram os seus mais corajosos colaboradores! É como se eu chegasse a matar com minhas próprias mãos a Balbo, Grandi e Bottai."

O Átila, no entanto, prepara surpresas cada vez menos agradáveis. A 25 de julho, três semanas depois da "noite dos longos punhais", chega a notícia de que os nacional-socialistas austríacos, obviamente não sem o conhecimento do Führer, orquestraram uma tentativa deputsch, que seria frustrada pelo Exército, mas que deixaria uma vítima ilustre, o próprio Dollfuss, abatido a tiros de revólver nas salas da Chancelaria, exatamente quando sua mulher e filhos eram hóspedes da família Mussolini em Riccione. Preocupado com a brusca reação de Mussolini, que se diz "chocado com a brutalidade de acontecimentos que superam qualquer previsão" e envia para a fronteira do Brennero duas divisões, Hitler declara-se alheio ao complô, embora intimamente continue convencido da necessidade de realizar o Anschluss, porque considera sua antiga pátria parte integrante do mundo germânico, cuja unidade quer reconstruir.

Uma semana depois, a 2 de agosto, morre o velho Presidente Hindenburg. Submetida a um referendo eleitoral, a proposta de unificar os dois cargos máximos do Terceiro Reich em uma única pessoa é aprovada por 89% dos eleitores. Deste modo, embora seus colaboradores, já dominados pelo delírio do poder, se declarem em conversas privadas insatisfeitos com um resultado tão esmagador, ele permite ao Führer tornar-se também, e legalmente, o senhor absoluto do país, e ainda por cima com base em amplo consenso popular, no qual são exceções os intelectuais, os artistas, os cientistas, em particular os de origem judaica, alarmados com a intolerância que o regime nascente demonstra, inclusive no caso de um bárbaro ritual imposto por Goebbels: uma queima de livros proibidos no centro da Universidade de Berlim.

De qualquer modo, é a partir desse momento que se põe em movimento uma espécie de rolo compressor que, por mais de uma década, estará em condições de esmagar poderosos inimigos e devastar vastíssimos territórios, semeando morte e terror por toda a Europa. Albert Speer, o único ministro nazista que em Nurembergue condenará sem hesitações os crimes do Führer e a própria e imperdoável fraqueza em apoiá-lo, deixou uma definição bastante arguta do caráter daquele regime: "É a primeira ditadura de um Estado industrializado na moderna cera da técnica', uma ditadura que para dominar seu povo fez uso máximo e adequado dos meios técnicos. Com ajuda de meios técnicos, como o rádio e o alto-falante, a vontade de um único homem pôde impor-se a 80 milhões de homens. O telefone, o telégrafo, o rádio permitiram que as ordens da autoridade suprema chegassem diretamente até mesmo nas mais longínquas ramificações do poder, ordens que, devido a sua elevada origem, eram executadas sem a menor objeção. Foi assim que os dirigentes civis e os comandos militares receberam diretamente suas sinistras ordens. Os meios técnicos possibilitaram o controle capilar dos cidadãos e, ao mesmo tempo, permitiram que fatos delituosos fossem realizados no maior segredo."

O avanço do Átila teve início em 14 de outubro de 1933, quando fez sair a delegação alemã da Sociedade das Nações, acusando-a de ser uma organização a serviço dos vencedores de 1918. Há uma pausa para refletir sobre o fracasso do p utsch tentado pelos nazistas austríacos, e a seguir, em janeiro de 1935, dá-se a anexação da Saar (uma região que faz fronteira com a França, rica em fábricas e em minas) graças a um vitorioso plebiscito. Em abril do mesmo ano denunciam-se as cláusulas militares do Tratado de Versalhes e se reinicia, em consequência, a convocação obrigatória: reunidos em Stresa, italianos e ocidentais renovam sem maior alarde as garantias à Áustria, sem se se deixarem impressionar muito com a falta de comedimento do Führer, tanto que, pouco depois, a Grã-Bretanha chega a firmar com ele um pacto naval, visando à divisão mundial dos mares entre as duas frotas. Os conservadores ingleses estavam, portanto, concedendo ao chanceler uma espécie de licença para matar da qual ele se aproveitaria de imediato, primeiro promulgando solenes leis antissemitas "em defesa do sangue e da honra alemães", depois realizando, em março de 1936, uma decisiva prova de força cora a ocupação da parte de Renânia que acabara de ser evacuada pelos franceses e que deveria ficar desmilitarizada. Agora o vento sopra impetuosamente nas insígnias de Átila. Poucas semanas antes ele recebera do embaixador em Roma, Von Hassel, a notícia que há muito esperava: Mussolini gostara da posição tomada pela Alemanha durante a Guerra da Etiópia, de sua recusa em juntar-se aos protestos e às sanções dos países ocidentais e, por isso, não tem mais objeções políticas ou militares a opor ao Anschluss. A solidariedade de ambos ao alzamiento7 reacionário do General Franco na Espanha reforça ainda mais o entendimento entre os dois países.

As últimas dúvidas do Duce caem por terra no outono seguinte, quando é solenemente convidado a ir à Alemanha, onde "tudo está preparado para dar-lhe o golpe de misericórdia e cativá-lo". Silvio Bertoldi contou as cenas da sedução orquestrada por Hitler, que, "como refinado psicólogo, percebeu os pontos fracos do Duce". Assim que ele desce do trem na estação de Mônaco, fá-lo passar entre duas filas de estátuas imperiais romanas, a última das quais é sua própria efígie. Em sua honra tinha sido ensaiada uma coreografia imponente: "Os SS de uniforme negro formam uma parede de aço, milhares de bandeiras tremulam em altíssimas hastes, as bandas militares tocam e inclinam-se diante do Duce os gloriosos estandartes de Frederico, o Grande." ɨuma burlesca punição do contrapasso: o grande histrião da Romagna vê-se enredado em uma armadilha com os ouropéis de suas próprias fantasias neoclássicas. Há um momento ainda mais grosseiro de convencê-lo, que é quando o levam a assistir às alarmantes manobras do novo Exército alemão recomposto das cinzas de Versalhes e o acompanham em visita às Siderúrgicas Krupp: disciplina, caras fechadas e as armas com que estão sonhando.

"A fantástica noite de Berlim" prossegue, levando ao auge a magistral encenação. "Milhões de pessoas se aglomeram no Campo de Marte, ao lado do estádio olímpico, para ouvir a palavra do Duce, apresentado à multidão por Goebbels. O espetáculo é de tirar o fôlego. Mas eis que, de repente, cai uma chuva violenta, com raios e trovões no céu, uma verdadeira tempestade. Que importa? Mussolini continua, imperturbável, seu discurso em alemão, mesmo com as gotas molhando as folhas e apagando as palavras. Continua improvisando e a multidão resiste debaixo do aguaceiro. É o triunfo pretendido por Hitler e gozado quase sensualmente pelo Duce. No hotel encontra suas frutas preferidas, um calor reconfortante, e até flores. Chama Claretta por telefone e lhe conta tudo, em êxtase: 'Queria que você estivesse aqui comigo' para gozarmos juntos este sucesso...' Os alemães interceptam o telefonema e dão gargalhadas."

Depois de uma noite tão inebriante, o Duce caminha a passos largos para a conclusão da aliança que passará à história com o Eixo Roma-Berlim: será um lastimável precipício que, do "passo romano" às leis raciais, o levará à catástrofe. Seu cinismo é meramente de superfície, o de Hitler se enraíza em uma terrível concretude, como o demonstrará a intervenção militar na guerra civil espanhola, na qual ele se fará recompensar com uma nada desprezível penetração na indústria e no sistema bancário, ao passo que o Duce se contentará com a glória de uma empresa que, tal como a campanha na Etiópia, só terá algum retorno em termos de propaganda.

Contudo, o tratado ítalo-alemão firmado em 1937 encorajou, sem dúvida, o Führer em seus projetos expansionistas, embora no ano anterior, com a magistral edição dos Jogos Olímpicos em Berlim, tenha buscado apresentar ao mundo uma imagem pacífica de seu regime. O único entrave que encontra nos anos de preparação à guerra está representado pela hostilidade do Vaticano, expressa em março por uma encíclica de Pio XI (Mit Brennender Sorge)* condenando expressamente o racismo — o que leva a Gestapo a sequestrar todas as tipografias de propriedade eclesiástica e a prender os sacerdotes católicos suspeitos de dissenso —, até porque o chefe do nazismo sempre se mostrou hostil ao cristianismo, cuja "moral compassiva" e rejeição obscurantista do racionalismo despreza. Em um primeiro momento ele se propõe inclusive a explorar os processos em curso, de sacerdotes acusados de atos contra a natureza, para desfechar uma ofensiva de propaganda contra a Igreja, mas a iminência da guerra o leva a deixar isto de lado, embora seja bastante rígido em termos de moral sexual.

*Com ardorosa ansiedade, em alemão no original. (N. T.)

Existe a este respeito uma ampla documentação. A um colaborador que ouviu suas confidências no dia seguinte à "noite dos longos punhais" ele diria: "Veja só, estávamos desarmados e não sabíamos se aqueles porcos fariam com que seus guardas armados os defendessem." Encontrara ali um ambiente homossexual que lhe dera nojo: "Em um quarto surpreendemos dois rapazes nus." Em janeiro de 1938, destituíra o Ministro da Guerra Von Blomberg e o Chefe do Estado-Maior Von Fritsch por motivos ligados a seu puritanismo.

Recebendo um pedido de Von Bomberg, de autorizá-lo a desposar uma moça do povo mais jovem do que ele, serve-lhe até de padrinho, mas poucos dias depois ele é informado por Himmler de que no passado a atraente moça de povo posara para uma série de fotografias pornográficas e que chegara a ter problemas com a Delegacia de Bons Costumes: convencido de que o general sabia dos antecedentes da esposa e os tinha deliberadamente escondido dele, arruína sua carreira. Quanto ao Coronel-General Von Fritsch, por uma infeliz homonímia é considerado homossexual e também ele é destituído. E não se trata de pretextos, Goebbels conta em seu diário que de fato naqueles dias "o Führer parecia acabado; estava apagado, sem vida, com lágrimas nos olhos".

Aliás, ainda em 1938, o próprio ministro da Propaganda terá de renunciar a uma relação com a promissora atriz cinematográfica Lida Baarova, devido à intervenção da autoridade do chanceler, que o intima a deixá-la para não causar escândalo. Estará decididamente muito menos exigente por ocasião de sua união de fato com Eva Braun, com quem só se casará in extremis, no bunker de Berlim, em 1945.

Naturalmente, estes episódios fazem parte da crônica ordinária e servem principalmente para ilustrar alguns dos aspectos de uma psicologia complexa a tortuosa como a do ditador austríaco. Nele convivem preconceitos pequeno-burgueses com a mais completa falta de escrúpulos morais, uma racionalidade intransigente com uma fé supersticiosa na magia, a máxima seriedade na realização do trabalho político com um febril aventureirismo de fundo. Há um discurso secreto feito por Goebbels em 1940, no dia seguinte à estrepitosa ofensiva para o Leste, que parece um manifesto do aventureirismo hitlerista. "O nacional-socialismo", diz o ministro da Propaganda a um restrito grupo de colaboradores, "jamais teve uma doutrina, no sentido de ver discutidos detalhes ou problemas. Queria apenas o poder. Só depois de tê-lo atingido é que passou a ter um programa a ser realizado ou até a ser inventado... Se alguém nos perguntar hoje como imaginamos a nova Europa, temos de dizer: não sabemos. É claro que nós temos uma ideia, mas, se tentarmos defini-la em palavras, isto vai nos criar de imediato inimigos e multiplicar as oposições."

Realmente, toda a estratégia político-militar do Führer está concebida como uma gigantesca aposta contra o tempo. Não que lhe falte uma inspiração programática — que é a expansão da grande Alemanha fundada em uma premissa ideológica declaradamente racista —, é a sua atuação que se torna até certo ponto aleatória, exatamente no momento em que se contrapõe à desenfreada vontade do Führer, em maio-junho de 1940, a vontade igualmente firme de Churchill e, em seguida, de Roosevelt. A guerra-relâmpago planetária que o chanceler alemão pensava levar vitoriosamente a cabo em aliança com o Japão torna-se uma miragem, e diante da nova situação ele passa a se comportar como um jogador de roleta, no sentido de que, quanto mais joga, mais se aproxima da ruína e mais aumenta as apostas. Sua aventura transforma-se assim em um Apocalipse que, em meados de 1945, vai comemorar sua vitória final sobre uma imensa pilha de mortos: primeiro, os dos países vencidos, depois os judeus e de outras vítimas do Holocausto e, finalmente, os próprios alemães, cujo território ver-se-á violado — o que não acontecera em 1918 — e dividido durante meio século entre os vencedores.

O desenrolar do conflito é já demasiado conhecido para merecer um relato detalhado. Entre 1938 e 1941, a sorte dos exércitos germânicos parece de tal maneira invencível que parece pesar sobre toda a Europa a gélida ameaça do milênio prometido por Hitler; depois a intervenção americana e a resistência soviética invertem progressivamente as relações de forças. E, pouco a pouco, três tempos fatais — a contraofensiva russa depois de Stalingrado, a derrocada da Itália fascista e o sucesso da Operação Overlord na Normandia — marcam as etapas do apocalipse nazista, que em abril de 1945 celebra o último ato do terrível grandguignol cuja direção estava entregue ao filho do guarda aduaneiro austríaco. Entre os escombros do bunker de Berlim para o qual já está se movimentando a vanguarda do Exército Vermelho, Hitler e Goebbels, os dois maiores responsáveis pela mentira, se suicidam juntamente com a amante do chanceler (desposada in extremis), e mais a mulher e os inocentes filhinhos do ministro.

Antes da cena final, Átila faz ainda uma cena com Albert Speer, que tinha ido procurá-lo no abrigo subterrâneo poucos dias antes do acerto de contas: "Ao me receber, Hitler não demonstrou a mesma comoção da última vez, quando, algumas semanas antes, lhe havia solenemente jurado minha fidelidade. Não mostrou, aliás, emoção alguma. Encontrei-o ausente, como se sua vitalidade interior estivesse definitivamente extinta... Depois me perguntou de repente: 'Diga-me uma coisa, devo permanecer aqui ou me refugiar em Berchtesgaden? Jodl me garantiu que eu teria tempo para isso até amanhã.'

Aconselhei-o a ficar em Berlim, porque era o que realmente julgava mais correto. O que mais teria ele a fazer em Obersalzberg? A queda de Berlim era o seu fim, a conclusão definitiva de sua luta. 'O senhor é o Führer', disse, 'e, se tem de morrer, por que irá morrer em sua casa de fins de semana? É melhor que morra aqui, na capital' (...) Ele não disse mais que tudo poderia ainda se inverter, que ainda havia esperanças. Ao contrário, falou-me de sua morte com um tom apático, cansado, como se já fosse uma coisa decidida: 'Eu também decidi que vou ficar aqui, queria apenas ouvir mais uma vez seu parecer.'

Depois continuou, sem raiva: 'Não vou mais lutar. Não quero me arriscar a ser apenas ferido e a cair vivo nas mãos dos russos. Não quero nem que os meus inimigos façam estragos a meu cadáver. Por isso já dei ordem de que meu corpo seja cremado. Vou dar um tiro em Blondie, depois me suicido juntamente com a Senhorita Braun. Creia-me, Speer, não será difícil. É apenas um momento e depois estarei finalmente livre de tudo, desta existência atormentada."

Blondie, naturalmente, é o cão de Hitler, que demonstra a ele e à Senhorita Braun sua amizade, matando-os. À sua maneira, é um sentimental.

A infecção

 

É óbvio que o antissemitismo não nasce com o criador do Holocausto, embora este tenha deixado com ele uma página indelével. No mundo clássico, o fenômeno é absolutamente esporádico e não tem nada em comum com o racismo, nascendo simplesmente do confronto entre a ciumenta reivindicação judaica da religião monoteísta e da relação de preferência ("o Povo Eleito") para com um Deus uno, e a incompreensão, o afastamento cultural dos demais cultos. Nem mesmo no âmbito romano, além da irritação com o fanatismo religioso dos pequenos grupos judaicos, manifestam-se conflitos de monta.

Quando Tito destrói o Templo, em 70 d.C, trata-se simplesmente de um episódio de impiedosa repressão à revolta judaica por parte do exército invasor.

É a afirmação do cristianismo que coincide, porém, com o início de uma discriminação do povo judeu como "deicida", cúmplice ou até mesmo protagonista da crucifixão do Redentor, cavando entre as duas culturas um sulco ainda mais profundo por estar a pregação evangélica ligada à tradição bíblica, ultrapassando-a de certa forma. Depois da dissolução do Império, a discriminação assume nas Monarquias bárbaras um caráter duramente persecutório, a ponto de ser proibido aos judeus se mostrarem em público durante as festividades cristãs, de ser-lhes vetado casar com uma cristã ou ter escravas cristãs, impondo-se muitas vezes a conversão forçada ou tirando os filhos dos pais para educá-los à maneira cristã. É nesta época que a discriminação começa a obrigar os judeus, excluídos dos ofícios públicos, a se dedicarem às profissões liberais, ao comércio ou a atividades financeiras, tanto que Carlos Magno proíbe os monges de comerciarem com os judeus, que se tornaram demasiado hábeis, como acontece frequentemente com quem é obrigado a sobreviver em um ambiente hostil.

Mais alguns decênios e desta mistura de discriminação e "prevenção" em matéria teológica passar-se-á à agressão, ao linchamento, ao massacre de indivíduos isolados, famílias ou comunidades judaicas. Como afirma Arno J.

Mayer, é provavelmente a Primeira Cruzada à Terra Santa que vai representar o protótipo de todas as variantes de guerras religiosas que se seguiriam, com a exaltação e a crueldade que elas implicam. Os papas se abstêm de condenar os excessos dos cruzados na Europa e na Terra Santa, daí surgindo uma preciosa lição para o comportamento a ser seguido posteriormente nos confrontos com as seitas heréticas, tão numerosas e combativas neste período, ou de qualquer outro indivíduo ou grupo que possa ser considerado descrente, até que passem a entregar tal tarefa ao tribunal da Santa Inquisição, que vai ser definitivamente legitimado pelo Papa Gregório IX, em 1234, e que se dedica sobretudo a avaliar os casos dos filhos da "tribo" de Judá que se mostram excessivamente respeitosos para com a fé dos pais.

Pagarão o preço disto principalmente os que habitam na Espanha, os chamados sefarditas, nome hebraico dos habitantes dos países que sofreram uma primeira e terrível perseguição em 1391, para serem a seguir obrigados, pelo menos em parte, no decurso dos dois séculos seguintes, a converter-se, mesmo que os cristãos continuem a não confiar neles e a deles falar depreciativamente como marranos, isto é, porcos. O golpe de misericórdia ocorre em 1492, quando Isabel de Castell e seu marido, Fernando, o Católico, enquanto Colombo descobre com sua ajuda a América, decidem expulsá-los em massa, juntamente com os mouros, obrigando-os a buscar refúgio em Portugal, na Itália e em outras localidades do Mediterrâneo, onde conservarão por séculos a memória da antiga pátria e o uso da língua castelhana em sua versão do século 16.

O advento da Era Moderna torna mais delicados os costumes europeus e atenua assim o caráter cruento da perseguição racial e religiosa, embora seja exatamente nos primeiros decênios do século 17 que explode, na Guerra dos Trinta Anos, o ódio entre católicos e protestantes. Contudo o preconceito antissemita, que aflora também no drama de Shylock e em outras passagens das tragédias shakespearianas, permanece forte. E embora no século seguinte o Iluminismo e a Revolução Francesa venham a favorecer a abolição do gueto e a emancipação social dos judeus, a cultura da rejeição continuará a dominar vastos extratos da comunidade eclesiástica (disto pedirá desculpas, no devido tempo, o Papa João Paulo II), do mundo ocidental e da burguesia bem-pensante, como o demonstra o caso Dreyfus, na França, no final do século 19.

Episódios dramáticos são registrados nos países da Europa oriental, Rússia e Polônia, Hungria e Romênia, onde até os primeiros anos do século 20 irrompem furiosamente os pogroms, sangrentos morticínios coletivos de judeus asquenazi, entre os quais florescerá, e não por acaso, uma esplêndida literatura iídiche, a língua falada por aqueles grupos, uma mistura de alemão, russo e hebraico.

Aliás, pertence aos últimos decênios do século 20 uma elaboração pseudocientífica do antissemitismo, que parte de um texto escrito em 1855 pelo diplomata francês Joseph Arthur de Gobineau, no qual ele pretende demonstrar em termos científicos a "desigualdade das raças humanas" — uma corrente de pensamento que encontrará em Paul de Lagarde, em Adolph Wahmund e principalmente no musicólogo wagneriano Houston Stewart Chamberlain os defensores de uma superioridade da raça ariana, particularmente dos povos germânicos, desmedidamente exaltados em comparação com as populações semitas, a cuja civilização faltariam originalidade e genialidade. Entre parênteses: no decorrrer do século 20 esta "raça inferior", apesar do Holocausto, conseguirá uma espantosa coleção de Prêmios Nobel para a ciência e a literatura.

Entre o final do século 19 e o início do século seguinte, ideias como as de Gobineau e Chamberlain serão difundidas na Europa à medida que aprofundam suas raízes em ambientes conservadores que rejeitam em bloco qualquer interpretação da realidade e têm horror aos princípios democráticos, à concepção laica dos direitos humanos ou ao próprio pensamento científico.

São minorias aristocráticas que sobrevivem em alguns países da Europa não só à Revolução Francesa, como à própria Revolução Industrial, e tendem a viver como um pesadelo a perspectiva de uma afirmação definitiva da modernidade, como uma afronta às nobres tradições de um passado idealizado até o delírio. Desgostosas tanto com o materialismo dos capitalistas quanto com a irreverência de seus operários, essas elites estão predispostas a receber as sugestões do racismo, identificando nos judeus, tão brilhantemente afirmados na sociedade e galvanizados pela emancipação, os subversores mais sistemáticos e perigosos da velha ordem.

A frustração e a sensação de insegurança e de medo estão na base das tendências racistas que se aguçam na Alemanha depois da imprevista derrota na Primeira Guerra Mundial, que, em virtude também das duras condições do tratado de paz, é vista como a derrocada de um mundo, um wagneriano crepúsculo dos deuses. Ainda mais porque, enquanto no Ocidente os financistas e empresários celebram seu triunfo com a marca do new look americano, no Oriente a Revolução de Outubro se apresenta como uma ameaça mortal trazida à civilização europeia pelo movimento comunista, no qual são numerosos e destacados os dirigentes de etnia judaica. É esta a infecção que já contagia Adolf Hitler desde os dezessete anos, quando deixa a casa materna e desembarca em Viena para tornar-se mais aguda em 1918, quando o armistício o surpreende no hospital militar em que se internara para tratar dos olhos queimados por gases asfixiantes. Torna-se endêmica e maníaca a partir do dia em que o soldado Adolf sai do hospital e começa a entrar em contato com outros ex-combatentes frustrados com a derrota e com a miséria em que esta derrota os deixara.

No Mein Kampf, a revelação deste ódio visceral se expressa em uma linguagem inexplicavelmente obscena, quase lúbrica — aliás, em linhas gerais, o estilo da polêmica antijudaica dos ambientes ultranacionalistas após a derrota de 1918 não é menos histérico. Os argumentos teológicos e pseudocientíficos do antissemitismo do século 19 transformam-se em injúrias das mais grosseiras, provavelmente visando a demonizar o suposto inimigo, a quem se acusa não só de ser o artífice de um complô contra a Alemanha do Kaiser, mas de ter igualmente inspirado os inúmeros espartaquistas que no imediato após-guerra e até o assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo puseram seriamente em risco a ordem e a propriedade. Sem falar naquela vanguarda intelectual que, como já se observou, parece zombar do sadio bom-senso com uma vertiginosa girândola de paradoxos, de sarcasmos, de fantasias eróticas, por trás das quais os nazistas adivinham a maléfica influência do espírito judeu, corrosivo e niilista, empenhado em destruir deliberadamente a espiritualidade do Herrenvolk.*

*Herrenvolk (de herr = senhor + volk = povo) — Grupo

nacionalista que se crê racialmente superior e destinado, portanto, a dominar os grupos inferiores. (N. T.)

 

São ideias muito difundidas na direita logo após a derrota, mas que, provavelmente, não seriam suficientes para favorecer a afirmação do nazismo se o país não estivesse vivendo uma tumultuada contradição entre o desenvolvimento impetuoso de suas estruturas básicas — indústria, cultura, administração — e a persistência na cúpula das camadas sociais já decadentes, como a aristocracia latifundiária, a casta militar e os grandes burocratas, que sentem como um perigo a pressão do mundo dos negócios, mas que estão ainda mais preocupados com as reivindicações dos trabalhadores. É esta sensação de insegurança que os induz a superar a irritação com a rudeza e a brutalidade dos nazistas na ilusão de poder usá-los como instrumentos contra os "vermelhos" para atirá-los de novo, uma vez restabelecida a ordem, para junto das ralés da sociedade de onde saíram.

Hitler, quando se apossar do poder, encarregar-se-á de desiludi-los.

Por ora, tal como tantos ex-combatentes, ele está convencido de que os responsáveis pela catástrofe são "agitadores socialistas, judeus e aproveitadores", mas não se contenta com lamentações, sente-se no dever de criar um movimento de revanche, animado por "uma nova força espiritual" e capaz de arrancar as massas da hegemonia dos partidos marxistas "dominados pelos judeus", os "criminosos de novembro" que apunhalaram pelas costas os combatentes para assenhorear-se do poder. As duras cláusulas do tratado de paz que o governo provisório socialdemocrata foi obrigado a subscrever não fazem mais que acentuar a exasperação da extrema-direita, acelerando a "resistível ascensão" do agitador austríaco cuja técnica se torna ano a ano cada vez mais eficaz.

Tendo preferido, desde os primeiros contatos com as multidões, a palavra à escrita — com a única exceção do Mein Kampf, que é uma espécie de Corão e seu pensamento político —, Hitler aprendeu a tocar com fria perícia o coração dos ouvintes, arrastando-os ao entusiasmo pela causa e ao ódio ao inimigo, com uma sábia alternância entre peremptórias afirmações e furiosas invectivas que criam no auditório uma tensão espasmódica, esquentando a atmosfera até provocar uma espécie de imaginário auto de fé de tipo medieval, no qual obviamente o herege a ser queimado é o judeu, ou o sanguinário marxista, ou o feroz capitalista, sempre de feição judaica, ou, em outros termos, a escória da Terra, que deve ser aniquilada sem piedade porque pretende negar aos arianos o direito de dominarem o mundo. Para desencadear a "fúria selvagem" de seus camaradas, sua "ardente paixão", não é indispensável respeitar a verdade. Antes mesmo de encontrar um mestre de enganos, como o que se tornara o seu ministro da propaganda, Goebbels, o futuro chanceler do Terceiro Reich sabe usar a mentira como uma arma que lhe serve não só para cobrir de lama os adversários, mas também para educar os militantes nacional-socialistas no desprezo pela objetividade, esta "atitude débil e incerta", indigna de honestos patriotas alemães. Quanto mais colossal for a mentira, mais crível se torna: e se é "descaradamente grosseira", anota impassível o futuro Führer, "deixa traços atrás de si mesmo, depois de ter sido desmascarada".

Continuar: parte 3 de 3