Tudo Que É Ruim É Bom Pra Você
Notas sobre leituras adicionais
Games
Se não contarmos os guias dos jogos, o volume dos trabalhos que examinam a cultura dos
videogames é surpreendentemente escasso, considerando a imensidade que a indústria dos
games adquiriu. Mas existem alguns textos bem interessantes, a começar pelo pioneiro
Joystick Nation, de J.C. Herz. Trigger Happy, de Steven Poole, e trechos de Playing the
Future, de Douglas Rushkoff, apresentam análises perspicazes sobre a cultura do game. O
acadêmico James Paul Gee realizou um trabalho muito interessante sobre os efeitos cognitivos
de jogar videogames – particularmente em seu livro What Video Games Have to Teach Us
About Learning and Literacy. Muitas experiências fascinantes sobre o uso de games como
ferramentas educacionais foram realizadas pelo consórcio Education Arcade
(educationarcade.org), cujo cofundador Henry Jenkins tem sido um modelo de figura pública
intelectual da cultura pop, fazendo várias defesas cruciais dos games na mídia e nos tribunais.
Algumas das ideias apresentadas aqui sobre a lógica dos jogos são abordadas do ponto de
vista do desenvolvedor de jogos no livro Rules of Play, de Eric Zimmerman e Katie Salen. O
campo teórico dos videogames algumas vezes é chamado de “ludologia”; para mais
informações sobre esse movimento crítico nascente, recomendo os sites ludology.org e
seriousgames.org. Quem estiver interessado na maneira como a cultura dos games está
transformando o mundo empresarial precisa conferir dois livros relativamente novos: Got
Game, de John Beck e Mitchell Wade, e o delicioso manifesto The Play Ethic, de Pat Kane.
Cultura como sistema
Na Introdução, expliquei que minha abordagem neste livro seria mais sistêmica do que
simbólica, analisando as forças que produzem determinada forma cultural, e não
decodificando seu significado. Não quero que me entendam mal aqui: é claro que as obras
culturais têm uma relação simbólica direta com seu contexto sociocultural, e há situações em
que explicar essas relações simbólicas pode ser uma iniciativa produtiva. Uma interpretação
simbólica ou representativa está mais diretamente relacionada com aquilo que costumávamos
chamar, sem ironia, de Grandes Livros, em oposição à cultura pouco sofisticada. Os clássicos
– e os que logo serão clássicos – são eles mesmos descrições e explicações dos sistemas
culturais que os produziram. Middlemarch é uma boa história e uma análise da cultura
britânica de meados do século XIX. É possível escrever um livro – na verdade foram escritos
muitos – sobre como Middlemarch representa os desafios e as complexidades dessa cultura.
Mas isso seria uma obra de apreciação, não de explicação. A pergunta que estaria sendo feita
é: “O que George Eliot está tentando dizer aqui?” Já as perguntas feitas neste livro são
diferentes. Não é: “O que os criadores de Grand Theft Auto estão tentando dizer?” A pergunta
é: “Como foi que Grand Theft Auto surgiu? E que efeitos ele tem sobre as pessoas que o jogam?”
E até mesmo essa formulação é específica demais, porque, em última análise, não estamos
interessados em explicar Grand Theft Auto; o que interessa são as tendências culturais em
geral, das quais Grand Theft Auto é um exemplo representativo. Essa é uma maneira crucial
pela qual a cultura de massa difere da grande arte: na cultura de massa, as obras individuais
são menos interessantes do que as tendências mais amplas, e a questão interessante sobre
essas tendências é saber de onde elas vêm, que tipo de ecossistema cultural estimula seu
desenvolvimento. Essa abordagem sistêmica tem a vantagem de evitar a síndrome do
“academicismo de Madonna”. Os apresentadores de programas de entrevistas e os
comentaristas conservadores adoram debochar dos pesquisadores que estudam cultura pouco
sofisticada, justamente porque acham que esses pesquisadores têm a audácia de estudar “Like
a Virgin” da mesma maneira que dissecariam Em busca do tempo perdido. Mas, se eles estão
examinando a obra como parte de um conjunto maior de tendências culturais e analisando
escalas diferentes de experiência, então a crítica não procede, porque o interesse final reside
na maneira como a cultura afeta a mente humana, e não na santidade da obra individual. E hoje
em dia, queiramos ou não, Madonna ocupa mais espaço na mente das pessoas do que Proust.
(Mesmo que seus álbuns não tenham mais tanto sucesso.)
Essa abordagem sistêmica, embora ainda não esteja exatamente generalizada, vem ficando
cada vez mais comum nos últimos anos, tanto nos comentários acadêmicos quanto nos
populares. O ataque filosófico à crítica simbólica começa, de muitas maneiras, com os
tratados revolucionários de Gilles Deleuze e Felix Guattari, O anti-Édipo: capitalismo e
esquizofrenia e Mil platôs – duas obras quase impossivelmente densas e alusivas que
desmontaram a estrutura então dominante de significante/significado, substituindo-a por um
sistema complexo de fluxos interativos. Em vez de árvores alegóricas, Deleuze e Guattari
propuseram um modelo “rizômico” de redes que derivou extensamente da linguagem da teoria
da complexidade. O modelo deleuziano ficou ainda mais útil nas mãos do brilhante e eclético
Manuel De Landa, cuja obra analisou o desenvolvimento das cidades medievais, os padrões
evolutivos da língua e a história das armas, tudo isso através das lentes da teoria de sistemas
complexos. (Seu livro A Thousand Years of Nonlinear History é uma leitura de fundir a
cabeça.)
A noção popularizada de “memes” – originalmente cunhada por Richard Dawkins quase
como apêndice em seu livro O gene egoísta, de 1976 – também adota uma abordagem
sistêmica da história da cultura: como os próprios genes, as ideias bem-sucedidas (ou memes)
prosperam porque se reproduzem com facilidade na mente de outras pessoas e assim se
espalham pela população. Sua adequação simbólica – a capacidade de representar ou
descrever o mundo – é apenas um valor secundário; o atributo definidor de um meme não é sua
veracidade, mas a capacidade que ele tem de se reproduzir, e se ele pertence a um sistema
mais amplo de memes (algumas vezes chamado de memeplexo) que estimula sua replicação.
Como introdução à ciência emergente da memética, recomendo o eloquente e engenhoso livro
de Susan Blackmore, The Meme Machine. Embora enfatize as conexões interpessoais que
dirigem o fluxo de ideias, O ponto da virada, best-seller de Malcolm Gladwell, desenvolve
uma argumentação semelhante usando a linguagem da epidemiologia. Gladwell afirma que
algumas tendências culturais acontecem por causa de forças retroalimentadoras que pouco têm
a ver com o conteúdo da tendência propriamente dita: uma onda de interesse por calçados Hush Puppies percorre a sociedade não porque a iconografia dos sapatos inspirada nos anos
1950 represente um desejo de retornar aos valores mais simples daquele tempo, mas porque o
sistema complexo da moda tem muitos pontos de fronteira nos quais alguma tendência nova
começa um ciclo autoestimulante que a projeta rumo à popularidade nacional. O sapato, assim
como um surto brutal de gripe, é mera alegoria. Douglas Rushkoff havia usado metáforas
semelhantes de contágio em seu livro de 1993, Media Virus, e, embora seu livro mais recente,
Playing the Future, tenha constituído uma crítica mais simbólica e específica a uma época,
ele provavelmente continua sendo o livro de espírito mais parecido ao da argumentação que
apresentei aqui.
Consiliência
Abordar a cultura popular como um sistema complexo de forças interativas exige que a análise
explore diferentes escalas de experiência. Essa passagem de níveis deve lembrar algo das
páginas anteriores: examinamos a evolução dos dispositivos usados para contar histórias nos
programas dramáticos de TV a partir da narratologia; o debate sobre o crescimento do
metacomentário poderia ter vindo de uma análise mcluhaniana da nova mídia; a exploração da
arquitetura de recompensas do cérebro deve muito às descobertas mais recentes da
neurociência. A movimentação entre disciplinas não pode ser um simples caso de turismo
intelectual; as diferentes escalas devem se conectar, em uma espécie de cadeia consiliente. A
abordagem narratológica explica o que há de novo na estrutura formal de um videogame ou de
uma série de televisão; a análise econômica e tecnológica explica as condições que
possibilitaram essa estrutura; e a neurociência explica por que as pessoas sentem-se atraídas
por essa estrutura. Cada nível produz informação que, por sua vez, é analisada no nível
seguinte.
Um mapa dessa cadeia pareceria algo assim:
Narratologia/Semiótica A Obra
Teoria da Mídia A Plataforma
Economia O Mercado
Sociologia O Público
Neurociência A Mente
Cada nível produz uma série de perguntas que só podem ser respondidas em um nível
posterior da cadeia. Se um desses níveis for deixado de fora, o quadro geral fica prejudicado;
a argumentação ganha pontos cegos. Se a atenção ficar limitada a um nível e todos os outros
forem ignorados, todo o ato interpretativo passa a ser descrição, em vez de explicação. É
preciso subir a escada inteira para entender direito a história.
Um degrau dessa escada se destaca: a neurociência. A crítica cultural tem um costume
antigo de ignorar as ciências (exatas, naturais ou humanas) e o costume recente de apresentar
franca hostilidade a elas, ao tentar várias vezes desconstruir ou relativizar as “alegações de
verdade” da ciência. Acho que as supostas guerras entre ciências são uma oportunidade
tremendamente desperdiçada: colocando os dois lados da disputa um contra o outro, deixam-nos alheios às muitas compatibilidades produtivas que de fato existem. Na verdade,
eliminando-se grande parte dessa presunção, tanto a tradição estruturalista quanto a pós-
estruturalista têm aspectos que combinam com os novos desenvolvimentos das ciências. Só
para citar alguns exemplos: a premissa subjacente à desconstrução – de que nossos sistemas
de pensamento são delineados e limitados de forma fundamental pela estrutura de linguagem –
ecoa em muitos capítulos de um livro como O instinto da linguagem, de Steven Pinker, apesar
do fato de o próprio autor ter feito alguns ataques à teoria cultural recente. A noção pós-
moderna de “realidade construída” vai muito bem com a ideia da consciência como um tipo de
teatro artificial e não uma apreensão direta das coisas em si. Tanto a semiótica quanto o
estruturalismo têm raízes nas pesquisas de Lévi-Strauss sobre a mitologia universal, que,
obviamente, tem uma relação profunda com o projeto da psicologia evolucionista. E De Landa
tem demonstrado amplamente a aliança fundamental entre a filosofia de Deleuze e a teoria da
complexidade, uma aliança que remonta ao interesse de Deleuze pelas obras de Ilya Prigogine,
ganhador do Prêmio Nobel (e pensador fundamental da teoria da complexidade).
Então, subindo a escada da consiliência, não podemos traçar uma linha arbitrária para
dividir as ciências; há muitas relações produtivas. Se McLuhan estiver certo quanto às mídias
serem extensões de nosso sistema nervoso central, então temos tanta necessidade de uma
teoria do sistema nervoso central quanto de uma teoria da mídia; se a tecnologia de redes que
estamos criando tomar a forma de sistemas auto-organizáveis, então precisamos das
ferramentas da teoria da complexidade para compreender essas redes. Mas tampouco
deveríamos dar às ciências uma supremacia de facto sobre os outros níveis do modelo
interpretativo. Na argumentação deste livro, a neurociência é usada em vários pontos-chave
para explicar a interação entre mídia e mente, mas certamente não é correto descrever meus
argumentos como um esforço para reduzir tudo à atividade dos neurônios. Quando se tenta
contar a história de como um furacão provocou um prejuízo de 50 bilhões de dólares, a
história econômica dos empreendimentos imobiliários em ilhas de barreira é tão importante
quanto a história das correntes oceânicas. O mesmo vale para a história de como os
videogames acabaram aguçando nossa mente: precisa-se de testes de inteligência, de teoria
narrativa, de encefalografia e de economia para contar a história corretamente, e nenhum
desses elementos é mais relevante que os outros.
Tenho a impressão de que ao longo da última década o diálogo entre as ciências humanas e
as exatas vem adquirindo um grau cada vez maior de civilidade – e com intercâmbios mais
frutíferos. Para mim, o trabalho mais interessante atualmente é o que tenta fazer uma ponte
entre os dois mundos, que busca ligações, em vez de divisões. É isso, em essência, o que E.O.
Wilson propôs em Consiliência: a unidade do conhecimento: não a anexação das ciências
humanas pelas exatas, mas uma espécie de ponte conceitual. Na verdade, eu diria que o
trabalho mais consiliente – para não dizer mais empolgante – da atualidade foi feito por
pessoas treinadas como críticas culturais; livros como The Botany of Desire, de Michael
Pollan, com sua mistura de Nietzsche e Richard Dawkins; as partes sociopolíticas de Não
zero: a lógica do destino humano, de Robert Wright, e seus escritos posteriores sobre a
guerra ao terrorismo; a obra de Gladwell em O ponto da virada e em Blink: a decisão num
piscar de olhos, que aproveita tanto as teorias do marketing quanto a neuropsicologia.
(Também já vimos a chegada dos best-sellers consilientes, como A tormenta, de Sebastian
Junger, cuja narrativa leva o leitor dos padrões macro dos sistemas de tempestades no Atlântico até as interações moleculares ocorridas nos pulmões quando seres humanos se
afogam.) Meus próprios livros, como seria de se esperar, exploraram essas mesmas conexões
híbridas, entre as ciências da auto-organização e o desenvolvimento da cultura urbana em
Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades, e entre a neurociência da
conexão social e a teoria da comunicação em De cabeça aberta: conhecendo o cérebro para
entender a personalidade humana. Sem dúvida há mais consiliência interdisciplinar a
caminho, e já não é sem tempo. Depois de duas décadas de guerra entre ciências, precisamos
de um armistício.
Você terminou Tudo Que É Ruim É Bom Pra Você
Steven Johnson
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