Tudo Que É Ruim É Bom Pra Você
Televisão
A NATUREZA INTERATIVA dos games implica que eles sempre exigirão mais tomadas de decisão
do que as formas passivas como televisão ou cinema. Mas os programas populares de
televisão – e, em extensão um pouco menor, os filmes populares – também têm cobrado mais
esforço cognitivo dos espectadores, exercitando a mente de maneiras que trinta anos atrás
seriam inéditas. Para alguém que acompanhe, mesmo de longe, o debate sobre o impacto
cultural da mídia, a ideia de que a televisão esteja, na verdade, melhorando nossa mente pode
parecer uma apostasia. É impossível passar alguns minutos navegando na internet ou
folheando revistas em uma banca de jornal sem ver alguém se queixar sobre o surto de sexo e
violência na TV: de Tony Soprano a Janet Jackson. Não há dúvida de que a tendência é bem
real, embora ela seja tão antiga quanto a própria televisão. Em seu famoso discurso em 1961
sobre a “vasta terra de ninguém”, Newton Minow descreveu o conteúdo da programação de
TV daquela época como uma “procissão de … sangue e trovão, caos, violência, sadismo,
assassinato” – isso na era de Andy Griffith, Perry Como e Tio Miltie. Mas não se pode limitar
a avaliação dos méritos sociais de qualquer mídia e de sua programação apenas a sua
temática. Não havia nada de particularmente redentor na temática dos meus jogos de beisebol
com dados, mas, ainda assim, eles me ensinaram a pensar de maneiras novas e poderosas.
Então, se vamos começar a caçar palavrões e problemas de vestuário, deveríamos pelo menos
incluir outra linha no gráfico: uma que ilustre as demandas cognitivas que as narrativas
televisivas apresentam para seus espectadores. Essa linha também está crescendo a uma taxa
impressionante.
A televisão pode ser mais passiva do que os videogames, mas existem graus de
passividade. Algumas narrativas obrigam o espectador a fazer algum esforço para
compreendê-las, enquanto outras simplesmente permitem que ele se acomode na poltrona e se
desligue. Parte desse esforço cognitivo decorre da necessidade de acompanhar diversos fios
narrativos, de distinguir claramente enredos que muitas vezes formam tramas densamente
entrelaçadas. Mas outra parte consiste na atividade do espectador para “preencher as
lacunas”: compreender informações deliberadamente incompletas ou obscuras. Narrativas que
exigem dos espectadores o trabalho de acrescentar elementos cruciais levam a complexidade
a um nível mais desafiador. Para seguir a narrativa, é preciso mais do que lembrar. É preciso
analisar. Essa é a diferença entre programas inteligentes e programas que obrigam o
espectador a ser inteligente. Em muitos programas clássicos da televisão americana que
costumam ser associados a entretenimento de “qualidade” – Mary Tyler Moore Show, Murphy
Brown, Frasier – a inteligência se apresenta completamente formada nas falas e nas ações dos
personagens na tela. Eles dizem coisas sagazes uns para os outros e evitam clichês surrados de
comédias, e sorrimos ao vê-los de nossa sala, desfrutando a companhia dessas pessoas
espertas. Mas, considerando que sejamos perspicazes o bastante para entender as frases ditas
por eles – sendo que poucas delas são muito complexas, ou sequer ligeiramente intricadas –,
não é preciso qualquer trabalho intelectual para aproveitar o programa enquanto espectadores. Não há lacunas a preencher, porque a produção intelectual está somente do outro lado da tela.
Assistir a esses programas inteligentes não exige da mente mais do que a transmissão de uma
partida de futebol exige do corpo. O trabalho intelectual acontece dentro da tela, não do lado
de fora.
Mas outro tipo de inteligência televisiva está em ascensão. Lembremos os benefícios
cognitivos convencionalmente atribuídos à leitura: atenção, paciência, retenção, análise de
linhas narrativas. Ao longo do último meio século de domínio da televisão na cultura de
massa, tem havido, na programação da TV, um aumento constante da demanda precisamente
sobre essas faculdades mentais. Pela própria natureza do meio, a televisão jamais melhorará a
capacidade dos espectadores de dar significado a letras e talvez não ative a imaginação da
mesma maneira que uma forma puramente textual. Mas em todos os outros modos de exercício
mental associados à leitura a televisão está ficando cada vez mais rigorosa. E o ritmo está
acelerando – graças a mudanças na economia do negócio da televisão e na tecnologia da qual
dependemos para assistir a ela.
Provavelmente essa tendência positiva seria suficiente para surpreender uma pessoa que
apenas lê descrições populares sobre TV sem ver nada de sua programação. Mas talvez o
mais surpreendente seja o seguinte: os programas que mais exigiram de seus espectadores
acabaram também sendo alguns dos mais lucrativos na história da televisão.
DEIXEMOS DE LADO por enquanto o porquê de o mercado recompensar a complexidade e nos
concentremos primeiro nos atributos dessa complexidade. Ela envolve três elementos
primários: multiplicidade de linhas, setas chamativas e redes sociais.
Multiplicidade de linhas é a convenção estrutural mais aclamada da programação
televisiva moderna, o que é irônico, porque é também a convenção de pior pedigree. Segundo
a história da televisão, a era da multiplicidade de linhas começou em 1981, com a estreia do
drama policial Chumbo grosso (Hill Street Blues), uma produção de Steven Bochco
invariavelmente elogiada por seu “realismo cru”. Compare um episódio de Chumbo grosso
com qualquer programa famoso de décadas anteriores – Starsky & Hutch, por exemplo, ou
Dragnet – e a transformação estrutural saltará aos olhos. Os programas mais antigos seguem
um ou dois protagonistas, mantêm uma única trama dominante e chegam a uma conclusão
decisiva ao final do episódio. Faça um esquema dos fios narrativos de quase todos os
episódios de Dragnet e o resultado será uma única linha: da cena do crime inicial, passando
pela investigação, chegando por fim à solução do caso. Um episódio típico de Starsky &
Hutch oferece uma variação mínima dessa fórmula linear: a introdução de uma subtrama
cômica que geralmente aparece no começo e no final do episódio, criando uma estrutura que
se assemelha ao gráfico a seguir. O eixo vertical representa o número de temas individuais, e
o eixo horizontal é o tempo.
Starsky & Hutch inclui ainda algumas outras variações: enquanto ambos os programas
centram-se quase que exclusivamente em uma única narrativa, Dragnet conta a história apenas
pela perspectiva dos investigadores. Starsky & Hutch, por outro lado, oscila entre a perspectiva dos policiais e a dos criminosos. E, embora ambos os programas sigam
rigorosamente o princípio da autonomia narrativa – as tramas começam e acabam em um único
episódio –, Dragnet leva esse princípio ao extremo, apresentando em cada episódio a
situação e os personagens principais com a famosa voz em off de Joe Friday.
Um episódio de Chumbo grosso complica o quadro de muitas maneiras profundas. A
narrativa tece um conjunto de fios distintos – chegando algumas vezes a dez, embora pelo
menos metade deles seja apenas algumas cenas rápidas espalhadas ao longo do episódio. A
quantidade de personagens principais – e não apenas os pequenos papéis – varia
dramaticamente. E o episódio tem fronteiras pouco claras: no início toma uma ou duas linhas
de episódios anteriores e ao final deixa uma ou duas em aberto. Em um gráfico, um episódio
típico tem o seguinte aspecto:
Os críticos geralmente citam Chumbo grosso como ponto de origem da “dramaturgia
séria” oriunda da mídia televisiva – diferenciando-o de programas da década de 1950 que
tinham apenas um episódio e eram peças da Broadway encenadas diante da câmera. Mas as
inovações de Chumbo grosso não eram tão originais assim; por muito tempo elas
desempenharam um papel crucial na televisão popular – e não apenas no horário nobre. A
estrutura de um episódio de Chumbo grosso – e, na verdade, de todas as produções
posteriores aclamadas pela crítica, de thirtysomething a A sete palmos (Six Feet Under) – é
igual à de novela televisiva. Chumbo grosso pode ter despertado uma nova era de ouro da
dramaturgia de televisão em seus sete anos de existência, mas fez isso usando alguns truques
cruciais que Guiding Light e General Hospital haviam dominado muito antes.
A genialidade de Bochco em Chumbo grosso foi casar uma estrutura narrativa complexa
com um tema complexo. Dallas já havia mostrado que as linhas extensas e entrelaçadas das
novelas conseguiam sobreviver aos intervalos de uma semana dos programas do horário
nobre, mas o conteúdo propriamente dito de Dallas era rasteiro. (O tema mais profundo
apresentado no programa foi a questão, agora folclórica, de quem atirou em JR.) Tudo em
família e Rhoda mostraram que era possível abordar temas sociais complexos, mas essa
abordagem era feita no conforto da sala de estar de um sitcom. Chumbo grosso fazia
personagens ricamente elaborados enfrentar questões sociais difíceis em uma estrutura
narrativa compatível.
Desde que Chumbo grosso apareceu, os dramas com multiplicidade de linhas tornaram-se
o gênero de ficção mais comum no horário nobre: St. Elsewhere, thirtysomething, L.A. Law,
Twin Peaks, Nova York contra o crime, ER: Plantão médico, The West Wing, Alias, Família
Soprano, Lost, Desperate Housewives. Os únicos casos destacados que persistem nos moldes
antigos são programas como Law & Order, que na prática atualizaram o venerável formato de
Dragnet, mantendo-se orientados por uma única linha narrativa. Desde o início da década de
1980 vem ocorrendo um aumento perceptível na complexidade narrativa desses programas. O
seriado mais ambicioso da TV até hoje – Família Soprano – ao longo de cada episódio segue sempre uma dezena de fios distintos, com mais de vinte personagens recorrentes. Um episódio
do final da primeira temporada tem o seguinte aspecto:
O número total de linhas ativas equivale ao de temas de Chumbo grosso, mas aqui cada
uma delas é mais substancial. O programa não apresenta uma distinção clara entre linhas
dominantes e secundárias; cada argumento dá sua contribuição à mistura. O episódio também
conta a história de uma maneira totalmente distinta de Chumbo grosso: muitas vezes, uma
única cena de Família Soprano relaciona três linhas diferentes ao mesmo tempo, dispondo um
enredo sobre o outro. E cada uma das linhas nesse episódio de Família Soprano baseia-se em
acontecimentos de episódios anteriores e continua pelo resto da temporada, e mesmo além.
Quase todas as cenas do programa ligam-se a informações existentes fora da estrutura do
episódio em que estão contidas. Para um programa que se passa tanto tempo no divã do
analista, Família Soprano não investe muita energia na solução de suas questões.
Juntando esses quatro gráficos, forma-se um retrato da Curva do Dorminhoco ascendendo
ao longo dos últimos trinta anos de televisão popular.
Em certo sentido, isso é tanto um mapa das mudanças cognitivas na mente da população
quanto dos avanços na tela, como se os titãs da mídia tivessem decidido condicionar nosso
cérebro a seguir quantidades cada vez maiores de linhas simultâneas. Antes de Chumbo
grosso, o senso comum entre os executivos da televisão era que o público não gostaria de
acompanhar mais de três linhas em um episódio, e, de fato, a estreia do piloto de Chumbo
grosso, em maio de 1980, foi seguida de queixas dos espectadores quanto ao fato de o
programa ser muito complicado. Avance vinte anos, e programas como Família Soprano
capturam suas audiências com narrativas que fazem Chumbo grosso parecer Three’s
Company. O público recebe de braços abertos essa complexidade porque passou por um
treinamento de duas décadas de dramaturgia com multiplicidade de linhas.
Será possível comparar Família Soprano, um programa refinado da HBO, com Chumbo
grosso, um programa de horário nobre na rede aberta? O aumento de complexidade não seria um mero reflexo da audiência menor e mais sofisticada do programa da HBO? Acho que a
resposta é não, por várias razões. Em primeiro lugar, considerando apenas o tamanho da
audiência, Família Soprano é um genuíno sucesso nacional, superando com regularidade
programas da televisão aberta na mesma faixa. Em segundo, Chumbo grosso também era um
programa refinado – foi o primeiro passo que a NBC deu em seu esforço imensamente bem-
sucedido na década de 1980 de se voltar para um público de classe social mais alta em vez de
tentar atingir o público mais amplo possível. O programa foi um sucesso de crítica e de
público, mas passou a maior parte da vida com fracos trinta e poucos pontos na escala de
audiência – e em sua primeira temporada a série terminou em 38º, de um total de 97
programas. O número total de espectadores de um episódio de Família Soprano não é tão
diferente assim dos de um episódio típico de Chumbo grosso, embora a complexidade
narrativa do primeiro seja pelo menos duas vezes maior que a do segundo. (Família Soprano
é ainda mais complexo em outras questões, e voltaremos a isso em breve.)
Pode-se também medir a disposição do público para tolerar narrativas mais complicadas
considerando o sucesso de programas como ER ou 24 horas. Em termos de multiplicidade de
linhas, os dois programas normalmente seguem cerca de dez diferentes em cada episódio, o
que é mais ou menos comparável a Chumbo grosso. Mas ER e 24 horas são sucessos
legítimos, sempre entre os vinte primeiros na lista de audiência. Em 1981, era possível tecer
três linhas narrativas principais e meia dúzia de tramas secundárias ao longo de um programa
de uma hora no horário nobre e arrebanhar público suficiente para manter a produção no ar.
Hoje pode-se desafiar o público com uma mistura mais complicada, criando um leviatã no
processo.
A multiplicidade de linhas é a característica estrutural mais apreciada da moderna
dramaturgia televisiva, e certamente merece parte da glória que tem recebido. Quando
assistimos TV, identificamos de forma intuitiva, como medida da complexidade de
determinado programa, a quantidade de linhas narrativas por episódio. E todas as evidências
sugerem que esse padrão vem ascendendo continuamente nas duas últimas décadas. Mas a
multiplicidade de linhas é apenas parte da história.
POUCOS ANOS DEPOIS da chegada da primeira geração de filmes sanguinolentos de horror –
Halloween, Sexta-feira 13 –, a Paramount lançou Student Bodies, que parodiava o gênero tal
como a série Pânico faria quinze anos depois. Em uma cena, a clássica babá adolescente e
linda ouve um ruído do lado de fora de uma casa de subúrbio; ela abre a porta para investigar,
não acha nada e volta para dentro. Quando a porta se fecha por trás dela, a câmera fecha o
quadro na maçaneta e nos mostra que a menina deixou a porta destrancada. A câmera recua e
depois avança de novo, para dar ênfase. E então uma seta chamativa aparece na tela, com um
texto prestativo explicando: “Porta destrancada!”
A seta chamativa é uma paródia, claro, mas é simplesmente uma versão exagerada de um
artifício que histórias populares usam o tempo todo. É uma espécie de cartaz narrativo,
disposto convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. Quando o
vilão aparece pela primeira vez em um filme, surgindo das sombras com uma música atonal
sinistra ao fundo – isso é uma seta chamativa que diz: “Bandido.” Quando um roteiro de ficção
científica faz alguém que não é cientista entrar em um laboratório avançado e ficar perguntando aos cientistas o que é que eles estão fazendo com aquele acelerador de partículas
– isso é uma seta chamativa que dá ao público justamente a informação necessária para
entender a sequência do enredo. (“Aconteça o que acontecer, não derrame água nisso, ou você
vai provocar uma explosão imensa!”) As convenções de gênero servem de setas chamativas; a
paródia Student Bodies funciona porque o texto “porta destrancada” é um exagero absurdo –
já internalizamos regras suficientes do gênero de horror sanguinolento para saber que babá-
adolescente-em-casa-de-subúrbio sempre resulta em visitantes indesejados. É uma tradição de
filmes de assalto fazer uma apresentação completa da futura cena do crime, incluindo plantas
da arquitetura, para que se saiba o que está acontecendo quando os criminosos de fato
aparecerem.
Essas dicas servem como uma espécie de guia narrativo. Elas dizem implicitamente aos
espectadores: “Sabemos que você não tem ideia do que é um acelerador de partículas, mas é o
seguinte: tudo o que você precisa saber é que é um negócio grande e complicado que explode
se for molhado.” Elas enfatizam os detalhes relevantes: “Não se preocupe com a possibilidade
de a babá terminar o namoro. Preocupe-se com aquele cara espreitando nos arbustos.” Elas
reduzem o volume de esforço analítico necessário para a compreensão de uma história. Tudo o
que se precisa fazer é seguir as setas.
Segundo esse padrão, a televisão popular nunca foi tão difícil de acompanhar. Se as linhas
narrativas viveram uma explosão populacional ao longo dos últimos vinte anos, as setas
chamativas ficaram cada vez mais escassas. Quando assistimos a Chumbo grosso, pináculo da
dramaturgia na TV do começo dos anos 1980, vemos em cada cena uma inteireza de
informação que difere visivelmente de programas como The West Wing, Família Soprano,
Alias ou ER. Como vimos, Chumbo grosso mostra várias histórias a serem seguidas, mas cada
acontecimento nelas tem uma clareza que muitas vezes falta em programas posteriores.
Essa distinção é sutil, mas importante, uma faceta da arte de narrar que algumas vezes
absorvemos sem perceber. Chumbo grosso tem ambiguidades a respeito de acontecimentos
futuros: o assassino em série condenado à morte vai ser executado? Furillo vai se casar com
Joyce Davenport? Renko vai prender o inspetor sanitário que aceita subornos? Mas o
momento presente de cada cena é oferecido para o espectador com poucas ambiguidades.
Você pode não saber o destino do inspetor sanitário, mas sabe por que Renko está vestido de
lavador de pratos na cena atual ou por que na seguinte ele está escutando às escondidas uma
conversa na cozinha. Há uma pergunta em aberto ou um mistério dando força a cada uma
dessas histórias – como ela vai se desdobrar? –, mas não há mistério acerca da atividade
imediata na tela.
Por outro lado, um programa contemporâneo como The West Wing está sempre encaixando
mistérios nos acontecimentos do presente: personagens realizam ações ou discutem
acontecimentos sobre os quais foram omitidas intencionalmente informações cruciais. De
maneira muito apropriada, a extensa sequência de abertura do piloto de The West Wing girava
em torno precisamente dessa técnica: todos os personagens principais (Toby, Josh, CJ) são
apresentados fora do escritório no momento em que cada um recebe a enigmática mensagem
“POTUS caiu da bicicleta.” Aaron Sorkin, criador do programa – e que por incrível que
pareça conseguiu escrever cada um dos episódios até a quarta temporada –, omite
deliberadamente, até o último segundo antes da apresentação dos créditos de abertura, a
informação de que todas aquelas pessoas trabalham na Casa Branca e que POTUS quer dizer “President of the United States” (Presidente dos Estados Unidos). Certo, quem ligar a TV e vir
um programa chamado The West Wing provavelmente vai suspeitar que haverá alguma relação
com a Casa Branca, e alguns aficionados da política talvez já estivessem familiarizados com o
acrônimo POTUS. Mas aquela sequência de abertura estabeleceu uma estrutura que Sorkin
usou em todos os episódios subsequentes, em geral pontuados de informações
deliberadamente opacas. A pergunta aberta apresentada nessas sequências não é: como isso
vai acabar? A pergunta é: o que está acontecendo agora?
Na prática, na década de 1980 os espectadores de programas como Chumbo grosso
certamente passavam por momentos de confusão quando a quantidade de linhas simultâneas
criava mistérios no tempo presente: eles esqueciam o motivo de Renko usar aquele uniforme
de ajudante de garçom porque haviam esquecido a sequência anterior, que introduzira a trama
do disfarce. Mas nesse caso a informação omitida havia se perdido em algum lugar entre
nossos sistemas perceptivos e nossa memória de curto prazo. O programa fazia um retrospecto
claro dos acontecimentos narrados; se essa imagem ficava embaçada, só podíamos culpar
nossa memória. Os programas de Sorkin, por outro lado, são o equivalente narrativo das
máquinas de nevoeiro. Espera-se que o espectador fique perdido. Qualquer um que tenha
assistido com atenção a uma quantidade razoável de episódios de The West Wing conhece a
sensação: cada uma das cenas faz referência a alguma informação claramente crucial – os
membros do elenco perguntam uns aos outros se assistiram “à entrevista” da noite anterior, ou
fazem alusões enigmáticas ao caso McCarver –, e depois da sexta referência o espectador vai
ter vontade de voltar a fita para descobrir sobre o que eles estão falando, achando que perdeu
alguma coisa. E aí ele percebe que a intenção do programa é deixá-lo confuso.
A clareza de Chumbo grosso decorre da integração sutil de setas chamativas, enquanto a
turvação de The West Wing decorre da inteligente recusa de Sorkin em fornecê-las. A lista de
chamada que abria todos os episódios de Chumbo grosso é famosa pelo bordão “Ei, tomem
cuidado lá fora”. Mas essa fala inicial do sargento Esterhaus (e, em temporadas posteriores,
do sargento Jablonski) desempenhava uma função crucial, apresentando algumas das linhas
principais e dando explicações úteis sobre o contexto delas. Os críticos da época chamaram
atenção para o estilo desorientador na sequência de abertura, gravada como se fosse um
documentário feito com uma câmera na mão, mas essa lista de chamada, em última análise, era
um artifício reconfortante, como rodinhas de bicicleta para crianças, para ajudar o espectador
na nova complexidade da multiplicidade de linhas.
Quem assiste a The West Wing, Lost ou Família Soprano já não precisa das rodinhas,
porque 25 anos de televisão cada vez mais complexa treinaram a capacidade analítica do
público. Como aqueles videogames que forçam o jogador a aprender as regras enquanto joga,
parte do prazer nessas narrativas modernas da televisão decorre do esforço cognitivo ao qual
o espectador é obrigado para preencher as lacunas. Se os roteiristas de repente despejassem
um monte de setas chamativas no cenário, o programa pareceria cansativo e simplista. A
informação extra tiraria a graça.
Essa falta deliberada de ajuda também se estende até o nível do diálogo. Os
entretenimentos populares que tratam de questões técnicas – sejam elas os meandros da
aprovação de leis, a realização de uma ponte de safena ou a operação de um acelerador de
partículas – convencionalmente alternam dois modos de informação em seus diálogos: textura
e substância. Textura é toda aquela verborragia obscura apresentada para convencer o espectador de que ele está vendo Médicos de Verdade em Ação; substância é o material
plantado no pano de fundo da textura e de que o espectador precisa para entender a trama.
Ironicamente, algumas vezes a textura tem a função de ser diretamente irrelevante para os
assuntos da narrativa subjacente, e quanto mais irrelevante melhor. Roland Barthes escreveu
um pequeno ensaio na década de 1960 em que discutia um dispositivo literário que ele
chamava de “efeito de real”, citando a descrição de um barômetro no conto “Um coração
simples”, de Flaubert. Na descrição de Barthes, os efeitos de real têm o propósito de criar
uma aura de vida real mediante sua falta de significância: o barômetro não desempenha
qualquer papel na narrativa e não simboliza nada. Está ali só pela textura do pano de fundo,
para criar a ilusão de um mundo cheio de objetos sem significado narrativo ou simbólico. A
linguagem técnica que prolifera em programas como The West Wing ou ER tem função
comparável; não é preciso entender o que os cirurgiões querem dizer quando falam de pontes
de coronária ou de safena enquanto realizam cirurgias cardíacas em ER; o linguajar obscuro
está ali para criar a ilusão de que aqueles são médicos de verdade. Para que esses programas
sejam agradáveis, os espectadores precisam se sentir à vontade com a consciência de que não
precisam entender esse tipo de informação.
Por convenção, as narrativas demarcam a fronteira entre textura e substância introduzindo
pistas que destacam ou traduzem os dados importantes. Em um momento involuntariamente
cômico de O dia depois de amanhã, filme popular de 2004, o climatologista atormentado
(vivido por Dennis Quaid) anuncia para um grupo de funcionários do governo sua teoria sobre
a iminência de uma nova era glacial. Seu discurso termina com a frase: “Pode ser que
tenhamos chegado a um limiar crítico de dessalinização!” Esse é o tipo de coisa que se
poderia esperar de um climatologista – se ele fosse lançado para um universo alternativo onde
coisas implausíveis como eras glaciais instantâneas de fato acontecessem –, mas, para a maior
parte do público, a frase “limiar crítico de dessalinização” tem mais chances de provocar um
olhar vazio do que um frio na espinha. Então, o diretor-roteirista Roland Emmerich – um
mestre em setas chamativas piscantes – faz com que um funcionário companheiro de Quaid
acrescente uma observação prestativa: “Isso explicaria todo esse clima extremo que estamos
vendo.” Teria sido o mesmo que colocar na tela uma seta chamativa dizendo “Porta
destrancada!”.
O diálogo em programas como The West Wing e ER, por outro lado, não é condescendente
com o público. Ele prossegue apressado, as palavras em acelerada sincronia com os
movimentos rápidos da câmera deslizando pelos corredores ou pelas salas de cirurgia. Nesses
programas, os personagens falam mais depressa, mas o verdadeiramente notável no diálogo
não é apenas uma questão de velocidade; é a disposição de mergulhar o público em
informações que a maioria dos espectadores não vai entender. Eis uma cena típica de ER:
Corte para KERRY trazendo uma jovem, CARTER e LUCY acorrem. Os pais da moça também estão presentes.
KERRY: Dezesseis anos, inconsciente, histórico de distúrbio de Villiari. CARTER: Coma glucínico?
KERRY: É o que parece.
SR. MAKOMI: Ela estava bem até seis meses atrás.
CARTER: Que remédios ela toma?
SRA. MAKOMI: Enfrasilina, tobramicina, vitaminas A, D e K. LUCY: A pele está ictérica.
KERRY: E também a esclera; o hálito está com cheiro doce?
CARTER: Permadicite de Peder?
KERRY: É.
LUCY: O que é isso?
KERRY: O fígado está paralisado, vamos colher urina. (Para CARTER) Está ficando um pouco tumultuado aqui; por favor,
cuide dos pais. Aplicar lactulose, 30cc por mg.
CARTER: Vamos dar a ela um remédio para limpar o sangue; por que vocês não vêm comigo? CARTER leva os MAKOMI para fora da sala de traumatologia, LUCY também o acompanha. KERRY: O sangue parece não estar coagulando.
SRA. MAKOMI: Ela está sangrando por dentro?
CARTER: O problema do fígado está impedindo que o sangue coagule. SRA. MAKOMI: Ai, meu Deus.
CARTER: Ela está na lista de transplantes?
SR. MAKOMI: Ela está na posição 2a há seis meses, mas ainda não conseguiram encontrar um fígado compatível. CARTER: Por que não? Qual é o tipo sanguíneo dela?
SR. MAKOMI: AB.
CARTER e LUCY olham um para o outro, incrédulos.
Corta para MARK atendendo um paciente adormecido. AMANDA entra.
Claro que aqui há setas chamativas – “O problema do fígado está impedindo que o sangue
coagule” –, mas a proporção entre jargão médico e informação traduzida para leigos é bem
alta, e, como é o caso em muitas dessas narrativas, o público não descobre o que de fato está
acontecendo até a segunda metade da cena. Existe uma espécie de confiança implícita entre o
programa e seus espectadores, uma tolerância em relação à ambiguidade planejada. Essa
tolerância dá trabalho: o espectador precisa ser capaz de avaliar imediatamente a função de
cada fala, colocando-a na categoria “substância” ou na “textura”. Ele tem de saber o que é que
não precisa saber. Se os espectadores não fossem capazes de fazer essas avaliações em tempo
real, ER seria uma confusão insuportável; toda semana seria preciso sentar-se no sofá com um
dicionário de medicina nas mãos. (“Permadicite de Peder se escreve com c ou ss?”)
De um ponto de vista puramente narrativo, a fala decisiva nessa cena acontece bem no
final: “AB.” O tipo sanguíneo da adolescente de dezesseis anos liga a cena a uma trama
anterior, envolvendo uma vítima de hemorragia cerebral que – após ser dramaticamente
ressuscitada em uma das cenas iniciais – termina tendo morte cerebral. Quinze minutos antes
da cena do fígado comprometido, Doug e Carter conversam rapidamente sobre coletar os
órgãos da vítima de hemorragia para usar em transplantes e comentam que o tipo sanguíneo da
pessoa é o raro AB. (O que reduzia as chances de que ela pudesse ser doadora.) A virada aqui
é em torno de um evento estatisticamente improvável ocorrido na emergência – um doador
perfeito aparecendo bem a tempo de doar o fígado a alguém com o mesmo tipo sanguíneo raro.
Mas o programa revela essa virada com notável sutileza. Para dar sentido ao “AB” da última
fala – e ao olhar incrédulo de Carter e Lucy –, é preciso lembrar uma observação passageira
feita quinze minutos antes a respeito de um personagem que pertence a uma linha
completamente distinta.
Teria sido bem fácil introduzir uma fala explicativa ao final da cena: “É o mesmo tipo de
sangue da vítima de hemorragia!” E, na verdade, se ER tivesse sido feito vinte ou trinta anos
antes, desconfio que os roteiristas teriam inserido algo exatamente assim. Mas esse tipo de
legenda grosseira iria de encontro ao éthos narrativo de programas como ER. Nessas
narrativas modernas, o público obtém parte do prazer “preenchendo lacunas”. Pode ser que esses programas tenham mais sangue e tripas do que a TV popular da geração anterior, e parte
do conteúdo sexual de hoje seria inadequado em uma sala de cinema daquele tempo – e muito
mais no horário nobre da TV. Mas, no que se refere à arte de contar histórias, esses programas
possuem uma qualidade que só pode ser descrita como sutileza e discrição.
Isso não é uma manchete muito comum – “TV pop mais sutil e mais discreta do que
nunca!” –, mas ignorar essas características significa deixar passar um dos desenvolvimentos
mais vitais da narrativa popular moderna. Algumas vezes ouvem-se pessoas se referirem
afetuosamente à era “mais simples” do suposto auge da televisão, na época de Dragnet e de I
Love Lucy. Elas querem dizer “mais simples” em um sentido ético: não havia identificação do
público com chefões da máfia em Dragnet nem disputa litigiosa de custódia em I Love Lucy.
Mas, quando comparados à televisão atual, o outro sentido de “mais simples” também se
aplica a esses programas: a compreensão do que está acontecendo neles exige menos esforço
mental. Se você assistir a Starsky & Hutch ou Dragnet depois de ver Família Soprano, vai
ter a sensação de que está sendo tratado com condescendência – porque os criadores daqueles
programas estavam pensando em um “espectador ideal” que não teve o benefício de décadas
de ação da Curva do Dorminhoco. Os programas eram simples porque achava-se que o
público da época não estava preparado para algo mais complicado.
E provavelmente não estava mesmo.
OS DRAMAS TELEVISIVOS são a instância mais visível da Curva do Dorminhoco, mas percebe-
se um aumento comparável de complexidade na maioria das sitcoms da última década.
Compare a maneira com que a comédia é apresentada em clássicos recentes como Seinfeld ou
Os Simpsons – e também em favoritos da crítica como Scrubs e Caindo na real (Arrested
Development) – a programas mais antigos como Tudo em família ou Mary Tyler Moore Show.
A melhor maneira de medir a complexidade desses programas é considerar quantas
informações externas o espectador precisa possuir para “entender” as piadas perfeitamente.
Qualquer um pode se sentar diante das comédias mais triviais – Home Improvement, digamos,
ou Three’s Company – e compreender imediatamente o humor, que consiste sobretudo em
personagens sendo sarcásticos uns com os outros. As piadas em si não fazem referência a nada
externo à estrutura da conversa que as contém – além da “situação” que serve de esqueleto
para o programa propriamente dito. (Um sujeito finge que é gay para poder dividir um
apartamento com duas mulheres.) Para destrinçar o humor de programas com mais nuances –
Cheers e Friends, por exemplo –, os roteiros algumas vezes exigem que você conheça certas
informações biográficas básicas dos personagens. (Carla fará uma referência impertinente à
sobriedade de Sam Malone sem se dar o trabalho de explicar ao público que ele já teve
problema de alcoolismo; ou Rachel comentará a respeito da obesidade de Monica durante a
infância.) Quase todas as sequências mais longas de Seinfeld ou de Os Simpsons, no entanto,
contêm uma piada que só faz sentido se o espectador acrescentar a informação suplementar
adequada – informação que foi deliberadamente omitida. Se ele não assistiu ao episódio
“Mulva”, ou se o nome “Art Vandelay” não lhe traz lembrança alguma, então as referências
subsequentes – muitas delas feitas anos depois da ocorrência em questão – vão passar
despercebidas.
À primeira vista, isso se parece com a tradição das telenovelas de usar enredos que se estendem para além da estrutura de episódios individuais, mas na prática o artifício tem um
efeito diferente. Saber que George usa o codinome Art Vandelay em situações sociais
constrangedoras não ajuda a entender a trama do episódio que está passando; o espectador não
usa informações de narrativas prévias para entender os acontecimentos da atual. Dos 180
episódios de Seinfeld que foram ao ar, sete contêm referências a Art Vandelay: ou George
refere-se a si mesmo com o codinome ou o invoca em alguma mentira elaborada. Ele diz a um
possível empregador em uma editora que gosta de ler os livros de ficção de Art Vandelay,
autor de Venezianas; em outra ocasião, ele diz a uma assistente social do serviço de seguro-
desemprego que se candidatou a um emprego como vendedor de látex nas Indústrias Vandelay.
A fim de entender a história, a única coisa que se precisa saber aqui é que George está
mentindo em uma entrevista formal; ele poderia ter inventado qualquer escritor ou fabricante
de látex. Mas a piada está no fato de ser um eco de todas as referências anteriores a Vandelay;
é engraçado porque acena sutilmente a acontecimentos anteriores preservados fora da tela. É o
que chamaríamos no mundo real de “piada interna” – uma piada que só é engraçada para as
pessoas que conhecem a referência. E, nesse caso, a referência consiste em um punhado de
falas breves em alguns episódios – muitos dos quais foram exibidos anos antes. Houve um
tempo em que a comédia televisiva funcionava em uma escala de trinta segundos: havia uma
fala de preparação e depois a frase de efeito da piada, e então se começava tudo de novo.
Com Seinfeld, a distância entre a preparação e a frase de efeito da piada podia ser de anos.
Essas piadas em camadas muitas vezes vão além dos limites da própria série. Segundo um
site que tem registrado exaustivamente esses assuntos, em média cada episódio de Os
Simpsons inclui cerca de oito piadas que se referem explicitamente a filmes: uma linha
narrativa, um trecho de diálogo, um trocadilho visual com uma sequência cinematográfica
famosa (Seinfeld apresentou vários episódios que imitavam tramas de filmes, incluindo
Perdidos na noite e JFK). Os episódios especiais de Halloween mostraram-se os mais
barrocos nas alusões cinematográficas, e o mais memorável foi um episódio na temporada de
1995 que lançou mão de material de A mulher de quinze metros de altura, Godzilla, Os
Caça-fantasmas, A hora do pesadelo, Pagemaster: o mestre da fantasia, Comboio do terror,
O exterminador do futuro e O exterminador do futuro II, Alien III, Tron: uma odisseia
eletrônica, Beyond the Mind’s Eye, O buraco negro, Poltergeist: o fenômeno, Howard, o
super-herói e O iluminado.
As paródias de filmes e as referências culturais de Os Simpsons normalmente são tratadas
como exemplos básicos de pós-modernismo: uma mídia trabalhando em cima de outra mídia.
Mas as piadas com Art Vandelay em Seinfeld não se encaixam muito bem nesse molde pós-
moderno: elas não são referências que passam de um mundo ficcional para outro; elas
remetem ao passado de um único mundo ficcional. Acho mais instrutivo considerar que ambos
os artifícios têm o mesmo atributo-chave: são artifícios cômicos que recompensam um
escrutínio mais aprofundado. Quanto mais você estuda o programa, mais ele fica engraçado –
precisamente porque as piadas apontam para fora do contexto imediato do episódio e porque
os criadores recusam-se a fornecer setas chamativas que traduzam as piadas para os não
iniciados. As sitcoms mais antigas simplesmente exigiam que o espectador conhecesse os
termos básicos da situação; tirando isso, ele podia sofrer de amnésia que não iria perder nada.
Programas como Seinfeld e Os Simpsons apresentam uma premissa mais desafiadora para o
público: você vai gostar mais se for capaz de se lembrar de um trecho de diálogo em um episódio exibido três anos atrás ou se notar que fizemos esta cena de modo a evocar o final de
Pacto de sangue. As piadas vêm em camadas: é possível assistir ao episódio do Halloween
de 1995 e perder todas as alusões a filmes e mesmo assim gostar do programa, mas a
experiência é mais rica e gratificante quando elas são identificadas.
Essa disposição em camadas permitiu que Seinfeld e Os Simpsons apresentassem tanto um
apelo amplo quanto o mordaz atrativo dos clássicos cult. O público geral ri daquele maluco
do Kramer, enquanto os fãs de carteirinha piscam o olho e sorriem diante das referências ao
Super-Homem. Mas essa complexidade tem outro efeito colateral igualmente importante:
muitas vezes os episódios ficam mais divertidos na segunda ou terceira vez que são vistos, e
ainda podem revelar novas sutilezas na quinta ou na sexta. Os entrelaçamentos sutis das tramas
parecem mais sagazes se o espectador sabe com antecedência qual é a intenção deles, e quanto
mais experiência ele tiver com a série como um todo, mais chance terá de perceber todas as
referências internas.
Em novembro de 1997 a NBC exibiu um episódio de Seinfeld chamado “The Betrayal” (A
traição), em que as cenas eram apresentadas em ordem cronológica inversa. Se a fórmula de
Seinfeld costumava envolver preparações para frases de efeito que só apareciam anos depois,
esse episódio assumia uma abordagem mais radical: as frases de efeito aconteciam antes das
preparações. Via-se Kramer implorando para que Newman o protegesse de um personagem
chamado “FDR”, e só dez minutos depois se descobria o motivo, quando aparecia uma cena
“anterior” em que FDR olhava feio para Kramer em uma festa de aniversário. O título do
episódio (e o nome de um dos personagens) era uma referência nada sutil à peça Traição, de
Harold Pinter, que conta a história de um triângulo amoroso em cronologia invertida. Mas as
comédias são diferentes dos dramas em sua relação com o tempo: um acontecimento
dramático fora de contexto é um mistério – a informação omitida pode intensificar a
dramaticidade. Mas uma frase de efeito sem contexto não é uma piada. Praticamente
impossível de ver da primeira vez, “The Betrayal” só fica coerente depois de visto pela
segunda vez – e são necessários três ciclos concretos antes de as piadas começarem a
funcionar. A frase de efeito é apresentada na tela, e o espectador preenche as lacunas da
preparação por conta própria.
“The Betrayal” foi um divisor de águas na programação de TV, reunindo todos os
elementos da complexidade televisiva moderna em uma sitcom de trinta minutos. A narrativa
tecia sete linhas distintas, omitia informações cruciais em quase todas as sequências e
plantava piadas que tinham diversas camadas de significados. Como o título sugeria, esses
eram artifícios que só se encontravam nas narrativas de vanguarda de trinta ou quarenta anos
antes: em Pinter, Alain Robbe-Grillet ou Godard. Em 1960, talvez fosse possível encher um
pequeno teatro de Greenwich Village com um público disposto a decompor toda aquela
complexidade, mas apenas se naquela semana o Times tivesse publicado uma boa crítica da
peça. Quarenta anos depois, a NBC colocou a mesma estrutura narrativa tortuosa no horário
nobre, e 15 milhões de pessoas adoraram.
Algumas sitcoms populares se deram bem com os diálogos debochados tradicionais de
antigamente: Raymond e companhia (Everybody Loves Raymond) é um exemplo. Mas a
maioria das comédias que alcançaram sucesso de público e de crítica – Scrubs, The Office,
Shouth Park, Will & Grace, Segura a onda (Curb Your Enthusiasm) –, quase sem exceção,
tirou sua inspiração estrutural de Os Simpsons, e não de Three’s Company: criando humor com uma meia-vida de mais de quinze segundos, usando enredos intricados e referências
obscuras. Mas o gênero sitcom como um todo retraiu-se nos últimos anos, e os executivos da
televisão dirigiram o foco para os novos – e muitas vezes usados excessivamente – campeões
de audiência: reality shows.
OS CÉTICOS TALVEZ ARGUMENTEM que eu estou forçando a barra ao me concentrar em títulos
relativamente sofisticados como Os Simpsons e The West Wing, quando, na verdade, a
mudança mais significativa dos últimos cinco anos antes da publicação deste livro na
narrativa de entretenimento não tem nada a ver com séries complexas de drama ou comédias
autorreferentes. Será que o panorama cultural pop contemporâneo parecerá tão promissor se o
programa representativo da TV for Joe Millionaire em vez de The West Wing?
Acho que sim, mas para responder adequadamente a essa pergunta é preciso evitar a
tendência de sentimentalizar o passado. Quando as pessoas falam da era de ouro da televisão
no começo da década de 1970 – lembrando programas como Mary Tyler Moore Show e Tudo
em família –, elas se esquecem de mencionar como a programação geral de grande parte
daquela década era horrorosa. Se a ideia é examinar as tendências da cultura pop, é preciso
comparar maçãs com maçãs ou, nesse caso, abacaxis com abacaxis. Se Joe Millionaire é um
programa péssimo que, apesar de tudo, atraiu um público imenso, então é preciso compará-lo
a programas de trinta anos atrás com qualidade e alcance semelhantes para que as tendências
tenham significado. A comparação relevante não é entre Joe Millionaire e M*A*S*H; é entre
Joe Millionaire e The Price Is Right, ou entre Survivor e The Love Boat.
Diante dessas comparações diretas, observa-se que uma maré de complexidade vem
elevando a programação tanto no fundo quanto do topo do espectro de qualidade. Família
Soprano exige muito mais de seu público do que Chumbo grosso, e Joe Millionaire fez
avanços parecidos em relação a Battle of the Network Stars. Eis o teste definitivo para a
teoria da Curva do Dorminhoco: até a porcaria melhorou.
Como seria possível medir essas melhorias? Ao avaliar esse gênero emergente, mais uma
vez é necessário cuidado ao pintar o rinoceronte para identificar por que as pessoas ficam tão
cativadas por esses programas. Acho que muitas vezes o atrativo não é bem-compreendido. O
senso comum diz que o público segue os reality shows porque gosta da ideia lasciva de ver na
TV outras pessoas sendo humilhadas em rede nacional. Isso pode mesmo ser verdade em
programas escatológicos como Fear Factor, em que os participantes se trancam em cofres
com aranhas ou consomem comida malcheirosa em troca de seus quinze minutos de fama. Mas
nos reality shows de maior sucesso – Survivor ou O aprendiz – o apelo é mais sofisticado.
Essa sofisticação tem sido difícil de ver porque também os reality shows são afetados por
nossa tendência de ver gêneros emergentes como “pseudoversões” de gêneros anteriores,
como McLuhan diagnosticou. Quando os reality shows começaram, era comum a comparação
com os documentários. Naturalmente, quando se compara Survivor com Shoah, Survivor é
bem fraco. Mas os reality shows não representam a realidade da mesma maneira que os
documentários. A relação que a realidade tem com Survivor é muito mais parecida com a que
ela tem com o esporte profissional: ambientes altamente estruturados e regulamentados nos
quais acontecem (sobretudo) situações não orquestradas.
Pensar os reality shows no contexto dos games permite uma noção útil dos méritos do gênero, ao contrário da falsa comparação com filmes de Barbara Kopple e com Na captura
dos Friedmans. O mais importante que se pode dizer sobre os reality shows talvez seja que o
formato tem uma estrutura eficaz de videogame. Os reality shows da televisão são o
testemunho definitivo do domínio dos games no momento atual da história da cultura pop. A
televisão de antigamente tirava sua inspiração do palco: dramas de três atos ou programas de
variedades que apresentavam esquetes curtos e números musicais. Na era Nintendo,
esperamos da televisão uma nova forma de entretenimento: uma série de testes competitivos
que vão se tornando cada vez mais difíceis com o tempo. Muitos reality shows também
aproveitam um artifício mais sutil da cultura dos videogames: as regras não são claramente
estabelecidas no início. Você aprende enquanto joga. Em um programa como Survivor ou O
aprendiz, os participantes – e o público – conhecem o objetivo geral da série, mas cada
episódio traz novos desafios que não foram definidos de antemão. A última rodada da
primeira temporada de O aprendiz nos Estados Unidos, por exemplo, desmanchou a estratégia
que havia governado o jogo até aquele ponto em que Donald Trump anunciou que os dois
aprendizes restantes teriam de reunir e gerenciar uma equipe formada pelos participantes que
já haviam sido demitidos em episódios anteriores do programa. De repente, o objetivo
dominante do jogo – fazer de tudo para não ser demitido – apresentava um conflito em
potencial para os dois adversários remanescentes: a estrutura da última rodada favorecia o
participante que havia mantido melhores relações com seus camaradas. De repente, já não
bastava ter aberto com unhas e dentes o caminho até o topo; era preciso ter feito amigos no
processo.
As regras e as convenções do gênero dos reality shows estão em constante instabilidade, e
essa imprevisibilidade é parte de seu atrativo. Essa é uma das diferenças cruciais entre os
reality shows e seus antecessores, os programas de perguntas e respostas. Quando novos
participantes subiam ao palco de The Price Is Right ou de Wheel of Fortune, não havia
qualquer ambiguidade sobre as regras do jogo; todos sabiam como funcionava – as únicas
coisas indefinidas eram o vencedor e que prêmios fabulosos ele levaria para casa. Nos reality
shows, faz parte do espetáculo a revelação das regras do jogo, uma ambiguidade deliberada
que é apreciada e adotada pelo público. O Joe Millionaire original deu um toque de
perversidade ao subverter a mais fundamental das convenções – os criadores do programa não
mentem abertamente para os participantes acerca dos prêmios –, induzindo um trabalhador a
posar de homem rico enquanto quinze mulheres competiam por sua atenção.
Os reality shows tomaram emprestado dos videogames outro ingrediente-chave: o esforço
intelectual de sondagem das regras do sistema em busca de pontos fracos e oportunidades. À
medida que cada programa revela suas convenções, e cada participante revela seus traços de
personalidade e seu passado, o que prende a atenção é imaginar como os participantes devem
navegar naquele ambiente criado para eles. O prazer não está em assistir à humilhação de
outros seres humanos em rede nacional; está em colocar outros seres humanos em um ambiente
complexo onde há muito em jogo e nenhuma estratégia estabelecida e vê-los se adaptar. É por
isso que as conversas de corredor acerca desses programas sempre giram em torno das
estratégias vistas no episódio da noite anterior: por que Kwame escolheu Omarosa naquela
última rodada? Que estratégia tortuosa Richard Hatch está tramando agora?
Parte desse desafio decorre de um sistema flexível de regras, mas também da rica
geografia social que todos os reality shows exploram. A esse respeito, esses programas ultrapassam as demandas cognitivas dos videogames, porque os jogos sempre restringem os
contatos sociais. No mundo dos games, o jogador trata com pessoas reais por intermédio de
gráficos tridimensionais e bate-papo por texto; os reality shows largam pessoas de carne e
osso no mesmo espaço comum por meses, muitas vezes limitando seu contato com o mundo
exterior. Os participantes de reality shows são forçados a lidar pessoalmente com seus
companheiros, e esse convívio acaba dependendo de sua inteligência social de uma maneira
jamais possível para os videogames. E esse xadrez social também se torna parte da
experiência do público. Esse, claro, foi o encanto do pioneiro entre os reality shows, The
Real World, da MTV, que não precisava de competições e de prêmios fabulosos para atrair
seus espectadores; bastava um grupo de pessoas jogadas em um espaço novo e forçadas a
interagir umas com as outras.
O papel da participação do público é uma das características que muitas vezes acabam
sendo negligenciadas pelos críticos. Se você acha que os reality shows são um longo
exercício de humilhação pública, então o monólogo interior de muitos espectadores deve ser
algo como: “Olhe só esse coitado – que imbecil!” Em vez disso, acho mais provável que esses
monólogos íntimos projetem o espectador no mundo do programa; eles são participativos,
ainda que hipoteticamente: “Se eu tivesse de decidir quem expulsar da ilha, eu escolheria
Richard.” Ele avalia a geografia social e as regras daquele momento e imagina como teria
agido se tivesse conseguido passar no processo seletivo dos participantes. O prazer e o
atrativo desse tipo de envolvimento diferem do prazer da narrativa da sitcom: o que interessa
em Happy Days não é imaginar como poderia ser melhor o discurso que Fonzie fez para
Richie durante o almoço no Al’s. Mas no mundo dos reality shows, essa projeção é parte
característica do envolvimento do público com o programa.
Nos programas de perguntas e respostas à moda antiga, os espectadores também gostam de
se imaginar como participantes; as pessoas gritam as respostas em suas salas desde que o
primeiro desses programas estreou na televisão. (Os reality shows assimilam e ampliam a
lógica daqueles programas, assim como programas como Família Soprano e A sete palmos
expandem o modelo original das telenovelas.) Mas a complexidade das regras e das
“respostas corretas” aumentou desde aqueles tempos. Para “jogar” em um reality show é
preciso tanto adaptar-se a um conjunto de regras em contante mutação quanto agir
politicamente para atravessar um campo minado de relações pessoais. Para ter sucesso em um
programa como O aprendiz ou Survivor é preciso inteligência social, não apenas
conhecimentos gerais. Quando assistimos a esses programas, a parte de nosso cérebro que
monitora as vidas emocionais das pessoas a nossa volta – a parte que identifica mudanças
sutis de entonação, gestos e expressões faciais – escrutina a ação na tela à procura de pistas.
Confiamos implicitamente em alguns personagens e sem pensar duas vezes votamos para que
outros sejam expulsos da ilha. Os programas narrativos tradicionais também ativam relações
emocionais com os personagens, mas essas relações não têm o mesmo efeito de participação,
porque as narrativas tradicionais não são, explicitamente, sobre estratégia. O termo
“palpiteiro” descreve a sensação participativa dos espectadores em relação a jogos, em
oposição a histórias. Absorvemos as histórias, mas questionamos os jogos. Os reality shows
trouxeram esse questionamento para o horário nobre, só que o jogo em questão gira em torno
de destreza social, não destreza física.
Os reality shows desenrolam-se nos mais artificiais dos ambientes: ilhas tropicais infestadas de cinegrafistas escondidos; castelos povoados por belas mulheres solteiras e um
solteiro milionário (de mentira). Mas, ainda assim, possuem uma autenticidade emocional que
responde por grande parte de seu atrativo. Nos momentos de clímax – quando Joe Millionaire
revela sua verdadeira identidade como trabalhador; quando um participante é eliminado da
ilha na reta final de Survivor –, a câmera dá um close no rosto desconsolado do participante
desafortunado, e o que se vê durante alguns breves segundos é algo que quase nunca aparece
no entretenimento do horário nobre: a exibição de uma emoção genuína estampada no rosto de
alguém. O entusiasmo que isso gera é por algo real e espontâneo surgindo no lugar mais estéril
e artificial, como flores-do-campo brotando em um estacionamento. Acho esses momentos
comoventes, porque as emoções são muito cruas, mas também bizarramente hipnóticas: são
pessoas que passaram os últimos seis meses sonhando com um acontecimento que iria mudar
suas vidas, mas que fracassaram no último minuto. O entusiasmo dos reality shows reside em
ver o rosto delas no momento em que recebem a notícia; o entusiasmo de pensar “Isso está
acontecendo de verdade”. Perto desse tipo de intensidade emocional, não é de espantar que as
sitcoms – com suas piadas curtas e a risada enlatada – tenham começado a decair.
Admito que há algo de perverso nesses momentos, algo semelhante à comoção que a
pornografia gerava antes de se tornar uma indústria bilionária: é eletrizante a sensação de que
isso está acontecendo de verdade. Em um mundo de falsificações, essa pessoa na tela não
está fingindo, pelo menos naquela fração de segundo em que a emoção marcou seu rosto. O
espectador cobre os olhos porque a autenticidade do sentimento é quase quente demais para
aquela mídia.
“Fração de segundo” é a escala de tempo adequada aqui; a inteligência de que o reality
show depende é a dos microssegundos: o olhar revelador, o breve ar de descrença, um esgar
traiçoeiro disfarçado rapidamente. Os humanos expressam sua vasta complexidade de
emoções através da linguagem silenciosa das expressões faciais, e sabemos pela neurociência
que interpretar essa linguagem – com toda a sua sutileza – é uma das grandes realizações do
cérebro humano. Uma forma de medir essa inteligência é chamada de QA, sigla de “quociente
de autismo”. Pessoas com baixo QA são particularmente talentosas na leitura de emoções,
antecipando os pensamentos e sentimentos íntimos de outras pessoas, uma habilidade que às
vezes é chamada de leitura de pensamento. (Os autistas têm problemas para interpretar a
linguagem das expressões faciais, e é por isso que um QA alto implica uma capacidade menor
de leitura de pensamento.) O QA pode ser visto como um subconjunto do conceito de
“inteligência emocional” criado por Daniel Goleman; às vezes, ser inteligente é fazer cálculos
complicados de cabeça ou tomar decisões lógicas difíceis, mas uma medida igualmente
importante de inteligência prática é nossa capacidade de avaliar os sinais emocionais de
outras pessoas – e de responder apropriadamente.
Quando se observa um reality show pela perspectiva do QA, fica muito mais fácil
identificar as demandas cognitivas do gênero. Os programas de perguntas e respostas
avaliavam e recompensavam nosso conhecimento de trivialidades, e o esporte profissional
recompensava nossa inteligência física. Os reality shows, por sua vez, desafiam nossa
inteligência emocional e nosso QA. Eles são, em certo sentido, experimentos psicológicos de
grupo encenados de forma elaborada nos quais, ao final, os participantes ganham 1 milhão de
dólares e uma semana na capa da People, em vez de um cachê de cinquenta dólares. Os
programas parecem tão interessantes para o público atual porque apelam para essa capacidade fundamental da mente de maneiras raras em dramas ou comédias – tomando de
empréstimo o formato participativo dos programas de perguntas e respostas e ao mesmo tempo
desafiando nosso QI emocional. O aprendiz pode não ser o programa mais inteligente da
história da televisão, mas ainda assim força o espectador a pensar enquanto assiste, a
desvendar a lógica social do universo criado na tela. E, comparado a The Price Is Right ou
Webster, é uma obra-prima intelectual.
A televisão acaba sendo um meio extraordinário para avaliar a inteligência emocional, o
QA das pessoas – uma característica frequentemente ignorada quando os críticos avaliam a
capacidade dessa mídia de transmitir conteúdo inteligente. Parte do descaso decorre da velha
oposição entre inteligência e emoção: inteligência é acompanhar uma partida de xadrez ou
participar de uma sofisticada discussão retórica sobre política pública; emoção é o terreno
das novelas. Mas inúmeros estudos têm demonstrado o papel central da inteligência emocional
em arenas aparentemente intelectualizadas: negócios, direito, política. Qualquer profissão que
envolva uma interação regular com outras pessoas dá muito valor à leitura de pensamentos e
ao QI emocional. De todas as mídias disponíveis hoje em dia, a televisão é de longe a mais
adequada para exibir as sutis gradações dessas habilidades sociais. Um livro dá uma visão
melhor sobre a história de vida de um indivíduo, e os artigos de opinião nos jornais são um
formato mais adequado para argumentações rigorosas, mas, se a intenção é avaliar o QI
emocional de alguém e não forem possíveis interações pessoais, a atenção concentrada da
televisão é a melhor opção. Os reality shows simplesmente reconheceram essa força
intrínseca e construíram todo um gênero em torno dela.
Também a política gravitou para a fluência emocional da televisão. Isso costuma ser
desprezado como embrutecimento ou sentimentalização do discurso político, transformando o
debate racional sobre diferentes objetivos políticos em um confessionário de auditório. A
época dos debates sobre valores e moral deram lugar a discussões fúteis? O já falecido Neil
Postman, em seu importante livro Amusing Ourselves to Death, de 1985, descreveu essa triste
tendência como espetacularização da política. De acordo com Postman, a televisão é uma
mídia de cosmética, de superfícies, uma repetição infindável dos debates entre Nixon e
Kennedy, nos quais o cara com a melhor maquiagem sempre vence. “Embora a Constituição
não mencione nada disso, parece que agora as pessoas gordas estão efetivamente excluídas da
disputa por cargos políticos importantes”, escreveu ele. “Provavelmente os carecas também.
Com quase toda a certeza, aqueles cuja aparência não melhora significativamente com a arte
do maquiador. Na verdade, podemos ter chegado ao ponto em que os políticos devem dominar
de forma competente a cosmética, e não uma ideologia.”
Não há dúvida de que parte do que Postman diz é verdade, embora Bill Clinton tenha
conseguido fazer uma carreira política bem-sucedida enquanto enfrentava um pequeno
problema de excesso de peso. A televisão permite que o eleitor veja as características físicas
da pessoa em que vai votar com uma precisão não comparável a qualquer outra mídia até hoje.
De fato, isso significa que pessoas fisicamente repulsivas sofrem em dia de eleição. (Claro,
isso também significa que um comandante-chefe não vai mais conseguir esconder do povo o
simples fato de que não consegue andar.)
Mas a visibilidade da mídia estende-se para além do penteado e do tom de pele. Quando
vemos nossos políticos na sala de estar global da intimidade televisiva, conseguimos detectar
neles algumas qualidades mais profundas: não apenas a maneira como se vestem, mas suas antenas emocionais – a capacidade de se relacionar, de levar a melhor, de condenar, de
consolar. Nós os vemos como leitores de mente emocional, e um indivíduo tem poucas
qualidades mais capazes de prever sua capacidade de governar um país, porque a leitura de
pensamentos é fundamental na arte da persuasão. Os presidentes fazem aparições formais,
posam para retratos e promovem eventos de gala, mas seu trabalho cotidiano é motivar e
persuadir outras pessoas a seguir sua liderança. Para motivar e persuadir, é preciso ter um
radar inato para o estado mental de outras pessoas. Para o eleitor comum, é quase impossível
ter uma noção do radar emocional de determinado candidato sem vê-lo pessoalmente em uma
situação de improviso. Não é possível ter noção das capacidades de leitura de pensamentos
do candidato vendo-o pronunciar um discurso decorado ou assistindo a anúncios de trinta
segundos, ou, sabe Deus, lendo os posts do blog da campanha. Mas o que realmente transmite
esse tipo de informação é o formato de entrevista cara a cara na televisão – Meet the Press e
Charlie Rose, é claro, mas, talvez de forma mais eficaz, Oprah, porque o formato é mais
social e fluente.
Então o que se obtém da difamada oprahização da política não é um conjunto de
trivialidades banais sobre um indivíduo – é, sim, informação crucial sobre o QI emocional de
um presidente em potencial, informação a que quase não se tinha acesso até a televisão
oferecer esse foco cerrado. As transcrições do debate entre Abraham Lincoln e Stephen
Douglas certamente mostravam a agilidade mental de ambos e as diferenças ideológicas que
os separavam. Mas acho que quase não transmitiam qualquer informação sobre a maneira
como eles conduziriam uma reunião de gabinete, que tipo de lealdade inspirariam em seus
seguidores ou como resolveriam uma disputa interna. Trinta minutos em um programa de
entrevistas, por outro lado, podem muito bem transmitir todas essas informações – porque
nosso cérebro é muito bom para identificar esses indícios emocionais. Candidatos de pouco
apelo físico podem não se dar tão bem nesse ambiente. (Lyndon Johnson teria uma vida
complicada hoje em dia.) Mas os candidatos que passam pelo teste da aparência são julgados
segundo um padrão mais alto e rigoroso – não apenas a cor da pele, mas o valor de seu
caráter.
Isso não quer dizer que o debate político deva ser reduzido a uma troca de provocações
em programas de entrevistas; ainda há muito espaço para artigos de opinião e discursos
formais. Mas não se deve subestimar a informação contida nos closes da televisão sem
roteiro. Aquele primeiro debate entre Nixon e Kennedy há muito vem sendo citado como o
início do triunfo da imagem sobre a substância – para os espectadores que acharam que o
aspecto de Nixon, suarento e com barba de um dia, passava a impressão de alguém ardiloso e
pouco confiável. Mas e se estivermos enganados acerca do debate? E se não foi a falta de
maquiagem de Nixon o que perturbou os telespectadores? Afinal, Nixon acabou se mostrando
ardiloso e pouco confiável. Talvez todos aqueles eleitores que ouviram o debate pelo rádio ou
leram a transcrição nos jornais e concluíram que ele havia vencido simplesmente não tinham
acesso à informação emocional transmitida pela televisão. Nixon perdeu na TV porque não
parecia alguém que o eleitor gostaria de ter como presidente, e, no que se refere ao QI
emocional, as aparências nem sempre enganam.
Os reality shows e os programas melodramáticos como o de Oprah podem não ser o prato mais sofisticado do cardápio da televisão, mas também não são o equivalente a junk-food:
prazer culpado sem qualquer nutrição cognitiva redentora. Eles estimulam a mente – e, em
particular, a mente social – de forma muito mais rigorosa do que os piores programas das
décadas passadas. As pessoas não se aglomeravam no corredor para questionar a estratégia
derrotada no Battle of the Network Stars da noite anterior, mas passam semanas debatendo as
decisões táticas e os traços de personalidade dos participantes de O aprendiz. Consideremos
esse excerto de uma conversa em um site não oficial sobre a versão americana de O aprendiz:
KMJ179: Pessoas instáveis entram em pânico com muita facilidade e tomam decisões apressadas sem conhecer os fatos
ou entender o que está em jogo. Pessoas instáveis não dão ouvidos a outras pessoas. Muitas vezes ouvem alguém falando
com elas, mas não escutam o que está sendo dito. Uma pessoa instável é alguém que diz uma coisa mas logo em seguida
faz outra. Já lidei com gente instável antes, e Troy de maneira alguma é assim. De onde Bernie tirou isso, não sei. Pode ser
que o sotaque de Troy tenha chateado o pobre Bernie.
KEN NJ: Não estou defendendo Bernie, mas apenas apresentando minhas razões para que você possa ver em que me
baseio pra classificar Troy como pessoa instável. Donald, seus colegas de equipe e o publico esperavam que ele mantivesse
uma postura honesta. Bem, ele não foi honesto e partiu pro método “tudo ou nada” sendo falso com os clientes e
manipulando eles pra que fizessem propostas. Qualquer executivo responsável que visse as táticas de Troy diria que esse
funcionario é um cara instável porque não consegue se conformar às políticas da empresa e faz as coisas do próprio jeito.
Até Bill, que observou o próprio colega, disse que tinha sérias questões sobre a maneira como Troy fechava negócios.
KMJ179: Fiquei surpreso quando Troy cruzou o limite da ética e apelou pra mentira sobre o número verdadeiro de pessoas
interessadas em alugar o lugar. Ele não precisava ter feito isso. Irônicamente, quando Troy foi franco com o segundo cliente
em potencial sobre o primeiro cliente também estar interessado e aguardando na outra sala, ele se deu mal. O segundo
cliente se sentiu presssionado. Mas, de certa maneira, não posso culpar o segundo cliente. Passamos um dia conversando
sobre um aluguel caro e você me diz que estou concorrendo com outra pessoa pelo valor. Eu teria mandado Troy mergulhar
no Hudson. Troy foi muito profissional e se despediu do cliente depois de ir agradecer a oportunidade do encontro.
KEN NJ: Você acabou de ilustrar um exemplo da maneira inaceitável que Troy usa para fazer negócios. Já vi vendedores
de carros usados com mais estilo e honestidade que Troy. Sobre o outro caso, eu escrevi um post sobre Troy enganando
clientes na calçada do Planet Hollywood pra vender o autógrafo de Kwame. O Better Business Bureau e as agências
governamentais de proteção ao consumidor investigariam esse padrão de praticas comerciais. Já vi vendedores agressivos
como Troy levarem empresas rentáveis à falência dum dia pro outro depois que um tribunal concedeu indenizações
enormes em decisões multimilionárias. Troy é uma bomba-relógio, só esperando para explodir a empresa. Isso não significa
pouco na governança corporativa atual.
Seria preciso uma vida inteira para ler as transcrições de todos os debates desse tipo,
tanto na internet quanto em meios físicos, que se seguiram a esses programas. A ortografia não
é perfeita, e a gramática de vez em quando deixa a desejar. Mas o nível de envolvimento
cognitivo, a vontade de avaliar o programa a partir da experiência pessoal e do bom senso, a
atenção aos motivos e aos defeitos de caráter dos participantes – tudo isso é notável. É
impossível imaginar até mesmo os programas sofisticados do passado – muito menos Os
gatões – inspirando semelhante quantidade e qualidade de análise. (Há literalmente centenas
de páginas de comentários equivalentes só nesse site.) Esse coquetel exclusivo que o gênero
dos reality shows oferece – pessoas de verdade, sistemas de regras sempre se transformando,
intimidade emocional – instiga a mente a agir. O espectador não se desliga diante de
programas como O aprendiz. Ele joga junto.
Sim, o conteúdo do game tem uma premissa rasteira e um ambiente muito artificial. (Além
disso, o programa obriga o espectador a contemplar regularmente o penteado de Donald Trump.) Isso é outra característica que os reality shows aproveitaram dos videogames: o
conteúdo interessa menos do que o esforço cognitivo que o programa exige. O que importa é o
aprendizado colateral.
Parte desse aprendizado colateral decorre do número de personagens envolvidos em
programas como O aprendiz ou Survivor. Assim como Família Soprano desafia o espectador
a acompanhar diversas linhas, os reality shows exigem que se acompanhem diversos
relacionamentos, já que nesses programas a ação gira em torno das várias brigas e alianças
feitas e desfeitas por mais de uma dezena de indivíduos. Também isso ativa um componente de
nosso QI emocional, algumas vezes chamado de inteligência social: nossa capacidade de
monitorar e evocar muitos vetores distintos de interação na população a nossa volta, de
lembrar que Pedro odeia Paulo, mas Paulo gosta de Pedro, e ambos se dão bem com Maria.
Isso é parte de nossa herança primata; nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, vivem
em sociedades marcadas por intricadas relações políticas entre dúzias de indivíduos. (Alguns
antropólogos acreditam que o enorme crescimento do lobo frontal do Homo sapiens no último
milhão de anos foi estimulado pela necessidade de avaliar redes sociais densamente
interconectadas.) Condições ambientais podem fortalecer ou enfraquecer a capacidade do
cérebro para realizar esse tipo de mapeamento social, assim como para o mapeamento do
mundo real. Um famoso estudo do University College London descobriu que, nos taxistas de
Londres, as regiões do cérebro dedicadas à memória espacial eram, em média, maiores do
que as do londrino típico. E que os taxistas veteranos tinham áreas maiores do que as de seus
colegas mais jovens. Eis a magia da plasticidade do cérebro: ao executar certa função
cognitiva repetidas vezes, mais neurônios são recrutados para participar do trabalho. A
inteligência social funciona da mesma maneira: passe mais horas estudando os detalhes de
uma rede social, e seu cérebro vai se tornar mais apto a rastrear todas aquelas relações
interligadas.
No que se refere à mídia, fios narrativos ou uma simples lista de personagens não ilustram
adequadamente esse tipo de análise. É melhor vê-la como uma rede: uma série de pontos
conectados por linhas de semelhança. Quando assistimos à maioria dos reality shows,
implicitamente estamos construindo na cabeça esses mapas de redes sociais, mapas não tanto
de enredos, mas de atitudes: Nick tem uma queda por Amy, mas talvez Amy esteja apenas
usando Nick; Bill e Kwame têm uma amizade competitiva e acham que Amy está usando Nick;
ninguém confia em Omarosa, exceto Kwame, mas Troy realmente não confia em Omarosa.
Isso pode parecer coisa de colégio, mas, assim como muitas formas de inteligência emocional,
a capacidade de analisar e evocar toda a variedade de relações sociais em um grupo grande é
um instrumento de previsão de sucesso profissional tão confiável quanto as notas no vestibular
ou na faculdade. Graças a nossa herança biológica e cultural, vivemos em grandes bandos de
humanos que interagem entre si, e pessoas com a mente capaz de visualizar todas as relações
nesses bandos tendem a prosperar, enquanto aquelas cuja mente tem dificuldade para
acompanhá-las ficam sempre em desvantagem. Os reality shows forçam o espectador a
exercitar esse músculo social de maneira inconcebível para os antigos programas de perguntas
e respostas, nos quais a principal capacidade cognitiva testada era a habilidade de acertar o
preço de um eletrodoméstico ou a hora certa de comprar uma vogal.
A tendência rumo a redes sociais de complexidade cada vez maior não é exclusiva dos
reality shows; muitos dramas populares atuais de televisão apresentam densas teias de relações que exigem do espectador muita atenção e escrutínio apenas para que ele possa
entender o que está acontecendo na tela. Tradicionalmente, as redes sociais mais intricadas na
televisão vinham sob a forma de novelas, com seus casos amorosos, suas traições e dinâmicas
familiares sofridas. Então usemos um episódio da primeira temporada de Dallas como
exemplo representativo. No fundo, a rede social essencial de Dallas é a família Ewing: dois
pais, três filhos, duas esposas. Alguns personagens regulares orbitam na periferia dessa
constelação: o capataz Ray e Cliff, inimigo dos Ewing. Cada episódio apresenta um punhado
de personagens que fazem uma única aparição no enredo daquela semana e então somem da
rede. No episódio “Filho do mercado negro” (Black Market Baby), a estrutura principal da
narrativa é uma trama dupla: a disputa entre os dois irmãos para gerar um filho e dar ao
patriarca da família o neto há muito esperado. Pensando apenas em termos narrativos – na
linha de nosso Família Soprano e Chumbo grosso –, essa estrutura seria relativamente
simples: duas tramas indo para lá e para cá, sobrepondo-se em alguns momentos-chave. Mas,
vista como rede social, é algo mais matizado:
As linhas mais claras representam uma relação social necessária para a compreensão do
enredo do episódio: é preciso entender que o patriarca Jock não aprova a decisão de Pam de
adiar o nascimento do filho para trabalhar, assim como é preciso entender a duradoura
rivalidade entre Bobby e JR em várias cenas cruciais com toda a família. As linhas mais
escuras representam relações sociais que originam eventos narrativos principais: quando JR
intervém e paga a Rita, a mãe de aluguel, para que deixe o estado, frustrando assim o plano de
adoção de Sue Ellen, ou quando Sue Ellen, bêbada, passa uma noite de paixão com Ray.
É claro que, quando assistimos TV, muitos de nós não pensamos nessas redes sociais em
termos explicitamente espaciais, mas construímos modelos funcionais do universo social que
vemos. As visualizações ajudam a transmitir em um relance como é complexo esse universo. E
basta um olhar de relance para perceber – no gráfico na próxima página, sobre um episódio da
primeira temporada de 24 horas, uma série da FOX – que aconteceu algo profundo com a
complexidade social dos dramas de TV nos últimos trinta anos.
A primeira temporada de 24 horas é, em última análise, uma teia narrativa estendida entre
quatro famílias diferentes: o herói Jack Bauer, a mulher e a filha; a família de David Palmer, o
senador ameaçado; a família do terrorista sérvio Victor Drazen; e a família informal de
funcionários da Unidade de Contraterrorismo (CTU, na sigla em inglês), onde Bauer trabalha.
(Esta última funciona como família não apenas porque compartilha um espaço reduzido, mas também porque a dinâmica da agência inclui dois conflitos românticos importantes.) Aqui
também representei com linhas claras as ligações sociais relevantes para o enredo do
episódio e com linhas escuras as relações cruciais. Em qualquer sentido imaginável, 24 horas
tem uma rede social pelo menos três vezes mais complexa do que Dallas: a quantidade de
personagens; a quantidade de grupos diferentes; as ligações entre personagens e entre grupos;
a quantidade de relações centrais à narrativa do episódio. O mundo social de Dallas é o de
uma família ampliada: os personagens principais são parentes diretos uns dos outros, e os
demais têm papéis secundários. Por sua vez, 24 horas está mais próximo da escala de uma
pequena aldeia, com quatro clãs rivais ligados por dezenas de vínculos. Na verdade, a rede
social de 24 horas equipara-se à rede social comum em romances de Jane Austen ou George
Eliot, ambientados em vilarejos ou propriedades rurais. Os diálogos e as descrições são mais
nuançados nessas obras clássicas, é claro, mas, no que diz respeito a redes sociais necessárias
para a compreensão da narrativa, 24 horas não deixa a desejar.
Se assistirmos a esses dois episódios de Dallas e 24 horas um depois do outro, a
diferença fica evidente. A rede social de Dallas é perfeitamente inteligível na estrutura do
próprio episódio, mesmo que o espectador nunca tenha visto o programa e nada saiba sobre
seus personagens. Os criadores do programa inserem setas chamativas ao longo da abertura –
uma grande festa de aniversário para Jock, o patriarca da família – que traçam laboriosamente
as principais relações e tensões na família. Acompanhar os acontecimentos que se seguem
quase não exige esforço: as cenas são lentas o bastante, e as muletas narrativas são óbvias o bastante, tanto que um aficionado atual por televisão provavelmente vá achar o argumento
frouxo e óbvio. Se vir um episódio isolado de 24 horas, um espectador ficará completamente
perplexo com os acontecimentos, porque eles se fundamentam em uma rede muito complexa de
relações, sendo que quase todas foram definidas anteriormente na série. De maneira bem
apropriada a uma narrativa apresentada em tempo real, 24 horas não desperdiça preciosos
segundos explicando a história pregressa; se você não lembra que Nina e Tony têm um caso,
ou que Jack e David colaboraram em uma tentativa de assassinato contra Drazen, vai achar
difícil acompanhar. O programa não estende a mão aos não iniciados. Mas, mesmo que se
tenha acompanhado atentamente a temporada, vai ser preciso esforço para seguir a trama,
precisamente porque há muitas relações em evidência.
Na verdade, o mapa da rede social de 24 horas é insuficiente para representar o esforço
cognitivo necessário ao entendimento do programa. Como narrativa de conspiração – que
apresenta vários “espiões” proeminentes –, cada episódio sempre sugere o que podemos
chamar de relações-fantasma entre os personagens, uma ligação social deliberadamente
omitida na tela, mas que os espectadores inevitavelmente consideram por conta própria. Nesse
episódio de 24 horas, Teri, a mulher de Jack Bauer, sofre de amnésia temporária e passa
algum tempo sob os cuidados de um personagem novo, o dr. Parslow, sobre o qual o
espectador não sabe nada. O programa não mostra qualquer ligação direta com Victor Drazen,
o arquivilão, mas, vendo Parslow consolar Teri, o espectador busca compulsivamente pistas
que possam ligá-lo a Drazen. (O mesmo tipo de escrutínio acompanha todos os personagens na
CTU, por causa da trama envolvendo os espiões.) Em 24 horas, acompanhar a trama não exige
apenas atenção a todos os pontos que o programa liga para o espectador; o atrativo está
também em considerar ligações em potencial, mesmo que elas não tenham sido apontadas
deliberadamente na tela. Não é preciso dizer que Dallas marca todas as relações sociais com
tinta permanente; o choque de “Quem atirou em JR?”, episódio final de temporada, residia
precisamente no fato de que uma ligação social – entre JR e o assassino frustrado – pela
primeira vez não foi entregue explicitamente pelo programa.
Mais uma vez, a tendência de longo prazo da Curva do Dorminhoco é clara: uma das redes
sociais mais complexas na televisão popular nos anos 1970 parece praticamente infantil perto
das redes sociais dos programas de sucesso atuais. O espectador moderno que assiste a
Dallas em DVD vai se entediar com o conteúdo – não apenas porque o programa é menos
obsceno do que as novelas de hoje em dia (e só por uma pequena margem), mas porque o
programa contém muito menos informação em cada cena. Com Dallas, o espectador não
precisa pensar para entender o que está acontecendo, e não precisar pensar é entediante. O
seriado 24 horas segue uma abordagem oposta, preenchendo cada cena com várias camadas
de afiliações. É preciso atenção para seguir a trama, e ao prestar atenção o espectador está
exercitando a parte do cérebro que mapeia redes sociais. O conteúdo do programa pode ser
sobre assassinatos por vingança e ataques terroristas, mas o aprendizado colateral envolve
algo inteiramente distinto e mais nutritivo. Trata-se de relações.