Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte
VIII Combate
3 É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O general
*** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada. Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os tyrannos estremecem e gelam de terror.
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«Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços.
Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade: e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino, em 8 de Dezembro de 1846.»
(Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)
VIII
COMBATE
«O homem debatia-se ahi nas vascas da
morte, e o sol passava involto na sua gloria
sem corar das angustias d'aquelles, que em
seu ridiculo orgulho se chamavam
monarchas e conquistadores do mundo; sem
lhe importar se os vermes vestidos de ferro,
chamados guerreiros, se despedaçavam uns
aos outros com o delirio insensato das
viboras no momento dos seus amorosos
ardores.»
(A. Herculano--Eurico.)
Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia 19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.
Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem feridas batalhas, um vivissimo fogo de fuzilaria, despejado sobre as suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.
Travou-se combate.
No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a brida em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:
--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa justa e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride nem mesmo podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa carreira militar. Se não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar, retiro-me eu immediatamente.
--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não desisto do meu empenho em aprisionar o manêta.
--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não creio que nos tornemos a encontrar.
Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.
Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17 mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem aprisionado o seu aventureiro commandante.
Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda sensação. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde suster o velho fidalgo uma exclamação de espanto, reconhecendo sua mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastião da Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O velho ficára por instantes como fulminado. Quando pôde fallar, disse á esposa:
--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta a fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para a desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem, hão-de voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são, n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito. Socega.--Padre Alvaro, póde voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe agradeço o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos seus olhos a sua vontade e por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado de seu padrinho. Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante...
--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr indeferida a minha pretenção, como estamos em tempos anormaes, despacho-me a mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc. a. As minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a demora da snr.a D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me apartar um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o abrigo do meu tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr. Sebastião da Mesquita, que deve conhecer a mágua que a reluctancia de v. exc. a me causava.
--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.
Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do combate, e que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do general inglez, como elles chamavam a Mac-Donnell.
O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda a força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.
Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina, declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer infracção.
Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a cavallo, que chegára alli á desfilada.
Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um só homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo, em que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a familia.
Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!
Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria, teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato ao que em prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina. Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os pela farda, descer á cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da donzella!
Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas peripecias a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia, narrou os succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos, e foi no fim abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.
No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda tristeza, mal que terminára a narrativa.
--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.