Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte
VII os Espinhos da Flor
Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob as vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella Rosa!...
15 Este facto foi publicado em alguns periodicos d'aquelle tempo.
VII
OS ESPINHOS DA FLOR
«Peço ao meu anjo da guarda,
Se hei-de aqui ficar perdida,
Que vá levar-te por sonhos
Esta minha despedida.»
(V. de Castilho--O acalentar da neta.)
Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a mulher que o salvára da demencia!...
Ouçamol-os:
--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar da existencia ao seu lado...
--É um facto muito real e verdadeiro, caro primo, que hade ter por desenlace o nosso casamento...
--Não posso crêr em tamanha ventura!...
--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o seguimento das nobres allianças da minha raça?... Não vê como já me abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso solar chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no mundo me são caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque não é com premios taes que se costumam castigar os assassinos...
--Tenha piedade, senhora!...
--Piedade?!... De quem, e porquê?!...
--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de reparar... e bem conhece que não são de assassino estes soffrimentos...
--A ferida que fez n'um peito desleal, diz o primo?!... Illude-se, e é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.a cravou ás punhaladas, com este villão instrumento que guardei para o sangue que o tinge me animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que lhe era affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro amor...
--Não brinque, prima, que me tortura!...
--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu idolatrado Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser comprehendida por V. Exc. a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de nosso pae, que me participava a resolução de casar-me em Guimarães... Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não poder empregar sequer um raciocinio... A minha querida irmã, que era o symbolo da dedicação, imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu futuro, chamando aqui o meu muito amado Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal, roubada no campo da gloria ao meu idolo por um soldado do seu commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente, tornado ferrugem no seu punhal!...
--Misericordia, senhora, que me mata!...
--Não hade morrer, senhor meu noivo, em quanto não tiver bem esgotado o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...
--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente irmã?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!...
--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia singular...
--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo no seu coração?...
--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do unico homem que eu amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e saudosas á memoria de Arthur Soares, do amor da minha infancia, da alma mais nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido unir á minha... Que importa isto ao meu futuro esposo, ao viuvo de minha irmã assassinada!...
--Cale-se, demonio!...
--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e feliz noivo, com a fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca da que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi elle que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para esse fim, todos os seus haveres...
--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe antes a morte como o supremo beneficio...
--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os dias ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha... Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique sabendo que só o amor é verdadeiro poeta... Oiça:
«LAGRIMAS D'ALMA
«Vida ditosa da infancia amena,
tornada pena, que me traz delirio!...
Meu terno amante, meu poderoso rei,
por amor fiquei n'um atroz martyrio!...
Ignora o mundo que cruel mysterio,
ao cemiterio casta virgem leva!...
Nem Elle sabe quanto hei penado, Arthur amado, que minha alma enleva!
Aqui defronte do feroz tyranno,
que deshumano duas vidas sóme,
a irmã eu vingo, o amor vingando,
Arthur amando com ardor sem nome!...
Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,
puros anhelos, que gostosa tinha!
Ai! que tormentos o presente encerra,
na crua guerra da vingança minha!...
Vida ditosa da infancia amêna,
tornada pena, que me traz delirio!...
Meu terno amante, meu querido d'alma,
recebe a palma d'este cru martyrio!...»
O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher senhora, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa, ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe enchia o peito.
Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo.
O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:
«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero, com a noticia da resolução que v. exc. a tomara de ser fiel á vontade de seu exc.mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque só ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo de um Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de espectaculos insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...
«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel, deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre. Não fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu tenente, porque ambos nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das forças combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de João de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma frecha, o intrépido sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do sargento: quem imagina v. exc. a que descobrimos debaixo de um tal disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc. ma irmã!...
«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos nós!...
«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.ma irmã não morreu; mas antes de participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de succedimentos anteriores.
«A snr.a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr entre mim e ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa de perdição!... Foi alli surprehendida por João de Lencastre que, após porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento. Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc. a, offereceu o seu nome, e a sua fortuna, á snr.a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o melhor para o conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o v. exc.a nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava consagrar-me. Sua exc.ma irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa, até que João de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve occasião de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe. Desde um tal dia, que a snr. a D. Rosa abandonou completamente o seu arrojado e perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre salvador da sua virtude.
«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.a, ha muito tempo, como elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder de augmentar, por conhecer em sua exc. ma irmã, a par de um genio viril, um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.
«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao ferimento do supposto sargento.
«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia estar sem vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o primeiro em que sua exc. ma irmã recobrou o uso da falla, consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente ferida. Durante o periodo de prostração da snr.a D. Rosa, não pude conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um só instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo idiota, que muito me assustou. Só deu accordo de si, quando sua exc. ma irmã abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos labios... Então, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa força, e tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do leito, para evitar damno á doente.
«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho presenceado: a snr.a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais incomprehensivel que seja a minha confissão... Considerei-me presa de um amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um sublime affecto por minha irmã... Quiz pôr entre nós o impossivel, para conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha temeridade, por uma affeição das que raramente os homens sabem ter... Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me descobrir um novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês agora em mim, Lencastre?...»
«O meu camarada, snr.a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc. a...
«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura dos nossos amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual ceremonia póde qualquer dia unir eternamente a snr. a D. Maria da Gloria a...
«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.a
Arthur.»
A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...
Quando o desgraçado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.
O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:
--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado, posso dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu crime, não teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D. Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta localidade, que logo asseverou não ser mortal o ferimento, combinamos deixal-a passar por morta, na caridosa intenção de pouparmos toda a familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos de que v. exc.a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um cadaver, e conduzimos secretamente a snr.a D. Anna á habitação do medico, onde se conservou até se achar completamente curada, passando depois para a residencia d'este humilde servo do senhor...