Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte
VI Celibato
Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois de scenas assim expansivas, é que nós não ficamos pela continuação da pureza no sentimento.
Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das solidões,--á solidão d'alma!
Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou tambem semi-morta.
Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de Esporões.
Alvaro, era presbytero!
VI
CELIBATO
«Deus me livre de discutir materia tantas
vezes disputada, tantas vezes exhaurida
pelos que sabem a sciencia do mundo, e
pelos que sabem a sciencia do céu!»
Alex. Herc.--Eurico.
O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.
O soffrimento de um filho, não póde ser, por muito tempo, estranho aos que lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e ficaram surprezos do que viram.
--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de suas pesquizas.
--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe, mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!
--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios, desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro, porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a Deus por nós, sim?
--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.
Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir signaes de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:
«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero humano, o esteio da vida e o centro da piedade?
«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...
«Celibato puro!!...
«Para quê, decretar contra a natureza?!...
«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem, a Tua existencia no mundo?...
«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»
O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou, depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu discipulo.
Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:
--Então de que mal padece a snr.a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre são muito fracas! Pois a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses quebrantos?! Será isso mimo?...
--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!... Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... Elle, está cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...
--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?! Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda horas de os legitimar aos olhos do mundo?...
--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.
--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor de Deus...
A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»
--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e titubeou a palavra:--Perdão.
--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes reservou Deus a sua divina misericordia. Sei tudo, e tambem o sabe tua mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a snr.a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel, muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva, que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre... Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que preferiam a morte, á quebra publica dos seus deveres.
Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via. Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na terra.
Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo, fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das cidades!...
No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.
Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam a estima geral, ao ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião da Mesquita.
Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu, commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim:
«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar, que iam pedir a Deus por ti... Resignação.»
As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.
Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor, pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das lagrimas, e disse-lhe:
--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer? Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa terra, sim?
--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da lembrança...
Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina de treze mezes de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com agrado, mais aquella visita.
--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo, depois de ter saudado a todos.
--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.
--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem, muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...
--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha, fez com que se beijassem os dous innocentes......
Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre, que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu amigo.
--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus cuidados?