Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte
IV o Berço da Monarchia
--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade, e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe entrega do movel em que lhe fallou a snr. a D. Maria da Gloria, e conversar em cousas de commum interesse...
E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o irmão o salvava.
IV
O BERÇO DA MONARCHIA
«Querem alguns que seja esta villa o
assento da cidade de Araduca, de que
Ptolomeu faz menção; é porem incerta a
conjectura, sendo certissima a sua
veneranda antiguidade.»
(O Panorama de 1867.)
«A antiga Guimarães foi fundada pelos
gallo-celtas, quinhentos annos antes da éra
christã.»
(Padre Carvalho)
«As fabricas de cortumes produzem
annualmente um valor superior a cento e
cincoenta contos de reis. O commercio das
linhas pannos de linho e ferragens, é
importante, apesar de ter decahido depois do
tratado de 1810 e da independencia do
Brazil: todavia ninguem ainda hoje negará o
incontestavel merecimento dos tecidos de
linho adamascados, fabricados em
Guimarães, que em duração e primor d'obra
por certo que não tem rival. Calcula-se que
os tres ultimos productos industriaes que
apontamos, não rendem menos de oitenta
contos de reis por anno. Os doces de fructas
confeitados n'esta villa, renderam, no anno
de 1835, seis contos de reis.»
(Geographia de Urcullu.)
Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores.
É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do famoso Papa S.
Damaso, 8 que mereceu, ao sexto concilio de Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade no perdão das injurias.
Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos de Guimarães:
Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro
portuguez, e distincto artista, que fez a Custodia de Belem. 9
Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães, pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e oitenta.
João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de Engenhoso, o introductor do serrilhado na moeda.
Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes; entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de 1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215. Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira, acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.
O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mór do reino, do conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.
O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.
O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de theologia na Universidade de Coimbra.
O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador do Paço.
O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa, de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da meza da consciencia.
O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi corregedor da côrte.
O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais credito.
O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do paiz.
O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do Axioma.
O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada, pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas, que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava este sujeito para o seu maior credito.
O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e lente na Universidade de Coimbra.
O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por El-Rei D. Pedro II.
O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo, desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.
O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia, Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.
O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo de habito de Christo.
O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.
O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.
O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e desembargador do Paço.
D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo de Annel, do arcebispado de Evora.
D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.
O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.
O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.
O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado em Lisboa.
Manoel Gonçalves, o trovador, morador no burgo da rua de Couros, que foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.
Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho, em oitava rima.
Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio, antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.
Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o exercito castelhano, alojado na veiga das favas; e que, por uma cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim Narizes.
Manoel Machado de Miranda, senhor do casal dos Cavalleiros, e residente no seu palacio do arco, na rua de Santa Maria, poderoso fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando seus filhos a continual-os.
Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval pelejada com os turcos.
Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de capitão de infanteria, batalhando pela patria.
Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os turcos.
Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria, sendo mestre de campo de um terço de volantes, e capitão duma companhia de cavallos com o titulo de couraças. Celebradas as pazes entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo, governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres Vedras, e de S. João da Carvoeira.
João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos no Alemtejo.
Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.
Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e cazas do Rocio da Tulha, que, depois de ter batalhado n'este reino e no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este rei um alvará, (datado de 2 de março de 1501) «em que lhe entregou, e livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde, e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se forem suas proprias armas.»
Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da casa da rua da Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça, que acompanhou, com grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap. 46.
Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D. Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu pae, honrando a patria.
Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18 annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa.
Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão da fortaleza de Maluco, na India.
Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.
Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, que, melhor que todos, realçou e eternisou seu nome. Foi mandado pelo viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e, sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a sua patria, foi posto na bocca d'uma peça de artilheria, sem que um tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, por subido preço. Vingou suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, que era senhor de tres reinos; e por este feito se accrescentaram ás suas armas tres corôas e um alfange, como diz Diogo do Couto, na decada 4.a, livro 4.º, capitulo 9.º
Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de Chacel, na India.
Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no tempo d'El-Rei D. Sebastião.
Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, morgado rico, e possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria, que acompanhou El-Rei D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado, embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os turcos.
Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.
Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da Pousada, com suas casas na rua do Val de Donas, que serviu na guerra da India, contra os infiéis, onde acabou a vida.
João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.
João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, que deixou mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca, para servir a patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.
Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão, ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.
João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua custa, e mettendo-se n'ella, com gente e armas tambem suas, acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D. Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, grandes mercês e honras.
Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião á Africa. Ficou captivo, e foi escravo de dous senhores. Resgatado, com muito trabalho e dispendio de sua fazenda, foi cavalleiro professo do habito de Christo.
Salvador da Costa e Almada, morador na rua Nova do Muro, embarcou para a India, onde foi cabo de tres fustas, que o governador, Mathias de Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.
Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na India, pelejando com grande valor contra os turcos.
Gaspar Leite Pereira, da rua do Cano das Gasas, que embarcou para a India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo de Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim. Foi depois mandado, por El-Rei D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.
Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India, mostrou o seu valor, como diz A vida do irmão Pedro de Basto, liv. 2.º cap. 13.º
Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim Ferreira na façanha da Veiga das favas, onde foi desbaratado o exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira, e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros, obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco.
Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei de Castella D. João 1.º, serviu, por sua traça, de poderoso instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, na ponte do Sueiro, juncto á ponte de Servas, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu parte, que conseguira do porteiro e guarda da porta do postigo, que esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e, aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, com trezentos de cavallo, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.
Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça, deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.
André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de Pernambuco.
Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem o posto de capitão de infanteria.
João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua quinta de Pombeiro, para se alistar na milicia de Flandes, onde, por seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de artilheria, com grande nome e fama.
Sebastião Salgado de Faria, que, na guerra de Flandes foi um dos capitães de cavallo de couraças com melhor nome no exercito.
Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao posto de tenente de mestre de campo general.
Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.
Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos privilegiados de Nossa Senhora da Oliveira.
João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, e um dos que promoveram a feliz acclamação de D. João IV.
João Rebello Leite, filho do precedente, que, no primeiro rebate que em seguida á feliz acclamação, os gallegos deram na fronteira do Minho, foi prisioneiro e levado, com oito feridas, ao castello de Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez uma fugida valorosa, chegando depois a mestre de campo, e, com lastimosa desgraça, morreu de veneno.
João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de campo de infanteria, e de cavallos; e, indo a Santarem reformar o seu terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua mulata.
Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo; João Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem; José Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos de capitães volantes, no exercito da provincia do Minho.
Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.
Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e ajudante de cavallaria.
Antonio de Andrade e Valle, que foi ajudante de Infanteria.
João de Sousa e Lima, que foi alferes do mestre de campo de infanteria.
Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.
Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio de Barros, que foi capitão de volantes.
Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar nas gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos tudo, que respeita a Guimarães.
E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama, Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas mais eruditas do seu seculo.
Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios e isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da mesma fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta a briosa raça de tão heroico povo.
E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão admiravelmente fertil.
Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos de nomear.
É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das
quaes teem sido admiradas dentro e fóra do paiz. 10
Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a Europa, recebendo honras, e
condecorações de alguns monarchas. 11
É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro cavalleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes.
São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de Castro.
É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso.
Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.
Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são todos pessoas estimaveis, caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde a nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense, tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta por mais humilde que seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense, hoje como sempre, é por todos respeitada.
Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz honrosa memoria.
Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de Guimarães, tem desafiado a critica mordaz dos fortes espiritos do seculo, que a chamam terra retrógrada.
É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria, muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimação.
Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no presente.
O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que nasceu na cidade do Porto.
Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes, passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.
8 Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S. Damaso,
de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado, por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos: foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.
9 Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por epigraphe:
«Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o titulo de Sedatura Lusitana encontramos estes factos preciosos: «Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo que teve a Gil Vicente.» Isto já bastava para acreditarmos que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte de D. João II, D. Manoel e D. João III «Gil Vicente, filho unico d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante, e por tal foi sempre muito estimado dos Principes e senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram n'aquelle genero. Está sepultado em Evora.» O gráo de authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi procurador em côrtes.»