Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte
X Religião
Castromino»--que aquella casa, chamada da Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta, como n'outras descripções e nomes proprios d'este nosso conto, na parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas determinadas.
X
RELIGIÃO
«O mundo que nos tira até o que Deus nos
deu, que nos não póde dar o que Deus nos
tirou, que não tem bem que dure nem cousa
que permaneça,--que cultos merece? que
estimações se lhe devem?»
(Fr. A. das Chagas--C. espirituaes.)
Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as donzellas raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado, e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados estacionamentos, teve Sebastião da Mesquita occasião de prestar um relevante serviço ao respeitavel ancião que por aquella epocha era arcebispo de Braga.
Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em ataque ás forças realistas, mandara fazer na manhã do memoravel dia vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general, ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese bracarense para o
acompanhar na sua marcha.5 Aterrado o bondoso padre por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas horas em secreta e intima conferencia.
Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina mudança de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as indeleveis impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e á vingança. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao padre Alvaro, que a religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja quer que se recebam as humilhações em justa expiação das faltas commettidas; mas tambem não ignorava que, algumas vezes, sob as proprias vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cóleras. A sua razão, um pouco obscurecida pelas dôres, fluctuava, pois, á mercê das paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de Arthur Soares.
Eram constantes da parte do apaixonado mancebo as deserções do seu arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita, porque possuia a quasi certeza da razão que as promovia.
A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as commentar mentalmente.
Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados publicos do partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo de Lencastre. Não se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita, em ser levado ao extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos realistas, depois da
morte de Mac-Donnell, 6 se terem reunido ao exercito da junta do Porto.
N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca de Arthur Soares a boa nova de ter descoberto o carcere das donzellas, que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.
Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu, ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não encontrar alli a quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando susteve em seus braços a D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em pranto a seduzida Anna.
Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de novo reunida.
Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de todos, dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria, n'estes termos:
--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...
--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc. a fazel-a ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.
--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a nobreza e honradez da tua resposta!...
Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.
--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?
A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...
O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora, alçou assim a voz:
--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o edificio e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!.. Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe faltou para resistir á seducção!...
Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era o não admittirem réplicas.
N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente do palacio, um extraordinario bulicio.
O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares.
Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em poder das forças populares, em direcção á praça de Valença, os prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praças de linha e cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos empregados publicos, e de toda a guarnição prisioneira. Arduo trabalho havia tido a força conductora, para salvar até alli da sanha popular os que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, só deviam pertencer ao poder das leis.
A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira, com a interferencia de um tenente que folgara de ter occasião de subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e trazel-o pelo braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de Lencastre.
--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o logar do ajuste.
--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.a Rosa, e a minha cobardia, se m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr. tenente...
--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.
E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão, onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero resultado da busca a que procedera Arthur Soares.
--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e peça-lhe a honra de ser sua esposa...
--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...
--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por sua mulher legitima.
--N'esse caso... se V. Exc.a me affiança...
--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a mentira... Para a capella, senhores!...
O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença, em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.
Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario, sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente, d'esta vez, a sua respeitavel palavra.
O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços sahiriam!
De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os guardava. Estava domado o leão!..
Por quem?...
Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto, da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da veneranda cabeça um crucifixo com a
imagem do Redemptor do mundo...7
Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia popular, no palacio de Leopoldo.
O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da Mesquita:
«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»
5 O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia da intimação e da
retirada do exc.mo arcebispo primaz.
Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem,
pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo, foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que, em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes, foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do Evangelho--Fili, peccasti; non adjicias iterum.
«Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e
pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría as victimas para as immolar?
«Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem
como mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da Europa.
«Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no
funccionario como achamos no individuo.
«Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação
injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.)
6 Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara á
rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo» de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»
7 Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo povo o
castello de Vianna.