Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte
IV Visão
Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a donzella cheia de magestade.
IV
VISÃO
«Um presentimento de terror, d'aquelles
que batem no coração de repente, sem
saber por quê nem d'onde vêem...
«Tem sempre fé em Deus, que hade
querer o que fôr melhor para nós.
«E é trovoada isto, que se escurece
tudo?... Não, são as sombras da Eternidade
que vêem sobre mim.»
(Visconde de Almeida Garrett--Fragmento
de um romance inedito.)
Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria, veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma invencivel força de pasmosa vontade.
Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro; mas o seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons sentimentos que possuia: conheceu que sua filha era mulher de não retrogradar, e resolveu conformar-se, guardando silencio.
D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o que se passára, esperava os acontecimentos com a confiança das almas puras.
João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que lhe fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos, dizendo-lhes que ia seguir a sorte da guerra.
D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao tractamento do demente.
Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão, pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de um nome que podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser o d'ellas... O mais terrivel da visão, era o espectro da mulher de Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua mocidade, criminando-o pela forçada ligação a que elle a levára, e que fôra causa da morte prematura que tivéra... O velho fidalgo, implorava o perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu pae désse por escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela voz da eternidade:
«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso atirou ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que fizestes morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se amerceie da tua alma,--escreve: «Dou voluntariamente o meu consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o meu afilhado Arthur Soares. Ás portas da eternidade, prestes a comparecer perante o pae commum, reconheço que só é verdadeiramente nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==«Não faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as injurias, e ama o teu proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da Mesquita.»
E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava................................