Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte

Miguel J. T. Mascarenhas · Capítulo 27 de 34

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Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte

V Tres Soldados por Amor

Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo prostrado, por algumas horas, como se estivera morto.

Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um sonho fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora, aproveitou aquellas disposições do marido, para advogar a causa da filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle praticára em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de guardar segredo, dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente, sublime de eloquencia maternal.

No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe lia nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita estavam completamente fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da enfermidade...

Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a distincção de humanas raças...

 

V

TRES SOLDADOS POR AMOR

«Tomai pensar mais solido e sizudo:

O caminho segui que a honra indica;

Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»

(Poesias de Antonio Joaquim de Mesquita

e Mello).

Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho parocho, por occasião dos raptos, e do incendio, da primeira parte d'esta obra.

Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella ainda apesar do seu definhamento.

Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de frente, estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre.

A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor.

Trajam todos rigoroso lucto.

Ouviremos o que dizem João e Rosa:

--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.a D. Rosa?...

--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser... Tenho atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os homens atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era filha de um respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera considerando-me perdida... é de mais, bem o conhece!...

--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu exc. mo pae falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que ainda o veria muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, pelo meu nome, que v. exc.a era em tudo sua digna e honrada filha. Este meu juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado poucos momentos depois de sua exc. ma irmã D. Maria lhe ter dicto, por uma sublime inspiração, que a snr.a D. Rosa havia de resurgir pura de toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais, porque me era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como sabe, quando fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a Deus o perdão dos que a sacrificaram, e desconheceram suas virtudes;--mas não fallei com pessoa alguma da familia, porque assim era preciso... Poucas horas depois, já seu exc.mo pae não era d'este mundo!

--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu bom amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.

--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.a foi rigorosamente executado. Admiro-a, snr.a D. Rosa!... Como Deus lhe dá forças para esmagar o coração!...

--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos a meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu mesma não saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do meu actual proceder...

--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor aos seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc. a é das que póde praticar todos os extraordinarios...

--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada estima... Veja que apoucado poder é o d'esta extraordinaria mulher...

--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente, até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as suas loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é certo; deveria contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que merecia; mas esse mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso ficar parado... Antes morrer com a esperança no pensamento, do que arrastar a vida sem essa dôce consolação dos que padecem...

--E como lhe ha de conceder esperanças, a mulher que o senhor salvou da perdição, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor a outro homem?!...

--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso e dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que nem erro se póde chamar?...

--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!... Se fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto ainda superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria então sua esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não deveria occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha versatilidade?...

--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V. Exc.a já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que darei por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!... Chora?!... Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...

Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever:

 

« ma a Exc. Snr. D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso

Deus:

«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito açoitadas e pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o furacão da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr da Gloria, está sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero e creio, a christã resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.a, não virá longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos um pouco de nós outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas.

«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo: mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur. Perdôe a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da bocca o nome de V. Exc.a, proferido com igual respeito áquelle com que por vezes invocára o da sua querida mãe. Quizera responder-lhe com poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem, que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria da Gloria?!... Arthur está preparado para todos os acontecimentos... Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. Exc.a possa ser menos feliz do que merece.

«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.ma snr. a D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os dias, e acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado esposo, pae e amigo.

Padre Alvaro.»