Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte

Miguel J. T. Mascarenhas · Capítulo 24 de 34

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Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte

II Mysterio

Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:

--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo, até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»

Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam ambas repentinamente.

Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto, quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder, se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.

Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam já acompanhados do padre Alvaro e do medico.

 

II

MYSTERIO

«Os conegos da sé de Evora, conduziram,

sem pompa, á igreja de S. Domingos,

entoando as orações dos finados, o cadaver

truncado do duque de Bragança.»

(Chronica do seculo xv.)

Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento, e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do extremoso marido.

Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D. Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da justiça, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo Sebastião da Mesquita.

Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de tudo remediar, e assim o fez.

O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos leitores.

Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime. Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e de se evitarem, no enterro, todas as pompas.

Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente guardado por um dos romeiros.

Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza a encobrir o crime.

D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança, que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras, entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores.

No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para concentrar a sua cólera.

Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:

--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por que vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me não bata... pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está doido!... diz que lhe matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe muito, sim?... Vá... vá, que eu espero a resposta no quartel general...

E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.

--Este homem está effectivamente louco?!...

--Está, sim, snr.a D. Maria da Gloria...

--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...

--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco digna. O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua vingança, senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...

--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado... Quero vingar a minha querida Anna...

--Desconheço-a, snr.a D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança quer V. Exc. a tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...

--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher de raça quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle malvado, se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria terror, não me dominando a ideia de vingança...

--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc. mo pae?...

--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.

--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o que Deus não quer...

--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela dôr, e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...

Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e triste domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela voz publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D. Anna e da loucura de Leopoldo.