Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte

IV Mãe e Madre

--Pois V. Exc.a?!!...

--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que deve ser entregue por V. S.a em pessoa a mim, ou, de minha ordem, á minha amiga e discipula Rosa...

Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso.

Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço de tempo, immovel, com os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e pungente lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á residencia do thio.

 

IV

MÃE E MADRE

«Espero que essas pedras, que em outras

foram de escandalo, sejam em v. m. padrões

de espirituaes exemplos.»

(Fr. Ant. das Chagas--Cartas espirit.)

Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa, acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite, defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos rendimentos.

O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de ferro.

Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam em voz baixa umas ás outras, o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz septuagenaria, perguntou:

--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!

--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.

A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e, reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora. Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da abbadessa, fallou assim:

--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a horas bem importunas, implorar de V. Exc. a a minha tranquilidade domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de minha esposa e prima D. Leocadia.

Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.a sabe, a maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno ao destino que ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...

--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!... Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me, quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia. Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos dolorosos!

Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome, que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo misericordia, todo compaixão para as fracas creaturas de que é pae extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus esquecer os seus erros!...

Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.

Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas, que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente, pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.

Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo ao principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade propria dos annos ainda verdes.

Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com golodices e innocentes amabilidades.

Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente, que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má novidade o pozéra assim.

--Está muito doente, um filhinho que tenho...

--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...

--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo matrimonio.

Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos filhos do mais santo hymeneu.

--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.

Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda cabeça da respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça, que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.

Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.

Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver, podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.

Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido, disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem adoptava por seu filho.

Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia de Joãosinho, fragil e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal affecto.

Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas, tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar verdadeira interpretação.