Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte

Miguel J. T. Mascarenhas · Capítulo 19 de 34

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Um conto português: episódio da guerra civil: a Maria da Fonte

VII Tormentos Intimos

--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar, a mulher que... que eu não conheço!...

E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella, retirando-se vagarosamente.

O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço.

As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes.

 

12 a Quando a snr. D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de Saldanha,

que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em casa do fallecido snr. do Arco. Constou ao povo, que o palacete estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr: os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado, titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse dos seus tamancos, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.

 

VII

TORMENTOS INTIMOS

«Correu-me a vida outr'ora delirante,

Tive faceis amores, ledas glorias,

Julguei-me um dia amado e outro amante,

Sonhei promptas victorias,

E vi, em limpo céu formoso e puro,

Brilhante erguer-se o vulto do futuro.

Tumulto, agitação, rumor, bulicio

Compoz o meu viver.--Mas eis que

um dia

Paro e vejo o tremendo precipicio--

A vida, que vivia,

Era vida ficticia e descorada...

Um pouco de sussurro--e ao cabo... o

nada!»

(Silva Leal Junior.--Primavera.)

Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita, depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria, occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si indelevel estigma.

Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade importante, a da chegada á terra de uma rapariga de truz, que parecia ser de facil accesso, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com toda a minuciosidade.

Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa, e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»

Depois que João conseguira fazer retirar os petisqueiros adoradores de Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar, persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez, com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D. Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores, resolvera fugir, e dar-se como perdida, embora tambem estivesse resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais arriscados perigos.

João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento sério.

Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.

Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo ácerca do que entre elles se déra.

No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás linhas do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.

Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira, que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por mortalha.

Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do nosso tempo.

Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular: n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.

Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.

Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no futuro de sua filha Maria da Gloria.

Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.

O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:

 

«Minha muito presada Maria:

«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia da minha escolha.

«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que ella mais ama.

«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,

Sebastião.»

 

D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava ameaçada, com aquella ordem paterna.

O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de que fôra peccador.

Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D. Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.