Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social
3. A dimensão sociofamiliar: um homem sem família, um homem só
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
polícia. 118
A vulnerabilidade habitacional atinge seu limite no surgimento de segundas e terceiras gerações vivendo na rua. A pesquisa realizada em Porto Alegre, durante o 2º semestre de 1994, com 222 moradores de rua maiores de 14 anos identificou cinco pessoas que ou estavam na rua desde pequenos (três) ou tinham nascido na rua (dois) (PUC/RS, 1995). No caso, não é a precariedade do abrigo, e “a ausência concreta de teto que se estende a toda família. Moram na rua, junto a outras famílias nas mesmas condições. Algumas dessas crianças jamais tiveram uma casa. Nasceram ali mesmo, nas calçadas” (Silva & Milito, 1995).
Numa simplificação da problemática, a população de rua é considerada como sem-teto, um assunto das secretarias de habitação. Numa tentativa de ‘lapidar’ o fenômeno configurado pela presença de pessoas morando nas ruas das cidades, as autoridades governamentais freqüentemente procuram estabelecer uma diferenciação interna ao grupo social, reiterando que parte deles possui moradia. Em 1991, a Fundação Leão XIII divulgou que 30,6% teriam casas para morar em zonas periféricas do Rio. Em abril de 1993, o presidente da FLXIII declarou que era cada vez maior o número de pessoas que só moravam nas ruas durante a semana, caindo em 80% o número de moradores nos sábados e domingos.
Nos depoimentos obtidos, os moradores de rua podiam dar um endereço de referência, o que não significava ter um lugar para morar e, muito menos, manter vínculos familiares. Luiz Augusto, quando preenche as fichas cadastrais para obtenção de trabalho, dá o endereço da irmã, mas quando pedem algum comprovante de residência ele desiste do emprego, pois seria necessário entrar em contato com os familiares. Roni pode até fornecer o endereço da irmã, que mora no bairro do Méier, no Rio, mas nunca vai lá, pois
considera que não teria nada para dar119.
A pesquisa em Porto Alegre mostrou que muitas pessoas que permanecem na rua, duranteo dia, esmolando, cuidando ou lavando carros, têm moradia e retornam à noite para seus domicílios. Os que permanecem nas ruas podem até ter algum domicílio, mas preferem não voltar (PUC/RS, 1995).
E por que preferem não voltar? Para alguns a casa é igual ou pior do que a rua. Solange dizia ter um quarto em Queimados (Baixada Fluminense), mas, segundo ela, chovia dentro mais do que na rua; quando estava cozinhando a água escorria pelas suas costas, o que não acontecia debaixo da marquise de ônibus da rua Nelson Mandela, em Botafogo. Além disso, “lá não tem quintal”, enquanto na rua “as crianças têm espaço para brincar”. Para André, catador da rua Sorocaba, em Botafogo, não há diferença entre ter uma casa e estar na rua, pois a Violência “é no Rio todo”. O mesmo me afirmou Marcelo, que morava dentro de uma kombi estacionada na Fonte da Saudade. E Rodrigo, garoto de 13 anos, dizia que a rua era melhor do que em casa, pelo menos não apanhava.
A rua também foi contraposta, favoravelmente, à moradia ‘na casa dos outros’. Miguel passara ‘uns tempos’ em Nova Iguaçu, na casa da mãe de seu namorado. Apesar de ter considerado o período de permanência “muito bom”, voltara para a rua em novembro (de 1996), porque não queria atrapalhar: “não tem nada como o lugar da gente, sabe?, porque quando tu mora num lugar que não é o teu tu
tira um pouco do espaço da pessoa”120. Márcia me disse que não gostava de ficar em casa porque era “horrível”, e contava um episódio em que foi assaltada e ameaçada de morte, além de ter que passar “por cima de um cadáver que estava lá, atirado no chão”. O seu filho de dez anos está com parentes que moram em São Gonçalo (estado do Rio de Janeiro), mas, segundo ela, “lá é
horrível também” 121.
A referência à existência de uma família na periferia ou no interior do estado não significa exatamente ter uma casa, ter para onde ir.
Neca é mãe das duas crianças que estão com ela na rua.
Poderia estar na casa de sua mãe, mas o problema é que não
gosta de ficar na casa dos outros porque eles logo querem
mandar nela, e isso ela não aceita. Para Neca, a busca de
autonomia parece ser mais forte do que a expectativa de estar
em uma casa — o que é diferente, no seu entender, de ter uma
casa. (Magui, 1997)
A ‘arquitetura da indigência’, as variadas formas de precariedade habitacional pode ser desenhada através dos depoimentos de pessoas que trabalham com a população de rua. Uma dessas formas habitacionais é o mocó, que tem uma característica próxima
do cortiço, é como se fosse um cortiço subdesenvolvido122. Esse tipo de ‘casa’ são moradias semidestruídas, velhas e sem nenhuma comodidade — o telhado está caindo, as portas não existem mais,
não há água e tampouco luz123. São situações abrigadas limítrofes, em que as condições de vida se assemelham muito àquelas encontradas na rua, ao relento. E, assim como na rua, nenhuma dessas situações abrigadas pode ser denominada de lar. O espaço do lar envolve domesticidade, intimidade e privacidade.
Naturalmente, o fato de andar ‘carregando a cama nas mãos’, a itinerância, obsta uma relação estável com o ‘lar’. No entanto, mesmo quando mais sedentários, com uma apropriação territorial mais estável, é difícil sentir a rua como espaço ‘caseiro’. Ainda na década de 70, quando o fenômeno não atingira nem as proporções nem a caracterização contemporânea, Marie-Ghislaine Stoffels observou que para os mendigos a rua, ainda quando utilizada como moradia permanente, era sempre o ‘mundo distante’, estranho, com suas angústias e incertezas em contraposição ao ‘mundo próximo’, familiar e caseiro (Stoffels, 1977). A questão é que essa sensação de ‘lar’, em seus aspectos de domesticidade, intimidade e privacidade, pode estar tão ausente na rua quanto na casa referida como existente, no endereço fornecido, que permitiria a afirmação das autoridades de que (30 a 80%) “possuem moradia”. “Por casa explana terreno baldio, ruínas desabadas, um terreiro onde se podem juntar alguns esqueletos familiares” (Silva & Milito, 1995:80).
Entre os pobres a vulnerabilidade à violência é maior. Comparando taxas de mortalidade por causas externas, ou por homicídios, entre comunidades e bairros diferenciados segundo a renda, é evidenciada uma correlação positiva entre comunidades pobres e causas violentas (Pinheiro, 1996). A violência emerge como meio usual (e banal) de resolução de conflitos (dos mais prosaicos até a violência organizada), para defender seu status, seu ‘ethos’ masculino (nesse sentido a violência é, em larga medida, uma performance) ou como a reação de pessoas normais submetidas a pressões opressivas. Como ressalta Paulo Sérgio Pinheiro, se não há uma relação mecanicista entre pobreza e criminalidade violenta, é imperativo considerar como a desigualdade opera dentro do problema do crescimento do crime na América Latina.
A pesquisa sobre homicídios dolosos praticados contra menores
no estado do Rio entre 1991 e julho de 1993 124 mostra que a vulnerabilidade à violência é uma característica do ambiente doméstico e vizinhanças: a maioria dos adolescentes e crianças é morta em sua residência ou nas proximidades. O perigo a que o menino da rua está exposto parece ser compartilhado com os meninos de bairros pobres, periferias, favelas. Nos estudos que tratam a violência urbana como uma doença, uma epidemia, a situação de risco das vítimas foi caracterizada: idade entre 16 e 24 anos, eram mortos preferencialmente nos finais de semana, de noite, com uso de armas de fogo, estavam sob efeito da bebida, tinham envolvimento com drogas, viviam em bairros sem policiamento e eram desempregados (Dimenstein, 1996). Segundo
os estudiosos125, a pobreza não produz necessariamente violência e um determinado nível de pobreza não corresponde a um determinado nível de agressão. No entanto, analisando o retrato da vítima é possível indagar: em que outras circunstâncias de vida estaria presente e associado esse conjunto de vulnerabilidades, senão na pobreza?
Os adolescentes das famílias de trabalhadores pobres compartilham também um aumento de vulnerabilidade ao circuito marginal. O tráfico se apresenta como perspectiva de absorção imediata de meninos com dificuldades em arranjar trabalho ou freqüentar a escola, principalmente quando portadores do rótulo de infrator (Silva & Milito, 1995).
A vulnerabilidade à violência doméstica e de vizinhança, o perigo da casa, que relativiza o perigo das ruas para crianças e adolescentes pobres, incluí também o abuso sexual e os castigos físicos. A família cruel, em que o pai que foi muito espancado quando criança hoje em dia espanca o filho, é a situação na qual Silva e Milito vislumbram a “possibilidade de um enraizamento geracional da tortura doméstica, uma tradição brasileira” (Silva & Milito, 1995). Os pesquisadores chamam a atenção para estudos e depoimentos que revelam como as relações sociais das crianças e adolescentes pobres são mediadas pela violência, a um ponto tal que este instrumento de resolução de conflitos — da pancadaria ao tiro — passa a constituir o normal. A naturalização da violência envolve a sua aceitação passiva como as ‘regras do jogo’
vigentes126.
A violência como mediação principal nas interações sociais emerge também nas discriminações, criminalizações e construção de estereótipos que rotulam os jovens pobres, que compartilham o local de moradia com quadrilhas do tráfico de drogas, como “criminosos em potencial” (Zaluar, 1994a). Na criminalização dos membros de famílias trabalhadoras pobres este aumento da vulnerabilidade à violência nas condições de pobreza é imputado às comunidades, aos bairros, conjuntos habitacionais e favelas como características intrínsecas de seus moradores, um espaço onde ‘brotam’ violências e vulnerabilidades. Assim, a moradia, a cor, a origem, o jeito (a aparência), quaisquer elementos associados à pobreza, essas ‘etiquetas negativas’ são ‘coladas’ em certos grupos de pessoas suscitando reações sociais de indiferença e medo, e aumentando a vulnerabilidade desses indivíduos a violência como modalidade de interações sociais, a repressão, ao arbítrio da polícia e à condenação na justiça (Zaluar, 1994c).
Considerando a procedência de classe social dos moradores de rua, a dos trabalhadores pobres, a pobreza de sua condição de vida prévia à moradia na rua foi caracterizada como integrada por um conjunto de vulnerabilidades, situações portadoras potenciais de vetores de exclusão. Algumas ou todas as modalidades de vulnerabilidade — econômica, habitacional, afetiva, à violência e à discriminação — em várias combinações possíveis, se entrelaçam no seio das famílias de trabalhadores pobres, com diferentes graus de intensidade, promovendo diferenciadas histórias individuais e familiares. Porém, pode-se identificar nessas condições de vida a constituição do que Buarque denominou “arquipélago de grupos excluídos” (Buarque, 1993). A somatória, a concentração dos critérios sociais de discriminação, estigmatização e exclusão em certos grupos sociais resultam na configuração de uma ‘sociabilidade excluída’, ou seja, uma sociabilidade que não compartilha social e culturalmente das expectativas médias da sociedade brasileira (Bursztyn & Araújo, 1997). É uma sociabilidade construída, segundo Telles, pela lógica silenciosa das exclusões, que opera nas representações da sociedade brasileira sobre a pobreza, lógica permanentemente reposta no modo como as relações sociais se estruturam, definindo um tipo de sociabilidade que obsta a constituição de uma regra igualitária de reciprocidade que confira ao outro o estatuto de sujeito de interesses válidos e legítimos (Telles, 1992a).
A vulnerabilidade econômica incide diferenciadamente na família segundo os papéis que seus componentes desempenham e segundo a fase do ciclo familiar. Associada às demais vulnerabilidades, pode conduzir à deficiência e ao esgotamento da família como unidade de proteção e apoio. Sem anteparos sociais e públicos, as famílias podem reproduzir as vulnerabilidades num processo com conseqüências como a de pertencer às terceiras ou quartas gerações de pobres urbanos.
Frente a uma condição de vida pobre que associa e acumula vulnerabilidades, promotora de uma ‘sociabilidade excluída’, quais são os anteparos que obstam, parcial ou completamente, as trajetórias de desvinculação social? Em que âmbitos esses anteparos operam — familiar, laboral ou do Estado (públicos)? Qual o significado nas terceiras gerações de processos familiares sucessivos de vulnerabilidades? As respostas talvez possibilitem “repor os fenômenos em sua base fundamental, das causas que os geraram, dos destinos que a liberdade de escolha oferece” (Silva & Milito,1995),
Dessa forma a vulnerabilidade econômica é considerada como o pano de fundo em que se desenrolam os acontecimentos de uma sociabilidade excluída Entretanto, em vários depoimentos dos moradores de rua, esse pano de fundo da vulnerabilidade de rendimentos e consumo é minimizado, é considerado pouco importante na sua decisão de morar nas ruas, ou é até mesmo caracterizado como inexistente em sua trajetória de vida. Luiz Augusto me conta que pertence a uma família com um padrão médio de poder aquisitivo. Mesmo quando era pequeno, a família “não passava necessidade sobre alimentos” e inclusive, tinha casa
própria 127. André, catador da rua Sorocaba, em Botafogo, cujo pai é sócio de uma oficina de consertos de carros, diz que a família em
Salvador “está bem” ,no sentido de não passar privações 128. Miguel diz que seu tio que mora em São Roque (SP) “não é rico, mas é classe média, normal” e sobre a família no Peru comenta: “é normal, lá em casa nunca faltou nada para comer, graças a Deus, minha mãe tem uma pequena oficina de conserto de instrumentos
musicais, normal” 129. Cícero também fala de sua família, em João Pessoa, como “uma família totalmente normal, sabe? Cada pessoa trabalha, uns estuda”. A casa era própria e as dificuldades eram de consumo extra-alimentar. Relata uma época de dificuldades, quando o pai morreu: “a gente passou dificuldade, tá entendendo?,
dificuldade financeira, mas fome não, graças a Deus”130.
Em todas as falas o critério utilizado para conferir significado a vulnerabilidade econômica é ‘passar fome’. Se a família não passou fome (comentário sempre acompanhado de um ‘graças a Deus!’), no imaginário dos entrevistados não era uma família carente, miserável, era ‘normal’. Os limites dessa normalidade é que não se deixam perceber nas entrevistas e os meus parâmetros de conforto, bem-estar, acolhida e vulnerabilidade não servem de referência. O padrão de consumo pode ser extremamente baixo, mas, tendo a pessoa crescido numa família e vizinhança onde essas eram as condições de vida da maioria, é ‘normal’, configurando quase que um aprendizado de como (sobre) viver restringindo cada vez mais o consumo, um saber-viver com cada vez menos. Esse aprendizado lhes será muito útil nas ruas, onde é preciso sobreviver com rendimentos baixos e irregulares, assim como saber despojar-se de seus pertences e de suas referências de valores.
As reações individuais às vulnerabilidades familiares são diferentes segundo o papel que desempenham e os vínculos afetivos com a família. Nem todos os membros reagem distanciando-se ou rompendo seus vínculos familiares. Não são todos os irmãos que saem de casa e ‘migram para o desconhecido’ da rua. Rosilene Alvim, em artigo sobre as trajetórias de Vida dos oito meninos assassinados em frente à Igreja da Candelária (Rio de Janeiro), a partir de notícias da grande imprensa, destaca que nas histórias das vítimas a maior parte dos irmãos não seguiu a mesma trajetória (Alvim, 1995). Há, portanto, no interior de uma rede de papéis (responsabilidades e deveres) familiares, reações particulares, da criança ou do adulto, que remetem às características da individualidade e da personalidade, da autonomia do sujeito frente às condições adversas que a família como um todo está submetida.
A preponderância masculina nos movimentos migratórios e na população de rua indica que reações de sair de casa são mais frequentes nos homens jovens, o que não impede que também seja uma alternativa para adolescentes mulheres. Sair de casa pode ser o resultado de conflitos intergeracionais de consumo (Zaluar, 1994a), de conflitos de valores, de recusa de aceitar passivamente as perspectivas que circundam suas vidas em família e no bairro (Alvim, 1995), de busca de autonomia e independência. O que guardam em comum todas elas é o movimento — sair de casa, aventurar-se, mexer-se em busca de soluções. São “temas de um discurso de mobilidade masculina” (Agier, 1990) anterior ao movimento de sair de casa e andar pelas ruas: dizer que “quem fica parado é poste”, o uso das expressões “virar-se”, “correr atrás”, “ir à luta”. A pobreza, enquanto sobreposição de situações de vulnerabilidade, está associada ao movimento como reação para sua superação.
Quem é pobre precisa ‘ganhar a vida’, quem é rico pode ficar
parado. A saga do trabalhador pobre é a de ‘ter que se mexer’,
o que significa ter que sair de casa na busca do trabalho, do
‘pão de cada dia’, na ‘luta’ para encontrar o seu lugar no
mundo. (Da Matta, 1990)
No discurso de mobilidade masculina associado à pobreza agregada e nucleada familiarmente, o deixar a casa paterna se dá sempre na perspectiva de uma busca de soluções para as vivências de vulnerabilidade. Constituem experiências de movimento que antecedem a escolha da rua como alternativa de solução — quando se ‘cai na rua’, como os próprios moradores de rua definem esse momento de sua trajetória, em que passam da pobreza abrigada para a desabrigada.
A análise da perambulação, do nomadismo, da presença contínua do acaso, do efêmero e do eterno presente como elementos que caracterizam a população de rua está desenvolvida no capítulo 5. No momento o importante é reter a idéia de que o movimento, o nomadismo, a mobilidade é parte de uma estratégia jovem, e preponderantemente masculina, de sobrevivência frente às vulnerabilidades associadas e cumulativas da pobreza, anterior ao movimento de ir morar nas ruas e de nelas ficar andando.
Há, ainda, que se recuperar a autonomia do sujeito quanto às características de identidade e personalidade que, em determinadas condições de vulnerabilidade, promovem a decisão de morar nas ruas e de nelas se estabelecer. Vista como fruto de vulnerabilidades familiares, a população de rua não pode ser analisada sem se considerarem as características do sujeito, as suas possibilidades e formas de agir; não pode ser desconsiderada a sua autonomia, como se por ter nascido em determinada família economicamente vulnerável lhe coubesse um inexorável destino. No ato de ir morar nas ruas, há um elemento de deliberação individual que não pode
ser confiscado na análise do fenômeno131.
Dessa forma, a concepção de Becker sobre o ‘desvio’ como uma interação possibilita recuperar a heterogeneidade dos desviantes, colocando em segundo plano teorias que analisam o desvio a partir de uma causa subjacente ao ato desviante situada seja na personalidade, seja nas suas condições de vida (Becker, 1985). Analisar o desvio partindo de uma causa básica — a vulnerabilidade econômica — que teria motivado o ato desviante, por exemplo, ir morar nas ruas ou cometer uma transgressão ou um crime, não responde à pergunta: por que tantos outros indivíduos — que vivenciam as mesmas motivações e que compartilham sensibilidades e reações frente às normas e condições instituídas não percorrem uma trajetória desviante? A pobreza na rua é uma fração reduzida da prevalência de vulnerabilidade econômica, o que indica ser uma saída individual a certas condições que incidem sobre um conjunto bem maior de pessoas, da família e da vizinhança.
Ainda que os percursos que os levaram até as ruas sejam trajetórias de sucessivas perdas, as características de identidade não se perdem e conferem uma heterogeneidade de histórias de vida a essa suposta homogeneidade de condições vulneráveis de existência. Também, no resgate da autonomia do sujeito morador de rua, não devem ser menosprezados os depoimentos que argumentam no sentido de que “na rua está melhor”, “tem mais liberdade”, “é mais divertido”, na rejeição dos valores que estruturam a Vida social ao redor da família e do trabalho regular. Efetivamente, do seu ponto de vista e, por vezes, do ponto de vista da pesquisadora, diante de certas situações descritas, a vida na rua pode ser melhor, mas o entrevistado sabe o preço que paga por esse ‘melhor’, e não é barato.
Se o movimento é a reação do indivíduo pobre frente às vulnerabilidades, a unidade familiar como um todo também reage em processos que agregam seus componentes ou, ao contrário, promovem a sua expulsão do convívio familiar.
Na família que agrega, os laços de sangue e de afetividade preponderam sobre os conflitos, os vínculos conseguem equacionar carências com afetividade na distribuição de papéis de contribuição e consumo dos membros, Nessas unidades familiares, mesmo frente às adversidades se consegue, com o esforço maior e de cada vez mais membros, estabelecer uma ordem familiar, uma estrutura minimamente estável em que os “laços são regidos pela velha e boa ordem estabelecida pelas diferenças de sexo, idade e ‘sangue’” (Da Matta, 1991) em que cada qual encontra o seu lugar.
Se a fuga da criança ou do adolescente é de alguma forma consentida pela mãe, ou, pelo menos, incorporada ao cotidiano da casa, há vários testemunhos nas quais as mães possuem pouco ou nenhum controle quanto à decisão dos filhos em ‘ganhar a rua’. Há relatos de famílias estruturadas, trabalhadoras, virtuosas, cujos filhos fogem de casa para viver na rua. A fuga e motivada pelo ‘tédio’, por querer conhecer outros lugares, arriscar-se com os colegas em lugares mais distantes, por aventura, por brincadeira, ou por motivos banais, que eles mesmo declaram ser “bobos” (Silva & Milito, 1995).
Esse equacionamento das carências com afeto, ainda que em permanente tensão e instabilidade, é o que prepondera na grande maioria das famílias da classe trabalhadora pobre. Caso a reação das famílias pobres às vulnerabilidades fosse expulsar continuamente seus membros que, já nos limites entre pobreza e miséria, iriam morar nas ruas, encontraríamos uma magnitude muito mais ele-vada de moradores de rua. Caso as vulnerabilidades incidissem desagregando as famílias pobres, não teríamos para uma proporção de 40% de famílias pobres e 44% da população total (RMRJ, 1987) apenas 0,1% da população da cidade do Rio, cerca de sete mil pessoas, dormindo nas ruas, segundo estimativas da
Prefeitura em dezembro de 1991132.
Uma imagem que freqüentemente povoa o horizonte simbólico da sociedade brasileira é esta: a família pobre, ou melhor, o seu ‘desarranjo’ a sua dispersão e desagregação, ou mesmo a sua inexistência, é responsável, ‘culpada’ pelos destinos ‘marginais’ de seus filhos, constituindo representações sociais estereotipadas que estabelecem o destino do crime para meninos e rapazes oriundos das classes populares.
Pesquisa do Ibope133 divulgada em julho de 1995 evidencia traços da opinião pública (socialmente) formada a respeito dos meninos e meninas de rua, a partir da pergunta: ‘por que existem tantas crianças e adolescentes vivendo nas ruas?’ Agrupei as respostas, que podiam ser múltiplas, segundo a instância que foi responsabilizada pelos entrevistados (em %):
Tabela 4 - Causas do fato de crianças e adolescentes viverem
nas ruas (em %)
Vulnerabilidade Miséria 57 Econômica
Luta pela sobrevivência 27
Governo Faltam programas para a 37
juventude
Faltam vagas nas escolas 22
Família Família desestruturada 37
Violência doméstica 26
Mães sozinhas criando filhos 23
Pais obrigam a trabalhar e fogem 13
Comportamental Querem viver no crime e nas 14
drogas
Segundo essa pesquisa134 as razões que explicam a existência de crianças e adolescentes nas ruas estão vinculadas à vulnerabilidade econômica. A miséria como causa isolada principal, aliada à identificação de deficiências de ações de responsabilidade social e pública, poderiam sugerir a interpretação de uma opinião
pública consciente da responsabilidade social135 numa sociedade extremamente desigual, ou seja, a preponderância de uma explicação social para a desigualdade, superando uma visão natural
ou individual em voga nos anos 50/60 (Nascimento, 1997) 136. No entanto, é a instância familiar, de ordem privada, a que proporciona maior número de motivos explicativos para a presença de crianças e adolescentes nas ruas, como se nestas famílias — além de serem pobres e não contarem com o respaldo da ação pública governamental — faltasse um ‘gancho’ que conseguisse ancorá-los em seu domínio. Uma parcela da opinião pública mantém uma explicação ‘naturalizada’ da desigualdade e o ônus maior recai sobre a família pobre que seria, naturalmente, conflituosa.
Habitantes de bairros pobres e precários, os filhos das classes populares recebem todos os estímulos para estabelecer Vínculos tênues e instáveis com a escola e uma utilização crescente da rua como espaço de trabalho e lazer. Responsabilizar a estrutura familiar pelo desconserto desse múltiplo arranjo de determinações que conduzem as crianças para trabalhar e morar nas ruas da cidade é encontrar, senão um bode expiatório, uma estereotipia da família pobre, como desagregada e promotora de seres desviantes, marginais.
No processo simbólico de criminalização das vulnerabilidades que caracterizam a pobreza, a desorganização familiar emerge como explicação para as altas taxas de criminalidade. O ‘protótipo de família desagregada’ é aquele que não é uma família nuclear completa, casal e filhos. Na realidade cotidiana, no interior da diversidade empírica, esse protótipo é a família matrifocal, a família ‘incompleta’. Zaluar não confirmou essa tese em Cidade de Deus, um dos focos de criminalidade jovem no Rio de Janeiro: 70% das famílias entrevistadas eram completas. A pesquisadora tampouco constatou a ausência de padrões culturais que sublinhassem as responsabilidades maternas e paternas, verificando a existência de papéis bem definidos. Porém, salientou a ausência freqüente da mãe e a prática usual de deixar os filhos pequenos com um irmão apenas um pouco mais velho enquanto os pais trabalham, com conseqüências no estabelecimento e reforço das redes de relações sociais e na transmissão de valores morais do grupo (Zaluar, 1994).
Uma socialização primária com vínculos mais tênues na dinâmica familiar tende a ser compartilhada, precocemente e com maior freqüência, com a socialização na rua, já que a escola não funciona como anteparo social nas classes populares. Mas tanto a ausência integral do pai na família matrifocal quanto a ausência parcial da mãe no dia-a-dia por ter que desempenhar o papel de chefe provedor revelam as vulnerabilidades de uma condição de pobreza e não as referências morais de conduta; revelam uma sociabilidade excluída e não um padrão amoral de existência.
A atribuição à família pobre da culpa pelos destinos ‘marginais’ de seus filhos é integrante da formação de estereótipos no conjunto das representações sociais brasileiras, uma representação social que de certa forma abstrai as múltiplas dimensões da pobreza e imprime a essa condição um forte conteúdo (e controle) moral. Daí estratégias de sobrevivência, arranjos familiares ‘diferentes’ práticas sociais das famílias pobres — serem cunhados como ‘desagregrados’; “a opinião pública acusa as classes populares pela sua própria desgraça, uma vez que identifica nas suas formas de vida, de trabalho e de moradia a sede de uma desordem moral
geradora de todos os males sociais” 137 (Telles, 1990). “O apelo ao conceito de desorganização social para explicar sua família ‘desagregada’ nada mais seria do que manifestação da estranheza, dos que escrevem sobre a pobreza, diante de costumes diferentes do seu” (Zaluar, 1994a).
Os estereótipos são formados por cristalizações de imagens que estabelecem relações mecânicas — sem mediações e num processo de deduções lógicas — entre atributos individuais ou coletivos. Na constituição dos estereótipos opera uma ideologia que, como Arendt define,
é bem literalmente o que seu nome indica: é a lógica de uma
idéia; (…) é um movimento decorrente da própria idéia, uma
‘lógica’ que dispensa qualquer fator externo para colocá-la em
prática; um processo de dedução lógica em que a idéia gera-se
a si própria, transforma-se em premissa axiomática e o
processo de argumentação subsequente esta inteiramente a
salvo de qualquer experiência ulterior. (Arendt, 1989)
Esse encadeamento lógico de premissas e pressupostos está na base da formação de estereótipos que, no caso da população de rua, operam partindo da pauperização. Segundo a Fundação Leão XIII, o morador de rua
é submetido a um processo contínuo de inferiorização, de
subalternidade, de baixa auto-estima, degradando a sua
identidade política e social. Degrada-se também o nível de
relações familiares, que diante do quadro de miséria e carência,
transforma-se num fator de violência, submissão e de
compulsão (!) à vida de rua. (FLXIII, 1991)
O morador de rua pode ser etiquetado também como o ‘anti-cidadão’, na medida em que “resiste às normas que a sociedade ora lhe nega, ora tenta lhe impor, de constituir um lar, ser um trabalhador produtivo, asseado e decente, manter-se sóbrio, pagar impostos, eleger seus representantes, dentre outras qualificações do cidadão” (Magni, 1994).
Partindo de atributos negativos pode emergir a criminalização, ainda que a pobreza desabrigada seja menos criminalizada que a pobreza abrigada em determinados espaços de moradia como favelas e conjuntos habitacionais. Em todos os casos a profecia se autocumpriu e é isso que sedimenta um estereótipo: cada caso que se ‘encaixa’ com sua história nas deduções ‘lógicas’ traça de antemão uma trajetória que associa pobreza e criminalidade. No meio policial isso pode ser levado às últimas conseqüências, como narra Zaluar: “para estes policiais, a associação entre pobreza e criminalidade não é uma hipótese passível de discussão; é uma verdade, profecia autocumprida que eles próprios se incumbem de tornar verdadeira pela sua ação”. Como os pobres são, nessa ‘lógica’, sistematicamente os mais afeitos à criminalidade ou ao uso da violência, eles também são os criminosos potenciais ou os
suspeitos número um (Zaluar, 1994c)138.
A família na rua x a família à distância
A família na rua
Encontrar famílias vivendo na rua significa que os laços afetivos do núcleo familiar não se desfizeram e a busca de alternativas se fez em conjunto. Esse grupo é tradicionalmente configurado por famílias de migrantes e contemporaneamente composto por famílias expulsas das moradias na periferia ou das favelas, devido a carência de recursos, ou aos conflitos relacionados com o narcotráfico que se sucederam ao longo dos últimos anos.
A família na rua, unida, é minoritária na população de rua do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, mas não o é em Brasília. No Rio de Janeiro, em 1993, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS), 8,3% das pessoas que moravam nas ruas na cidade do Rio de Janeiro viviam como casal e 6,6%
viviam como casal com filhos 139. Em São Paulo, apenas 5% viviam na rua com a família (Sebes, 1992). Em Porto Alegre, dos 222 moradores de rua entrevistados, apenas 4,5% vivia com a família e 6,3% com companheiro(a) (PUC/RS, 1995).
Além dos grupos familiares formados antes da vinda para a rua, dos casais e das mulheres com filhos (família matrifocal na rua), existem outros agrupamentos: os grupos mistos que se constituem nas ruas. Podem ser analisados como tentativas de reconstituição dos laços familiares, mas guardam características próprias, como a instabilidade e a efemeridade, opostas às dos grupos familiares na rua que buscam estratégias de sobrevivência com tendências a coesão, sedentarização e fixação.
O trabalho de campo proporcionou poucos contatos com grupos familiares. Presenciei a constituição de uma família de rua entre um casal de adolescentes, Joyce e André, e um bebê, Douglas, com 14 dias de idade. Eles tinham se conhecido na fila de distribuição de comida em Madureira. A criança tinha um padrinho e a mãe contava com uma ‘vizinha’, todos morando e trabalhando nas ruas de
Botafogo 140. Por intermédio de Solange, conheci uma família ‘extensa’ — provavelmente ampliada através do aluguel de crianças — que agrupava entre quatro e nove pessoas, fora os que não eram da família e dormiam no local. Solange estabeleceu e expandiu, no mínimo durante um ano, uma ‘instalação’ na rua Nelson Mandela, em Botafogo, que no final já contava com sofá e colchão de casal, além de outros apetrechos como sacolas, isopores e caixotes. Em fins de fevereiro de 1997 o Juizado de Menores retirou as crianças e duas semanas depois um ônibus de recolhimento — não consegui saber de que instituição — acompanhado de um caminhão da
Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb) desfez a ‘instalação’141.
Durante o tempo em que estive em contato com Chicão, André, Manuel e outros catadores da rua Sorocaba, em Botafogo, Chicão casou. Foi morar com ele, no seu carro de catador, muito bem equipado, que ficava estacionado na frente do depósito, uma mulher jovem, por volta dos trinta anos, negra, e uma menina, muito
parecida com ela, com cerca de dez anos.142 Presenciei a troca de afeto e carinho entre vários casais na rua, porém Miguel foi o único de quem obtive um depoimento sobre a experiência de viver na rua
‘em casal’, no caso, homossexual.143
Em oposição à maioria da população de rua, constituída por homens isolados, ou em duplas, que teriam como característica a perambulação, os grupos familiares na rua tendem a localizar-se em espaços públicos onde o ‘lar’ possa ser minimamente reconstruído e no qual procuram fixar-se, sedentarizar-se, para prover o cotidiano de uma regularidade necessária ao seu funcionamento. As pesquisas documentam a reprodução dos afazeres domésticos pela família nos espaços públicos: cozinhar, lavar, estender a roupa, crianças brincando conferem um ar doméstico à rua. Mas não encontrei referências às transformações das funções regulamentadoras da família conseqüentes à moradia nas ruas que, como aponta a pesquisa da SDSAC/DF (1995), devem ocorrer, seja no sentido de maior frouxidão dos laços afetivos e de referência moral, seja no sentido oposto.
A modalidade de territorialização das famílias nas ruas difere não apenas dos indivíduos isolados ou em duplas, como também dos grupos mistos. No Rio de Janeiro, nos primeiros anos da década de 90, a SMDS, através de seus levantamentos, divulgou a existência de dois perfis da população de rua: os que viviam sob viadutos — famílias que constituíam comunidades — e os que viviam nas ruas e praças, que raramente constituíam comunidades.
A família, para manter-se como estrutura afetiva e econômica, tem necessidade de fixação territorial (Vieira, 1995), daí a procura de espaços sob viadutos, onde estão organizados em unidades familiares (Martins, A. L., 1993). Esse é o melhor espaço público para ‘juntar seu povo’, reunindo familiares dispersos em outros estados ou provendo um teto para uma família local desabrigada. Em 1991, pesquisa da SIMDS entrevistou 3.358 pessoas nas ruas: a maior concentração de pessoas foi sob o viaduto do Santo Cristo,
onde viviam cerca de 80 famílias144. Também em São Paulo a ocupação dos Viadutos apareceu “como forma mais expressiva
deste novo quadro de moradia na cidade”145.
Nas comunidades sob viadutos, Martins observou a presença de unidades familiares em sua maioria constituídas de homens, mulheres e filhos ou mulheres e filhos, e também a presença de parentes: irmãos, sobrinhos, netos e arnigos que dividiam a mesma
casa. Essas ‘famílias extensas’ 146 constituíam sob os viadutos uma rede de parentesco e vizinhança, com solidariedades e conflitos similares a qualquer comunidade pobre precariamente abrigada. As formas de cooperação e solidariedade observadas sob viadutos no Rio de Janeiro são semelhantes às descritas por Agier na ‘avenida’ em Salvador, ou por Zaluar, na Cidade de Deus; são espaços em que a organização de vida em família aparece como grupo social significativo. Os conflitos “não chegavam a impedir que se constituíssem localmente um sentimento de grupo” (Martins, A. L., 1993). A grande diferença está na propriedade do espaço — público — dos moradores sob viadutos.
As histórias habitacionais pregressas dos entrevistados por Martins se faziam acompanhar de apreciações sobre a nova moradia. Os viadutos se apresentavam para uns como a escolha possível para manter a vida organizada em moldes familiares, ao invés de viver na rua ao relento, em albergues ou em bairros distantes que inviabilizariam a sobrevivência. Para outros era sinal de que a Vida tinha piorado, que a pobreza estava mais aguda (Martins, A. L., 1993).
Pesquisa realizada pela SDSAC/DF, em 1995, em Brasília, um espaço urbano de muitas especificidades, evidenciou quatro grupos principais na população de rua. Cada grupo tinha uma localização e uma forma de demarcar seu território. Os grupos fixos detectados pela pesquisa na Asa Norte eram grupos que variavam de duas ou mais famílias, que se auto denominavam ‘parentes’. Algumas famílias estavam em Brasília há mais ou menos três anos, muitas das quais circulando em movimentos contínuos de migração para seu local de origem. Essa mesma caracterização foi encontrada em outra investigação realizada em 1996, com 150 famílias migrantes que chegaram na cidade após 1º de janeiro de 1995 e moravam nas ruas e espaços públicos de Brasília. Essa última pesquisa foi além por traçar a inserção social da estrutura familiar migrante em Brasília através da ‘economia política do lixo’. Os catadores-carroceiros não são organizados em associações, mas, em seus locais de moradia, vigora uma estrutura bem formal de organização; são comunidades relativamente fechadas, em geral circunscritas a relações de parentesco ou, pelo menos, de afinidade (conterrâneos). Cada grupo, que pode variar de quatro ou cinco até vinte famílias, tem uma liderança — o mais velho ou o mais antigo em Brasília, com a superioridade hierárquica dos pioneiros (Bursztyn & Araújo, 1997).
A estreita relação entre a população de rua e as atividades de coleta do lixo é evidenciada em todas as cidades. A preponderância da estrutura familiar ou comunitária na economia política do lixo caracterizada em Brasília parece ser conseqüente à predominância que o grupo familiar tem no interior do conjunto da população de rua
do DF 147, diferenciando-se do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Porém, como em qualquer lugar, a tendência da unidade familiar desabrigada é procurar um lugar onde assentar-se, e a partir desse assentamento sejam possíveis variadas estratégias de sobrevivência no espaço urbano.
A família na rua é alvo de uma maior repressão institucional, já que não é aceita nem social nem juridicamente. A ausência de um domicílio que abrigue a família gera o recolhimento das crianças pelo Juizado de Menores, além de ser motivo de perda do pátrio poder (Magni, 1994). Geralmente as soluções institucionais provocam a dispersão familiar, enviando crianças e pais para locais separados, imprimindo uma vulnerabilidade das relações familiares que até então, mesmo na rua, estavam preservadas. “Homem de 29 anos, mulher de 36 anos, menina de sete anos e menino de seis anos: preferem as ruas à opção da Prefeitura que é mandar o casal para abrigo da LBA em Itaipu e as crianças serem entregues ao
Juizado de Menores” 148.
Em suma, as famílias que passam a morar nas ruas e espaços públicos das cidades tendem a fixar-se e sedentarizar-se em um local que permita a reorganização em moldes familiares e vicinais (comunitários), como os viadutos. Quando não conseguem esse tipo de abrigo e se instalam nas calçadas, são mais vulneráveis à repressão institucional, cujas soluções tendem a dispersar o grupo familiar. Por outro lado, a coesão familiar confere legitimidade aos pedidos de auxílio junto às entidades de assistência privada.
A família à distância: contatos familiares e tempo
de moradia nas ruas
Como já foi assinalado, a maioria dos moradores de rua é composta por homens sós, sem convivência permanente com o grupo familiar. A família nuclear ou de origem está à distância, ainda que em graus variados de afastamento (modalidades e regularidade dos contatos familiares). Também ficam à distância os papéis que deveriam ser desempenhados nessas unidades familiares. Essa distância pode ser também — mas não somente — geográfica.
A pesquisa da Sebes/SP aponta que a freqüência dos contatos independe da presença de parentes na cidade, mas que é proporcional ao tempo de permanência na rua. A maioria dos moradores de rua tem família; os órfãos e abandonados constituem apenas 5% do grupo entrevistado. Os 95% restantes mantêm contato com os familiares raramente (20-30%), ocasionalmente (35-40%) ou freqüentemente (25%-30%). Não pode ser menosprezado o fato de que cerca de 70% da população pesquisada nos abrigos, casas de convivência e albergues eram originários de outros estados (Sebes, 1992). Isso não significa não ter parentes em São Paulo, mas pode indicar o afastamento da família nuclear ou de origem, e vínculos familiares consangüíneos mais tênues.
A pesquisa de Porto Alegre também aborda a freqüência e a qualidade dos contatos familiares: 37,8% têm contato familiar; 47,8% não têm e 14,4% não responderam. Entre os que têm contato, 24,8% visitam freqüentemente a família, 10,7% visitam eventualmente para ver os filhos, 38% visitam raramente, 13,2% escrevem ou telefonam raramente. “Chama a atenção a eventualidade, a casualidade e a raridade com que estes contatos são efetivados”(PUC/RS,1995). Entre os 47,8% que não mantêm contato com a família, a grande maioria (56,6%) alega como motivo “problemas de relacionamento familiar”, 11,3% declaram não ter familiares, 11,3% justificam dizendo que a família mora distante e 10,4% dizem que não visitam os familiares porque têm vergonha da situação (PUC/RS, 1995).
O tempo de moradia nas ruas permite avaliar indiretamente a desvinculação sociofamiliar, além de possibilitar situar conjunturas no processo de desenvolvimento histórico-social do país, já que essas conjunturas promovem aumento ou diminuição da população de rua. Informações coletadas pela Sebes/SP, divulgadas em junho de 1992, indicavam que 44% dos moradores de rua viviam nessas condições há menos de seis meses. Em setembro de 1995, o Datafolha indicou que 38% dos moradores de rua estavam nessa condição há menos de um ano, denominando-os “mendigos do Real”, em referência ao plano de estabilização econômica implementado a partir de julho de 94. Mas a mesma pesquisa revelou que o segundo maior subgrupo (26%) do conjunto era o dos que estavam nas ruas há mais de seis anos, ou seja, no mínimo a partir de 1989 tinham passado a residir nas vias públicas. Tanto em São Paulo quanto em Porto Alegre, em 1995, cerca de 35% da população de rua eram habitantes ‘crônicos’.
Em setembro de 94, levantamento da prefeitura de São Paulo havia detectado a existência de 4.549 pessoas morando nas ruas, das quais 46% eram naturais da região Sudeste, e 29% do próprio estado de São Paulo. A distância geográfica deve constituir elemento preponderante do afastamento do convívio familiar para os demais (12% de Minas Gerais, 40% oriundos da região Nordeste, 12% da região Sul e 2% da região Centro-Oeste). Ainda mais considerando-se que 31% eram casados e 53% tinham um ou mais
filhos (Datafolha, 1995)149.
O tempo de moradia nas ruas foi agrupado em recentíssimo (menos de um mês), recente (menos de seis meses), intermediário (entre seis meses e um ano), prolongado (entre um e quatro ou cinco anos) e crônico (mais de quatro ou cinco anos). São períodos de tempo que demarcam fases da vida na rua, que podem ser bem caracterizadas por momentos nos quais se apresenta o dilema de tentar sair da rua ou nela permanecer, ainda que, progressivamente, talvez, com menor intensidade. O quadro a seguir apresenta a
distribuição percentual do tempo de moradia na rua nas cidades 150.
Tabela 5 - População de rua segundo tempo de moradia nas ruas,
em São Paulo e Porto Alegre (em %)
Tempo de moradia na rua São Porto Ano
Paulo Alegre chegada
Recentíssimo — > 1 2 6,3 1995 semana < 1 mês
Recente — > 1 mês < 6 21 14,0 1995 meses
Intermediário — > 6 meses 15 7,2 1994 < 1 ano
Prolongado — > 1 ano < 5 30 4,3 1991-93 anos
Crônico — > 5 anos 33 37,8 1990 e
antes
Fonte: Datafolha, 1995; PUC/RS, 1995
Nas fichas de moradores de rua da Comunidade Evangélica de Jesus, apesar de um elevado percentual (40%) sem informação, encontrou-se uma distribuição semelhante às demais pesquisas, isto é, concentração nos grupos recente e prolongado ou crônico.
Tabela 6 - População de rua segundo tempo de moradia nas ruas,
Comunidade Evangélica de Jesus, Rio de Janeiro, 1995
Tempo de rua Nº % Ano
chegada
Recentíssimo — > 1 semana < 1 7 2,9 1995 mês
Recente — > 1 mês < 6 meses 47 19,3 1995
Intermediário — > 6 meses < 1 24 9,8 1994 ano
Prolongado — > 1 ano < 5 anos 39 16,0 1991-93
Crônico — > 5 anos 25 10,2 1990
Sem informação 97 39,7
Não mora na rua 5 2,0
TOTAL 244 100,0
Fonte: Comunidade Evangélica de Jesus, 1995
Além do distanciamento físico propiciado pelas migrações, a desvinculação no eixo sociofamiliar apresenta-se como um processo de afastamento gradativo, em que a freqüência dos contatos diminui e a condição de estar morando na rua tenta ser oculta, é um ‘segredo’.
O afastamento gradativo pode ser bem evidenciado na trajetória de Rodrigo, garoto de 13 anos que participava da ‘instalação’ de Solange, em Botafogo. Está na rua desde fevereiro de 1997, mas não foi a primeira vez que saiu de casa: “a bem dizer eu estou na rua há uns cinco anos” (1992). Já fugiu de casa Várias vezes, segundo ele, “todos os anos”. Os tempos de permanência na rua eram menores e a cada fuga estão aumentando. Na primeira vez não sabia de nada, foi para um lugar onde ficou “parado, olhando”. Depois, disse ter aprendido “de tudo”. Rodrigo mencionava manter contatos com a mãe através de uma funcionária de uma instituição
assistencial privada 151.
Luiz Augusto também conta uma trajetória de idas e vindas da rua, relatando que das primeiras vezes foi morar ou nos alojamentos das obras em que trabalhava, ou na praia do Recreio dos Bandeirantes. Depois voltou para a casa da irmã em Belford Roxo (Baixada Fluminense), mas tornou a sair e ficava nas redondezas, dormindo em bancos de praças. Desde fevereiro deste ano está morando nas ruas e desta vez decidiu “vir cá pra baixo”, ou seja, a Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Os irmãos não sabem que ele está morando na rua, nem podem saber. Luiz Augusto lhes disse que está morando com uns amigos. Esconde a condição de morador de rua também do dono do depósito de bebidas para quem
trabalha nos fins-de-semana, pois ele conhece sua irmã 152.
A baixa freqüência e a pequena intimidade dos contatos, principalmente nos casos de migração, permite que a maioria das famílias dos moradores de rua ignore essa sua condição. Becker analisa as estratégias — clandestinidade, segredo e dissimulação — utilizadas na esfera dos contatos sociais por fumantes de maconha para ocultar sua condição dos não-fumantes, cuja opinião lhes é importante e que se exerce sobre eles, fumantes, como mecanismo de controle social (Becker, 1985). São freqüentes os depoimentos que revelam que mesmo a pobreza abrigada procura afastar-se da “temida platéia de sua comunidade de origem” para exercer a mendicância ou pequenas vendas (Stoffels, 1977; Silva & Milito, 1995).
O sucesso das estratégias de ocultamento e segredo da condição de morador de rua em relação aos familiares depende de os contatos serem poucos e distantes. Com os transeuntes em geral esse sucesso depende de se conseguir dissimular na aparência sua condição de sem-teto. Embora os moradores de rua tomem algumas precauções para evitar encontrar conhecidos, as tentativas de dissimulação têm poucos resultados e, com o passar do tempo, o ocultamento torna-se mais complicado e a clandestinidade impossível. O ocultamento da situação tem também o sentido de preservar uma imagem de si próprio junto à família, que permanece como referência afetiva básica (Sebes, 1992).
Miguel, peruano com parentes no interior do estado de São Paulo, é bastante bem-sucedido na dissimulação de sua condição de morador de rua, por ser vaidoso e cuidar muito de sua aparência. De todos os seus amigos, apenas seu namorado Guto e uma amiga sabem que ele mora na rua, os demais conhecidos que não vivem nas ruas não sabem. Quando encontra, na situação de pedinte, com um antigo vizinho, diz: “que vergonha”. Miguel diz que ninguém (da família) sabe: “é ruim deles saber”. Telefona para a mãe uma vez por mês, diz que está tudo bem: “está ótimo, eu não vou falar assim: ‘tô morando embaixo de uma marquise’”. Ela não tem nenhum endereço dele: “eu inventei uma história que o serviço que eu estou trabalhando quase nunca fico em casa, entendeu? Então é melhor
que eu sempre ligo pra ela”153.
Roni, cearense que conheci como primeiro companheiro de andanças de Luiz Augusto, contou que se deparou com a situação de pedir pão numa padaria cujo gerente tinha sido seu patrão. Roni conseguiu evitar o encontro: “ainda bem, senão queimava o filme”. Chicão, líder dos catadores da rua Sorocaba, em Botafogo, que tem
mãe viva em Minas Gerais, me diz que falar com ela “é difícil” 154. Segundo Cícero, seus familiares em João Pessoa (PB) não têm idéia de que esteja morando na rua, mas também, desde que saiu
de casa, nunca mais falou com eles155. Marcelo, que é carioca, disse aos familiares — mãe e irmãos que estava morando numa hospedaria. Eles não sabem que ele está morando dentro de uma kombi no Humaitá. Marcelo acha que o pai (taxista) desconfia por
sua aparência 156.
A única exceção dentre os depoimentos que obtive foi André, catador da rua Sorocaba: ele me disse que falou com sua mãe (em Salvador, BA) pelo telefone e lhe contou que está trabalhando catando papel e morando na rua. Ela lhe disse para ir “embora para
casa” mas ele diz que não vai157.
Mesmo à distância, a família mantém seu poder de referência afetiva. Essas referências se apresentam sob variadas formas de representações que os moradores de rua fazem sobre suas famílias: como empecilho à vida ‘em liberdade’, como inadequada ao seu modo de vida, como motivo de ressentimento, mágoas e vergonhas, como lembranças carinhosas, com ambigüidades, como poço de cobranças, como impossibilitada de dar-lhe suporte material, como âmbito de convívio impossível, como lugar onde era bom de se estar. Os catadores-carroceiros, que ‘moram andando’, referem-se à família como inadequada ao seu modo de vida, andarilho e sem compromisso, e, efetivamente, não constituíam relações em moldes familiares, percebendo essa possibilidade objetiva como um futuro remoto (Martins, A. L., 1993). Crianças e adultos em situação de rua referem-se à família como empecilho à vida ‘em liberdade’. Além disso, consideram que a família não tem nada para lhes oferecer, já que também é muito carente, além de fazerem excessivas cobranças. Enfim, são apresentadas como a família com a qual não se acostumam mais a viver.
Todas essas são manifestações de relações simbólicas com a
família, relações imaginadas, porque não se concretizam 158, positiva ou negativamente, e que revelam esse poder de referência que a família mantém mesmo à distância.
Algumas referências parecem, com o tempo e a distância, ter ‘aparado’ os conflitos na memória, quando então a família aparece idealizada e o morador de rua culpa a si próprio. No caso, a idealização envolve, além de um passado com imagens de uma família carinhosa e amorosa, agregadora, também um futuro no qual será possível voltar ao seio desta ou de uma nova família. Na idealização do passado há um descolamento de uma realidade de vulnerabilidades que estiveram na origem do seu afastamento familiar; na idealização do futuro há um descolamento da concretização (e de sua própria participação) da série de eventos que viabilizarão o (re)encontro, tornando-o um (futuro condicional,. Tanto num caso como no outro são histórias de Vida inventadas ou prospectivas nas quais os moradores de rua podem se apoiar para viver, uma referência de Vida, mesmo que seja apenas na imaginação. Orientada ao redor da figura feminina, mesmo sob uma representação negativa, a família se mantém “simbolicamente em algo como um ponto fixo em torno do qual homens e mulheres podem contar uma história e montar uma biografia, atribuir sentido às suas existências e montar projetos de futuro” (Telles, 1990).
Nas relações imaginárias familiares, mesmo quando os laços estão rompidos como relação cotidiana efetiva, existe uma figura feminina que é evocada quando se fala no tema. Wanda, da Comunidade Evangélica de Jesus, me dizia a respeito dos moradores de rua atendidos pela entidade: “na vida desses homens da rua sempre tem uma mulher — a mãe que os abandonou, ou que casou de novo e preferiu o companheiro ao filho, ou a companheira
que desfez os laços familiares, sempre tem uma mulher” 159.
Ao longo do processo de afastamento de uma situação familiar conflituosa, a família segue sendo utilizada como recurso para suprir, ainda que ocasionalmente, certas necessidades como banho,roupas limpas, comida e até dormida. Nesse caso, a família recebe uma referência afetiva negativa, porém se mantém Como recurso de sobrevivência, numa relação,instrumental com tendência à ruptura do vínculo. Era o caso de Renato e seu companheiro de andanças, que encontrei em Copacabana. Os dois rapazes, em torno dos vinte anos, recorriam de maneira ‘utilitária’ às suas famílias — o amigo de Renato contava: “eu não falo com meu pai
mas durmo no carro dele”160.
Os sentimentos de afetividade que orientam essas referências familiares são positivos, ambíguos e negativos. Ressentimentos, mágoas, desavenças são referências freqüentes. Por vezes, o depoimento não é de que a família não tenha nada a oferecer e sim de que, mesmo tendo, a família não vai querer dar (afeto, apoio material, lugar). Mas o sentimento mais freqüente em relação à família que se situa à distância parece ser o de vergonha associado ao ‘futuro condicional’, isto é, a possibilidade de restabelecer o convívio familiar anterior ou constituir nova família, desde que consiga preencher uma série de requisitos como ‘acertar a vida primeiro’, ‘não voltar fracassado’ ou não aparecer ‘de mãos vazias’.
O futuro condicional também pode emergir como ‘idealizações de futuro’, no qual a família (re)constituída é um eixo central ainda que associado a trabalho e moradia. Na pesquisa de Stoffels, na década de 70, os mendigos de São Paulo referiam-se à expectativa de interromper a atividade de mendicância desde que fosse possível: retornar à área rural, conseguir um trabalho cujos rendimentos fossem similares aos da mendicância, manter a atividade como complementar a um trabalho regular ou manter a atividade a fim de que os filhos nunca adotassem a prática do pedido. Mesmo aqueles pedintes que não tinham filhos, erigiam “o filho em figura imaginária, suscetível de ser suporte de um projeto de trabalho ou estudo” (Stoffels, 1977) num futuro distante e condicional.