Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social
3. A dimensão sociofamiliar: um homem sem família, um homem só
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Solange afirmava várias vezes que, caso conseguisse recuperar suas crianças que estavam no Juizado de Menores, não voltaria a ‘descer’ para Botafogo, que o companheiro é quem viria trabalhar e
ela ficaria em casa, cuidando das crianças161. Quando perguntei a Marcelo sobre seu futuro, ele me respondeu: “futuro é voltar para casa”. Para isso, precisava “resolver o assunto da bebida” mas, segundo de, já estava parando. Eram mais planos que" situações concretas, pois me contara da noitada do dia anterior bebendo com os amigos até de madrugada — ao meio-dia ainda tinha cheiro de
bebida.162
Miguel dizia que nunca mais voltaria para casa de seu rio, no interior de São Paulo: “daqui, só se eu voltar pra minha terra”. Mencionava a vontade de voltar como um futuro longínquo:
eu não posso voltar pra casa do jeito que eu tô, por isso eu
queria arrumar um quarto pra mim, estabilizar-me de novo, ir
juntando meu dinheiro, levar minha vida normal como eu tinha
antigamente, depois, comprar minhas coisas como eu tinha e aí
eu agarrar e voltar pra minha casa; vou chegar na minha casa
de bermuda e uma mochila nas costas?163
Cícero retirava do horizonte próximo qualquer possibilidade de voltar para sua família, em João Pessoa:
às vezes eu penso em voltar, sabe? mas voltar da forma que eu
tô não pano não… eu tenho a maior vergonha de voltar pra
minha casa da forma que eu tô, destruído, tinha que tar bem
melhor, sabe? Ó só, vou falar uma mim…, sem dente, sem
roupa, sem nada, sei lá, destruído totalmente, não volto não164. Trajetórias de desvinculação no eixo
Morar nas ruas permite abandonar papéis que não se conseguia ou não se tinha mais vontade de cumprir, como, principalmente, a do chefe provedor. Porém, essa ‘renúncia’ ou ‘deserção’ implica o abandono do papel de pai. Em São Paulo, 53% dos moradores de rua tinham filhos (Datafolha, 1995) e supõe-se que Viviam afastados deles. Dentre os meus entrevistados com filhos, as referências eram de que alguém (a mãe, a avó) estaria cuidando das crianças, como era o caso de André, catador da rua Sorocaba, e de Luiz Augusto. Ou senão como Araão, que via suas crianças apenas em sonho: ele contou que sonhara com a cunhada lhe dizendo que as crianças
estavam bem, que Deus estava cuidando delas 165.
A fragilização dos laços familiares de origem, o abandono de papéis que supostamente entrelaçam responsabilidades e afetos propiciariam a reprodução de uma modalidade ‘frouxa’ de relacionamentos afetivos e familiares, tendo o efêmero, o casual, o inconstante como características das novas relações estabelecidas. Vários depoimentos indicam uma análise nesse sentido.
Ficar muito tempo sem ver filhos pequenos que estão em constante transformação, estar ausente do desenvolvimento da sua personalidade são ocorrências ‘naturais’. Luiz Augusto, por exemplo, só voltaria a ver suas filhas quando tivesse um dinheiro ‘bom’ para levar. Outros acabam por distanciar-se tanto que nunca mais têm notícias. Gilberto, 39 anos, natural da zona rural do Espírito Santo, saiu de casa aos 15 anos e nunca mais — há 24 anos — viu seus país. No Rio, durante seis anos, constituiu família nuclear com mulher e filho, morando embaixo de um viaduto em Pilares. Separado há cinco anos da mulher, depois da separação não soube mais do destino da mulher e do filho (Rangel, 1996). Dona Maria, entrevistada por Martins, dizia que, dos quatro filhos, só tinha notícia de dois, que visitava periodicamente. Os outros tinham se “perdido pelo mundo” e não sabia deles. Contou que uma vez viu a menina na Cinelândia acompanhada de outras crianças de rua (Martins, A. L., 1993). São todos exemplos de referências familiares frágeis e até mesmo ausentes, que colaboram no estabelecimento de um tecido relacional, seja familiar seja em agrupamentos, caracterizado principalmente pela efemeridade e pela baixa densidade do vínculo.
sociofamiliar
Castel (1991) elabora um eixo de análise da desvinculação social em que examina a densidade da inscrição relacional dentro das redes familiares e de sociabilidade, num leque de posições entre a inscrição sólida e o isolamento social total.
Em sua análise, esse autor percorre um período histórico em que o trabalhador, na França, saiu do “reino da tutelagem” e entrou no regime do contrato, sendo sua parte mais frágil. A tutelagem limitava e até oprimia mas conferia em troca um lugar de pertencimento, uma comunidade, uma “solidariedade próxima” que protegia. O regime do contrato libertou o trabalhador, mas o deixou também à sua própria sorte. Como anteparo à fragilização da condição operária, em que há transformações menos protetoras das redes de integração primária, foram construídas, na luta política, solidariedades secundárias, coletivas e públicas, no caso a constituição de um estado de bem estar social.
A desvinculação na dimensão sociofamiliar, tal como entende Castel, é uma ruptura em relação à estas redes de integração primária no sistema de interdependência fundado sobre o pertencimento comunitário.
Há o risco de desvinculação quando o conjunto de relações de
proximidade que envolve o indivíduo sobre a base de sua
inscrição territorial, que é também sua inscrição familiar e
social, encontra-se em dificuldades para reproduzir sua
existência e para assegurar sua proteção. (Castel, 1995)
O processo de desvinculação sociofamiliar atravessa momentos que variam entre a inserção sólida e o isolamento total, apresentando fragilidades, labilidades e vulnerabilidades dos laços familiares, das redes de integração primária. Castel oferece as bases para analisar as transformações das estruturas familiares que aumentam a sua vulnerabilidade a trajetórias de desvinculação, enquanto Paugam contribui na análise do significado dessas rupturas no plano individual. Na fase de ‘fragilidade’ ainda pode existir algum suporte familiar; na fase de ‘dependência’ os laços sociais estão se debilitando e a família não proporciona suportes; e na fase de ruptura há uma desvinculação de laços sociais e/ou sua completa exaustão. A ausência de relações com a família e com solidariedades primárias conduz a uma forte deterioração pessoal (e o uso abusivo de álcool e drogas) (Paugaum, 1994).
No contexto social francês, em que ações estatais e públicas são empreendidas como amparo para as vulnerabilidades e vicissitudes e funcionam amplamente como proteções sociais secundárias, Castel identifica uma fragilização geral do tecido relacional da família moderna e uma fragilidade especial das famílias economicamente desfavorecidas e com horizontes limitados de recursos relacionais. Por um lado, as transformações relativas ao poder tutelar levaram ao estabelecimento de uma parceria familiar fundada sobre uma relação de igualdade entre os papéis familiares, a ‘democratização’ da família, além dos índices que indicam a retração das redes familiares e o empobrecimento dos suportes relacionais. Por outro lado, é empiricamente verificado que a dissociação familiar “acelera o processo de precarização daqueles que estavam já vulneráveis antes da ruptura” (Claude Martin, apud Castel, 1995). Uma família restrita, sobretudo nos meios populares, significa pequena abertura para as relações sociais e profissionais, exceto aquelas do pai e, eventualmente, da mãe. Para as famílias monoparentais, o horizonte é ainda mais limitado (Castel, 1991).
Na França, assim como no Brasil, a estrutura familiar matrifocal é a mais vulnerável à pobreza. No entanto, entre esses dois países há distinções numéricas e qualitativas na condição de pobreza, na amplitude e acesso às redes secundárias de solidariedade e proteção, além dos diferentes significados simbólicos do grupo familiar no conjunto das relações sociais.
Castel identifica uma “espécie de espiral entre diferentes tipos de exposição da família aos riscos”, no processo que chamei de incidência de vulnerabilidades associadas e cumulativas da pobreza. As transformações da estrutura familiar que aconteceram no sentido de seu estreitamento de recursos relacionais e na liberação em relação às tutelas tradicionais produziram efeitos diferenciados segundo os tipos de família, e os membros das famílias economicamente mais precárias e socialmente mais desprovidas puderam ter “a experiência negativa da liberdade”: “descobre-se então que a liberdade sem proteção pode conduzir a pior das servidões, aquela da necessidade” (Castel, 1995). Ainda que esteja por ser demonstrado como se articulam os planos do capital relacional e da precariedade econômica, cujas relações complexas estabelecem várias situações intermediárias,
a hipótese parece amplamente verificada nas situações
extremas que associam expulsão total da ordem do trabalho e
isolamento social: os sem domicílio fixo, por exemplo, como
homólogo moderno do vagabundo das sociedades pré-
industriais. (Castel, 1995)
No entanto, se a situação de desemprego pode conduzir à ruptura dos laços familiares, também pode levar a uma mobilização dos recursos familiares. E, de fato, os dados permitem uma outra leitura, a que sublinha os fatores de permanência da estrutura familiar, pois a maioria das famílias, vulneráveis ou não, está estruturada de forma nuclear e restrita.
A labilidade da unidade familiar conseqüente a todas essas transformações se assenta, no caso da França, num contexto de vulnerabilidade de massa pós-proteções sociais, associado a elevados índices de desemprego. A ‘proteção próxima’, em que a família e o território eram as referências de proteção, já tinha sido integralmente substituída pela proteção social secundária das ações públicas institucionalizadas. A problemática contemporânea é a retração drástica da proteção social frente a uma precarização do trabalho. No caso da sociedade brasileira, o desenvolvimento econômico expandiu e aprofundou as vulnerabilidades associadas à pobreza, mantendo-se a unidade familiar como principal suporte das relações sociais da classe trabalhadora pobre, que nunca chegou a ser substituído ou significativamente complementado por ações públicas. Nesse território da desigualdade assentam-se movimentos mais contemporâneos, similares aos franceses, de fragilização da estrutura familiar moderna, com retração das redes familiares e empobrecimento dos suportes relacionais, de configuração de famílias monoparentais e restritas, de precarização da inserção no mundo do trabalho e de diminuição das atividades públicas.
Na desvinculação sociofamiliar de origem perde-se o lugar de pertencimento. Essa situação de crise afetiva e material pode ter diferentes significados nas trajetórias individuais na medida em que a rede primária venha a ser substituída por uma nova família (nuclear) e/ou por meio de inserções nas a relações de vizinhança e no mundo do trabalho. As proteções secundárias, públicas e coletivas interferem também nas conseqüências dos processos de desvinculação e ruptura familiar.
Ao se analisarem as trajetórias dos moradores de rua é possível caracterizar percursos em que vão perdendo sua inscrição relacional primária e, em geral, criando dependências institucionais. O processo de desvinculação sociofamiliar apresentou uma tendência à ruptura e esteve associado a uma deterioração pessoal com o uso abusivo de álcool. As famílias de origem dos moradores de rua apresentavam vulnerabilidades múltiplas e cumulativas da condição de pobreza. Nas trajetórias verificou-se tanto a associação da pobreza ao movimento quanto a socialização primária compartilhada com a rua, estabelecendo um limiar de maior fragilidade de desvinculação com o eixo sociofamiliar.
Após o afastamento/rompimento com a família de origem, para o habitante das ruas é difícil estabelecer nova família com a mesma intensidade e permanência, e assim como a classe trabalhadora pobre em geral não pode recorrer às inexistentes ou frágeis proteções secundárias, públicas e coletivas. As redes sociais que estabelece com companheiros de rua e entidades assistenciais, que lhes conferem novas unidades de pertencimento e lhes atribuem identidades socialmente estigmatizadas, são relações caracterizadas pela ambivalência, propiciando socializações efêmeras e instáveis. Seu tecido relacional estaria com posto por “sociabilidades flutuantes” — fenômeno abordado por Castel —, pois,
na ausência de uma socialização primária consistente, também
não encontram outras referências que promovam o
estabelecimento de vínculos, tornando-se indivíduos sem lugar
e sem referências, que vagueiam por entre feixes de relações
efêmeras (Castel, 1991).
Agrupamentos: fragmentações e
recomposições
Viver nas ruas, segundo o conjunto de estudiosos sobre o assunto, constitui um modo de Vida composto por um cotidiano e estratégias de sobrevivência, em que a rua é o “grande arsenal de recursos” (Vieira, 1995). Nesse modo de vida há formas específicas de utilização da cidade e de apropriação dos recursos urbanos para garantir a sua sobrevivência. Inicia-se, na rua, um novo processo de socialização. Na rua a formação de grupos é uma estratégia de segurança e de sobrevivência.
Tabela 7 - População de rua segundo constituição ou não de
grupos e tipos de grupos. Porto Alegre e Rio de Janeiro
Agrupamentos Porto Alegre Rio de Janeiro
1995 1986 1991
Sozinho 28,0 43,2 51,5
Em grupo 55,4 44,1 29,3
Casal 6,3 7,3 8,3
Com família 4,5 - -
Casal com filhos - 2,7 6,6
Em grupos com filhos - 2,7 3,0
Com amigo (dupla) 5,8 - -
Fonte: PUC/RS, 1995; FLXIII, 1991
Na cidade de São Paulo a contabilização da população de rua foi feita segundo pontos de localização de grupos de pernoite. Em 329 pontos de pernoite com 3.392 pessoas foi observada a seguinte composição dos grupos:
Tabela 8 — Composição dos grupos nos pontos de localização,
São Paulo
Pontos % de Grupos mistos % de exclusivos pontos pontos Masculinos 51,1 Homens e mulheres 15,8
Femininos 2,4 Homens e crianças 4,3
Crianças 0,6 Homens e mulheres e 22,8
crianças
Fonte: Sebes, 1992
Qual o significado dos agrupamentos? Constituem as referências ‘familiares’ e sociais possíveis nos limites de sua nova socialização na rua?
O modo de vida na rua, na medida em que inverte os princípios de organização social entre os espaços públicos e privados, confere enormes restrições que impedem ou dificultam reconstruir relações sociais baseadas no modelo familiar (Neves 1983). Reconstituir a família na rua não é de todo impossível, porém as observações e informações não indicam ser este o movimento. É o agrupamento a unidade de referência, de pertencimento que confere ao indivíduo morador de rua um suporte similar ao da família, em suas funções de sobrevivência e reprodução, podendo assim ser considerado como substituto da família. O agrupamento seria tão fundamental na estratégia de sobrevivência, entendida enquanto proteção e segurança, que não teria importância com quem se agrupar e sim o ato de agrupar-se (Sebes, 1992).
Stoffels considera o grupo como “elemento-tampão” entre a rua, lugar público e habitat total que concretiza a decadência, e a condição pessoal e social do mendigo. Funcionaria o agrupamento como uma espécie de “colchão amortecedor” oferecido pela convivência entre iguais, um ‘não sou só eu…’ que possibilitaria ao morador de rua recuperar, até certo ponto, a identidade pessoal e social. No entanto, tendo observado a importância do grupo para a subsistência e o ambiente que fornece para a vida afetiva e para o relacionamento interpessoal dos mendigos, a autora observa que o grupo é “necessário, porém paliativo à família” (Stoffels, 1977).
Os grupos que se constituem nas ruas, considerando-se a preponderância masculina da composição da população de rua, podem ser exclusivos ou mistos. Dentre os mistos (homens e mulheres) nova diferenciação estabelece-se pela presença ou não de crianças. Já abordamos os grupos familiares assim como.,a família matrifocal na rua, ainda que esta última tenda a pertencer aos grupos mistos com crianças.
A relativamente menor vulnerabilidade das mulheres — maior proteção familiar, culturalmente mais legitimada a recorrer ao amparo familiar e a possibilidade de emprego doméstico — explicaria sua participação minoritária na população de rua. A presença das mulheres na rua pode estar associada à mendicância, mas, nesse caso não participam dos grupos de moradores de rua como unidade de pertencimento. Seu tempo de permanência na rua é compatibilizado, de alguma forma, com suas atividades domésticas que permanecem como principais referências (Stoffels, 1977).
No interior dos grupos mistos as poucas mulheres, geralmente apenas uma, são compartilhadas. Na rua os papéis femininos parecem ser reduzidos pelo próprio espaço onde são exercidos, e menosprezados pela cultura preponderantemente masculina. A mulher é extremamente discriminada — os homens negam o seu relacionamento com mulheres de rua e as tratam como objeto: são trocadas por cobertores, aguardente e cigarro (Simões Jr., 1992; PUC/RS, 1995). As mulheres que vivem na rua geralmente apresentam problemas mentais e alcoolismo; são muito disputadas pelos homens e procuram ter um com panheiro, mesmo que não permanente, que as proteja do assédio dos demais (Sebes, 1992).
O álcool e a mulher são elementos (ambos considerados, da mesma forma, como ‘coisas’) que nos grupos são compartilhados, criam laços, ajudam a formar os grupos: “A pinga serve para encarar a rua. De cara limpa não dá, você fica com vergonha, medo. A pinga é comunitária, ela cria o grupo. E assim como se divide a pinga, se
divide a mulher. Ela tem que ser de quatro, cinco homens”166.
Foi possível observar a presença de vários e variados grupos de moradores de rua ao longo do desenvolvimento da pesquisa, corroborando-se a informação de que na composição dos grupos mistos, a presença de mulheres e crianças sempre foi minoritária. Em alguns grupos foi possível observar a divisão de tarefas por gênero: mulheres e/ou homossexuais desempenham as funções domésticas, homens são provedores (Sebes, 1992). Isso desde que o grupo tenha conseguido uma mínimo de sedentarização e fixação territorial. A permanência num determinado território por um período de tempo confere ao grupo certa estabilidade, ainda que de local e não de sua composição.
A presença de crianças e adolescentes nas ruas chama mais a atenção da mídia que a população de rua adulta. Esta experiência de vida — ser criança e viver na rua — também guarda uma diferenciação segundo seu grau de isolamento ou agregação, na formação de grupos apenas de sua idade ou constituídos também por adultos, e segundo a existência de algum vínculo familiar com elementos do grupo, seja entre irmãos seja até a permanência de toda a família na rua. Silva e Milito apontam que agrupar-se é fundamental para a sobrevivência do menino: “aquele menino de rua não está só. E quando, excepcionalmente, está, tem os dias contados (…) como peças soltas da engrenagem tornam-se vulneráveis. É o que aponta a leitura dos inquéritos sobre homicídios dolosos de menores” (Silva & Milito, 1995). Os pesquisadores revelam algumas redes de relações estabelecidas nas ruas e a observação freqüente da presença de familiares perto do menino. A criança parece estar só porque evita-se a contigüidade, a família ou os adultos ficam nos ‘bastidores’ de forma a aumentar a eficácia do pedido das crianças.
Os ‘pais de rua’ podem ser adultos ou pessoas apenas mais
velhas 167, com relações consangüíneas ou não, que protegem, supervisionam, orientam e controlam os menores, num determinado espaço urbano. Mesmo quando não se trata das chamadas ‘mães de rua’ que alugam crianças da periferia para obter rendimentos no Centro e Zona Sul da cidade, são Várias as funções desempenhadas pelas crianças nos grupos mistos: sobre elas recai uma grande responsabilidade na obtenção de rendimentos e na sobrevivência cotidiana. São as encarregadas de pedir dinheiro, alimentos, cuidar das crianças menores, fazer pequenas compras, vender coisas diversas nos sinais de trânsito etc.
Nas crianças e adolescentes que moram nas ruas o previsível e o agrupamento, ou seja, a constituição de uma relação mais ou menos orgânica com uma rede de atuação, o que implica certas obrigações, sobretudo, de territorialidade. Algumas vezes, grupos adolescentes formam redes de apoio mútuo e de pares que, sob comando de uma liderança, se apossam de um espaço, como aconteceu, por exemplo, com a Candelária. São adolescentes com referências familiares mas que se organizam fora do controle familiar e fora do controle adulto das ruas, configurando um ‘controle adolescente’ do grupo que disputa as ruas com outros grupos (Silva & Milito, 1995). O agrupamento exclusivo de crianças e adolescentes é minoritário em relação ao conjunto dos grupos de habitantes das ruas. As crianças e adolescentes que vivem em grupos mistos diferenciam-se daqueles que integram um grupo de (controle adolescente), porque nestes últimos observa-se uma relação mais conflituosa e agressiva com os transeuntes em geral e com os grupos de população de rua adulta, principalmente com seus integrantes mais depauperados como idosos e alcoólatras.
A relação de conflito intergeracional nas ruas é configurada, na visão da população adulta, pelos maus tratos que a ‘garotada’, os ‘menor-cheira-cola’ infligem aos que estão mais vulneráveis. Renato e seu companheiro, em torno dos vinte anos, revelavam as vantagens de serem jovens: quando passava o ônibus de recolhimento, só ‘as coroas’ e ‘os velhos’ eram recolhidos ou ‘jogados no valão’ indicando sentirem-se seguros pela esperteza e
agilidade que a idade lhes conferia168. Visto pelo ângulo da criança e do adolescente, é observado um “sentimento de rancor da população adulta em relação aos privilégios do menino, sobretudo os mais imediatos, aqueles que saciam a fome, por exemplo” (Silva & Milito, 1995). Ainda que os conflitos entre gerações na rua possam ser freqüentes, obtive também relatos que indicavam relacionamentos de solidariedade ou de ajuda mútua.
Os agrupamentos não constituem unidades familiares. Aos conflitos naturais não são antepostos laços de sangue e lealdade. Entretanto, os relacionamentos estabelecidos têm como referência a unidade familiar. Nas observações de Silva e Milito, na rua “há uma recomposição da família, ou pelo menos da idéia de família, mediante articulação dos estilhaços” (Silva & Milito, 1995). Parte dessa bricolage é a familiarização das relações, entre si e com transeuntes, que pode ser observada nos ‘parentescos’ criados e, particularmente, na linguagem adotada. Um companheiro eventual pode tornar-se marido, um conhecido há poucos dias é apresentado como irmão e Joyce, quando seu bebê tinha menos de um mês, já havia determinado qual integrante do grupo seria considerado como padrinho.
Tia e tio são os parentescos mais utilizados e também os mais ambíguos, criando uma falsa impressão de intimidade. Rodrigo, de 13 anos, que estava com Solange na ‘instalação’ da rua Nelson Mandela, em Botafogo, chamava a todos de tio: a própria Solange, os que pareciam ser seus tios de verdade, uma funcionária de uma fundação assistencial privada na praia de Botafogo. ‘Tia’ podia ser também a professora da escola, e dessa forma eram também chamadas as pessoas que passavam na rua a quem Rodrigo pedia algo ou com quem combinava de tomar conta do carro. Quando Rodrigo diz que vai com a ‘tia’ referindo-se a Solange — visitar as crianças que foram recolhidas pelo Juizado de Menores, menciona que um dos meninos o chama de no, e que vai levar biscoito e R$ 1
para o garoto169. Márcia me chama de ‘tia’ e depois diz que é maneira de falar, porque sabe que não somos parentes. Apresenta-se como irmã de Vanda, o que não era, como pensei inicialmente, uma forma de qualificar uma relação especial estabelecida na rua, mas apenas uma maneira de falar. Quando voltamos a nos
encontrar, Márcia já não era ‘irmã’ de Vanda 170. A falsa familiaridade do termo tia pode ser evidenciada na sua utilização mesmo em momentos dos mais agressivos e violentos, como por exemplo, quando crianças assaltam motoristas: “aí, tia, passa todo o dinheiro, só quero o dinheiro”.
Na rua não é preciso um sobrenome, pai ou mãe, como aponta Alvim. Os muito pequenos são adotados e passam a ter país e mães de rua. São adotados novos nomes que operam uma demarcação entre o mundo da rua e o mundo da casa. Nomes de batismo na rua fazem parte de uma outra lógica, de um outro sistema de classificação, no qual as qualidades físicas, naturais, muitas vezes repugnantes, como Nojento, Gambazinho, são priorizadas (Alvim, 1995). Mesmo quando não contém referências pejorativas, o nome de rua é adotado preservando a identidade prévia e demarcando uma nova identidade. Cícero tinha isso bem claro: seu nome de rua era Wellington. Cícero estava procurando alguma coisa “pra melhorar”, ao passo que Wellington era mais irresponsável ainda que também tivesse limites. “Eu tô aqui né? (conversando com você, sou um), aí, quando eu encontrar uma
ruma de maloqueiro, aí já vai ser outra pessoa diferente” 171. É comum inventarem nomes e por vezes esquecerem com que nome tinham se apresentado nas entidades de ajuda. Alguns faziam questão de me mostrar os documentos para comprovar a veracidade dos seus nomes, mas outros não se reconheciam nos nomes que eles próprios tinham acabado de me dizer.
A característica básica dos agrupamentos que se constituem nas ruas é sua composição fluida e flutuante. A efemeridade e a instabilidade são elementos preponderantes tanto de sua constituição quanto de sua localização no espaço urbano. Magni, em Porto Alegre, observa que a inconstância dos agrupamentos está diretamente relacionada com a intensa mobilidade na vida destes sujeitos (Magni, 1997). Para Martins, a instabilidade dos agrupamentos está relacionada ao tipo de espaço urbano ocupado: enquanto sob viadutos a tendência é a presença de unidades familiares fixas, nas ‘instalações’ em calçadas a população é flutuante, agregando-se temporariamente. Para a autora as condições de extrema precariedade das ‘instalações’ em calçadas, a fragilidade de seu aspecto físico e material também traduz relações sociais frágeis e fluidas (Martins, A. L., 1993).
Entre os fatores que interferem na constituição e estabilidade do grupo encontram-se intrinsecamente associados o tecido relacional interno e o espaço urbano ocupado, sua territorialidade. Os grupos estabelecem um cotidiano em que são compartilhadas estratégias de sobrevivência fisiológica e rendimentos (o produto da esmola, alimentos, informações sobre locais propícios ao pedido, repouso, obtenção de documentos e assistência em geral), por sua vez, condicionadas ao tipo de espaço urbano ocupado. Como ‘elemento-tampão’, os agrupamentos também interferem na sobrevivência afetiva dos moradores de rua. O grupo possibilita
ao mendigo, apesar dos constantes conflitos, um
relacionamento com um ‘outro’ relativamente estável, no qual
os próprios componentes conflituais têm alto teor afetivo. Esse
‘outro’, embora recusado na sua semelhança, é ao mesmo
tempo um ser próximo, que não censura a condição do
indivíduo e com o qual ele pode estabelecer uma relação de
troca (informações, experiências, opiniões, palavras vitais
mínimas). (Stoffels, 1977)
É o que estou chamando de ‘unidade de pertencimento’, que, no caso dos moradores de rua, é socialmente pequena e exclusiva. Não importa quem esteja no grupo, conhecidos, amigos ou desconhecidos; é a igualdade de estatuto são todos moradores de rua —, com suas trocas materiais, simbólicas e afetivas, que possibilita que qualquer grupo na rua possa vir a ser considerado como seu. Embora essa identificação não signifique uma aceitação incondicional do grupo em relação ao novo integrante que deverá adaptar-se, o que se quer ressaltar é que o indivíduo pode flutuar entre os grupos, participando concreta e diferencialmente em Vários deles, sem perder a referência do grupo como uma unidade de pertencimento. E, ainda mais, tendo o efêmero, o volátil, como característica intrínseca dessa unidade de pertencimento.
Na análise do tecido relacional dos grupos de moradores de rua pode-se estabelecer uma diferenciação entre relações nas quais predominavam referências de identidade e solidariedade (afeto, carinho, cuidado, amizade) e aquelas em que preponderavam referências de hostilidade e Violência (roubos, agressões, homicídios). Essas relações, lidas separadamente, concretizam-se simultaneamente, estabelecendo que a ambigüidade (a mentira, a dissimulação, a desconfiança) configure a base de qualquer tecido relacional, reforçando a efemeridade e a instabilidade que lhes são características.
O agrupamento, funcionando como viabilizador da sobrevivência afetiva e fisiológica em condições extremamente precárias, tem seu tecido relacional fortemente marcado pela ambigüidade: reconhecimento (identidade) e rejeição; solidariedade e conflitos; cooperação e disputa se apresentam em suas intensidades máximas. O outro morador de rua é seu melhor amigo, que lhe faz companhia, lhe dá informações e com quem divide os ganhos; mas é, também, seu pior inimigo, pois é quem lhe rouba os pertences quando está dormindo, pode agredi-lo por conflitos tolos e provocar seu isolamento.
Nas ‘instalações’ em calçadas o envolvimento afetivo apresenta um forte conteúdo pragmático, visando a colaborações nas atividades cotidianas. No entanto, o conflito latente e uma ameaça permanente às relações de cooperação. O uso freqüente de bebidas, a não-colaboração nas tarefas, ciúmes por parceiras e parceiros são motivos de muitas brigas e rompimentos. Num gesto extremo a pessoa considerada transgressora — os ‘alcoólatras’, ‘vagabundos’ e ‘ladrões’ — é expulsa pelos demais (Martins, A. L., 1993).
Esse forte coeficiente de ambigüidade que permeia o tecido relacional dos moradores de rua, seria conferido pela “agregação por semelhança”, ou seja, o reconhecimento de uma mesma condição precária os levaria a agrupar-se por necessidade, mas não possibilitaria a criação de vínculos mais estáveis. Assim, é uma coesão limitada e efêmera, relacionada com necessidades básicas para a sobrevivência.
Entretanto, possuem conjuntos de regras e sanções para a repartição dos bens (pinga, cigarro, comida), para a admissão de estranhos e para a regulação das relações que podem ser aplicadas pelos mais estáveis ou por lideranças e chefias (Sebes, 1992). Os estudos indicam o estabelecimento de uma estrutura de autoridade e hierarquia, utilizando-se para tanto desde a força física até o carisma (dom da oratória), passando pelos contatos na sociedade e pelos recursos materiais de que os indivíduos podem lançar mão (Sebes, 1992; SDSAC/DF, 1995). Um exemplo disso é Dedilei, que sabia ler e: levava a palavra de Jesus, para o grupo de moradores de rua a que pertencia, naquele momento composto por dezesseis pessoas. Isso o situava hierarquicamente num patamar de
superioridade em relação aos demais 172. Entre o grupo dos catadores da rua Sorocaba, em Botafogo, a liderança de Chicão era inconteste — pela idade e por ser veterano na rua e no ofício, era a
principal referência moral e de comportamento do grupo 173. Entre Márcia e Vanda também foi possível observar uma relação de dominação/subordinação: Márcia falava com Vanda gritando e de forma autoritária. Vanda obedecia às ordens de Márcia e calava-se. Márcia tinha um tom impositivo com Vanda, mas quando falava conosco de suas coisas, o tom era mais de lamúria e
queixumes1741.
O agrupamento envolve uma estrutura de autoridade e hierarquia que desenvolve, sobre uma base territorial, uma experiência de Vida controlada por regras, sanções e proteções. Os valores e regras morais e de comportamento podem ser tão severos e rigorosos que o seu desacato pode ser punido inclusive com a morte (Lima, 1994). A severidade das sanções foi observada também nas normas de conduta estabelecidas em grupos de crianças e adolescentes (Silva & Milito, 1995). Severidade que deve considerar a banalização e naturalização da violência como mediadora das relações sociais e os limiares de sobrevivência a que estão submetidos. Além das normas e códigos de comportamento os agrupamentos caracterizam-se também pela linguagem, ora criando novas palavras, ora atribuindo novos significados, num vocabulário que lhes é próprio e que deve ser interpretada pelo pesquisador, o ‘meninês’ ou o ‘ruês’.
No interior desse tecido relacional ambíguo e polifacético emergem as diversas manifestações. Foi comum presenciar cenas de afeto, carinho e zelo entre integrantes dos grupos. Relações amorosas de cuidados são geralmente observadas da parte das mulheres em relação aos homens. Com ou sem expectativa de retribuição, a mulher, dessa forma, encontra um referencial, um papel, um lugar propriamente seu que é o de cuidar do companheiro. Gestos de solidariedade no interior dos grupos são também observados na repartição da ajuda recebida entre os companheiros. Compartilhar comida, bebida e roupas podem ser analisados como gestos de solidariedade, ainda que tenham de ser levados em consideração tanto a grande oferta existente de doações de alimentos, quanto no caso das roupas, o fato desta ser considerada como descartável. Assim, há uma redistribuição da doação recebida entre eles, que passam adiante o que não gostam ou não lhes serve, desse modo diminuindo o volume e o peso do que estão carregando consigo.
A rede de informações existente entre os moradores de rua é extensa e ágil. Luiz Augusto, que estava dormindo em Botafogo, soube, através de companheiros de rua, da ‘Catedral’, para onde se mudou e onde sente-se melhor em termos de segurança e
alimentação 175. Miguel, depois que foi roubado, dirigiu-se para o Aterro do Flamengo, onde conheceu “uns caras bem legal” que lhe ensinaram os locais onde distribuíam comida. Foi também através
de um ‘conhecido de rua’ que aprendeu a ‘garimpar’ o lixo176. Cícero também, quando ‘caiu na rua’, aprendeu com os outros ‘maloqueiros’ a conseguir dinheiro e sobre os locais de distribuição de comida: “eu fui conhecendo várias pessoas, tá entendendo? Aí
eu fui descobrindo tudo” 177.
Na pesquisa realizada em Brasília, a amizade é caracterizada como um dos elos principais que envolve as relações na rua (SDSAC/DF, 1995). Deve-se considerar a contra-face sempre presente de conflitos e hostilidade e também diferenciar amizade de companhia. Embora os moradores de rua apresentem seus conhecidos como amigos, pude constatar que o vínculo tendia a desaparecer em poucos dias. Nesse processo, as entidades de ajuda constituem intermediações de companhias, já que os contatos, encontros e amizades são feitos nesses locais. Em quase todas as ocasiões em que encontrei Luiz Augusto, ele estava acompanhado por outro morador de rua, mas teve Vários companheiros de andança ao longo de um mês.
Cícero me declarou ser muito difícil fazer amizade na rua, porque não se pode confiar nas pessoas:
porque você nunca conhece ninguém na rua, a pessoa pode
estar com você mas de repente pode lhe roubar, pode lhe
matar, ainda mais a pessoa com dinheiro, com rádio, com
qualquer coisa de valor, pode até lhe matar para roubar 178 .
Miguel também declarava ser muito difícil fazer amizade na rua: “olha, de duzentos tira quantos? Uns dez e olha lá, né?”. Para caracterizar sua amizade com Cícero, a quem só chamava por seu nome de rua, Wellington, dizia que nele podia confiar, deixando a sua mochila para que tomasse conta: “eu posso ficar sossegado porque eu conheço ele, agora, vai deixar tua mochila com outro por aí que tu conheceu agora, deu meia-volta, tu não tem mais nada… é
fogo, na rua é fogo, maluco179” Ambos conheciam-se há dois anos, mas andavam juntos há menos tempo. Uma semana depois do depoimento anterior, Miguel tinha rompido com Cícero, alegando
que ele era “falso” 180.
Afirmei que a ambigüidade é a base do tecido relacional que agrupa e envolve os moradores de rua, reforçando as características de instabilidade e do efêmero da unidade de pertencimento. A ambigüidade é a característica do malandro que não se contrapõe à ordem que lhe é adversa e aprende a viver nos seus interstícios. A mentira, a simulação, a desconfiança permanentes são elementos de uma ‘cultura da dissimulação’, que lhe permite dar conta de um conteúdo pragmático de sobrevivência e de uma intensa carga emocional.
Silva e Milito a denominam “cultura da evasiva”, que se constrói na interação com a “cultura da evitação”. Chamam de (sub)cultura da evitação essa disposição genérica, não quantificada, ou mesmo quantificável, a mentalidade, o estilo de vida, o comportamento que se retrai e que quer evitar qualquer relacionamento com a diferença nas ruas do Rio de Janeiro, que quer evitar tudo que possa soar como ameaçador. É o terreno onde floresce o discurso da repressão Violenta e a predisposição ao linchamento que circunda, além das elites, inúmeros segmentos de habitantes de favelas e subúrbios distantes, compostos de trabalhadores. Por outro lado, afirmam os autores, esses personagens marginalizados, subalternos, lúmpens, estão permanentemente a negacear, a se contradizer, a modular seu comportamento num sentido tático para auferir vantagens contingentes. É o que os pesquisadores chamam, por seu turno de “cultura da evasiva”, uma interação sempre a permitir o desmentido, a produzir múltiplos significados. “Esse o nosso diálogo: entre o que evita e o que nunca é conclusivo, entre o paranóico e o fantasma. Ora, não há nada que alimenta mais uma paranóia do que um bom fantasma” (Silva & Milito, 1995).
Mentir faz parte dos códigos, é aceito como mecanismo de proteção e o mentiroso sequer se importa em ser desmentido. A mentira se associa à verdade, a ambigüidade da companhia acompanha a amizade, a desconfiança é permanente: “na rua não se pode confiar em ninguém”, é uma frase repetida. A insegurança é grande nas ruas. O sono não é reparador para os seus moradores. É necessário agregar-se, fazer vigília, procurar um lugar mais iluminado, para poder dormir. Encontrar um abrigo contra a chuva e o frio mas também seguro contra as violências institucionais (órgãos públicos de assistência social, polícia, fiscais municipais de habitação) e contra roubos e agressões entre os moradores de rua. Os relatos de roubos são extremamente freqüentes e acabam por configurar um cotidiano tão natural que um morador de rua conta ao outro que tinha intenção de roubá-lo. Diante disso os mais cautelosos deixavam seus documentos guardados nas instituições ou com conhecidos.
Nas ruas os conflitos entre moradores, pequenos ou grandes, são resolvidos através dos recursos disponíveis: ameaças verbais, agressões físicas ou mortes — com pedras, paralelepípedos, facas
e fogo181. Nas ruas a violência se manifesta como mediadora das relações sociais e os instrumentos da violência são extremamente primitivos, a indicar um componente da barbárie. Cícero me diz que a violência na rua é
uma violência sem sentido, sabia?, eu acho que não tem
sentido, por qualquer coisa eles matam outra pessoa, por
cachaça, por qualquer besteira, um matou o outro somente por
causa de um saco de latinha que o outro pagou… tem pessoas
muito revoltadas, muito revoltadas182.
Em 20 de abril de 1997 o assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, 44 anos, causou comoção nacional. Numa noite brasiliense, cinco adolescentes, alegando terem pensado que se tratava de um mendigo, atearam-lhe fogo enquanto dormia sob uma marquise de ônibus. O homicídio desencadeou um debate nacional sobre o assunto e ocupou as manchetes dos jornais por uma semana. Durante pouco menos de dois meses as mortes nas ruas foram acompanhadas pela imprensa. A partir de então voltaram a cair no mesmo esquecimento em que estavam antes da morte do índio pataxó. No entanto, um hospital de referência para tratamento de queimados em São Paulo registrava a morte de um mendigo por
mês183!
Violências físicas, homicídios e extermínios de moradores de rua (crianças, adolescentes e adultos) foram freqüentes ao longo do período da pesquisa, estabelecendo uma rotina social surda e crônica de se ‘desfazer do incômodo’, com momentos de ápice, como no massacre da Candelária, em julho de 1993. Apenas no assassinato do índio pataxó os agressores foram identificados como integrantes de classe média. Nos demais episódios ou a autoria era desconhecida ou era atribuída a outros moradores de rua, sobressaindo-se a acusação de meninos de rua. Os motivos variaram de disputa do ‘ponto’, tentativas de roubo, conflitos
anteriores, “intenção de zoarem e para ganhar notoriedade”184 e até
motivo algum, maldade pura — “esse moleque é o cão” 185. Em algumas matérias as declarações indicaram possibilidades de acidentes com pessoas que estariam bêbadas ou drogadas adormecendo com um cigarro aceso ou perto do fogo em noites frias.
A partir de julho o assunto desapareceu dos jornais mas, evidentemente, não do cotidiano dos moradores de rua. Não importa quais sejam as armas do homicídio — a miséria, fome, frio, pedras, pedaços de pau, barras de ferro, fogo, facas ou tiros. A autoria é, em geral, desconhecida e os inquéritos policiais, quando são abertos, vão parar no fundo da gaveta. A violência final vem ainda após a morte: é enterrado como indigente, perdendo tudo, até o nome e a identidade. “O anonimato das mortes é uma forma de
violência. É o que eu chamo de violência branca” 186.
No entanto, com toda essa ambigüidade e desconfiança permanente, é no grupo que o indivíduo consegue estabelecer, novamente, uma sociabilidade positiva e recuperar sua identidade. Entre iguais de condição, seus dons sobressaem, aparecem talentos, surge a admiração e o morador de rua pode voltar a ser não apenas humano, como um humano com qualidades. “Na rua ele vai encontrar grupos onde seus valores aparecem. E isso acaba sendo reconhecido pelo grupo. Começa a criar uma identidade, mas não uma identidade só de nome, mas uma identidade baseada nos talentos” (Muñoz, apud Simões Jr., 1992).
No processo de constituição de uma identidade positiva ocorre a necessária diferenciação, a distinção com os ‘outros’, que estariam em situação mais degradada, que são os que bebem ou se drogam, que são ladrões etc. Aparece no interior da população de rua um vocabulário altamente discriminatório que constrói uma tipologia negativa de sua própria unidade de pertencimento.
No conjunto da população de rua a diferenciação mais importante e reiteradamente assinalada — pelas instituições, entrevistados e pelos próprios moradores das ruas — é entre ser ou não ser mendigo. O não ser mendigo tem vários significados, mas a primeira demarcação é essa. Para a Secretária de Trabalho e Ação Social mendigos são “pessoas degradadas moral e economicamente que precisam ser recolhidas, pois não têm como se manter,
diferentemente dos trabalhadores de rua”187. Segundo a SMDS/RJ “o verdadeiro mendigo é aquele que está doente e não tem como
sobreviver, vai sem problema para a Fazenda Modelo”188. A Fundação Leão XIII aparece com critérios de definição por exclusão:
quem estiver dormindo na rua e não for boêmio, peão de obra,
desempregado, camelô, catador de papel, artesão, carregador,
lavador ou guardador de carro, é identificado como ‘mendigo
profissional’ e pode ser recolhido a um dos abrigos da
fundação189.
O termo mendigo foi abolido do vocabulário das pessoas e entidades que prestam assistência aos que vivem nas ruas. As qualificações dos ‘impertinentes ocupantes dos espaços públicos’ dos anos 80 foram construídas em contraposição aos atributos imputados aos (verdadeiros, tradicionais) mendigos. Mas evitar essa nomeação não pode obscurecer que a prática de sobrevivência — a “nova face da mendicância (sobrevivência mediante a ajuda publicizada)” — é composta da realização de pequenos trabalhos entremeadas com o pedido (Neves,1995a).
O termo politicamente correto em uso é morador de rua, e
entidades ligadas à Igreja preferem 190 sofredor de rua. Ainda no vocabulário da exclusão há uma distinção entre morador de rua e sem-teto, já que este último termo, tradução literal do homeless, aplicar-se-ia a situações mais abrangentes e melhor posicionadas na escala da degradação da vida humana, como desabrigados de enchentes ou outras calamidades públicas.
Os próprios moradores de rua procuram distinguir-se ‘deles’, dos
mendigos. “O que me dá mais medo é ficar como eles”191. Mendigo seria aquele que sobrevive pedindo esmola, o que não toma banho, não escova os dentes; é o ponto Enal da degradação humana. Os moradores de rua se chamam de ‘maloqueiros’: “a gente não é
mendigo. Somos trabalhadores, só não ternos teto para morar” 192. Mas essa diferenciação — tão importante para as instituições, observadores e vivenciadores da situação de rua — não é necessariamente visível, o que estabelece uma homogeneidade entre os habitantes das ruas.
Chicão fala de si e do grupo de catadores ora como “maloqueiros”, ora como “mindingos”, ora como “esmoléu” ora como
“andarilho”193. Mas alguns devem ser mais “mindingos”, pois Chicão diz que Manuel é “mindingo”, pois nem a barba quer tirar, não toma banho e anda muito sujo, enquanto Chicão e André andam limpos e arrumados. Em outro dia Chicão diz que eles, catadores, não são ‘esmoleiros’, eles trabalham. Esmoleiros são as mulheres e as crianças que ficam pedindo nos sinais da rua São João Batista.
Nos depoimentos fica manifesto o movimento de distinguir-se e afastar-se da imagem que a sociedade tem do homem da rua: sujo, fedido, bêbado e mendigo. Não negam que esse tipo de pessoa existe — e muito — nas ruas, mas não é ele, é o outro que anda em grupo, se mistura, bebe, tem vícios, o outro a reunir todos os ‘males’. Nas falas aparecem diferenciações que são feitas tendo por base oposições negativas e preconceituosas: o ‘negão’, que mete medo à meia-noite; o ‘maluco’, que ‘não está bom das idéias’, que só de olhar dá pra ver que ele é ‘doido’; os homossexuais (‘boiolas’) os ‘mendigos pés-de-cachorro’, que estão muito degradados física e mentalmente e vivem só de pedir; ‘esse pessoal’ (que está na mesma praça tornando igualmente a sopa) ‘que se mistura e tem vícios — bebe, fuma’. André, catador da rua Sorocaba, faz a distinção entre os moradores de rua que trabalham e os que brigam e matam, os “ladrões que não querem trabalhar, vêem alguma coisa
que o outro tem e querem pegar, mas isso é no Rio todo” 194.
Nos depoimentos surgiram diferenciações relativas àqueles considerados como necessitados pelos moradores de rua, os que estariam numa situação de vida pior que a sua e mereciam ser ajudados. Dalton, catador, quando quer dar exemplos sobre necessitados menciona “a velhinha que na favela vive das migalhas
dos outros”195. Chicão diz que os necessitados são os prisioneiros em delegadas e presídios. E Miguel faz referência aos meninos de
rua196. Nenhum deles faz referência a si próprios, adultos de rua, como necessitados.
Luiz Augusto me disse que nas ruas existiam dois grupos — o dos “sem chance” que “pelo comportamento, pelo estado, a família nem quer saber”, e o outro grupo, que seria o dele, o dos “com
chance” 197.
Miguel tinha uma visão extremamente depreciativa sobre os seus ‘companheiros de vida’: não querem trabalhar e por isso se encontram no estado que estão. Além disso, são extremamente passivos e vivem de ‘achacar’ (uma forma de pedir ou até extorquir dinheiro). “Esse tipo de pessoa toma o café, pronto, é que nem um
bicho, encheu a barriga, tá ótimo, são uns acomodados da vida” 198.
Miguel diz que o que mais há na rua é “ladrão, viciado, michê” 199. Segundo ele, dentre os que vivem na rua há gente que inventa doença, os cafetões, os que “botam a mulher e as crianças pra pedir e são os que mais ganham; tem muita gente que mora no morro e desce pra rua pra arrumar dinheiro, depois vai embora, tem gente
que rouba”200. Cícero elabora uma tipologia topográfica da população de rua:
as pessoas que mora no centro da cidade são mais
marginalizadas (roubam, cometem crimes), os que moram aqui
em Botafogo são mais acomodados (porque em Botafogo há
muita distribuição de comida). Já a gente estiver assim pra
Ipanema, Zona Sul, é outro tipo, cata jornal, cata latinha, vende
coisas usadas na rua, porque lá já é lugar qua não dá comida,
tá entendendo?201
Miguel e Cícero fazem uma estatística: das pessoas que vivem nas ruas, 80% são homens, dos quais 60% são homossexuais. Miguel diz que não são exclusivamente homossexuais, são bissexuais. Eles apontam a carência afetiva que sentem na rua e uma convivência quase que exclusivamente masculina como motivos para a opção sexual na rua e, também, o dinheiro, já que se “pára um carro para fazer um programa, oferece dinheiro, ninguém
vai recusar, né?” 202.
Isolamento e solidão
O isolamento e a solidão não emergem como uma contraposição aos agrupamentos. Estão presentes mesmo no interior dos grupos, na medida em que o vínculo estabelecido não promove uma inserção social e sim, apenas, um elo pragmático com uma unidade de pertencimento efêmera e fugaz. Além disso o isolamento físico, o ‘bloco do eu sozinho’, prevalece entre os moradores de rua como recurso para amenizar conflitos e como estratégia para diminuir a visibilidade e, portanto, a repressão.
O distanciamento da unidade familiar e o rompimento de laços e referenciais que o vinculavam à sua comunidade conduzem a uma experiência de isolamento que não pode ser negligenciada na discussão da identidade do morador de rua. Observado com particular freqüência no caso de deficientes físicos e/ou mentais, o isolamento é uma característica geral da população que habita nas rua, conferindo-lhes o significado existencial de não ter um lugar no mundo.
Arendt distingue isolamento de solidão203. No isolamento a característica é a impotência, a incapacidade de agir. É uma categoria da esfera política: não posso agir porque não há ninguém para agir comigo. A força, no entender da autora, surge quando os homens trabalham em conjunto: os homens isolados são impotentes
por definição204. O isolamento e a impotência surgem, por exemplo, nas tiranias em que ocorre a destruição da esfera pública e a esfera privada permanece intacta. Nesse caso, há isolamento sem que sejam interrompidos todos os contatos entre os homens.
O isolamento torna-se insuportável quando o homem isolado não é ‘de interesse de ninguém’. É aí que o isolamento se torna solidão. A solidão ocorre na esfera dos contatos sociais, refere-se à vida humana como um todo: uma pessoa pode sentir-se completamente abandonada por toda companhia humana (nesse caso estará solitária, e não apenas isolada). A solidão, inclusive, manifesta-se mais nitidamente quando se está na companhia de outras pessoas. É a experiência de não se pertencer ao mundo, que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o homem pode ter (Arendt, 1989).
A condição de isolamento pode significar tanto não ter qualquer lugar que possa ser chamado de seu quanto ter um lugar que é apenas só seu. Não ter um lugar no mundo caracteriza a solidão da condição de exclusão social. A constituição de grupos não interrompe uma trajetória de isolamento e solidão, a menos que se consiga uma organização, uma Vinculação a uma unidade de pertencimento e o estabelecimento de referências identitárias Mesmo que estas referências sejam as identidades efêmeras e transversais (policulturais) que integram os indivíduos nas “tribos”, mosaicos e constelações da pós-modernidade. A justaposição de indivíduos isolados, a constituição de agrupamentos, não constitui um anteparo ao processo de exclusão social, na medida em que a sobrevivência de cada um não chega a constituir-se em interesse do outro.
Essa experiência de isolamento e solidão é apontada por alguns autores como explicação para o alcoolismo, tão generalizado na população de rua a ponto de constituir-se em elemento intrínseco de seu perfil. O álcool constituiria o mediador privilegiado na relação com o mundo da rua; a inseparável garrafa de pinga possibilitaria ao morador de rua enfrentar sua dupla solidão: em relação ao seu passado e em relação ao seu grupo social. Pareceria ter a capacidade de tornar integrado dentro de si o que se apresenta tão fragmentado (Sebes, 1992). A bebida é indispensável para todas as horas — mais que a comida; é o aliado que o homem da rua possui para enfrentar a violência, o frio, o cansaço pelas poucas horas dormidas, a debilidade advinda com a doença e, principalmente, a solidão (Simões Jr., 1992).
A análise da prevalência de alcoolismo na população de rua deve levar em consideração elementos anteriores e posteriores a sua moradia na rua. O alcoolismo constitui motivo de conflitos e rejeição no grupo familiar, de dificuldades na obtenção e manutenção de
empregos, e um forte obstáculo para a economia de dinheiro205. Na rua é um instrumento de sociabilidade, elemento de criação pontual de grupos, objeto de solidariedade mas também de disputa e conflitos. É, em qualquer circunstância, um grande anestésico frente a situações adversas e problemáticas. Na rua é uma forma de enfrentar o medo, o frio, a vergonha e o desespero. É uma forma deliberada de não pensar e de diminuir .a intensidade do sentir.
O álcool possibilita desligar-se do mundo real e mergulhar em outro plano da realidade, tornando suportável o cotidiano. Atenua (provisoriamente) as condições de vida, mas é responsável pelo alheamento (Sebes, 1992). Considerando-se que a desvinculação no eixo sociofamiliar é um processo de fragilização que pode converter-se em isolamento e vazio social, o álcool é uma forma possível de preencher esse vazio ou, melhor, uma maneira de sequer senti-lo.
O isolamento social não é rompido pela atuação das instituições assistenciais. As entidades estabelecem mediações e criam dependências, porém o vínculo, quando estabelecido, assenta-se na tutela do necessitado, na homogeneização da carência, na desindividualização ou despersonalização do assistido. Essas instituições não estimulam o desenvolvimento de identidades autônomas, não criam unidades de pertencimento que se contraponham ao isolamento social previamente instaurado na existência individual e podem, por vezes, acentuá-lo.
O isolamento, qualquer que seja a idade ou motivo, representa sempre um empobrecimento dos suportes relacionais. É a experiência de uma ‘liberdade negativa’ constituída pela ausência de toda participação numa sociabilidade reconhecida (Castel, 1995). Mas, como ocorre com qualquer desviante, o morador de rua é caracterizado por sua ‘etiqueta’ e o estereótipo prevalece na análise de suas ações. A fantasia estereotipada de sua pessoa acaba por excluí-la do convívio social (como na situação do criminoso); caso esse processo seja bem concluído, cria-se uma organização e uma cultura que dão suporte e, por sua vez barram as saídas dessa nova identidade (Zaluar, 1994c).
No Brasil o isolamento adquire um significado especial, mesmo quando não se trata de moradores de rua. Numa sociabilidade fortemente marcada pelo domínio da casa, em que prevalecem as relações pessoais, os laços de amizade, lealdade e compadrio, o isolamento e a individualização somente devem ocorrer quando não existe nenhuma possibilidade de definir alguém socialmente por meio de sua relação com alguma coisa, seja pessoa, instituição ou até mesmo localidade, objeto ou profissão. “Entre nós a família é o recurso essencial para definir a própria pessoa, o próprio ser humano” (Da Matta, 1990, 1991).
Assim, no caso dos moradores de rua, os processos de vulnerabilização dos vínculos familiares, o afastamento dos contatos, o isolamento social e a solidão acabam por expulsar o indivíduo da própria idéia da humanidade. Nesse caso “vivem e morrem sem deixar vestígio algum” e “passam a pertencer à raça humana da mesma forma como animais pertencem a uma dada espécie de animais” (Arendt, 1989).