Visões da Morte

Gary Braver · Capítulo 7 de 10 · parte 1/2

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Visões da Morte

– Não sei o que dizer –…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

a

49

– Não sei o que dizer – Sarah falou enquanto dirigia para levá-lo em casa.

– A sua experiência foi a prim eira que chegou perto de um a possível

transcendência.

– E quanto a todos os outros voluntários?

– Eu só estou no proj eto há poucos m eses.

– Mas você deve ter visto os registros.

– Pouca coisa, e nada m uito prom issor. Apenas um a ou duas eram

possíveis experiências extracorpóreas. Mas incidentes isolados, sem

repetições com o no seu caso.

O que estava longe de ser reconfortante.

– Então, você está m e dizendo que a m inha m ente se separou do m eu

corpo e eu experim entei o atropelam ento daquela m ulher.

– Eu estou dizendo que os dados brutos m ostram um a experiência

m uito intensa. Quanto ao cenário de atropelam ento e fuga, poderia ser algo criado na sua própria cabeça, um sonho-relâm pago.

– E sobre a possibilidade de essas experiências estarem destruindo o

m eu cérebro? Alguém se preocupa com isso? – retrucou. – Que tanta

toxina e tantas paradas cardíacas estej am m e deixando m aluco?

– Você j á teve pesadelos ruins antes, todos nós tem os. Mas você não

perdeu a cabeça por causa deles, não é?

– Então, você está m e dizendo que aquilo pode ter sido um pesadelo

estranho.

– Estou repetindo Morris aqui, m as, sim . Coisas em seu inconsciente

foram ativadas assim que deixou o estado de quase m orte.

Ele não saberia dizer se ela realm ente acreditava naquilo ou estava

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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apenas tentando acalm á-lo.

– Mas você disse que os estím ulos foram registrados em tem po real,

enquanto eu estava apagado.

– Sim . – Ela ficou em silêncio por um m om ento. – Zack, eu realm ente

não tenho um a boa resposta.

– Mas, no m eu lugar, você se subm eteria a outra sessão de quase

m orte?

– Não posso responder a essa pergunta. Depende de quanto essa experiência foi perturbadora para você e de quanto risco está disposto a

correr para passar por outra.

Em um flash, ele viu o pai com sua veste m onástica, parado na

floresta, diante de um a grande rocha. Hora de um a conversa de gente

grande.

– Vou pensar sobre isso.

Quando ela o deixou em casa, ele j á estava se sentindo m ais estável.

Antes de ele descer do carro, ela lhe deu um abraço.

– Quer subir?

– Hoj e, não. Tenho um a tonelada de trabalho.

Ele lhe deu um beij o de despedida e subiu para o seu apartam ento.

Tom ou dois com prim idos para dorm ir e, antes de m ergulhar em um a noite

inteira de sono sem sonhos, novam ente viu o pai com a longa veste

m arrom parado diante de um afloram ento de rocha de grandes

dim ensões. Conversa de gente grande.

No dia seguinte, sexta-feira, ele telefonou à Sarah para dizer que se

subm eteria a outra sessão na próxim a terça-feira. Com o ela estava livre

naquela noite, e Dam ian não precisaria do carro no fim de sem ana, Zack

levou Sarah até a orla m arítim a e fizeram um passeio de balsa no Boston

Harbor.

No fim de sem ana, Zack trabalhou em sua dissertação. Por sugestão

de By ron Cates, ele usou a receita e com prou o antipsicótico Haldol, que

aparentem ente funcionou: nada de sonhos sobre rastej ar na areia. Nada de

visões psicóticas de passar com o carro por cim a de alguém . Nada de flashes repentinos.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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Na terça-feira à noite, Sarah o apanhou e o levou para o laboratório.

Todos estavam encantados, especialm ente a doutora Luria, que m al podia

conter seu alívio.

Ele foi preparado e estava pronto para deslizar para dentro da m áquina

de ressonância m agnética. Seu últim o pensam ento foi: Pai, por favor,

estej a lá.

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Aquela seria uma noite memorável para Billy – sua vida praticamente

reiniciaria a partir dali. Quebraria o seu recorde pessoal.

Ele havia convertido a garagem em um a academ ia particular,

acrescentando um rack de pesos e dois bancos, um inclinado, e outro reto.

Tam bém tinha um a m áquina usada Cy bex para as costas e os om bros.

Ele ainda estava m atriculado na academ ia local, m as gostava de ter o seu próprio espaço de treino onde podia executar suas séries sem um

m onte de outras pessoas ao redor. Na verdade, preferia se exercitar

sozinho. Com o sua esposa fora visitar os pais em Albany , tinha o lugar

todinho para si e podia puxar ferro com toda paz e sossego. Esperava

naquela noite elevar seu desem penho no banco supino a um novo

patam ar.

Billy estava orgulhoso com o desenvolvim ento de seu tronco. Estava

levantando 18 kg na rosca direta e 30 kg no encolhim ento de om bros. Mas

ele tinha de trabalhar seu peito. Queria peitorais m aiores, esculpidos,

com o de alguns atletas e de estrelas de cinem a. E poderia obtê-los com o

supino regular, aum entando ao m áxim o, o que significava identificar a

parte m ais fraca no desenvolvim ento do peito e concentrar-se nela.

Sua parte m ais fraca era a elevação do peso do peito, de m odo que ele

se concentrava em levantar a barra não m ais que quinze centím etros. Os

vídeos de exercícios recom endavam ir devagar, trazendo a barra na fase

negativa até o final, e não trapacear estufando os peitorais. Seu obj etivo

era ficar com o corpo sarado para a praia, agora que o verão estava

chegando. Seu tio favorito era um advogado que tinha um a casa em

Martha’s Viney ard, onde ele e sua esposa passavam um a sem ana todos os

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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anos, em j ulho.

Ele fez um aquecim ento com 100 kg, com pletando três séries com

bastante facilidade. Após um descanso e um pouco de água, fez um a série

com 118 kg, que correu bem , e ele sentia-se forte. Tão forte que colocou

m ais um peso em cada extrem idade da barra, elevando o total para 126 kg

– 8 quilos acim a do seu m áxim o. Sim , ele estava erguendo aquele peso,

m as tudo o que queria era um levantam ento total para quebrar seu

recorde.

Ele plantou os pés firm em ente de cada lado do banco e, em seguida,

levantou os braços e agarrou a barra que descansava no suporte. Era o

m aior peso que j á havia levantado, e estava ciente do esforço para m antê-lo

no alto com os braços esticados. Muito do fisiculturism o estava na cabeça,

na força de vontade. O truque era focar totalm ente no m om ento e se

concentrar nos m úsculos específicos para chegar ao próxim o nível.

Para isso, desligou o telefone celular, dim inuiu as luzes e inseriu

tam pões de ouvido para bloquear o barulho de carros subindo a rua, cães

latindo, aviões passando. Então, enquanto estava ali deitado no banco,

segurando a barra, ele se concentrou com o um laser nos seus peitorais,

deixando de lado todo o resto até ele próprio se tornar apenas aqueles

m úsculos.

Fechou os olhos em concentração total, sentindo os braços se

estenderem , os peitorais se enrij ecendo. Com o os vídeos de treinam ento

aconselhavam , ele im aginou um Billy m ais forte, m ais poderoso. Im aginou-

se deixando o próprio corpo e entrando em seu corpo ideal.

Enquanto m antinha os olhos bem fechados, Billy pensava: Forte.

Poderoso. E: Eu posso fazer isso. Sou todo m úsculos.

Aj ustou o aperto de suas m ãos na barra até sentir-se totalm ente

confortável. Ergueu a barra do suporte sobre o rosto, sentindo o esforço

com pleto; depois, baixou-a para o peito, onde a deixou descansar um

pouco.

Quando estava totalm ente decidido, usou toda a sua força para

levantar a barra por com pleto, com total extensão dos braços, onde os seus

ossos a m anteriam no lugar. Seus braços trem iam enquanto o sangue

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inchava seus braços e om bros e dilatava as artérias nas laterais do pescoço.

Assim que ele atingiu a posição alm ej ada, um a voz atravessou seus

tam pões de ouvido.

– Billy .

Seus olhos se abriram enquanto o coração quase explodia em seu

peito.

Na penum bra, viu um reflexo na parede espelhada à sua frente, um

vulto escuro parado bem atrás de sua cabeça. O qu... o qu..., foi tudo o

que Billy conseguiu dizer.

Então, ouviu um a voz sussurrante m urm urando algo m ais.

Mas, antes que conseguisse entender, seus braços caíram para os

lados, a barra desabou sobre o cavalete de seu nariz e nos olhos e, em

seguida, rolou por seu rosto, indo parar na depressão m acia de seu

pescoço.

Tudo aconteceu num a rapidez tão violenta que ele m al conseguiu

processar que a barra estava esm agando sua traqueia, pressionando-o

im placavelm ente na direção do chão, interrom pendo de im ediato o fluxo

de ar para os pulm ões e de sangue para o cérebro.

Billy não conseguia gritar. Não conseguia enxergar, pois o sangue

inundava as órbitas oculares. Não conseguia respirar.

Debateu-se, agitando os braços e os quadris, m as era im possível lutar

contra o descom unal peso da barra em sua garganta, prendendo-o ao

banco. E quanto m ais ele se debatia, m ais seu cérebro esm aecia e a força

escoava de seus m úsculos.

Num m icrossegundo de consciência, tentou ver o rosto de seu

assassino, m as nem ao m enos tinha certeza de que havia de fato alguém lá

ou de que a figura estava apenas em sua cabeça. Não fazia diferença,

porque a noite tom ou conta do seu cérebro e, no m om ento seguinte, ele

estava m orto.

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a 51

Demorou alguns minutos para Zack voltar.

Deram -lhe um a inj eção de norepinefrina, m as ele ainda estava preso

em um espaço pequeno e escuro, olhando para o rosto do hom em que ele

havia m atado.

Podia sentir o cheiro do terror em seu hálito, com o lixo queim ado.

Ainda podia ouvir-se pronunciando o nom e do hom em . Ainda podia sentir

suas m ãos segurando firm em ente as extrem idades da barra, enquanto as

m ãos do hom em , dobradas para trás, tentavam inutilm ente afastar a barra

de sua garganta.

Zack focou nos olhos do hom em , saltados com o ovos de galinha nas

cavidades ósseas irregulares. Quanto m ais o hom em se esforçava, m ais a

pressão hidrostática do sangue fazia o sangue j orrar das órbitas e narinas,

m isturando-se com catarro. Seus lábios se m oviam , com o se dissesse

algum a coisa, m as não havia som algum , apenas o sapatear de seus pés

contra o chão, enquanto se debatia nos estertores da m orte.

Zack observou-o se sacudindo e chutando até que todo m ovim ento

cessou e a boca do hom em afrouxou, deixando escorrer um fio de saliva

verm elha que pingava no chão, enquanto a língua pendia m ole por entre os

dentes ensanguentados, parecendo um a lesm a.

Zack fez um a com pressão final com todo o peso do corpo sobre a barra

e com sinistra satisfação observou o hom em m orrer, seu últim o suspiro

sufocado em um gorgolej o profundo na garganta esm agada, o sangue

escorrendo do sulco dos olhos e do nariz, form ando um a poça no chão. Zack, que estava deitado na m aca, sentou-se de repente e olhou ao

redor da sala; seus olhos se em bebedaram daquela lum inosidade

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a

fluorescente para lavar as horríveis im agens de sua cabeça.

Quatro rostos o encaravam : Sarah, Luria, Stern e Cates.

– Você está bem ? – alguém perguntou, talvez Sarah. – O que

aconteceu?

Ele olhou para as próprias m ãos, ainda congeladas em form a de garras,

em torno da barra de halteres que j á não estava lá. Ele balançou a cabeça,

m as não conseguiu responder.

– Você ainda está acordando – disse Luria.

Zack esfregou os olhos. Um horror caudaloso preenchia sua cabeça,

com o se tivesse acabado de voltar da cena de um assassinato. Um

que ele com etera.

Deitou-se na m aca. Suas m ãos trem iam incontrolavelm ente. Podia ver

a preocupação no rosto da doutora Luria. Queria dizer que estava tudo

bem , m as sentia que a qualquer m om ento iria desabar.

Olhou para o m onitor de frequência cardíaca: 138 batim entos por

m inuto. Sua pressão sanguínea estava registrando 10 por 18. O aparelho

de ECG oscilava com o louco.

– Dê-lhe um tem po para se acalm ar – disse Stern.

Zack fechou os olhos novam ente e recitou as casas decim ais do

núm ero pi até cinquenta e, em seguida, com eçou de novo. Recitou

m entalm ente letras de canções, o Discurso de Getty sburg, que havia

m em orizado na quinta série, o Juram ento de Lealdade à República e à

Bandeira dos Estados Unidos, estrofes de O corvo, de Edgar Allan Poe.

– Ele está desacelerando – By ron Cates anunciou, depois de alguns

m inutos. – Pressão 9 por 14. Pulso 92.

Alguns m inutos depois, ele se sentia m ais calm o, m ais centrado. Abriu

os olhos. Sarah estava ao seu lado. Ela pegou a m ão dele.

– Zack, o que aconteceu?

Ele encheu os pulm ões de ar e, então, deixou-o sair lentam ente.

Sentou-se outra vez. Luria e Stern o encaravam do outro lado da m aca.

By ron Cates o observava do com putador.

– O que foi? – Sarah perguntou.

Bad trip.

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a

– Ainda estou grogue.

– Não se apresse – a doutora Luria disse. – Você consegue se lem brar

de algum a coisa?

Ele balançou a cabeça, tentando aparentar neutralidade em seu rosto,

sob o bom bardeio daquelas im agens.

– Nada. Zero.

A doutora Luria aproxim ou-se dele.

– Zack, conte-m e o que você experim entou.

Ele balançou a cabeça novam ente. Não queria colocar aquilo em

palavras. Não queria fixar aquilo em im agens por m edo de assom brar seu

cérebro perm anentem ente com elas. Só queria ir para casa e m ergulhar em

um sono profundo.

– Quero ir em bora.

– Ok, tudo bem – disse Sarah.

Mas Luria se introm eteu.

– Dentro de instantes. – Lançou um olhar fulm inante para Sarah e,

em seguida, serviu-se de um a xícara de café puro. Tom ou um gole

enquanto estudava Zack e, então, clicou no m onitor acim a e m oveu o

m ouse até que um a im agem do cérebro de Zack encheu a tela. Apertou

algum as teclas e exibiu as im agens da atividade neural a partir do

m om ento em que ele apagou até ser despertado.

Sarah pegou um a garrafa de água para Zack enquanto ele esperava.

Um zum bido estranho na parte frontal de seu cérebro estava lhe criando

um a sensação de vertigem .

– Eu gostaria de ir em bora.

– Você atravessou. – As palavras da doutora Luria foram quase

inaudíveis. – Desta vez, tem os certeza.

– O quê? – Ele olhou para Stern. – É m esm o?

Stern respirou fundo e deixou o ar sair lentam ente.

– O que eu posso dizer é que há paridade com as últim as sessões, m as

com intensidade m aior. A atividade em grupos de neurônios de seus lobos

frontal e parietal não parece relacionada com a atividade neuroelétrica

inconsciente.

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a

– O que isso quer dizer?

– Pode ser um fato inédito – disse Stern –, m as parece que a sua

consciência separou-se do seu cérebro.

– Um a experiência de quase m orte.

– Sim , m as há dados anôm alos que precisam os analisar por m eio dos

algoritm os.

Zack estava zonzo dem ais para processar por com pleto a inform ação.

– Você se lem bra de algo m ais específico que tenha ocorrido enquanto

você estava apagado? Qualquer noção de lugar ou de quem estava com

você ou do que você estava fazendo?

– Não. – A sensação de desconforto de Zack estava piorando. Ele

deslizou para fora da m aca, foi para trás do biom bo e trocou de roupa. –

Ou alguém m e leva para casa ou vou cham ar um táxi.

– Eu levo – disse Sarah.

Algo atravessou o rosto de Luria.

– Está certo. Vou ligar para você dentro de poucos dias, Zack.

– E enfiou um cheque no bolso da cam isa dele.

A m ulher era im placável, m as Zack não disse coisa algum a e saiu com

Sarah.

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– Eu matei um homem.

– O quê?

– Na sessão, fui parar na academ ia de treino de um cara e o sufoquei

até a m orte com um a barra de haltere.

Passava um pouco das onze da noite, e Sarah estava dirigindo pela

pista norte da Rota 128.

– Por que você não contou isso lá?

– Porque Luria teria m e alugado com perguntas o resto da noite.

– Mas o obj etivo é exatam ente este: descobrir o que você

experim entou.

– Só que eu não vou fazer m ais isso.

– Foi tão ruim assim ?

– Sim , e tão real com o estar andando neste carro agora. O que m e

assusta é o que eu sentia. Um a raiva vulcânica. Eu queria esprem er a vida

para fora do cara. Ainda posso sentir isso. E não tenho a m enor ideia de

quem ele é.

– Que coisa horrível!

– E tam bém é a segunda vez que acontece. Tam pouco conhecia

aquela m ulher, não faço a m ínim a ideia de quem sej a. Mas eu queria

m atá-la tam bém .

– Não sei o que dizer.

– E tem outra coisa. Não foram experiências extracorpóreas

‚flutuantes', com um a perspectiva aérea. Minhas m ãos realm ente estavam

naquela m aldita barra, vi o rosto do cara m e olhando de cabeça para baixo

porque eu estava por trás dele. Eu o vi m orrer de perto e do m eu ponto de

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

vista: o ponto de vista do assassino. O m esm o com a m ulher. Eu olhei nos

olhos dela, depois j oguei o carro sobre ela. O que diabos aconteceu?

– Eu não sei, m as agora estou ficando com m edo.

– Sim , e eu atravessei túneis suficientes para o resto da m inha vida –

disse Zack. – Não estou tão desesperado por dinheiro a esse ponto.

Sarah pôs a m ão na perna dele.

– Eu entendo. Vou dizer a Elizabeth.

– Vou ligar e explicar eu m esm o. Sinto m uito se isso estraga a sua

pesquisa, m as eu não posso continuar por aí m e perguntando se eu sou um

assassino.

Ou pior.

Zack não acreditava no sobrenatural. Não acreditava em vida após a

m orte. Não acreditava em espíritos, fantasm as, percepção extrassensorial

ou outros fenôm enos paranorm ais. Para ele, m ilagres eram apenas boa

sorte, com o a que ele teve, por acordar do com a. Tudo m ais era fantasia,

im pulsionada pela ignorância, incluindo bons palpites de pôquer, logotipos

de root beer e recitar frases de Jesus. Mas estava com eçando a se

perguntar se talvez não houvesse realm ente atravessado e esbarrado na

psique de algum m aníaco hom icida.

Por favor, faça com que haj a um a explicação m ais racional para isso.

– Talvez sej a apenas um a reação ruim à anestesia – disse ele. – Isso é

possível, não é?

– Sim , é possível.

Sarah m anteve os olhos na pista, m as, à luz bruxuleante do tráfego,

Zack podia perceber que ela não estava convencida. Após alguns instantes,

ele disse:

– Sarah, o que está passando pela sua cabeça? E, por favor, não m inta

para m im .

Ela continuou dirigindo sem responder. Então, disse:

– Eu não entendo, m as pela atividade neurológica e pelo exam e contínuo do seu sangue, o que você experim entou aconteceu em tem po

real.

– O quê?

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

– Não foi um sonho-relâm pago, pouco antes de acordar.

– Você quer dizer um a experiência extracorpórea.

Ela assentiu com a cabeça.

– Essa é um a das possibilidades que irem os exam inar... de que você

tenha encontrado outra consciência.

Outra consciência. Zack sentiu um calafrio percorrer o seu corpo.

– Jesus!

– Eu sei que você não quer m esm o passar por outra sessão. Eu

realm ente sei disso.

– Não quero.

Ela olhou para ele.

– Mas esta pode ser a única m aneira de descobrir o que está

acontecendo.

– A única m aneira de eu não acabar com as suas chances de publicar

um artigo sobre a experiência, você quer dizer.

Sarah explodiu instantaneam ente:

– Essa não é a m inha m otivação, Zack. Não estou nessa para ser

publicada. Este é um território virgem , e é por isso que estou aqui,

caram ba.

Rodaram em silêncio por alguns m om entos.

– Desculpe.

– Está desculpado.

Passava um pouco da m eia-noite quando ele entrou em seu

apartam ento. Estava exausto e ansioso, e tem endo ir para a cam a e ser

assaltado por m ais flashes hom icidas. Mas Luria tinha razão. Aquilo não

parecia um sonho, era m uito m ais intenso do que as visões da praia. Era

perturbadoram ente real e cru, e ele tem ia que tudo voltasse assim que ele

adorm ecesse. Por isso, obrigou-se a ficar acordado.

Seu cérebro estava m uito cansado para que pudesse trabalhar em sua

dissertação ou ler. Então, ligou a televisão e tentou se distrair com o

program a do David Letterm an. Mas, cada vez que a câm era focava no

rosto de alguém , seu cérebro tropeçava em flashes dos olhos do cara

saltando do rosto ensanguentado e destruído. Ainda podia sentir tam bém

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

os dedos com o garras em torno da barra, forçando para baixo contra a

traqueia dele. Fora horrível, com o se o seu cérebro tivesse sido infectado por algum m iasm a psíquico.

Pior foi a fúria desconhecida que o dom inou enquanto o cara se

debatia e esperneava. Ele havia assassinado o hom em com satisfação. E ao

m esm o tem po em que não fazia ideia de quem ele era, logo abaixo do

lim iar da consciência, sentiu um a fam iliaridade perturbadora. Mas nada

que pudesse definir.

Vagou pelo apartam ento, indo de um côm odo para o outro. Com o seu

quarto estava um a bagunça, catou as roupas espalhadas e arrum ou a cam a,

caprichando para copiar a m aneira com o aj eitavam os cantos do lençol no

hospital e esticando bem as cobertas. Quando term inou, lim pou a cozinha

e, em seguida, foi para o banheiro, onde lavou a banheira e dobrou as

toalhas. Quando se sentiu sonolento, tom ou um Haldol e um a dose dupla

de Lunesta. Provavelm ente, fora um a coisa idiota m isturar as duas

m edicações, m as ele queria um a noite de esquecim ento.

Com eçou a lavar o rosto, m as, quando olhou para o espelho, foi o

rosto de outro que o encarou. Um gem ido subiu em sua garganta, m as em

um piscar de olhos o rosto do estranho havia ido em bora e em seu lugar

estava seu próprio reflexo, m agro e apavorado.

– Que diabos está acontecendo com igo? – disse ele em voz alta.

O que eles colocaram naquela droga?

O que eles fizeram com o m eu cérebro?

Enxugou o rosto, voltou para a sala e sentou-se diante de seu laptop

para ler seus e-m ails. Havia m ensagens de Dam ian, Anthony , de outros

am igos e um a de sua m ãe. Avisos da universidade e spam . Abriu o m ais recente de Dam ian, que queria saber por onde ele andava e com o o estudo

do sono estava indo. Um de Sarah, desculpando-se pela sessão daquela

noite. Ele apreciou isso. Luria estava obcecada com a intenção de provar

suas teorias e contar ao m undo.

Mas ele não seria m ais sua cobaia.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

53

Roman encontrou uma listagem para Zachary Kashian em um site dedicado a

‚pessoas m ilagrosas'.

Leu um m onte de artigos de j ornal, incluindo ‚Milagre? Vítim a de

Com a Ressuscita dos Mortos', ‚Em com a, ele falou as palavras de Jesus' e

‚Médicos intrigados com o Hom em Milagroso'.

Tam bém leu blogs de pessoas que estiveram à cabeceira de Zack, uns

alegavam enxergar a im agem de Jesus em m anchas na parede ou sentir o

perfum e de rosas da Virgem Maria. Absurdos exem plos de autossugestão,

é claro. Além disso, ninguém sabia qual era a aparência de Jesus nem a

flor favorita de Maria. Entretanto, algum as declarações não podiam ser

desprezadas.

‚Acreditam os que os sinais e prodígios eram evidentes em Zack. Ele

m anifestou feridas inexplicáveis em seu corpo, com o as de Jesus Cristo.

Nas m ãos e nos pés. Um a m arca no flanco. Eu senti a presença de Jesus

naquele quarto.'

Outro afirm ava: ‚São Paulo nos diz que o sofrim ento é a nossa

m aneira de continuar o sofrim ento redentor de Cristo... Eu acredito que

Zachary estava fazendo isso por nós, unindo o seu sofrim ento ao de Cristo,

Nosso Senhor'.

‚Eu vim porque m inha filha tem leucem ia e eu queria que Jesus a

salvasse. Quando entrei no quarto de Zack, senti a presença do Senhor...'

‚Creio que o Senhor falou por interm édio de Zack, dando-nos um

sinal de esperança e m isericórdia. E ele escolheu Zack porque ele estava

debilitado no corpo e em estado de pureza total de espírito. Jesus falou por

interm édio dele. Eu acredito nisso de todo coração.'

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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Havia m uitos outros depoim entos com o m esm o teor.

Mas na lista do Google havia outros resultados, respostas m ais

som brias, avisos de que esses fiéis em busca de m ilagres estavam sendo

brutalm ente enganados, e não por ilusões ou autossugestão, m as pelo

próprio Satanás.

‚Lem bre-se da advertência das escrituras, Segunda Epístola aos

Coríntios 11:14: ‘Satanás se disfarça de anj o de luz’. E não nos esqueçam os de que Zachary Kashian é um ateu professo e m em bro da

Sociedade Hum anista Secular de sua universidade.'

‚Estou lhes dizendo que as artim anhas de Satanás são com o um

caleidoscópio: quando o tubo é girado, os m esm os cacos de vidro colorido

form am um novo desenho. Aqueles que afirm am ter visto Jesus no quarto

do rapaz são m arionetes do dem ônio. Não era Jesus ou a Santíssim a

Virgem , m as o próprio Satanás, o grande enganador.'

As palavras soaram fam iliares a Rom an, m as ele considerou-as m eros

ataques religiosos, blá-blá-blá teológico. Da m esm a form a, o nom e do

blogueiro não significava coisa algum a para ele: Norm an Babcock, diretor

da Fraternidade de Jesus.

Mas o que lhe cham ou atenção foi que o rapaz nascera no dia 6 de

j unho de 1986. Fosse Rom an um hom em supersticioso, teria se adm irado

do significado daqueles núm eros: 666. O núm ero da besta.

Por um m om ento, Rom an tam bém se perdeu nas possibilidades do

que teria ocorrido naquele quarto de hospital: se Zachary Kashian

canalizara Jesus Cristo ou o Anticristo. Fosse um a coisa ou outra, talvez

estivesse na hora de conhecer aquele hom em ‚m ilagroso'.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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– Achamos que ele se fundiu com outra mente.

– O quê? O quê? Quem ?

– Não sabem os quem . E não há m aneira de descobrirm os isso – disse

Morris Stern. – Mas estam os certos de que foi um a autêntica fusão.

– Glória, Aleluia – Warren Gladstone disse. – Obrigado, bom Deus.

Obrigado.

Estavam de volta à suíte de Warren no Taj . Morris Stern m anobrou o

m ouse até um a im agem de vídeo da ressonância m agnética do cérebro de

Zack aparecer.

– Aqui estão as im agens da atividade elétrica em sua prim eira EQM.

Você pode perceber distintos padrões de assinatura consistentes com a

análise m atem ática. Agora, olhe para isso. – A próxim a tela m ostrou outras

m anchas pulsantes em sobreposição à prim eira im agem .

– Santo Deus – disse Warren.

Com um a caneta, Stern destacou as novas configurações.

– Estas atividades aqui, aqui e aqui não estavam presentes na EQM

original. São m arcas com pletam ente alheias.

– Nós estam os olhando para a m ente de Deus – declarou Gladstone.

– O m ais provável é que sej a a m ente de outra pessoa.

– Mas do outro lado.

– Isso eu não sei – disse Stern.

Era o m áxim o que ele cederia.

– Por que não Deus?

– Porque não tem os o perfil de Deus em arquivo.

– Mas você está m e dizendo que o garoto estava em com unicação com

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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alguém do outro lado. Então, por que não Deus? Por que a m ente dele não

poderia ter se fundido com a do Senhor? – Warren m al podia se conter.

Stern balançou a cabeça.

– Eu não disse do outro lado.

Elizabeth interrom peu:

– Warren, o que captam os claram ente foi um a presença elétrica

intrusiva im posta à própria atividade dele. É um grande salto declarar um a

fusão com Deus. O m ais provável é que ele tenha se fundido com alguém

j á falecido, o que, ainda assim , é um a coisa notável. Inédita!

– Aleluia.

Warren assistira aos vídeos dos outros voluntários, incluindo vários

j ovens universitários; havia escutado seus relatos de experiências de quase

m orte, alguns tão cheios de detalhes e paixão que ele quase se convenceu.

Ele até perm itira que Luria m ontasse seu laboratório em um a propriedade

do próprio m inistro, que eles tiveram de destruir para instalar o aparelho

de ressonância m agnética. Ele gastara 10 m ilhões de dólares do dinheiro

do m inistério, um investim ento que havia virado alguns diretores do

conselho contra ele. E, depois de todos aqueles anos de despesas e falsas esperanças, depois de tantas varreduras cerebrais e vídeos dos testes de

voluntários, pela prim eira vez Elizabeth Luria e com panhia m ostravam

evidências reais de contato espiritual.

Sim , m ais testes seriam necessários, com o Elizabeth havia dito. Mas

ele esperava extasiado o dia em que poderia pôr as m ãos no Santo Graal e

m ostrar ao m undo que o Senhor Deus Todo-Poderoso existe.

E as possibilidades eram infinitas. Crer j á não seria sim plesm ente um

salto de fé. A m orte j á não seria m ais definitiva. Ele teria em suas m ãos a

prova das coisas invisíveis. Prova essa que todo o m undo iria abraçar.

Cairiam as barreiras que separavam cristãos e j udeus, m uçulm anos,

hindus, budistas, e assim por diante. Todos seriam fundidos em um

sistem a de crença unificadora, no centro da qual estaria Warren Gladstone

e o seu tabernáculo. Sim , alguns iriam dizer que seria um artifício, até

m esm o um a heresia, talvez houvesse m esm o retrocessos tem porários – a

inevitável resistência e protestos contra qualquer pronunciam ento do

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

cristianism o evangélico. Mas ele haveria de cruzar essas pontes quando

chegasse a hora, fortalecido pela percepção de que ele estava na vanguarda

da m aior revelação de todos os tem pos: que ele tinha encontrado Deus.

– E você disse que ele declarou não ter filiação religiosa?

– Sinto m uito. Ele m arcou ‚NENHUMA' no questionário.

– Sinto m uito nada – Gladstone gargalhou. – Melhor assim . Ele será o

nosso próprio São Tom é, que não apenas vê a luz, m as lança-a ao m undo.

– Então, ele acrescentou: – Guarde-o bem . Esse j ovem é m aná do céu,

um a dádiva do Senhor Deus Todo-Poderoso.

– Não poderia ter acontecido sem a sua generosidade.

– Valeu cada centavo. – Warren olhou para as im agens da IRMf. – E

que deliciosa ironia: Deus ex m achina.

Elizabeth Luria sorriu.

– Pode ser, m as ainda tem os m ais cálculos a fazer antes de

reivindicarm os a propriedade de nossos argum entos.

– Então, façam o que têm de fazer.

E, enquanto Warren perdia-se nas cores pulsantes do esquem a do

cérebro de Zack Kashian, sentia a avassaladora prom essa: sabia que estava

olhando para a m ente do Criador, m as sabia tam bém , no fundo de sua

alm a, que habitaria de fato na casa do Senhor por longos dias.

Am ém .

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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Zack havia telefonado para a doutora Luria dois dias antes para explicar que ele não estava interessado em fazer outras sessões. Estava tom ando m uito

do seu tem po, e ele tinha de term inar sua dissertação. Suas m aneiras

foram educadas, e o tom foi neutro. Não disse nada sobre os flashes de

assassinato porque ela iria usar aquilo para alim entar a sua insistência para

que ele voltasse e fizesse m ais testes.

Com o esperado, ela não aceitou de bom grado a notícia, pedindo que

ele reconsiderasse, afirm ando que eles estavam à beira de um a grande

descoberta, et cetera, et cetera. Ela em pregou seus m elhores argum entos,

só faltou im plorar. Para suavizar o golpe, ele disse que voltaria a procurá-

la, caso m udasse de ideia.

Nesse m eio-tem po, trabalhou em sua dissertação, ocasionalm ente

folheando livros da biblioteca sobre EQM. A m aioria dos relatos descrevia

a experiência padrão: travessia de túneis, total serenidade, integração com

o universo. E a presença típica de seres de luz, espirituais. Muitos

testem unhos declaravam que a EQM m udara a vida das pessoas para

m elhor, tornando-as m ais fiéis e m ais afetuosas. Mas ninguém relatava

qualquer coisa parecida com os seus shows de horror.

Com o fazia na m aioria das m anhãs, naquela quinta-feira, Zack dirigiu-

se para um a m esa isolada na lanchonete do centro estudantil. Era bom

estar de volta à sua dissertação, sem distrações. Progrediu regularm ente

boa parte da m anhã, até que um a voz o sobressaltou.

– Olá, Zack.

Ele olhou por cim a da tela, e, com o ele m eio que pressentira que

aconteceria, lá estava Elizabeth Luria. Segurando um a bandej a com dois Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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cafés e croissants.

– Eu não sei se você gosta de queij o ou de chocolate, então, trouxe um

de cada.

Zack estava acostum ado a vê-la apenas com o j aleco branco do

laboratório, m as, naquela m anhã, ela estava vestida elegantem ente, com

um a blusa rosa, calça bege e blazer preto. O cabelo estava arrum ado, e ela

usava um m edalhão de prata no pescoço.

– Posso m e j untar a você?

– Claro – respondeu ele. Ele se levantou e puxou um a cadeira para

ela. – Com o sabia onde m e encontrar? – Ele tentou não deixar

transparecer a sua irritação.

– Não foi fácil. – Ela sentou-se. – Trabalhando em sua dissertação?

– Tentando.

– Bem , eu não vou m e dem orar m uito.

– Quero dizer, é difícil recuperar o entusiasm o.

– Tenho certeza de que ele vai voltar. – Ela tom ou um gole de seu

café. – Você provavelm ente j á sabe por que estou aqui.

– Sim , e não estou interessado.

– Porque você teve um a experiência desagradável, e eu sinto m uito

pelo que aconteceu.

Sarah havia lhe contado? Ele não achava que ela iria traí-lo. Mas

talvez o tivesse feito. Luria era a chefe dela, afinal de contas.

– Não im porta. Eu sim plesm ente não tenho tem po.

– Eu entendo.

Ela enfiou a m ão na bolsa e puxou um envelope, do qual tirou um a

fotografia. Em purrou-a na direção dele. Era um a foto feita em estúdio de

um bonito garoto sorrindo para a câm era. Atrás dessa estava outra foto do

m esm o garoto com um labrador dourado e um hom em m ais velho.

– Este era o m eu filho, Kevin, e o pai dele, m eu m arido. Eles

m orreram em um acidente autom obilístico, há alguns anos. Ele tinha 12

anos na época.

– Sinto m uito, doutora Luria. – Era a m esm a criança da fotografia em

sua m esa no laboratório.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

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– Obrigada, e, por favor, pode m e cham ar de Elizabeth. – Então, ela

continuou: – Eu vou ser direta com você. Quando com ecei a trabalhar no

proj eto, eu considerava todos os relatos de EQM com o um m ecanism o de

defesa do cérebro contra a investida da m orte. Mas eu tenho observado

evidências crescentes que apontam para a transcendência. E as suas sessões confirm am isso.

Ele podia perceber que ela estava lutando para não se em ocionar.

– Zack, eu acredito que estam os no lim iar de confirm ar a existência de

vida após a m orte.

Ele balançou a cabeça, com eçando a sentir pena dela.

– Tem os analisado todos os dados de ressonância m agnética da últim a

sessão e, com o da prim eira vez, tudo aponta para a conclusão de que você

atravessou.

– Aham .

– Fui criada em um lar religioso, m as, desde a j uventude, eu j á não

acreditava na existência da alm a ou de Deus. Não via nenhum a evidência

de que o sobrenatural existisse. Mas, agora, sim . E o m eu investim ento

neste proj eto vai além da ciência. Francam ente, eu gostaria de saber que o

m eu filho e o m eu m arido estão em um bom lugar, que eles estão bem .

Continuar: parte 2 de 2