Visões da Morte
conta pra vê se os anim ais…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
conta pra vê se os anim ais selvagem tá saudável, se ninguém rouba.
– Qual é o problem a?
– O problem a é que um a gente daqui num são com o ocês, gente de
Massachusetts. Elas num têm em prego fixo, nem um a vida civilizada.
Vivem na floresta, vivem da terra, só saem de lá um a vez por ano, quando
saem . Com em o que eles m atam . Eles pega um alce, o DPIVS faz que
num vê, olha pro outro lado. – Ele pegou um pano e com eçou a lim par as
m ãos. Depois, o nariz.
– Eu ainda não entendi qual é o problem a.
– Bem , tem gente que acha que eles não batem m uito bem da bola...
vivendo
m uito
isolado,
lidando
só
com
a
natureza
m uito
tem po. Num im porta! Nóis num m exe cum eles, eles num m exe cum nóis.
– Você está dizendo que existem pessoas perigosas lá?
– Estou dizendo pra arriar suas m ala em outro lugar.
Sarah saiu da loj a com um guia pequeno e alguns folhetos de hotéis e
pousadas. Ela agradeceu ao hom em e deslizou de volta para o banco do passageiro.
A m ulher correu atrás dela.
– Óia o resto de seu troco, dona. – E ela entregou a Sarah algum as
m oedas.
A m ulher era grande e tinha o cabelo puxado para trás, preso em um
rabo de cavalo. Tinha um rosto largo, m asculinizado, e usava um m oletom
rosa choque com um trocadilho que dizia: ‚Mãe Mainíaca.' Quando Sarah
disse para ela ficar com o troco, a m ulher disse:
– Brigada, m as nós num aceita caridade. – Ela se postou ao lado do
hom em na bom ba de gasolina para vê-los irem em bora.
Zack acenou e afivelou o cinto de segurança, enquanto os dois os
acom panhavam com os olhos, sem expressão, parecendo um a versão obesa
de Am erican Gothic[24]. Justo quando Zack estava prestes a se afastar, o Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
hom em fez um a arm a com os dedos e apontou a 202 na direção sul. Sarah
não o viu, e Zack virou o carro para o norte. No espelho retrovisor, o
hom em continuava lá parado ao lado da esposa, olhando o carro deles se
afastar, balançando a cabeça em sinal de desaprovação.
[24]. Fam oso quadro do pintor am ericano Grant Wood. (N. da T.) Quando haviam rodado cerca de quatrocentos m etros, Sarah entregou
a Zack um sanduíche de atum , cuj o recheio havia escorrido através do pão.
– Era tudo o que tinham – disse ela. – Acho que acabaram com o
estoque de coisas boas do lugar.
– Ah, sim , era a m eca dos gastrônom os.
Zack colocou o sanduíche no suporte entre eles. Não tinha apetite.
Tom ou um gole do chá gelado e seguiu em frente, sentindo que estava
indo na direção certa, apesar de o cara lá do posto se com portar com o um
dos aldeões do film e Drácula. Estou surpreso por ele não ter m e oferecido
um crucifixo, pensou ele, com som bria estupefação.
– Sua m em ória é espantosa – disse Sarah, m ordendo o sanduíche
dela. – Eu perguntei à m ulher, e ela disse que Magog Woods fica a cerca
de 25 quilôm etros de distância.
Não é m em ória.
– Você deve ter estado aqui m ais vezes do que se lem bra.
Racional até o fim , Zack pensou.
– Talvez sim – disse ele, para agradá-la. – Logo que chegam os àquela
parada, tudo voltou.
– Mesm o assim , você tem um a excelente m em ória.
– Ou talvez eu não tivesse m otivos para m e lem brar, e agora tenho.
– Não tenho certeza de que com preendi.
– Não é im portante.
Pelo canto do olho, viu-a se virar para ele.
– O que não é im portante?
– Nada. – Som bras arroxeadas proj etadas pelo sol poente cobriam a
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
estrada à frente.
– Zack, eu não estou gostando disto.
– Do que você não está gostando?
– De estar aqui, nesta região. Da m aneira com o você está se
com portando. Da m aneira com o você está falando. Estou ficando
assustada.
– Bem , eu sinto m uito.
– Eu quero voltar, ok?
Não! Ela está tentando corrom pê-lo. Desviá-lo da sua m issão.
– Olha, são som ente m ais dezesseis quilôm etros, aproxim adam ente.
Se não encontrarm os, vam os voltar. Eu prom eto.
– Você nem m esm o sabe o que está procurando.
– Se você quiser, eu posso deixá-la naquela loj a e ir sozinho.
– Fala sério.
– Então, confie em m im .
– Se você não encontrar sej a lá o que for, nós voltarem os. Prom eta.
– Eu prom eto.
Mas no fundo de sua m ente havia um a centelha de culpa
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
84
Cerca de dez quilômetros depois do posto de gasolina, Zack desacelerou o
carro. O paredão de árvores em am bos os lados da estrada form ava um
corredor ininterrupto, cada vez m ais escuro. Desde a parada, passara um
único veículo na estrada, vindo no sentido oposto.
– É isto? – Sarah perguntou. O m edo era audível em sua voz.
Ele não respondeu, m as seu peito estava batendo tão forte que ele
arfava. Depois de m eio m inuto m ais, ele parou. No m ato fechado havia
um a pequena entrada que dava em um a estrada de terra sem m arcação,
quase indistinguível, apenas um corte estreito através de pinheiros
altíssim os, carvalhos e m ata densa. Zack entrou ali. Não havia outros
carros na estrada, que desaparecia na escuridão em qualquer direção.
– O que estam os fazendo?
– Nós estam os aqui.
Zack acendeu os faróis. O trecho esburacado de terra só perm itia a
passagem de um carro, com as ervas daninhas que cresciam por entre os
sulcos de pneus j á com eçando a tom ar todo o resto. Obviam ente, aquela
estradinha não era m uito usada e ia se desenrolando à frente deles, para
logo desaparecer na escuridão. Zack verificou se as portas estavam
trancadas.
– Eu só quero prosseguir um pouco. Depois, irem os em bora im ediatam ente.
– Não estou gostando disto.
– Nós vam os ficar bem . – O cérebro dele estava zum bindo com o um
enxam e de vespas. Ele avançava lentam ente pelo cam inho, enquanto a
vegetação ia escovando o carro e as árvores m uito próxim as form avam um
túnel que se fechava sobre eles quanto m ais longe iam . Algo m uito
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
estranho estava para acontecer.
– Zack, por favor, volte. Eu quero sair daqui.
– Ok. Vam os encontrar um a clareira para m anobrar.
– É só voltar de ré.
Mas ele não lhe deu atenção e rodou alguns m etros m ais, até que
ficou claro que tinham chegado ao fim , os faróis bateram em um m uro de
árvores sem abertura grande o suficiente para deixar passar um carro.
– Viu?
– Vi o quê? Não há espaço para m anobrar.
Ele não tinha ideia de quanto haviam avançado, talvez um a centena
de m etros. Mas ela estava certa. Ele tinha apenas uns sessenta ou noventa
centím etros de cada lado do carro para virar. E não seria fácil ir de ré, com
apenas as lanternas traseiras para ilum inar o cam inho.
Sarah fervia de raiva enquanto ele engatava a m archa a ré e tentava
m anobrar, avançando uns trinta centím etros de cada vez. As laterais iam
sendo raspadas, e ele iria pagar um a nota para consertar os riscos. Mas,
m uitos m inutos depois, ele conseguiu finalm ente virar o carro no sentido
contrário. O suor escorria por seu rosto e suas costas.
– O que foi isso? – perguntou Sarah, ofegante.
Ele se virou, pensando que ela tinha visto algum a coisa no bosque.
Mas Sarah estava olhando para a frente.
Através do para-brisa ele não conseguia ver nada, só a estrada de terra
e os paredões de árvores. Então, ele acendeu os faróis altos. Algo piscou de
volta para ele, e ele sentiu um nó no estôm ago. Cerca de trinta m etros à
frente, preenchendo a largura da estrada, havia um a van preta.
– Quem é? – Sarah sussurrou.
– Eu não sei.
As luzes da van se apagaram , e m esm o com os faróis altos Zack não
conseguia ver ninguém por trás do para-brisa.
– Nós estam os presos.
Quem os havia seguido o fizera praticam ente às escuras, porque Zack
enveredara por aquele cam inho com um olho na estrada e outro no
espelho retrovisor. Com os faróis apagados, o m otorista os seguira na
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
escuridão quase total. E, pelo tem po que Zack levara para virar o carro,
quem quer que fosse ou conhecia o cam inho ou podia enxergar no escuro.
Se a van estava vazia, o m otorista poderia estar em qualquer lugar,
observando-os.
– Som os presas fáceis – disse ela.
Zack soltou o cinto de segurança.
– Não, não saia – ela pediu.
– Só quero pegar um a coisa lá atrás.
– Não. – Ela estava com eçando a entrar em pânico e agarrou o braço
dele. – Não saia, por favor.
– Então, venha com igo. – Zack desceu, e Sarah passou para o banco
do m otorista e saiu pelo lado dele. Ele foi com ela até o porta-m alas, onde
pegou sua m ochila e duas lanternas. Ele não as acendeu, m as entregou
um a a Sarah. Colocou a m ochila nas costas, afastou o tapete, e levantou o
piso falso sobre o pneu sobressalente. Na bolsa de reparos havia um pé de
cabra de trinta centím etros. Teria de servir. Ele fechou o porta-m alas,
segurando a lanterna preta em um a m ão e o pé de cabra na outra. Em
um flash, viu-se esm agando o crânio de Mitchell Gretch.
Sarah puxou-o para voltarem .
– Vam os entrar.
A floresta estava escura e carregada com o som de insetos. O que dava
para ver do céu tinha se tornado opaco, com poucas estrelas brilhando
através do espesso dossel.
– Para quê?
– Talvez a gente possa em purrá-lo para fora da estrada.
– Tem m uita árvore. – Elas cresciam até a estrada, não deixando
espaço para enfiar a van.
Sarah estava trem endo.
– O que vam os fazer?
Zack não tinha ideia de quem dirigira a van, nenhum a fam iliaridade
psíquica. Seu coração estava batendo forte, m as ele não estava com m edo.
Ele abriu a porta para Sarah, do lado da direção.
– Ok, entre. Tranque as portas e ligue o carro.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
– O quê?
– Basta fazer o que eu digo. Por favor.
– Não, Zack. Não.
Ele a em purrou delicadam ente para dentro, fechou a porta e
cam inhou pela estradinha de terra ilum inada pelos faróis altos do Murano,
segurando o pé de cabra na m ão direita, a lanterna na m ão esquerda.
Quando se aproxim ou da van, ele não viu ninguém nos bancos da frente,
m as não conseguia ver o banco de trás. Ele ilum inou as árvores em volta
com a lanterna, m as não viu ninguém .
Foi até a van, um a VW antiga e castigada, sem placa dianteira e um
selo de inspeção do Maine que tinha vencido havia dois anos. O m otor
estava quente. Prendeu a respiração e agarrou o pé de cabra. Em seguida,
encostou a lanterna no para-brisa. A van estava vazia. As portas estavam
trancadas. Nada de chave na ignição. Nada no banco da frente. Na
traseira, dava para ver algum as caixas e alguns j arros plásticos sem
im portância, nos cantos. Um as pilhas de roupas ou trapos... Não dava para
distinguir. Mas o seu coração deu um pulo quando o facho de luz
ilum inou um rack de arm as m ontado no teto atrás do m otorista. Estava
vazio.
Ilum inou ao redor, sabendo que estava sendo vigiado. Quando ia
inspecionar a traseira da van, Sarah gritou.
Ele disparou com o um a flecha em direção ao Murano, seus pés m al
tocaram o solo. Não via m ais ninguém no veículo, apenas o rosto lívido de
Sarah. Quando chegou à porta do m otorista, ela a destravou.
– Tem alguém lá fora – disse ela, m al conseguindo recuperar o fôlego.
– Eu o vi.
– Onde?
– Na m inha j anela.
– Você viu o rosto?
Ela balançou a cabeça negativam ente.
– Só um flash.
– Você o reconheceu?
– Não. Foi m uito rápido.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
– Com o ele era?
– Eu não sei. Apenas um a form a escura.
– Ele disse algum a coisa?
– Não. O que vam os fazer?
O m otor estava ronronando, e com os faróis m al se distinguia a van à
frente deles.
– Provavelm ente, é gente do lugar querendo assustar os ‚bacanas' de
Massachusetts.
– O pessoal do posto de gasolina?
– É. A ideia caipira de um a noite de sexta-feira divertida.
– Está se m ovendo – disse ela.
Zack acendeu as luzes. A van estava em m ovim ento, m as não em
direção a eles. Dava ré. Com os faróis apagados, a van retrocedeu e, num
instante, desapareceu na escuridão, as árvores pareciam se fechar sobre ela
com o um a cortina.
– Siga em frente – disse ela.
Em vez disso, ele apagou os faróis. A floresta era um breu. Não se via
luz da van. Nem luzes distantes da estrada. Nada, além do irredutível
negrum e. Ele desligou o m otor do carro.
– O que você está fazendo? – Ela gritou. – Vam os dar o fora daqui.
– Foram em bora. – Ele abriu a porta.
– Zach, volte para dentro e m e leve para casa.
– Não foi para isso que nós viem os. – Ele pegou as chaves e saiu.
– Entre aqui, droga!
Enquanto ela continuava protestando, ele não disse nada e andou até
o final do cam inho onde ele havia virado o carro.
Lá no alto, as estrelas ainda piscavam através das copas das árvores.
Mas ele podia ver um a fina cam ada de nuvens com eçando a enevoar a luz.
Tam bém podia sentir um a queda na tem peratura, j á que com eçara a
ventar, trazendo o cheiro de chuva.
Sarah saiu do carro e bateu a porta.
– Que diabos você está fazendo? – disse ela, andando até ele.
– Nós não term inam os. – Ele sentia o latej ar do próprio pulso contra o
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
pé de cabra que apertava na m ão.
De repente, um pavoroso grito, sobrenatural, ecoou na floresta,
aterrorizando Sarah e quase parando o coração de Zack.
– O que foi isso? – gritou ela.
– Apenas um m ergulhão.
Em outra parte, outro m ergulhão respondeu com o m esm o trinado
histérico.
Ela agarrou a frente de sua cam isa.
– Eu quero sair daqui. Agora!
– Então, vá. – Ele balançou as chaves do carro diante dela. – Leve o
carro e saia. Você é livre, o cam inho está desim pedido. Eu não vou voltar.
– Por que você está fazendo isso?
– Diga-m e, Sarah, no que exatam ente você acredita, hein? Tudo se
resum e a serotonina e lobos de Deus?
– O quê?
– Não é possível que existam coisas invisíveis neste m undo?
– Zack, por favor...
– Estou realm ente querendo saber. Não é possível que você possa
estar errada? Você quer um a prova concreta? Bem , você está olhando para
ela: eu.
– Mas...
– Mas o quê? Estou delirando? Sou psicótico? Louco?
– Eu não disse isso.
Ele colocou as chaves na m ão dela.
– Vá para casa, Sarah. Volte para a lim pa e bem ilum inada
Cam bridge. – Então, ele se virou e afastou-se, inebriando-se com o odor
de pinho, alm iscarado, proveniente das árvores e folhas em decom posição.
E outra coisa.
Suor hum ano.
E outra coisa.
Fum aça de lenha.
Zack congelou no lugar e virou a cabeça com o se fosse um a antena
procurando um sinal.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
Estavam cercados por um paredão contínuo de árvores form ando um a
m assa de vegetação em ‚luz e som bra' em torno deles, contra a luz
desvanecente das estrelas. Ele m eteu o pé de cabra no cinto e se dirigiu à
pequena clareira onde ele havia virado o carro.
– Eu não vou em bora – disse Sarah.
Ele não disse coisa algum a, m as parou de repente. Então,
inexplicavelm ente, algo no fundo de seu cérebro fez um clique. Ele se
virou para a esquerda e olhou para o chão negro.
– Eu não estou enxergando nada – ela m urm urou.
Ele apontou a luz para um ponto no chão.
– Por aqui.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a 85
– Como é que vamos encontrar o caminho de volta? – ela sussurrou.
– Sem problem a.
– O que quer dizer com ‚sem problem a'? E onde está a sua bússola?
– Estou com ela.
– Onde?
Mas ele não respondeu. Em vez disso, desligou a lanterna e
prosseguiu, enquanto ela m antinha a dela ilum inando o cam inho à sua
frente. Através das copas das árvores, a luz esm aecida das estrelas pintava
um vago dioram a de galhos e troncos. A visibilidade no solo era m ínim a.
No entanto, Zack se m ovia através do em aranhado de arbustos e árvores
com o se fosse orientado por radar. E Sarah se arrastava atrás dele, sem
dizer nada.
Enquanto se em brenhavam m ais fundo, Zack sentiu a tem peratura
cair ainda m ais. Apesar de estarem se m ovim entando, a friagem penetrava
sua j aqueta e seu m oletom . Ocorreu-lhe que, se eles se perdessem , levaria
anos para encontrarem seus restos m ortais. Se algum dia encontrassem . A
floresta estava cheia de criaturas de hábitos noturnos – coiotes, ursos,
linces – que os reduziriam a ossos em um instante. E o que sobrasse seria
consum ido por insetos e verm es. Morte e reciclagem total.
E ele podia ouvi-los – gorj eios, trinados e chilreios, um grunhido ou
resfolegar ocasional. Ao longe, os gritos histéricos dos m ergulhões. E,
ainda m ais ao longe, coiotes uivando para o céu.
Deus, dê-m e um sinal.
Quando Sarah puxou-lhe a cam isa para perguntar para onde eles
estavam indo, para lhe pedir que voltassem , ele sim plesm ente disse:
– Confie em m im .
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
O cam inho era estreito e coberto com brotos tenros com o a esperança
que crescia nele. Silenciosam ente, ele conduzia Sarah. A certa altura, ela
soltou um grito, quando alguns pássaros aninhados no solo se assustaram
de repente, esvoaçando no facho de luz de suas lanternas com o pequenas
fadas.
Mas algo m ais estava lá. Algo vivo e consciente. Ele podia sentir a sua
presença, ainda que ele não pudesse ouvi-lo. De vez em quando, ele
parava e prestava atenção.
A floresta vibrava com o raspar m etálico das asas de m ilhares de grilos,
preenchendo o ar com um a expectativa feroz. Infelizm ente, o ar tam bém
estava infestado de m osquitos que picavam e entravam -lhes nos olhos e
ouvidos, e transform avam as florestas do Maine em um inferno de
zum bidos. E eles não tinham repelente. Mas o vento aum entou e
afugentou os insetos.
Um sinal? Talvez o vento, ele pensou.
Apesar dos protestos de Sarah, eles adentravam m ais a m ata.
– Sarah, estam os bem .
– Eu não estou bem , droga!
Mas ele a ignorava e m ovia-se pelo m ato com o um cão de caça. Zack
gostaria de poder explicar, de encontrar as palavras. Mas aquilo estava
além da linguagem . E ela era m uito racional, vivia dentro dos lim ites da
lógica cartesiana e da física newtoniana. Do j eito que ele costum ava ser.
Entretanto, algum a coisa havia acontecido. Algo que ela não sonhara em
sua vã filosofia. Nas últim as horas – ou, pensando bem , sem anas –, as
coisas se encaixaram com um a sublim e inevitabilidade, com o um a profecia
que se cum pre, culm inando naquela floresta onde as árvores se erguiam
com o torres de um a catedral.
Zack parou de repente.
– O que foi? – Sarah perguntou sobressaltada.
– Ouça.
Tudo ao redor deles havia se tornado absolutam ente silencioso, com o
se alguém tivesse desligado o áudio. Nada de grilos, nenhum ruído dos
anim ais noturnos, nem pássaros assustados ou uivos de coiote. Nem
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
m esm o o m urm úrio do vento na copa das árvores. Era com o se a floresta
estivesse prendendo a respiração.
– O que está acontecendo? – O terror estrangulava a voz dela.
– Nada. – Zack olhou para trás. Mesm o se quisesse voltar, nunca
conseguiriam , não naquele escuro labirinto. Além disso, o m ato pisoteado
por eles, que teria podido fazer as vezes de trilha, j á estava se recuperando
e voltando ao lugar. E um a garoa fria com eçava a cair.
– Estam os perdidos – Sarah sussurrou. – Estam os com pletam ente
perdidos, e você não tem nem um a droga de bússola. Você m entiu. – Ela
estava chorando.
De repente, o coração de Zack foi tom ado pela dúvida. E se ele
estivesse errado? Será que ele havia se iludido? E se o instinto que o
guiava fosse um a invenção de um cérebro corroído pela tetrodotoxina? E
se ela tivesse razão e tudo aquilo fosse apenas coisa de sua cabeça? Será
que não havia coisa algum a por trás daquilo? Nenhum a m ente
transcendente. Nenhum a consciência superior. Apenas a piada cósm ica da
esperança.
– Zack!
Ele se virou, e atrás deles o chão estava queim ando com um fogo
verde, com o se lava alienígena estivesse brotando do solo. O cam inho à
frente ainda estava escuro, m as, atrás deles, suas passadas haviam deixado
um rastro incandescente, com o se tivessem andado sobre rádio líquido.
Ele puxou Sarah para a frente. O m aterial estava grudado aos sapatos
deles e aos fundilhos das calças com o ácaros fosforescentes. Brilhando
com m ilhões deles. Ela bateu o pé, e seu tênis de corrida ilum inou-se.
– Que diabos é isso?
Um sinal. Obrigado.
Ele a segurou pelos om bros.
– Sarah, acalm e-se. Cham a-se biolum inescência. Um a reação quím ica
que ocorre em fungos e m adeira apodrecida. Um a fosforescência quím ica.
Pura biologia.
– O quê? Com o você sabe disso?
‚Fogo das fadas', com o seu pai cham ava, e ele se lem brou de tudo, de
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
verdade. Na últim a vez em que estivera ali, seu pai levara ele e Jake pelo
m esm o cam inho, à noite. Então, ele desligara a lanterna para m ostrar a
eles o fenôm eno.
– Meu pai...
Foram em frente. Atrás deles, a biolum inescência os seguia,
destacando a silhueta de torrões de terra, m udas, galhos caídos, e
espirrando a cada pisada, com o se, logo abaixo da superfície, houvesse um
lago raso de tinta fluorescente.
– Você viu?
Ela balançou a cabeça concordando, olhando para o rastro brilhante,
desvanecendo-se lentam ente no escuro.
– Você está bem ?
Ela não respondeu. Ele pegou a m ão dela, que estava fria e úm ida, e
guiou-a. A garoa estava transform ando a pele de Zack em
um a m ousse gelatinosa e gelada. Eles cam inharam m ais alguns m etros, e
ela estancou.
– Não posso ir em frente. Não posso continuar.
– Eu sei – disse ele, abraçando-a. Ela não com preendia. Com o
poderia? – Estam os quase lá.
– Você só fica repetindo isso. Eu quero voltar.
– Por favor, confie em m im . Apenas cinco m inutos m ais. Eu j uro, de
verdade.
Continuaram , aos tropeções, e logo o fogo das fadas desapareceu,
restando apenas a negra floresta. Ele seguia o facho de sua lanterna e o
verm e da dúvida deslizou novam ente em seu peito.
Por favor, não m e abandone.
De repente, Sarah parou. Ela estava trem endo e, na luz, seu rosto era
um a m áscara branca de si m esm a. Lágrim as rolavam por seu rosto.
– Não.
– Só um pouco m ais.
– Não, e você está m e assustando pra valer.
– Fum aça.
– O quê?
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
Ele girou a cabeça em volta.
– Sinto cheiro de fum aça.
– Estou m e lixando para isso.
Ele andou alguns m etros no escuro.
– Lá.
Ao longe, um tênue brilho alaranj ado. Ele olhou para Sarah. Ela estava
em pé, com as m ãos apertadas contra o peito, o cabelo em aranhado pela
chuva que caía. Parecia que havia se transform ado em pedra. Zack foi até
ela e estendeu-lhe a m ão.
Por um longo m om ento, Sarah olhou para ele e, então, aceitou a m ão
estendida. Cam inharam cerca de trinta m etros, seguindo a luz.
– Meu Deus – ele sussurrou. – Estou em casa.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
86
– É isto?
Zack olhou para a cabana, tendo um choque de reconhecim ento.
– É.
Ele m al podia acreditar no que seus olhos estavam registrando. Não ia lá desde criança, e a circunferência das árvores havia, provavelm ente,
aum entado, m as tudo lhe voltou. A cabana – um a caixa m arrom -escura,
feita de pranchas verticais de m adeira, com um telhado inclinado –, a
vegetação densa, em aranhada e áspera, o velho toco de carvalho para
cortar lenha, um m achado com cabo longo e um esporão cravado nele,
um a roda de afiar, a pilha de m adeira ao lado da cabana. Tam bém tinha
um poço artesiano que seu pai havia construído, tirando água de um
aquífero do riacho próxim o.
À direita da porta da frente havia um a pequena j anela, brilhando com
a luz que vinha do interior da cabana. A fum aça subia pela cham iné em
algum lugar nos fundos. Enquanto ele absorvia tudo aquilo e tentava
organizar os flashes psíquicos, Sarah sussurrou o seu nom e. Zack olhou, e
ela estava apontando sua lanterna para algum a coisa. Ele deslocou-se até
ela. No círculo de luz estava a m esm a van preta.
Zack foi até a porta da frente e bateu. Nenhum a resposta. Bateu
novam ente.
– Pai, sou eu, Zack.
Nada.
Ele bateu novam ente.
– Nick Kashian, é o seu filho, Zachary . Por favor, abra.
Em algum lugar ao longe, um m ergulhão gritou.
– Está trancada – Sarah sussurrou.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
Um cadeado de segredo em aço inoxidável estava pendurado no
trinco. Ele passou os dedos por baixo do cadeado e levantou-o até a luz da
lanterna de Sarah. Testou-o. Então, com o se os seus dedos tivessem um a
m ente própria, ele girou o dial para a direita três vezes até 24, depois, um a
vez para esquerda até 8, e depois, duas vezes para a direita até 14, e o
cadeado abriu.
– Com o você sabia? – Sarah perguntou.
Ele balançou a cabeça. Os núm eros sim plesm ente haviam chegado
aos seus dedos. Ele rem oveu o trinco e abriu a porta.
O interior estava ilum inado por um a única lanterna de querosene. E a
im pressão im ediata era de desorganização. Coisas recolhidas ao longo de
anos de ocupação. Recipientes plásticos de querosene vazios pendurados
aos cachos em um a viga de suporte do teto, cuj o pé-direito tinha cerca de
três m etros. De outra viga pendiam pedaços de carne e peixe secos e
escuros em brulhados em gaze.
A cam a im provisada estava encostada à parede da esquerda, coberta
por um travesseiro cinza e roupa de cam a suj a e am arrotada. Havia um
pequeno fogão a lenha na parede oposta. Ele podia sentir seu calor.
No ar, m isturavam -se os cheiros de suor, fum aça e m adeira m ofada.
Na parede, prateleiras cheias de produtos enlatados, potes de com ida,
panelas, uns poucos utensílios e grãos e frutas secas. A velha Nikon de seu pai. Teleobj etivas guardadas em estoj os cilíndricos.
Em outra parede, três suportes, dois deles apoiando espingardas. Em
um a prateleira próxim a, caixas de m unição. Perto da porta, pendurados,
facas em bainhadas e um facão de m ato. E, pendendo de cavilhas na
parede, j aquetas com capuz, cam isas e um par de botas de pescaria. Um a
bancada pequena e um a cadeira assentavam -se ao fundo, em frente à
cam a. Várias ferram entas estavam alinhadas em um painel.
– Zack.
Sarah apontava sua lanterna para algum as fotografias desbotadas
pregadas na parede acim a da m esa de trabalho. Fotografias dele e de Jake
ou dos quatro, o m esm o retrato de fam ília sobre a lareira de sua m ãe. Um a
delas m ostrava Zack, ainda um garotinho, segurando orgulhosam ente um a
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
truta de riacho quase tão grande quanto ele, a água ao fundo. Ele nunca
tinha visto aquela foto. Devia ter sido tirada em algum lugar perto dali.
Mas o que cham ou a atenção de Zack encontrava-se na parede sobre a
cam a. Era um a aquarela de Jesus pregando para seus seguidores; em baixo,
em um tríptico, o pai-nosso escrito em inglês, em algum idiom a
estrangeiro, e um a transliteração alfabética. Zack pegou seu telefone
celular e exibiu o vídeo de seu m urm úrio no com a.
Avvon d-bish-m aiy a, nith-qaddash shim -m ukh
Tih-teh m al-chootukh. Nih-weh çiw-y anukh:
ei-chana d’bish-m aiy a: ap b’ar-ah.
Haw lan lakh-m a d’soonqa-nan y oo-m ana.
O’shwooq lan kho-bein:
ei-chana d’ap kh’nan shwiq-qan l’khay a-ween.
Oo’la te-ellan l’niss-y oona:
il-la paç-çan m in beesha.
Mid-til de-di-lukh hai m al-choota
oo khai-la oo tush-bookh-ta
l’alam al-m ein. Aa-m een.
– Palavra por palavra – disse Sarah.
Zack assentiu. – Só que não é a m inha voz.
Antes que Sarah pudesse responder, a porta da cabana se escancarou
e um a figura entrou cam baleando.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
87
Ele mal conseguiu reconhecê-lo por trás da espingarda.
– Pai, sou eu, Zack.
O rosto de seu pai estava m eio encoberto pelo capuz da grossa capa de chuva cinza. O cabelo ensebado caía-lhe sobre a testa, e a parte inferior da
face estava enterrada sob um a barba im unda. Mas aqueles olhos eram os
olhos de seu pai: duas pedras preciosas verdes e penetrantes que Zack
havia herdado.
Ele olhou para Zack, com a espingarda oscilando em sua direção.
– Pai, sou eu, e esta é a m inha am iga Sarah. Estam os aqui para aj udá-
lo.
Por um m om ento paralisante, Zack não pôde dizer se algum a coisa
estava sendo registrada pelo brilho selvagem dos olhos de seu pai. Ele
podia estar totalm ente dem ente e atirar neles por invadir a cabana.
Tem gente que acha que eles não batem m uito bem da bola: vivendo
m uito isolado... Num im porta: nóis num m exe cum eles, eles num m exe
cum nóis.
Seu pai apontou o cano da arm a para Zack. Em seguida, para Sarah.
– Quem é você? – Sua voz era áspera pela falta de uso.
– Esta é Sarah Wy m an. Ela é enferm eira. Nós viem os para aj udar.
Ele m anteve o cano da espingarda apontado para a barriga dela. Ele se
balançava e fazia caretas; sua boca se m ovia debaixo da barba preta com
fios grisalhos, com o se estivesse conduzindo um a conversa interior.
Olhou boquiaberto para Zack, esprem endo os olhos e contorcendo o
rosto, com o se estivesse tentando registrar o reconhecim ento. Parou de
apontar a espingarda para Sarah e m irou Zack, fazendo-o estrem ecer. Ele
não m e reconhece, Zack pensava. Sua m ente se foi e ele não tem ideia de
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
quem eu sou: apenas um intruso no m eio da noite, que veio aqui para
roubá-lo. Em um m om ento de pavor, Zack se perguntou se ele, por m eio
de algum as recordações profundas, acabara atraindo as m iseráveis e
dem entes rem iniscências de alguém que costum ava ser seu pai e que
podia transform ar o m om ento seguinte em um a carnificina. Enquanto
observava o buraco negro do cano da arm a entre eles, Zack pensou em
segurá-la. Mas, se disparasse, eles poderiam ser atingidos.
– Pai, por favor...
Antes que pudesse term inar, o pai soltou um grito doloroso e
desm oronou, caindo sobre um j oelho, estrem ecendo e ofegante. A arm a
caiu no chão de m adeira. Zack pegou-o por um braço, Sarah por outro.
Lentam ente, eles o levaram para a cam a. Ele gem eu quando rem overam a
capa e ergueram seus pés sobre a cam a. Gentilm ente, o deitaram no
colchão fino e m anchado, com cheiro de azedo deixado pelos odores do
corpo. Sarah pegou um velho suéter para fazer de travesseiro, e Zack o
aj eitou sob a cabeça do pai.
– Santo Deus! – Zack m urm urou. O lado direito do paletó do pai
estava escuro de sangue.
Zack não sabia se o choque devia-se à constatação de que seu pai de
fato havia sido baleado com o fora pressagiado na EQM ou da ferida horrível que a bala havia deixado.
Ele tentou não reagir ao odor rançoso de podridão quando rem overam
o curativo feito com um trapo e silver tape. Provavelm ente a bala ainda
estava aloj ada dentro dele, e onde ela havia entrado era um buraco
franzido e fétido de secreção purulenta, aureolado por um inchaço grave
da carne descolorida.
A prim eira coisa que passou pela cabeça de Zack foi que o ferim ento
havia gangrenado. A segunda foi que aquilo tinha se espalhado para o
cérebro de seu pai, tornando-o delirante e incapaz de reconhecê-lo. Estava
trem endo de febre e desidratação. Sem antibióticos, ele provavelm ente
não sobreviveria à noite.
– Nós tem os de levá-lo para um hospital.
– Hospital, não. – As sílabas saíram arranhando a garganta de seu pai.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
– Mas a infecção se espalhou – disse Sarah.
– Não quero m orrer em um hospital – disse o pai, com voz ofegante.
Fora a prim eira declaração lúcida que tinha feito.
– Ok – disse Zack, aliviado. Do bolso do paletó, tirou um frasco de
Percocet, que sobrara após a alta do hospital. Colocou dois com prim idos
na boca do pai e levou a garrafa de água aos seus lábios.
– Isso vai fazer você se sentir m elhor. – O pai engoliu as pílulas.
Enquanto isso, Sarah rem oveu os sapatos de Nick e puxou o cobertor
sobre ele. Ela colocou um pouco m ais de lenha no fogão para afastar a
friagem .
Enquanto esperavam que a droga surtisse efeito, Sarah balançou a
cabeça negativam ente para dizer que a condição de Nick parecia ruim .
Zack segurou a m ão do pai enquanto ele fechava os olhos,
estrem ecendo, ocasionalm ente, por causa da dor e esperando a m edicação
agir.
Enquanto Zack observava seu pai, as coisas voltaram em sua m em ória.
A form a com o a veia azul em sua testa era visível, agora pulsando com o
coração sobrecarregado. A pequena falha em um dente da frente,
resultado de um a queda da bicicleta, quando era criança. O dedo m édio
ligeiram ente torto na m ão direita, que ele havia quebrado na faculdade
durante um a brincadeira de fraternidade. Pequenas particularidades de
que ele j á não se lem brava. Entretanto, os olhos verdes ainda brilhavam
com um fogo que ele j am ais esquecera. Afinal, eles encaravam Zack toda
vez em que ele se olhava no espelho.
Tam bém podia ver com o ele tinha envelhecido: os profundos vincos
em torno dos olhos, a ruga entre as sobrancelhas. As m anchas senis na
testa e nas costas das m ãos. Vários cortes e cicatrizes em seus braços. As
unhas lascadas e enegrecidas, a suj eira em seu cabelo em aranhado. A
barba desgrenhada e grisalha. Ele vivia em m eio à natureza, renunciando
ao m undo ‚civilizado' com o um Thoreau dos últim os dias, subsistindo da terra que ele am ava – aquele santuário de Magog.
Mas o que cortava o coração de Zack era a certeza de que aquelas
eram as últim as horas que ele passaria com o pai que ele m al conhecia.
Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.
a
Tanta coisa para dizer, tanto para perguntar, e tão poucos batim entos
cardíacos pela frente.
Em poucos m inutos, a droga agiu. Nick abriu os olhos e sinalizou com
a cabeça que se sentia m elhor. Ele bebeu m ais água.
Sarah levantou-se para lhes dar algum a privacidade. O interior da
cabana era pequeno, m as ela foi para o outro lado, onde encontrou alguns
guardanapos e silver tape para fazer um curativo lim po.
– Eu sabia que você iria m e encontrar – falou com voz rascante. – Eu
senti que você estava chegando.
– Eu tam bém . Eu os vi enterrá-lo vivo em Sagam ore. Vi você escavar a
areia e sair. Eu estava com você.
Os olhos do pai se arregalaram .
– Você tam bém tem o dom .
– O dom ?
– Você vê o invisível. Você toca o espírito.
– Mas com o?
Seu pai com eçou a falar, m as foi pego em um acesso de tosse que se
transform ou em um a saraivada de engasgos sibilantes. Sarah acudiu, e eles
o levantaram e seguraram até que conseguisse recuperar o fôlego. Sarah
serviu-lhe um a caneca de água de um reservatório de cinco galões
m ontado no canto m ais distante. Nick tom ou goles pequenos, penosos.
Quando term inou, eles o recostaram em travesseiros im provisados. Por
alguns m inutos, ele ficou im óvel, com os olhos fechados.
De um a m esa encostada na parede oposta, Sarah voltou com um a
caixa de papelão com um a tira de silver tape sobre a tam pa, e ZACK
escrito à m ão.
Dentro havia um álbum com fotos em preto e branco; a prim eira delas
m ostrava Zack recebendo seu diplom a de graduação na área de
hum anidades. Ela não fora tirada pelo fotógrafo oficial da cerim ônia de
form atura, m as com um a teleobj etiva no m eio da m ultidão, provavelm ente
a que descansava agora na prateleira ao lado da velha Nikon F.
E havia outras fotos, todas de Zack: j ogando softball no cam po da