Visões da Morte

Gary Braver · Capítulo 10 de 10 · parte 1/2

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Visões da Morte

conta pra vê se os anim ais…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

conta pra vê se os anim ais selvagem tá saudável, se ninguém rouba.

– Qual é o problem a?

– O problem a é que um a gente daqui num são com o ocês, gente de

Massachusetts. Elas num têm em prego fixo, nem um a vida civilizada.

Vivem na floresta, vivem da terra, só saem de lá um a vez por ano, quando

saem . Com em o que eles m atam . Eles pega um alce, o DPIVS faz que

num vê, olha pro outro lado. – Ele pegou um pano e com eçou a lim par as

m ãos. Depois, o nariz.

– Eu ainda não entendi qual é o problem a.

– Bem , tem gente que acha que eles não batem m uito bem da bola...

vivendo

m uito

isolado,

lidando

só

com

a

natureza

m uito

tem po. Num im porta! Nóis num m exe cum eles, eles num m exe cum nóis.

– Você está dizendo que existem pessoas perigosas lá?

– Estou dizendo pra arriar suas m ala em outro lugar.

Sarah saiu da loj a com um guia pequeno e alguns folhetos de hotéis e

pousadas. Ela agradeceu ao hom em e deslizou de volta para o banco do passageiro.

A m ulher correu atrás dela.

– Óia o resto de seu troco, dona. – E ela entregou a Sarah algum as

m oedas.

A m ulher era grande e tinha o cabelo puxado para trás, preso em um

rabo de cavalo. Tinha um rosto largo, m asculinizado, e usava um m oletom

rosa choque com um trocadilho que dizia: ‚Mãe Mainíaca.' Quando Sarah

disse para ela ficar com o troco, a m ulher disse:

– Brigada, m as nós num aceita caridade. – Ela se postou ao lado do

hom em na bom ba de gasolina para vê-los irem em bora.

Zack acenou e afivelou o cinto de segurança, enquanto os dois os

acom panhavam com os olhos, sem expressão, parecendo um a versão obesa

de Am erican Gothic[24]. Justo quando Zack estava prestes a se afastar, o Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

hom em fez um a arm a com os dedos e apontou a 202 na direção sul. Sarah

não o viu, e Zack virou o carro para o norte. No espelho retrovisor, o

hom em continuava lá parado ao lado da esposa, olhando o carro deles se

afastar, balançando a cabeça em sinal de desaprovação.

[24]. Fam oso quadro do pintor am ericano Grant Wood. (N. da T.) Quando haviam rodado cerca de quatrocentos m etros, Sarah entregou

a Zack um sanduíche de atum , cuj o recheio havia escorrido através do pão.

– Era tudo o que tinham – disse ela. – Acho que acabaram com o

estoque de coisas boas do lugar.

– Ah, sim , era a m eca dos gastrônom os.

Zack colocou o sanduíche no suporte entre eles. Não tinha apetite.

Tom ou um gole do chá gelado e seguiu em frente, sentindo que estava

indo na direção certa, apesar de o cara lá do posto se com portar com o um

dos aldeões do film e Drácula. Estou surpreso por ele não ter m e oferecido

um crucifixo, pensou ele, com som bria estupefação.

– Sua m em ória é espantosa – disse Sarah, m ordendo o sanduíche

dela. – Eu perguntei à m ulher, e ela disse que Magog Woods fica a cerca

de 25 quilôm etros de distância.

Não é m em ória.

– Você deve ter estado aqui m ais vezes do que se lem bra.

Racional até o fim , Zack pensou.

– Talvez sim – disse ele, para agradá-la. – Logo que chegam os àquela

parada, tudo voltou.

– Mesm o assim , você tem um a excelente m em ória.

– Ou talvez eu não tivesse m otivos para m e lem brar, e agora tenho.

– Não tenho certeza de que com preendi.

– Não é im portante.

Pelo canto do olho, viu-a se virar para ele.

– O que não é im portante?

– Nada. – Som bras arroxeadas proj etadas pelo sol poente cobriam a

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

estrada à frente.

– Zack, eu não estou gostando disto.

– Do que você não está gostando?

– De estar aqui, nesta região. Da m aneira com o você está se

com portando. Da m aneira com o você está falando. Estou ficando

assustada.

– Bem , eu sinto m uito.

– Eu quero voltar, ok?

Não! Ela está tentando corrom pê-lo. Desviá-lo da sua m issão.

– Olha, são som ente m ais dezesseis quilôm etros, aproxim adam ente.

Se não encontrarm os, vam os voltar. Eu prom eto.

– Você nem m esm o sabe o que está procurando.

– Se você quiser, eu posso deixá-la naquela loj a e ir sozinho.

– Fala sério.

– Então, confie em m im .

– Se você não encontrar sej a lá o que for, nós voltarem os. Prom eta.

– Eu prom eto.

Mas no fundo de sua m ente havia um a centelha de culpa

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

84

Cerca de dez quilômetros depois do posto de gasolina, Zack desacelerou o

carro. O paredão de árvores em am bos os lados da estrada form ava um

corredor ininterrupto, cada vez m ais escuro. Desde a parada, passara um

único veículo na estrada, vindo no sentido oposto.

– É isto? – Sarah perguntou. O m edo era audível em sua voz.

Ele não respondeu, m as seu peito estava batendo tão forte que ele

arfava. Depois de m eio m inuto m ais, ele parou. No m ato fechado havia

um a pequena entrada que dava em um a estrada de terra sem m arcação,

quase indistinguível, apenas um corte estreito através de pinheiros

altíssim os, carvalhos e m ata densa. Zack entrou ali. Não havia outros

carros na estrada, que desaparecia na escuridão em qualquer direção.

– O que estam os fazendo?

– Nós estam os aqui.

Zack acendeu os faróis. O trecho esburacado de terra só perm itia a

passagem de um carro, com as ervas daninhas que cresciam por entre os

sulcos de pneus j á com eçando a tom ar todo o resto. Obviam ente, aquela

estradinha não era m uito usada e ia se desenrolando à frente deles, para

logo desaparecer na escuridão. Zack verificou se as portas estavam

trancadas.

– Eu só quero prosseguir um pouco. Depois, irem os em bora im ediatam ente.

– Não estou gostando disto.

– Nós vam os ficar bem . – O cérebro dele estava zum bindo com o um

enxam e de vespas. Ele avançava lentam ente pelo cam inho, enquanto a

vegetação ia escovando o carro e as árvores m uito próxim as form avam um

túnel que se fechava sobre eles quanto m ais longe iam . Algo m uito

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

estranho estava para acontecer.

– Zack, por favor, volte. Eu quero sair daqui.

– Ok. Vam os encontrar um a clareira para m anobrar.

– É só voltar de ré.

Mas ele não lhe deu atenção e rodou alguns m etros m ais, até que

ficou claro que tinham chegado ao fim , os faróis bateram em um m uro de

árvores sem abertura grande o suficiente para deixar passar um carro.

– Viu?

– Vi o quê? Não há espaço para m anobrar.

Ele não tinha ideia de quanto haviam avançado, talvez um a centena

de m etros. Mas ela estava certa. Ele tinha apenas uns sessenta ou noventa

centím etros de cada lado do carro para virar. E não seria fácil ir de ré, com

apenas as lanternas traseiras para ilum inar o cam inho.

Sarah fervia de raiva enquanto ele engatava a m archa a ré e tentava

m anobrar, avançando uns trinta centím etros de cada vez. As laterais iam

sendo raspadas, e ele iria pagar um a nota para consertar os riscos. Mas,

m uitos m inutos depois, ele conseguiu finalm ente virar o carro no sentido

contrário. O suor escorria por seu rosto e suas costas.

– O que foi isso? – perguntou Sarah, ofegante.

Ele se virou, pensando que ela tinha visto algum a coisa no bosque.

Mas Sarah estava olhando para a frente.

Através do para-brisa ele não conseguia ver nada, só a estrada de terra

e os paredões de árvores. Então, ele acendeu os faróis altos. Algo piscou de

volta para ele, e ele sentiu um nó no estôm ago. Cerca de trinta m etros à

frente, preenchendo a largura da estrada, havia um a van preta.

– Quem é? – Sarah sussurrou.

– Eu não sei.

As luzes da van se apagaram , e m esm o com os faróis altos Zack não

conseguia ver ninguém por trás do para-brisa.

– Nós estam os presos.

Quem os havia seguido o fizera praticam ente às escuras, porque Zack

enveredara por aquele cam inho com um olho na estrada e outro no

espelho retrovisor. Com os faróis apagados, o m otorista os seguira na

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

escuridão quase total. E, pelo tem po que Zack levara para virar o carro,

quem quer que fosse ou conhecia o cam inho ou podia enxergar no escuro.

Se a van estava vazia, o m otorista poderia estar em qualquer lugar,

observando-os.

– Som os presas fáceis – disse ela.

Zack soltou o cinto de segurança.

– Não, não saia – ela pediu.

– Só quero pegar um a coisa lá atrás.

– Não. – Ela estava com eçando a entrar em pânico e agarrou o braço

dele. – Não saia, por favor.

– Então, venha com igo. – Zack desceu, e Sarah passou para o banco

do m otorista e saiu pelo lado dele. Ele foi com ela até o porta-m alas, onde

pegou sua m ochila e duas lanternas. Ele não as acendeu, m as entregou

um a a Sarah. Colocou a m ochila nas costas, afastou o tapete, e levantou o

piso falso sobre o pneu sobressalente. Na bolsa de reparos havia um pé de

cabra de trinta centím etros. Teria de servir. Ele fechou o porta-m alas,

segurando a lanterna preta em um a m ão e o pé de cabra na outra. Em

um flash, viu-se esm agando o crânio de Mitchell Gretch.

Sarah puxou-o para voltarem .

– Vam os entrar.

A floresta estava escura e carregada com o som de insetos. O que dava

para ver do céu tinha se tornado opaco, com poucas estrelas brilhando

através do espesso dossel.

– Para quê?

– Talvez a gente possa em purrá-lo para fora da estrada.

– Tem m uita árvore. – Elas cresciam até a estrada, não deixando

espaço para enfiar a van.

Sarah estava trem endo.

– O que vam os fazer?

Zack não tinha ideia de quem dirigira a van, nenhum a fam iliaridade

psíquica. Seu coração estava batendo forte, m as ele não estava com m edo.

Ele abriu a porta para Sarah, do lado da direção.

– Ok, entre. Tranque as portas e ligue o carro.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

– O quê?

– Basta fazer o que eu digo. Por favor.

– Não, Zack. Não.

Ele a em purrou delicadam ente para dentro, fechou a porta e

cam inhou pela estradinha de terra ilum inada pelos faróis altos do Murano,

segurando o pé de cabra na m ão direita, a lanterna na m ão esquerda.

Quando se aproxim ou da van, ele não viu ninguém nos bancos da frente,

m as não conseguia ver o banco de trás. Ele ilum inou as árvores em volta

com a lanterna, m as não viu ninguém .

Foi até a van, um a VW antiga e castigada, sem placa dianteira e um

selo de inspeção do Maine que tinha vencido havia dois anos. O m otor

estava quente. Prendeu a respiração e agarrou o pé de cabra. Em seguida,

encostou a lanterna no para-brisa. A van estava vazia. As portas estavam

trancadas. Nada de chave na ignição. Nada no banco da frente. Na

traseira, dava para ver algum as caixas e alguns j arros plásticos sem

im portância, nos cantos. Um as pilhas de roupas ou trapos... Não dava para

distinguir. Mas o seu coração deu um pulo quando o facho de luz

ilum inou um rack de arm as m ontado no teto atrás do m otorista. Estava

vazio.

Ilum inou ao redor, sabendo que estava sendo vigiado. Quando ia

inspecionar a traseira da van, Sarah gritou.

Ele disparou com o um a flecha em direção ao Murano, seus pés m al

tocaram o solo. Não via m ais ninguém no veículo, apenas o rosto lívido de

Sarah. Quando chegou à porta do m otorista, ela a destravou.

– Tem alguém lá fora – disse ela, m al conseguindo recuperar o fôlego.

– Eu o vi.

– Onde?

– Na m inha j anela.

– Você viu o rosto?

Ela balançou a cabeça negativam ente.

– Só um flash.

– Você o reconheceu?

– Não. Foi m uito rápido.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

– Com o ele era?

– Eu não sei. Apenas um a form a escura.

– Ele disse algum a coisa?

– Não. O que vam os fazer?

O m otor estava ronronando, e com os faróis m al se distinguia a van à

frente deles.

– Provavelm ente, é gente do lugar querendo assustar os ‚bacanas' de

Massachusetts.

– O pessoal do posto de gasolina?

– É. A ideia caipira de um a noite de sexta-feira divertida.

– Está se m ovendo – disse ela.

Zack acendeu as luzes. A van estava em m ovim ento, m as não em

direção a eles. Dava ré. Com os faróis apagados, a van retrocedeu e, num

instante, desapareceu na escuridão, as árvores pareciam se fechar sobre ela

com o um a cortina.

– Siga em frente – disse ela.

Em vez disso, ele apagou os faróis. A floresta era um breu. Não se via

luz da van. Nem luzes distantes da estrada. Nada, além do irredutível

negrum e. Ele desligou o m otor do carro.

– O que você está fazendo? – Ela gritou. – Vam os dar o fora daqui.

– Foram em bora. – Ele abriu a porta.

– Zach, volte para dentro e m e leve para casa.

– Não foi para isso que nós viem os. – Ele pegou as chaves e saiu.

– Entre aqui, droga!

Enquanto ela continuava protestando, ele não disse nada e andou até

o final do cam inho onde ele havia virado o carro.

Lá no alto, as estrelas ainda piscavam através das copas das árvores.

Mas ele podia ver um a fina cam ada de nuvens com eçando a enevoar a luz.

Tam bém podia sentir um a queda na tem peratura, j á que com eçara a

ventar, trazendo o cheiro de chuva.

Sarah saiu do carro e bateu a porta.

– Que diabos você está fazendo? – disse ela, andando até ele.

– Nós não term inam os. – Ele sentia o latej ar do próprio pulso contra o

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

pé de cabra que apertava na m ão.

De repente, um pavoroso grito, sobrenatural, ecoou na floresta,

aterrorizando Sarah e quase parando o coração de Zack.

– O que foi isso? – gritou ela.

– Apenas um m ergulhão.

Em outra parte, outro m ergulhão respondeu com o m esm o trinado

histérico.

Ela agarrou a frente de sua cam isa.

– Eu quero sair daqui. Agora!

– Então, vá. – Ele balançou as chaves do carro diante dela. – Leve o

carro e saia. Você é livre, o cam inho está desim pedido. Eu não vou voltar.

– Por que você está fazendo isso?

– Diga-m e, Sarah, no que exatam ente você acredita, hein? Tudo se

resum e a serotonina e lobos de Deus?

– O quê?

– Não é possível que existam coisas invisíveis neste m undo?

– Zack, por favor...

– Estou realm ente querendo saber. Não é possível que você possa

estar errada? Você quer um a prova concreta? Bem , você está olhando para

ela: eu.

– Mas...

– Mas o quê? Estou delirando? Sou psicótico? Louco?

– Eu não disse isso.

Ele colocou as chaves na m ão dela.

– Vá para casa, Sarah. Volte para a lim pa e bem ilum inada

Cam bridge. – Então, ele se virou e afastou-se, inebriando-se com o odor

de pinho, alm iscarado, proveniente das árvores e folhas em decom posição.

E outra coisa.

Suor hum ano.

E outra coisa.

Fum aça de lenha.

Zack congelou no lugar e virou a cabeça com o se fosse um a antena

procurando um sinal.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

Estavam cercados por um paredão contínuo de árvores form ando um a

m assa de vegetação em ‚luz e som bra' em torno deles, contra a luz

desvanecente das estrelas. Ele m eteu o pé de cabra no cinto e se dirigiu à

pequena clareira onde ele havia virado o carro.

– Eu não vou em bora – disse Sarah.

Ele não disse coisa algum a, m as parou de repente. Então,

inexplicavelm ente, algo no fundo de seu cérebro fez um clique. Ele se

virou para a esquerda e olhou para o chão negro.

– Eu não estou enxergando nada – ela m urm urou.

Ele apontou a luz para um ponto no chão.

– Por aqui.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a 85

– Como é que vamos encontrar o caminho de volta? – ela sussurrou.

– Sem problem a.

– O que quer dizer com ‚sem problem a'? E onde está a sua bússola?

– Estou com ela.

– Onde?

Mas ele não respondeu. Em vez disso, desligou a lanterna e

prosseguiu, enquanto ela m antinha a dela ilum inando o cam inho à sua

frente. Através das copas das árvores, a luz esm aecida das estrelas pintava

um vago dioram a de galhos e troncos. A visibilidade no solo era m ínim a.

No entanto, Zack se m ovia através do em aranhado de arbustos e árvores

com o se fosse orientado por radar. E Sarah se arrastava atrás dele, sem

dizer nada.

Enquanto se em brenhavam m ais fundo, Zack sentiu a tem peratura

cair ainda m ais. Apesar de estarem se m ovim entando, a friagem penetrava

sua j aqueta e seu m oletom . Ocorreu-lhe que, se eles se perdessem , levaria

anos para encontrarem seus restos m ortais. Se algum dia encontrassem . A

floresta estava cheia de criaturas de hábitos noturnos – coiotes, ursos,

linces – que os reduziriam a ossos em um instante. E o que sobrasse seria

consum ido por insetos e verm es. Morte e reciclagem total.

E ele podia ouvi-los – gorj eios, trinados e chilreios, um grunhido ou

resfolegar ocasional. Ao longe, os gritos histéricos dos m ergulhões. E,

ainda m ais ao longe, coiotes uivando para o céu.

Deus, dê-m e um sinal.

Quando Sarah puxou-lhe a cam isa para perguntar para onde eles

estavam indo, para lhe pedir que voltassem , ele sim plesm ente disse:

– Confie em m im .

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

O cam inho era estreito e coberto com brotos tenros com o a esperança

que crescia nele. Silenciosam ente, ele conduzia Sarah. A certa altura, ela

soltou um grito, quando alguns pássaros aninhados no solo se assustaram

de repente, esvoaçando no facho de luz de suas lanternas com o pequenas

fadas.

Mas algo m ais estava lá. Algo vivo e consciente. Ele podia sentir a sua

presença, ainda que ele não pudesse ouvi-lo. De vez em quando, ele

parava e prestava atenção.

A floresta vibrava com o raspar m etálico das asas de m ilhares de grilos,

preenchendo o ar com um a expectativa feroz. Infelizm ente, o ar tam bém

estava infestado de m osquitos que picavam e entravam -lhes nos olhos e

ouvidos, e transform avam as florestas do Maine em um inferno de

zum bidos. E eles não tinham repelente. Mas o vento aum entou e

afugentou os insetos.

Um sinal? Talvez o vento, ele pensou.

Apesar dos protestos de Sarah, eles adentravam m ais a m ata.

– Sarah, estam os bem .

– Eu não estou bem , droga!

Mas ele a ignorava e m ovia-se pelo m ato com o um cão de caça. Zack

gostaria de poder explicar, de encontrar as palavras. Mas aquilo estava

além da linguagem . E ela era m uito racional, vivia dentro dos lim ites da

lógica cartesiana e da física newtoniana. Do j eito que ele costum ava ser.

Entretanto, algum a coisa havia acontecido. Algo que ela não sonhara em

sua vã filosofia. Nas últim as horas – ou, pensando bem , sem anas –, as

coisas se encaixaram com um a sublim e inevitabilidade, com o um a profecia

que se cum pre, culm inando naquela floresta onde as árvores se erguiam

com o torres de um a catedral.

Zack parou de repente.

– O que foi? – Sarah perguntou sobressaltada.

– Ouça.

Tudo ao redor deles havia se tornado absolutam ente silencioso, com o

se alguém tivesse desligado o áudio. Nada de grilos, nenhum ruído dos

anim ais noturnos, nem pássaros assustados ou uivos de coiote. Nem

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

m esm o o m urm úrio do vento na copa das árvores. Era com o se a floresta

estivesse prendendo a respiração.

– O que está acontecendo? – O terror estrangulava a voz dela.

– Nada. – Zack olhou para trás. Mesm o se quisesse voltar, nunca

conseguiriam , não naquele escuro labirinto. Além disso, o m ato pisoteado

por eles, que teria podido fazer as vezes de trilha, j á estava se recuperando

e voltando ao lugar. E um a garoa fria com eçava a cair.

– Estam os perdidos – Sarah sussurrou. – Estam os com pletam ente

perdidos, e você não tem nem um a droga de bússola. Você m entiu. – Ela

estava chorando.

De repente, o coração de Zack foi tom ado pela dúvida. E se ele

estivesse errado? Será que ele havia se iludido? E se o instinto que o

guiava fosse um a invenção de um cérebro corroído pela tetrodotoxina? E

se ela tivesse razão e tudo aquilo fosse apenas coisa de sua cabeça? Será

que não havia coisa algum a por trás daquilo? Nenhum a m ente

transcendente. Nenhum a consciência superior. Apenas a piada cósm ica da

esperança.

– Zack!

Ele se virou, e atrás deles o chão estava queim ando com um fogo

verde, com o se lava alienígena estivesse brotando do solo. O cam inho à

frente ainda estava escuro, m as, atrás deles, suas passadas haviam deixado

um rastro incandescente, com o se tivessem andado sobre rádio líquido.

Ele puxou Sarah para a frente. O m aterial estava grudado aos sapatos

deles e aos fundilhos das calças com o ácaros fosforescentes. Brilhando

com m ilhões deles. Ela bateu o pé, e seu tênis de corrida ilum inou-se.

– Que diabos é isso?

Um sinal. Obrigado.

Ele a segurou pelos om bros.

– Sarah, acalm e-se. Cham a-se biolum inescência. Um a reação quím ica

que ocorre em fungos e m adeira apodrecida. Um a fosforescência quím ica.

Pura biologia.

– O quê? Com o você sabe disso?

‚Fogo das fadas', com o seu pai cham ava, e ele se lem brou de tudo, de

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

verdade. Na últim a vez em que estivera ali, seu pai levara ele e Jake pelo

m esm o cam inho, à noite. Então, ele desligara a lanterna para m ostrar a

eles o fenôm eno.

– Meu pai...

Foram em frente. Atrás deles, a biolum inescência os seguia,

destacando a silhueta de torrões de terra, m udas, galhos caídos, e

espirrando a cada pisada, com o se, logo abaixo da superfície, houvesse um

lago raso de tinta fluorescente.

– Você viu?

Ela balançou a cabeça concordando, olhando para o rastro brilhante,

desvanecendo-se lentam ente no escuro.

– Você está bem ?

Ela não respondeu. Ele pegou a m ão dela, que estava fria e úm ida, e

guiou-a. A garoa estava transform ando a pele de Zack em

um a m ousse gelatinosa e gelada. Eles cam inharam m ais alguns m etros, e

ela estancou.

– Não posso ir em frente. Não posso continuar.

– Eu sei – disse ele, abraçando-a. Ela não com preendia. Com o

poderia? – Estam os quase lá.

– Você só fica repetindo isso. Eu quero voltar.

– Por favor, confie em m im . Apenas cinco m inutos m ais. Eu j uro, de

verdade.

Continuaram , aos tropeções, e logo o fogo das fadas desapareceu,

restando apenas a negra floresta. Ele seguia o facho de sua lanterna e o

verm e da dúvida deslizou novam ente em seu peito.

Por favor, não m e abandone.

De repente, Sarah parou. Ela estava trem endo e, na luz, seu rosto era

um a m áscara branca de si m esm a. Lágrim as rolavam por seu rosto.

– Não.

– Só um pouco m ais.

– Não, e você está m e assustando pra valer.

– Fum aça.

– O quê?

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

Ele girou a cabeça em volta.

– Sinto cheiro de fum aça.

– Estou m e lixando para isso.

Ele andou alguns m etros no escuro.

– Lá.

Ao longe, um tênue brilho alaranj ado. Ele olhou para Sarah. Ela estava

em pé, com as m ãos apertadas contra o peito, o cabelo em aranhado pela

chuva que caía. Parecia que havia se transform ado em pedra. Zack foi até

ela e estendeu-lhe a m ão.

Por um longo m om ento, Sarah olhou para ele e, então, aceitou a m ão

estendida. Cam inharam cerca de trinta m etros, seguindo a luz.

– Meu Deus – ele sussurrou. – Estou em casa.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

86

– É isto?

Zack olhou para a cabana, tendo um choque de reconhecim ento.

– É.

Ele m al podia acreditar no que seus olhos estavam registrando. Não ia lá desde criança, e a circunferência das árvores havia, provavelm ente,

aum entado, m as tudo lhe voltou. A cabana – um a caixa m arrom -escura,

feita de pranchas verticais de m adeira, com um telhado inclinado –, a

vegetação densa, em aranhada e áspera, o velho toco de carvalho para

cortar lenha, um m achado com cabo longo e um esporão cravado nele,

um a roda de afiar, a pilha de m adeira ao lado da cabana. Tam bém tinha

um poço artesiano que seu pai havia construído, tirando água de um

aquífero do riacho próxim o.

À direita da porta da frente havia um a pequena j anela, brilhando com

a luz que vinha do interior da cabana. A fum aça subia pela cham iné em

algum lugar nos fundos. Enquanto ele absorvia tudo aquilo e tentava

organizar os flashes psíquicos, Sarah sussurrou o seu nom e. Zack olhou, e

ela estava apontando sua lanterna para algum a coisa. Ele deslocou-se até

ela. No círculo de luz estava a m esm a van preta.

Zack foi até a porta da frente e bateu. Nenhum a resposta. Bateu

novam ente.

– Pai, sou eu, Zack.

Nada.

Ele bateu novam ente.

– Nick Kashian, é o seu filho, Zachary . Por favor, abra.

Em algum lugar ao longe, um m ergulhão gritou.

– Está trancada – Sarah sussurrou.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

Um cadeado de segredo em aço inoxidável estava pendurado no

trinco. Ele passou os dedos por baixo do cadeado e levantou-o até a luz da

lanterna de Sarah. Testou-o. Então, com o se os seus dedos tivessem um a

m ente própria, ele girou o dial para a direita três vezes até 24, depois, um a

vez para esquerda até 8, e depois, duas vezes para a direita até 14, e o

cadeado abriu.

– Com o você sabia? – Sarah perguntou.

Ele balançou a cabeça. Os núm eros sim plesm ente haviam chegado

aos seus dedos. Ele rem oveu o trinco e abriu a porta.

O interior estava ilum inado por um a única lanterna de querosene. E a

im pressão im ediata era de desorganização. Coisas recolhidas ao longo de

anos de ocupação. Recipientes plásticos de querosene vazios pendurados

aos cachos em um a viga de suporte do teto, cuj o pé-direito tinha cerca de

três m etros. De outra viga pendiam pedaços de carne e peixe secos e

escuros em brulhados em gaze.

A cam a im provisada estava encostada à parede da esquerda, coberta

por um travesseiro cinza e roupa de cam a suj a e am arrotada. Havia um

pequeno fogão a lenha na parede oposta. Ele podia sentir seu calor.

No ar, m isturavam -se os cheiros de suor, fum aça e m adeira m ofada.

Na parede, prateleiras cheias de produtos enlatados, potes de com ida,

panelas, uns poucos utensílios e grãos e frutas secas. A velha Nikon de seu pai. Teleobj etivas guardadas em estoj os cilíndricos.

Em outra parede, três suportes, dois deles apoiando espingardas. Em

um a prateleira próxim a, caixas de m unição. Perto da porta, pendurados,

facas em bainhadas e um facão de m ato. E, pendendo de cavilhas na

parede, j aquetas com capuz, cam isas e um par de botas de pescaria. Um a

bancada pequena e um a cadeira assentavam -se ao fundo, em frente à

cam a. Várias ferram entas estavam alinhadas em um painel.

– Zack.

Sarah apontava sua lanterna para algum as fotografias desbotadas

pregadas na parede acim a da m esa de trabalho. Fotografias dele e de Jake

ou dos quatro, o m esm o retrato de fam ília sobre a lareira de sua m ãe. Um a

delas m ostrava Zack, ainda um garotinho, segurando orgulhosam ente um a

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

truta de riacho quase tão grande quanto ele, a água ao fundo. Ele nunca

tinha visto aquela foto. Devia ter sido tirada em algum lugar perto dali.

Mas o que cham ou a atenção de Zack encontrava-se na parede sobre a

cam a. Era um a aquarela de Jesus pregando para seus seguidores; em baixo,

em um tríptico, o pai-nosso escrito em inglês, em algum idiom a

estrangeiro, e um a transliteração alfabética. Zack pegou seu telefone

celular e exibiu o vídeo de seu m urm úrio no com a.

Avvon d-bish-m aiy a, nith-qaddash shim -m ukh

Tih-teh m al-chootukh. Nih-weh çiw-y anukh:

ei-chana d’bish-m aiy a: ap b’ar-ah.

Haw lan lakh-m a d’soonqa-nan y oo-m ana.

O’shwooq lan kho-bein:

ei-chana d’ap kh’nan shwiq-qan l’khay a-ween.

Oo’la te-ellan l’niss-y oona:

il-la paç-çan m in beesha.

Mid-til de-di-lukh hai m al-choota

oo khai-la oo tush-bookh-ta

l’alam al-m ein. Aa-m een.

– Palavra por palavra – disse Sarah.

Zack assentiu. – Só que não é a m inha voz.

Antes que Sarah pudesse responder, a porta da cabana se escancarou

e um a figura entrou cam baleando.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

87

Ele mal conseguiu reconhecê-lo por trás da espingarda.

– Pai, sou eu, Zack.

O rosto de seu pai estava m eio encoberto pelo capuz da grossa capa de chuva cinza. O cabelo ensebado caía-lhe sobre a testa, e a parte inferior da

face estava enterrada sob um a barba im unda. Mas aqueles olhos eram os

olhos de seu pai: duas pedras preciosas verdes e penetrantes que Zack

havia herdado.

Ele olhou para Zack, com a espingarda oscilando em sua direção.

– Pai, sou eu, e esta é a m inha am iga Sarah. Estam os aqui para aj udá-

lo.

Por um m om ento paralisante, Zack não pôde dizer se algum a coisa

estava sendo registrada pelo brilho selvagem dos olhos de seu pai. Ele

podia estar totalm ente dem ente e atirar neles por invadir a cabana.

Tem gente que acha que eles não batem m uito bem da bola: vivendo

m uito isolado... Num im porta: nóis num m exe cum eles, eles num m exe

cum nóis.

Seu pai apontou o cano da arm a para Zack. Em seguida, para Sarah.

– Quem é você? – Sua voz era áspera pela falta de uso.

– Esta é Sarah Wy m an. Ela é enferm eira. Nós viem os para aj udar.

Ele m anteve o cano da espingarda apontado para a barriga dela. Ele se

balançava e fazia caretas; sua boca se m ovia debaixo da barba preta com

fios grisalhos, com o se estivesse conduzindo um a conversa interior.

Olhou boquiaberto para Zack, esprem endo os olhos e contorcendo o

rosto, com o se estivesse tentando registrar o reconhecim ento. Parou de

apontar a espingarda para Sarah e m irou Zack, fazendo-o estrem ecer. Ele

não m e reconhece, Zack pensava. Sua m ente se foi e ele não tem ideia de

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

quem eu sou: apenas um intruso no m eio da noite, que veio aqui para

roubá-lo. Em um m om ento de pavor, Zack se perguntou se ele, por m eio

de algum as recordações profundas, acabara atraindo as m iseráveis e

dem entes rem iniscências de alguém que costum ava ser seu pai e que

podia transform ar o m om ento seguinte em um a carnificina. Enquanto

observava o buraco negro do cano da arm a entre eles, Zack pensou em

segurá-la. Mas, se disparasse, eles poderiam ser atingidos.

– Pai, por favor...

Antes que pudesse term inar, o pai soltou um grito doloroso e

desm oronou, caindo sobre um j oelho, estrem ecendo e ofegante. A arm a

caiu no chão de m adeira. Zack pegou-o por um braço, Sarah por outro.

Lentam ente, eles o levaram para a cam a. Ele gem eu quando rem overam a

capa e ergueram seus pés sobre a cam a. Gentilm ente, o deitaram no

colchão fino e m anchado, com cheiro de azedo deixado pelos odores do

corpo. Sarah pegou um velho suéter para fazer de travesseiro, e Zack o

aj eitou sob a cabeça do pai.

– Santo Deus! – Zack m urm urou. O lado direito do paletó do pai

estava escuro de sangue.

Zack não sabia se o choque devia-se à constatação de que seu pai de

fato havia sido baleado com o fora pressagiado na EQM ou da ferida horrível que a bala havia deixado.

Ele tentou não reagir ao odor rançoso de podridão quando rem overam

o curativo feito com um trapo e silver tape. Provavelm ente a bala ainda

estava aloj ada dentro dele, e onde ela havia entrado era um buraco

franzido e fétido de secreção purulenta, aureolado por um inchaço grave

da carne descolorida.

A prim eira coisa que passou pela cabeça de Zack foi que o ferim ento

havia gangrenado. A segunda foi que aquilo tinha se espalhado para o

cérebro de seu pai, tornando-o delirante e incapaz de reconhecê-lo. Estava

trem endo de febre e desidratação. Sem antibióticos, ele provavelm ente

não sobreviveria à noite.

– Nós tem os de levá-lo para um hospital.

– Hospital, não. – As sílabas saíram arranhando a garganta de seu pai.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

– Mas a infecção se espalhou – disse Sarah.

– Não quero m orrer em um hospital – disse o pai, com voz ofegante.

Fora a prim eira declaração lúcida que tinha feito.

– Ok – disse Zack, aliviado. Do bolso do paletó, tirou um frasco de

Percocet, que sobrara após a alta do hospital. Colocou dois com prim idos

na boca do pai e levou a garrafa de água aos seus lábios.

– Isso vai fazer você se sentir m elhor. – O pai engoliu as pílulas.

Enquanto isso, Sarah rem oveu os sapatos de Nick e puxou o cobertor

sobre ele. Ela colocou um pouco m ais de lenha no fogão para afastar a

friagem .

Enquanto esperavam que a droga surtisse efeito, Sarah balançou a

cabeça negativam ente para dizer que a condição de Nick parecia ruim .

Zack segurou a m ão do pai enquanto ele fechava os olhos,

estrem ecendo, ocasionalm ente, por causa da dor e esperando a m edicação

agir.

Enquanto Zack observava seu pai, as coisas voltaram em sua m em ória.

A form a com o a veia azul em sua testa era visível, agora pulsando com o

coração sobrecarregado. A pequena falha em um dente da frente,

resultado de um a queda da bicicleta, quando era criança. O dedo m édio

ligeiram ente torto na m ão direita, que ele havia quebrado na faculdade

durante um a brincadeira de fraternidade. Pequenas particularidades de

que ele j á não se lem brava. Entretanto, os olhos verdes ainda brilhavam

com um fogo que ele j am ais esquecera. Afinal, eles encaravam Zack toda

vez em que ele se olhava no espelho.

Tam bém podia ver com o ele tinha envelhecido: os profundos vincos

em torno dos olhos, a ruga entre as sobrancelhas. As m anchas senis na

testa e nas costas das m ãos. Vários cortes e cicatrizes em seus braços. As

unhas lascadas e enegrecidas, a suj eira em seu cabelo em aranhado. A

barba desgrenhada e grisalha. Ele vivia em m eio à natureza, renunciando

ao m undo ‚civilizado' com o um Thoreau dos últim os dias, subsistindo da terra que ele am ava – aquele santuário de Magog.

Mas o que cortava o coração de Zack era a certeza de que aquelas

eram as últim as horas que ele passaria com o pai que ele m al conhecia.

Karen Wells e stava no com utador atrás do bal cão do pr onto -socorro do Jorda n Hospital qua ndo atende u à cham a da de um a a m bulâ ncia. Era m qua se três horas da m adruga da e os param é dicos estavam traz endo um hom e m nã o identi ficado de cerca de 50 a nos de idade, com si nais vitais m íni m os e possível parada car díaca. Ela alertou a s outras enferm eiras, o m édico de plantão, o doutor Brian Ken nedy e dois residentes. Ele s preparara m um cubí culo vazi o espe cialm ente eq uipado para pa cientes cardíacos.

a

Tanta coisa para dizer, tanto para perguntar, e tão poucos batim entos

cardíacos pela frente.

Em poucos m inutos, a droga agiu. Nick abriu os olhos e sinalizou com

a cabeça que se sentia m elhor. Ele bebeu m ais água.

Sarah levantou-se para lhes dar algum a privacidade. O interior da

cabana era pequeno, m as ela foi para o outro lado, onde encontrou alguns

guardanapos e silver tape para fazer um curativo lim po.

– Eu sabia que você iria m e encontrar – falou com voz rascante. – Eu

senti que você estava chegando.

– Eu tam bém . Eu os vi enterrá-lo vivo em Sagam ore. Vi você escavar a

areia e sair. Eu estava com você.

Os olhos do pai se arregalaram .

– Você tam bém tem o dom .

– O dom ?

– Você vê o invisível. Você toca o espírito.

– Mas com o?

Seu pai com eçou a falar, m as foi pego em um acesso de tosse que se

transform ou em um a saraivada de engasgos sibilantes. Sarah acudiu, e eles

o levantaram e seguraram até que conseguisse recuperar o fôlego. Sarah

serviu-lhe um a caneca de água de um reservatório de cinco galões

m ontado no canto m ais distante. Nick tom ou goles pequenos, penosos.

Quando term inou, eles o recostaram em travesseiros im provisados. Por

alguns m inutos, ele ficou im óvel, com os olhos fechados.

De um a m esa encostada na parede oposta, Sarah voltou com um a

caixa de papelão com um a tira de silver tape sobre a tam pa, e ZACK

escrito à m ão.

Dentro havia um álbum com fotos em preto e branco; a prim eira delas

m ostrava Zack recebendo seu diplom a de graduação na área de

hum anidades. Ela não fora tirada pelo fotógrafo oficial da cerim ônia de

form atura, m as com um a teleobj etiva no m eio da m ultidão, provavelm ente

a que descansava agora na prateleira ao lado da velha Nikon F.

E havia outras fotos, todas de Zack: j ogando softball no cam po da

Continuar: parte 2 de 2