A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 3 de 9 · parte 3/4

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A arte da política: a história que vivi

E o principal problem a trazido por…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

que houvesse os investim entos necessários para m elhorar a produtividade e am pliar a produção.

Com base nesses argum entos, quando assum i o Ministério da Fazenda reafirm ei que intensificaria o ritm o da privatização, não porque a em presa privada fosse necessariam ente m ais bem gerida do que a pública - em bora na m aior parte das vezes o sej a -, m as porque o Estado se tornara desinvestidor líquido pela falta de recursos. E tam bém por causa das dificuldades burocráticas para adaptar as em presas públicas à dinâm ica dos m ercados. Tratava-se de um a opção prática para revigorar o crescim ento dos setores industrial e de serviços, e não de um a opção ideológica.

Em fins de j ulho e com eço de agosto de 1993 a polém ica sobre a privatização da Vale esquentou. Confesso que eu m esm o custei a aceitar a necessidade de privatizá-la, processo que só ocorreria no curso de m eu prim eiro m andato no Planalto. O Presidente Itam ar m ostrava-se ainda m ais relutante. Prom oveu m udanças na Com issão Diretora do Program a Nacional de Desestatização (PND), aum entou os obstáculos para sua efetivação e deixou clara sua pouca disposição a respeito quando o secretário executivo m anifestou favoravelm ente à venda da pela Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais (Abam ec). Reagindo às declarações de Clóvis Carvalho, um funcionário, encarregado do Departam ento Nacional de Com bustíveis (DNC), em itiu nota criticando duram ente o secretário executivo da Fazenda, sem que houvesse qualquer reação reparadora do Palácio. A nota, típica do pensam ento nacional-estatista que se pensa esquerdista, dizia: "Vender a Vale é entregar para grupos estrangeiros parte do território nacional; é abrir a Am azónia por m eio de Caraj ás para o interesse estrangeiro. É esquecer a participação do povo m ineiro na aí afora. A Vale acabou sendo privatizada ser controlada por fundos de pensão e em presas nacionais. O incidente m e alertou, entretanto, para os riscos de tentar forçar o governo a acelerar as privatizações: acabaria por perder a confiança do Presidente Itam ar, vital para eu levar adiante o program a de estabilização. A reação contrária às privatizações não se restringiu aos círculos políticos. Sem falar nos sindicatos m ais ligados aos partidos de oposição, a Igrej a Católica revelou-se, por interm édio da CNBB, crítica pertinaz dessa 159

da Fazenda, Clóvis Carvalho, se

estatal, em um sem inário prom ovido

construção da com panhia" - e por em m aio de 1997, passando a

m atéria, que de religiosa tem m uito pouco. Ou m elhor, no sentido vulgar, tem tudo, pois não privatizar era sagrado para portadores de um a visão que confunde o interesse do povo com os interesses m om entâneos de corporações e partidos. Mesm o tem pos depois, sendo eu Presidente da República, o presidente da CNBB, dom Luciano Mendes de Alm eida, em diversas oportunidades m anifestou esse pensam ento, tanto em conversas com igo quanto publicam ente. Por m ais que não visse ligação entre a pastoral religiosa e um a posição contrária à privatização, j am ais consegui, com argum entos razoáveis, dem over alguns setores da Igrej a Católica da crítica acérrim a à "entrega" da Vale. O m esm o se diga de setores que se apossaram da OAB e outras associações corporativas cuj a obediência fundam ental era aos interesses da oposição, com pouca atenção para o que efetivam ente tecnológico. O processo da estabilidade. Prudentem ente, esperam os m om ento m ais oportuno para fazer um aj uste patrim onial de m aior envergadura, tirando das costas do Tesouro a dívida de algum as estatais. Só então alguns serviços e setores produtivos tiveram condições para se expandir. Sim ultaneam ente, o Estado teve o tem po necessário para se reorganizar, com a criação de agências reguladoras para assegurar o interesse nacional, a vigência dos contratos de concessão e o interesse dos usuários. Renegociando a dívida: a paciência chinesa de Malan

Desde a m oratória de 1987, no governo Sarney, o Brasil viu-se envolvido em um em aranhado de negociações com m ais de 700 bancos. O próprio governo Sarney esforçou- se para alcançar um entendim ento que nos livrasse do peso da m oratória, representado por falta de recursos externos novos para financiar o país e taxas de j uros escorchantes sobre o pouco dinheiro que se conseguia captar. Tornava-se vital viabilizar um acordo com patível com a capacidade de pagam ento do Brasil e que nos desse novam ente acesso ao m ercado financeiro internacional. podia ser feito para tirar o Brasil da inflação e do atraso económ ico e

de privatização andou m uito pouco no período de preparação O assunto adquiriu gravidade econôm ico-financeira com forte conotação política. Muitos setores consideravam um acordo com o FMI que fosse realizado no processo de renegociação das dívidas tão ou m ais lesa

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pátria do que a venda da Vale. Desde priscas eras esta organização internacional, da qual o Brasil é fundador e parte integrante, proj etava horror nos corações e nas m entes de quem se dizia progressista. E existiam boas razões para isso. Prim eiro porque sem pre tivem os no Brasil um progressism o anticapitalista (em bora raram ente se confessasse isto) e profundam ente nacionalista, alim entando um a visão autárquico-isolacionista. Segundo, o Fundo - afastando-se da m issão para a qual havia sido criado, pelo m enos na aspiração do grande econom ista britânico John May nard Key nes, um de seus idealizadores - tornara-se, na prática, guardião dos interesses dos credores, im pondo quase sem pre receitas de recessão que custavam caro aos trabalhadores e em presários locais. Sem falar, claro, no custo dos j uros, que a política do BC dos EUA - o Federal Reserve Board, ou Fed - havia levado naquela época à estratosfera para padrões de Prim eiro Mundo, chegando a ultrapassar 15% ao ano. Duvidava-se tam bém da legitim idade das dívidas. Consequentem ente, não faltava quem propusesse, pura e sim plesm ente, não pagálas.

Houve vários negociadores da dívida externa, no transcorrer do tem po: os diplom atas Sérgio Am aral e Jório Dauster, os econom istas Pedro Malan e André Lara Resende. O Senado criou um a CPI sobre a dívida externa, de que eu tinha sido relator. Nada ficou dem onstrado quanto a fraudes e o que realm ente im portava avaliar seria a utilização dos recursos da dívida no Brasil, pela qual não se podia responsabilizar os banqueiros internacionais, m as sim , caso houvesse desvios de finalidade no uso do dinheiro ou m esm o corrupção, as autoridades locais e os destinatários dos em préstim os.

Pouco a pouco nossos negociadores foram desbastando o terreno. Finalm ente, Pedro Malan, prim eiro com o negociador-chefe e depois com o presidente do BC, com firm eza e seriedade, além da paciência chinesa que o caracteriza, preparou um intrincado pacote de opções para a troca dos antigos títulos da dívida por novos, com m elhores condições de pagam ento. Essa negociação, entretanto, supunha que o FMI firm asse um acordo com o governo brasileiro e m onitorasse nossas contas, dando um a espécie de chancela para os bancos credores confiarem nos pagam entos futuros. Havendo acordo com o FMI, os credores saberiam que as políticas fiscal e m onetária, bem com o o regim e cam bial a serem praticados, seriam "con161

fiáveis e tecnicam ente corretos". Com esse aval nas m ãos o Tesouro am ericano em itiria bónus de um a série especial que o BC do Brasil com praria e depositaria no Banco Internacional de Com pensações (BIS) - espécie de banco central dos bancos centrais, sediado em Basiléia, na Suíça. Esses bónus serviriam de garantia aos bancos credores (o que nas negociações financeiras cham a-se de colaterais) na troca dos títulos velhos por novos, com m elhores condições de pagam ento e j uros m enos agressivos.

O volum e total da dívida renegociada chegou a 70 bilhões de dólares, sendo cerca de 50 bilhões com credores privados e o restante com governos e instituições oficiais. Em itiram -se títulos novos de prazo m édio superior a 20 anos. Com a renegociação da dívida, o Brasil saiu da m oratória e voltou ao m ercado internacional de crédito. Foi a m aior operação de renegociação de dívidas feita até então pelo m ercado financeiro internacional. Malan, com a experiência que tinha, desconfiava que o FMI não daria o nihil obstat a nosso program a de estabilização. Por isso, antes de nossa visita ao Fundo em setem bro de 1993, conversou com igo sobre a eventualidade de o BC com eçar a com prar os papéis do Tesouro am ericano no m ercado secundário, sem esperar pela em issão especial dos bónus.

A operação era arriscada. Tínham os que agir cautelosam ente para que o m ercado não percebesse o interesse do BC nas com pras, o que aum entaria o valor dos papéis, e para evitar que o Tesouro am ericano e o FMI se sentissem ludibriados. Mais ainda, Malan e eu tivem os que assum ir a responsabilidade da decisão sem que qualquer outra pessoa soubesse. E assim fizem os,

Malan, que estava em Washington, com binara que só m e cham aria se tudo estivesse resolvido ou se o im passe fosse grande. Nos m om entos finais da negociação com o FMI, antes do acerto definitivo com o com ité negociador dos bancos, chefiado por Bill Rhodes, vice-presidente do Citibank, ele telefonou-m e de Washington pedindo que eu viaj asse para lá com urgência. Ao chegar ao FMI fui ter com o diretor-gerente, o francês Michel Cam dessus, a quem conhecera por interm édio do ex-m inistro da Fazenda Marcílio Marques Moreira e de Michel Rocard, ex-Prim eiroMinistro da França. Na conversa a sós, Cam dessus foi franco: ele não via m aneira de obter aprovação do program a pela equipe técnica do Fundo. Vivíam os grande incerteza política no Brasil - além da im previsibilidade do Presidente Itam ar, estávam os nos prim órdios do que seria a CPI dos

Anões do Orçam ento - e baixo grau de convicção sobre o êxito eventual do plano proposto (àquela altura ainda incom pleto). Quem pensa que o aspecto pessoal não aj uda em questões institucionais enganase. Sem pre conservei um a boa relação com Cam dessus, hom em com form ação de fundo evidentem ente hum anístico, discrepando da m édia do funcionário típico das organizações financeiras internacionais. Pessoalm ente caloroso e sim pático, até brincalhão, tinha características antes de político do que de tecnocrata, fora o fato de conhecer de perto a realidade de m uitos países. Apesar de tudo, disse-m e ele, dada a sim patia que nutria pelo Brasil e pelos negociadores brasileiros, havia escrito um a carta, na véspera, em francês e de próprio punho, que passava a ler. A carta concedia um a espécie de endosso pessoal e indireto ao program a de estabilização, m anifestando confiança em nosso trabalho. Agradeci o gesto, m as, com entei, nossas dificuldades perm aneciam . Teríam os de convencer os bancos a fechar a negociação sem o aval do FMI e obter os bónus do Tesouro para depositá-los no BIS. Sorridente, Cam dessus disse:

- Mas vocês j á os têm ...

O segredo m eu e de Malan vazara, porém era tarde: j á havíam os com prado os papéis.

Mesm o assim faltava resolver onde depositar as garantias, posto que sem o aval do Tesouro nem o BIS nem o Fed aceitariam a guarda. Disso tam bém se ocupou o diretor-geral do FMI. Se Enrique Iglesias, presidente do BID, concordasse, assegurou-m e, seria possível depositar os títulos com ele. Juntam o-nos à equipe brasileira para o alm oço e em seguida Cam dessus e eu concedem os um a entrevista à im prensa na qual o anfitrião m ostrou-se generoso em elogios ao program a de estabilização e hábil em desconversar sobre o apoio form al. Em seguida enviou a carta pessoal aos bancos, conform e prom etido. Ato contínuo, Malan, André Lara e os dem ais com panheiros fom os ao BID falar com Iglesias que, com a solidariedade de sem pre, dispôs-se a guardar os títulos do Tesouro am ericano. Do BID partim os para o Departam ento do Tesouro, que nos EUA corresponde ao Ministério da Fazenda. O encontro foi com o subsecretário encarregado das questões internacionais, secretário do Tesouro e, posteriorm ente, Recebeu-m e com um abraço, quase eufórico: Larry Sum m ers, depois ele próprio presidente da Universidade Harvard.

- Parabéns, m inistro. Já sabia tudo a respeito dos bônus e até facilitou a guarda dos títulos. A certa altura pergunto u-m e (o que tam bém ocorrera com Cam dessus):

- O senhor será candidato à Presidência da República? Com eçava a obsessão, no Brasil e no exterior, com as candidaturas. Eu,

no exterior, não negava porque sentia que isso facilitava as negociações, em bora estivesse longe de pretender ser candidato. Foi de posse desse apoio, quase pessoal e inform al, que conversam os em Nova York com Bill Rhodes e dem ais m em bros do com ité negociador. Pouco tem po depois Malan e eu assinam os os novos contratos da dívida externa brasileira, em Toronto, no Canadá, no dia 30 de outubro de 1993, durante um a m anhã inteira pois tratava-se literalm ente de m ilhares de papéis relativos a contratos com m ais de 700 bancos participantes da renegociação. Estava suspensa a m oratória e nossos com prom issos redefinidos com 30 anos de prazo para pagá-los com taxas de j uros lim itadas.7

O nom e do j ogo foi: firm eza, decisões arriscadas m as com petentes e construção de credibilidade. Pedro Malan e, nos m om entos finais, André Lara funcionaram com o os artífices dessa carpintaria.

7 A dívida foi renegociada em prazos entre 12 e 30 anos (prazo m édio ao redor de 20 anos), com taxas de j uros girando em torno dos índices das duas taxas internacionais de referência, a Libor e a Prim e Rate, m ais um percentual fixo com parativam ente baixo. Com isso a dívida pública brasileira tornou-se estável e cadente nos anos seguintes. Os 124,6 bilhões que devíam os em 1993 reduziram -se até atingir seu ponto m ínim o em 1997, durante m eu prim eiro m andato: 108,4 bilhões, após o que a dívida pública voltaria a crescer gradualm ente devido às necessidades da econom ia brasileira. O que explodiu entre 1993 e 1999 foi a dívida externa privada, na esteira da sobrevalorização do câm bio e da onda de investim entos deflagrada pelo real. Os 21,07 bilhões de dólares devidos por em presas brasileiras em 1993 subiram vertiginosam ente até atingir 128,3 bilhões de pico em 1998, iniciando o processo de queda a partir de 2000. Ao final de m eu segundo m andato, o m ontante atingia 85,2 bilhões de dólares. Quanto aos j uros anuais pagos sobre a dívida externa ao longo dos três governos anteriores ao de Lula, eles foram de 9,7 bilhões de dólares em 1990, dim inuíram para 7,9 bilhões em 1995, elevaram -se para 14,9 bilhões em 1999, após a desvalorização do câm bio, e declinaram ligeiram ente desde então, chegando ao patam ar de 13 bilhões de dólares/ano a partir de 2002.

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A questão salarial e a busca da racionalidade Nos program as de estabilização a questão politicam ente m ais delicada costum a ser a salarial. A experiência indica que nesses program as, principalm ente quando m onitorados pelo FMI, são freqüentes o aum ento do desem prego e a perda da renda dos trabalhadores.

Em bora tenha havido com o correr do tem po m udanças nas políticas de controle inflacionário recom endadas pelo Fundo, essa não era a experiência disponível na prim eira m etade dos anos 1990.0 aum ento da taxa de j uros para conter a especulação e a lim itação aos agregados m onetários, ou sej a, as restrições às em issões de m oeda e ao crédito, levavam freqüentem ente à recessão. E, portanto, à dim inuição da renda dos assalariados e ao desem prego. Não foi isso que propusem os, nem o program a de estabilização passou por m onitoram ento do Fundo. Não obstante, politicam ente, o flanco m ais vulnerável para criticar o governo e o Ministério da Fazenda é sem pre a questão salarial, com a afirm ação de que os trabalhadores é que pagarão a conta da estabilização. Por causa da inflação elevada, diferentes dispositivos legais passaram a determ inar ao longo dos anos o reaj uste do valor tanto do salário m ínim o quanto dos salários em geral a cada 12 m eses e até em períodos m ais curtos. Graças a isso, estabelecera-se um j ogo de com plem entaridade entre os atores políticos. Os dirigentes sindicais afirm avam sua liderança propondo "aum entos salariais" que, no m elhor dos casos, apenas repunham a inflação, dando m argem , entretanto, a m obilizações de trabalhadores e a greves. Os em presários transferiam o custo dos reaj ustes para seus preços e, portanto, para os consum idores. Além das centrais sindicais e dos sindicatos, tam bém alguns partidos e congressistas com petiam para ver quem conseguia m aiores "aum entos", ganhando, assim , a boa vontade dos assalariados. E o Executivo, em geral representado pelo m inistro da Fazenda, que pedia o veto, e pelo Presidente, que o atendia, desem penhava o papel de m au, negando total ou parcialm ente os reaj ustes para evitar que as contas públicas e a própria inflação saíssem de controle.

A regra geral de aj uste vigente na época foi definida pela Lei n° 8.542, de 23 de dezem bro de 1992. Ela determ inava aj ustes quadrim estrais para repor a inflação passada e um a antecipação bim estral de 60% da inflação 16S

ocorrida no período. Era de esperar que os m esm os atores que se envolviam na luta por aum entos fictícios de salários aproveitassem a proposta do PAI, que acarretava aum ento de im postos e corte nos gastos, para bater na tecla do "reaj uste j á".

Com efeito, m al anunciam os os cortes no Orçam ento de 1993 e propusem os o aum ento da Contribuição para o Financiam ento da Seguridade Social (Cofins) e a criação do Im posto Provisório sobre Movim entação Financeira (IPMF), precursor da CPMF, a Com issão do Trabalho da Câm ara dos Deputados aprovou um proj eto do deputado Paulo Paim (PT-RS) que m andava repor integralm ente os salários a cada m ês.

Tivem os um a pelej a m uito difícil para derrotar essa proposta. Em bora a experiência m ostrasse que a inflação ganhava sem pre dos salários e portanto o certo seria acabar com ela, o senso com um não percebia isso. Não havia tam pouco crença nas políticas oficiais, dados seus fracassos anteriores. Mais valia um a ave na m ão, a reposição salarial, do que duas voando- a estabilização e seus benefícios. Para agravar o problem a, o governo acabara de conceder um reaj uste de vencim entos aos funcionários públicos. Com o j ustificar a não-correção dos salários do setor privado? A 23 de j unho de 1993 a Câm ara aprovou a em enda que criava o IPMF, com validade até 31 de dezem bro do ano seguinte. A proposta obteve o quorum m ínim o para um a m udança na Constituição: disseram "sim " 308 deputados- os votos de exatos três quintos dos 513 exigidos pela Carta. Votaram contra 87 deputados, entre esses a "esquerda", PT à frente, e parte da bancada do bloco PFL-PTB, inclusive a poderosa bancada baiana do PFL. Com a aprovação desse im posto e o aum ento tam bém autorizado na alíquota da Cofins (só esta renderia 9 bilhões de dólares), obtivem os boa folga para o Orçam ento de 1994. No dia seguinte, por unanim idade o correção integral da inflação todo m ês, contra o voto de som ente dois deputados, sendo um deles o ex-m inistro da Fazenda Gustavo

Krause.

As incertezas sobre o futuro do program a de aum entaram im ediatam ente. Mem bros da equipe económ ica m e assustados com as conseqüências da decisão. Garanti-lhes que o proj eto ainda A ARTE DA POLfTICA teria de passar pelo Senado e, se aprovada a lei, o Presidente Itam ar a vetaria. No Senado, graças à ação do senador Beni Veras (PSDB-CE), repusem os boa parte do que nos parecia razoável. Inutilm ente: a Câm ara, para a qual o proj eto precisava voltar por ter sido alterado na outra Casa, recusou de novo todas as m odificações introduzidas pelo Senado.

Hoj e é difícil avaliar a preocupação que tais problem as causavam . Na época as incertezas eram grandes. As resistências a m edidas racionais, antipopulares na aparência, não se lim itavam à oposição. Basta dizer que a aprovação do proj eto da Com issão do Trabalho teve o voto dos líderes de todos os partidos, inclusive os do governo. E m esm o no governo havia dificuldades para lidar com a questão salarial. Apesar de eu ter garantido o veto presidencial, ele seria custoso. O Presidente fora evasivo ao responder à im prensa se vetaria ou não a lei. Cham ou um a reunião com a liderança sindical, na busca do alm ej ado Pacto da Moncloa caboclo.8 Nela, diante da firm eza dos sindicalistas, m uitos m inistros calaram , deixando a m im o ónus da argum entação racional, que sem pre aparecia com o im piedosa.

Anteriorm ente, em reunião do Ministério, o Presidente m andara exibir um vídeo sobre o New Deal, o audacioso conj unto de m edidas - a com eçar por m aciços investim entos públicos - com as quais o Presidente Franklin Delano Roosevelt tirou os EUA da catástrofe causada pela Grande Depressão iniciada com o crack da Bolsa de Nova York em 1929. O recado m e pareceu óbvio: em vez de cortar gastos públicos e de ser restritivo nos aum entos salariais, por que não ativar a econom ia com investim entos públicos? Ao term inar a reunião pedi a palavra e disse:

- Agiu bem o governo Roosevelt na crise am ericana. Lá o setor privado estava sem liquidez e o setor público dispunha de crédito praticam ente ilim itado. Exatam ente o oposto de nossa situação. No Brasil as em presas estão financeiram ente líquidas e o setor público quebrado. 1 O deputado Aloizio Mercadante (PT-SP), preocupado com as consequências da votação no Congresso, procurou-m e no Ministério da Fazenda e sugeriu que convocássem os os líderes sindicais para um a negociação. Achei a sugestão pertinente. Em j ulho, em Salvador, no próprio hotel onde se realizava a III Cúpula entretanto, a Câm ara "reparou o m al". Aprovou quase proj eto salarial da Com issão do Trabalho, que introduzia a

estabilização procuraram , Ibero-Am ericana e em que estava hospedado, e antes da reunião deles com o Presidente Itam ar e os m inistros, tive um encontro com dirigentes sindicais. 167

Os colegas m inistros m e ouviram calados. O solitário apoio veio do m inistro da Previdência, António Britto:

- Palavras de estadista - disse ele.

Os m eses de j unho, j ulho e agosto foram extrem am ente ásperos. O PMDB quase rom peu com o governo. Num a reunião da Com issão Executiva Nacional, a perm anência no governo Itam ar se definiu por três ou quatro votos, em um total de 50 m em bros. Dificilm ente teríam os conseguido m udar as decisões do Congresso e do próprio governo não fosse o sofrim ento da sociedade com a inflação e o desgoverno dos anos anteriores. Som ando-se a isso havia nossa convicção m ilitante de que era necessário insistir nos aj ustes fiscais. Conseguim os assim vencer a descrença, a resistência surda dos beneficiados pela inflação e o barulho dos setores políticos que se opunham a qualquer m edida racionalizadora do gasto público. O Presidente vetou a lei salarial do Congresso e editou um a MP, em bora repondo parte das vantagens previam ente aprovadas na Câm ara.

Novam ente o senador Beni Veras foi o relator da proposta e, num parecer lum inoso, fez prevalecer os aj ustes quadrim estrais com um a regra, sugerida por Gustavo Franco, que previa a antecipação m ensal da parte da inflação que excedesse 10%, m as som ente para quem ganhasse até seis salários m ínim os. Em sessão conj unta o Congresso aprovou o parecer do relator, no dia 19 de agosto de 1993. Dessa feita, seguindo a argum entação do líder do PSDB, o deputado José Serra, os partidos que em tese apoiavam o governo - PMDB, PSDB, PFL, PTB, PPS e o PPR (que depois seria PPB e PP) - votaram a favor. Não, entretanto, sem constrangim entos. Nas palavras do líder do PPS, Sérgio Arouca (RJ), votaram "com o coração partido". A MP, m odificada, obteve 318 votos favoráveis e 144 contrários, transform ando-se na Lei n°8.700. Ultrapassam os os obstáculos para m udar a lei salarial e para aprovar m edidas de reforço fiscal graças ao apoio da opinião pública e de setores organizados do em presariado. A Fiesp, sob o com ando de Carlos Eduardo Moreira Ferreira, j unto com outros setores da sociedade civil, lançou o m ovim ento Acorda Brasil, destinado a apoiar as reform as.

Sabíam os, no entanto, ser sucesso m om entâneo, pois a luta para dar m aior racionalidade ao m anej o das finanças públicas e para conter a inflação m ais se assem elha ao m ito de Sísifo: m al term ina, recom eça.

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Verem os adiante que em 1994, quando o Plano FHC, com a URV, estava prestes a se transform ar em Plano Real, a questão salarial voltou com força total. Na equipe, m uito engenho, m uita arte e m uito debate Os j uros altos e a indagação constante sobre o nível que a inflação atingiria no final de 1993 enervavam a todos, desde o povo até o Presidente, passando por m im , com o m inistro da Fazenda. As taxas de j uros criavam indisposição com o BC, sem pre acusado de favorecer os banqueiros. Itam ar volta e m eia referia-se à "caixapreta" do BC. Por causa dessa indisposição, na prim eira oportunidade ele dispensou o presidente da instituição, Paulo César Xim enes, aliás, funcionário de carreira e sem ligação com bancos privados. A dem issão deu-se porque, quando decidim os cortar três zeros do cruzeiro, criando o cruzeiro real, o BC, com razão, alertou que os cheques pré-datados, largam ente utilizados, perdiam valor. Portanto seus detentores deveriam refazê-los, form atando-os de acordo com a nova m oeda. Esse aspecto aborreceu o Presidente. Sua m ãe, dona Itália, fora proprietária de um a farm ácia em Juiz de Fora e ele dizia se lem brar sem pre da im portância dos prédatados para o pequeno com ércio, e do im pacto que a nova situação provocaria. A reação negativa de Itam ar levou à qualidades de Xim enes, o incidente económ ica fosse reforçada. Conto com algum detalhe o episódio. Cansado de ouvir críticas ao BC, Xim enes, que havia sido nom eado antes de m inha chegada ao Ministério da Fazenda, telefonou a Clóvis Carvalho disposição. Ele não acreditava m ais poder ser útil crescentes a todas as ações do BC. Eu estava no Rio de Janeiro quando o Presidente m e telefonou para dizer que aceitaria o pedido de dem issão e queria que eu indicasse o substituto. No dia seguinte, com o ocorria habitualm ente na sem ana que, a cada m ês, passava no Brasil, Pedro Malan - que continuava m orando nos EUA e term inando os acertos extrem am ente com plexos do acordo da dívida j antaria com igo. André Lara Resende, com quem eu privava desde anos antes, por ocasião das discussões sobre a fundação do PSDB, e que j á colaborava inform alm ente conosco, nos faria com panhia. O j antar foi num a sexta- feira, 13 de agosto, no apartam ento 169

dem issão de Xim enes. A despeito das perm itiu, paradoxalm ente, que a equipe para colocar o cargo à a nós, dadas as críticas

funcional onde eu m orava em Brasília. André e eu tentávam os convencer Malan a aceitar a presidência do BC. A m udança súbita para o Brasil acar* retaria transtornos pessoais a ele, com filhos pequenos há tem pos vivendo e estudando nos EUA. No afã de dobrar suas resistências, André se dispôs a assum ir o final da negociação da dívida externa. Malan hesitou m as acabou cedendo. Nem bem assentiu e coloquei-o no telefone com o Presidente Itam ar, tendo-lhe dito que iria falar com o novo presidente do BC. Assim , constrangido, Malan iniciou sua traj etória no governo, que iria durar quase dez anos... André, ipso facto, tornou-se negociador da dívida. Ele, que só se dispusera a m e aj udar inform alm ente, acabou enredado nas teias oficiais, em bora tivesse em purrado para Malan o com prom isso m ais pesado.

Não foi de outro m odo que Pérsio Árida integrou o grupo. Econom ista de há m uito ligado ao PSDB - daí nossas relações pessoais -, com doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e fecunda produção académ ica, Árida tinha sido um dos form uladores do Cruzado, com o Bacha e André, e ocupara um a diretoria do BC no governo Sarney. Acabou se j untando ao tim e em conseqüência de um conflito entre o m inistro do Planej am ento, Aléxis Stepanenko, e o em presário Luiz Carlos Delben Leite, presidente do BNDES, que deixou o posto. Conversei bastante sobre quem poderia substituí-lo. Cogitei convidar o econom ista Luiz Gonzaga Belluzo, professor da Universidade Estadual de Cam pinas (Unicam p), tam bém um dos form uladores do Cruzado e ex-integrante da equipe económ ica do governo Sarney, ligado ao PMDB, para am pliar o apoio no partido. Visitei Belluzo em São Paulo, m as ele, m agoado com denúncias sobre supostas irregularidades em im portações de equipam entos para universidades quando ocupara a Secretaria de Ciência e Tecnologia do governo Quércia, em São Paulo, não queria voltar à vida pública. Todos na equipe gostariam que fosse Árida, m as havia o tem or de um a leitura perigosa: reagrupados os dois econom istas considerados os principais criadores do Cruzado, Pérsio e André, haveria inevitavelm ente especulação sobre um novo choque heterodoxo, m ais um pacote que do dia para a noite m udaria a vida dos brasileiros. Àquela altura, um a sim ples cogitação produzir expectativas inflacionárias de difícil controle, passado. Sabendo que o Presidente não queria outra coisa senão um choque salvador, dei-lhe pelo tele 17”

dessa natureza poderia devido às desventuras do

fone um a lista com três nom es, entre os quais o de Pérsio, com a advertência que cabia sobre os riscos de se im aginar que estávam os fabricando outro pacote m ágico. O escolhido para o BNDES acabou sendo, naturalm ente, Pérsio Árida. Reforçada a equipe responsável pela tessitura do Plano Real, m uito engenho e arte estiveram presentes, ao calor de m uito debate. Este se deu fora da luz pública, para evitar apostas sobre o "choque" que estaríam os preparando, que levariam o m ercado à loucura e quem sabe o governo à ruína. Àquela altura, 1993-1994, não se especulava sobre divergências entre "desenvolvim entistas" e "neoliberais" dentro do governo, que m ais tarde encheram páginas de j ornais e revistas. Na equipe existia, apenas, a disposição de criar as precondições para acabar com a inflação e algum as variações sobre quais seriam as m elhores. Quanto às políticas m onetária e cam bial, tínham os m ais dúvidas do que decisões am adurecidas. Mantínham os discussões infindáveis sem que encontrássem os as respostas que a sociedade esperava. Havia entre especialistas e políticos a antiga discussão sobre se o déficit público é causa da inflação. Meus colaboradores acreditavam que sim , pois a inflação levava o governo a ter e propiciar aos outros a ilusão de que podia gastar acim a das possibilidades reais, e até m esm o gerar superávits. Nas palavras de Bacha, o governo estava "casado" com a inflação. Todos, portanto, viam com o vital o aj uste fiscal proposto no PAI. Nem dentro nem fora da equipe, entretanto, se form ara um consenso sobre que passos adicionais adotar para derrubar a inflação. Do quanto m e recordo, Gustavo Franco e Winston Fritsch, a certa altura, quando a inflação se acelerou, cogitaram um a com binação entre o PAI (cuj o efeito sobre a inflação seria de longo prazo) e algum esquem a que atuasse m ais diretam ente sobre o processo de form ação de preços, com o um a prefixação tem porária, concentrada nos setores oligopolistas. José Serra, fora da equipe, ostentava a postura m ais fiscalista entre todos. Francisco Pinto, diretor do BC, era guardião da liberdade do m ercado, sem pre tem eroso do intervencionism o político. À luz da História transcorrida pode parecer estranho que fossem essas as posições. Na época, contudo, eu brincava com Gustavo Franco cham ando-o de "pedetista", pois seria o m ais intervencionista, e Francisco Pinto de "pessedista", em 171

bora o correto tivesse sido qualificá-lo de "udenista" por m ais liberal. Bacha, não obstante soubesse da necessidade de um a reform a m onetária, duvidava que tivéssem os condições políticas para tanto. Assim , aferrava-se ao aj uste fiscal. Desde o Plano Cruzado, André Lara Resende e Pérsio Árida, que costum avam trabalhar a

dupla "Larida", vinham

quatro m ãos a ponto de serem conhecidos com o a

revisitando idéias sobre o que cham avam de "inflação inercial". Elas tinham originalm ente sido apresentadas no célebre artigo assinado por André que forneceria inspiração teórica ao Plano Cruzado, "Moeda indexada: proj eto para setem bro de 1984 no

elim inação da inflação inercial",

j ornal Gazeta Mercantil A tese

publicado em 26 de

é sim ples, m as suas conseqüências de grande com plexidade. Em um a econom ia indexada, com o era a brasileira, o aum ento de uns preços puxa autom aticam ente o dos outros, m as com um descom passo perm anente que realim enta a inflação. Os preços tendem a subir no futuro sim plesm ente porque subiram no passado. A inflação se reproduz continuam ente, por inércia. A sociedade percebera intuitivam ente esse m ecanism o e apostava sem pre na continuidade da inflação.

A conversa que m udou m eu ânim o Antes de avançar m ais na descrição de com o se chegou à nova m oeda, o real, passando por um em brião de m oeda, a URV, cabe um esclarecim ento. Cresciam as pressões para que obtivéssem os um resultado m ais palpável. De tem pos em tem pos, Luiz Carlos Bresser- Pereira, na condição de am igo e econom ista experim entado, insistia na necessidade de um "plano B", pois, com o exm inistro da Fazenda que tentara um a estabilização, não acreditava que o PAI, em bora necessário, bastasse para dar conta do recado. Em nossas conversas, ele sem pre m encionava o fam oso artigo da dupla Larida e tam bém antigas propostas de Francisco Lopes, o Chico Lopes, outro econom ista que tinha colaborado na construção do Plano Cruzado e, posteriorm ente, trabalhado com o próprio Bresser no Ministério. Até fins de j ulho eu não estava preparando nenhum plano alternativo. No dia 6 de agosto de 1993, nas reuniões que fazíam os às sextas-feiras em m eu apartam ento de Brasília, Edm ar Bacha m e trouxe a sugestão de tom ar a Ufir, ou sej a, o índice com o qual se reaj ustavam as dívidas com a Receita

172

Federal, com o referencial geral para a econom ia. Em fins de j ulho, antes, portanto, da sugestão de Bacha, inspirado nas conversas com Bresser, visitei André Lara Resende em sua casa, em São Paulo. Era um fim de sem ana. Dirigindo eu m esm o o carro, fui discretam ente e sozinho à busca de novas idéias. Essa conversa m udou m eu ânim o.

André produzia idéias aos borbotões. Com seu j eito um tanto sôfrego de falar, levantando- se da cadeira e aj ustando as calças a cada instante na excitação do entusiasm o, foi abrindo m eu horizonte com novas perspectivas. Falou sobre a bim onetização, a dolarização, a inflação inercial, o currency board (basicam ente, um regim e m onetário e cam bial que vincula a em issão da m oeda nacional à existência de um fundo em m oeda forte, de curso internacional) e outros conceitos. E tam bém sobre as dificuldades políticas para dar o com bate correto à inflação. Gato escaldado, com o os dem ais econom istas que tiveram decepções prévias com o sistem a político, não faltaram lam entações sobre a fragilidade do governo, os interesses enraizados na sociedade e no Congresso que favoreciam a inflação, a falta de liderança e questões sem elhantes. arrancando dele o com prom isso de m e secretam ente. Disse-lhe que só deveria falar sobre o plano (B?) com duas pessoas: Bacha e Malan.

Assim , quando Bacha, na reunião do dia 6 de agosto, m encionou a "ufirização", o am arrar todos os contratos à m esm a unidade de referência (e até se cogitou que pudesse ser o dólar), aquilo soou com o m úsica a m eus ouvidos. Esta seria, segundo ele, a resposta à questão que Clóvis Carvalho e Winston Fritsch levantavam . Nas palavras deste últim o, dispúnham os de um plano de vôo m as

Com j eito e persistência, acabei aj udar inform al e discreta, senão ainda precisávam os de um trem de aterrissagem para conduzir a segurança, da superinflação à estabilidade. Bacha, com o colaboradores, buscava dar-m e m ais um plano de defesa para responder às críticas de im obilism o do que propriam ente um program a que viesse a ser posto em prática. Antes de tão auspicioso resultado, algum a crise política, acreditavam , nos derrubaria. Com um plano, não sairíam os de m ãos abanando e haveria um a resposta política para o PSDB utilizar: "não nos deixaram fazer o que era necessário", diríam os, e iríam os em bora.

Daí por diante, principalm ente depois que Malan, André e Pérsio se j untaram ao pequeno núcleo inicial, passam os a dispor de m assa crítica. 173

econom ia, com a m aioria dos

As discussões se sucediam com regularidade. Para que a im prensa não desconfiasse que estávam os preparando algo inesperado, reuníam o-nos, sej a no gabinete de Clóvis, sej a em nossas casas em Brasília, sej a em m eu gabinete no edifício do Ministério da Fazenda, em São Paulo, na região central da cidade. Clóvis tinha a obsessão de introduzir m étodo em nosso trabalho. Estipulou m ulta para quem chegasse atrasado, anotava tudo num quadro- negro, distribuía tarefas e as cobrava, para que o fio da m eada não se perdesse em m as vãs. As idéias, brilhantes e cam biantes, iam se m uita dificuldade de m igrar para o papel sob form a de futuros decretos, MPs ou proj etos de lei. O duro trabalho de fazer a lição de casa para resolver os problem as que iam surgindo coube principalm ente a Gustavo Franco, que, claro, tam bém participava com idéias. No m eio das discussões, de repente um dos econom istas se punha no quadro-negro e escrevia um a equação que m e intrigava. Meus conhecim entos da m atéria são de consum idor de textos, sobretudo dos clássicos, tendo chegado com esforço a ler a Teoria geral do em prego, do j uro e da m oeda,9 o clássico de Key nes, m as incapaz de acom panhar a m atem ática que está por trás dos m odelos contem porâneos. Pedia que não m e confundissem e traduzissem para a vida política as conseqüências do que estavam propondo, pois caberia a m im explicar ao país e assum ir as responsabilidades. Eles o faziam com generosidade. Meu entusiasm o aum entou quando, em um a das reuniões de fim de sem ana no edifício do Ministério em São Paulo, após longas digressões e várias fórm ulas no quadro-negro, houve um debate acérrim o entre os principais m em bros da equipe e Pérsio Árida apresentou a sugestão revolucionária: m inim izar as regras e torná-las transparentes. A com plicada relação entre preços cam biantes, graças à erosão diária do cruzeiro real, e a URV seria explicada à população. Isso batia com o que eu m ais acreditava, a pedagogia dem ocrática. Nada seria secreto. Nós anteciparíam os os principais passos do que iria ocorrer e m ostraríam os que se tratava de um processo e não de um ato m ilagroso. Portanto, haveria que trabalhar corn o tem po e tornar o povo partícipe ativo desse processo. Riscos havia: se os ' O livro foi lançado em 1936 na Grã-Bretanha com o General Theory of Em ploy m ent, Interest and Money. Um a das m ais recentes edições brasileiras até a publicação deste livro era a da Atlas, São Paulo, 1992. 174

discussões interessantes,

sucedendo, m as com

m eios de com unicação não atuassem para aj udar nas explicações, se nós não fôssem os capazes de certo didatism o, se a descrença vencesse antes da troca de m oeda (quer dizer, antes de a URV transform ar-se em real), perderíam os a guerra. Preferi, no entanto, correr esse risco e não fazer um plano apenas tecnocrático. A esquerda e à direita, um a bateria de críticas Outra decisão que teve significado político foi a de evitar a dolarização. Lem bro-m e de que certa feita Dom ingo Cavallo visitou São Paulo e eu o acom panhei em um a solenidade no consulado argentino. Ele dizia não entender por que estávam os hesitando tanto em fazer qualquer coisa do género currency board; nossas reservas em dólar eram grandes o suficiente para darm os o passo. E Cavallo tinha atrás de si o êxito do câm bio fixo, gabado urbi et orbi. Enquanto no Brasil discutíam os nosso plano de estabilização, com pareci à reunião anual do FMI em Washington e verifiquei o quanto elogiavam o sucesso alcançado na Argentina. Eu m e sentia com o a Gata Borralheira, vendo o francês Cam dessus conversar com grande fam iliaridade - em espanhol - com vários m inistros e autoridades sobre fatos de que eu não tinha participado e sobre pessoas que eu não conhecia. Além de nãoeconom ista no m eio de tantos sábios, fora incapaz de dolarizar ou coisa que o valha para conseguir a estabilização. Não obstante, a engenhosa URV nos daria a vantagem de disporm os de um a unidade estável de valor, com o se fosse o dólar, essencial para se ter um a am arra de estabilização, sem contudo ser o dólar. Ou sej a, preservando m argens de m anobra para proceder a algum a desvalorização não traum ática. E, sobretudo, não perdendo o valor sim bólico de m oeda nacional, um fator de identidade cultural e de autonom ia decisória. O não-congelam ento e o não-atrelam ento da nova m oeda ao dólar, todavia, conferiam apenas os contornos m ais significativos do plano de estabilização. Não constituíam , por assim dizer, seu m iolo. O aspecto didático da utilização sim ultânea de duas m oedas - ou m elhor, de um a m oeda de curso corrente corroída pela inflação e de outra estável, m as virtual - contrariava as expectativas, sobretudo as dos políticos, que desej avam algo m ais contundente, com o o congelam ento ou a prefixação dos preços essenciais da econom ia. A nãodolarização agradava à m aioria dos políticos, 175

m as era vista com certa desconfiança por alguns setores econôm icos, sem pre tem erosos das influências políticas na econom ia. Eu, com o j á disse, concordava com am bos os pontos, ou sej a, com não dolarizar nem congelar preços, m as continuava preocupado com a seqüência das m edidas necessárias para o andam ento do program a de estabilização. Travava-se intensa discussão teórica, dentro e fora do governo. João Say ad, econom ista consagrado ligado ao PMDB, ex-secretário da Fazenda de Montoro em São Paulo e ex-m inistro do Planej am ento de Sarney, por existência de relação de causa e porque, alegava, não estava havendo déficit operacional - ou sej a, a diferença entre tudo o que o governo arrecada e tudo o que gasta, incluindo o pagam ento dos j uros

-, apesar da inflação elevadíssim a. Em todo caso, m elhor seria fazer prim eiro a reform a m onetária para depois enfrentar o problem a fiscal, defendia. Os econom istas à esquerda viam com m aus olhos os cortes orçam entários e acreditavam que o ponto central da inflação era de ordem distributiva, quer dizer, o da apropriação dos resultados inflacionários. Não sem razão, apontavam os interesses entrincheirados na inflação - dos banqueiros que se apossavam de parte dos ganhos inflacionários, dos especuladores, dos industriais e com erciantes que rem arcavam preços incessantem ente com o o principal obstáculo à estabilização. exem plo, provocou

efeito entre déficit um a polém ica sobre a público e inflação, até

O preço desta, tem iam , seria pago pelos trabalhadores. Paul Singer, por exem plo, era taxativo: a questão, argum entava, é que o PAI partia de um diagnóstico falso, o de que a causa da inflação seria a desordem adm inistrativa e financeira do setor público. Além de pedir m ais e m elhores gastos públicos, afirm ava que os cortes e os acertos de contas entre União, estados e m unicípios não serviam para coisa algum a.10 Posteriorm ente, sendo o plano j á de conhecim ento público, Maria da Conceição Tavares, econom ista de form ação m atem ática, inspiradora de idéias sem inais e detentora de um am plo círculo de influência, elaborou m ais claram ente os m esm os argum entos." Raciocínio sem elhante expunha Aloizio Mercadante, 10 "O plano não basta", Jornal do Brasil, 18/6/1993.

1 "O sacrifício para derrubar a inflação", Folha de S. Paulo, 20/2/1994.

para quem a inflação não causaria déficit, pois ela resolveria os problem as do Tesouro.12

Mesm o contendo grãos de verdade, as críticas sobre a questão redistributiva não apontavam cam inhos conseqüentes para conter a inflação. A m enos que fosse possível e desej ável um a revolução, com o propôs o filósofo e professor de Harvard Roberto Mangabeira Unger: que não se pagassem as dívidas ou que o peso delas recaísse som ente sobre as "classes endinheiradas", que se colocassem na cadeia os grandes banqueiros e industriais, que o BC fosse houvesse um Estado forte e outras teses nessa linha. m inha própria percepção das coisas, pois na época com candidatura à Presidência, ele disse que estávam os propondo um a terceira via, substituindo o "nada" (os m inistros anteriores) pelo "pouco" (por m im ), com o claro proj eto de chegar ao governo.13 Haj a im aginação prem onitória!

No plano oposto, os econom istas liberais (ou "ortodoxos"?) cobravam rapidez: aj uste patrim onial im ediato com privatização acelerada para reduzir as dívidas do Estado, abertura dos m ercados, corte profundo nos gastos públicos, se possível redução e não aum ento de im postos. E nada de "artificialism os", isto é, de choques heterodoxos. Outros com entaristas, com o o j ornalista Fernando Pedreira, em bora favoráveis ao program a de estabilização, com eçavam a dar sinais de inquietação à m edida que a inflação aum entava.14 Mais otim ista, Bresser-Pereira acreditava nas nossas chances de êxito.15 Num exem plo da cultura autoritária prevalecente, António Carlos Magalhães (PFL), governador da Bahia, recom endava que eu deveria "ser m ais agressivo e m enos conciliador".16 Com m aior ou m enor ironia ou m esm o cinism o, esse era o tom das críticas. O econom ista da USP Celso Martone, por exem plo, achava que estávam os próxim os de um a aventura heterodoxa de conseqüências incertas, dada a fragilidade do aj uste fiscal. Criticava duram ente o aum ento dos im postos e classificava a proposta do PAI com o sendo outra "m elancólica 12 "Para Mercadante, não há déficit", Folha de S. Paulo, 5/1/1994. 13 "A Terceira Via no poder", Folha de S. Paulo, 28/5/1993. 14 "O m édico e sua m edicina", O Estado de S. Paulo, 25/7/1993. 15 "A hora e a vez", Folha de S. Pauto, 27/7/1993. 16 Exam e, 4/8/1993.

"nacionalizado", que

Antecipando-se à eu nem sonhava

repetição da pusilanim idade e falta de im aginação que tem caracterizado os m inistros da Fazenda"17 Cobrava cortes adicionais e descria da capacidade de a lei substituir a coragem política e a responsabilidade fiscal dos governantes (ele não sabia, pois não tinha o dom divinatório de Mangabeira Unger, dos efeitos da futura LRF). Ou sej a, no fundo o com bate à inflação, ou a ausência dele, seria um a questão m oral!

Roberto Cam pos, com fina ironia, chegou a afirm ar que ainda não tínham os plano porque "nosso sim pático, am eno e inteligente m inistro não resiste ao im pulso de agradar a todos" De novo, tratar-se-ia de um a questão subj etiva: para "agradar" a Itam ar, nada de privatização, para "agradar" à Receita, nada de sim plificação tributária, e assim por diante. O plano consistiria em um a âncora cam bial disfarçada e no aum ento da carga fiscal, com o FSE escondendo o obj etivo verdadeiro. Faltava decisão, segundo ele. Para quê? Para privatizar m ais e m ais depressa, não aum entar im postos, desregular a econom ia e atrair capitais. A fórm ula era sem pre a m esm a. Só faltava apontar o cam inho e dizer com o percorrê-lo, com o se nisso não estivessem os verdadeiros problem as e Roberto Cam pos, exem baixador nos do Planej am ento, certam ente os conhecia. visão sim etricam ente oposta e equivalente ao voluntarism o de esquerda) operasse no vazio, sem que existissem os interesses, as visões contrastantes, as estruturas estabelecidas.

A cantilena de descrença foi constante e até piorou quando anunciam os a URV com m ais detalhes. Vários econom istas expressaram publicam ente sua opinião, todos num m esm o tom de ceticism o. Cam pos criticava a URV com o um m ecanism o pelo qual o governo "induzia as pessoas a corrigir os preços diariam ente", podendo, portanto, "ter um efeito infla cionário".

Entre esses extrem os, havia quem entendesse as dificuldades teóricas e práticas para pôr em m archa um plano de estabilização nas condições políticas da época. Deles falarem os oportunam ente. Antes, contudo, convém explicitar m elhor o que cham ei de m iolo do Plano FHC, ou sej a, a proposta da URV. 17 Ver reportagem de Rolf Kuntz, "Reform as não avançaram , dizem técnicos", com entrevistas de vários outros econom istas, O Estado de S. Paulo, 11/7/1993,

EUA (1961-1964) e ex-m inistro

Com o se a vontade (em um a

A URV: m atando a inflação com o próprio veneno A idéia de aproveitar a indexação preexistente para estabelecer a noção de valor estável tinha sem elhanças com o princípio da hom eopatia, sim ilia sim ilibus curantur. m ataríam os a inflação usando seu próprio veneno, a indexação. Corrigiríam os os preços, diariam ente, por um indicador da perda de valor da m oeda corrente, o cruzeiro real. O governo adotaria e induziria a sociedade a adotar esse indexador diário para denom inar os valores de contratos e preços. Depois de um tem po, quando todos se acostum assem a usar essa m oeda virtual com o um a unidade estável de valor, com o m uitos j á faziam com o dólar ela se transform aria na nova m oeda corrente, o real. Nesse período de transição os agentes económ icos teriam oportunidade de alinhar espontaneam ente os preços, evitando que reaj ustes defasados "contam inassem " a m oeda nova com a inflação na m oeda velha, com o ocorrera em planos anteriores. O risco era grande, com o anotaram Roberto Cam pos e Mário Henrique Sim onsen econom ista dos m ais qualificados do Brasil em qualquer época, que havia sido m inistro da Fazenda e do Planej am ento e que exercia um a grande influência por m eio de artigos, entrevistas e palestras -, este com a m etáfora dos patins no gelo: a proposta de corrigir diariam ente os preços, inclusive os salários, poderia term inar em um a derrapagem espetacular, com a corrida contra a inflação gerando hiperinflação. Tínham os dois tipos de a estratégia proposta. população com preenderia

Continuar: parte 4 de 4