A arte da política: a história que vivi
saudosos de um m odelo "nacional1996, indicara…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Repliquei que não m e assustaria tom ar as decisões necessárias. Não sim patizava com o currency board, disse, "porque acho que isso no Brasil não vai funcionar". Reiterei m inha preocupação, antiga: decidir antes que as reservas se esgotassem . A situação, no entanto, m udara. A fim de deter a sangria das reservas, tanto um a banda bem m ais larga quanto a flutuação do câm bio m e pareciam opções viáveis, em bora envolvessem riscos. A opinião do BC era de perm itir a flutuação, com o que concordei.
Quando a decisão presidencial é, e deve ser, solitária A essa altura, na m anhã de sexta-feira, 15, parecia que nosso esforço de anos para conseguir a estabilização ia evaporar em poucas horas de pressão contra a m oeda. À desvalorização rápida e forte se seguiria a tem ida
inflação, derretendo novam ente os ganhos dos assalariados e desorganizando a econom ia. André Lara Resende, que falou com igo pelo telefone de Paris, entretanto, continuava entusiasm ado com as m udanças. Da m esm a m aneira, José Roberto Mendonça de Barros, com quem m antive longa reunião, estava esperançoso. Pedi que anim assem Malan. Anotei: "Chico Lopes era a alternativa de que dispúnham os para a m udança. Não havia m ais ninguém em volta.”
Para surpresa geral, o câm bio oscilou até atingir um ponto m áxim o, e assim ilável, de 1,55 real por dólar. As bolsas fecharam aquela sexta-feira com um a valorização de 33%. Nos dias subseqüentes as felicitações não tardaram a chegar, vindas sej a de interlocutores habituais, com o Júlio Sanguinetti, Presidente do Uruguai, e Enrique Iglesias, do BID, sej a de em presários com o o banqueiro José Safra e Paulo Cunha, este dizendo que tínham os dem onstrado grande coragem . O Congresso tam bém se m ostrou sensível ao m om ento. Tanto os principais líderes do PFL com o os do PMDB, para não m encionar o apoio constante do PSDB, perceberam que era hora de acelerar as votações que perm itiriam o aj uste fiscal.5
Olhando em retrospectiva, não havia razão para tanto entusiasm o. Com efeito eu queria e, por fim , im pus a m udança cam bial. Vivi um a daquelas m uitas ocasiões nas quais a decisão presidencial é e tem que ser solitária. As coisas, contudo, não saíram com o desej ado. O m ercado estourou a velha política, m as tam bém rej eitou a fórm ula proposta de um a desvalorização sob controle, em bora m ais acelerada. Diante da realidade, tivem os que nos aj ustar aos acontecim entos e dar a volta por cim a. Isso foi possível porque as m odificações até então ocorridas na econom ia brasileira propiciaram sustentação ao câm bio flutuante sem provocar um a catástrofe: a renegociação das dívidas dos estados, a solidez do sistem a financeiro, graças aos tão criticados Proer e Proes, e o longo trabalho de desindexação afastaram o fantasm a da volta da inflação. E fácil alguém dizer: por que não fizeram antes? Quem é capaz de responder com certeza que, feita antes, a alteração cam bial teria dado certo? 5 Ver, por exem plo, "ACM e Tem er prom etem acelerar votação do aj uste", Folha de S. Paulo, 19/1/1999. Mais adiante, "Congresso assum e am anhã com m issão de votar aj uste", na m esm a Folha* 31/1/1999, Tam béiü "Apoiarem os PH até o final", entrevista de Inocêncio Oliveira a lim ar FranCO) j om al do Brasil, 31/1/1999.
Vendo os fatos em retrospecto, acredito que no prim eiro trim estre de 1998, sim , poderia ter dado certa Decisões dessa envergadura, entretanto, se fazem com pessoas de talento. Pessoas de talento têm am bições, idiossincrasias e, com o foi o caso, idéias divergentes; às vezes se precipitam , às vezes perdem a possibilidade de atuar no m om ento adequado. Quem está no com ando precisa saber de tudo isso e, com o se estivesse conduzindo um transatlântico, não im aginar que sozinho pode dar um a freada ou um a guinada, sob pena de naufragar.
Naqueles dias tum ultuados, e m esm o depois da aparente vitória, anotei: "No balanço que fizem os (...) tínham os pulado o Rubicão um pouco por acaso, pelas circunstâncias que nos em purravam . A decisão que eu j á tom ara, na verdade desde o ano passado, de m udar o regim e cam bial, se devia a razões óbvias, por causa da taxa de j uros e da im possibilidade de crescim ento da econom ia, da cam isa-de-força em que estávam os. O tem or que todos tínham os, e evidentem ente ainda tem os - porque vam os ver o que acontece na sem ana que vem -, era de que o Brasil, com o não é Inglaterra, desse em México. A Inglaterra prom oveu um a desvalorização, o m ercado aceitou e pronto: não aconteceu nada. O México fez um a desvalorização, o m ercado não aceitou e deu um pulo, desvalorizou m uito sua m oeda [refiro-m e à crise de 1994, sobre as conseqüências da qual o Presidente Ernesto Zedillo conversara com igo várias vezes]." Mais adiante observei que o m ercado até aquela altura nos estava im pondo um a desvalorização de cerca de 20% e que, a ser assim , "é possível, através de um a política m onetária austera, controlar a subida da inflação. Se não atravessássem os o Rubicão não teríam os com o divisar um final de m andato com m aiores perspectivas de crescim ento da econom ia". A im pressão de que poderíam os nos aj ustar m ais suavem ente, com o ocorrera com o Reino Unido em 1992, foi percebida dessa form a tam bém em Londres, com o m e disse, por telefone, nosso em baixador, Rubens Barbosa. Malan chegou a pedir dem issão
Passado o susto inicial, e sem divisar quantas surpresas o futuro próxim o nos reservaria, pusem o-nos a repensar as políticas para sair do sufoco. Boa parte do que restava da equipe econôm ica viaj ou para Washington e para
Londres, em busca de desafogo para o aperto financeiro: o m ercado secara, não havia linhas de crédito nem para as exportações. Em tais ocasiões os boatos se intensificam , a especulação encontra terreno fértil. Dos EUA, Malan relatava as dificuldades. O m inistro das Finanças da Alem anha, Oskar Lafontaine, do Partido Social-Dem ocrata, não apoiava a posição do FMI, que insistia em que aum entássem os os j uros. Só não queria dizer isso de público para não m ostrar divisões de opinião no G-7. O Fundo de fato pressionava fortem ente por um aum ento da taxa básica. Stanley Fischer propunha que a elevássem os dos 22% em que então se situava para 35% ao ano. No dia 19 de j aneiro, tive um a conferência telefónica com Malan, assistida por Chico Lopes e Pedro Parente. Chico e eu desej ávam os no m áxim o 31%. Por fim concordam os que Malan poderia chegar aos 32%, para lhe perm itir certa m argem nas negociações com o FMI. Tam pouco Alan Greenspan, presidente do BC am ericano, o Fed, e o presidente do Fed de Nova York, William MacDonough, refletindo a posição dos banqueiros internacionais, viam necessidade de aum entos significativos. No Brasil, governadores, políticos, em presários, é desnecessário dizer, opunham -se fortem ente a qualquer elevação. Quando a crise bate feio à porta é nesse contexto que as decisões são tom adas: não há ponto interm ediário. É fechar os olhos, ou m elhor, abri-los bem para tentar enxergar m ais longe, e decidir.
Indiferente às nossas dúvidas, o m ercado continuou agindo, oscilando, castigando, levando uns a ganhar, outros a perder e a econom ia nacional com o um todo a pagar os custos. Assim transcorreram os prim eiros dias após a decisão de deixar o câm bio flutuar. Por todos os lados, dúvidas, e quase todos, consciente ou inconscientem ente, ansiosos por "algum a regra". Depois de tantas décadas de câm bio controlado, não era fácil para os agentes económ icos e políticos se acostum arem a deixar o m ercado definir o nível de equilíbrio do quim era. Eu pensava com igo, e gravei: "Essa coisa de livre país subdesenvolvido com o ainda é o Brasil, com essa m entalidade de que é preciso ter as am arras no Estado, é com plicada. Mais do que podem os im aginar.” No dia 20 de j aneiro daquele 1999 o Congresso aprovou, por 334 a 140 votos, um a m edida adicional para facilitar o aj uste fiscal, no caso, em m atéria previdenciária. Telefonei im ediatam ente a Malan para que ele
câm bio, um a
m ercado, num
transm itisse a inform ação aos descrentes técnicos do FMI. Não adiantou nada: no dia 22 o câm bio chegou a atingir 1,80 real por dólar, em bora fechando a 1,70. Com essas e outras Malan, na volta, com eçou a falar em sair do governo.- Eu, com o m inistro, sou o responsável - disse-m e ele. - Se as coisas não deram certo, é m elhor im aginar outro m inistro da Fazenda. Rebati com energia, respondendo:
- Não concordo. Prim eiro, porque se há algum responsável, sou eu. Segundo porque é difícil encontrar alguém que o substitua neste m om ento. Tenho falado pelo telefone com todo m undo aqui e lá fora. Todos m antêm a confiança em você.
Voltei a falar por telefone com André e Luiz Carlos, que estavam na Europa. Malan e eu pedim os a André que fosse aos EUA para falar com Stanley Fischer e com Larry Sum m ers, buscando ganhar confiança em nossas possibilidades de sair da crise. Com binam os tam bém que o BB venderia dólares para fazer o que os econom istas cham am um a dirty flotation, ou sej a, um a "flutuação suj a" - o governo apregoa que é livre a flutuação, m as na prática intervém no m ercado -, que deu resultado: o dólar cedeu nos dias seguintes. No m eio tem po eu m e com unicava com o público onde pudesse. Na CNI, nas em issoras de TV, j unto às bancadas parlam entares, recebendo em presários estrangeiros, na inauguração de um a fábrica de autom óvel ou de com pensados, em toda parte. Reafirm ava m inha confiança no Brasil, no rum o traçado de austeridade fiscal e reaj uste do câm bio, na com petência do m inistro da Fazenda, em nossa capacidade negociadora e assim por diante. E escondia m eu estado de espírito, em bora a m ídia o registrasse,6 deform ando às vezes m eus atos (dizendo, por exem plo, que eu "passara a perna" em Gustavo Franco) e contrapondo m inha expressão de ansiedade ao sorriso vitorioso de Itam ar Franco por causa de sua "m oratória", com o se m inhas preocupações estivessem em contraposição aos arroubos dele.
6 Ver, por exem plo, O Globo, 9/2/1999, coluna "Panoram a Político", nota sob o título "O estresse de FH" citando o senador Pedro Sim on: "Mas o hom em que encontrei agora, em bora cordial com o sem pre, é outro, cansado e preocupado.”
Enquanto isso, eu registrava parte do que m e preocupava: "Hoj e de m anhã (era 22 de j aneiro) ouço na TV que Menem j á está se antecipando, discutindo a dolarização e a união m onetária da Argentina com os EUA. Seria o golpe de m orte no Mercosul - e aí o Brasil, ou fica isolado, ou ingressa na Alça em condições piores do que nunca." O chanceler Lam preia, com quem alm ocei em seguida, m e tranqüilizou: haveria eleições na Argentina, eles não teriam possibilidades de levar adiante a substituição do peso pelo dólar com o m oeda corrente, tratava-se só de um a atitude acauteladora. Malan insistiu m uito em se dem itir. Ele, que j am ais acreditara na proposta de Chico Lopes, se sentia desconfortável e via as im ensas dificuldades que teríam os, no exterior, para recuperar credibilidade.
Na verdade, pensava, seria necessária um a m udança m ais radical na equipe, inclusive com sua substituição e a de Chico Lopes. Quem sabe André iria para a Fazenda, afirm ava. No sábado, 23 de j aneiro, Celso Lafer m e telefonou e passou a ligação para Affonso Celso Pastore, ex-presidente do BC por ano e m eio durante o governo do Presidente Figueiredo e m eu antigo colega dos tem pos da Faculdade de Econom ia, quando éram os professores assistentes. Ele se m ostrou franco e realista: pensava ser inútil atuar na taxa de j uros e disse que tudo derivava da percepção dos credores. Estes viam o esforço fiscal com o insuficiente e ainda achavam que não tínham os força política para im plem entá-lo. Era o fantasm a da m oratória que am eaçava se m aterializar depois de haver assom brado, com o o pai de Ham let, o dubitativo príncipe das Minas Gerais. Apesar disso, Pastore m e disse que haveria algum a inflação, o que aj udaria a colocar as contas em ordem , e que deveríam os continuar no rum o e, sobretudo, resistir às pressões dos governadores. O FMI queria que im itássem os o Plano Cavallo
Cham ei André Lara Resende ao Brasil. No dia 26 j antam os no Alvorada com Malan, Chico Lopes e Arm ínio Fraga, que estava em visita a Brasília, desligando-se de suas atividades no grupo do investidor George Soros. Por insistência de Malan, conversei com Arm ínio em um canto do grande salão de estar do Alvorada e perguntei se no futuro se disporia a colaborar
com o governo. Naquele m om ento o BC não passava pela m inha cabeça com o lugar de aterrissagem para ele, até porque os últim os dias haviam sido relativam ente calm os e as conclusões de nosso j antar m enos pessim istas do que as análises dos dias anteriores. André e o próprio Arm ínio sem pre se m anifestaram favoráveis às m odificações que, aos trancos e barrancos, estávam os realizando. Arm ínio respondeu que não via urgência em m udanças no governo naquele j aneiro m as que, quando voltasse, em j unho, se disporia a conversar sobre o tem a. No dom ingo, dia 24, Malan m e telefonou para dar conta do que discutira com Cam dessus. A proposta do diretor-geral do FMI consistia em m anter os j uros elevados e preparar condições para um currency board. Com o ele sabia que eu m e oporia a im itar a Argentina, fixando o câm bio, m orm ente por m eio de um currency board, na prática propunha j uros altos, controle da m assa m onetária e definição de um alvo para a inflação. Ouvido Malan, anotei: "Não deixa de ter (a proposta) racionalidade form al, m as falta racionalidade substantiva. Com o é que vou im por m ais taxas de j uros a esse país, diante do Congresso, dos em presários, dos trabalhadores? Esse 'detalhe' -parece que é detalhe para eles - o FMI nunca discute.” Mais tarde, no m esm o dia, recebi telefonem a do responsável pelo Fundo. Na conversa, Cam dessus revelou-se, com o sem pre, caloroso. Disse que entendia nossa preocupação com a autonom ia decisória (cheguei a interpretá-lo m al, achando que desej ava lavar as m ãos, e lhe disse que, àquela altura, não sairíam os da crise sem apoio do Fundo), m as que seria útil se houvesse troca de inform ações m ais constante da nossa equipe com o Fundo e os m ercados. Em sua opinião, tínham os três alternativas:
continuar com a política de Chico Lopes de câm bio flutuando sem j uros altos; voltar ao com binado em Washington em novem bro, ou sej a, nas palavras dele, defender os ganhos do real, apertando a política m onetária para que da desvalorização não decorresse aum ento da inflação; ou, finalm ente, aplicar o sistem a de currency board, com o feito por Cavallo na Argentina. Esta últim a lhe parecia a m elhor alternativa. Cam dessus estava inteirado por Enrique Iglesias de m inha indignação com a persistência das dúvidas sobre nossos propósitos, apesar da aprovação pelo Congresso de todas as m edidas de aj uste fiscal enviadas pelo
governo. As dúvidas se transform avam , pensava eu, em instrum ento de pressão e term inavam facilitando as especulações financeiras. Minha indignação provinha da convicção de que faríam os o aj uste, "Essa é a situação nua e crua com o vej o hoj e. Não m e faltam forças para realm ente liberar as forças produtivas do Brasil. Este vai ser um ano de dureza no que diz respeito à questão fiscal. Esta é decisão j á tom ada, nem é a decisão, é a em preitada na qual tem os que nos m eter. Para isso preciso de hom ens fortes no governo j unto com igo", anotei no dia 24.
No dia seguinte, foi a vez de Stanley Fischer ao telefone. Declarou-se com todas as letras favorável ao currency board, em bora sabedor de nossas resistências. Manifestou entusiasm o ante nossa disposição de agir firm em ente no aj uste fiscal, m as, reiterou, o problem a de credibilidade era m uito sério. O Fundo e o governo brasileiro estavam convencidos de que não havia risco de suspensão do pagam ento da dívida interna. No entanto, o com o operava o m ecanism o de form ava com im agem externa se
tesobonus, ou sej a, cotados em dólar. capacidade de honrar a dívida externa. Seria necessário reunir os banqueiros e lhes apresentar um cronogram a crível de desem bolso. Acrescentou que ninguém m elhor do que Malan para m ostrar que o Brasil tinha um a âncora forte de credibilidade. os títulos que
Mais delicada governo precisava dem onstrar ao m undo financiam ento base no que
financiavam
interno no Brasil, pois a ocorrera no México com os
a dívida interna do governo, ainda era a falta de crença em nossa Tam bém com o governo am ericano as tratativas prosseguiram . Tornei a falar com Clinton no dia 29 de j aneiro. Ele m e disse que precisávam os trabalhar para fazer o que eles cham am de confidence building. Ou sej a, o Tesouro e o FMI não estavam confiantes no BC brasileiro. Mencionou a questão dos governadores, reafirm ando, porém , a disposição de nos aj udar. Pedi que falasse com Robert Rubin para m ostrar ao FMI a necessidade de básica persistia: percepção novem bro, que nunca tinha sido desej ado por Chico Lopes, nem teve os am ores de Gustavo Franco, o BC, em vez de m anter elevadas as taxas de j uros, baixou-as progressivam ente, com o apoio de todos nós, governo, em presários, m ídia, políticos, enfim , da opinião pública. Estávam os confiantes em que o aj uste fiscal seria feito. Quando, em dezem bro, o Congresso recusou a contribuição dos inativos, o m undo veio abaixo no exterior. Daí em diante definir
externa. depressa o apoio ao Brasil A questão
Depois do acordo com o FMI em
recom eçou a votação das m edidas de aj uste e até m esm o a contribuição dos inativos term inaria sendo finalm ente aprovada. Na verdade o Congresso se houve de m odo adm irável durante a crise. Do ponto de vista da percepção externa, entretanto, de nada valeu. A "m oratória”
inconseqüente de Itam ar serviu de estopim para o estouro da boiada. Entram os em cabo-de-guerra: nós a resistir a novas altas das taxas de j uros, o m undo financeiro externo a pedi-las. O FMI e o Tesouro am ericano, am uados por não term os seguido o com binado, ainda por cim a com as m odificações de com ando e de linha no BC, não davam os sinais positivos necessários. Anotei no fim de j aneiro: "Esse silêncio pesado ou as falas constrangidas do Fundo e do Tesouro passaram para o m ercado a sensação de que não teríam os solidez para levar adiante o processo e que as coisas iriam agravar-se.” Internam ente a política continuava nervosa. Governadores de oposição, com o Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul, e Anthony Garotinho (PDT), do Rio, além de Itam ar, continuavam am eaçando não pagar as dívidas, fazendo reuniões e lançando m anifestos em favor de um a revisão do "pacto federativo", eufem ism o para pedir m ais dinheiro ao governo federal. Opositores tradicionais da política de câm bio do BC, da nova e da antiga, aproveitavam o m om ento para opinar. Mas o econom ista Jam es Tobin, àquela época m uito popular à esquerda por aquela proposta de taxar as transações financeiras internacionais, deu um a entrevista aplaudindo as decisões brasileiras. José Serra m e transm itiu um a publicação na qual se descrevia o conj unto de m edidas adotado pelo Prim eiro-Ministro da Malásia, Mahatir Moham m ed, para conter a crise asiática. O Estado de S. Paulo pedia, em editorial, a dem issão do m inistro da Saúde, sob alegação de que ele estava querendo substituir Malan ("O presidente precisa dem itir um m inistro", 27/1/1999). A Folha de S. Paulo fazia contínuas pesquisas de opinião que m ostravam a deterioração do apoio popular a m im ("Para 70% dos paulistanos, crise vence FHC", 31/1/1999). Foi nesses dias que o petista Tarso Genro, prefeito de Porto Alegre, publicou seu artigo sobre o encurtam ento de m eu m andato. Era assim o dia-a-dia, com um sabor de volta a um passado de descontrole política.
Isso três m eses depois de um a concentrava no essencial: repor a econom ia nos trilhos. econôm ico e adm inistrativo e de instabilidade reeleição consagradora. Nesse clim a, eu m e
Vi rancor nos olhos do povo Dia 29 de j aneiro o dólar rom peu a tem ida barreira psicológica dos 2 reais. Era o que os econom istas cham am de overshooting (um superpontapé, em linguagem m ais vulgar). Malan insistia: ou o FMI envia logo um a m issão para negociar conosco ou não terem os condições para segurar o caos. Neste contexto viaj ei a São Paulo para inaugurar as novas instalações da TV Globo. À tarde o telefone não parava. Ora era o general Alberto Cardoso, chefe do Gabinete Militar, ora o dr. Lucena, chefe de m eu gabinete pessoal, e o tem po todo Ana Tavares, que m e acom panhava na viagem e recebia inform ações telefónicas incessantes: notícias de corrida bancária. O boato do m om ento assegurava que no fim de sem ana decretaríam os o congelam ento dos depósitos, com o se deu na estréia do governo Collor. Naquela tarde, quando o cortej o presidencial descia a avenida Rebouças, em São Paulo, percebi e senti, pela prim eira e única vez no exercício da Presidência, o olhar de distanciam ento, a perplexidade e até o rancor do povo. Nas cam panhas eleitorais e em atos públicos de governo vi com freqüência olhares enfurecidos, m as sem pre de m ilitantes políticos adversários. Não da m assa popular que, no Brasil, é antes receptiva à autoridade do que am eaçadora. Naquela sextafeira, entretanto, o ânim o, m esm o m udo, era outro. Em bora houvesse veículos da segurança da Presidência à frente e atrás de m eu carro, eu não gostava do espalhafato que norm alm ente acom panha os traj etos do Presidente e não apenas não queria batedores de m otocicleta com sirenes ligadas à m inha volta com o não perm itia que se controlassem os sem áforos para nos dar passagem . Assim , era vagarosam ente que o cortej o presidencial descia a avenida, indo de m inha casa, no bairro de Higienópolis, para a nova sede da Rede Globo na região da avenida Luís Carlos Berrini, próxim a à avenida Marginal de Pinheiros. Podia perceber com nitidez a atitude das pessoas. Ninguém m e saudou com as m ãos, com o o habitual. Eu via nos olhares perplexidade, m edo, ressentim ento. Ao final da inauguração concedi um a entrevista à Globo. Indagado com ansiedade pela j ornalista Miriam Leitão sobre a situação, tam bém pela prim eira vez baixei a guarda. Em lugar do otim ism o oficial, disse que, tal com o nos tem pos da Segunda Guerra Mundial Churchill falara em
sangue, suor e lágrim as, teríam os que, sem sangue, suar m uito e sofrer bastante para rearrum ar a casa. Não haveria m oratória algum a, m as aperto fiscal. Do local da inauguração segui para o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, para conversar com Mário Covas, não sem antes reunir-m e com Andréa Matarazzo, m inistro da Com unicação Social, para contra-atacar a onda de boatos. No Palácio dos Bandeirantes reafirm ei à im prensa que nada do que estávam os fazendo ou faríam os se com parava às m edidas de Collor. Que eu, reeleito em prim eiro turno com m ais de 35 m ilhões de votos e com toda um a história de nunca enganar o povo, não iria perder esse patrim ónio político com m edidas dem agógicas. Os bancos continuariam abertos na segunda-feira seguinte e não haveria congelam ento de nada, depósitos ou preços, e eu j am ais tocaria na poupança da população.
Manteríam os a política desenhada desde o Plano Real. O encontro com Covas foi excepcional. Prim eiro porque ele, apesar de àquela altura j á estar se subm etendo a quim ioterapia para o tratam ento do grave câncer que finalm ente o derrotaria em 2001, m e pareceu vigoroso e anim ado. Depois porque, em bora achasse que eu deveria trocar o com ando da econom ia para recuperar a confiança da população, aceitou m inhas ponderações. Disse-lhe:- O problem a é: quem nom ear? Não é fácil, não se encontra um a pessoa. O Pedro Malan está aberto. Tem tido um a grande franqueza e um a solidariedade e para com o Brasil. Meu receio é introduzir m ais um excepcionais para com igo
elem ento de instabilidade. Mário não só concordou os governadores, para m anifestar apoio ao governo federal. Reafirm ou que sabia avaliar as dificuldades e que, fosse qual fosse m inha decisão, seria solidário a ela. Retornei a Brasília e no dia seguinte, sábado, cham ei Pedro Malan e Pedro Parente para um a conversa decisiva. Anotei: "O dia foi terrível.
À noite [de sexta para sábado] fui dando balanço, boatos de todo tipo, o dólar a 2 reais e não sei quanto, um a coisa desatinada." Passei o dia trocando idéias e inform ações com Malan e Parente e dependurado ao telefone com os personagens de sem pre, Pérsio e André. Com eles discuti a sugestão do Fundo e de Cavallo que desde há m uito, com o vim os, nos instava a im itar a Argentina -, de criarm os um cunency bord. Não
com o se dispôs a ir a Brasília, em reunião com
obstante sabedores ao efeito rápido que isso ocasionaria na taxa de j uros, provocando sua queda, tem iam a m udança sem que antes tivessem ocorrido os efeitos do aj uste fiscal. Por outro lado, consideravam a flutuação do câm bio um m ecanism o superior ao currency board. A pressão sobre o real, disse Pérsio, é um a bolha que vai furar.
Arm ínio no BC aj uda a restaurar a confiança
Merece registro, ainda, a conversa telefónica que tive com Robert Rubin, na m anhã desse sábado. Ele se encontrava no Fórum Económ ico Mundial, em Davos? na Suíça. A conversa foi m uito longa, calm a, com j eito agradável.- O senhor sabe, Presidente, além dos recursos há a questão da confiança. É preciso restabelecê-la.
Ele se referia, naturalm ente, à m udança cam bial sem qualquer aviso prévio ao FMI e ao Tesouro dos EUA. Na prática, em bora não m e tenha dito dessa form a, confiança de volta queria dizer m udar a direção do BC. Da reunião de Davos recebi tam bém , por m eio de Lam preia, avaliações pessim istas. Um diretor do Goldm an Sachs lhe m ostrara um relatório em que o banco reiterava a necessidade de reestruturação de nossas dívidas. Evitei entrar em detalhes com Rubin sobre assuntos internos nossos e disse que Stanley FÍscher precisava vir ao Brasil para retom ar logo as negociações. Relem brei-o de m eus argum entos, m as avancei com outro com o qual ele estava de acordo: se subíssem os a taxa de j uros, o m ercado que olha para o cârflbio não tom aria conhecim ento disso e o m ercado que olha para a dívida interna acharia que tornávam os m ais difícil ainda o seu pagam ento. Log°> pioraria a nossa situação. Insisti que o aum ento dos j uros era um a im posição do FMI que não tinha cabim ento e precisava ser revista.
Apesar da boa vontade de Rubin e de seu tom am istoso, no fundo era um a conversa de surdos. Com ele, que era dos m ais sensíveis aos nossos argum entos, e com os dem ais. Nós preocupados com a disparada do dólar, que estava acontecendo, e eles com a da inflação, que não ocorrera. Pediam j uros m ais altos para controlar um a eventual inflação, com o que não se resolvia a disparada do dólar. Para resolvê-la precisávam os de um em préstim o urgente que solidificasse nossas reservas e perm itisse a reto m ada da confiança, a qual tinha m enos a ver com pessoas do que com fatos. Havia que m ostrar cacife para entrar no j ogo. Por razões internas, entretanto, era preciso m udar as pessoas. Fiquei chocado quando Chico Lopes, no m eio de toda a confusão arm ada com a corrida bancária, sequer m e telefonou. Viaj ou para seu sítio em Teresópolis (RJ) e de lá voltou na segunda-feira para ter um a conversa com igo, quando lhe inform ei da decisão tom ada de substituí-lo. Coube novam ente a m im a ingrata tarefa de dem itir um colaborador. A m ídia a dizer, com o j á acontecera várias vezes antes, que eu não gostava de dem itir ninguém (a propósito, isso é coisa para se gostar?), e eu, para poupar o m inistro da Fazenda, a quem o presidente do BC se reportava, exercendo um a das piores exigências da vida pública. Chico Lopes m e perguntou por quem seria substituído. Quando disse que por Arm ínio Fraga - com o logo com entarei -, dem onstrou alívio, pois considerava que sua linha seria m antida. Achava o que ocorrera algo norm al no início de um a experiência nova com o câm bio flutuante (o câm bio abrira naquela segunda-feira a 1,76 real por dólar, quando na sexta-feira anterior chegara a 2,15), que provavelm ente haveria um a inflação de uns 30%, m as teríam os saltado o Rubicão. No futuro, disse ele, essa política renderia frutos, pois perm itiria a retom ada do crescim ento. Deixou claro que lhe parecia um erro sua substituição. Quem sabe m esm o atribuísse m inha decisão de tê-lo nom eado com o m ero j ogo político, quando não um a m anobra para afastar Gustavo de m odo a colocar no lugar quem eu realm ente queria. Registro tais observações para m ostrar o estilo de Chico Lopes: um intelectual inteligente e dedicado, com pouco senso político e, até quanto possa j ulgar, absolutam ente decente. As infâm ias e hum ilhações que ele sofreu posteriorm ente não guardam qualquer proporção com os atos praticados. Nas vezes em que interagiu com igo, sem pre o vi m ovido por convicções. Um tanto abstratas para o exercício da chefia em posições públicas, o que lhe custou o cargo, m as nunca de m á-fé. Mas não era só isso. Malan, com o disse, nunca se sentiu confortável com a orientação do BC sob Chico Lopes. Naquelas circunstâncias eu não deveria aceitar a dem issão do m inistro, apresentada por escrito na tarde de dom ingo, dia 31, e não poderia m anter a am bigüidade de com ando. Havendo passado em revista com Malan e Pedro Parente todas as dificuldades, j á no sábado, 30 de j aneiro - dois dias antes de dem itir Chico
Lopes -, tinha autorizado Parente a sondar Arm ínio para ocupar a presidência do BC, Depois do sinal verde, no dom ingo telefonei para ele em Nova York e com binam os que na terça-feira, 2 de fevereiro, estaria novam ente no Brasil para se incorporar ao governo.
Houve críticas à escolha. Elio Gaspari se antecipara em sua coluna em O Globo e na Folha de S. Paulo, cham ando a atenção para o risco de conferir à raposa a guarda do galinheiro.7 Até Lula, em geral pouco ativo na oposição direta a m im , fez com entários na m esm a linha.8 precisam os; de alguém que, m ercados financeiros, dos cham ados derivativos e da especulação, e que use esse conhecim ento para defender a m oeda e os interesses nacionais. Em geral a acolhida ao nom e de Arm ínio foi positiva.
Havia ainda outros problem as a contornar: a Constituição requer a aprovação do presidente do BC pelo Senado. Este dera seu assentim ento a Chico Lopes, que se saiu com brilho da respectiva sabatina, apenas um a sem ana antes. Além do que, a
Eu pensando com igo: é exatam ente disso que sendo honesto, conheça o funcionam ento dos Casa entraria em recesso. Malan, a instâncias de Pedro Parente, conversou com o presidente do Senado para explicar a situação e pedir com preensão, e obteve sucesso. Antônio Carlos dirigiu-se à im prensa e elogiou Arm ínio, carioca com raízes fam iliares na Bahia. O gesto de ACM, por sinal, perm itiu que alguns políticos, sobretudo do PSDB, divisassem na nom eação o aum ento da influência do cacique baiano, que absolutam ente nada teve a ver com a decisão. O saldo: m ais disposição negativa de setores políticos contra o "predom ínio" do PFL no governo... Recebíam os fogo am igo, e, claro, raj adas de balas da oposição. Notas de governadores, respostas do Planalto, brigas no Congresso por causa da eleição das Mesas Diretoras, im prensa fustigando e nós na dura luta para convencer o FMI a liberar recursos. O Fundo condicionava a liberação à aprovação final da CPMF, m edida que, j unto com a im plantação de um im posto sobre com bustíveis, era m ais im portante para o governo equilibrar as contas do que o próprio FMI im aginava. Fom os aprovando tudo, I
7 Ver "O governo capturou o especulador", publicado nos dois j ornais a 7/2/1999. 8 Ver "Itam ar e Lula criticam m udança no BC", Folha de S. Paulo, 3/2/1999.
item por item , e as nom eações políticas que assinei na recom posição do Ministério m ostraram sua utilidade, apesar das críticas de quem esperava que, pelo m enos no segundo m andato, eu m ontasse um Ministério "purosangue", com grandes nom es. Com o transcorrer do tem po, a situação internacional - que estivera na origem de nossa crise desde os acontecim entos com a Rússia, passando pela falência de um grande fundo am ericano de investim entos, o Long Term Capital Managem ent (LTCM) - ia se desanuviando. A bolha financeira am ericana não arrebentou com fragor. As linhas de crédito com eçaram a fluir nos fins de fevereiro e as discussões, árduas, com os técnicos do Fundo progrediram . Stanley Fischer, antigo conhecedor da econom ia e das pessoas do Brasil, auxiliado pela econom ista italiana Teresa Ter-Minassian, da direção do Fundo, abandonaram a infeliz idéia de form ar um currency board. Do nosso lado, Malan, Am aury Bier, Pedro Parente e Arm ínio Fraga passaram a form ular, sob m inhas vistas, o que veio a ser depois um a nova política m acroeconôm ica, que continuou sendo seguida no governo Lula, baseada em três pontos: câm bio flutuante, m etas de superávit prim ário e m etas de inflação. Stanley Fischer veio ao Brasil e Cavallo continuou a propagar as vantagens do currency board em visita a m im em Brasília (argum entando, não sem razão, que não deveríam os afastar de todo essa hipótese para evitar, taticam ente, a preocupação dos m ercados com um a decisão de centralizar o câm bio). Atuando oficialm ente com o consultor de Malan enquanto o Senado não voltasse a se reunir para referendar sua indicação, Arm ínio com eçou a m ontar equipe e a operar. Entusiasm ado com a nova política que se ia desenhando, conseguiu ir restabelecendo a buscada confiança. Para reforçá-la, gostaria de um program a de privatizações m ais agressivo, sobre o qual eu tinha dúvidas. Na sexta-feira antes do Carnaval recebi o Presidente Menem em São José dos Cam pos (SP), a cam inho de um a visita à estância clim ática de Cam pos do Jordão, frustrada pelo m au tem po, para ir acertando com ele as reações dos argentinos às conseqüências do câm bio livre e da desvalorização do real, que tornaram os produtos brasileiros bem m ais com petitivos em seu m ercado. Durante o Carnaval, na casa de cam po em Ibiúna, m e pus a ler e a falar ao telefone para entender em profundidade o novo sistem a de m etas inflacionárias. Passam os o final de fevereiro discutindo o nível do
superávit prim ário desej ado. Propusem os 3,1% do PIB, o Fundo queria m ais: 3,25%. Sem pre a m esm a tática de subir o sarrafo para ver se saltávam os. A econom ia real funcionando razoavelm ente, a despeito de tudo. Em presas estrangeiras e nacionais inform ando-nos que continuariam investindo no Brasil. Nem por isso os m ercados financeiros deixavam de corcovear. Enquanto isso, sabatinado no Senado, Arm ínio reagiu com serenidade e altivez de uns poucos cuj a im aginação e com preensão da coisa alcance lim itado. O senador Sim on, por exem plo, fora duríssim o. Havia por trás de cada pergunta a pressuposição de que o galinheiro estava sendo entregue efetivam ente à raposa. Eu recom endara que Arm ínio agisse com prudência e firm eza. Registrei para m im m esm o ao gravador o que lhe dissera: "Você vai fazer esse debate no Senado. Não se im pressione, você tem que ser aprovado. O debate é com o j ornal: no dia seguinte ninguém m ais se lem bra. Não se esqueça de que seu obj etivo é ser aprovado. Você vai ser. Mas não se esqueça tam bém do seguinte: o Brasil não gosta do sistem a capitalista. Os congressistas não gostam do capitalism o, os j ornalistas não gostam do capitalism o, os universitários não gostam do capitalism o. E, no capitalism o, têm horror aos bancos, ao sistem a financeiro e aos especuladores. Então o ponto fraco vai ser sua relação com Soros. Eles não sabem que não gostam do sistem a capitalista, m as não gostam . Gostam do Estado, gostam de intervenção, do controle, do controle do câm bio, o que puder ser conservador é m elhor do que ser liberal.
"Essa é um a dificuldade im ensa que tem os, porque estam os propondo a integração do Brasil ao sistem a internacional. Eles não gostam nem do capitalism o nacional, quanto m ais do internacional, desconfiam de nossa ligação com o sistem a internacional. O ideal, o pressuposto, que está por trás das cabeças, é um regim e não-capitalista e isolado, com Estado forte e bem -estar social am plo. Isso tudo é utópico, as pessoas não têm consciência, (...) Um governo que se propõe a fazer a integração do Brasil à nova divisão internacional do trabalho é visto com o neoliberal. Isso é xingam ento, e quer dizer na prática que o governo tem distância ou oj eriza ao social. Mesm o que se m ostre por 'A' m ais 'B' que m eu governo foi o que m ais realizou pelo social, não adianta, porque tam bém foi o que m ais fez pela integração do Brasil ao sistem a m undial, e isto não é bem -visto aqui.” às insinuações
pública têm
A lem brança da verdadeira guerra em preendida por alguns senadores contra Luiz Carlos Mendonça de Barras quando do caso dos "gram pos" do BNDES continuava a m e preocupar. Mas Arm ínio houve-se m uito bem no Senado.
Chegou a desarm ar os ânim os quando, depois de m uito criticado, até por ter m ãe norte-am ericana (a que ponto chega a m á-vontade de oposicionistas), respondeu assim à provocação do senador Saturnino Braga (PSB-RJ) de que seria um "génio do m al":
- Génio não sei, m as sou do bem ....
Para a retom ada da confiança, contou m uito o j eito de Arm ínio. Sim ples, direto, convincente. Além de tudo, desde princípios de m arço, com eçam os a perceber sinais de m elhoria na econom ia. Reagindo a nova puxada na taxa de j uros, que chegou a 45% no dia 5 de m arço, o m ercado cedeu na pressão altista do dólar. Os dados sobre a inflação surpreenderam . Os índices para o consum idor no acum ulado do ano calculados pela Fundação Instituto de Pesquisas Económ icas (Fipe), ligada à USP, não ultrapassavam 2% até m arço. Im aginávam os ser possível chegar à época do salário m ínim o com um a inflação próxim a a 7% e ao fim do ano com 11% ou 12%. Anotei que se continuasse assim a taxa de j uros poderia cair significativam ente.
Isso de fato ocorreu. O Congresso aprovou a CPMF, tivem os um a reunião m uito positiva com os governadores em fins de m arço e Arm ínio Fraga continuou lutando com o Fundo para utilizar com m aior liberdade as reservas, de m odo que o m ercado visse que tínham os "bala na agulha". A lim itação no uso das reservas após obterm os os em préstim os do FMI j á tinha atado nossas m ãos nos m eses anteriores, praticam ente im pedindo as intervenções pontuais para conter a pressão sobre o câm bio. Vencidas as dificuldades, Stanley Fischer telefonou em abril. Em ligação de sem anas antes, ele havia perguntado se os dados de inflação que recebera eram acurados. Respondi-lhe que sim . Dessa feita, disse apenas:- Só quero felicitá-lo. É um prazer ver o que aconteceu com a econom ia brasileira, depois de tantas dificuldades.
As taxas de j uros efetivam ente com eçaram a cair até atingir 19,5% em j ulho e 19% em setem bro, correspondendo a um a taxa real de cerca de 10%, alta, é verdade, m as a m enor desde o início do governo. A econom ia se recuperava. Não era essa, entretanto a percepção dos políticos. No Congresso, com eçaram a lutar pelo controle de CPIs, a do Sistem a Financeiro
e a do Judiciário. Os fundam entos para a nova etapa da econom ia brasileira, no entanto, estavam lançados. O sistem a de m etas inflacionárias seria m antido pelo governo seguinte e sancionei a LRF em 2000. Esses são os pilares da estabilidade económ ica. Por outro lado, a flutuação do câm bio abriu espaço para o Brasil voltar a ser um a econom ia exportadora m ais sólida. A hipótese de um governo Lula assusta os m ercados Os fundam entos do real voltaram a ser testados em 2002, ano delicado para a econom ia por causa das conseqüências im aginadas pelo m ercado com a eventual eleição de Lula para a Presidência da República. Àquela altura o país não sabia o quanto o PT e seu candidato haviam m udado. Mesm o porque eles não se deram ao trabalho de inform ar ao eleitorado que iriam seguir, e com a paixão dos recém -convertidos, as linhas fundam entais do que fom os estabelecendo, com m uito esforço, desde 1993, contando sem pre com a oposição encarniçada e m uitas vezes desleal deles próprios e de seus aliados. Restabelecida a confiança na econom ia brasileira, os investim entos voltaram a fluir do exterior e a brotar no interior. Em 2000 atingim os um pico de 33 bilhões de dólares em investim ento estrangeiro direto, com o Brasil se situando atrás apenas da China, entre as econom ias em ergentes, na atração deste tipo de recursos. O PIB cresceu 4,4%. Mesm o em 2001, apesar da crise de energia, houve um bom volum e de investim entos. Os governam entais atingiram 20,9 bilhões de reais, som a apenas inferior, em toda a série de dados disponíveis no Tesouro Nacional, aos 21,7 bilhões investidos em 1987. A situação se tornou m ais tensa depois do 11 de setem bro de 2001, com o atentado às torres gém eas em Nova York, Ainda assim , no fim do ano a econom ia retornou m archa ascendente e no prim eiro trim estre de 2002 os dados m ostraram -se razoavelm ente positivos, m esm o com parados com o prim eiro trim estre de 2001, de forte crescim ento.
Em m inhas lem branças o horizonte com eçou a toldar em abril. No com eço do m ês eu cheguei a anotar que havia um a "prosperidade relativa", que poderia desaparecer se o Congresso não continuasse votando as m edidas necessárias. Eram a renovação das m esm as, em um percurso de Sísifo, ou pequenos passos na senda aberta por votações anteriores: CPMF, reform a tributária, da Previdência etc. Seria nesse abril que a investigação do Ministério Público sobre fraudes na aplicação de incentivos fiscais levaria à apreensão, pela Polícia Federal, de recursos de origem pouco clara num a em presa da governadora do Maranhão, então pré-candidata à Presidência da República. Em bora o governo federal nada tivesse a ver com o affaire, com o expliquei no final do Capítulo 4, o PFL, partido da governadora - que m archara com igo desde a aliança de 1994, e ao qual pertencia m eu Vice, Marco Maciel -, não se conform ou e iniciou um processo de ruptura política, com plicando a sustentação do governo no Congresso. A cena internacional era desanim adora. A Argentina, passados os anos de ilusão da paridade cam bial entre sua m oeda e o dólar, subm ergia em crise. O FMI, apesar de gestões contínuas do Presidente chileno Ricardo Lagos e m inhas, não m ovia um dedo para aj udar o país vizinho. Malan e Arm ínio m e sugeriram que conversasse com o Presidente argentino, Eduardo Duhalde, com quem eu j á falara em outras oportunidades. Àquela altura m e parecia que o Fundo pedia a Duhalde m edidas que ele não tinha condições políticas de im plantar. A crise da Argentina se arrastou durante todo o ano e nós sem pre solidários. O Mercosul, com o registrei na época, estava com um pneu furado. Ainda assim , dado seu peso histórico e nossos interesses, o governo brasileiro continuou a sustentá-lo e a estim ular investim entos na Argentina. Nossa política sul-am ericanista, com a incom preensão de alguns setores, continuava firm e. Expressei tudo isso no 2° Encontro de Presidentes Sulam ericanos em Guaiaquil, no Equador, em 26 de j ulho de 2002.
Na cena m ais am pla, o governo do Presidente am ericano George W. Bush com eçava a m ostrar a que viera. Denunciava tratados inovadores, com o o Protocolo de Ky oto, destinado a controlar a em issão de gases causadores do efeito estufa, pressionava adversários e aliados. Em m eados de 2002 eu j á registrava com preocupação em m inhas gravações a possibilidade de um bom bardeio am ericano ao Iraque (a guerra com eçaria em m arço do ano seguinte), com o alastram ento das dificuldades no Oriente Médio e todas as conseqüências negativas de tal postura. Na França, o Prim eiro-Ministro socialista Lionel Jospin sofreu um a derrota eleitoral acachapante. Os ventos do m undo sopravam para a direita. Aos poucos se tornava claro que um a coisa era negociar com o FMI durante o governo
Clinton, outra no governo Bush, em bora em relação ao Brasil o tratam ento tivesse sido sem pre correto. Não, todavia, para com a Argentina, cuj os pedidos de com preensão eram vistos com gélida desconfiança, quando não com desprezo. Anotei que a respeito da Argentina o m undo tinha fechado os olhos e am arrado os bolsos.
As fontes de preocupação não se restringiam a essas, porém . Na área financeira dois fatores independentes se cruzaram e com plicaram o panoram a. Prim eiro, o BC percebeu que alguns fundos de investim ento não estavam seguindo a diretriz de avaliar suas cotas pelo valor de m ercado em vez de fazê-lo pelo valor nom inal, o que na prática significava iludir os investidores. Com o vigorava a determ inação legal de seguir o valor de m ercado, boa parte
teriam perdas inesperadas em seus sacavam recursos dos fundos cuj os papéis haviam perdido valor, optando por alternativas eventualm ente m ais rendosas.
dos investidores - os m enos avisados
haveres. Os bem -inform ados j á No dia 27 de m aio de 2002 Malan e Arm ínio m e procuraram no Alvorada para explicar a situação e pedir m eu visto bueno para, no dizer de Arm ínio, "lim par a pedra", quer dizer, im por a regra clara para todos. Era de esperar, com o ocorreu, fuga de recursos de m uitos fundos. Anuí, não sem ter com entado que m e parecera equivocada a decisão tom ada pelo Com ité de Política Monetária (Copom ) um a sem ana antes, de m anter no m esm o nível a taxa básica de j uros, em vez de reduzila. Arm ínio argum entou que a decisão tinha sido adotada por pequena m argem de votos ante a expectativa de que a inflação do ano ultrapassasse um pouco o teto desej ado. Contra-argum entei (foi, a propósito, a única vez que expressei com entários sobre um a decisão do Copom ) que em certas circunstâncias m anter o ânim o do ponto percentual a m ais de
povo e dos em presários é m ais im portante que l
inflação. Arm ínio replicou que, "se nada diferente ocorresse", provavelm ente na próxim a rodada baixariam a taxa de j uros. Anotei: esse é o problem a; quando se perde um a oportunidade, nunca se sabe se ela volta. Sem pre pode sobrevir um a perturbação.
Um segundo e decisivo fator pesou no desatino do m ercado financeiro: a percepção da possibilidade da eleição de Lula. A instável situação dos partidos, o negativism o perm anente da oposição, sua dificuldade para entender as m udanças da econom ia global e da posição que o Brasil ocupava nela, seu elenco de propostas descabeladas no passado, inclusive a de
aplicar um calote na dívida externa, defendida várias vezes pelo próprio Lula, deixavam claro para m im que seria necessário um esforço de entendim ento para viabilizar o futuro período presidencial, independentem ente de quem fosse o vencedor. Recordei que quando eu era m inistro da Fazenda, o deputado José Dirceu (SP), presidente do PT, aceitou convite para tom ar o café-da-m anhã em m eu apartam ento de Brasília e abordou a necessidade de um a aliança entre as pessoas honestas para fazer frente à onda de corrupção vigente (era época da CPI dos Anões do Orçam ento). Talvez fosse possível retom ar esse cam inho. Eu não sabia ainda quanto o PT havia m udado, tanto no sentido de ter um a visão m ais realista da política económ ica com o de se adaptar com facilidade às circunstâncias para obter o que m ais queriam seus dirigentes: poder. No com eço de m aio os m ercados com eçaram a reagir à hipótese da vitória de Lula. Retom ando o clim a de 1999, as agências de rating voltaram a opinar sobre assunto de que entendem pouco: a política brasileira. E, no fim do m ês, lá foi o risco Brasil para cim a. O Congresso, diferentem ente de 1999, quando eu dispunha de anos de governo pela frente, tinha um a eleição à vista e os partidos que até então m e apoiaram estavam fragm entados. Cada votação requeria um esforço extra para convencer que a aprovação das m edidas propostas era im portante para o país não m ergulhar na desordem . Tivem os dificuldades para votar a lei de regulam entação do setor elétrico. Lula chegou a escrever contra a lei um a carta-m anifesto, endereçada a m im , que assustou investidores e m ercados.9