A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 6 de 9 · parte 2/4

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A arte da política: a história que vivi

saudosos de um m odelo "nacional1996, indicara…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Falei pelo telefone, longam ente, com Robert Rubin, secretário do Tesouro dos EUA, e com Michel Cam dessus. Rubin m e disse que na véspera estivera analisando a questão do Brasil durante horas com Larry Sum m ers, a segunda pessoa do Tesouro. Elogiou Malan e garantiu que nos proporcionariam vigoroso am paro. Da m esm a m aneira Cam dessus recordou nossas conversas anteriores em situações difíceis e confirm ou o apoio, apesar da relutância de alguns países do G-7 em colocar recursos no pacote de em préstim os para erguer um a m uralha de sustentação ao real.

Repliquei, sobretudo a Rubin, que j á estávam os tom ando m edidas de contenção fiscal, que aceitaríam os com eçar a tratar com técnicos do Fundo e com o Tesouro, m as que era cedo para buscar um acordo form al com o FMI, em bora a possibilidade não m e assustasse. Deixei entreabertas as portas. Cum priram o prom etido. A nota do FMI, com o OK do Tesouro am ericano, apoiava Brasil, Argentina e México, que viviam , em graus diferentes, situações análogas.

Confesso que não acreditava que obteríam os o apoio. Cheguei a registrar que se a nota dem orasse 24 horas chegaria tarde dem ais. Um a vez dado o apoio, porém , a elevação da taxa de j uros para a estratosfera m e pareceu precipitada. Carlos Menem , aflito, m e telefonou, tem endo que perm itíssem os a flutuação do câm bio:

- Fernando, y o no creo que vás a dej ar flotando el cam bio, no? Confio en que vos no vás a perm itir que todo eso explote en el aire. Respondi:

- Farei todo o possível para evitar isso.

Ainda tínham os 52 bilhões de dólares nas reservas, daí m inha pressa para, se fosse o caso, prom over alterações nas regras cam biais enquanto dispúnham os de fôlego. Com o apoio obtido achei que, se não havia luz, pelo m enos se divisava um a lam parina no fim do túnel. Enrique Iglesias m e telefonou confirm ando o respaldo que teríam os da com unidade financeira internacional. Tudo isso gerou a esperança de sairm os do buraco; esperança, naquele m om ento, não com partilhada por m im . A Bolsa e as cotações subiam e desciam , às vezes fortem ente e nos dois sentidos, dependendo das declarações e dos rum ores. O próprio presidente am ericano Bill Clinton (às voltas com um processo de im peachm ent que paralisava seu governo) fez declarações incisivas sobre a necessidade de rever o sistem a financeiro internacional para aj udar os países em crise. Chegou m esm o a propor um fundo de em ergência que colocaria à disposição de países sob pressão especulativa um a m assa de recursos, a j uros baixos, suficiente para conter os especuladores que apostavam na desvalorização das m oedas. Clinton m e telefonou.

- Henrique [é assim que sem pre m e cham ou], o que posso fazer para aj udar? Será que você poderia dar um a declaração de apoio ao que eu disse? [sobre o fundo de em ergência].

Respondi que sim , e cum priria logo em seguida. E tam bém expliquei:- Não posso de m odo algum desvalorizar o real agora. Não tenho condições de fazer isso. Vai dar a im pressão de que enganei o povo.- Com preendo - continuou ele, acrescentando: - Posso dizer claram ente que nós apoiam os a política de vocês. Mas não vai prej udicá-lo nas eleições?

Disse-lhe que não, e que, ainda que prej udicassem , suas declarações eram im portantes para o Brasil.

Apesar das dificuldades, a equipe económ ica continuava dividida. Os favoráveis a m edidas ortodoxas, entre elas o aperto fiscal, se opunham aos que cogitavam de m edidas heterodoxas que nos livrassem da cam isa-deforça j uros/câm bio. As posições de cada um não eram im utáveis. Oscilavam . Edm ar Bacha, por exem plo, que estava fora do governo, trabalhando com o consultor m as sem pre m e servindo de conselheiro inform al, se posicionava contra heterodoxias, em bora a favor de rom per a cam isa-deforça. (Naturalm ente, a despeito de ter inteira confiança em Bacha, m as cioso de m inhas responsabilidades com o Presidente, e tal qual sem pre procedia em sua opinião sem adiantar m inha posição nem internam ente no governo.) Beto Mendonça, em reunião com igo e Clóvis Carvalho, dia 20 de setem bro, disse que qualquer m exida na equipe poderia gerar desconfiança. Com o pano de fundo, existiam divergências genuínas de visão teórica e, em alguns casos, disputa de posições na m áquina governam ental. E pouca gente a quem apelar. Ou sej a, com as pessoas que estavam à m ão e sem desgastá-las em circunstâncias sem elhantes, ouvi

revelar o que se passava desavenças ainda m aiores, eu tinha dificuldades para tom ar qualquer iniciativa diferente de um forte aj uste fiscal. Dez dias antes das eleições, li no Itam araty um discurso preparado pelo Ministério da Fazenda, m as m uito em endado por m im e m inha assessoria, anunciando m edidas fiscais duras e a provável ida ao FMI para negociar um acordo. A reação foi m uito positiva. Todos os líderes, dos países e instituições internacionais acim a referidos, do G-7 e de outros países am igos, m e telefonaram ou enviaram m ensagens de felicitações pela coragem das m edidas anunciadas, sobretudo em m om ento pré- eleitoral, em geral estim ulador de cautela e não de ousadia em m atéria de contenção fiscal. Para contrabalançar horizonte tão som brio disse, em entrevista posterior, que criaria um "Ministério da Produção". Pronto: luz verm elha para quem via nas preocupações com o crescim ento econôm ico reação negativa ao rigor fiscal. Não era o que eu pensava. Queria apenas não desanim ar o país com as propostas de sucessivos cortes. Sem o desej ar, reforcei a crença na existência de um bloco coeso de "desenvolvim entistas" em contraposição ao dos "fiscalistas" dentro do governo, com o se houvesse um a contradição insanável entre estas duas posições. Não obstante, bem ou m al, tam bém as repercussões internas do "pacote” anunciado foram positivas. Eu m e livrava de praticar um "esteliona

to eleitoral", com o disseram a respeito do Plano Cruzado, pois anunciava m edidas restritivas antes e não depois das eleições. A despeito desse cuidado, a tese do "estelionato" reapareceu com o arm a política, tendo com o um dos m ais loquazes arautos o deputado Delfim Netto. Useiro e vezeiro m axidesvalorizações e prom essas não cum pridas durante seu m inistro da área económ ica dos governos m ilitares, criticava com desfaçatez nossos esforços para equilibrar a econom ia, para cuj as aflições sua desastrosa política em décadas anteriores tanto havia contribuído. A opinião geral era de que conseguiríam os superar a crise.2 Eu, no entanto, não pensava assim . Diante das loas cantadas em hom enagem à disposição de cortar o déficit fiscal, registrei, às vésperas da eleição: "Tudo isso é um pouco m eia verdade. Certam ente existe um déficit fiscal a ser com batido, m as a questão que nunca foi enfrentada é a cam bial. A relação j uros elevados/câm bio sobrevalorizado, esta é a questão central. Tentei várias vezes m exer nesse tem a. Na hora H, os econom istas têm m edo da flutuação, têm m edo, pior ainda, claro, do câm bio centralizado, têm m edo do câm bio fixo único. Discutim os lá atrás, em fevereiro do ano passado, e de novo neste ano. Não deram nem um passo, m antiveram a posição ortodoxa." Descontado o desabafo no calor do m om ento, eu considerava im possível m anter aquele equilíbrio de j uros e câm bio e j ogar tudo nas costas do Orçam ento, ou sej a, cortar, cortar, cortar.

Havia debatido a respeito com Beto Mendonça e Clóvis Carvalho. Na nossa prim eira oportunidade de respirar, teríam os que enfrentar o problem a. Todos receávam os a volta parecendo onipresente e desvalorização do real poderia desencadear um desaj uste que levaria à alta de preços. Nosso sentim ento, portanto, não era desm otivado.

2 Foi m aciço o noticiário a respeito, dentro e fora do país. Ver, por exem plo, na edição de 23/9/1998 de Vej a, "Tufão sobre o país - Bancos e nações ricas arm am estratégia para defender o Brasil da tem pestade financeira; na Folha de S. Paulo, 2/10/1998, "Rubin faz elogios ao Brasil"; ainda na Folha, 4/10/2005, "Em presários em prom over

período com o

da inflação, pois sua m em ória recente continuava seguiam existindo restos de indexação. Um a forte se preparam para m edidas de contenção". No exterior, a revista am ericana Business Week, edição de 19/10/1998, trazia reportagem dizendo "O Brasil precisa de em préstim os do FMI - e da reeleição de Cardoso"; a britânica The Econom ist, por sua vez, na edição d? 29/10/1998, inform ava que "o pacote de austeridade vai alavancar a longam ente aguardada aj uda ao Brasil".

Ninguém pode afirm ar, com certeza, o m om ento adequado para prom over um a m udança de envergadura sem causar pesados prej uízos, em um a econom ia ainda com grandes déficits. Paradoxalm ente, a rigidez das posições da Fazenda e do BC em purravam -m e a cogitar de soluções m enos ortodoxas. Não chegou a haver "oportunidade para respirar". A situação se deteriorava a olhos vistos. Em longa reunião com a área econôm ica na segunda-feira, 29 de setem bro, o pessim ism o era grande. André Lara Resende, que m antivera contatos com o Tesouro norte-am ericano, com o FMI e vários banqueiros internacionais, expôs um resum o do que pensavam .

Anotei em m inhas gravações: "Todo m undo pessim ista. Eles não conhecem a situação do Brasil e querem um aj uste fiscal de proporções enorm es, que não é absolutam ente factível. E nós resolvem os ao final não restabelecer as negociações com o Fundo à m oda antiga, m as tentar forçar a discussão com novas possibilidades, com o, por exem plo, a questão relativa a esse fundo de em ergência proposto por Clinton. Não sei o que vai resultar disso tudo. Disse que nós precisávam os m anter um a posição altiva porque afinal é enorm e a capacidade de o Brasil criar em baraço para o m undo, e que nós não tem os a m enor condição de entrar num desses acordos do FMI em que eles pedem o im possível.” A posição dos diversos m inistros e responsáveis pela área económ ica não era m uito diferente. Chico Lopes m antinha-se contra qualquer heterodoxia. Não queria saber, entretanto, de controle dos program as pelo Fundo. André, m ais ousado nas m edidas a serem tom adas, chegando a falar em algum tipo de controle cam bial, tam pouco m orria de am ores pela vigilância do Fundo. Em geral com partilhavam dessa posição Pedro Parente, José Roberto, Clóvis sem pre resistente a soluções "fora do Malan tinha um a certa abertura para um entendim ento com o FMI. Tam bém Luiz Carlos, realista, ponderava que o respaldo do Fundo poderia perm itir a retom ada do fluxo de capitais, sem o qual nos afogaríam os. Ainda dispúnham os de 45 bilhões de dólares nas reservas. O capital especulativo voara; dali em diante o capital dito nacional (incluindo-se o das em presas estrangeiras) escaparia em volum es ao redor de 300 m ilhões por dia. Havia que decidir, antes que o colapso decidisse por nós. Carvalho e Gustavo Franco, este m ercado". Pareceu-m e que apenas

No dia 4 de outubro, fechadas as urnas, com eçou a contagem dos votos. O PSDB dispunha de um "m odelo estatístico" para, à m edida que os resultados parciais apareciam , calcular o resultado final. À noite, na sala de j ogos do subsolo do Alvorada, estávam os um as vinte pessoas, entre as quais, além de Ruth, fam iliares, líderes políticos e alguns auxiliares do círculo íntim o, m eu barbeiro, Raim undo Manoel dos Santos, o "Dom Raim undo". Até a hora em que subi para o segundo andar para deitar-m e, ainda não se configurara vitória no prim eiro turno. Recordo-m e que, entredorm indo, pensava: "Dessa vez o segundo turno vai ser difícil." Não faltou ansiedade.

A privatização das teles e o caso dos "gram pos” Mas eu ganhara as eleições. Tive 53% dos votos válidos, quase a m esm a proporção da eleição de 1994, quando alcancei 54%. A vitória não m e perm itiu um sorriso: sabia m elhor que ninguém das dificuldades que m e esperavam . Ao m esm o tem po, negociava a paz entre o Equador e o Peru, que m antinham escaram uças m ilitares por questões de fronteiras e term inariam assinando em Brasília, no fim do m ês, um acordo que pôs fim a seis décadas de problem as; com eçava a pensar na form ação do novo Ministério; aj udava, sem pre nos lim ites da lei e do decoro, a eleição dos com panheiros que disputavam o segundo turno, com o Mário Covas, que acabaria obtendo a reeleição em São Paulo. No caso de São Paulo, a m aledicência correu solta: eu não apoiaria Covas, diziam . Tudo porque Maluf, que concorria contra ele e tinha com o vice Luiz Carlos Santos, a instâncias deste últim o, m andou produzir outâoors em que m e apoiava. Este é sem pre o dilem a dos candidatos m aj oritários no Brasil: dada a fragm entação provocada pelo sistem a eleitoral, o próprio partido nunca tem , sozinho, votos para garantir a eleição. Logo, precisa de apoios, necessariam ente reciprocidade. Apoiei Mário Covas, abertam ente em m eu com panheiro no prim eiro turno. Ganhas as eleições, dei um a entrevista à TV Globo, e reafirm ei m eu apoio a Covas no segundo turno. Ele m e telefonou e dias depois enviou António Angarita, seu chefe da Casa Civil e nosso am igo com um , e em seguida seu velho am igo José Maria Monteiro, que deixara a presidência da estatal Com panhia de Seguros do Estado de São Paulo que não im plicam é evidente, e votei

(Cosesp) para ser o coordenador político de sua cam panha à reeleição, para discutir com o eu lhe em prestaria o apoio. Ganhou no segundo turno - para o bem de São Paulo e do Brasil.

O dissabor da intriga em relação a Maluf não seria nada com parado ao que representou a volta de algo que j á havia sido divulgado no m eio do ano, e que se referia a um a realização da qual m eu governo se orgulhava: a privatização dos serviços de telefonia no Brasil. As notícias de "gram po" nos telefones do BNDES atingiam Luiz Carlos Mendonça de Barros, m inistro das Com unicações, e André Lara Resende, presidente do banco no curso do processo de privatização. Essa escuta, revelada de m odo fragm entário, parte em m eados do ano, pela Folha de S. Paulo, parte no final do ano - desta feita por diferentes órgãos da im prensa -, em vez de provocar repulsa pelo m étodo desleal e ilegal de obter inform ações, gerou protestos contra o governo e denúncias de "corrupção". Até m eu im peachm ent chegou a ser sugerido por um ou outro setor político e órgãos de im prensa!

As gravações telefónicas ilegais (provavelm ente a serviço de interesses com erciais, m as que se acusava de terem sido feitas por agentes da Agência Brasileira de Inform ações, a Abin) pareciam envolver não apenas Luiz Carlos e André, m as o próprio Presidente da República em m anobras para beneficiar um dos concorrentes num leilão de privatização das teles. Para entender o episódio, é preciso antes contar o principal: com o se deu a privatização. O governo dividiu o sistem a Telebrás, que com portava 27 em presas estaduais controladas pela Telebrás (holding do sistem a) e um a em presa de telefonia de longa distância, a Em presa Brasileira de Telecom unicações (Em bratel), em quatro áreas: Tele Centro-Sul, Tele NorteLeste, Telesp (som ente o estado de São Paulo) e Em bratel. Pelo plano de outorgas, definido por decreto presidencial, proibia-se que um m esm o consórcio controlasse m ais de um a área. À Tele Norte-Leste correspondia a m aior área do sistem a, estendendo-se do Rio de Janeiro à região Norte, passando por todos os da região Nordeste. Era vista com o a que m ais exigiria da com petência e capitais, pelo núm ero de em presas existentes (16) e pelas necessidades de expansão, definidas em lei sob a form a de m etas de universalização, em regiões de baixa densidade de telefones por habitante. Por outro lado, pelas m esm as razões, apresentava um potencial de retorno dos m ais significativos.

O Ministério das Com unicações e o BNDES trabalharam intensam ente nos m eses e sem anas que antecederam o leilão para atrair o m aior núm ero de consórcios possível para a disputa. Até a véspera, no entanto, o leilão da Tele Norte-Leste corria o risco de fracassar. De início, surgira um único consórcio interessado, liderado por um a grande operadora de telefonia, a Telecom Itália, em associação com o fundo de investim entos Opportunity e com a possível participação da Previ, fundo de pensão do BB. Em seguida, form ou-se outro consórcio, integrado por em presas nacionais sem prévia experiência no ram o de telecom unicações (com o o Grupo Jereissati, focado em indústria m etalúrgica e com ércio, e a construtora Andrade Gutierrez) e sem sócios fortes no setor financeiro.

A form ação desse consórcio nasceu cercada de problem as. Estim ulou-a o próprio m inistro das Com unicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que pediu a Ricardo Sérgio de Oliveira, diretor do BB, tido com o influente na Previ, para m obilizar grupos em presariais com a finalidade de criar com petição na disputa pela Tele Norte-Leste. Com eçaram em seguida as divergências entre os dois. Luiz Carlos Mendonça ficou assustado com a falta de tradição em operações telefónicas do consórcio para o qual Ricardo Sérgio havia aj udado a obter um a caução no BB, o Telem ar. Mendonça passou a tratá-los com o "adversários". Em depoim ento no Senado em 20 de novem bro de 1998, m otivado pelo vazam ento dos "gram pos do BNDES", Luiz Carlos declarou: "O Consórcio Telem ar vinha sendo form ado com base num truque financeiro que foi por nós identificado ainda a tem po de ser evitado e que consistia em pegar o dinheiro dos fundos de pensão, pagar a prim eira parcela, de 40%, e depois prom over a fusão da em presa holding que eles estavam com prando com as 16 em presas operacionais, transferindo os 60% rem anescentes da dívida para o Tesouro e diluindo essa dívida entre os acionistas m inoritários." Evitou-se o truque com a introdução, no edital do leilão, de um dispositivo subm etendo atos societários relativos à fusão e à incorporação das em presas à aprovação dos acionistas m inoritários.

Mesm o im pedindo o artifício, no entender de Mendonça e de André Lara persistiram as dúvidas sobre a capacidade financeira do consórcio Telem ar. Tanto assim que, quando se aproxim ava a data do leilão, 12 de j ulho, a seguradora do BB, que tam bém o integrava, aum entou sua participação nele, para tornar m ais viável o negócio. Sim ultaneam ente, surgi

ram problem as no outro consórcio, liderado pela Telecom Itália. É que a Previ negaceava a assinatura de confirm ação da existência do consórcio, condição exigida pelo Citibank para a em issão de um a necessária carta de fiança. O im passe continuou até o dia anterior ao leilão. Deu-se então a conversa telefónica entre Ricardo Sérgio e Luiz Carlos em que o prim eiro diz a frase fam osa: "Estam os no lim ite da irresponsabilidade." Ela aparece quando Luiz Carlos sugere que o BB concedesse a carta de fiança ao consórcio da Telecom Itália. Ricardo Sérgio responde que j á havia com prom etido recursos do banco com o outro consórcio, e tam bém com um dos consórcios que disputariam a Em bratel, e Luiz Carlos replica, ressaltando que não existia risco, porque um a das cartas de fiança não teria efeito prático nenhum (pois só um dos consórcios seria vencedor). O BB concedeu a carta de fiança ao consórcio da Telecom Itália, tornando, pois, viável a com petição entre pelo m enos dois contendores, o que beneficiaria o Tesouro, aum entando o valor dos lances.

Em sum a, vendo que o consórcio m ontado pelo grupo nacional com petidor (o Telem ar) ganhara m usculatura, Luiz Carlos, André Lara e o vice-presidente do BNDES, Pio Borges, resolveram m ahtê-lo em cena, para não deixar o outro consórcio com petidor (o da Telecom Itália e Opportunity ) chegar ao leilão com o único disposto a com prar a em presa.

Não im aginavam , no entanto, que o Telem ar pudesse ser vencedor. É nesse contexto que ocorre a conversa entre Luiz Carlos e André, "gram peada" e publicada na im prensa, em que fazem referência a Pérsio Árida, à época sócio de Daniel Dantas no Opportunity, e m encionam táticas de levar os dois grupos à com petição. Os term os da conversa, sem o contexto, deram a m uitos a im pressão de que teria havido ingerência indevida dos responsáveis pelo processo de privatização (e eventualm ente interesses escusos) para beneficiar um dos grupos, quando na verdade o propósito era forçar os dois à com petição em prol do Tesouro. A linha de defesa de Luiz Carlos no Senado consistiu j ustam ente em assegurar que tudo o que fez foi em defesa do interesse público, um a vez que prom over a disputa era essencial para elevar o preço final de com pra da Tele Norte-Leste. "Recuso-m e a ser um m inistro burocrata", dizia ele a respeito de sua atuação nos preparativos do leilão. André ia pela m esm a linha de argum entação: "O m ocinho virou bandido, se tivéssem os sido om issos quanto à com petição, não estaríam os sob suspeita." Luiz Carlos

agregava outro elem ento à defesa: "Se quiséssem os favorecer o consórcio do Opportunity teríam os dito a eles que o concorrente tinha dificuldades financeiras e eles apresentariam o lance m ínim o no leilão, m as na verdade apresentaram , segundo m e disseram depois, um lance l m ilhão de dólares acim a do m ínim o.” Ocorre que o leilão da Tele Centro-Sul se realizou antes do leilão da Tele NorteLeste e term inou sendo vencido por um consórcio liderado pela m esm a Telecom Itália. Em obediência ao plano de outorgas, que vedava a presença de um a em presa no controle de m ais de um a área, o envelope com o lance que a Telecom Itália apresentara para o leilão da Tele Norte-Leste teve que ser im ediatam ente picotado, sem sequer ser aberto. Resultado: o consórcio Telem ar levou a Tele Norte-Leste por apenas 1% acim a do preço m ínim o. Vencedora, conseguiu recursos j unto à Previ para concretizar o pagam ento da prim eira e m aior parcela. Diga-se que a Previ era e continuou sendo após m eu governo controlada por um colegiado no qual os em pregados têm o m esm o núm ero de representantes que a direção do BB e, na época, os representantes dos funcionários eram ligados a partidos de oposição, notadam ente o PT.

O Ministério Público federal iniciou em outubro de 1998 investigação para apurar eventual uso de inform ações privilegiadas no episódio. Em novem bro de 1999, o inquérito foi leilões seria Abordarei os benefícios da privatização das teles para o país m ais adiante, no Capítulo 9.

Naquele final de 1998, porém , o tem a dos "gram pos" telefónicos tom ava proporções descabidas e com eçava nova e m ais abj eta infâm ia, o m alfadado "Dossiê Cay m an", um a papelada forj ada por falsários em Miam i, depois condenados à prisão, segundo arquivado e todos os integrantes do governo inocentados. O saldo dos

extraordinariam ente positivo para o Tesouro e para a população. a qual Mário Covas, Sérgio Motta, José Serra e eu com partilharíam os um a conta m ultim ilionária num banco daquele paraíso fiscal do Caribe. A grosseira falsificação não im pediu a com pra do m aterial por pessoas próxim as a Fernando Collor nem que acabasse que poderiam ano, durante em novem bro, por m eio da Folha de S. Paulo). O fato é que ecoou m eses a fio na opinião m al inform ada, que sem pre podia alegar que "onde

nas m ãos de Paulo esperar (rum ores a

a cam panha eleitoral,

Maluf. Não alcançou respeito circularam em bora só viessem o im pacto eleitoral

desde m eados do fortem ente à tona

há fum aça há fogo". Mesm o com esse clim a, em preendem os as negociações com o FMI e continuam os a pedir ao Congresso o apoio necessário para governar. Sai o acordo com o FMI - e saem tam bém os irm ãos Mendonça e André Com o agravam ento da crise financeira internacional, Malan voou para Washington logo em seguida às eleições, para reuniões com as autoridades m onetárias. De lá inform ava a m im e a Pedro Parente (seu substituto interino no Ministério) o que estava ocorrendo. Malan resistiu galhardam ente às pressões do FMI. Elas iam na direção de um a m udança brusca do regim e cam bial. Os representantes do G-7 pressionavam pela flutuação do câm bio, ou por um a subida forte do dólar, seguida de fixação, ou, pelo m enos, para que prom ovêssem os um grande alargam ento da banda de deslizam ento do valor do real frente à m oeda am ericana. A posição da Fazenda, com o disse, era de m anter a política vigente, reforçar as reservas (daí a necessidade de apoio do FMI) e recuperar progressivam ente o crédito externo do país, para só alterar o regim e cam bial em m om ento de m ais calm a, evitando-se um a pressão inicial dem asiado vigorosa sobre o real. Quando enfim nos chegou o suporte do sistem a financeiro que propusem os, m antendo as que alterações m aiores de rum o deveriam ter sido prom ovidas antes. Não daria para adotá-las naquele m om ento sem correr um risco m uito grande de descontrole. Isso, reafirm o, depois de eu ter vencido as eleições e, portanto, sem qualquer conotação de "populism o cam bial".

Dei a cobertura que pude às negociações de Washington. Aproveitei para reforçar nossas teses nos telefonem as de cum prim entos que recebi do Presidente francês Jacques Chirac, do Prim eiro-Ministro português António Guterres, do Rei Juan Carlos, da Espanha, e seu Prim eiro-Ministro José Maria Aznar, e de todos os presidentes da Am érica do Sul e o do México. Com Clinton conversei detidam ente. Expus as razões de por que não m odificaríam os as regras cam biais e disse que não poderia aceitar um program a de austeridade vindo do FMI que nos pedisse o im possível. Nós próprios definiríam os nosso aj uste. Pedi que ele nos apoiasse e a resposta

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

foi m uito positiva: aj udou efetivam ente nas negociações, sem questionar nossa autonom ia.

Ao m esm o tem po continuavam as tratativas para a reorganização do Ministério e para abrir cam inho, no m édio prazo, a m udanças m ais profundas nas políticas m acroeconôm icas. No dia 7 de outubro fui inform ado de que Gustavo Franco, por m otivos pessoais, talvez não pudesse continuar no governo. A em presa que sua m ulher, Cristina, herdara, enfrentava Arinos Barroso Franco, estava em se concentrasse nos negócios da fam ília. Sua posição no BC obviam ente o tolhia do ponto de vista ético para agir, e ele teve que pedir para sair. Sondei Chico Lopes internacional, ele

regras cam biais veio nas condições vigentes. Eu entendia

dificuldades. Adem ais seu pai, Guilherm e idade avançada e requeria que Gustavo para ver se, ocorrendo o afastam ento de Gustavo, ele poderia substituí-lo no BC. Eu estava determ inado a agir com presteza e não levantar dúvidas, postergando as m odificações sobre a continuidade da política cam bial. Chico pretendia alterações m aiores, e as colocou no papel algum tem po depois para m eu conhecim ento. Mencionei que pretendia trazer André Lara Resende para Brasília, talvez na pasta do Planej am ento. Reafirm ei que m anteria Malan na Fazenda. Contava com Malan, anotei, "com o um a espécie de diplom ata e dos m elhores. Ele é m uito correto, m uito com petente, dem onstrou agora m esm o nas negociações de Washington". Não desisti, entretanto, de procurar m eios para baixar a taxa de j uros e aj ustar o câm bio. Acreditava que isso ocorreria nos seis m eses seguintes. As negociações com o Fundo foram se espichando por todo o m ês de outubro. No dia 29, por causa do tratado de paz entre Peru e Equador, Bill Clinton telefonou para m e felicitar e m e pareceu um tanto preocupado com a dem ora na finalização do acordo com o FMI, pois continuavam as restrições da banca internacional ao Brasil. Asseverei que levaríam os ainda um as duas sem anas antes de chegar a um entendim ento. No fim de outubro o governo publicou o program a de aj uste, cham ado Program a de Estabilização Fiscal (1999-2001). As dúvidas, no entanto, continuavam . Gustavo Franco estava em Basiléia em reunião com os presidentes dos BCs das dez m aiores econom ias do m undo e com vários banqueiros. De lá m e transm itiu a im pressão de que não acreditavam que levássem os adiante o aj uste fiscal. Malan, que conversara por telefone com m uitos deles, com pletou essas inform ações. Os am ericanos nos apoiavam vigorosam ente

financeiro que ele é, m uito tenaz, com o

na obtenção de um em préstim o de 40 bilhões de dólares, m as queriam que o G-7 e os grandes bancos privados tam bém se com prom etessem na operação. Finalm ente, no dia 13 de novem bro saiu o acordo, anunciado com pom pa e circunstância até pelo Presidente Clinton, que m ostrou a im portância de evitar um colapso da econom ia brasileira. O cataclism o não ocorreu. Na área política, contudo, a tem peratura subira m uito. Com o sem pre, o aj uste fiscal provoca reação dos que não são da área económ ica. Som ada à im inência de troca de m inistros para o novo m andato, aguçou apetites e conflitos. O com parecim ento de Luiz Carlos ao Senado "gram pos" abriu espaço pertencentes à base de sustentação do governo. Pouca defesa m esm o por parte de líderes governistas, inclusive do senador Élcio Álvares, sem pre tão prestante. As oposições, naturalm ente, se deliciavam com "m ais um escândalo". Resultado: dem issão de Luiz Carlos, José Roberto e de André Lara Resende, apesar dos apelos m eus e de Malan para que não o fizessem , pois a saída dos três poderia convalidar as acusações, com o se houvesse algo a esconder. O episódio alim entou a troca de acusações entre PSDB, PFL e PMDB. Realizei reuniões seguidas com os partidos e os adverti para, diante da gravidade da situação, deixarem as disputas para depois. Inútil. No dia 2 de dezem bro a Câm ara rej eitou o proj eto de lei sobre taxação de inativos, os funcionários públicos aposentados, que não haviam contribuído quase nada para a m anutenção da Previdência pública. A derrota do governo, inesperada, pois se tratava de m atéria que requeria apenas m aioria sim ples, foi lida no exterior com o falta de vontade para aplicar, de fato, m edidas de austeridade.

As conseqüências da derrota não tardaram . No dia seguinte, 3 de dezem bro, as bolsas despencaram , as taxas de j uros futuros subiram e os rum ores pelo m undo para explicar as insinuações contidas no episódio dos

para m uita crítica, vinda de senadores form alm ente afora se encarregaram de derram ar pessim ism o sobre a econom ia brasileira. Anotei: "Isso, curiosam ente, foi ontem , no m esm o dia em que o FMI aprovou o em préstim o para o Brasil. O efeito positivo esperado perdeu-se graças à irresponsabilidade da Câm ara." Nesse dia 3, por ironia, eu estava reunido com Paulo Paiva (que assum ira o Ministério do Planej am ento quando António Kandir se afastou para se candidatar à Câm ara) discutindo estratégias de responsabilidade fiscal e o texto do proj eto da LRF...

A dem issão de Gustavo Franco Daí por diante, m esm o com bilhões de dólares nas reservas e tudo o m ais, não houve quem convencesse esse personagem de m á catadura cham ado m ercado de que o Brasil estava seriam ente em penhado em continuar no cam inho da austeridade. A im agem do que ocorrera na Rússia, onde bilhões de rublos foram trocados por m ilhões de dólares de um program a de estabilização do Fundo e dos bancos internacionais e voaram para contas privadas em bancos no exterior, perseguia nosso país com o pretexto para a volta da especulação. Alguns técnicos de alto escalão do FMI, descontentes com o m odo altivo com o definim os nosso program a, se encarregaram de soprar ao m ercado que voltara à cena o "risco Brasil".

Todos esses fatos m e levaram a repensar a tática de ganhar tem po para m udar as regras cam biais. Precisávam os apressar o processo. Tentei em dezem bro e com eço de j aneiro buscar um plano que acelerasse a desvalorização do real. Debati com Gustavo Franco e Chico Lopes, e naturalm ente com Pedro Malan, bem com o com os econom istas próxim os em quem confiava. As divisas m inguavam a cada sem ana. Gustavo trouxe dois docum entos, em ocasiões diferentes, para responder às m inhas inquietações. Não consegui convencê-lo da necessidade de acelerar o ritm o das m inidesvalorizações. Ainda no dia 16 de dezem bro reuni-m e com ele e anotei: "Sei que Chico Lopes gostaria de ser presidente do BC. O Gustavo está cansado, m as ele é sím bolo dessa política. Todo m undo critica a política de câm bio e j uros, m as não faz outra. Conversei com Malan sobre isso e sobre alguns nom es, de novo, para m inistérios." Tudo o que eu queria é que Gustavo, com a autoridade de que dispunha diante do m ercado financeiro, concordasse em cam inhar m ais depressa no aj uste cam bial. Até porque eu sabia que substituí-lo causaria preocupação a Malan. Na antevéspera do Natal recebi André em m inha casa em São Paulo. André, antigo batalhador por m odificações m ais profundas na política cam bial e m onetária, opinou que chegara a hora de nom ear Chico Lopes, pois Gustavo não cedia. Pedi a André que aj udasse, j untam ente com José Roberto Mendonça de Barros, m esm o estando am bos fora do governo, na form ulação de um novo Ministério, que seria "da produção" e se transform ou em "do desenvolvim ento", entregue a Celso Lafer. Pedilhe tam bém que acom panhasse as idéias de Chico Lopes. No fim do ano, dia 28, no

vãm ente tive um a conversa telefónica com André. Havia ainda a possibilidade de m anter Gustavo no BC e aproveitar suas férias para, com sua concordância, com eçar a flexibilizar as bandas cam biais. Afinal, seria apenas um a m udança de velocidade nas m inidesvalorizações. Voltei a debater o assunto com Gustavo e Malan, tanto antes do fim do ano com o no princípio de j aneiro de 1999. Efisse a Malan que era m elhor cham ar logo Chico Lopes. Malan ficou de contatá-lo, m as estava visivelm ente perturbado com o que percebia ser m inha vontade de ir m ais fundo na questão do BC se Gustavo não cedesse. No j antar com em orativo da posse do segundo m andato, no Palácio da Alvorada, a 1° de j aneiro de 1999, abordei André e perguntei o que lhe parecera a proposta de Chico Lopes de alargar a banda e deslizar m ais depressa o câm bio. Respondeu:

- Eu faria o m esm o.

Pedi-lhe que expusesse sua opinião a Malan. E reiterei a Gustavo no com eço de j aneiro ponderações sobre m aior flexibilidade. Não tendo conseguido êxito, com uniquei a Malan que resolvera m udar o presidente do BC e que eu m esm o cuidaria do assunto.

E assim fiz, penosam ente, num a sexta-feira à noite, dia 9 de j aneiro. Telefonei ao presidente do BC e com uniquei:

- Gustavo, tom ei a decisão de m udar a política e a presidência do Banco Central. Gustavo, m uito correto sem pre, e sem pre form al, retrucou com sim plicidade:- Pois não, Presidente.

E se prontificou a aj udar a transição. Ele entraria em férias, m as antes de deixar oficialm ente o governo faria o necessário para um a m udança com êxito. A "m oratória" de Itam ar e a diagonal endógena

Tom ada a decisão quanto à política cam bial, eu não podia antever as surpresas e dificuldades que m e aguardavam . No afã de não perder colaboradores de valia, vinha tateando as reações de uns e outros. Nos dias 4 e 7 de j aneiro de 1999 discutira com Gustavo o que fazer e de tudo dei ciência a Malan. As propostas de Gustavo e de Chico Lopes não eram inconciliáveis, as personalidades, sim . E as aspirações no governo tam bém .

Gustavo evoluiu Para a sugestão de um a espécie de "serpente", com o se fez na Eur°Pa> Centro da qual o câm bio flutuaria, e a cada dez dias o BC fixaria a ponto m édio do que ocorrera naquele intervalo. Chico Lopes queria um " desvalorização im ediata de 5 a 7% seguida de um cone de desvalorizaçã°> ou seJa> am pliaríam os seguidam ente a m argem de desvalorização, com ° se a cotação do rea^ f°sse deslizando ao redor de um cone. Quando percebi que a "serpente" sugerida por Gustavo m antinha o ritm o lento, perguntei quando, adotada sua proposta, a confiança retornaria. Respondeu^m e 1ue em alEuns m eses. Eu tinha verdadeiro pavor de ver nossas reserva8 próxim as a zero. Pensei com igo: estam os esperando Godot.

-j iido isso era aflitivo. Na véspera da conversa decisiva com Gustavo, quando ele se aferrou à toada antiga, anotei; "O difícil é que estam os repetindo o que aconteceu em fevereiro de 1995, ou sej a, a equipe não está coega. E se eu dem ito um , para o outro poder realizar a m odificação, o m ercado inteiro fica sabendo na hora. (...) Situação delicada. (...) Vam os ter que colocar os dois, Gustavo e Chico Lopes, num a linha de entendim erito provisório, tom ar um a decisão sobre qual vai ser o tipo de m edida e avançar. Com o que não posso m ais concordar é com essa taxa de j uros na Jua e a placidez com que tanto o Gustavo com o um pouco o Malan olh^m tudo isso, com o se bastasse o aj uste fiscal." Tratava-se, na verdade, de um a placidez aparente. Estávam os todos sob grande tensão.

No fim de sem ana que se seguiu ao telefonem a em que com uniquei a Gustavo a decisão de trocar a guarda, Malan viaj ou ao Rio para discutir corfl Chico Lopes e com outros funcionários do BC, notadam ente com Deflióstenes Madureira, sobre as m udanças pretendidas. Voltou não m uito Convencido do êxito da operação. Na segunda-feira seguinte, 11 de j aneiro* reunim o-nos em j antar no Alvorada, Malan, Clóvis Carvalho, Chico Lopes e eu. Malan reiterou que não deveríam os divulgar a troca na presidência do BC antes das novas regras. Chico Lopes, antevendo a reprise de fevereiro-m arço de 1995, se opôs tenazm ente a qualquer colaboração corfl Gustavo, Faria sozinho as m odificações. Entregoum e um docum ento atualizando as m edidas que gostaria de adotar e estava m uito convicto da j usteza delas. Marcam os a data de 13 de j aneiro para deslanchar as decisões> Que risco! diriam os supersticiosos, Mas era um a quarta-feira... Registrei: "Vai ser um a data im portante. Por quê?

Porque estam os m udan

do, na prática, o regim e cam bial. Não sei com o isso vai ser encarado, se haverá corrida contra o real, se serem os capazes de agüentar, m as vam os sair do im obilism o que nos está levando ao sufoco.”

Enquanto preparava a m udança, despistava a todos, inclusive os m ais próxim os. Não punha de lado m eus obj etivos finais, m as m edia o efeito de m eus atos e m esm o das aparências. Recordo ter sido procurado por Paulo Renato e José Gregori, que vieram criticar a política cam bial do BC. Defendi-a, com o se não estivesse a um triz de m udá-la. Qualquer piscada de olho, nessas horas, pode ser fatal. Beto Mendonça, que esteve com igo no dia 11 de j aneiro, insistiu que a m udança deveria ser feita no Carnaval ou durante a Sem ana Santa, m as em qualquer hipótese não passar de abril. Desconversei, pois Beto estava fora do governo, e nem com ele, colaborador antigo e absolutam ente confiável, eu podia abrir o j ogo.

Agindo assim , no dia 12, véspera do anúncio, viaj ei para Sergipe, dizendo que iria descansar na casa de praia do governador Albano Franco (PMDB), na Praia do Saco. A cam inho, passei pelo Rio para inaugurar no vizinho m unicípio de Duque de Caxias as novas instalações gráficas de O Globo. Levei vários parlam entares no avião presidencial, inclusive o senador Antônio Carlos Magalhães. Conversam os alegrem ente e nenhum a palavra sobre m udança algum a. Tam pouco, é claro, durante a cerim ônia de inauguração. À entrada, alguns repórteres m e dirigiram as perguntas que o m om ento exigia, m ostrando-se m ais interessados em saber se Malan continuaria m inistro. Taxativam ente reafirm ei que sim . Perguntado sobre Gustavo Franco, fingi que não ouvi. A calm a e o despistam ento duraram pouco. Em Sergipe, m al tive tem po para m e aloj ar na casa de praia do governador Albano e dar um m ergulho no m ar. Voltei da praia para j antar, acom panhado apenas por Leôncio Martins Rodrigues, cientista político e m eu velho am igo, e pelo aj udante-de-ordens, o j á m aj or-aviador Aldo Miy aguti, pois o governador estava reunido com seus pares em São Luís. Term inado o j antar, tocou o telefone. Era Clóvis Carvalho: os boatos corriam à solta em Brasília, havia m uito nervosism o na equipe, aconselhou-m e a regressar. Voltei logo na m anhã seguinte.

Nem bem cheguei a Brasília, discursei ao país, tentando acalm ar os ânim os. No Palácio da Alvorada, assisti pela TV à explicação pouco convincente de Chico Lopes sobre a nova regra cam bial, que ele batizou de

"diagonal endógena". Nesse m esm o dia falei ao telefone com Michel Cam dessus. A conversa fluiu sem dificuldades, se bem que num contexto delicado. A equipe económ ica entendera ser m elhor prom over as m odificações sem consulta prévia ao Fundo, por m otivos óbvios, pois o organism o se oporia ao estabelecim ento de novas regras sem ter havido antes o aj uste fiscal. Term inei o telefonem a, ouvido por Malan, e transm iti o conteúdo aos dem ais presentes ao Alvorada (Clóvis, Pedro Parente, Sérgio Am aral, Andrea Matarazzo, secretário da Com unicação Social, e o secretário executivo da Fazenda, Am aury Bier, um econom ista excepcional que integrara o Cebrap e que António Kandir levara para o governo).

Assinalei que, em bora Cam dessus nada m e tivesse pedido, eu acreditava que "eles", quer dizer, o FMI e os banqueiros internacionais, no fundo queriam provas adicionais de que continuaríam os seguindo o que consideravam o bom cam inho. Registrei m inha reação assim : "O que é que eles querem ? Algum sinal na privatização. Já sei: ou a Petrobras ou o BB. Pois bem , eu não vou privatizar nem um a nem outro. Eles estão colocando o sarrafo cada vez m ais alto para nós saltarm os. E ficam falando da questão fiscal. Mas estam os avançando no fiscal, que ninguém duvide. O Congresso está cedendo (referia-m e a um a prim eira votação da CPMF que aprovam os com facilidade). Agora, com o é que vam os quebrar os ritos da dem ocracia? (...) Querem que vá depressa, o que a lei não perm ite. É preciso que se entenda isso e o Fundo não pode exigir o que a dem ocracia não perm ite.”

Esse era m eu estado de ânim o naquele m om ento. Assegurei aos presentes que não diria de público o que estava pensando e disse com preender as inquietações do Fundo: consideravam Gustavo Franco m ais sensível às necessidades do aj uste fiscal e, penso, viam Chico Lopes com o resistente a seu receituário. Contei a observação que Cam dessus m e transm itiu sobre a necessária disposição para o reaj uste, e m inha resposta reafirm ando que j á o estávam os levando adiante. Motivos havia tanto para m inha irritação quanto para a desconfiança do FMI. O quadro político se deteriorara. Alguns setores industriais que pediam m udanças do regim e cam bial com reclam ando. Queriam classificar-m e de irresponsável por com ando da econom ia...

urgência, com o certos líderes da Fiesp,

taxas de j uros m enores im ediatam ente. continuavam Chegaram a estar "em férias" quando deveria estar no

Pior do que isso: alguns governadores recém -em possados se m obilizavam para não se subm eter às duras regras do aj uste fiscal, que vinha progressivam ente se im pondo desde quando renegociam os as dívidas dos estados, em 1997. Com efeito, no m esm o dia em que, nas circunstâncias a que j á aludirei, o câm bio flutuou, telefonou o m inistro Carlos Velloso, do STF, com unicando-m e que concedera lim inar em m andado de segurança proposto pelo governo do Rio Grande do Sul, com andado há poucos dias por Olívio Dutra, do PT, para, em vez de pagar em m oeda a dívida gaúcha para com a União, depositar o valor contestado da parcela vencida sob a form a de penhora de bens im óveis do estado, até que a Justiça decidisse sobre a legitim idade dos débitos. Muito pior fez o governador de Minas, Itam ar Franco (PMDB). Ele havia perdido a indicação para concorrer à Presidência por seu partido, com o vim os, o que deixara o PMDB livre para m e apoiar. Inconform ado, desencadeou verdadeira guerra de guerrilha contra o governo federal.

Açulado por alguns colaboradores próxim os, que nunca aceitaram a estabilização nos m oldes realizados pelo Plano Real, e m enos ainda as privatizações, não teve m elhor idéia do que anunciar um a "m oratória” das dívidas de Minas. A m edida era tecnicam ente im possível, porque lei anterior perm itia ao Tesouro ressarcir-se autom aticam ente, não transferindo a Minas (no caso) os recursos do IR e do Im posto sobre Produtos Industrializados (IPI) que o aum entou consideravelm ente a descrença na capacidade de o governo efetivar o aj uste fiscal.

Não contentes com o m ineiro anunciaram que Com panhia Energética de estrago, os bravos guerrilheiros do

estadual anterior, de Eduardo Azeredo, quando privatizou parcialm ente a em presa. Com fum aças de um patriotism o ultrapassado e exacerbado e da suposta ' Ver, por exem plo, "Itam ar decreta m oratória de 90 dias", Folha de S. Paulo, 7/1/1999.

governo federal efetua todo m ês aos estados. Politicam ente, porém , a atitu% do governador bastou para produzir um desastre nas finanças nacionais. Em bom grau por desconhecim ento das com plexidades institucionais do país, a notícia correu o m undo com o rastilho de pólvora.3 O valor dos títulos da dívida externa despencou e

federal

governo desfariam o acordo sobre o controle da Minas Gerais (Cem ig), firm ado pelo governo

explica parte do crescim ento da dívida da União, que se 10 pontos percentuais acim a das que cobra dos da renegociação da dívida dos estados j am ais levam em conta esses dados. O m inistro Eliseu Padilha, que havia sido decisivo no apoio à eleição de Itam ar para o governo m ineiro, tentou dissuadi-lo dos desatinos que estava com etendo. Esforço vão, pois o governador agia com obj etivos políticos e pouco se preocupava com as conseqüências econôm icas de seus atos e declarações. A tragicom édia persistiu m eses afora, perdendo im pacto nos m ercados à m edida que a opinião pública se apercebia do ridículo de algum as ações (por exem plo, cercar a sede do governo m ineiro, o Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, com soldados de elite da PM, em uniform e de com bate, até com m áscaras no rosto, para "defender Minas" de um im inente ataque federal... Ou "acantonar" tropas da PM às m argens de um a represa de Furnas sob o pretexto de exercícios de rotina, m as com o se fora com o obj etivo de "resistir" a qualquer tentativa de privatização da estatal federal, tão cara aos m ineiros).

Apesar das adversidades, nos m eus apontam entos de 13 de j aneiro continuava a sustentar a correção das decisões tom adas: "Vam os ter um braço de ferro duro com esses que estão especulando um a vez m ais. Só que agora, se vencerm os essa parada, terem os saído da arm adilha j uro/ câm bio. Vej o pelas notícias que alguns estão com eçando a entender que a desvalorização vai perm itir aum entar as exportações.”

A proposta de Chico Lopes, entretanto, não convenceu os m ercados.4 Era apenas o com eço de um a traj etória do tipo roj ão frustrado em noite de São João, que produz fum aça, parece que vai se abrir em um chuveiro de prata e, de repente, m urcha e desaparece sem deixar rastro de beleza. 4 Ver, por exem plo, "Governo m uda política cam bial; m ercado reage com ceticism o", Folha de S. Paulo, 14/1/1999.

defesa intransigente dos interesses de Minas contra a "derram a" da União,

continuaram , sem entender os novos tem pos, na faina ingrata de, opondo-se a m im , se oporem na prática a m edidas naquele m om ento indispensáveis para perm itir um futuro m elhor ao país. Na verdade o acordo de renegociação da dívida dos estados livrou-os de pagar j uros de 6% ou 7% ao m ês, para pagar percentagem equivalente, ou não m uito m ais que isso, ao ano. Diga- se de passagem , essa circunstância

financia a taxas em geral estados. Os críticos

No dia seguinte a sua apresentação, o diretor de fiscalização do BC, Cláudio Mauch, dem issionário desde há algum tem po, anunciou que iria m esm o em bora, o que aum entou a tensão dos m ercados. O câm bio elevou-se para a ponta de desvalorização adm itida pela "diagonal endógena" de Chico Lopes: 1,32 real por dólar, contra 1,22 real da abertura no dia anterior. As bolsas caíram 10 pontos percentuais e as vendas dos títulos da dívida externa brasileira no m ercado internacional foram suspensas.

Registrei no sábado, 16 de j aneiro: "Term inei m inha gravação de anteontem dizendo que lesj eux sontfaits. Infelizm ente os j ogos se fizeram e perdem os a prim eira rodada. Quinta-feira, dia 14, foi na verdade um dia desastroso.” Na noite da m esm a quinta, Malan, Am aury Bier, Chico Lopes, Dem óstenes e - não estou seguro - provavelm ente Pedro Parente j antaram j untos e discutiram até tarde sobre que providências adotar para dom ar o m ercado, essa fera tem ida. Às 7h30 da m anhã de sexta- feira Malan m e telefonou, disse que havia trocado opiniões com Stanley Fischer e que, depois das discussões durante o j antar, chegaram à conclusão de que teríam os de seguir um a das alternativas: fechar o m ercado na sexta-feira para discutir com o FMI o que fazer; criar um currency board (que dem andaria tem po) e tornar fixa a taxa de câm bio, com o na Argentina; am pliar a banda de variação do real, fixando um valor m ais alto para o teto (Malan achava que o "centro" da banda deveria ser o teto anterior, de 1,32 real por dólar); ou deixar o câm bio flutuar.

Continuar: parte 3 de 4