A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 9 de 9 · parte 4/4

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A arte da política: a história que vivi

Institutos do Milénio, foram iniciativas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Schroeder. Resultado: eleito, a prim eira visita do novo diretor-gerente do Fundo foi ao Brasil, para agradecer o apoio recebido. Não pude deixar de reagir ironicam ente quando vi na im prensa os com entários habituais de críticos do governo segundo os quais ele vinha ao Brasil para "dar-nos ordens". O m undo m udou, o Brasil m udou, podem os j ogar um j ogo m ais hábil a nosso favor, m as os clichês continuam os m esm os...

No esforço de reposicionar o Brasil e assegurar-nos m aior credibilidade, visitei praticam ente todos os países da Europa Ocidental, com especial destaque para a Itália, país onde estive várias vezes, sendo recebido pelos Presidentes Oscar Luigi Scalfaro (1992-1999) e Cario Azeglio Ciam pi, seu sucessor, e pelos Prim eirosMinistros Rom ano Prodi (1996-1998) e Massim o D'Alem ã (1998-2000). Todos eles retribuíram as visitas e nelas o tem a sem pre foi a aproxim ação entre o Mercosul e a União Européia e o revigoram ento das relações com erciais, dos investim entos, das relações culturais e políticas com um país de cuj os im igrantes descendem no Brasil m ais de 25 m ilhões de pessoas, em term os absolutos a m aior quantidade de oríundi em todo o m undo. Detalhe curioso: quando recebi da Universidade de Bolonha o título de doutor honoris causa, Prodi, Prim eiro-Ministro e professor daquela universidade, que assistiu à solenidade, pediu carona no avião presidencial para voltar a Rom a. Lição para todos nós: governante de um dos seis países m ais ricos do m undo, não se fazia acom panhar por guarda-costas e não dispunha de m eio de transporte aéreo. Visitei ainda a Eslovênia, a Rússia, a Ucrânia e a Polônia. O Presidente da Eslovênia, Rudolf Shuster (1999-2004), havia escrito dois livros sobre o Brasil. Na década de 1920, seu pai estivera em expedição fotográfica explorando a Am azônia, percurso que o filho refez. Com o Presidente da Polônia, Alexander Kwasniewski (1995-2005), e sua m ulher, Yolanta, passam os bons m om entos em Varsóvia, No banquete que nos ofereceram levei m inha neta Júlia, na época com doze anos, que pelo lado paterno descende de j udeus poloneses. No dia seguinte, fom os visitar o Gueto de Varsóvia. Diante do m onum ento aos m ortos na rebelião contra o nazism o, ela, o m inistro Celso Lafer e eu nos preparam os para um a fotografia. Júlia m e disse: l

-Você não, vovô.

Apontou para o m inistro, m em bro proem inente da com unidade j udaica de São Paulo, e afirm ou:

- Só nós dois som os j udeus.

Isso é o Brasil. Júlia, para os j udeus ortodoxos, nem é j udia, pois sua m ãe não o é. Ela assum e sem dificuldade a condição cultural porque sente que isso nos aproxim a de povos lutadores que sofreram discrim inações. Mais tarde o Presidente da Polônia e esposa retribuíram a visita. Nossas relações com erciais aum entaram e a sim patia pessoal tam bém . Não m e esquecerei da observação que m e fez quando, na abertura de um concerto de piano em Varsóvia, ao term inar nosso Hino Nacional, Kwasniewski, conhecedor e apreciador de hinos, m e disse:

- Mas este não é apenas um hino, é um a ópera. Tem libreto? Na vastidão do Krem lin, com Yeltsin e Putin

Seria cansativo e desnecessário entrar em m ais detalhes. Para m ostrar o tipo de relacionam ento alcançado com alguns dirigentes m encionarei apenas visitas à Rússia, ao Reino Unido e à França. Estivera algum as vezes na Rússia, no passado, desde um congresso da Associação Internacional de Sociologia, em 1982. Em 1994, Presidente eleito, decidi em dezem bro acom panhar Ruth para um evento da Unesco de que ela participaria. Era tam bém um a ocasião para fugir um pouco do intenso cerco da m ídia, a poucos dias de m inha posse. Interessado em conhecerm e, o Presidente Boris Yeltsin (1991-1999) convidou-m e a visitá- lo. Antes do encontro, eu percorrera parte do Krem lin, que com o se sabe é um conj unto gigantesco e heterogéneo, um a fortaleza que abriga igrej as e palácios. Entre m aravilhas de arte e arquitetura guiou-m e um parente algo distante, Serguei Zarem ovitch Tchernov. Arqueólogo, ele trabalhava em escavações no local e era neto de um prim o-irm ão de m inha m ãe, Octávio Brandão Rego, com unista que se refugiou na União Soviética nos anos 1930, e depois voltou ao Brasil, deixando três filhas em Moscou.

Até reunir-m e com Yeltsin eu nunca ingressara na parte funcional do Krem lin. Essa área, com salas grandes e m óveis sem estilo, nada tinha de atraente. Mantivem os conversa longa e boa. Yeltsin se fez acom panhar por diplom atas que tratavam de questões da Am érica Latina, e eu

pelo em baixador Rego Barros. O interesse em um a aproxim ação política, m as sobretudo com ercial, entre nossos países foi o tem a principal do encontro. Criticou-se corpulento Im pressionaram -m e seu m uito Yeltsin e efusivo, e sua gestão. Pessoalm ente, porém , aquele hom em que falava m uito, tinha forte

m agnetism o e sua disposição

presença e cativava. de estreitar relações

conosco. Para am enizar o início da conversa relatei experiência recente que tivera no Pantanal e, depois de convidá-lo a visitar ao Brasil, descrevi as m aravilhas da vida selvagem .

Curiosam ente, quase um ano m ais tarde, por ocasião do 50° aniversário da ONU, em Nova York, quando ele solicitou ver-m e, o Presidente se lem brou perfeitam ente de m inha descrição do Pantanal. Havia grande expectativa na im prensa brasileira que cobria m inha viagem : afinal, o que desej aria dizer o Presidente da Rússia, potência nuclear, ao Presidente brasileiro? Travam os, então, um diálogo espantoso:

- Com o se cham a seu Prim eiro-Ministro? - perguntou-m e o gigante russo, sem pre incisivo.

Diante da resposta de que não tínham os um Prem ier no Brasil, ele prosseguiu:- Mas então quem trabalha lá? [Com o procurando saber quem se ocupava das questões adm inistrativas no governo.]

Para não responder que era eu próprio, m encionei que além de m im havia o VicePresidente.

- Com o se cham a?

Mencionei o nom e de Marco Maciel, ao que Yeltsin repetiu duas ou três vezes, com o "c" e o "l" prolongados dos russos:

- Maccciell? Macccielll?- com o que enrolando a língua. Depois, sem m ais, m e disse:

- Irei ao Brasil no próxim o abril - e pediu a um assessor que tom asse nota da data (eu não havia m encionado nenhum a data).

E acrescentou:

-Vou levar um as vodcas para o Pantanal.

Pronunciou várias vezes, com o que deliciado, e m uito alegre, a palavra "pantanal", em português.

Respondi-lhe (j á em tom de brincadeira) que deveríam os ter cuidado com isso, porque se bebêssem os m uito correríam os o risco de cair na água 664

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e as piranhas nos devorariam . Abraçou-m e, caloroso, na despedida. O difícil, ao final, foi tentar resum ir para os j ornalistas as conversações que tivem os sobre, im aginavam eles, a aproxim ação com ercial Brasil-Rússia. O tem a de fato foi abordado, m as, m enos do que um sinal de abertura com ercial, Yeltsin queria expressar o desej o de se aproxim ar do Brasil, país que por seu porte eventualm ente pode servir de contrapeso a outras influências m aiores nas Am éricas. Essa m esm a vontade era m anifesta nos encontros que tive com o sucessor de Yeltsin, Vladim ir Putin, em j aneiro de 2002. Na ocasião, com o hóspede oficial no Krem lin, pude sentir de perto os restos da autocracia. A segurança e a guarda do Palácio, com paradas às nossas, são de dar m edo. Hospedei-m e num a parte do Krem lin que não conhecia. Im ensa, repleta de salões, salas e ante-salas, m as, com o todo palácio antigo, pouco funcional e sem certos confortos da m odernidade que, por exem plo, abundam na equivalente am ericana, a Blair House, em Washington. Encerrado o banquete com Putin - realizado, este sim , num esplêndido salão ovalado do século XIV, antecedido por belas ante-salas e repleto de candelabros belíssim os -, convidei os brasileiros que aproveitaram

eram poucos, a

m inha presença para tam bém visitar a Rússia, que não

tom ar um drinque em m eus aposentos. Quando chegaram , um a surpresa: nada havia para servir. Funcionários russos, com m uito boa vontade, acabaram im provisando alguns itens.

As conversas com o Presidente russo revelaram um hom em fisicam ente bem plantado, sólido, reservado, com olhar penetrante e um tanto glacial. Com ele, percebe-se estar diante de um a pessoa articulada e aguda, que sabe o que quer. Talvez por sua carreira de ex-agente da antiga polícia secreta do velho regim e, a KGB, dá a im pressão de ser um tanto fechado, form al. Mas foi sim pático. Agia com o se não falasse inglês e recorria a intérprete, em bora em outras ocasiões tivesse usado o idiom a com igo.

Trata-se de recurso clássico, em certos encontros de chefes de Estado: com intérpretes, ganha-se tem po para refletir antes de falar. Tratam os de vários tem as das relações diplom áticas e com erciais entre nossos países e ele avançou alguns com entários interessantes sobre com o via o m om ento político internacional.

Sobre suas observações, m e ficou na m em ória que sua preocupação política se desdobrava em dois planos: a integridade territorial da Rússia e a atitude dos am ericanos, que ele não com preendia. Por que reabrir naquele m om ento o tem a da "guerra nas estrelas" por exem plo? - indagava, referindo-se ao sistem a antim ísseis no espaço que os am ericanos discutem e pesquisam desde os anos 1980.

- Se só os dois [os EUA e a Rússia] podem os enfrentar esta guerra e nós, russos, não estam os nos preparando para ela, por que isso agora? - perguntou. Em seguida reafirm ou, a despeito dessas ressalvas, seu propósito de m anter as m elhores relações com os EUA, até porque não seria viável cuidar ao m esm o tem po da unidade interna e de adversidades externas. Não havia por que duvidar de sua sinceridade. O Presidente tinha diante de si o desafio colossal de reerguer um país que descera ao fundo do poço na gestão anterior, pós-com unism o, e ao m esm o tem po enfrentar m ovim entos separatistas em diferentes regiões do vastíssim o território russo, sem contar a instabilidade de vizinhos, com o a Geórgia e algum as das repúblicas da Ásia Central, Nessas condições, as relações conosco não m ereciam lugar excepcional na agenda russa, resum indo-se m ais especificam ente, com o vem am pliação do com ércio -é cada vez m aior nossas exportações de carne bovina e suína, por exem pla Pele abala a fleugm a britânica e Blair se im pressiona com o Brasil Quanto à Grã-Bretanha, visitei várias vezes o país. Em um a das visitas, em dezem bro de 1997, Ruth e eu nos hospedam os por três dias no Palácio de Buckingham , com as honras de estilo. Recebi doutoram entos honoris causa das universidades de Cam bridge (onde lecionei em m eados dos anos 1970 e em outras oportunidades) e Oxford, assim com o da London School of Econom ics. Em outubro de 2001, passei um fim de sem ana com Ruth com o hóspedes de Chérie e Tony Blair, em Chequers, casa de cam po dos prim eiros-m inistros britânicos e local predileto de Churchill durante a Segunda Guerra Mundial. Com Ruth, eu estivera em viagem oficial a Madri - ocasião em que se form ou o Clube de Madri, com posto por ex-chefes de Estado e de governo com o obj etivo de discu

ocorrendo há vários anos, à a im portância da Rússia em

tir a dem ocracia e dissem iná-la pelo m undo - e de lá tom am os um avião que nos conduziu à Base Aérea de Brize Norton, em Oxford, de onde seguim os de carro pelo belo cam po inglês até Chequers, em Buckingham shire. Chequers, um grande com plexo com a típica coloração averm elhada das velhas e sólidas casas inglesas, talvez não sej a bela, m as é im ponente. Há um am plo hall de entrada, com as paredes cobertas de quadros de pintores épocas. A seguir, um a grande sala de um a estupenda biblioteca, com prida com o se fosse um a galeria, de teto não m uito alto, repleta de raridades em prateleiras com portas envidraçadas.

O hall da biblioteca é um a espécie de sala de estar, m uito agradável. Andares superiores com portam tam bém os quartos, sim ples m as confortáveis. Nessa oportunidade, Bill Clinton se j untou a nós para o j antar. Sentou-se à m esa conosco tam bém a governanta que cuidava de Leo, o filho caçula do casal Blair, então com três anos de idade. Depois, fom os tom ar um drinque na sala de estar da biblioteca. Assisti à em polgante conversa entre os dois líderes sobre o Oriente Médio, posto que o Prim eiro- Ministro britânico visitaria nos dias seguintes a Palestina e Israel,

Clinton conhecia profundam ente a situação, e lam entou ter chegado ao fim de seu governo, em j aneiro daquele 2001, sem ter obtido a paz. Segundo disse, a paz havia estado "ao alcance da m ão" durante as conversações que patrocinara no ano britânicos im portantes de diferentes j antar. O prim eiro andar abriga anterior entre o Prim eiro- Ministro israelense Ehud Barak e o Presidente palestino Yasser Arafat. Sua fam iliaridade com o Oriente Médio chegava ao ponto de conhecer detalhes sobre o acesso dos povos da região à água, e a relação entre a questão e as dificuldades estratégicas. Blair, a desde 1997 e ter vasta experiência em pareceu em bevecido. Im pressionou-m e que Clinton desfiasse ao Prim eiroMinistro, nom e por nom e, as pessoas dos dois lados que lhe seria útil procurar. No dia seguinte tom ei café-da-m anhã com Blair. Ele estava com atenções voltadas para a questão israelense-palestina, m as tam bém se declarava preocupado com a existência de arm as de destruição em m assa no Iraque (que tropas am ericanas e britânicas invadiriam em m arço de 2003; as arm as, com o se sabe, não foram encontradas). Deixei com Blair o texto do discurso que faria dias depois, sólido aliado dos EUA, na Assem bléia

despeito de estar no poder assuntos internacionais, m e

Nacional da França. Blair fala francês, e provavelm ente não terá gostado do texto, em que eu m encionava que um eventual ataque ao Iraque poderia ser fonte de terrorism o.

Por ocasião daquele fim de sem ana em Chequers, Blair j á estivera, m eses antes em j ulho - no Brasil. Era a prim eira viagem de um Prim eiro-Ministro do Reino Unido à Am érica Latina. Até então ele não tinha idéia do que realm ente é nosso país. Insisti para que realizasse a visita, im portante para as relações bilaterais, e Clinton reforçou, dizendo-lhe a m esm a coisa. Percebi o quanto o im pressionou o Brasil após visitar Brasília, São Paulo e, no Paraná, a hidrelétrica de Itaipu e as cataratas do Iguaçu, diante das quais ficou extasiado. Pareceu-m e claro que seu interesse por nossos assuntos e problem as aum entou depois da visita. Durante m eu governo, Blair m anteve relação m uito positiva com o Brasil. Conseguim os nos relacionar não só respeitosam ente com os líderes das grandes potências, m as fazê-lo com certa naturalidade. De todo m odo, confesso que passar duas ou três noites no Palácio de Buckingham , com o nos ocorreu em 1997, m exe com o im aginário. Não pelo palácio propriam ente dito. Buckingham , tam bém um m useu, é grande, com pédireito alto, forrado de quadros e tapetes, em bora um tanto desaj eitado. Mas im pressiona, sem dúvida, em bora sej a gesto natural e decorrente do protocolo ver a Rainha, solícita, a m ostrar-nos os aposentos em que ficaríam os hospedados, cham ados "do Príncipe Albert", no térreo. Am plo salão, quarto de dorm ir e de vestir, banheiro, saguão, corredores e um a piscina grande, que serve a todo o palácio. Da m esm a form a o que se deu no dia seguinte, quando o Príncipe Philip nos veio buscar para que o acom panhássem os ao andar de cim a. Lá, Elizabeth II nos apresentou um por um a m ais de um a dezena de seus parentes e, em seguida, saím os em cortej o, antecipados por dois gentis-hom ens que não podiam dar-nos as costas e que entravam solenem ente no enorm e salão de banquetes, à passagem do qual as cerca de duzentas pessoas que lá estavam faziam as m esuras de praxe a Sua Maj estade.

O salão de banquetes tinha um m ezanino ao fundo onde ficava um a orquestra. À m esa (com serviço de verm eil), circundado pela soberana e pela Rainha-m ãe, tam bém Elizabeth, vendo em outra m esa o então j ovem e recém -eleito Tony Blair, ouvi a Rainha - toda engalanada com

as fam osas águas-m arinhas que Assis Chateaubriand lhe dera quando em baixador do Brasil em Londres, e que de tão num erosas serviam de adorno para o colar, as pulseiras, os brincos e até m esm o a tiara - tecer loas ao Brasil que renascera. Respondi-lhe m ais sobriam ente, m eio desaj eitado na casaca alugada, cuidando para que a condecoração real que atravessava m eu peito em faixa verm elha não despencasse sobre o texto que eu lia. Tudo isso, no entanto, em bora form al, se desfez no ar pela graça da Rainha-m ãe. Com o presente oficial, eu lhe oferecera um pássaro de pedras brasileiras e bico prateado - esses discutíveis presentes que nossa avareza de m eios im põe com o se de preciosidades se tratassem . E ela se entusiasm ou com o nom e que atribuí ao pássaro. Perguntado sobre com o se cham ava, respondi de pronto, do fundo de m inha ignorância:

- Jaburu, m adam e.

Ela repetia com delícia, trocando o u por a, o nom e daquele pássaro im aginário. Marcou-m e tam bém naquele j antar a acuidade da Rainha Elizabeth a m e contar suas recordações de prim eiros-m inistros com quem lidara, de Churchill (1940-1945 e 1951-1955) a Blair, passando por Margaret Thatcher. A respeito de Thatcher, ela em itiu um com entário surpreendente para quem im agina a Rainha m antendo absoluta contenção sobre tem as políticos: a Prim eira-Ministra (que governou por onze anos), opinou, talvez tenha perm anecido tem po dem ais no cargo... Contraponto necessário: um a determ inada m anhã eu deveria visitar um clube de futebol. Para fazer-m e com panhia chegou a Buckingham m eu m inistro de Esporte, Pele. Aí, sim , houve alvoroço. Se é de bom -tom apresentar os principais serviçais a hóspedes ilustres, no caso de Pele não houve nada disso: m om entaneam ente abandonada a fleugm a britânica, houve corrida desabalada de todos quantos por lá estavam , dos roy als aos em pregados da cozinha, dos m ordom os às dam as de com panhia. Todos queriam um autógrafo ou um a foto com o "Rei" urbi et orbi. Disselhe, brincando:

- Pele, enquanto eu for Presidente você nunca m ais viaj ará com igo, sob pena de eu virar parte hum ilde do cortej o de Vossa Maj estade universal...

A criatividade do povo é o fundam ento da grandeza Por fim , um a palavra sobre a França. As relações com o Presidente Chirac nunca deixaram de ser m uito positivas, produto de nossos vários encontros. Com ele estive inclusive na Guiana Francesa, oficialm ente um a extensão do território francês. Lá, lem bram os que a m aior fronteira da França é com o Brasil: os 700 quilóm etros ao longo dos quais o Am apá se encontra com a Guiana. Nossos governos discordam em pontos im portantes sobre o protecionism o agrícola. As convergências, no entanto, são m uito m ais num erosas. Isso ocorreu tanto entre 1997 e 2002, quando o Prim eiro-Ministro era Lionel Jospin (com quem voltei a m e encontrar em Florença, no âm bito da Terceira Via, m ais de vinte anos depois de um j antar em m inha casa em São Paulo, sendo na ocasião Jospin dirigente do Partido Socialista e eu senador), com o em fases em que as cores políticas eram m enos averm elhadas. Os interesses entre países saltam diferenças partidárias. Meu trato com am bos, Chirac e Jospin, perm itiu, quando necessário, que, adem ais dos contatos pessoais nas visitas oficiais m útuas, nunca hesitássem os em usar o telefone para resolver dúvidas ou pedir aj uda. Isso aconteceu, por exem plo, em 1996, quando o leilão de privatização da Light, em presa distribuidora de eletricidade do Rio de Janeiro, chegava à beira do fracasso por falta de com pradores (consideravam o preço alto dem ais e não queríam os vendê-la pelo m enor lance - de igual m odo com o procedem os para valorizar a venda das teles)

e insisti com Chirac para que os franceses participassem . Mas inegavelm ente, do ponto de vista sim bólico, o m om ento culm inante no relacionam ento com a França durante m inha Presidência foi o convite que recebi da Assem bléia Nacional para, a 30 de outubro de 2001, dirigir-m e aos deputados. Lá estavam presentes, com Jospin, dois ou três ex-prim eiros- m inistros e m uitos parlam entares. Pronunciei discurso duro contra o protecionism o e apelando à paz por causa dos acontecim entos posteriores ao 11 de setem bro nos EUA. Discurso que, se repercutiu bem na França, desagradou a setores do governo am ericano. Não se pense que a presença brasileira crescente se faz só pela diplom acia e pelos laços económ icos. Fiquei im pressionado pela acolhida que a Assem bléia francesa m e dispensou, m as igualm ente pela presença de Ronaldinho Gaúcho entre os convidados para o coquetel posterior ao discurso, À sua chegada - não pude deixar de m e lem brar de Pele em Buckingham -, cessaram de cantar as antigas m usas. Deu-se um esbaforido corre-corre tirar fotografias - não com igo, chegado então há apenas alguns m eses na França para atuar na equipe do Paris Saint Germ ain, j á era ídolo, sem m encionar que j á arranhava um francês digno de respeito. E isso que acontece com Ronaldinho Gaúcho, com Pele e com os grandes craques, com o Ronaldo, repete-se com nossos m úsicos e artistas. A força de um país não se lim ita à de suas arm as, de sua econom ia ou de seu talento diplom ático. A criatividade de seu povo é o fundam ento da verdadeira grandeza. Palavras finais

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Escrevi este livro nos últim os dois anos e m eio, esparsam ente. Com ecei-o em Providence, no estado de Rhode Island, nos EUA, onde fica a Universidade de Brown, na qual trabalho durante parte do outono am ericano. No m ais das vezes, trabalhei em m inha casa em São Paulo, entre um a e outra atividade, um a e outra viagem , para cum prir m inhas obrigações nacionais e internacionais. Pude dar-lhe im pulso m aior nos três m eses que passei, no com eço de 2004, no Krueger Center da Biblioteca do Congresso, em Washington, e o retom ei tanto em 2004 com o em 2005 no Watson Institute for International Relations de Brown. Reli-o nas últim as sem anas de dezem bro de 2005 e nas prim eiras de 2006. Escrevo estas palavras finais entre um a palestra em Oxford, a Olof Palm e Lecture, e um a reunião em Genebra, na qual estam os discutindo o futuro da Conferência das Nações Unidas sobre Com ércio e Desenvolvim ento (UNCTAD), organização criada na ONU sob a inspiração do econom ista argentino Raul Prebisch - que foi seu prim eiro diretor-geral

- para que os países "do Sul" pudessem se organizar para fazer frente aos "do Norte", entrincheirados no Acordo Geral sobre Tarifas e Com érico (GATT) e m ais tarde na OMC.

Confesso que ao relê-lo senti um a certa decepção. Decepção que não advém da insuficiência das descrições e análises que fiz para resum ir o esforço despendido com afinco para m elhorar o Brasil, nem de im aginar que nada m udou. Valeu o esforço. Por outro lado, as condições atribuladas nas quais trabalho, se não j ustificam , explicam as insuficiências m encionadas. O que m e decepciona é ver o tem po que custou para o país obter os resultados que alcançam os, tão longe ainda do necessário. Por m ais que tivéssem os feito, por m ais que o Brasil tenha m udado, o m undo não parou e, olhando em volta, fica-se sem saber o grau de avanço relativo.

Nos anos 1970 e 1980 perdem os a corrida com os "Tigres Asiáticos". entre políticos franceses e convidados para

obviam ente, m as com nosso craque que, Dizíam os que eles eram m eras plataform as de exportação e nós dispúnham os de um enorm e m ercado interno, confundindo população com capacidade de com pra. E agora, perderem os novam ente na com paração com a

índia e a China? Fosse só a perda de posição no ranking do poder ou do crescim ento da econom ia, e eu não sentiria tanta ansiedade. Mas o que se perdem são chances de m ais gente ascender à escola, ter m elhor atendim ento na saúde, obter m ais e m elhores em pregos e ter m aior capacidade para tom ar decisões verdadeiram ente livres, porque com m ais opções. Essa sensação de ficar para trás, prej udicando tanta gente, deixando que os bolsões de pobreza m aterial e espiritual sufoquem os avanços conseguidos, provoca em m im , depois da decepção, indignação. Dava para ter liberado m ais depressa o país das am arras de um passado que, se teve seus m om entos de brilho, hoj e funciona com o lanterna na popa. Pior, m antendo a pretensão de ser o farol do futuro. O futuro depende de m elhor organização da sociedade e do governo, de m ais criatividade, m ais e m elhor educação, m ais ciência e tecnologia, m enos privilégios, m ais com petição apoiada no m érito, m ais avaliação, m ais coragem para m udar. E, sej am os claros, m ais decência na vida pública, m ais Justiça, m enos corrupção e m ais segurança para as pessoas. Com o é possível falar em alargam ento da cidadania sem tudo isso? E, por acaso, para falar em dem ocracia basta o direito de votar, m esm o que não haj a proxim idade entre eleitor e representante, nem cobrança pelo eleitor da conduta dos representantes que os penalizem , afastandoos nas eleições subseqüentes? A indignação vem de olhar o passado recente e ver que os personagens hoj e no poder (pessoas, partidos, forças sociais) resistiram a toda inovação para m elhorar o Brasil e agora alardeiam com o feito próprio o que brotou das raízes que tanto fizeram para im pedir que vingassem .

Quanto tem po perdido pela cegueira ideológica, pela falta de hum ildade para aprender a m anej ar as políticas públicas e para entender a sociedade. Confesso candidam ente m inha decepção. Depois de haver construído um a transição de governo que abriu espaço para um a convergência em benefício do país, colhem os novam ente dos que se arrogavam ser a expressão m áxim a das virtudes públicas e portadores do futuro a pecha de "adversários", quando não de "inim igos". Diante da enorm idade do esforço feito pela sociedade e por m eu governo para aj ustar o país aos novos tem pos, esforço que, m esm o capengando, teve continuidade no governo que m e sucedeu, não teria sido possível e m ais construtivo ter-se aberto um diá

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logo nacional, em vez de colher apoios no balcão da indignidade com pagam ento à vista?

Não adianta chorar sobre o leite derram ado. Que pelo m enos o travo da desilusão que não é só m inha, é de gregos e troianos - não im peça desenhar um cenário m elhor para o futuro. Se até agora não soubem os j untar m ais forças para estarm os à altura dos desafios que o país precisa enfrentar (eu, em bora tenha tentado, aqui e ali, ultrapassar a barreira tradicional entre governo e oposição, não m e em penhei com a obstinação e a hum ildade necessárias, e m inha voz não ultrapassou a zoeira dos arautos do passado), olhem os para frente com m ais disposição de fazê-lo. Não nos enganem os, o desafio não será apenas o de consolidar as transform ações, por assim dizer, m ateriais da sociedade e do povo. Para consolidá-las sabem os que falta deslindar a arm adilha dos j uros altos, da dívida interna que cresce a golpes de esbanj am ento Previdência; investim entos interno e externo para expandir a riqueza e o m ercado de trabalho. O país clam a por m ais igualdade e m elhor distribuição da renda, com elevação do piso do ganho dos m ais pobres, processo que não se constrói no curto prazo e requer um a sofisticada com binação de políticas que se m antenham no tem po. Porém , é preciso m ais do que isso: a alm a do país está acabrunhada. Vaga sobre as construções m ateriais e institucionais sem acreditar em um destino com um que aproveite a todos.

Convém voltar às palavras de Weber: a política requer perspectiva e paixão. Não basta cantar os louros do progresso m aterial, das exportações, das m igalhas em que se transform aram as iniciativas de prom oção social. É preciso m uito m ais para renovar as esperanças. Não que eu descreia de um povo que é capaz de renovar sua cultura, suas artes, seus esportes e assim é capaz de se refazer. Nem , portanto, que o pessim ism o m e abata. Não; m as a crença, a paixão por reconstruir, por abrir novos cam inhos, deverá vir acom panhada por um a perspectiva realista à qual as pessoas possam se agarrar porque acreditam e porque vêem no cam inho a ser percorrido os benefícios que podem colher. Os m otores j á instalados na econom ia são poderosos. Á capacidade técnicointelectual das universidades, centros de pesquisa, organizações em presariais (na indústria, nos serviços e no agronegócio) e até m esm o

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de recursos públicos com

será preciso aum entar a despesas correntes e descontrole na poupança dom éstica e atrair m ais

em agências públicas perm ite a adaptação progressiva do país à ordem global. Com o m ostrei neste livro, fortalecem os as instituições e há liberdade. Form ou-se um a opinião pública m ais livre e as pessoas, cada vez m ais, se inform am , buscam decidir por conta própria e lutam por m elhorar suas vidas. A m obilidade social e geográfica continua caracterizando o país. Contudo, a velocidade do processo é insatisfatória. Persistem níveis de pobreza e de falta de acesso à cultura (não é só o analfabetism o funcional que form a um a barreira; tam bém o gap tecnológico é fatal nas sociedades da inform ação). É para superar esses obstáculos que precisam os criar um a nova coalizão, que tenha abrangência não apenas política, m as sociocultural e que j unte os que crêem ser possível convergir para alcançar obj etivos com uns. E saibam com o lográ-los. O prim eiro obj etivo para restabelecer a confiança nas pessoas é a dim inuição da distância real e em ocional entre quem m anda e quem obedece. É preciso reconstituir os fios de legitim idade do poder. Nada m ais alheio ao realism o do que propor um a vasta e única reform a política salvadora. Talvez essa sej a a área que m ais requer um a m udança increm ental. Quem sabe um "curto-circuito", com o eu caracterizei as m udanças das pequenas coisas que produzem resultados em cadeia trazendo grandes conseqüências, ou, com o m odernam ente se cham a, um a reform a que toque nos ttpping points, rom pendo os pontos de equilíbrio. Por exem plo, estabelecendo o voto distrital m isto para as eleições dos vereadores nas cidades com m ais de 200 m il eleitores. Provada valiosa a experiência, ela se estenderia às eleições dos deputados.

Senão, algum a experiência com a utilização de um a lista fechada de candidatos, ordenada pelo partido, elegendo-se de form a progressiva o núm ero de candidatos correspondente proporcionalm ente aos votos dados à legenda e não a cada candidato individualm ente, dando-se aos eleitores, talvez, a possibilidade de m udar a ordem estabelecida pela direção do partido. Em qualquer caso, é indispensável com plem entar essas inovações com m edidas que reduzam o custo das cam panhas, com o as j á aventadas, de não perm itir a produção m arqueteira dos program as de TV nem o uso de brindes eleitorais. Nada disso "salva" por si a dem ocracia nem a decência, processo que depende m ais de valores m orais do que de regras eleitorais. Mas dim inui no eleitor - o que hoj e é indispensável - o sentim ento de que, ocorra o que ocorrer, o escândalo que for, nada m udará 676

nem ninguém será punido e que entre ele e o representante não há liam e de responsabilidade recíproca.

O outro aliciente da descrença nacional é o sentim ento de im punidade. Tanto se fala em reform a do Judiciário e tão pouco se faz para alterar os códigos de processo para dar m ais facilidade de acesso à Justiça, tornála m enos custosa e m ais rápida. Há, sem dúvida, experiências bem -sucedidas, com o os j uizados de pequenas causas, a inform atização de certas varas j udiciais, os esforços de tribunais e j uizes para um a m ais rápida e eficiente prestação j urisdicional. Os entraves legais, entretanto, os loopholes, as lim inares j am ais j ulgadas e a boa e cara advocacia podem postergar quase indefinidam ente as decisões. Sem que se rem ovam esses obstáculos, com o pode o cidadão com um acreditar na Justiça? Pelo contrário, achará, com razão, que a im punidade é a m ãe dos ricos e poderosos.

E em que Justiça pode crer o hom em da rua, se nem na polícia, que é prévia àquela, ele pode confiar? Estam os com o avestruzes, não querendo ver o que todos vem os: a droga, a corrupção e a violência estão de m ãos dadas e algum as dessas m ãos recebem , além do butim advindo do crim e, o cheque do dinheiro público. A segurança das pessoas, principalm ente do pobre que não dispõe de recursos para pagar segurança privada (esta tantas vezes acum pliciada com o crim e) tornou-se questão prioritária.

Questão de direito hum ano fundam ental, o direito à vida. Tam pouco nessa m atéria há grandes soluções salvadoras. Mas é preciso com eçar por enfrentar a descoordenação das polícias - as m ilitares com as civis, as m últiplas agências burocráticas em que essas se dividem - e dos vários níveis da adm inistração, pois constitucionalm ente a segurança pública depende de cada governo estadual e não do federal, enquanto o com bate às drogas e a guarda das fronteiras ao plano federal (Polícia Federal e repartições aduaneiras). A com unicação entre elas é precária, faltam guardas m unicipais nas cidades e a cada m om ento se im agina que as Forças Arm adas deveriam se ocupar do crim e organizado, principalm ente do narcotráfico. E m orrem no nascedouro inovações m ais adequadas, com o a criação de um a Guarda Nacional m ilitarizada, federal, que pudesse com bater com m ais eficácia o crim e organizado quando este, pela via da corrupção e da violência, desm oraliza a autoridade do Estado e cria "zonas livres" nas favelas, nas periferias das grandes cidades ou m esm o em zonas fronteiriças. "77

Mas quem ainda tem a santa ingenuidade de im aginar que é possível com bater o crim e organizado e a dissem inação do uso de drogas aos golpes de repressão? Sem m uita inform ação, serviços adequados de inteligência que se com uniquem , sem controle da lavagem de dinheiro e, sobretudo, sem m obilização social que os previna e aj ude a com bater, o crim e e a droga são im batíveis porque organizados em redes m ais eficientes do que as de que o Estado dispõe. Quando a isso se som a a indulgência de segm entos da sociedade e da vida política com o crim e e a droga, esses se tornam quase inexpugnáveis. Essa é m atéria típica de reconstrução m oral do país, que requer a cooperação de quase todos e precisa ser tratada acim a das lutas partidárias. Chegam os ao ponto nevrálgico. Um a nação Sendo dem ocrática, com um a m ultiplicidade de haver conflitos entre eles, desde que não atinj am o fundam ental estatuído na Constituição. Qualquer proj eto de reconstrução social, económ ica ou m oral independe da idéia autoritária e antiga de "proj eto nacional” nascido na cabeça de intelectuais aninhados em algum aparato de poder. Ele deve nascer da livre cooperação, do debate, com ou sem consenso, que se estabeleça a cada m om ento no entrechoque de opiniões e interesses da própria sociedade. Nesta estão incluídos naturalm ente o Estado e as organizações económ icas, bem com o as fam ílias, os interesses regionais, os das associações voluntárias, leigas ou religiosas, profissionais, políticas etc. O sentim ento nacional nas sociedades m ais tradicionais depende da ação das fam ílias, das religiões e do Estado.

Nas m ais dinâm icas, plurais e dem ocráticas, além desses agentes de m anutenção e transform ação da ordem social, as em presas, os partidos e a "opinião pública" j ogam papel decisivo. A escola fornece o m olde cultural básico, sobre o qual as outras organizações e instituições atuam para refundir as crenças e as práticas. Daí a im portância, nas dem ocracias, do sistem a público de ensino, com plem entado, m as não substituído, pela escola privada laica ou confessional. Em geral a busca de cam inhos novos se faz procurando, o quanto possível, desenvolver laços com o patrim ónio histórico-m oral da nação e a escola é o cadinho dessa fusão. Em nosso caso, a fam ília vem perdendo a capacidade de ser a unidade fundam ental de form ação e m anutenção de m odelos culturais. A m obilidade social e geográfica, som ada à condição de pobreza de m uitas fam í l

se form a com valores. valores, podendo m esm o

lias, à tendência da fam ília a ser unipolar (geralm ente chefiada pela m ãe) e ao fato de os laços estáveis entre os casais durarem em m édia relativam ente pouco tem po, dim inuem a capacidade dessa instituição para servir de base da coesão social. A inevitável inversão de influência entre as gerações, pois é m ais fácil a absorção das técnicas m odernas de adaptação às m udanças e de estilos de vida pelos m ais m oços, torna a fam ília tradicional um agente m enos ativo na m anutenção e difusão dos valores.

A própria religião vem perdendo a capacidade de socializar seus seguidores de form a m ais am pla, A religião predom inante, a católica, há m uito tem po restringiu seu papel na educação. Seus segm entos m ais dinâm icos passaram , é verdade, a ter im portante função na am pliação da consciência social e m esm o na organização do protesto popular. Mas a Igrej a com o um todo perdeu força com o agência propulsora de um m odelo de vida de alcance sobretudo as pentecostais, guardam , é socializador, principalm ente j unto às cam adas m ais pobres e m enos integradas à sociedade. Dão a seus crentes acesso a setores sociais, localizados m uitas vezes em estratos m ais altos da hierarquia social. Funcionam segm entadam ente com o fator de coesão e de integração social, m as tam bém sem perspectiva nacional. nacional. As religiões reform adas,

certo, im portante papel Quando se olha para a dinâm ica da sociedade brasileira com perspectiva realista, é fácil perceber que o dia-a-dia das pessoas encontra no trabalho, e m ais significativam ente no trabalho organizado na em presa ou no Estado, o m olde que orienta o uso do tem po, form a a disciplina, dá a expectativa de m elhoria (ou não) de vida, define as form as de conduta aceitáveis, os m odelos culturais e sociais. A esses agentes de socialização se som a a influência difusa, m as im portante, da m ídia, e, m ais especificam ente, a da TV. Quase toda inform ação que chega às m assas populares vem dos boletins inform ativos. As telenovelas, de outro lado, têm enorm e poder de dissem inação de m odelos de com portam ento e m esm o de suscitar a discussão de tem as im portantes e controversos.

Dessa form a, na m edida em que a instituição escolar se desorganiza, o país fica cada vez m ais à m ercê da capacidade de o m ercado e o Estado gerarem m odelos de conduta. Convenham os que para a form ação de um a sociedade dem ocrática isso não só é insuficiente com o chega a ser perigoso. Qual o cim ento, por assim dizer, que nos unirá com o nação? Em que m oldes se form ará, abusando de expressão antiquada, nossa alm a popu 678

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lar? Ela só aparecerá quando nos unirm os na torcida pelos cam peonatos m undiais de futebol (e ainda bem )? Ou prezam os e estam os dispostos a reforçar outras form as m ais com plexas e dem ocráticas de m anter a coesão nacional? Não teria sentido esperar que no m undo atual os m oldes das antigas com unidades sirvam de base para as com unidades nacionais com plexas. O estar fisicam ente j untos, a relação face a face dada pelas circunstâncias do nascim ento em um m esm o lugar e de falar-se a m esm a língua não são fatores suficientes nas sociedades contem porâneas para definir o sentim ento de pertencim ento à nação. As forças desagregadoras da sociedade tradicional m encionadas anteriorm ente atuam com presteza e quando não se criam form as novas de coesão, a anom ia de segm entos sociais am plos é quase inevitável. Há um elem ento de volição, de deliberação, e m esm o de cognição na definição do que significa ser m em bro da m esm a associação nacional. É preciso querer estar j unto culturalm ente, e não apenas, com o no passado, viver de fato um a situação de proxim idade, até porque as redes de interação m ediadas pela com unicação eletrônica fornecem outros m eios para o "estar j unto”

m oderno.

A escola é a agência fundam ental para que a renovação das form as de socialização transcorra dem ocraticam ente. Só a escola pública, de acesso universal, não dogm ática nem confessional, pode com plem entar a fam ília, a religião, o partido, a em presa e o Estado, evitando que o particularism o da visão de cada um a dessas agências absorva todas as dim ensões da vida. E a escola com o instituição está em crise, com dificuldades para gerar m odelos de conduta. No reencontro de perspectivas a que m e refiro é fundam ental dar prioridade m áxim a à educação em todos os seus níveis. Prioridade para o ensino fundam ental, valorizando socialm ente o professor ou a professora, pois sem a m elhor qualificação do corpo docente e sem m elhores salários não haverá reform a que se enraíze. Prioridade, sobretudo, ao conteúdo do ensino para m elhor capacitar o cidadão e a pessoa na busca de aperfeiçoam ento profissional e hum ano. É preciso voltar à concepção da escola com o base da socialização dem ocrática, com o locus de privilégio para o aprendizado das opções culturais e não com o m áquina de inculcar m oldes únicos nos alunos. Os econom istas j á cansaram de repetir que a m elhoria da renda depende do grau de escolaridade e, portanto, que pobreza tam bém se com 680

bate com m ais escola e não só com m ais em pregos. E j á sabem os que a sociedade do futuro será a sociedade da inovação e do conhecim ento, e que, portanto, a m odernização da escola profissional e a reform ulação da universidade são fundam entais para o desenvolvim ento do país com o um a sociedade contem porânea. Não terem os acaso a capacidade de convergir no obj etivo de reestruturar as instituições educacionais brasileiras, dando-lhes condições para cum prir seu papel no prazo, digam os, de vinte anos? Bastam as referências feitas neste epílogo aos poucos tem as a que aludi para j ustificar a necessidade de um a convergência de propósitos que nos perm ita sair da letargia em que nos encontram os em áreas tão sensíveis às pessoas e tão fundam entais para avançarm os m ais depressa na busca de um a sociedade m elhor. Um a palavra final para enlaçar com o capítulo inicial deste livro. Cam inhadas novas requerem líderes. Líderes dem ocráticos e inovadores são líderes m orais, que podem ser tam bém políticos. Não são heróis nem super-hom ens, e m uito m enos santos. São pessoas capazes de apontar cam inhos e dar exem plos. Sem ir m uito longe na História: Uly sses Guim arães foi um desses líderes na luta pela dem ocratização. Teotônio Vilela, quando entrou à força em um a prisão para pregar a anistia, não fez outra coisa. O cardeal Paulo coragem de falar contra a tortura, m ostrou direitos hum anos. Antes deles, os que deram suas vidas na tortura por causas nas quais acreditaram , sem que eu as endosse ou j ulgue, são outros tantos exem plos. Dom Helder Câm ara, que fora integralista, soube converter-se à causa dos pobres e da j ustiça social, e outra coisa não fez Betinho ao proclam ar a prioridade para o tem a da fom e. Mesm o Lula, antes de se envolver nas paixões partidárias e de se perder nos escaninhos entre o poder e suas facilidades, m ostrou com o os trabalhadores podiam resistir ao regim e autoritário.

Se houve no passado recente quem em punhasse as bandeiras da reform a, da dem ocracia e do progresso, não faltará quem possa olhar para a frente e levar adiante as transform ações necessárias para restabelecer a confiança em nós m esm os e no futuro desse grande país. São m eus votos. fim do livro

Evaristo Arns, quando teve a um cam inho da luta pelos

COORDENAÇÃO EDITORIAL

Ricardo A. Setti

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Rio de Janeiro 2006

COPYRIGHT (c) Fernando Henrique Cardoso, 2006 CAPA Leonardo laccarino

FOTO DA CAPA Júlio Bittencourt / Valor Económ ico l Agência O Globo FOTO DA QUARTA CAPA Cristiano Mascam Para Ruth CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO-NA-FONTE EDITORES DE LIVROS, RJ SINDICATO NACIONAL DOS DOS

C262a A arte da política: a história que vivi / Fernando Henrique Cardoso; coordenação editorial: Ricardo A. Setti. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

ISBN 85-200-0735-X

1. Cardoso, Fernando Henrique, 1931- . 2. Ciência política. 3. Brasil - Política e governo, 1995-2002.4. Brasil - Política económ ica. 5. Brasil - Condições sociais. 6. Reform a m onetária - Brasil. 7. Estabilização económ ica - Brasil. I. Título. 06-0545

CDD 320.981 CDU 32(81)

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