A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 9 de 9 · parte 2/4

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A arte da política: a história que vivi

Institutos do Milénio, foram iniciativas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Encontrei-o em seu gabinete de trabalho, o Oval Office, local que conhecia do tem po de Clinton. Ele m e esperava em pé, cum prim entou-m e e m ostrou-se m uito afável, em bora sua linguagem corporal - a form a um tanto rígida de m ovim entar-se e de andar, e algo nos olhos, talvez um leve estrabism o - , lhe confiram , à prim eira im pressão, um ar de certa arrogância, de certo distanciam ento. A conversa revelou um hom em diferente: inform al, risonho, am igável. Quando a im prensa entrou para nos fotografar, ao fim da reunião, sentados lado a lado em duas poltronas, tirei os óculos e m irei fixam ente nele, com o a m ostrar que a conversa fora franca e eu não tinha nada a esconder. Bush, àquela altura, não tinha m uitas inform ações sobre o Brasil. Sabia m ais sobre o tem a de sua obsessão, energia. Estava bastante ciente da questão quanto à Venezuela e ao México, grandes produtores de petróleo, m as parece ter-se surpreendido e ficou agradado quando lhe disse que nós éram os praticam ente autosuficientes. Chegou a com entar com igo, tam bém , sua posição favorável à controvertida exploração de petróleo no estado norte- am ericano do Alasca, espécie de santuário da vida selvagem , apesar dos efeitos sobre o m eio am biente.- O m undo precisa de um m otor - consom e petróleo. v

Mostrou-se um tanto ansioso com début internacional e tinha preocupações de que o presidente da Venezuela lhe pudesse ser hostil. Disse-lhe que m antinha boas relações com Hugo Chávez e que não acreditava que ele tivesse tal propósito. Em todo caso, acrescentei, eu teria um encontro em Brasília com o Presidente Chávez e lhe faria a ponderação. Cum pri o prom etido. Expus a Chávez a opinião de que, se ele fosse cortês, desarm aria o interlocutor, m esm o porque não acreditava que o Presidente da Venezuela viesse a ser agressivo com o Presidente norteam ericano, Chávez respondeu-m e, sorrindo m atreiro:-Você m e conhece. Eu sou ardoroso. Quando, nas reuniões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com eço a m e entusiasm ar, o sultão de Qatar, que é m eu am igo, tem um a com binação com igo: olha para m im com as m ãos postas perto do rosto, em form a de oração, e eu m odero m inha fala, antes de proclam ar a República nas m onarquias árabes. E acrescentou:

-Vam os fazer o m esm o em Québec.

Na cúpula hem isférica, coube-m e fazer o discurso de abertura. Transm iti um a m ensagem clara e firm e: "A Alça será bem -vinda se a sua criação for um passo para dar acesso aos m ercados m ais dinâm icos; se efetivam ente for cam inho para regras partilhadas sobre anti- dum ping, se reduzir as barreiras não-tarifárias; se evitar a distorção protecionista das regras sanitárias; se, ao proteger a propriedade intelectual, vier a prom over, ao m esm o tem po, a capacidade tecnológica de nosso povo. E, adem ais, se for além da Rodada Uruguai [de negociações com erciais

e corrigir as assim etrias então cristalizadas, sobretudo na internacionais]

área agrícola.” Quando term inei o discurso sob os aplausos dos m ais de m il presentes, Hugo Chávez saltou da fila em que se encontrava atrás de m im , aproxim ou-se da cadeira para onde eu voltava saudou efusivam ente. ressaltou. E esse m otor, os EUA,

a reunião de Québec. Seria seu

para sentar-m e e, com as m ãos em sentido de oração, m e

Nós, latino- am ericanos, podem os até não ser bons negociadores, m as não perdem os o senso de hum or. E Chávez, naturalm ente, não fez qualquer desaire ao Presidente am ericano. Em alm oço inform al, quando expunha ardorosam ente suas

reivindicações frente aos EUA, o Presidente uruguaio Jorge Batlle, hom em de espírito e tam bém com sentido de hum or, disse, dirigindo-se a Bush:- Presidente, as reivindicações do Uruguai são poucas. Querem os apenas ter nos EUA tantos açougues quantos os postos de gasolina que a Venezuela tem . Todos riram , dada a m ercado am ericano e ao do Uruguai. A reação do Presidente m andato, pelo m enos durante aqueles dois dias em Quebec, foi a de um hom em sim ples, pouco pom poso, que queria entender um m undo que lhe era estranho. Nos dois anos em que nos relacionam os com o presidentes, falam os pelo telefone algum as vezes. Um a delas foi para aj udarlhe a entender a política na Argentina, logo depois da posse do Presidente Eduardo Duhalde, no com eço de 2002.4 Sem pre tratei de valorizar nossos vizinhos, àquela época considerados, notadam ente pelo FMI, com o parceiros que não cum priam os acordos. Bush, entretanto, não se interessou tanto pelas observações que lhe adiantei pelo telefone sobre a tradição dos caudillos portenhos ou sobre os vezos peronistas. Tam bém não quis entrar em detalhes da situação económ ica, que lhe esbocei em linhas gerais. Bem a sua m oda texana m e perguntou:- Mas, olhando olho no olho, com o é ele? How is theguy ? ["com o é o cara?"] Dá para confiar nele?

Não sei j ulgar as pessoas dessa exata form a, por esses critérios. Respondi dizendo que Duhalde era um político experiente, com tradição, e que certam ente faria um grande esforço para tirar a Argentina da crise. 4 Duhalde foi eleito Presidente pelo Congresso argentino no dia 1° de j aneiro de 2002 para governar até 10 Presidente Fernando de Ia tradicional União Cívica Radical, de centro, m as aliada a correntes de esquerda, e que renunciara após um a série de protestos populares contra sua política econôm ica. A Argentina viveu dias dificílim os, com três governos interinos e a discussão sobre a antecipação ou não das eleições diretas do ano seguinte, até que se chegou à escolha pelo Congresso de Duhalde, político cuj a longa traj etória no peronism o incluiu ter sido senador, governador da província de Buenos Aires e Vice-Presidente de Menem .

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grande presença da gasolina venezuelana no fato de a carne ser o m aior produto de exportação

Bush a seus colegas hem isféricos, m al iniciado seu de dezem bro de 2003, com pletando o m andato do Rua, eleito por um a coligação capitaneada pela

É assim sua percepção política, m uito direta, vendo m ais as pessoas do que as circunstâncias. Tam bém eu telefonei para ele em algum as ocasiões, com o quando expressei a solidariedade dos brasileiros após o pavoroso atentado de 11 de setem bro de 2001. Elogiei seu gesto de visitar um a m esquita em Washington, pois não havia que confundir terrorism o com a religião m uçulm ana.5 Eu m e lem brava do espanto de Bush quando lhe falei, na visita a Washington, do grande núm ero de brasileiros de origem árabe, e cabia portanto recordar naquele instante nossa visão de tolerância cultural e religiosa. Naquela m esm a conversa Bush se m ostrou surpreso quando lhe disse que quase m etade da população brasileira era de "não-brancos",

- Mas há tantos negros no Brasil? •- perguntou, no que foi atalhado pela assessora de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, que lhe disse que a m aior população negra fora da África provavelm ente estaria no Brasil. Nada disso foi dito com m enoscabo. É apenas o m odo de sentir de um hom em que até aquela época vivia som ente os problem as de sua gente e de seu país e que teve de aprender depressa com o lidar com o m undo. Àquela altura a despreocupação do Presidente Bush com os assuntos da Am érica Latina era perceptível. (A obsessão pelas questões energéticas logo perderia prim azia para o Oriente Médio entre suas prioridades.) A tal ponto que antes de finalizar nosso encontro cheguei a sugerir-lhe o que m e fora proposto por nosso em baixador em Washington, Rubens Barbosa: que houvesse um a pauta m ais aberta de negociações diretas entre o Brasil e os EUA. Afinal, co-presidiríam os a Alça, o que nos dava um a boa oportunidade para um a revisão positiva do relacionam ento bilateral. As palavras só não caíram no vazio porque Condoleezza Rice disse que a questão precisava ser m ais bem ponderada...

Apesar de nunca term os sido próxim os, as relações de Bush para com igo e para com o Brasil foram discretas e corretas.

5 Após o 11 de setem bro, o Brasil foi o prim eiro país a propor na OEA que se aplicasse aos EUA o Tratado do Rio de Janeiro, de 1940, que considera atacadas todas as nações do hem isfério quando um a delas é agredida. A sugestão m e foi trazida pelo chanceler Celso Lafer e pelo em baixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, secretário-geral do Itam araty, por m otivos óbvios: essa form a de expressar solidariedade dava o enquadram ento j urídico para qualquer ato ou reação. eu

Um fim de sem ana com Bili Clinton em Cam p David

Um fim de sem ana com Bili Clinton em Cam p David 2001) havia tido reações construtivas em relação a essas m atérias. Desde nosso prim eiro encontro com o presidentes, que coincidiu com a tragédia do atentado a bom ba de Oklahom a City, em abril de 1995, recordo-m e bem , Clinton dem onstrou sim patia para com igo e para com o Brasil. Tão logo ficam os sós, sentados às m esm as poltronas j á referidas quando da visita a Bush na Casa Branca, perguntoum e, com a cabeça estendida no encosto:- O que eu posso fazer para aj udar você e o Brasil? E assim agiu sem pre. Quando visitou o país em outubro de 1997, deparam o-nos com um a declaração de Madeleine Albright, restrições à nossa estratégia de fortalecer o negociação da Alça. Não queríam os desfazer um para aderir à outra, até porque, com o disse apropriadam ente o m inistro Lafer, o Mercosul é nosso destino, ao passo que a Alça é um a opção. Tivem os um j antar de gala no Palácio da Alvorada. Depois, durante sarau que prom ovem os especialm ente, Clinton, que j á havia encantado as centenas de pessoas que o foram saudar no Itam araty (a im prensa fizera m uita carga sobre o excesso de segurança dos presidentes am ericanos e ele não se fez de rogado, saltando as linhas de proteção para cum prim entar os convidados), entusiasm ou-se com a cantora baiana Virgínia Rodrigues. (Ele continuou fã de Virgínia. Ainda em 2005, quando o encontraria em um a de m inhas idas para com prom issos nos EUA, fui portador de um CD que a cantora enviou ao ex-Presidente.) secretária de Estado, cheia de

Mercosul enquanto se fazia a Term inada a apresentação, pediu-m e para conhecer os aposentos particulares da Presidência,6 com o ele nos m ostrara os da Casa Branca.

Quan

6 Tam bém o presidente da China, Jiang Zem in, que m uito m e im pressionou favoravelm ente durante sua visita ao Brasil, em abril de 2001, ao final do banquete que lhe foi oferecido no Itam araty m anifestou curiosidade em conhecer o palácio onde m oram os presidentes brasileiros. Levei-o até lá, de m adrugada, quase sem segurança e certam ente sem garçons, o que fez com que Ruth preparasse um chá que ela e eu servim os ao Presidente e um pequeno grupo de assessores. Tivem os longa e proveitosa conversa, inclusive a respeito de um a fábrica da Em braer na China e da intensificação de nossas relações de com ércio.

do estávam os nos aposentos presidenciais privados, com Ruth e Hillary, disse-lhe:

- Am anhã terem os um a conversa form al no Palácio do Planalto. Ao redor de um a im ensa m esa oval (hélas!), um a dezena de m inistros e altos funcionários de um lado e de outro e só nós dois "falando", m elhor, perorando, e disso não resulta grande coisa.

Propus, então, que substituíssem os a reunião por um longo diálogo só entre am bos. Em seguida, faríam os algo breve com o grupo todo. Clinton im ediatam ente aceitou, e a reunião foi m uito significativa. De fato, naquela conversa, além de term os discutido a situação política na Argentina, pois o Presidente Menem estava sendo duram ente atacado e havia alegações de suborno chofre na questão do isoladam ente não nos serviria sequer com o ponto de partida para negociações. Deilhe as razões econôm icas e políticas.

Clinton com preendeu-as e m e perguntou:

- Se eu, na entrevista de im prensa, m anifestar m inha concordância com o ponto de vista brasileiro, isso aj uda?

- Claro que sim - respondi.

Clinton agiu de form a im pecável. Nos j ardins do Alvorada, o Presidente dos EUA apoiou publicam ente o ponto de vista brasileiro sobre a im portância do Mercosul e sua com patibilidade com a futura form ação de um a área de livre com ércio nas Am éricas.

Em um fim de sem ana que Ruth e eu passam os em 1998, j unto com os em baixadores do Brasil em Washington, Paulo Tarso e Lúcia Flecha de Lim a, na casa de cam po dos presidentes am ericanos, em Cam p David, no estado de Mary land, próxim o à capital, tive um a conversa a sós com Clinton, em seu pequeno gabinete com as paredes cheias de desenhos e retratos de Thom as Jefferson, principal redator da Declaração de Independência dos EUA e terceiro presidente do país (1801-1809). Cam p David fica em área ondulada, em m eio a um bosque de grandes árvores. Os hóspedes oficiais e o Presidente hospedam -se em cabanas de m adeira confortáveis, com sala, dois quartos, um estúdio e dem ais instalações. Há um a cabana central, a casa com um , contendo um salão, um a sala de estar m enor, m ais aconchegante, e, subindo um degrau, a sala de j antar.

Contígua à sala de estar, há um pequeno, quase m ínim o, gabinete onde o Presiden

envolvendo altos personagens de seu círculo, entrei de Mercosul. Mostrei-lhe que sem o Mercosul, a Alça te trabalha, e um a am pla sala de reuniões. Conversa m arcante. Nela se revelava o

ser hum ano, culto e com visão da História, preocupado com os países m ais pobres. A certa altura disse-m e:

- Quando nos aproxim am os de um país, de um a nação, precisam os responder a perguntas sim ples e básicas. Por exem plo: qual é seu m aior tem or? Qual seu obj etivo m aior com o nação? Alguns tem em ser invadidos, outros, se desintegrarem , outros as convulsões sociais. Ou então, têm vocação de grandeza, que pode ser expansionista ou não, podem querer civilizatória, e assim por diante. Incitou-m e a que o Brasil tivesse um a participação internacional. No caso, queria m aior envolvim ento do nosso país na situação da Colôm bia, por causa das drogas e da guerrilha, e tam bém do Oriente Médio. Mantive m inha posição: é cedo para um país com tantos problem as internos de pobreza e desenvolvim ento insuficiente, com o o Brasil, aventurar-se por esses m ares bravios. Tam bém procurei dissuadir Clinton, por considerar de j ustiça, de incluir a Colôm bia entre os países não-cooperativos na luta internacional contra as drogas, na classificação anual publicada pelo governo am ericano. (Mais tarde, j á fora do governo, o ex-Presidente colom biano Ernesto Sam per revelouse publicam ente grato por m inha postura em Cam p David.) Mas a intenção de Clinton era inequívoca, desej ava parcerias confiáveis e sólidas.

Durante o j antar participaram tam bém , além dos anfitriões Hillary e Bill Clinton, Ruth e eu e o casal Flecha de Lim a, o assessor de Clinton para assuntos de Segurança Nacional, Sam uel "Sandy " Berger e sua m ulher, Susan, em presária de sucesso. Enquanto Clinton bebia, com o sem pre, sucessivas latinhas de Coca-Cola light, em beveceu-m e o vasto conhecim ento que Hillary dem onstrou da situação da África, seus diferentes países, regim es e problem as. Desfiava nom es de dirigentes, de líderes oposicionistas e de figuras de destaque em vários países. Talvez soubesse m ais sobre a política africana do que qualquer um à m esa - m ais do que eu, certam ente. Hillary, constatei um a vez m ais, é um a m ulher de m arcante personalidade, m últiplos interesses e perm anente curiosidade intelectual. Não é por acaso que, dois anos depois, se elegeria senadora pelo Bestado de Nova York. Clinton, com o disse, achava possível com patibilizar Mercosul e Alça. O Brasil, entretanto, nunca enfrentou realm ente a questão da Alça. O em

l

apenas deixar um a m arca

m ais audaciosa na cena

presariado se divide. Há os que j á estão aptos à com petição externa e a desej am . Há os que, no setor industrial, sabem que as tarifas am ericanas deixam livres de proteção cerca de 70% dos produtos im portados pelo país e, portanto, nada ganham ou perdem com a Alça, ou m elhor, perdem sem ela na m edida em que, em lugar da Alça, m ultiplicam -se acordos bilaterais entre os EUA e os países da Associação Latino-Am ericana de Integração (Aladi), que colocam em xeque as vantagens com erciais que tem os com m uitos desses países. Além disso, dois setores industriais im portantes - o do suco de laranj a e o siderúrgico -esbarram em m edidas protecionistas no m ercado norte-am ericano: o suco em taxas ad hoc, ou sej a, criadas especificam ente para barrá-lo e proteger os produtores am ericanos, especialm ente os da Flórida, e o setor siderúrgico em políticas antidum pingde duvidoso em basam ento técnico. Nossos agricultores são os que sofrem as m aiores restrições com as altas tarifas am ericanas. E há os que tem em a concorrência no setor de serviços, com o se ela j á não existisse. No plano político, partes da esquerda, som adas à Igrej a Católica e ao MST, não têm dúvidas: para eles a Alça significa a anexação pura e sim ples dos interesses brasileiros pelo im perialism o, com o se vivêssem os antes de 1950. E m esm o no espectro político m ais à direita, há quem tem a as conseqüências negativas do acordo para os interesses nacionais. Com o se não se tratasse de um a negociação com ercial e com o se em presários e hom ens de governo fossem incapazes de defender os interesses próprios e os do país, ou, pior ainda, de sistem aticam ente atraiçoá-los. Esses setores chegaram a organizar um plebiscito contra a Alça, j unto com outro sobre o repúdio à dívida externa. Posteriorm ente, j á no governo Lula, substituiu-se a dificuldade crescente em dar passos à frente por um a m udança de postura fundam ental: tanto o governo am ericano com o o brasileiro resolveram colocar de lado o princípio do single undertaking e perm itiram que, de um cardápio de opções oferecido para diferentes tipos de entendim ento, os países selecionassem o que m elhor lhes aprouvesse. Resultado: os EUA se puseram a cam po e vêm fazendo acordos setoriais com todos os países, m enos com os do Mercosul. Assinaram -se acordos com o Chile, que lhe assegurou um tratado de livre com ércio (em condições inaceitáveis pelo Brasil), com a

Com unidade Andina e, finalm ente, com a Am érica Central e o Caribe (exceto Cuba). Em conseqüência, terem os de com petir com os EUA na Am érica Latina em condições desvantaj osas, e a Am érica Latina é responsável por boa parte de nossas exportações de m anufaturas. Sobra para nós fechar acordos tam bém bilaterais, com o o que assinam os com o México no final de m eu governo, o qual, ainda que não abrangente, perm itiu o bootn de exportações de veículos para o m ercado m exicano, que neste aspecto substituiu a Argentina, cuj a crise levara à dim inuição drástica de com pras de produtos brasileiros. Vej o com preocupação a crescente desintegração econôm ica da Am érica Latina e até m esm o o possível aum ento dos conflitos de visão política. A onda eleitoral após os fortes processos de aj uste econôm ico dos anos 1990 tem levado à form ação de governos de tendência m ais estatizante e protecionista, erradam ente rotulados de esquerdistas ou populistas. Não chegam a ser nem um a coisa nem outra. São m ais reativos, defensivos, dando sinais de que as sociedades da região, com duas ou três exceções conhecidas, tem em adotar,um a política m ais agressiva de integração à ordem m undial que possa ser proveitosa para os interesses nacionais. Em alguns casos, dadas as fragilidades existentes, até se com preende que assim sej a: sem condições efetivas de com petição, as aberturas econôm icas e as políticas de austeridade se tornam insuportáveis para os respectivos povos. Em outros casos é m enos j ustificável a indecisão das elites governantes para adotar m edidas que perm itiriam um salto significativo na econom ia e nas condições de vida das populações. Vitórias na OMC e diplom acia financeira

No âm bito do encontro, tam bém o prim eiro da História, entre chefes de governo da Am érica Latina e da União Européia, realizado no Rio de Janeiro em 1999, com eçam os a negociar um acordo com ercial. Lem bro-m e de um a conversa que tive na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firj an) com o Presidente da França, Jacques Chirac, na qual eu dizia que para rom per o protecionism o agrícola europeu haveria que buscar m ais investim entos, em especial franceses, no processam ento de alim entos no Brasil, pois assim os próprios produtores franceses enfrentariam o arrai

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gado protecionism o rural da França e de outros países europeus. Tam bém nesse âm bito os progressos têm sido lentos.

Daí a razão de a opção m ultilateral continuar sendo im portante para nós. Aproveitando a experiência e a m elhores em baixadores no trato das dois chanceleres que serviram em m eus m andatos, am pliam os m uito as ações na OMC. Pela prim eira vez, com o apoio do em presariado, o Itam araty organizou um a unidade específica para o tratam ento dos contenciosos com erciais, destinada a encam inhar os pleitos do setor privado brasileiro na organização. Os exem plos de sucesso logo se m ultiplicaram e continuaram a se desdobrar após o térm ino de m eu governo. Entre outros episódios, tivem os no contencioso com os EUA sobre das salvaguardas im postas pelos EUA de contencioso contra barreiras não-tarifárias im postas tam bém pelos am ericanos a nossas exportações de suco de laranj a; idem no caso da União Européia no referente ao açúcar; finalm ente, o pedido de consulta para abertura de painel (m ais tarde vitorioso) contra subsídios am ericanos em algodão, m atéria que teve a decisiva colaboração do m inistro da Agricultura, Pratini de Morais, e do secretário de política agrícola do Ministério, Pedro de Cam argo. No conj unto estivem os presentes em 14 reclam ações, envolvendonos em um total de 21 controvérsias se som arm os as reclam ações contra nós, ganhando a m aioria delas. Para finalizar estas anotações sobre o com ércio internacional, recordo que, nas negociações da OMC realizadas em Doha, não apenas ganham os um ponto im portante na questão dos m edicam entos para com bater a aids, graças à ação dos m inistros Lafer e José Serra e do em baixador Celso Am orim , com o obtivem os, j unto com nossos aliados, vitória sem precedentes: o m andato negociador para a agricultura, tem a m ais do que sensível e no qual as negociações entre regiões ou entre países nada cam inharam . Ou sej a, ficou cabendo à OMC a definição das regras do com ércio internacional que se aplicam à agricultura, válidas para todos os paísesm em bros da organização. No plano da diplom acia financeira, sem pre em consonância com a percepção de que a globalização é um processo em m archa e de que, dian 631

com petência de alguns de nossos questões com erciais, incluindo a dos a vitória, ao lado da gasolina; o êxito na em m atéria de aço;

Venezuela, contestação a abertura

te dele, o Brasil tem a rara possibilidade de ser, ao m esm o tem po, beneficiário e crítico, não perdem os oportunidades para assum ir um a posição com patível com nossos interesses. Desde m eu prim eiro discurso sobre esta m atéria, em fevereiro de 1995, na sede da Cepal, até o final do governo, critiquei as assim etrias da ordem m undial. Assim com o não deixei de propor m odificações que favorecessem os países em desenvolvim ento. A cada reunião dos países ricos (G-7/8) enviei cartas a seus dirigentes propondo m udanças na ordem econôm ica, e m eus sherpas, com o se denom inam os assessores presidenciais que cuidam de cada um a dessas reuniões, num a alusão aos habilíssim os guias que auxiliam os alpinistas no Him alaia, atuaram ativam ente nessa direção.

As sucessivas crises financeiras, as políticas e receitas nem sem pre adequadas do FMI (cuj os erros, com o no caso do Sudeste Asiático e da Indonésia, obj eto de m últiplas críticas e sugestões, levaram sua direção a introduzir algum as m udanças de orientação), a falta de recursos suficientes do Banco Mundial e, principalm ente, a falta de transparência e de m ecanism os dem ocráticos no controle das instituições internacionais foram obj eto constante das cartas aos presidentes e da ação de nossos diplom atas e econom istas. Sem pre que pude tornei públicas as críticas às discrim inações existentes no âm bito financeiro internacional e propus m edidas que perm itiam reduzi-las. Em reunião anual do BID, realizada em Fortaleza, em 2001, por exem plo, critiquei duram ente o fato de as instituições internacionais, especialm ente o FMI, diferentem ente do que faziam com os países da União Européia, contabilizarem com o sendo dívidas os investim entos em em presas estatais com o a Petrobras, que rendiam recursos ao Tesouro e funcionavam com o m ultiplicadores de riqueza.

Dessa observação e das negociações que se seguiram resultou m udança que isentou a Petrobras das restrições quanto a investim entos. Novos passos para am pliar as exceções ainda estão por vir.

Não preciso m e alongar sobre essas questões, pois os capítulos nos quais descrevo a im plantação do Plano Real e as crises financeiras ilustram as dificuldades de um a econom ia em ergente que se quer afirm ar em um contexto global inj usto. Falta dizer que o m inistro Malan e os presidentes do BC Gustavo Franco e Arm ínio Fraga revelaram -se incansáveis no con632

vencim ento das m udanças necessárias. nos grupos de acom panham ento das financeiro global criados tanto j unto ao BIS, em Basiléia - a que m e referi anteriorm ente e que é um a espécie de banco central dos bancos centrais -, com o no FMI. Disso resultou um aum ento extraordinário de nossa credibilidade internacional. O Brasil, de país caloteiro, passou a ser parceiro respeitável. Quanto a m im , tratei de m anifestar com clareza e firm eza a necessidade de um a m udança m ais am pla na ordem internacional. Além do m encionado discurso na Cepal, em Santiago do Chile, não perdi oportunidades para reafirm ar esse ponto de vista. Nos encontros de presidentes da Am érica do Sul, com o, por exem plo, em Guaiaquil, m antive um tom contundente. Na reunião da Cúpula Ibero-am ericana realizada na cidade do Porto, em Portugal, em 1998, cheguei a apoiar a proposta de um im posto sobre a circulação financeira internacional, a fam osa taxa Tobin, para expressar m eu desacordo com as assim etrias existentes, m esm o sabendo de sua im praticabilidade.

Da m esm a m aneira, no encontro da Terceira Via, ou da Liderança Progressista, em Florença, em 1999, m anifestei as críticas pertinentes, diante do olhar pouco receptivo de m eus com panheiros de m esa-redonda televisiva, Presidente Clinton e Prim eiros-Ministros Massim o D'Alem a, da Itália, Gerhard Schroeder, da Alem anha, Lionel Jospin, da França, e Tony Blair, do Reino Unido. Apenas Clinton dem onstrou m aior sim patia pelas teses reform istas da ordem m undial, m esm o porque ele próprio havia proposto a form ação de um fundo de assistência aos países em dificuldades, tem pos antes. Os dirigentes da Terceira Via m ais se preocupavam em definir e propagar as m elhores práticas de governo dos países desenvolvidos do que dar im pulso ao crescim ento económ ico dos países pobres e propiciar às nações de econom ia em ergente, com o o Brasil, acesso ao poder m undial.

A Terceira Via é um m ovim ento inspirado pelo encontro do progres* sism o dem ocrático de Bill e Hillary Clinton com a tradição social

O Brasil teve presença m arcante propostas de m udança no sistem a dem ocrática européia sociólogo e ex-diretor m ovim ento não chegou a se sensibilizar econom ia em ergente, o G-20, com o se diria hoj e. Se é certo que as li633

reform ada por Tony

da London School Blair e seu m entor of Econom ics Anthony intelectual, o Giddens. O com as dem andas dos países de

deranças desses últim os não absorveram com pletam ente as políticas da Terceira Via m ais voltadas para a sociedade civil, tam pouco os líderes dos países ricos perceberam a im portância de um a integração m ais adequada das econom ias em desenvolvim ento a um a ordem m undial renovada. Talvez por isso a Terceira Via não tenha conseguido m aior apelo no m undo em desenvolvim ento. Um a pena, pois deixou este últim o à m ercê de recaídas nacionalpopulistas, ou m elhor, antiam ericanas e antiglobalizadoras, que continuam a atrair parte considerável do pensam ento de esquerda, com o disse repetidam ente neste livro.

Um quadro na parede do Torto - e Fuj im ori aceita a paz com o Equador Por fim , no plano propriam ente político, no desem penho da diplom acia presidencial, agi sem pre de acordo com nossas prioridades em m atéria de política externa, tal com o enunciadas no início deste capítulo. Darei uns poucos exem plos dessa atitude, com eçando pela Am érica Latina.

Em nossa região, tive preocupação constante de m anter boas relações com todos os países e aj udar o fortalecim ento da paz e da dem ocracia. Sobre este últim o ponto basta referir algum as ações que conduzi. No Paraguai, em m ais de um a ocasião, sem pre a pedido das forças legitim am ente constituídas, vi-m e obrigado a atuar para evitar que a ordem política se rom pesse. Em certa ocasião, em abril de 1996, o Presidente Juan Carlos Wasm osy veio a Brasília, discretam ente, para m e inform ar que iria dem itir o com andante do Exército e tem ia reações. Antes disso, Wasm osy enviou um em issário a São Paulo e m e pediu que indicasse alguém de m inha confiança para encontrá-lo. Pedi a Eduardo Jorge que fosse ter com o representante do Presidente paraguaio. Com binaram que o Presidente viria a Brasília, se não m e engano em um a quinta-feira, pilotando seu avião particular, para que a visita perm anecesse em sigilo. Na data aprazada designei o em baixador Sebastião do Rego Barros, secretáriogeral do Itam araty, para receber Wasm osy na Base Aérea de Brasília, dizendo-lhe que inform asse às autoridades aeronáuticas dá vinda do avião, sem dar-lhes m aiores detalhes. Tarde da noite eles chegaram ao Palácio da Alvorada, onde o Presidente paraguaio m e disse:

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-Vou dem itir o general Lino Oviedo na próxim a segunda-feira e ele pode m andar m e m atar.

Disse-lhe que apoiaríam os a legalidade e acrescentei, com hum or am argo e para aliviar a tensão:

- Bem , se você m orrer não posso lhe aj udar. Mas não deixarei de aj udar o Paraguai a m anter-se na dem ocracia.

Ele procedeu com o anunciado, e o general Oviedo se rebelou. Coube ao em baixador do Brasil em Assunção, Márcio Paulo de Oliveira Dias, j unto com os colegas do Mercosul e com a em baixada am ericana, proporcionar sustentação política ao Presidente. Em com unicações telefônicas contínuas m e m antive inform ado e, depois de haver assegurado com nossas Forças Arm adas condições de segurança para a hidrelétrica de Itaipu, da qual vem um quarto da energia consum ida no Brasil, pedi ao general Zenildo, m inistro do Exército, que fora instrutor do general paraguaio, para que explicasse a seu colega de farda que ele não teria nosso apoio para qualquer aventura. Finalm ente Oviedo, que não queria falar com ninguém , atendeu a um telefonem a do general Zenildo. Transm itido o recado, Oviedo cedeu; saiu do Paraguai e m ais tarde pediu-nos, e lhe concedem os, asilo político.

Em outra oportunidade - m arço de 1999 -, tam bém no Paraguai, desencadeou-se séria crise política. O Presidente Raul Cubas m e telefonou quando eu estava no Rio de Janeiro, pedindo que o Brasil lhe enviasse suprim entos de balas de borracha para as forças da ordem poderem conter o povo. Viaj ei a São Paulo e, à noite, nova com unicação telefônica. Já havia vítim as entre os populares. Ponderei ao

positivo na transição do Paraguai Presidente Cubas que ele desem penhara papel para a dem ocracia, e que seria penoso e às m anifestações populares. Diante da extensão e da arriscado resistir

pelas arm as gravidade da crise evidenciadas pelo seu próprio relato ao telefone, convenci-o de que seria m elhor renunciar e receber asilo do Brasil. Pediu-m e tem po para responder, certam ente porque queria consultar seus aliados políticos e m ilitares, m as naquela m esm a noite anuiu. Enviam os a Assunção um avião da FAB e, com a proteção de nosso em baixador e de alguns soldados, ele pôde deixar seu país e passou alguns anos convivendo conosco. Em qualquer hipótese, a sucessão deveria respeitar, com o respeitou, os ditam es constitucionais.

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Lem bro esses dois episódios nos quais interviem os politicam ente e poderia, se fosse oportuno, m encionar situação em que m e opus à utilização de força dissuasória para assegurar a dem ocracia no Paraguai. Sem pre acreditei que qualquer intervenção estrangeira, m esm o com obj etivo de restabelecer ou de m anter a dem ocracia, tem custo político elevado e deixa j ustificado ressentim ento popular contra quem intervém . No caso específico do Paraguai, país am igo e com o qual tem os portentoso investim ento hidrelétrico em Itaipu, cabe adicionalm ente m anter um a atitude correta, não-intervencionista e solidária, para que nosso vizinho não sej a levado a autorizar a presença em seu território de tropas estrangeiras à região, com o, infelizm ente, acabou ocorrendo algum tem po após o térm ino de m eu governo. Com respeito à Venezuela, conto um episódio, apenas ilustrativo do j á sabido: que o Brasil sem pre defende a sustentação da ordem dem ocrática. Relato os fatos porque m ostram com o é custoso o enraizam ento dem ocrático. Ainda em m eus prim eiros m eses com o chanceler, em novem bro de 1992, tive notícia de um levante em Caracas contra o governo de Carlos Andrés Perez. Im ediatam ente m e pus em contato telefônico com o Presidente venezuelano, antigo conhecido m eu de reuniões prom ovidas por círculos da Internacional Socialista. Apesar da situação, encontrei-o cheio de ânim o (ouvia-se barulho de tiroteio pelo telefone, e o Presidente fez questão de que eu o escutasse), dizendo que resistiria e ganharia o confronto. Assegurei-lhe nossa solidariedade. Quase dez anos depois, exercendo a Presidência, cham a-m e ao telefone o Presidente Hugo Chávez. Ele, que de certa form a fora o inspirador do cerco ao Palácio presidencial, um a vez que desfechara, em fevereiro do m esm o 1992, um a prim eira e frustrada tentativa de golpe contra Perez, estava agora cercado por revoltosos. Pediu-m e apoio. Disse-lhe que daria instruções ao chanceler Celso Lafer, que participava de reunião do Grupo do Rio7 em San José da Costa Rica, para instar os países participantes a de público repudiarem o golpe, o que aconteceu im ediatam ente.

7 Mecanism o de consultas políticas de alto nível e pouca burocracia adotado em 1986 e am pliado em 2000. Participam 18 países latino-am ericanos e um representante da Com unidade do Caribe (Caricom ). 636

Poderia estender-m e em um a série de episódios para m ostrar a disposição brasileira de aj udar a construir a dem ocracia nos países vizinhos, sem envolvim entos facciosos. Da m esm a form a, atuam os sem pre solidariam ente quando eles enfrentaram dificuldades financeiras. Tentei inúm eras vezes convencer o FMI e os Estados Unidos a aj udarem a Argentina a sair da crise (e nisso teve ação exem plar o Presidente Ricardo Lagos, do Chile) ou a resolverem problem as tópicos quando conflitos com erciais afetavam nossas relações com os vizinhos.

O auge da diplom acia presidencial em face de situações críticas durante m eus dois m andatos deu-se quando conseguim os pôr fim ao contencioso m ilitar entre o Equador e o Peru que citei anteriorm ente neste livro e que custara, nos 40 anos anteriores, interm itentem ente, m ilhares de vidas. Um trabalho paciente para garantir a paz, no qual estávam os envolvidos o Brasil, o Chile, a Argentina e os EUA, m as que na fase final se desenrolou principalm ente no Brasil. Ouvim os as duas partes durante anos. Várias vezes, altas horas da noite, chegavam a Brasília os presidentes, principalm ente do Equador, com m apas de posições estratégicas à m ão, para discutir os term os de um a negociação aceitável. Pelo lado peruano tratei o tem po todo com o Presidente Alberto Fuj im ori, que governou entre 1990 e 2000, parte dos quais, lam entavelm ente, com poderes ditatoriais. No Equador sucederam se presidentes. Os que dedicaram m ais tem po à questão foram Sixto Duran Ballén (1992-1996) e Jam il Mahuad Witt (1998-2000). O contencioso territorial, depois de duros com bates, havia sido obj eto de um a negociação da qual resultou o Protocolo do Rio de Janeiro de 1942, que não satisfez às partes. Os equatorianos diziam pertencer a eles um território m ontanhoso que se abria a um vale que, bem adiante, dava acesso à bacia am azônica. O Tratado do Rio, entretanto, concedera a área aos peruanos. Estes, naturalm ente, contestavam a pretensão equatoriana. No m eio tem po, a im precisão das dem arcações originais frente às técnicas de fotografias por satélite punham por terra m apas e acordos antigos. Depois de m uito sofrim ento e algum as novas arrancadas m ilitares (a últim a propiciara ligeira vantagem no terreno aos equatorianos), as condições para a paz pareciam am adurecer. Entre arm istícios conseguidos a duras penas, o envio de tropa brasileira para assegurar a paz na zona de confli

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to, a presença de representante direto m eu na zona de conflito, em baixador Júlio César Gom es dos Santos, e intensas consultas diplom áticas e m ilitares, o tem po passava e pouco se progredia.

Fuj im ori era determ inado, obj etivo e prático. Manej ava propostas e im aginava as m anchetes dos j ornais de Lim a no dia seguinte. O Presidente Mahuad, cheio de boa vontade e coragem , tinha até credenciais pessoais no caso - perdera um avô nas lutas. Hom em educado, de form ação universitária, tinha encantam ento por um professor de Harvard especialista na solução de conflitos. Fuj im ori, de poucas palavras, sorridente e astucioso, punha a sagacidade oriental a serviço da causa peruana. Não se chegava, no entanto, a um acordo. Certa noite, j antando com os dois presidentes, propus que se construísse um parque ecológico binacional em um trecho da selva que era contestado. A idéia parecia cam inhar, m as sem pre havia um "porém ", e as forças políticas locais reinterpretavam cada proposta ao sabor de suas conveniências, dificultando as m argens de m anobra dos presidentes para a transigência.

Quando estávam os quase a ponto de bater o m artelo, em um a reunião em um a pequena sala da Granj a do Torto, novo im passe: um trecho do futuro parque fora usado com o cem itério para alguns soldados equatorianos m ortos nas batalhas. Sugeri, então, que se abrisse um a estrada ligando o cem itério com a fronteira do Equador, com livre acesso para os nacionais daquele país. Fuj im ori fingiu que não a aceitaria, m as, de repente, virou-se para um pequeno quadro de paisagem bucólica pendurado na parede. Era um quadro m odesto, de pintor desconhecido, m ostrando um a carrocinha puxada por um burro em um a estrada de terra. Apontando a estrada, disse:

- Só se for daquela largura... Por ali não passam carros com tropas, im agino. Sua atitude selou o acordo, assinado a 27 de outubro de 1998 no Itam araty diante dos reis da Espanha, do secretário-geral da OEA, César Gaviria, e de vários presidentes de países am igos. De todos os pronunciam entos carregados de em oção o do Presidente Mahuad foi o m ais com ovedor. Assinou o tratado com lágrim as (e não só ele as derram ou, tam bém eu estava profundam ente em ocionado) e coragem . Não sei se alguém cam inha pela estradinha para chorar a dor de haver perdido um ente querido, m as a paz se restabeleceu, e devido ao papel desem penhado pelo Brasil recebi as m ais altas condecorações e as m aiores hom enagens dos gover

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nos e dos Congressos dos dois países. E cada vez que cam inhei pelas ruas de Lim a ou de Quito recebi abraços efusivos de populares que da guerra queriam distância, m as sentiam que a paz só valeu a pena porque o sentim ento nacional não foi atropelado.

Alguns anos m ais tarde tive de haver-m e com a repulsa continental à terceira eleição consecutiva de Fuj im ori. Não foram poucas as críticas que sofri pela paciência com que nossa diplom acia m anej ou o problem a. Houve grande pressão norte-am ericana e de inúm eras organizações da sociedade civil internacional contra a aceitação do resultado eleitoral. Nosso em baixador em Lim a, José Viegas Filho (que m ais tarde o Presidente Lula nom earia m inistro da Defesa), inform ava com m inúcias à chancelaria brasileira das sutilezas do caso. Um a intervenção externa contestando a legalidade do pleito, pois disso se tratava, m esm o com o propósito de assegurar a legitim idade do poder, poderia prej udicar nossos interesses de longo prazo, m ostrando-nos ao povo peruano com o intervencionistas. Seria m elhor apostar na evolução da própria sociedade peruana. Assim procedem os, em bora sem endossar substantivam ente as m anobras que resultaram na reeleição de Fuj im ori. Lem bro-m e que, m eses m ais tarde, quando o futuro Presidente Alej andro Toledo era candidato com m uitas chances de vitória e veio m e ver em Brasília acom panhado por sua m ulher, Eliane Karp, houve ligeiro m al-estar em nossa conversa, principalm ente por parte dela. Com o alguém com m inhas tradições dem ocráticas (Toledo estudou em Stanford e m e conhecia do tem po em que eu dera aulas naquela universidade) podia ter apoiado Fuj im ori? Ela espelhava na pergunta a opinião de vários críticos da oposição a m eu governo. Disse-lhe que um a coisa era m inha atitude com o intelectual, radicalm ente dem ocrata e progressista, outra m inha conduta com o chefe de Estado. Não que fossem contraditórias. Não apoiara Fuj im ori, m as a voz da inteligência livre não tem por trás de si baionetas e a do Presidente de um país carrega am eaças, principalm ente quando este país é m ais forte. Pior, outros países ainda m ais fortes j á estavam claram ente se m anifestando pela destituição de Fuj im ori. Nessas circunstâncias, em vez de ser um grito pela liberdade, m eu protesto seria um a ingerência.

É im portante ressaltar que não apoiam os ilegalidades no Peru. Dem os, isto sim , um voto de confiança aos peruanos, na convicção de que eles 639

próprios saberiam com o se haver com as questões dom ésticas, com o acabaria ocorrendo. A posteriori é fácil dizer: "Estão vendo? Deu certo. Fuj im ori não reina m ais e restabeleceu-se a dem ocracia." Mas, e se tal não acontecesse? Neste caso, um a vez m ais a m oral da responsabilidade teria inibido sua com patibilização com a ética das convicções e o ato que praticam os pagaria alto preço pelo sofrim ento que a duração do governo fuj im orista acarretaria ao povo peruano.

Torm ento de quem governa e sabe que nada assegura de antem ão a "validade" de suas decisões.

"Fidel, que diabo, hom em ! Que vai fazer com esta ilha?” Ainda um a palavra sobre a região. Para quem é de m inha geração, Cuba e Fidel Castro não podem ser tratados com o estranhos. Visitei Cuba em viagem de Estado e participei, em seguida, da Cúpula Ibero-am ericana realizada em Havana em 1999. Fidel esteve no Brasil inúm eras vezes. Para a Am érica Latina a revolução cubana constitui um m arco, a despeito de seus resultados decepcionantes e da repulsa que causam os aspectos contrários aos direitos hum anos e às liberdades, sem contar as péssim as condições de vida que o povo cubano vem suportando desde o com eço da década de 1990 (verdade que graças tam bém ao bloqueio econôm ico norte-am ericano). Além do apelo à m aior igualdade num a região de desigualdades extrem as que Cuba representa, há a sim bologia da luta de Davi contra Golias, tornada perm anente pelo em bargo norteam ericano. É esse conj unto de fatores que nos leva a tratar de m aneira m enos dura o que em outras situações seria (e é) inaceitável. Com esse pano de fundo, as relações entre Brasil e Cuba, durante m eus dois m andatos, transcorreram de m aneira correta, com aprofundam ento das relações econôm icas e de busca da inclusão da ilha no espaço latino-am ericano. Do m esm o m odo, no plano pessoal sem pre fui tratado com consideração por Fidel e seus principais colaboradores. Surpreendi-m e com a curiosidade de Fidel sobre dados econôm icos e m inúcias, por exem plo, sobre a questão energética, especialm ente petróleo. Nas conversas m e dava a im pressão de ser m ais um professor aposentado, que fazia observações e reflexões sobre o m undo, dentro de sua visão inegavelm ente dogm ática, do que um líder revolucionário, com o foi no passado. Pensei com igo: o poder desgasta e a burocracia estiola, m esm o os espíritos m ais audazes,

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Sua obsessão por entender os processos econôm icos e políticos se revelava até em detalhes banais. Por exem plo, um dia, em alm oço no Alvorada, quando conversávam os a sós longam ente na biblioteca do Palácio, ele m e perguntou:- Com o você organiza sua rotina?

Contei-lhe que levantava relativam ente cedo, nadava por recom endação m édica para cuidar da coluna e relaxar das tensões do cargo, tom ava café, lia a síntese dos j ornais e ia para o Palácio do Planalto despachar, presidir reuniões, receber pessoas em audiências, telefonar para m inistros e líderes parlam entares. Replicou:

- Você está errado. Eu tam bém fazia isso. Depois percebi que não queria falar com os que tinham audiências com igo. Perdia m eu tem po. Daí por diante, fico em casa, lendo livros, recebendo resum os preparados por m eus colaboradores e pensando sobre as questões da econom ia m undial e sobre Cuba, para tentar resolver m elhor seus problem as.

Pensei com igo: "Fidel está há quarenta anos no poder, eu há m enos de quatro. Se fizer isso, m eu governo vai por água abaixo." Quem sabe, contudo, terá sido por seu conselho, subconscientem ente, que no segundo m andato passei m ais m anhãs no Alvorada, defendido das pressões políticas e burocráticas, despachando com m eus auxiliares diretos e com alguns m inistros. Mas não quero ser inj usto. Vi inúm eras vezes Fidel debatendo com contendores m ordazes, colegas ibero-am ericanos. elegância, com um a única exceção, apropriado, neste livro, contar m inúcias do relacionam ento pessoal dos chefes de Estado, m as asseguro que, se pudesse fazê-lo, Fidel Castro ocuparia bom espaço, tal a riqueza das oportunidades que tive para analisá-lo, e, com m enos certeza, para tentar vislum brar o futuro de Cuba. Não tenho ilusões quanto a m udanças que possam ocorrer sob o com ando de Fidel, não obstante m e alegrasse a perspectiva de vê-lo m ais transigente na questão dem ocrática e m ais capaz de antever o alcance de longo prazo que essa atitude teria para a m anutenção dos avanços que Cuba conseguiu em m atéria social. Vem -m e à lem brança um encontro que tivem os ao fim da reunião da Cúpula Ibero-am ericana, em 1999, em Havana, quando quase todos j á haviam partido. Fidel ofereceu um alm oço em um clube recém -refeito, com vistas para o envolvente m ar das Saiu-se quase sem pre com galhardia e em dia infeliz no Panam á. Não seria

Antilhas, a um a dúzia de chefes de Estado e de governo, incluindo o Rei de Espanha, Juan Carlos, sem pre bonachão e sim pático. Um dos presentes, sobre cuj a identidade calo por m otivos protocolares, levantou-se da m esa e, batendo nela com a m ão, dirigiu-se ao anfitrião:

- Fidel! Que diabo, hom em , você está entre os poucos am igos que ainda tem . Que vai fazer com esta ilha?

Entre im propérios, tornados am istosos m ais do que agressivos pelos bons goles do excelente vinho espanhol Vega Sicília-Ünico que todos tom ávam os, o líder continuou pressionando Fidel. Em seguida lançou um a saraivada de críticas e inquietações sobre "a transição" para a dem ocracia. Lá estavam Menem , José Maria Aznar, António Guterres, Jorge Sam paio, Fuj im ori, Zedillo e uns poucos m ais que, em bora com preensivos e não se afastando da tradição de convidados, não m ediram palavras para pressionar o com andante. Este, com o m ais tarde vi fazer em brom a na casa de verão do Presidente do Chile, em Vina dei Mar, respondendo a Aznar - "Pêro y ó, dentre todos Ustedes, soy el que m enos poder tiene, pues todo en Cuba es colectivo..." -, utilizou seus dotes de sofista para não responder nada. Definitivam ente, ele não pensa com o o personagem do escritor italiano Tom aso di Lam pedusa que algo queria m udar para nada m udar. Mais teim oso - em espanhol se diria testarudo, ou cabeçudo - que o personagem do rom ance, prefere nada m udar para evitar que tudo desabe. Sobre a ilha, finalm ente um a observação: j am ais desej ei que o Brasil fosse "ponte" entre Cuba e os EUA. Não creio que tal postura corresponda a nossos interesses nem aos dos dois contendores. Talvez por sentir essa disposição, tivem os m ais facilidade para m anter o diálogo diplom ático com Cuba e seus líderes. Um a só vez fugi a esta regra, quando Bill Clinton m e deu um a inform ação sobre obstáculos que o tão ansiado tráfego aéreo entre Cuba e os EUA enfrentava e m e pediu explicitam ente que esclarecesse o assunto com Fidel. Este, depois de ouvir m inha ponderação de que não m e com petia o papel de m ensageiro, m as que naquele caso parecia razoável transm itir-lhe a inform ação, redarguiu com um galanteio:

Continuar: parte 3 de 4