A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 9 de 9 · parte 3/4

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A arte da política: a história que vivi

Institutos do Milénio, foram iniciativas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- Mej or m ensaj ero nopodria haber encuentrado el Presidente Clinton. Espero ansioso o dia em que m eu em baixador na ilha, Luciano Martins, que escreveu relatórios tão lúcidos, publique suas reflexões sobre o que m udou e o quanto pode m udar Cuba. Tem o que, alheia ao tem po, a ilha, que poderia ser um ponto de referência para o m odo latino-am eri

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cano de conciliar socialism o com dem ocracia, deixe para a História apenas as m arcas do inaceitável autoritarism o, perdendo as sendas de m aior igualitarism o, tão necessárias para este continente de inj ustiças sociais. Presidentes da Am érica Latina e calor hum ano Não quero term inar essas anotações sobre o relacionam ento com os países e dirigentes da Am érica Latina sem m encionar, ainda que brevem ente, o quanto de calor hum ano houve no trato com um ou outro deles. Em várias partes deste livro falei dos presidentes Menem , da Argentina, Jorge Batlle, do Uruguai, Ernesto Sam per, da Colôm bia, seu xará Zedillo, do México, os peruanos, equatorianos, venezuelanos, bolivianos, paraguaios. Se não pude, com o sem pre desej ei, visitar os países do Caribe, com exceção de Cuba e da República Dom inicana, com cuj o Presidente (entre 1996 Leonel Fernandez, m antenho

e 2000, e novam ente a partir de 2004),

relações cordiais, devo dizer que os responsáveis pelas nações caribenhas de fala inglesa sem pre m e trataram e ao Brasil com especial respeito. Talvez porque alguns deles conhecessem m eus estudos sobre os negros brasileiros ou porque soubessem que Eric William s, Prim eiro-Ministro da Jam aica entre 1962 a 1981 e grande historiador da escravidão, serviu de fonte de inspiração para m im quando j ovem professor na USP. Realizei, contudo, a prim eira visita de Estado de um Presidente brasileiro à Am érica Central. Fui à Costa Rica em abril de 2000, onde o presidente Miguel Ángel Rodríguez teve a gentileza de hospedar seus colegas da região para que eu pudesse m anter ricas conversações, individualm ente e em conj unto, com todos eles.

Tratei de m otivá-los a am pliar o com ércio com o Brasil, a utilizar m ais nossas em presas de serviços e a ter m aior cercania política conosco. Tam bém na Am érica Central, visitei m ais de um a vez o Panam á. Em novem bro de 2000, quando com pareci à X Cúpula Ibero-Am ericana, na Cidade do Panam á, pude realizar um gesto de alto valor sim bólico: devolver ao país docum entos preciosos, as atas de um congresso - denom inado Congresso Anfíteônico - convocado em 1826, em território panam enho, pelo grande libertador de vários países latinoam ericanos, Sim ón Bolívar. Por algum a razão, os docum entos estavam em nossos arquivos, e, no Panam á, foram depositados num grande m em orial a Bolívar. Desse

congresso do século XIX resultaram decisões e tratados im portantes que, j á naquele tem po, consagravam princípios com o paz, segurança coletiva e aj uda m útua entre países recém - libertos do colonizador espanhol. Talvez com o retribuição ao gesto, em m arço de 2002 a Presidente Mirey a Moscoso convidou-m e para participar de solenidade m arcando o início de obras de am pliação do Canal do Panam á, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico. Viaj ei acom panhado do chanceler Celso Lafer. Ao Brasil interessava a m odernização do Canal com o parte não apenas de nossa visão sobre a integração física da Am érica Latina, m as tam bém para m elhorar a com petitividade de nosso com ércio com a Ásia, sobretudo o desdobram ento m arítim o da logística do transporte fluvial da soj a e, quem sabe, com algum as em presas brasileiras participando da obra. Com alguns dos relações cordiais, se de continuar o cam inho aberto por Alfonsín na aproxim ação com o Brasil. Não houve assunto em nossas relações, por delicado que fosse, que deixasse de ser encam inhado com com petência e com preensão recíproca entre a Argentina e o Brasil. E ninguém se iluda: Menem , m esm o quando parece ausente das questões, com anda o desenrolar dos acontecim entos.

Seu sucessor, Fernando de Ia Rua (1999-2001), teve m enos êxito no m anej o da política. Tocaram -lhe tem pos difíceis, depois da quebra da m oeda. De Ia Rua, um professor universitário ponderado e

característica de nossa política, em

talvez m enos propenso à luta de foice m ais de um a ocasião pareceum e não

inteiram ente enfronhado dos riscos que corria. Recordo-m e que certa feita, estando os dois em Madri, m as por m otivos diferentes, recebi um a cham ada telefônica de Arm ínio Fraga, presidente do BC. Arm ínio estava reunido, penso que no Canadá, com um grupo de econom istas Estes expressaram preocupação com o m e pediu que alertasse o presidente De Ia Rua. Não sei se o pedido era som ente dele ou incorporava o desej o de seus interlocutores. Relutei em fazê-lo, pois é sem pre delicada a introm issão de um Presidente nos assuntos internos de outro país. No m undo atual, contudo, com o venho dizendo neste capítulo, interno e externo se confundem , até porque qualquer crise na Argentina afetaria o Brasil e a recíproca é verdadeira. Telefonei à em baixada da Argentina e m e dispus a visitar o Presi

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presidentes

não afetivas. latino-am ericanos m antive e m antenho Carlos Menem (1989-1999) teve a visão

e dirigentes econôm icos m undiais. desenrolar da crise na Argentina e Arm ínio

dente, que nos recebeu, a m im e ao chanceler Lam preia, com fidalguia. Fazia-se acom panhar por seu chanceler, Adalberto Rodríguez Giavarini, e pelo m inistro da Econom ia, José Luís Machinea. Cuidadosam ente fui orientando a conversa para as dificuldades que eu próprio havia vivido com a crise do real e apoios internacionais, envolvendo-m e descrevendo o m odo com o busquei

pessoalm ente em parte das negociações. Fernando de Ia Rua foi sim ples e direto:

- Não se preocupem , não se preocupem . Na Argentina tudo vai bem . É diferente. Não m e cabia insistir. O Presidente argentino partiu para um a viagem à aldeia de seus ancestrais espanhóis e, infelizm ente, nada era diferente do que ocorrera no Brasil. Hom em correto, perdeu o controle da situação política e teve de renunciar. Depois de vários sucessores de curtíssim a duração, o governo parou nas m ãos de Eduardo Duhalde, em j aneiro de 2002. Durante seu período na Casa Rosada, em bora tivessem sido poucos os contatos, o espírito de cooperação com o Brasil perm aneceu vivo.

Conheda Duhalde do tem po em que fora Vice-Presidente de Menem e em seguida candidato derrotado à Presidência. Quando assum iu o governo depois de eleito pelo Congresso, decidi visitar a Argentina para expressar solidariedade ao país em m om ento de graves dificuldades. No j antar que m antivem os, a sós, na residência presidencial de Olivos, onde passei a noite, tive um a conversa m uito franca com o Presidente sobre a situação. Im pressionou-m e sua reação perem ptória:

- Eu vou pôr ordem nos piqueteiros (grupos de m anipulados politicam ente que viviam obstruindo ruas e restabelecerei relações com o Congresso e farei eleições. Dito e feito. Não é pouco m érito. Menos de dois anos depois, eleito Nestor Kirschner, a quem conheço superficialm ente, fez o indispensável: com apoio de seu m inistro da Econom ia, Roberto Lavagna, enfrentou o tem a da dívida externa e, com m edidas e palavras que a m uitos soaram dem agógicas, conseguiu legitim idade para governar apesar de haver obtido apenas 22% dos votos no prim eiro turno das eleições de abril de 2003 (assum iu em m aio, após seu concorrente, Menem , desistir de disputar o segundo turno). Avaliar o êxito do conj unto de suas ações vai requerer tem po, m as indiscutivelm ente tom ou m edidas necessárias para restabelecer no país irm ão a crença em qualquer governo. 645

desordeiros

estradas),

Com o Uruguai m inhas relações são m uito antigas: participei da elaboração de um dos planos de desenvolvim ento do país nos anos 1960, com o funcionário da Cepal, quando Enrique Iglesias, futuro presidente do BID, ainda era presidente do Banco Central uruguaio. Júlio Sanguinetti, intelectual de qualidade e político m aduro, estando ou não na Presidência, que ocupou duas vezes (entre 1985 e 1990, e entre 1995 e 2000), sem pre foi um ponto de apoio e um am igo. Convivi m enos tem po com o Presidente Lacalle (1990-1995), m as j á relatei a visita que lhe fiz em Anchorena e tanto Lacalle com o Sanguinetti, ou Jorge Batlle, por diferentes que sej am seus partidos, e a despeito da lenda de que um deles é m ais "brasileirista" do que o outro, e dos estilos pessoais diversos entre Batlle e Sanguinetti, nas tratativas com o Brasil e com igo, som os todos herm anos, tal a densidade de nossos relacionam entos, e o m esm o diria do Presidente eleito em 2005, Tabaré Vasquez. Jorge Batlle (2000-2005) é um espírito brilhante, irônico e tem , com o aliás tam bém Sanguinetti, fam iliaridade com a História e os costum es do Brasil.

Sobre o Chile, em bora pouco tenha dito, não devo falar m uito m ais: seria tentado a escrever outro livro, tantas são m inhas afeições e tanto é m eu conhecim ento daquelas terras. Mas, j á havendo m encionado Ricardo Lagos algum as vezes, cabe registrar que nenhum outro país de nossa região teve a sorte ou foi capaz de de nossa região teve a sorte ou foi capaz de 1994), Eduardo Frei RuizTagle (1994-2000) e Ricardo Lagos (2000-2005). A aliança obtida pelos chilenos, j untando "liberais", dem ocratas- cristãos e socialistas, que há poucas décadas se com batiam tão vivam ente, é a prova da m aturidade do povo. Os resultados estão à vista: perseveraram nos obj etivos e vêm aceleradam ente m udando o país para m elhor.

Com os países do Hem isfério de fora da região latino-am ericana, nossa participação na política internacional é de outra ordem e m ais m odesta. Além dos cuidados referidos de não transform ar cada choque concreto de interesses entre nós e os EUA em um a confrontação m ais am pla de país a país e da busca perm anente de um a postura de colaboração e independência, m antivem os excelentes relações com o Canadá. Houve visitas oficiais recíprocas. Sustentam os, ao m esm o tem po, posição firm e na cham ada crise da vaca louca, na qual o m inistro Pratini de Morais teve desem penho m arcante diante da alegação, francam ente absurda, de risco 646

dessa doença que afeta o gado bovino na Europa - m as inexistente no Brasil- com o razão para a suspensão das im portações canadenses.

Firm eza, m as ponderação, foi nossa postura tam bém nos contenciosos com erciais por causa dos aviões da em presa canadense Bom bardier na guerra com ercial com a nacional Em braer. Tratava-se de crise, digam os assim , entre países m aduros, cuj as econom ias avançaram e, eventualm ente, tiveram choques de com petição econôm ica, e não confrontações "ideológicas" ou totais. Freqüentem ente o Prim eiro-Ministro Jean Chrétien e eu falávam os ao telefone sobre os m ais variados assuntos.

Nossas conversas, em geral, giravam sobre os problem as globais, m ais do que apenas sobre as relações bilaterais. Afinávam os a viola, para m elhor entender o j ogo dos donos do m undo,

Um sím bolo de que o m undo pode ser m elhor: Mandela Já com a África foi diferente, m antivem os relações m ais próxim as e m ais ao estilo latinoam ericano, no qual a em oção pesa tanto quanto a razão e facilita negociações. Enviam os tropas a Angola para assegurar a paz, e o tam anho do contingente - m ais de m il hom ens m ostra nosso em penho em aj udar o país de onde vieram , com o escravos, os ancestrais de tantos brasileiros. Nossos soldados desem penharam com eficácia a dificílim a tarefa de colaborar na elim inação dos cam pos m inados que um a guerra civil de m ais de duas décadas espalhou por toda parte. Visitei Kuito, no interior, para ver nossos soldados acam pados em região circunscrita por m inas e destroçada por batalhas passadas, cheia de adultos e de crianças sem pernas ou sem braços, situação que m e com oveu profundam ente. Tem os investim entos produtivos no país e m uita proxim idade política com o Movim ento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido dom inante. Tam bém com Moçam bique nossas relações foram especiais. Visitei oficialm ente o país e assinei o perdão de um a dívida de 450 m ilhões de dólares que o povo m oçam bicano não tinha condições de pagar. Iniciei tam bém negociações para a Vale do Rio Doce investir em m ineração e recebi várias vezes no Brasil o Presidente Joaquim Chissano, assim com o o Presidente José Eduardo dos Santos, de Angola. De igual m odo, o Presidente Thabo M'Beki esteve entre nós, e o nível de entendim ento econôm ico e político com a África do Sul é elevado. Convidei os presidentes desses três 647

países para assistirem a reuniões do Mercosul, sem pre buscando o fortalecim ento de nossos laços com eles. Com a Nam íbia e o Presidente Sam N'j om a da m esm a form a tem os relações próxim as, estando nossa Marinha m uito ativa em prestar-lhes assistência técnica. Nelson Mandela é um caso à parte. O grande patriarca da liberdade na África do Sul esteve no Brasil em j ulho de 1998, em visita de Estado, e m agnetizou quem o viu ou esteve com ele. Em sua tribo de origem , Mandela é príncipe - e não há a m enor dúvida de que se trata de um príncipe quando se está em sua presença. Ouvi de um a conterrânea sua, Manphela Ram phele, diretora do Banco Mundial, um a definição perfeita para o que penso em relação a ele. Ram phele com parava outros líderes carism áticos de hoj e ou do passado a Mandela. Dizia dos prim eiros que eles obtêm o reconhecim ento e a glória porque perseguiram esse obj etivo. Já com Mandela, acrescentou, é diferente: a própria glória é que vai até ele. De fato. Sua sim ples presença, sem que ele m ova um dedo, perm ite perceber que está ali alguém com um a aura especial, um hom em excepcional. Adem ais, é de um a sim patia irradiante e m uito afetivo: profundam ente africano em seu calor hum ano. Mantivem os um a longa conversa no Palácio do Planalto sobre delicados assuntos político- partidários africanos. O alm oço que lhe oferecem os ao redor da piscina do Alvorada contou Mangueira, de personalidades da com unidade negra brasileira - entre as quais as atrizes Cam ila Pitanga e Thaís Araúj o e Cafu, capitão da seleção brasileira de futebol. Mandela se divertiu e se alegrou genuinam ente. Sua esposa, Graça Machel (viúva do herói da libertação de Moçam bique, Sam ora Machel), tem o português com o língua m aterna e participa com Ruth de alguns fóruns internacionais. Tudo isso envolve de carinho, além da adm iração, o relacionam ento com Mandela. A visita de Estado de Mandela ao Brasil retribuiu a que fizéram os a ele no segundo ano de m eu m andato. De todas as m inhas viagens oficiais ao exterior, só as feitas ao Chile, pela em otividade dos anos que lá passei no exílio e dos am igos que adquiri (de Enzo Faletto a Ricardo Lagos e sua m ulher, Luisa Durán, de cuj os pais fui vizinho em Santiago por alguns anos), podem se com parar ao calor e m esm o ao am or ao Brasil que senti

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com a presença da bateria e de passistas da escola de sam ba da capoeiristas e de cantores de toada da Am azónia, além de

quando, na m anhã de 27 de novem bro de 1996, cam inhei pelas ruas da fervilhante cidade- dorm itório de Soweto, próxim a a Johanesburgo, ou quando, no banquete oficial, na capital, Pretória, Mandela saiu dançando e cantando, agarrando-m e pelo braço. Em Soweto, berço histórico da resistência aaú-apartheid, fom os à pracinha onde há um m arco de saudade em hom enagem a Hector Peterson, estudante de treze anos m orto pelas costas em 1976, durante um a m anifestação contra a decisão do governo de tornar obrigatório aos negros o ensino do africânder, idiom a dos antigos colonizadores holandeses. Junto ao m onum ento, depositei flores. Centenas de j ovens de am bos os sexos nos cercaram e cantaram em nossa hom enagem . De lá partim os para a casa do legendário Walter Sisulu, m estre de Mandela, tam bém herói das lutas contra o racism o, que lhe valeram quase três décadas na prisão. Casa m odesta, no bairro que foi favela, onde m orava um verdadeiro líder, no sentido de guia m oral, que tinha sido deputado e agora, recolhido à vida privada (sua m ulher, Albertina, ainda era deputada), sim bolizava a inteireza da traj etória de um batalhador. De óculos, alquebrado aos 84 anos, cabelos inteiram ente brancos, voz frágil, disse palavras tão expressivas e sentidas de reconhecim ento ao Brasil por nossa postura histórica contra o racism o e de tanta afetividade que, ao despedirm o-nos, chorávam os todos, o casal anfitrião, o visitante e o casal Lam preia - o chanceler Luiz Felipe e sua m ulher, Lenir. Orgulho-m e de ter ido até Sisulu: fiquei sabendo que nunca chefe de Estado algum o visitara em casa. Voltei a Johanesburgo, anos depois, no início de setem bro de 2002, para participar da Conferência Mundial sobre o Meio Am biente, patrocinada pela ONU - tam bém cham ada de Rio+10, porque haviam transcorrido dez anos da prim eira reunião do género, no Rio de Janeiro. Em ato à parte, lancei, com Mandela (j á então há três anos fora do poder), um program a em defesa das florestas úm idas. Era um ato público, ao ar livre, apenas com o palco protegido contra um a eventual chuva. Novam ente m e im pressionei profundam ente com o m odo pelo qual o grande líder expressa pensam entos e sentim entos. Sem pre elegante, fluente, cativante, m uito pessoal e, de repente, telúrico, quase profético, eletriza a audiência e, m ais do que isso, a com prom ete com a causa que está defendendo. As pessoas aplaudiam , gritavam de alegria, cantavam . Mandela 649

parecia produzir um a hipnose coletiva. Vi-o de novo na Noruega, em Trom soe, no Círculo Polar Ártico, em 2005, dessa vez abraçando a causa do com bate à aids. Ninguém , de tantos líderes que conheci no m undo, tem a liderança espiritual de Mandela: não esquece o passado, não renega a realidade, m as, sem ressentim entos, olha e aposta no futuro da hum anidade. Tendo passado 27 anos na prisão, boa parte em solitária, por sua luta contra o regim e racista do apartheid, ele foi capaz de, libertado em 1990, estender a m ão a seus algozes em prol de um a causa m aior, a dem ocratização e a reconciliação nacional em seu país. O próprio Presidente do regim e racista, Frederik De Klerk, com quem Mandela negociou intensam ente um a transição dem ocrática, acabou sendo candidato a VicePresidente na chapa que levou o grande líder negro a ser o prim eiro chefe de Estado livrem ente eleito da República da África do Sul, em 1994. Am bos ganharam o Prêm io Nobel da Paz em 1993. Se há um sím bolo vivo de que o m undo poderá ser m elhor, este sím bolo é Mandela. Precisam os decidir o que querem os na Ásia

Dando continuidade aos m ovim entos de reaproxim ação com a Ásia, que iniciara ainda com o chanceler, tratei tam bém de visitar, naquela região, os países que m e pareciam fundam entais tanto para o papel político do Brasil no m undo com o para as ligações com erciais, fortalecendo nossas exportações e buscando investim entos. Fui em m arço de 1996 ao Japão, e o Im perador Akihito e sua esposa, a Im peratriz Michiko, retribuíram a visita vindo ao Brasil em j unho de 1997. Tratou-se da prim eira visita de um Im perador j aponês à Am érica Latina depois da Segunda Guerra Mundial. As relações entre os dois países são m uito especiais, cercadas de sim bolism os e de gestos na direção de um a sem pre m aior proxim idade. Na tradição j aponesa, por exem plo, um a vez ao ano os im peradores e sua fam ília se reúnem , talvez j unto ao seu círculo m ais íntim o, para um a troca de poesias. A Im peratriz (fluente em inglês e na literatura nesta língua) nos presenteou com um livro em que estão vertidos, para o inglês, os poem as que ela e o esposo fizeram . Num deles, que m e sensibilizou especialm ente pela beleza (e não é o único com alusões desse tipo), há referências ao Brasil e à nossa natureza, rem em o 650

rando viagem que fizeram nos anos 1960, ainda com o príncipes, logo depois do casam ento. Sutilezas que bem m ostram o espírito j aponês. A despeito de toda a im igração j aponesa e da presença de cerca de 250 m il brasileiros que fizeram o percurso inverso ao de seus ancestrais e hoj e trabalham , em contínuo revezam ento, no Japão, as conversas com o Prim eiro-Ministro Ry utaro Hashim oto indicavam certa dificuldade de m ovim entos. Fiquei com a im pressão de que o Japão estava ainda m uito am arrado em sua política externa e que dificilm ente se m overia, por exem plo, para fazer um a pressão com um em favor de nossa participação com o m em bros perm anentes do Conselho de Segurança da ONU. Recentem ente, j á sob a liderança de avanços naquela direção.

De qualquer m odo, os titubeios do relacionam ento estratégico do Japão com os EUA e o tem or dos j aponeses de se verem desam parados no confronto com a China pesam m ais do que quaisquer alternativas que lhe possam ser oferecidas pela associação com outros países. Até m esm o os investim entos no Brasil, em bora continuem a ser im portantes, não tiveram crescim ento com parável aos europeus depois da estabilização de nossa econom ia. Continuam os, no entanto, tentando exportar nossos produtos agrícolas ao m ercado j aponês, que é enorm e, e espero que o Japão volte, pouco a pouco, a desem penhar o papel de relevo que sem pre teve em nossas relações com a Ásia. Diferente é o relacionam ento com a China. Não só fiz um a visita de Estado (isto é, no m ais alto grau protocolar e de intenções de estabelecer sólidos relacionam entos) àquele país, com o percebi que não fom os nós, na verdade, que escolhem os a China com o parceiro estratégico. Muito antes de nós, na verdade desde que o Presidente Sarney lá esteve, em 1988, os chineses j á haviam tom ado a decisão de aproxim ar-se do Brasil e de certa form a tinham a iniciativa do processo. Sabiam m uito bem o que queriam . Na visão estratégica de seus dirigentes, a China precisa de fontes confiáveis de abastecim ento que tenham capacidade de suprir suas enorm es necessidades de m atérias- prim as e alim entos. País de dim ensões continentais, superpovoado, m as cuj as terras são plenam ente agriculturáveis em apenas 7% do território, a China não dispõe de todos os recursos m inerais necessários à sua produção industrial, nem de água suficiente. A gigan

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Junichiro Koizum i, foi possível realizar

finais indicam que as conveniências

Firm am os um acordo tecnológico no cam po espacial, m inistro José Israel Vargas, desde os tem pos do estam os fabricando, em colaboração com os chineses, tanto lá com que perm item , entre outros resultados, registros fotográficos de tesca represa de Três Gargantas,8 por exem plo, em bora com m uito m aior potência

disponível do que Itaipu, produzirá em m édia m enos energia do que nossa usina, porque não há fluxo de água constante para m ovê-la. A China precisa de parceiros. Cabe-nos tirar proveito dessa situação e verificar o que poderem os obter em contrapartida, além de nossas exportações, o que não é pouco, de soj a, m inério de ferro e carne bovina e suína, com o resultado de esforços que inicialm ente foram feitos pelos m inistros Pratini de Morais e Sérgio Am aral.

m uito incentivado pelo Presidente Itam ar, e aqui, satélites alta precisão. Negociam os, e dei o em purrão inicial, a instalação de um a planta da Em braer na China, assim com o j á tínham os lá um a fábrica de com pressores que pude visitar. Estam os apenas engatinhando na colaboração científico-tecnológica, tateando outras oportunidades de com plem entaridade que existem entre nossas econom ias. A Bolsa de Mercadorias & Futuros, por exem plo, abriu em 2004 um escritório em Xangai.

Das várias conversas que tive com Jiang Zem in e com o Prim eiro-Ministro Zhu Rongj i, ficou m uito nítido que eles, chineses, desej am ser respeitados no m undo. Conto pequeno episódio que ilustra este fato. Poucos dias antes da chegada de Zem in ao Brasil, em abril de 2001, o Presidente Bush m e telefonou e pediu que eu intercedesse j unto ao Presidente visitante para que fossem liberados os tripulantes de um avião-espião am ericano que havia caído na China pouco tem po antes.

Depois de prom eter a Bush que tentaria encam inhar a questão, nos lim ites do protocolo, fiz o pedido ao líder chinês quando tive a oportunidade da conversa a sós com ele em m eu gabinete no Planalto.

Resposta:

- Você sabe quantas vezes o Presidente Clinton m e cham ou ao telefone para desculpar-se das bom bas que acertaram nossa em baixada em Belgrado? Cinco ou seis. Só então respondi ao telefone. [Referia-se ao episódio em que, em 1999, durante os bom bardeios aéreos dos países

1 Quando o Presidente Jiang Zem in nos visitou, presenteei-o com um a fotografia de um a das im ensas turbinas fabricadas para Três Gargantas em São Paulo tendo, dentro de seu diâm etro, todos os operários envolvidos no trabalho. 652

m em bros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a Belgrado e outras cidades, para pressionar o governo da então Iugoslávia a deter os m assacres provocados por forças servias contra m inorias étnicas na província de Kosovo, três m ísseis am ericanos atingiram por engano a em baixada da China na capital, m atando quatro funcionários chineses.] Quantos anos têm os Estados Unidos, quinhentos? Repliquei que, com o nação independente, nem trezentos.- Pois é, a China tem cinco m il. Eles, am ericanos, têm de aprender a nos respeitar. O Presidente Bush é m uito m oço, ele precisará se desculpar pela violação do espaço aéreo chinês. Eu vou liberar, sim , os tripulantes, m as tom ará algum tem po... Esta é a China, um país que sabe que a política, especialm ente a diplom acia, tem que j ogar com o tem po. Nós, de nossa parte, é que precisam os definir qual é nosso j ogo. Dá para j ogar com os chineses, m as se som ente eles tiverem obj etivos estratégicos e souberem o que buscam , com este j ogo pouco ganharem os. Ainda não vej o claram ente qual é a posição brasileira nesse tabuleiro. Alguns, tanto por m otivos políticos com o econôm ico-com erciais, tem em a China. Outros a idealizam e vêem vantagens para nós em tudo. É provável que estej am certos, à condição de definirm os, com o os chineses fazem , o que querem os. No curto prazo, é inegável que a voracidade chinesa por alim entos e m atérias-prim as está proporcionando um im pulso considerável a nossa balança com ercial. No m édio prazo depende de nossa capacidade de form ular e im plem entar os propósitos que definirm os. No com ércio com a China tem havido m uita "troca de procedência", quer dizer, produtos que antes vinham da índia e de outros países, hoj e vêm da China. Nossos produtores reclam am m as nem sem pre têm razão. Mesm o assim , o reconhecim ento da China com o econom ia de m ercado pelo governo que m e sucedeu nos deixa ao desabrigo para taxar os produtos chineses.

Por outro lado, constitui um problem a o fato de o gigante asiático, m esm o tendo se integrado à OMC, ser ainda o grande centro m undial de produção de produtos piratas de todo tipo.

Visitei tam bém a índia, em j aneiro de 1996, onde fui hóspede de honra na com em oração dos 50 anos de independência. Igualm ente o Presidente da índia, Kocheril Ram an Naray anan, esteve no Brasil em m aio de 1998. Confesso que m e é m ais fácil ver a reciprocidade entre os nossos

interesses e os da China do que o m esm o com a índia. Culturalm ente tenho fascínio pela índia. Visitei-a, sem contar a viagem presidencial, um as três vezes. Quando presidente da Associação Internacional de Sociologia, realizei nosso congresso internacional em Nova Delhi, em 1986. Li com paixão a obra-prim a de Octavio Paz, Vislum bres de Ia índia?

Porém , até hoj e há algo na alm a indiana que m e escapa inteiram ente. Nossas conversas, sem pre am áveis, j am ais se concretizaram política ou econom icam ente. Fizem os algum progresso na área de m edicam entos, pois o m inistro da Saúde José Serra, em penhado na fabricação de genéricos, logrou alguns avanços com os indianos. Mas o fluxo com ercial e o de investim entos são m uito baixos, quando existentes. Vej o com satisfação que m ais recentem ente, pelo m enos no cam po das negociações com erciais, na OMC, alianças estratégicas têm sido possíveis. Novam ente, a questão está em saber quais nossos interesses peculiares e quais os deles, pois não são sim ilares em tudo. O Brasil, porém , não pode ignorar, entre outros aspectos, o gigantesco m ercado interno representado pela índia.

Se o país, com l bilhão de habitantes, ainda tem grande contingente de pobres, estim a-se que sua classe m édia com porte entre 250 e 300 m ilhões de pessoas. Visitei a Malásia em dezem bro de 1995, logo em m eu prim eiro ano de governo. Kuala Lum pur im pressiona m esm o aos que tem os vivência das grandes cidades do Terceiro Mundo. A j ustaposição entre o pós-m oderno dos edifícios recentem ente construídos e as habitações tradicionais, o trânsito engarrafado, não deveriam chocar quem vive em São Paulo. Pois chocam . Assim com o cham a a atenção a peculiar m onarquia governante: há um rodízio de reis a cada 6 anos, contem plando várias fam ílias nobres de distintas regiões. E os reis ainda andam , com as rainhas, sob um pálio, havendo um a cor reservada à m onarquia, o am arelo. Nos banquetes m antém -se a high tàble onde se sentam os reis e os hóspedes especiais, sendo servidos por garçons que se aproxim am , só desta m esa, quase de cócoras e sem encarar os com ensais, com baixelas de ouro. Mas o que conta m esm o, quem m anda é o Prim eiro-Ministro, na época o fam oso Mahatir Moham m ed, que governou a Malásia durante 22 anos consecutivos, até 2003. Com ele m antive longas conversações e estivem os j untos novam ente em Buenos Aires, em reunião com outros presidentes latino-am ericanos. 9 Octavio Paz, Vislum bres de Ia índia, Barcelona, Planeta, 1996.

Na época, Mahatir travava um a guerra com o FMI, e outra com o m undo nãom uçulm ano, especialm ente com os j udeus. Suas receitas m acroeconôm icas (que, diga-se, tiraram a Malásia do aperto) im plicavam controle do fluxo de capitais, centralização do câm bio e forte intervencionism o. Nas em presas, sob a indução do Estado, buscava-se obter um equilíbrio entre as populações de origem m alaia, chinesa e indiana - os três principais grupos étnicos do país e outros setores, públicos ou privados. As com posições acionárias, em geral, obedeciam a esta lógica, sem pre conform e os interesse do governo. Na época, o hom em -chave da econom ia, o m inistro das Finanças Anwar Ibrahim , parecia ter idéias m enos heterodoxas. Pouco tem po depois foi acusado de um a série de supostos crim es e preso. Por m ais sedutoras que fossem as idéias intervencionistas, no câm bio, nos investim entos, com o em tudo o m ais, era óbvio que o com plem ento delas era a ausência da dem ocracia. Em nosso caso, um a receita que não respeitasse o Estado de direito era não só inviável com o indesej ável. Nós, não obstante, queríam os participar de algum as concorrências para a construção de hidrelétricas e para a exportação de m anufaturados. Os m alaios queriam que nós utilizássem os seu porto com o porta de entrada na Ásia, especialm ente para a China, com petindo assim com Cingapura.

Por fim , fiz proveitosa viagem à Coréia do Sul em j aneiro de 2001. O Presidente Kim Dae- j ung ganhara o Prém io Nobel da Paz, e com ele encontrei coincidência de propósitos, assim com o pude sentir nos em presários coreanos boa disposição de investir no Brasil, país no qual existe um a com unidade de não m enos de 50 m il im igrantes coreanos e descendentes. Pude ver de perto os progressos tecnológicos e m esm o assinar um acordo de cooperação na área de nanotecnologia. Mas o que m e im pactou m esm o foi visitar o paralelo 38, que divide as duas Coréias desde a guerra de 1950-1953. As linhas de aram e farpado e as m uralhas de concreto passam a não m uitos quilóm etros da capital, Seul, e cham a a atenção a disposição belicosa das tropas norte-am ericanas estacionadas do lado sul e das nortecoreanas, a pouca distância. Há um ponto, um m eeting point, em que o visitante vê o outro lado a cerca de cinco m etros de distância. O "lado de lá" é tão aterrador quanto o "lado de cá", em que o oficialcom andante expunha a m im , a Ruth e ao chanceler Lafer o estado de prontidão para a guerra. 654

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É bom ver de perto os resquícios da guerra fria para aum entar os tem ores de um a "guerra quente" que pode ser provocada por um a precipitação atóm ica, por exem plo, de algum a potência regional, som ada à incom preensão das grandes potências. Com o estávam os em m om ento de distensão, graças aos esforços do Presidente sul-coreano, aproveitei a deixa para, no salão próxim o ao m eetingpoint, fazer um a proclam ação pela paz à Coréia do Norte - diante de um m icrofone e de alto-falantes que ecoavam nos dois lados da linha de dem arcação- e anunciar que o Brasil, dentro do espírito de reconciliação anunciado, estava pronto para reatar relações com o regim e de Py ongy ang, coisa que fizem os. Daquela ocasião para hoj e, em bora tenha havido algum a distensão no relacionam ento entre as duas

Continuam as escaram uças entre

Coréias, no plano global houve pouco progresso.

Py ongy ang e Washington, sem pre com a Coréia do Sul tem erosa de ser a prim eira vítim a, e a China fazendo o j ogo da m ediação acanhada. Espanha e Portugal, grandes investidores, e o Rei, um fiador da am izade Com a Europa, o Brasil m antém relações culturais e políticas de outra natureza. O peso da História lim ita a criatividade do presente. Mesm o assim , houve algo de novo nos últim os quinze anos: a Europa Latina redescobriu a Am érica Latina. Em m ais de um a oportunidade m e referi às Cúpulas Ibero-am ericanas. Todos os anos os presidentes, reis e prim eirosm inistros de Portugal, Espanha e Am érica Latina têm um encontro. Muitas vezes critica-se a falta de "resultados práticos” dessas cúpulas. (Fui encarregado de apresentar um proj eto de rem odelação da cooperação neste âm bito e de revitalização das cúpulas, o que fiz em 2003, na reunião de Santa Cruz de Ia Sierra, na Bolívia, quando j á deixara a Presidência.) A verdade, no entanto, é que esses encontros, com o outros da m esm a natureza, aj udam no conhecim ento recíproco, na fam iliaridade m esm o, o que, em m om entos de necessidade, é de grande valia. Form am -se relações de confiança que, j unto com as cham adas telefónicas, facilitam grandem ente o relacionam ento entre os países. Pois bem , nesse contexto, os vínculos econôm icos e políticos da Am érica Latina com Portugal, Espanha, 656

França e, talvez em m enor proporção, com a Itália, aum entaram m uito. Pouco a pouco, esses países expandiram seus investim entos e hoj e alguns deles desfrutam posição de destaque com o nossos parceiros. No caso do Brasil, a presença portuguesa e espanhola se renovou. Isso não se deu ao acaso. Houve decisões políticas claras. Portugal, sob a inspiração do Presidente Mário Soares (1986-1996) e, em seguida, com a Presidência de Jorge Sam paio (sucessor de Mário, reeleito em 2001) e com António Guterres com o Prim eiroMinistro (1995-2002), todos socialistas (bem com o com o Prem ier social-dem ocrata José Manuel Durão Barroso, que governou de 2002 a 2004), decidiu claram ente reaproxim ar-se do Brasil, no que foi correspondido por nós. Os contatos entre líderes políticos, o m undo cultural e o económ ico se am iudaram . Em j aneiro de 1999, em plena crise cam bial brasileira, Guterres enviou seu m inistro da Econom ia, Joaquim Pina Moura, ao Brasil. Ele assistiu à inauguração de um a fábrica com capitais portugueses no Paraná, discursou reafirm ando a crença no Brasil e na continuidade dos investim entos de seu país e transm itiu-nos o apoio e a confiança de seu governo. Não foi diferente a resolução espanhola. Por ocasião da Cúpula Ibero-Am ericana em Havana, recebi convite para j antar na em baixada espanhola com o Rei Juan Carlos e o Prim eiroMinistro José Maria Aznar, do centro-direitista Partido Popular (PP), então no poder há três anos. Aznar m e assegurou, com a anuência do Rei, que seu país apostava no Brasil e que, a despeito da afinidade de idiom a da Espanha com os países de língua castelhana, aconteceu. investim entos no Brasil. O governo anterior, do socialista Felipe González (1982-1996), havia sido decisivo para intensificar o relacionam ento entre a União Européia e o Mercosul. Poucos dirigentes europeus, se é que algum (com exceção dos portugueses), têm com o Felipe González conhecim ento da política brasileira e sim patia para com nosso país. Dele se pode dizer, parodiando Garcia Lorca no poem a a Ignácio Sanchez Mej ía, toureiro m orto na arena, que custará m uito a nascer, se é que nascerá, um andaluz tão puro de intenções em suas relações com a Am érica Latina. Felipe tem visão abrangente do m undo e calor hum ano m uito especial para sentir suas dores. Não lhe faltam tam bém a coragem e a determ inação racional para enfrentar os desafios da atualidade, com o fez na Espanha. Com estilo oposto, cortante seriam conosco as relações prioritárias na Am érica Latina. Assim Em presas espanholas realizaram e continuam realizando gigantescos

com o um a espada de Toledo, o castelhano filho de basco José Maria Aznar, sucessor de Felipe, representou tam bém um sólido ponto de apoio para a aproxim ação entre os dois países. Existem duas Espanhas, com o eles próprios se deliciam em dizer. Um a m ais católica, m ais quixotesca e conservadora, na qual os princípios são com o labaredas que podem consum ir seus obj etos de dedicação. E outra, m ais liberal, capaz de aceitar m ais facilm ente a pluralidade e o com prom isso. A verdade é que um a e outra Espanha se reencontraram na Am érica Latina atual. Dá gosto ver com o pessoas tão díspares são unânim es na sim patia pelo Brasil: Manuel Marín, que conheci quando com issário da União Européia encarregado da Am érica Latina e m ais tarde, deputado socialista, seria o presidente do Congresso de Deputados da Espanha; ou Fernando Solana, m eu ex-colega m inistro do Exterior

- ele da Espanha, eu do Brasil - , que se tornou um a espécie de m inistro da Defesa e do Exterior da Europa;

ou, ainda, Narcis Serra, ex-vice-presidente do Conselho de Ministros e ex-m inistro da Defesa de Felipe González; sem contar os veteranos Manuel Fraga, de longa carreira desde os tem pos do ditador Franco e, na dem ocracia, várias vezes governante da Galícia, ou Jordi Puj ol, que por m ais de vinte anos dirigiu a Catalunha. Personalidades m arcantes com o m esm o ânim o positivo em relação a nós são tam bém Alberto RuizGallardón, do PP, prefeito de Madri quando term inei de escrever este livro, no com eço de 2006, e Esperanza de Aguirre, presidente da região autónom a de Madri, do m esm o PP, m as de ala distinta à de Gallardón. Com todos eles tive o gosto de lidar, encontrando em cada um o genuíno sentim ento e interesse em buscar aproxim ação conosco. Sobre todos, porém , para m im , resplandece a figura ím par de los Rey es, com o dizem lá, Juan Carlos e Sofia. A esta altura, perm ito-m e um a pequena indiscrição para m ostrar em que am biente de fraternidade se dão hoj e as relações entre dirigentes brasileiros e alguns líderes espanhóis. Num a de suas várias visitas ao Brasil, quando os reis da Espanha estavam para regressar a seu país, o Rei Juan Carlos e eu nos despedim os ao telefone, O roteiro da viagem incluíra, a pedido do casal real, um a estada de uns poucos dias na Am azónia. No telefonem a, o Rei contou-m e sobre um pequeno incidente, quando a Rainha, brincando com um m acaco, sofrera um a m ordida. Tem pos depois, estando na Espanha com Ruth, nosso filho Paulo Henrique, sua m ulher,

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Evangelina Paranaguá Muniz Gouveia, e nossa filha Beatriz, a fam ília real gentilm ente nos convidou para j antar. Cham ei m eus filhos e, com o gosto de fazer brincadeiras, disse-lhes que se tratava de encontro extrem am ente form al. Instruílhes, m encionando um suposto item do protocolo real: j am ais se dirij am aos reis senão quando por eles perguntados, e, quando o fizerem , usem sem pre o cerim onioso tratam ento de "m aj estade". Estando presente o Príncipe Felipe (que, eu sabia, não iria ao j antar), é de praxe cham á-lo de "alteza". A reação não poderia ser pior: se é assim não irem os, porque não sabem os com o usar essas form alidades etc.

Mas foram . O j antar seria na residência dos reis, o Palácio de Ia Zarzuela, um tanto retirado, nos lim ites de Madri. A Zarzuela, onde estivera antes algum as vezes e voltei posteriorm ente, m ais parece um a boa casa de fazenda do que um palácio. É espaçosa, com alguns acréscim os ao corpo principal, com o se faz nas zonas rurais. Salas am plas, sem luxo, com antesalas. Autom óveis entram por um portão lateral. Há outras dependências m ais burocráticas, com outra entrada. Fom os recebidos m uito natural e sim plesm ente. Os reis estavam vestidos de m aneira pouco form al. A Rainha Sofia, se pode parecer reservada ao prim eiro contato, é m uito inteligente e agradável logo que ganha confiança nos interlocutores. Ela foi logo dizendo, de bom hum or, que trazia m arcas indeléveis do Brasil na própria pele, referindo-se à m ordida que sofrera e lhe deixara leve cicatriz. Pouco tem po depois noto que Beatriz e o Rei m antinham longa conversação, sem a m enor cerim ônia, e nem sem pre estando de acordo, sobre um a terra m uito querida de am bos, a Catalunha, região de forte sentim ento nacionalista dentro da Espanha. Beatriz viveu e estudou na capital da Catalunha, Barcelona, onde se especializou em psicologia infantil no Instituto Municipal de Pedagogia, chegando a escrever um a tese em catalão. Um a zero, pois "Sua Maj estade" não fala catalão, logo com pensado por um em pate, pois o português do Rei, aprendido no exílio de sua fam ília no Estoril, em Portugal, é m elhor no vernáculo do que o nosso. Para culm inar e m ostrar o m odo gentil e fam iliar com que fom os tratados, quando nos dirigíam os à sala de j antar, ao passar por um corredor no qual havia alguns óleos retratando figuras da nobreza, Beatriz se dirige à Rainha Sofia:

- Eres tu?-perguntou, lançando m ão de um pronom e pessoal que só se usa na Espanha quando se tem intim idade com o interlocutor.

Foi dem ais. Meu conservadorism o de com portam ento (a m eus próprios pais nunca dei outro tratam ento que o de "o senhor" e "a senhora") falou m ais alto:- Maj estade - disse eu à Rainha, carregando no form alism o, que não era usual no trato entre os dois casais -, não há solução; treinei direitinho todos eles e vej a só o que acontece...

Daí por diante, num a sala de j antar pequena, sentam o-nos ao redor de um a m esa quadrangular, que deixava os convivas próxim os uns dos outros, num am biente cálido, à vontade. A conversa fluiu na boa e tradicional m aneira do encontro entre pessoas que se querem e dão m ais atenção à substância dos sentim entos e dos pensam entos do que às investiduras que representam .

O fato é que m inhas relações pessoais se estreitaram m uito com os dirigentes da Península Ibérica e desde então houve, com o continua a haver, consultas perm anentes entre nossos governos e apoio claro a nossos pleitos, no FMI e nos concílios políticos em geral.

Com António Guterres, tanto quando Prim eiro-Ministro (1995-2002) com o depois, tive m uitas ocasiões para que pudesse apreciá-lo e respeitálo cada vez m ais. Passam os inesquecível fim de sem ana no Pantanal, com ele, seus filhos e um a irm ã, após o falecim ento de sua esposa, Luísa. Com Jorge Sam paio e sua m ulher, Maria José Ritta, do m esm o m odo, os encontros foram e continuaram a ser o de antigos am igos. Sam paio (1996-2006) é um intelectual refinado que redefiniu o papel da Presidência portuguesa de m aneira absolutam ente dem ocrática e fiel ao espírito da Constituição. E de Mário Soares (Prim eiro- Ministro de 1976 a 1978 e de 1983 a 1985, além de Presidente de 1986 a 1996) e Maria Barroso - ela com luz própria, com o ex-atriz, veterana m ilitante socialista e ex-deputada -, o que dizer, senão invej ar-lhes o ânim o e renovar a adm iração pelos serviços prestados à causa da dem ocracia? Recordo-m e de que pouco antes da Revolução dos Cravos (1974), Mário esteve em São Paulo. Foi difícil j untar alguns am igos no Cebrap que o ouviram dizer, sem que acreditássem os, que a ditadura salazarista, liderada por Marcelo Caetano, cairia em breve. Depois viaj ei a Portugal tantas vezes a estar com ele, em cam panhas eleitorais ou em seus gabinetes de m inistro do Exterior, Prim eiro-Ministro ou Presidente da República, que não sabia com o, enquanto finalizava

este livro, deixar de m e em ocionar vendo-o novam ente a dar o m elhor de si, na flor dos oitenta anos, para tentar sem sucesso levar seu Partido Socialista à vitória, nas eleições presidenciais de j aneiro de 2006. Revendo a guerra fria diante de Gorbachov

Com os dem ais países europeus, se não houve revigoram ento tão notável no que diz respeito aos investim entos, o nível de convergência política aum entou m uito. Com a Alem anha, especialm ente, país que visitei em três ou quatro oportunidades, no qual se originam fam ílias de m ilhões de brasileiros e que tem investim entos produtivos há longos decénios no Brasil, estabelecem os, desde o tem po de Helm ut Kohl (1982-1998), um program a de apoio às reivindicações ecológicas. O dem ocrata-cristão Kohl é um gigante, e não só no tam anho físico, com seus 2,03 m etros de altura. É um hom em cortante, até áspero no contato, aparência, rude à prim eira vista, contrasta com um a aguda visão da Mesm o com as am arguras que sofreu, com o um m arco na nova Europa. Na acusações que sofrera por suposto uso de dinheiro irregular para fins partidários, e não sendo m ais Prim eiro-Ministro, cham ei-o ao telefone em Berlim para lhe dar um abraço. A voz vigorosa respondeu:

- Eu vou continuar lutando e vencerei.

Vi-o bem depois, em m arço de 2005, em um encontro de três dias em Turim , na Itália, patrocinado pelo World Political Fórum , entidade ligada à Fundação à Fundação 2005". No segundo dia, em tarde m em orável, j untaram -se o próprio ex-Presidente da extinta União Soviética Mikhail Gorbachov, Kohl e o ex-Prim eiro-Ministro italiano Giulio Andreotti para nos contarem com o se deu o degelo Leste-Oeste em seguida à perestroika e à queda do Muro de Berlim . Ouviu-se a História vivida e contada. Num salão belíssim o de um antigo edifício de Turim , assistiam pouco m ais de cem personalidades. Muita gente que queria ver os líderes ficou de fora por falta de lugar. Antes de com eçar a sessão sentei-m e ao lado de Andreotti, que, atento e ativo aos 88 anos, tom ava notas num bloco.

Fascinou-m e tratarem , entre outros assuntos, de com o se processava a com unicação entre governantes durante o período da guerra fria. Referiam -se

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o reunificador prim eira volta da Alem anha à Alem anha m as sua

História. continua após as

não apenas a eles próprios, todos protagonistas do período - Andreotti em m enor grau, devido à m enor im portância relativa da Itália em m atéria de confrontação com o bloco soviético -, m as tam bém a vários líderes que tiveram papel nesse processo, especialm ente o Presidente am ericano Ronald Reagan e a Prim eira-Ministra britânica Margaret Thatcher (1979-1990). Tudo durante a guerra fria era com plicado, às vezes dificílim o, contaram . Falo ou não pelo telefone? O que devo dizer? Com o serei recebido? Todos os detalhes eram interessantes. Veio-m e a sensação de que tudo aquilo parecia ter acontecido ontem , e no entanto estavam ali, naquele auditório, personagens que fizeram História, sobretudo Gorbachov, senhor de todas as Rússias de 1985 até o fim da União Soviética, em 1991. Conheci Gorbachov há m uitos anos e estive várias vezes com ele. É um hom em efusivo, cordialíssim o, vital. Acredita realm ente na dem ocracia. Minha adm iração por ele inclui o fato de, ainda enquanto governante, ter sido um dos prim eiros líderes m undiais, e com certeza o prim eiro da exURSS, a dizer que o m undo m udou tanto que questões com o o m eio am biente são causas da Hum anidade inteira e ultrapassam classes sociais, convicções políticas e fronteiras nacionais. Isso é de um significado im enso para quem , com o ele, e de algum a m aneira tam bém pessoas de m inha geração em todo o m undo, teve desde sem pre enraizados, por form ação, conceitos com o nação e classe. Em Turim , ao revê-lo nas circunstâncias que descrevo, parecia-m e que no fundo estava assistindo ao início do m undo contem porâneo, em que a Alem anha de Kohl j ogou papel crucial, O sucessor de Kohl, o social-dem ocrata Gerhard Schroeder (1998- 2005), esteve m ais de um a vez no Brasil, dem onstrando que a aproxim ação política com a Alem anha continuara. Entre os m uitos contatos que tivem os, um dia, em 2000, ele m e telefonou pedindo que eu aj udasse a obter votos para o candidato que indicava à substituição de Cam dessus no FMI. Tratava-se de seu vice-m inistro da Econom ia, Caio Koch Weser, que nasceu no Brasil, aqui viveu algum tem po e é fluente em português. Acabou não sendo possível obter acordo entre os países ricos para o lançam ento de Weser. Para seu lugar, os europeus indicaram o tam bém alem ão Horst Kõhler, ex-presidente do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvim ento (e, posteriorm ente, Presidente da República Federal da Alem anha), para quem orientei alguns votos, sem pre a pedido de 662

Continuar: parte 4 de 4