A Bomba de Hiroxima
Ativação
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
* * *
O teste foi adiado, enquanto os angustiados meteorologistas tentavam prever as condições na hora seguinte.
Finalmente, foi marcado para aproximadamente 5:30 horas da manhã.
Às 5:25, os observadores que ainda estavam em terreno aberto ocuparam suas posições finais, deitando-se no chão, os rostos virados para baixo, os pés voltados para a direção da explosão.
Às 5:29 entrou em funcionamento o último dos mecanismos automáticos de tempo. Faltavam 45 segundos para a explosão.
Oppenheimer e sua equipe principal esperavam numa casamata de concreto, muito tensos. Groves estava numa trincheira a pouca distância do diretor científico, porque “queria que estivéssemos separados em caso de haver problemas”.
5 horas, 29 minutos, 35 segundos.
De outro abrigo, um homem falou pelo microfone ligado aos quatro abrigos em torno da área:
Zero menos 10 segundos.
Um clarão esverdeado riscou o céu, sob as nuvens baixas, iluminando rápida e fantasticamente a escuridão.
5 horas, 29 minutos, 40 segundos.
— Zero menos cinco segundos.
Houve um segundo clarão.
5 horas, 29 minutos, 43 segundos.
O silêncio e a escuridão reinavam novamente sobre o deserto. 5 horas, 29 minutos, 44 segundos.
As 5 horas, 29 minutos e 45 segundos tudo aconteceu de uma o vez. Foi rápido demais para que os observadores pudessem distinguir. Nenhum olho humano pode diferençar entre milionésimos de segundo. Nenhum cérebro humano registra essa fração de tempo. Ninguém, portanto, viu realmente o primeiro relâmpago de fogo cósmico. O que todos notaram foi o ofuscante reflexo nas colinas no redor. O observador do New York Times disse que foi:
uma luz que não era deste mundo, a luz de muitos sóis reunidos em um. Foi um nascer-do-sol como o mundo jamais tinha visto, um imenso supersol verde subindo numa fração de segundo para uma altura de mais de 2.500 metros, continuando a se elevar ainda mais alto até encostar nas nuvens, iluminando a terra e o céu ao redor com uma luminosidade ofuscante. Era uma grande bola de fogo com cerca de 1500 metros de diâmetro, mudando de cor à medida que subia, de púrpura a laranja, expandindo-se, ficando maior, elevando-se enquanto se expandia, uma força elementar libertada de seus grilhões, depois de estar acorrentada por bilhões de anos. Por um instante fugaz, a cor foi de um verde que não era deste mundo, como o que só se pode avistar na coroa do sol durante um eclipse. Era como se a terra se tivesse aberto e o céu fosse rompido. Tinha-se a sensação de ser um privilegiado por testemunhar o nascimento do Mundo . . . de estar presente no momento da Criação em que o Senhor disse: Faça-se a Luz!
Muitos observadores ficaram paralisados, pregados ao chão por uma mistura de medo e respeito pela imensidade do espetáculo. Oppenheimer recordou uma frase do Bhagavad Gita, o épico sagrado dos hindus: “Eu me tornei a morte, a destruidora de mundos.”
A nuvem sinistra continuou a se expandir e a subir, as pressões internas encontrando vazão num cogumelo depois do outro, final mente desaparecendo no céu do amanhecer, a mais de 12 mil metros de altura. No Ponto Zero, a temperatura, no momento da explosão, fora de 100 milhões de graus Fahrenheit, três vezes mais quente do que o interior do sol e 10 mil vezes mais do que o calor na superfície.
Dentro de um raio de 1500 metros do Ponto Zero, toda a vida, vegetal e animal, desaparecera. Em torno do que fora antes a base da torre, a areia havia sido comprimida, formando uma espécie de pires branco de tão quente, com cerca de 500 metros de diâmetro. Nunca antes existira uma areia como aquela sobre a face da Terra. Quando esfriou, transformou-se numa substância vítrea, coloração verde-jade, desconhecida dos cientistas.
A torre de aço, imune a qualquer calor conhecido na era pré-atômica, transformara-se em gás e se dispersara.
Groves foi um dos primeiros que recuperaram o controle. Virou-se para seu assistente, General Thomas Farrell, e fez uma predição.
— A guerra terminou. Uma ou duas explosões assim, e o Japão estará liquidado.
9
Furman e Nolan, os dois jovens especialistas do Projeto Manhattan que estavam escoltando alguns dos componentes vitais da bomba para Tinian, ficaram observando os preparativos finais para a partida do Indianapolis.
Não sabendo muita coisa a respeito de navios e canhões, Furman e Nolan ficaram impressionados com a elevada superestrutura e com as baterias de canhões de oito polegadas do Indianapolis. O cruzador era a nave capitânia, do Almirante Raymond A. Spruance, Comandante da 5.a Esquadra. Ele estava no momento em Guam, ajudando a planejar a invasão do Japão. Felizmente, os dois ignoravam que o Almirante achava que o centro de gravidade do navio era alto demais, o que faria com que emborcasse e afundasse rapidamente, se atingido em cheio por um torpedo.
O grande problema do Indianapolis era a idade. Sua quilha fora lançada ao mar em 1932, muito antes do advento do radar. Para que pudesse permanecer no serviço ativo, haviam ajustado diversos equipamentos ao navio, depois de Pearl Harbor. A superestrutura estava repleta de mecanismos de radar, que eram eficazes, mas muito pesados. Para aqueles que o conheciam bem, o venerando navio de guerra parecia estar sempre correndo o risco de emborcar. Era uma estranha escolha para transportar os componentes cruciais da arma mais sofisticada do mundo.
Para Furman e Nolan, a viagem até Tinian se apresentava com todos os elementos de um cruzeiro de luxo. Nada teriam para fazer, além de se revezarem na vigilância do tubo de chumbo que continha o projétil de urânio. O recipiente fora soldado no chão do espaçoso camarote que eles ocupavam. O caixote contendo o canhão da bomba estava preso no tombadilho, vigiado por fuzileiros 24 horas por dia. Havia um homem armado em cada quina do caixote, o que fazia com que parecesse um esquife.
Os rumores espalharam-se por todo o navio. Nos alojamentos e refeitórios, faziam-se apostas sobre a natureza da misteriosa carga. Dizia-se que era qualquer coisa, desde um foguete secreto até ouro para “subornar os japoneses e fazer com que se rendam”.
Até mesmo o Comandante do navio, Capitão Charles Butler McVay III, de 46 anos, também não sabia coisa alguma sobre a carga misteriosa e por que estava fazendo aquela viagem sem escalas até as Marianas.
No dia anterior, Parsons viera de Los Alamos para dar instruções a McVay. Os dois se encontraram no gabinete do Almirante William Purnell, no Embarcadero, em São Francisco. Parsons explicara a missão em palavras que McVay jamais iria esquecer:
— Seguirá a toda velocidade para Tinian, onde sua carga será apanhada por outros. Não saberá o que é a carga, mas deverá protegê-la a qualquer custo, mesmo que tenha de sacrificar seu navio. Se este por acaso afundar, salve a carga de qualquer maneira, nem que seja em escaleres. E não se esqueça de que cada minuto que conseguiu encurtar na viagem será menos um minuto para o término da guerra.
Aturdido, mas tendo o bom senso de não fazer perguntas, McVay voltara a seu navio ainda procurando imaginar o que seria a carga e por que o Indianapolis fora escolhido para transportá-la.
O acaso é que determinara a escolha do Indianapolis. Estava disponível e, do ponto de vista de espaço e velocidade, era conveniente. Mas ninguém podia ter certeza se o velho cruzador se recuperara plenamente das avarias sofridas em Okinawa, quando um avião kamikaze matara nove tripulantes e abrira dois rombos no casco. Os operários de Mare Island, o grande estaleiro de reparos da Costa do Pacífico, instalaram um novo tombadilho de bombordo, equipamentos de rádio e radar e mecanismo de combate a incêndios. O Indianapolis recebera também uma nova “equipe”. O Capitão McVay e outros oficiais ainda permaneciam na tripulação, porém mais de 30 oficiais, quase a metade do efetivo do navio, e cerca de 250 marinheiros e graduados haviam embarcado, em substituição aos veteranos de Okinawa. A maioria dos novos oficiais era recém-saída da Academia Naval. Muitos dos marinheiros tinham recebido apenas um treinamento básico.
McVay planejara prepará-los numa série de exercícios ao largo da costa da Califórnia. Mas esses planos foram cancelados. Com oficiais e tripulantes inexperientes, com um navio que praticamente não fora testado no mar depois de receber consideráveis reparos, ele teria que zarpar imediatamente para o Pacífico.
O capitão mandou chamar Nolan, que lhe disse, por sugestão de Parsons, que não era um oficial de artilharia, mas sim do “serviço médico”, assegurando que a carga nada continha que pudesse representar algum perigo para o navio ou a tripulação.
McVay fitou Nolan atentamente, antes de comentar:
— Não creio que usemos armas bacteriológicas nesta guerra. Nolan não respondeu. Voltou para o camarote em que estava Furman, de vigia ao tubo de chumbo, deixando McVay tão confuso quanto antes.
Exatamente às oito horas da manhã, o Indianapolis levantou âncora. Trinta e seis minutos depois, passou sob a Ponte Golden Gate, seguindo para o alto-mar.
10
Pouco depois de sua chegada a Potsdam, na manhã de segunda- feira, 16 de julho, Churchill fez uma rápida visita a Truman. Era a primeira vez que os dois se encontravam. Truman “simpatizou imediatamente” com Churchill, que tratou de estabelecer “um relacionamento amigável” com o Presidente americano, demonstrando “uma acentuada disposição para concordar ao máximo possível”.
Os dois líderes mundiais se separaram, depois de conversar sobre a notícia de que Stalin não passava bem, e chegaria um dia atrasado para a conferência. Os dois achavam, acertando em cheio, que o líder soviético estava-se recuperando de um pequeno distúrbio cardíaco.
Truman aproveitou o adiamento da conferência para visitar as ruínas de Berlim. Ficou bastante impressionado, comentando que tanta destruição era “uma amostra do que pode acontecer quando um homem (Hitler) se excede”.
Ao voltar a Babelsberg, Truman recebeu uma mensagem por intermédio de Stimson, que acabara de chegar de Washington. A mensagem transformava Truman no mais poderoso dos três líderes que em breve iriam sentar-se na mesa de negociações.
A mensagem dizia:
OPERADA ESTA MANHÃ. DIAGNÓSTICO NÃO COMPLETO MAS RESULTADOS PARECEM SATISFATÓRIOS E JÁ EXCEDEM EXPECTATIVAS. NOTICIA PARA IMPRENSA LOCAL NECESSÁRIA POIS INTERESSE SE ESTENDE A GRANDE DISTÂNCIA. DR. GROVES SATISFEITO. ELE VOLTA AMANHÃ. VOU MANTÊ-LO INFORMADO.
FIM
A mensagem comunicava a Truman que o teste em Alamogordo fora um sucesso, a tal ponto que fora necessário distribuir á imprensa uma notícia previamente preparada, dizendo que um paiol explodira, “produzindo um clarão e uma explosão” que tinham sido observados a mais de 300 quilômetros de distância.
Ao ler a mensagem, Truman compreendeu que “os Estados Unidos estavam de posse de uma força explosiva de uma potência sem precedentes”. Ele mandou que Stimson respondesse, e a seguinte mensagem partiu de Potsdam:
ENVIO MEUS CALOROSOS PARABÉNS AO DOUTOR E A SEUS ASSISTENTES.
Ao meio-dia de terça-feira, enquanto Stimson se encontrava com Churchill e lhe apresentava a boa notícia de Alamogordo, Stalin fez uma visita a Truman.
O Presidente americano ficou bastante impressionado com o líder soviético, e achou que poderia “conversar com ele francamente. Stalin me fitava nos olhos quando falava e senti a esperança de que poderiamos chegar a um acordo que seria satisfatório para o mundo e para nós mesmos”.
Mas Truman não ficou impressionado o suficiente com Stalin para confidenciar-lhe que acabara de saber da explosão bem-sucedida da primeira bomba atômica. Também não o fez mais tarde, no se encontrarem novamente para a sessão inicial da Conferência de Potsdam.
Não que isso fizesse muita diferença. Os russos já sabiam da bomba atômica, através da traição de alguns cientistas do Projeto Manhattan, que estavam fornecendo informações secretas à União Soviética. Os cientistas russos empenhavam-se numa tentativa de alcançar os americanos.
* * *
Naquela noite, Truman analisou os resultados de Alamogordo com Stimson, o Secretário de Estado Byrnes e o Almirantes Leahv, que se recusara obstinadamente a acreditar que a bomba atômica pudesse funcionar. Ao jantar, os Chefes do Estado-Maior Conjunto General Marshall, General Arnold e Almirante King — participaram também da conversa.
Truman se absteve de perguntar a Leahy se não desejava agora fazer uma revisão de suas previsões anteriores. Em vez disso, tratou de cuidar de outros problemas, como diria mais tarde:
Fizemos uma revisão de nossa estratégia militar, à luz desse desenvolvimento revolucionário... não sabíamos ainda qual o efeito que a nova arma poderia ter, física ou psicologicamente, quando usada contra o inimigo. Por esse motivo, os militares aconselharam que deveriamos prosseguir com a execução dos planos para a invasão das ilhas do Arquipélago japonês.
Os dados tinham sido lançados. A bomba estava pronta. Não haveria mais testes para indicar o que poderia fazer na guerra. Se os japoneses não reagissem positivamente ao apelo final para a rendição, que Truman estava planejando fazer, então o Presidente teria que assumir a responsabilidade da decisão pelo uso ou não da nova arma.
11
Ferebee foi ao encontro de Tibbets assim que o avião aterrou em Tinian, a 18 de julho, depois de uma viagem de três dias desde Wendover. E suas primeiras palavras foram:
— As notícias são péssimas, Paul.
Depois de ouvir o que Ferebee tinha a dizer, Tibbets compreendeu que fizera bem ao largar tudo e vir correndo para Tinian. O futuro do 509.° estava em perigo, como Ferebee disse:
— Então tentando destruir sua unidade, Paul.
Estava em andamento um esforço determinado para acabar com o 509.° e redistribuir as equipes de vôo e de terra por outros grupos baseados na ilha. Diversas razões eram apresentadas para essa tentativa surpreendente: os aviadores do 509.° se iriam beneficiar por trabalharem junto com veteranos em combate; eram necessários para preencher os lugares vagos deixados pelas tripulações que desapareceram sobre o Japão; as equipes de terra ajudariam os mecânicos dos outros grupos, assoberbados de trabalho pelo fluxo interminável de bombardeiros que erguiam vôo em missões de combate.
Tibbets desconfiava de que todas essas razões não passavam de pretextos. Como Ferebee, o coronel agora achava que o problema era causado pela inveja dos outros diante da situação especial do 509.°.
O problema fora agravado por um atrito recente entre Ferebee e LeMay, em Guam. Os dois se conheciam da Europa, e o respeito mútuo era grande. Baseava-se em parte no fato de que, apesar da distância considerável de posto entre o Major Ferebee e o General LeMay, eles sempre se haviam falado com toda franqueza.
LeMay conseguira irritar Ferebee, lançando dúvida sobre a capacidade de Tibbets de voar a missão atômica. Ferebee explodira:
— Escute, General, escute bem! Se o Coronel Tibbets não esta qualificado para a missão, então também não estou, ninguém esta! Não existe ninguém qualificado em toda a Força Aérea nem na Marinha!
LeMay dissera a Ferebee que se acalmasse.
O conselho não fora acatado. O bombardeador continuava furioso, ainda mais agora que soubera de “uma tentativa da Marinha de fazer com que seus homens voem a missão”.
Tibbets conhecia o piloto naval escolhido pela Marinha... e não gostava dele. Para Tibbets, o aviador da marinha era “uma primadona, a personalidade errada para a missão”.
Tibbets prometeu a Ferebee que iria falar com LeMay “amanhã e acertar tudo de uma vez por todas”.
* * *
A volta de seu comandante foi como um tônico para o 509.°. As zombarias das outras unidades haviam aumentado. À noite, alguns aviadores costumavam jogar pedras nos telhados dos alojamentos do 509.°, ao passar pelo Campo Norte, a caminho de outra missão sobre o Japão.
O popular substituto de Tibbets, Tenente-Coronel Tom Classen, tentara atenuar a crise. Tibbets tinha a impressão de que Classen estava achando quase insuportável a tensão de um segundo turno no exterior, na frente de combate.
O oficial de informações do grupo, o gordo Tenente-Coronel Hazen Payette, também desapontara Tibbets. Payette era um advogado experiente e sempre se preocupara com fatos, não com sentimentos; com resultados, não com desculpas. Em Tinian, ele levara isso a um excesso.
— Ao tentar manter os homens na linha, ele pisou em muitos pés — foi o comentário do operador de rádio Dick Nelson sobre o comportamento de Payette.
Este também conseguira irritar o Coronel E. E. Kirkpatrick, o representante de Groves em Tinian, o homem que fizera milagres para preparar as instalações da ilha para o 509.°, antes e desde sua chegada.
Tibbets não sabia que Groves estava recebendo relatórios regulares do 509.° enviados por Kirkpatrick. Era um exemplo clássico da maneira como Groves operava: em seu mundo perfeito, todo mundo vigiava todo mundo.
Para o 509.°, Kirkpatrick era apenas mais um oficial estranho agregado à unidade. Cientistas de Los Alamos, homens que o pessoal do 509.º praticamente jamais vira antes, estavam aparecendo toda hora em Tinian e se instalando na área reservada ao grupo.
A presença dos cientistas criava um trabalho burocrático inesperado para o oficial de rancho Charles Perry. Ele recebera ordens escritas da Diretoria de Intendência, com sede em Washington, para cobrar 35 cents por cada refeição que os civis comessem, fazendo recibos e enviando relatórios completos para a América.
Perry achava que isso era “simplesmente uma estupidez”. Ele não desconfiava de que, por trás de tudo isso, havia uma contínua preocupação do Projeto Manhattan pelo uso de cientistas civis trabalhando ao lado de militares, para construir e empregar uma arma militar. Em Los Alamos, muitos cientistas recusavam-se a usar uniforme. Ali em Tinian, usavam uniformes cáquis, sem insígnias nem identificações.
O pagamento das refeições contribuía para manter “distância” entre os cientistas civis e os militares.
Beser não tinha paciência com tais escrúpulos. Em sua opinião, era “apenas uma questão de querer jogar com um pau de dois bicos. Na verdade, eles faziam parte do esforço de guerra americano, como todo mundo”.
Nas sete semanas em que estava em Tinian, Beser realizara apenas alguns vôos curtos, para verificar seus equipamentos. O mais próximo que estivera de alguma ação fora quando uma solitária bateria antiaérea de Rota abrira fogo contra seu B-29, voando muito alto para ser atingido.
Alguns dias antes, um amigo no 504.° convidara Beser a voar em sua companhia, como passageiro, num ataque com bombas incendiárias ao Japão.
Classen e Sweeney, agora no comando do 393.° Esquadrão de Bombardeio Pesado, recusaram permissão a Beser.
O tenente achou que a súbita chegada de Tibbets era uma sorte. O coronel poderia conceder-lhe permissão a tempo, pois o ataque estava marcado para aquela noite. Foi procurar Tibbets no alojamento e apresentou novamente o pedido.
— Lamento, Jake, mas você não pode ir.
Beser ficou desesperado.
— É apenas um ataque, Coronel. ..
— Não.
Tibbets recostou-se em sua cama, dando a entender que o assunto estava encerrado.
Beser interpretou erroneamente o gesto. Pensou que Tibbets estava simplesmente cansado da viagem desde Wendover e que poderia conceder-lhe a permissão com mais um pouco de persuasão .
— Paul, estou querendo apenas ir numa única missão, só para ver como é.
Tibbets levantou-se da cama de um pulo.
— Mas que diabo, Tenente Beser! Eu já disse que não e é não mesmo! E agora suma daqui e vá cuidar de sua vida! E da próxima vez em que vier apresentar-me um pedido, trate-me de Coronel Tibbets! Entendido?
Amargurado, Beser deixou o alojamento e espalhou a notícia de que “o Velho está um bocado nervoso”.
* * *
As longas ausências de Tibbets haviam convencido Lewis de que, quando chegasse o momento da grande missão, o comandante não estaria a bordo e ele próprio levaria o avião. As razões de Lewis para chegar a essa conclusão estavam baseadas em diversas premissas.
Achava que sua folha de serviços e a de sua tripulação ajustavam-se perfeitamente à missão. Além disso, imaginava que Tibbets se contentaria em ser “um comandante de cadeira, planejando a operação, mas deixando a execução aos homens que voavam regularmente os B-29”.
Lewis concluira também, que Tibbets “não tinha um avião”. Tecnicamente, isso era verdade. O comandante do 509.° não reservara um bombardeiro para si mesmo; em vez disso, preferia voar quase sempre com Lewis. Na opinião de Tibbets, isso deixava bem claro para qualquer um que tivesse “um mínimo de juízo que Lewis e seus rapazes eram realmente a minha tripulação. Quando eu estava a bordo, Lewis era o co-piloto e a direção do aparelho era minha”.
Lewis interpretou a questão “de modo um tanto diferente. Primeiro, Tibbets nunca havia estado em meu avião desde que eu o recebera da fábrica; segundo, ele não tinha voado conosco sobre Tinian; terceiro, eu era capaz de voar tão bem quanto ele — ou tão bem quanto qualquer outra pessoa.
Somente Eatherly igualava Lewis na ansiedade em participar da missão. Ele até mesmo batizara seu B-29 de Straight Flush, em parte por causa de sua paixão pelo jogo e em parte porque achava que sua tripulação era a melhor do grupo.
Quaisquer que fossem os padrões de vôo alcançados pelos homens do Straight Flush, ninguém os igualava na boa vida que levavam em terra. Através dos bons ofícios de Eatherly, eles haviam herdado um grupo de cinco enfermeiras em Tinian. Numa ilha repleta de homens desesperados por companhia feminina, era o melhor presente que Eatherly lhes poderia dar. Os oficiais, equipados com perfumes e meias de seda trazidos da América, “chegaram, viram e venceram”, nas palavras do engenheiro de vôo Eugene Greennan.
A partir desse momento, passaram a viver “nos braços das deusas que nos esperavam”.
Para os outros oficiais, as noites em Tinian eram compridas. Alguns, como o navegador Russell Gackenbach, aliviavam o tédio fazendo intermináveis brincadeiras. A especialidade dele era insinuar-se pela escuridão da noite e jogar sinais luminosos nas fogueiras que ficavam acesas por todo o conjunto durante a noite. As explosões dos sinais luminosos criavam bastante pânico . . . e divertiam muito a Gackenbach.
Caron imaginou uma maneira diferente de passar suas noites. Quando não estava assistindo a um filme, removia, furtivamente, tábua por tábua, partes do clube dos oficiais, a fim de fazer um alpendre em seu alojamento. O trabalho estava indo muito bem e ele esperava que ficasse concluído antes do dia da missão. Se fosse o escolhido, planejava usar o novo quepe da equipe de beisebol do Brooklyn Dodgers que acabara de receber.
O engenheiro de vôo Duzenbury encontrara a maneira potencialmente mais perigosa de passar suas horas de folga. Apesar de ter sido informado de que os japoneses em Tiniam haviam matado recentemente dois soldados americanos, ele fazia excursões noturnas com alguns amigos, todos armados com carabinas, saindo pela selva à procura de souvenirs, “armas e baionetas japonesas”. Até aquele momento, em suas buscas em cavernas, Duzenbury já descobrira três garrafas de saque, mas não apreciara o gosto.
* * *
Ao cair da noite de 18 de julho, Tibbets recebeu uma mensagem em código. Era de Groves. Informava que o teste em Alamogordo fora um sucesso. Tibbets foi dormir sabendo que “a próxima explosão atômica seria para valer”.
12
A confrontação de 19 de julho entre Tibbets e LeMay foi rápida e direta. Tibbets explicou que era necessário que o 509.° fosse deixado em paz e intacto, que esperava que não houvesse mais “intromissões” e que ele tencionava voar a primeira missão atômica.
LeMay discutira com Groves um mês antes a questão de quem estaria no comando assim que a arma estivesse pronta para ser usada em combate. LeMay achava que “era um direito meu, já que tinha vindo parar na minha área”. Groves discordava.
LeMay ainda não compreendia por que Groves e os outros em Washington queriam entregar a bomba a uma unidade que não fora testada em combate sobre o Japão. Mas podia perceber que "entregá-la agora a alguém mais era algo que eles não poderiam engolir”.
Decidiu concordar com o pedido de Tibbets, com uma única condição. Naquele mesmo dia, LeMay mandaria seu oficial de operação, Coronel William “Butch” “só para ter certeza de que vocês sabem mesmo o que estão fazendo”.
Tibbets não se apressou nas verificações pré-vôo. Atrás dele, sentado numa pilha de almofadas, Blanchard escutava atentamente cada instrução, observando as reações da tripulação.
Lewis estava na cadeira do co-piloto. Van Kirk encontrava-se na mesa do navegador, Ferebee no posto do bombardeador, Duzenbury no painel do engenheiro de vôo, Nelson no rádio, Shumard e Stiborik nas torres transparentes, Caron na torre da cauda.
No compartimento de bombas, havia apenas uma única bomba arrasa-quarteirão, cheia de alto explosivo. Os tanques de combustível estavam cheios o bastante para uma viagem de ida-e-volta até Rota.
Tibbets taxiou até a cabeceira da pista. Depois de receber autorização para a decolagem, avançou com o B-29 pela pista central do Campo Norte. No momento em que as rodas estavam prestes a deixar o solo, Tibbets mudou o compasso de um dos motores. Muitos dos desastres de decolagem em Tinian ocorriam porque um motor falhava naquele momento crítico. Tibbets dominou a guinada do avião, endireitou-o e decolou sem maiores problemas.
Ordenou em seguida que um segundo motor fosse cortado. Do mesmo lado. — Sim, senhor! — gritou Duzenbury.
Impelido apenas por dois motores, ambos na mesma asa, o gigantesco avião, carregando sua bomba de cinco toneladas, começou a subir, muito lentamente.
Inclinando o B-29, a asa com os motores silenciosos apontando para Tinian lá embaixo, Tibbets proporcionou a Blanchard uma excelente vista do que era agora o maior aeroporto operacional do mundo.
Blanchard não estava interessado em paisagens. Seus olhos estavam fixados nas duas hélices movimentadas suavemente pelo vento.
Tibbets piscou para Lewis . . . e aumentou a inclinação do bombardeiro. Blanchard chamou Tibbets pelo interfone:
— Estou satisfeito com o desempenho de motor. Vamos logo para Rota.
Tibbets nivelou e, a toda força, o B-29 seguiu para a pequena ilha ainda em poder dos japoneses. Chegou no ponto inicial exatamente na hora prevista por Van Kirk. Tibbets chamou Blanchard:
— Acho que podemos concordar que não houve absolutamente nenhum erro de navegação.
— Certo.
— Agora, é a vez de Ferebee.
O bombardeador estava no nariz do aparelho, com a cabeça grudada no visor.
De 10 mil metros de altitude, a bomba mergulhou verticalmente. Blanchard ficou observando-a até atingir o alvo.
— Caiu tão perto do alvo que nem precisava fazer qualquer comentário — disse Tibbets mais tarde.
Em seguida, sem avisar o passageiro, Tibbets efetuou a costumeira volta de 155 graus.
Blanchard deixou escapar um grito estrangulado.
— O que... o que está acontecendo? — A maldita cauda está-me estolando!
— Como assim?
Blanchard, grudado nas almofadas pela força centrífuga, sentiu o avião estremecer como se estivesse prestes a se desfazer em pedaços .
Tibbets gritou-lhe:
— É a única maneira que tenho de fazer uma volta fechada! Tenho de manter a cauda estolando e só assim poderei saber que está tudo certo! Gostaria que eu fizesse de algum outro jeito?
— Não, obrigado. Já chega. Estou satisfeito.
— Mas ainda não acabamos!
Completando a volta, Tibbets puxou a alavanca de controle para trás, fazendo com que o gigantesco bombardeiro subisse e entrasse num estol assustador. Por um momento, parecia apoiado sobre a cauda. Blanchard empalideceu.
— Pelo amor de Deus! Vai-nos matar!
Julgando o momento apropriado, Tibbets nivelou o B-29 e voltou para Tinian. Aterrou 15 segundos depois do horário previsto por Van Kirk.
Blanchard não disse nada até estar novamente com os pés em terra firme:
— Já provou do que é capaz.
Tibbets riu, certo agora de que Blanchard não mais contestaria sua autoridade.
* * *
Tibbets escolheu 10 tripulações para voarem as primeiras missões do 509.° sobre o Japão, a 20 de julho. Cada aparelho voou separadamente, contra um alvo predeterminado. O objetivo era acostumar os aviadores ao combate, e os japoneses a verem aviões solitários em grandes altitudes e lançando uma única bomba.
As tripulações tinham ordens para, se por acaso os alvos indicados estivessem inviáveis pelas condições do tempo, não lançarem suas bombas arrasa-quarteirão, “em hipótese alguma”, sobre Hiroxima, Kyoto, Kokura e Niigata. Afora isso, podiam escolher qualquer outro alvo.
Eatherly escolheu Tóquio . . . e o palácio do Imperador. Estava completamente indiferente ao fato de que seu plano era contra a política oficial dos Estados Unidos, podia afetar a Conferência de Potsdam e, o que talvez fosse muito mais importante, reforçar a vontade de resistir dos japoneses.
Somente um pensamento passou pela cabeça de Eatherly. Se tivesse sucesso, teria garantido um lugar na história. Achava que poderia até terminar a guerra.
Eatherly circulou a 10 mil metros de altitude, ao sul de Tóquio, enquanto seu navegador plotava um curso que permitiría ao Straight Flush lançar sua bomba de quatro mil quilos diretamente em cima do palácio do Imperador.
O navegador, Francis Thornhill, estava tendo dificuldades. Tóquio, como o alvo original que lhes fora designado, estava coberta por nuvens.
O bombardeador Ken Wey disse que não podia ver aberturas nas nuvens.
— Então lance a bomba pelo radar! — ordenou Eatherly.
— Está certo.
Wey alinhou o Straight Flush para um lançamento pelo radar e soltou a bomba. Eatherly, gritando de excitamento, lançou imediatamente o B-29 numa volta de 155 graus.
Deixaram a área de Tóquio sem conseguir ver onde a bomba tinha caído.
13
Kizo Imai, o Suboficial da Marinha Imperial japonesa que estava escondido em Tinian, esperou até que as imagens aparecessem na tela do cinema ao ar livre. Depois, avançando com rapidez e segurança, deixou a selva e dirigiu-se para a cerca de arame farpado.
Deslizou os dedos pelo arame. A falha ainda estava ali. Imai passou pela cerca, espremendo-se todo, tomando todo cuidado para não rasgar as roupas. Não queria deixar nenhuma pista para os guardas que patrulhavam o conjunto do 509.°.
Imai rastejou de barriga até a cabana de metal mais próxima. Parou ali e verificou cuidadosamente a si mesmo e aos arredores.
A lama que passara no rosto, pescoço, botões e fivela do cinto, ainda estava no lugar, assim como os sacos que prendera nos pés, para amortecer seus passos. Imai duvidava de que, no escuro, alguém pudesse vê-lo de mais que alguns passos de distância. Mesmo que isso acontecesse, se tivesse sorte, poderia matar antes que fosse dado o alarme. Levava uma pequena faca no cinto justamente para isso.
Imai afastou-se da cabana, correndo meio agachado, parando de vez em quando para se orientar. Atrás de si, podia ouvir claramente a trilha sonora do filme. O clarão da tela delineava os contornos das cabanas mais próximas.
Como um cão farejando um osso, o nariz de Imai orientou-o na direção das cozinhas de Perry. Encontrou uma porta aberta e entrou.
Sobre a mesa, havia diversas galinhas assadas. Ele pegou duas e meteu-as dentro da túnica. Estava estendendo a mão para pegar outra quando ouviu um barulho. Saiu correndo, no momento em que alguém entrava por outra porta.
Imai voltou furtivamente por onde viera, parando à sombra da cabana mais próxima da abertura na cerca para vasculhar uma lata de lixo. Encontrou um pedaço de salame defumado, uma lata pela metade com geléia e algumas castanhas. Envolveu tudo, cuidadosamente, com um jornal velho, guardou dentro da túnica e da calça. Começou a avançar para a cerca.
Uma voz deteve-o. As palavras eram em inglês, mas o sotaque era inconfundível: a voz pertencia a uma mulher japonesa.
Imai sentiu um excitamento súbito ao ouvir a voz da Rosa de Tóquio, captada em um rádio num alojamento próximo, fazendo sua transmissão noturna do Japão.
Bastante animado, Imai fugiu para a selva. Estava ansioso em voltar para a caverna e ler o jornal americano que roubara, à procura de notícias sobre um avanço japonês na direção de Tinian.
* * *
Agrupados em torno do rádio, Eatherly e sua tripulação escutavam impacientemente a diatribe da Rosa de Tóquio. Finalmente, ela deu a notícia que estavam esperando:
As táticas dos aviões atacantes inimigos tornaram-se tão complicadas que não podem ser previstas pela experiência nem pelo bom senso. O único B-29 que sobrevoou a Capital esta manhã estava aparentemente empregando uma tática furtiva, visando a confundir as pessoas.
Não houve qualquer outra referência ao ataque. Era evidente que a bomba não atingira o palácio.
Desapontado, Eatherly afastou-se do rádio, suas esperanças de fama internacional foram temporariamente destruídas.
14
Às seis horas de 21 de julho, como fazia todas as manhãs, o Marechal-de-Campo Shunroku Hata acordou, tomou banho, vestiu um quimono e foi tomar a primeira refeição com a esposa.
Por volta das sete horas, vestiu as chinelas para entrar no santuário shinto que era uma parte integrante de sua casa. Feitas as preces, vestiu o uniforme, pronto para iniciar o estágio seguinte de seu ritual diário: cuidar dos legumes que plantara, numa pequena horta nos fundos da casa. Aquele trabalho manual ao ar livre mantinha-o esguio e em boas condições físicas. Sua aparência contradizia os 65 anos que já tinha.
Às oito horas, Hata tornou a entrar em casa. A sua espera, havia um relatório da situação desde a noite anterior, preparado com a ajuda do Tenente Kakuzo Oya, que era, no momento, seu chefe de informações. O sumário apresentado naquela manhã não continha qualquer pista sobre quando ou onde os americanos tencionavam invadir o Japão. Mas o Marechal-de-Campo estava preparado para o ataque. As defesas estendiam-se das praias de Kyushu por quase 300 quilômetros para trás, até Hiroxima, na ilha principal de Honshu. Visando a permitir uma retirada ordenada para posições preparadas anteriormente, o sistema tirava o máximo proveito do terreno. Pontos de fogo cruzado, minas contratanques e armadilhas individuais esperavam os americanos a cada metro do caminho.
Hata terminou o chá. Depois, por volta de 8:15 horas, o mais importante soldado fora de Tóquio partiu em seu carro para o quartel-general em Hiroxima.
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A maioria dos oficiais de Hiroxima ia para seus postos a cavalo. O desfile equestre atraía, invariavelmente, a admiração das multidões indo ou saindo das fábricas do esforço de guerra em Hiroxima.
Os animais, assim como seus cavaleiros, eram bem tratados e hem nutridos, em acentuado contraste com os civis.
Uma admiração particular estava reservada ao Príncipe coreano, Tenente-Coronel RiGu, adido ao estado-maior de Hata. O cavalo dele era o mais espetacular de Hiroxima, um imenso garanhão branco como a neve, com os boletos pretos.
Sentado sobre a sela, muito erecto, com a espada cerimonial ao lado, o jovem Príncipe era uma lembrança das glórias passadas, quando a cavalaria do Exército Imperial japonês destroçava tudo o que se lhe opunha.
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O Prefeito Awaya e seu assistente, Kazumasa Maruyama, iam a pé para o trabalho todas as manhãs. Naquele dia, a conversa concentrou-se num dos temas habituais: o que se poderia fazer pelas crianças que ainda estavam em Tóquio? Muitas trabalhavam nas fábricas e recebiam apenas uma educação rudimentar. Professores iam de uma fábrica de guerra para outra, dando aulas rápidas no interior dos próprios estabelecimentos fabris.
Awaya achava que a situação era a pior possível e desejava ampliar as horas de aulas. Maruyama achava que todas as crianças deveríam ser evacuadas imediatamente.
Os dois homens entraram no prédio da municipalidade e foram imediatamente cercados, muitas pessoas apresentando queixas sobre a distribuição de alimentos, falta de combustível, preços extorsivos das lojas, brutalidade da Kempei Tai, necessidade de mais e maiores abrigos antiaéreos. O problema de cuidar das crianças de Hiroxima perdeu-se em meio à confusão de exigências urgentes.
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O Segundo-Tenente Tatsuo Yokoyama recebeu naquela manhã uma carta de Tóquio. Era do pai. Formulada em termos cuidadosos e apresentando indícios de longas deliberações, a mensagem rejeitava a proposta de casamento do Coronel Abe.
A investigação dos pais de Yokoyama revelara que a filha do oficial “possui uma disposição extremamente infeliz. Os professores dizem que não é obediente e não se esforça em suas tarefas. Apesar da alta posição que o Coronel Abe ocupa, verificamos, através de pacientes investigações, que os antecedentes dele não são os que desejaríamos para unir as nossas duas famílias”.
Como um filho obediente, o jovem tenente de artilharia sabia que deveria aceitar a decisão dos pais. Mas como iria dar a notícia ao Coronel Abe, que há semanas o estava pressionando por uma resposta? Yokoyama sabia que seu comandante encararia a rejeição da oferta como um insulto imperdoável. E poderia, perfeitamente, transferir Yokoyama para um posto burocrático.
Os pensamentos do jovem foram interrompidos pelos gritos excitados de seus artilheiros. Era meio-dia e aviões americanos estavam voltando a Kure para bombardear e metralhar o porto. De seu posto de observação, a apenas 12 quilômetros de distância, Yokoyama podia ver claramente os clarões das baterias antiaéreas.
O sentimento de desesperança que trouxera de Tóquio havia-se dissipado. A Capital podia estar em ruínas, mas ali, no oeste do Japão, o Exército continuava a lutar, e de forma tão brava como antes. E, desesperadamente, Yokoyama queria participar dessa luta.
Súbito, Yokoyama compreendeu o que deveria fazer com a carta. Fingiria que não a recebera. Diria a Abe que os pais ainda estavam examinando o assunto, que talvez se passassem mais alguns meses antes que dessem uma resposta, já que suas vidas haviam sido totalmente afetadas pelos bombardeios.
15
No dia 20 de julho, o Secretário da Guerra Stimson estava acabando de tomar o café da manhã quando o diretor do OSS, Allen Dulles, foi introduzido em seus aposentos em Potsdam. Dulles relatou a Stimson a proposta japonesa que lhe fora transmitida por Jacobsson, cinco dias antes, em Wiesbaden, e a contraproposta que apresentara: a América poderia permitir que o Imperador Hirohito conservasse seu trono, se ele assumisse agora uma posição firme e pública pelo fim da guerra.
Stimson respeitava o julgamento de Dulles. Mas achava que era improvável que pessoas na periferia dos acontecimentos, atuando como intermediários da paz na Suíça, pudessem representar o pensamento oficial do Governo japonês. Além disso, embora o próprio Stimson tivesse ido a Potsdam com a opinião de que se deveria dar alguma garantia de continuação do sistema imperial, no apelo final para que o Japão se rendesse, ele sabia que tal posição era extremamente impopular nos Estados Unidos. Para muitos americanos, a simples idéia de uma dinastia reinante era repulsiva. Para alguns, Hirohito não era muito diferente de Hitler.
Stimson agradeceu a Dulles, mas deixou bem claro que não linha a menor fé nas ligações de Jacobsson.
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Na manhã de domingo, 22 de julho, Stimson foi procurar o Presidente Truman, em Potsdam. Washington enviara um cabograma dizendo que a bomba de urânio estaria pronta para ser usada “na primeira oportunidade favorável do mês de agosto”; se a missão deveria prosseguir, os complexos preparativos deveríam ser programados o mais tardar em 25 de julho.
Depois do relatório detalhado de Groves sobre o sucesso em Alamogordo, que chegara no dia anterior, a notícia pareceu deixar Truman bastante satisfeito.
As 10:40 horas, Stimson visitou Churchill, que leu o relatório de Groves e comentou:
— Stimson, o que era a pólvora? Trivial. O que era a eletricidade? Insignificante. A bomba atômica é o Segundo Advento em ira.
Stimson disse que Truman tencionava falar a Stalin da nova arma, embora “omitindo todos os detalhes”, simplesmente “divulgando o fato de que os Estados Unidos e a Inglaterra possuem a bomba”. O problema do quanto dizer ao líder russo era bastante controvertido.
Churchill concordou que se revelasse a existência da bomba atômica a Stalin, achando que isso deveria ser usado como “um argumento nas negociações” que se estavam realizando em Potsdam.
De volta a seus aposentos, Stimson convocou o General Arnold, Chefe da Força Aérea, pondo-o a par de tudo.
Arnold sugeriu que, no lugar de Kyoto, Nagasaki deveria ser considerada um dos alvos em potencial. Era a primeira vez que esta cidade era indicada para a possível destruição atômica.
Arnold sugeriu também a Stimson que o General Carl A. Spaatz, recentemente promovido a Comandante das Forças Aéreas Estratégicas e prestes a viajar para as Marianas, poderia fazer a escolha final, em consulta com LeMay.
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Enquanto Stimson conversava com Arnold, Truman reunia-se com Churchill.
Para o Primeiro-Ministro britânico, a arma era “um milagre de salvação”, Talvez tornasse a invasão desnecessária, podendo terminar a guerra, “com uma ou duas explosões violentas”. Seu poder quase sobrenatural proporcionaria aos japoneses uma desculpa que lhes salvaria a honra e os livraria da obrigação samurai de lutarem até a morte. Também não haveria mais necessidade de se pedir favores a Stalin, de contar com a intervenção russa para ajudar a derrotar o Japão.
Churchill concluiu que, “apesar de a decisão final” ficar nas mãos de Truman, não havia divergência entre eles. Mais tarde, o Primeiro-Ministro disse o seguinte:
O fato histórico e que deve ser julgado pela posteridade é que jamais esteve em dúvida se devia ou não usar a bomba atômica para forçar o Japão à rendição. Quanto a isso, houve uma concordância unânime, automática e incontestada.
Mas antes de recorrerem à bomba atômica, os Aliados iriam oferecer ao Japão uma última chance de se render.
16
Ao pé do Monte Lasso, na escuridão da noite, Jacob Beser estava participando do que se tornara um dos passatempos prediletos em Tinian.
Com uma carabina que trocara por uma garrafa pequena de uísque, o jovem oficial persuadira uma patrulha de fuzileiros a levá- lo para a selva, à procura de japoneses.
O oficial dos fuzileiros explicara as regras da caçada a Beser:
— Primeiro, cercamos a área onde achamos que um japonês está escondido. Depois, começamos a fechar o cerco, encurralando-o em uns poucos metros quadrados, iluminando a área com lanternas. Finalmente, tentamos convencê-lo a se render.
— E se ele não quiser render-se?
— Espere para ver o que acontece.
Ao cair da noite, os fuzileiros haviam entrado na selva, acompanhados por Beser. Por duas vezes, haviam cercado áreas suspeitas, mas nada encontraram. A patrulha estava agora entrando em terreno mais elevado.
Subitamente, os fuzileiros pararam.
Beser não podia ouvir coisa alguma.
O fuzileiro que ia a sua frente virou-se e tocou no nariz.
Beser farejou. E sentiu, leve mas inconfundível, um odor humano.
O oficial dos fuzileiros distribuiu rapidamente seus homens, ordenando a Beser que permanecesse onde estava, enquanto os outros homens desapareciam na escuridão.
Sozinho, agachado, empunhando a carabina, Beser procurou imaginar o que faria, se um soldado japonês surgisse de repente a sua frente. Nunca antes matara um homem e rezou para não ter que faze-lo agora. Desejou ter ficado em seu alojamento, jogando pôquer.
Nada aconteceu durante alguns minutos. Depois, Beser ouviu o barulho de galhos sendo afastados para o lado. Fachos de lanternas vararam a escuridão e Beser ouviu uma voz americana gritar em japonês:
— Renda-se! Você está cercado! Saia com as mãos levantadas!
Beser começou a levantar-se. Outra voz americana deteve-o:
— Fique abaixado, se não quer levar um tiro!
Houve um grunhido no meio do mato, seguido por um movimento através da folhagem densa.
As lanternas acompanharam o barulho.
— Ele está saindo!
Um vulto emergiu do mato, diante de Beser. As lanternas se concentraram no soldado japonês, ofuscando-o, fazendo com que fechasse os olhos.
Beser juntou-se aos fuzileiros agrupados em tomo do prisioneiro. As lanternas foram baixadas. O soldado capturado abriu os olhos c disse, num inglês passável:
— Por favor, um cigarro. ..
Deram-lhe um cigarro. Ele aspirou fundo e ficou imóvel, enquanto um fuzileiro o revistava e tirava de seu bolso uma cigarreira de prata. Num inglês trôpego, o prisioneiro explicou que tirara a cigarreira de um soldado australiano morto, na Nova Guiné.
O oficial dos fuzileiros olhou para o prisioneiro, sacudiu a cabeça num gesto de repulsa e afastou-se. Dois fuzileiros postaram- se atrás do prisioneiro, imobilizando-lhe os braços. Em silêncio, a patrulha voltou para a base.
17
Em seu gabinete no Quartel-General do Exército em Tóquio, o Major-General Arisue escutou atentamente o Tenente-Coronel Oya descrever a rede de defesa que se irradiava de Hiroxima.
Oya viajara 850 quilômetros de trem para fazer um relatório pessoal a Arisue sobre os planos do Marechal-de-Campo Hata para repelir os invasores.
Arisue desejou que a área em tomo de Tóquio estivesse preparada da mesma forma para a defesa. A 27 de julho, a cidade e seus arredores estavam devastados, as indústrias destruídas pelas bombas ou paralisadas pela falta de mão-de-obra e materiais. Os ataques haviam afastado de Tóquio milhões de trabalhadores, reduzindo a população da Capital de sete para menos de quatro milhões de habitantes.
Arisue e Oya foram interrompidos pela chegada de um mensageiro da unidade de controle de rádio do Serviço Secreto do Exército. Arisue pegou os papéis e verificou imediatamente que ali estava o tão esperado comunicado de Potsdan. Excitado, leu rapidamente a escrita japonesa, a transcrição de uma transmissão de ondas curtas de Washington.
A Proclamação de Potsdam, talvez a mais importante mensagem que os japoneses receberam dos Aliados em toda a guerra, recordava ao Japão “a inútil e insensata resistência alemã ao poderio dos povos livres do mundo” e indicava os termos para o término da guerra. O Japão deveria rejeitar seus líderes militaristas, submeter-se à ocupação Aliada, respeitar os direitos democráticos fundamentais e instituir um governo “inclinado para a paz”. Exceto pelos criminosos de guerra, as forças militares japonesas teriam permissão para voltar para suas casas. A indústria poderia continuar a funcionar e um dia o Japão iria participar do comércio mundial.
E a proclamação concluía:
Conclamamos o Governo japonês a declarar agora a rendição incondicional de todas as Forças Armadas japonesas e a fornecer garantias próprias e adequadas de sua boa-fé. A alternativa para o Japão é a imediata e total destruição.
Stimson concordara em deixar de mencionar a questão do Imperador, aceitando a posição de Truman. Se os japoneses, em sua resposta, levantassem a questão, o Governo americano iria mostrar-se acessível.
Mas para Arisue, assim como para milhões de japoneses, a Proclamação de Potsdam foi “uma advertência de aniquilação, a menos que renunciássemos a tudo aquilo que considerávamos mais sagrado”.
* * *
O Ministro do Exterior Shigenori Togo levou uma cópia do comunicado ao Imperador Hirohito, no salão de audiências do palácio imperial de Gobunko, ou “Prédio da Biblioteca”.
O Gobunko, atrás de árvores perto do portão norte, era um dos poucos prédios do conjunto imperial que a guerra deixara intacto. A 25 de maio, o Imperador sofrera a agonia de ver muitos dos prédios e pavilhões do conjunto imperial serem devorados pelas chamas. Durante a noite anterior, houvera um ataque de bombas incendiárias. Os bombardeiros de LeMay se concentraram em duas arcas contíguas ao palácio. Embora os americanos evitassem intencionalmente lançar bombas no conjunto imperial, haviam transformado as áreas ao redor em um inferno de chamas tão intensas que o fogo transpusera o fosso e pegara em arbustos secos do outro lado. Em questão de minutos, as chamas se espalharam e engolfaram a antiga residência imperial, de madeira, construída pelo avô de Hirohito, o venerado Imperador Meiji.
Ao raiar do dia, Hirohito e sua imperatriz haviam saído do abrigo antiaéreo e contemplado a destruição. O Imperador comentara:
— Agora o povo irá compreender que estou partilhando seu sofrimento sem qualquer proteção especial dos deuses.
Enquanto o Imperador lia a proclamação dos Aliados, Togo ficava sentado, empertigado, num sofá duro. Para Togo, criado na tradição dos comunicados diplomáticos, a maneira como a mensagem fora entregue, em meio a um noticiário transmitido em ondas curtas de Washington, era desalentadora. Transmitir um documento tão importante por uma irradiação pública “não parecia a maneira apropriada de um governo se dirigir a outro”.
Contudo, sob o interrogatório do Imperador, Togo admitiu que o comunicado apresentava garantias específicas de tratamento humano, liberdade de expressão, religião e pensamento. A ocupação de pontos estratégicos das ilhas do Arquipélago japonês terminaria assim que a estabilidade fosse restaurada. E o povo seria consultado sobre a forma de governo que desejaria depois da rendição.
O Imperador analisou a proclamação cláusula por cláusula, fazendo perguntas e expondo suas opiniões. Finalmente, Hirohito perguntou a seu Ministro do Exterior se achava que os termos “eram os mais razoáveis que se poderia esperar, nas circunstâncias”.
Togo reconheceu que eram.
— Pois eu concordo. Em princípio, os termos são aceitáveis.
O silêncio envolveu a sala de audiências.
Abruptamente, Togo levantou-se e encarou o Imperador. Era o gesto tradicional da corte imperial para indicar que um visitante nada mais tinha a dizer.
O Imperador também se levantou e, em outro ato ritual, virou- se e saiu da sala.
Togo fez uma reverência até a cintura na direção do Imperador que se retirava.
* * *
Togo não revelara ao Imperador a reação de repulsa do governo e dos líderes militares do Japão à Proclamação de Potsdam.
O Primeiro-Ministro Suzuki e seus colegas estavam inclinados a ignorar inteiramente o comunicado, em parte sob a alegação de que não o tinham recebido oficialmente. Além disso, o Gabinete ainda acalentava esperanças na mediação da União Soviética para uma “rendição mais suave”. Havia uma concordância geral de que “aceitar Potsdam seria insultar a Rússia”.
Suzuki convocou uma entrevista coletiva, instruindo a um repórter para perguntar a opinião do Gabinete sobre a proclamação.
Com mãos trêmulas, o Primeiro-Ministro leu uma declaração preparada. Rejeitou a proclamação, dizendo que o governo “não a considera de grande valor. Decidimos mokusatsu a proclamação”.
Minutos depois, as palavras de Suzuki eram irradiadas pela agência noticiosa oficial do Japão, Domei, que traduziu mokusatsu como “ignorar”.
18
A 28 de julho, Beser descobriu que estava sendo vigiado pelo médico do 509º, à procura de sinais de tensão psicológica. O tenente ficou deliciado.
— Significava que devíamos estar chegando perto da hora da missão.
Por ordem de Tibbets, o Dr. Don Young estava observando todas as tripulações do grupo, à procura de problemas psicológicos. Ele realizava seu trabalho tão discretamente que poucos aviadores perceberam que estavam sendo observados.
O próprio Young ainda não sabia exatamente o que a missão poderia acarretar. Fora simplesmente avisado de que deveria informar, se algum aviador estivesse demonstrando “um comportamento fora do normal”.
O médico observou todas as tripulações se preparando para um vôo, anotando cuidadosamente a maneira como os homens andavam e carregavam os equipamentos. Ouvia as conversas, procurando queixas de falta de sono ou perda de apetite.
Quando os aviões voltavam, o médico estava esperando, um homem sempre delicado, discreto, com uma mente clínica atenta. Young observou os aviadores bebendo suas rações de bourbon distribuídas ao final de cada missão, alerta para ver quem tomava o uísque depressa demais ou pedia uma segunda dose.
Comparecia às conferências de informações, avaliando a escolha das palavras de cada aviador, como pistas para o estado mental em que se encontravam.
Entre as missões, ele percorria os alojamentos, procurando pelo homem que risse alto demais, perdesse a calma com facilidade, ou brincasse por demais impetuosamente. Nos clubes dos oficiais e dos praças e sargentos, ele se deslocava de uma mesa para outra, à procura de indícios de tensão.