A Bomba de Hiroxima
Ativação
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Nos campos de esporte, observava os aviadores jogarem, procurando por sinais de “agressividade indevida” ou falta de esportividade.
E, contra todos os regulamentos, lia a correspondência dos homens, depois que era liberada pelos censores.
Ao final da noite, o incansável Dr. Young coligia suas descobertas, em relatórios confidenciais para Tibbets.
O médico considerou Beser um dos homens mais normais em todo o 509º: “equilibrado, com a dose certa de agressividade saudável, calmo sob pressão”.
Young disse a Tibbets que as tripulações, dele estavam, sob o ponto de vista psicológico, “provavelmente entre as mais equilibradas de toda a Força Aérea”.
Young não percebeu quaisquer sinais de instabilidade em Claude Fatherly. E Tibbets, mesmo sabendo das esquisitices do capitão, ainda achava que as habilidades dele como piloto superavam quaisquer outras considerações.
* * *
Na Área Técnica, fortemente guardada, onde Beser trabalhava, a tensão aumentara consideravelmente, com a chegada do Capitão Parsons, procedente dos Estados Unidos.
Em Los Alamos, Beser mal conhecera Parsons, cuja pontualidade, reserva e comportamento difícil e exigente intimidavam muitos dos seus colegas cientistas. Mas ali em Tinian, o oficial naval de meia-idade revelou-se um líder descontraído e dinâmico. Quanto maiores a pressão e o ritmo, mais calmo ele ficava. Impressionou a Beser como “um oficial distinto e um cavalheiro de verdade”.
Parsons viera a Tinian para supervisionar a entrega dos componentes e a montagem da bomba.
Na ilha estavam agora também dois ingleses, o Capitão Leonard Cheshire, herói da RAF, e um cientista louro, William Penney, cujos brilhantes cálculos matemáticos haviam desempenhado um papel importante no desenvolvimento da nova arma.
O Gabinete da Guerra, em Londres, insistira para que a Inglaterra estivesse representada quando a bomba atômica fosse lançada. O Presidente Truman concordara “em princípio”, durante a Conferência de Potsdam. Assim, Cheshire e Penney acreditavam firmemente que iriam no vôo que lançaria a bomba, a fim de posteriormente comunicar suas observações a Londres.
Estranhamente, enquanto todos os homens do 509º mostravam- se cordiais, o General LeMay fora evasivo, quando os dois ingleses falaram em sua presença na missão.
Recentemente, houvera uma misteriosa epidemia de diarréia no 509º. O Dr. Young a atribuira a uma “generosa quantidade de sabão” despejada nos caldeirões de cozinhar. Uanna, o chefe de segurança do grupo, desconfiou de que “o responsável fora um japonês que se infiltrou furtivamente no conjunto”. O major estava certo. Ocorrera exatamente dessa maneira. A vigilância em torno das cozinhas foi reforçada.
A hostilidade que o grupo encontrava fora de sua área era uma preocupação cada vez maior para Tibbets. Enquanto as outras unidades aéreas na ilha estavam realizando o máximo de horas de combate que era possível, o 509º ocupava-se quase que exclusivamente em missões de treinamento em torno das Marianas. Até aquele momento, o grupo só fora ao Japão três vezes... e em todas elas usando apenas 10 dos seus 15 bombardeiros. À noite, aviadores furiosos de outros grupos despejavam chuvas de pedras sobre o conjunto. Era uma experiência humilhante para o autoconfiante 509º.
Tibbets tentou dissipar a frustração, promovendo reuniões com seus homens. Estimulou Perry a melhorar mais ainda a comida. E ficou satisfeito ao ver que o Capelão Downey estava-se comportando “como um animador, sempre por perto quando era necessário algum apoio”.
Tibbets encorajou as piadas sobre a vida no conjunto, raciocinando que, se os homens pudessem rir de seus problemas, eles não pareceríam tão ruins. Uma das zombarias mais bem-sucedidas foi uma canção, cantada com a música de Rum and Coca-Cola.
Já esteve em Tinian?
É um paraíso do soldado.
Tem uísque, garotas e tudo o mais,
Só que tem um rótulo: “Proibido tocar.”
Esta ilha tropical é um paraíso
De estradas enlameadas e céus nublados,
Latrinas fedorentas e frieiras nos pés,
Bode para se comer todos os dias.
Os soldados estão na pior
E os oficiais dizem: “Somos uma equipe unida.”
Mas será que eles partilham o rum e Coca-Cola?
Ah! Ah! Ah! Essa é a grande piada.
Como sempre, Tibbets era cuidadoso em esconder a crescente tensão que ele próprio estava sentindo. Seu dia de trabalho frequentemente se estendia de sete horas da manhã a meia-noite. Muitas vezes, seu sono era interrompido por mensagens de “Casmurro”, o novo nome em código que Groves usava para seu quartel-general em Washington, ou de “Jogo Errado”, o novo nome de Groves para Los Alamos. As mensagens de “Casmurro” invariavelmente terminavam com um pedido de relatório sobre a situação atual de “Quilha", o nome em código para a missão atômica.
19
Às 12:50 horas de 28 de julho, começou a tocar o telefone de campanha na bateria antiaérea do Segundo-Tenente Tatsuo Yokoyama, no Monte Futaba. Era um dos controladores no Castelo de Hiroxima, avisando-o da possível aproximação de bombardeiros pelo sul, a direção de Kure. Yokoyama já tinha apontado suas armas nessa direção, para a eventualidade de algum dos aviões americanos bombardeando o porto ser obrigado a desviar-se para Hiroxima.
A Rádio Hiroxima interrompeu sua programação para anunciar um alerta e, por toda a cidade, as pessoas correram para os abrigos.
O Dr. Kaoru Shima estava realizando uma apendicectomia quando uma enfermeira informou-o do alerta. Ele continuou a efetuar a cirurgia. Do lado de fora da sala de operações, a equipe levou os pacientes para o abrigo subterrâneo, carregando os que não estavam em condições de andar.
O Prefeito Senkichi Awaya e Kazumasa Maruyama estavam no gabinete do primeiro, quando ouviram a sirene de alerta. Maruyama correu para a janela e esquadrinhou o céu, mas nada avistou. Ele e Awaya retomaram a conversa interrompida.
O Marechal-de-Campo Hata convidou seus oficiais a irem também para as janelas da sala de conferências, a fim de observarem os acontecimentos. Yokoyama, observando pelo binóculo, pôde avistar pelo menos dois B-24 voando em sua direção. Estavam subindo, depois de lançarem suas bombas sobre o Estaleiro Naval de Kure, agora oculto por uma mortalha de fumaça.
Com crescente excitação, o jovem oficial de artilharia calculou que, se os aviões mantivessem o mesmo curso, iriam ficar ao alcance de seus canhões quando passassem por Hiroxima.
Os aviões que se aproximavam da cidade eram do 866º Esquadrão de Bombardeio, do 494º Grupo de Bombardeio, do 7º Comando de Bombardeiros, baseado em Okinawa.
Integravam uma força de 30 B-24 que haviam decolado no início daquela manhã para atacar o Haruna, um dos últimos encouraçados japoneses que ainda estavam flutuando. Cada avião dispunha de 10.200 litros de combustível, uma carga de bombas e folhetos de propaganda com os termos da Proclamação de Potsdam.
Os bombardeiros haviam chegado a Kure exatamente às 12:40 horas. Mas mesmo da altitude baixa programada para o ataque, de três mil metros, o Haruna se mostrara um alvo difícil. Estava bem camuflado e protegido por baterias costeiras, além dos seus próprios canhões.
Na primeira passagem dos B-24 do 866º, cerca de 30 bombas explodiram longe do Haruna, à distância entre 200 e 600 metros. Outras bombas haviam caído em prédios do estaleiro nas proximidades. Toda a área estava envolta por densa fumaça.
Voando através de intenso fogo antiaéreo, o primeiro bombardeiro do 866º, apelidado Taloa, largara suas três bombas no meto da fumaça e se desviara para a esquerda, na direção de Hiroxima.
Os 11 homens no Taloa estavam nervosos. Todos sabiam que os japoneses frequentemente executavam os aviadores americanos capturados. Pouco mais de um mês antes, oito aviadores americanos haviam sido publicamente executados, sendo obrigados a ficar de joelhos, na posição tradicional, e suas cabeças decapitadas pela espada cerimonial.
O piloto do Taloa, Primeiro-Tenente Joseph Bubinsky, estava ocupado demais tentando ganhar altitude e fixar um novo curso de retorno à base para se preocupar com tais pensamentos assustadores.
O bombardeador Robert Johnston, também Primeiro-Tenente, ainda estava no nariz do B-24, contemplando os campos lá embaixo, através do plexiglas. Seu alívio tinha sido considerável quando o bombardeiro se afastara do alcance da concentração de baterias antiaéreas, que tomavam Kure uma das cidades mais fortemente defendidas do Japão. A sua frente, aproximando-se rapidamente, estavam as instalações portuárias de Hiroxima. Mais além, havia campos cobertos por bosques.
O Taloa levava nove outros homens, todos assustados: Primeiro- Tenente Rudolph Flanagin, co-piloto; Primeiro-Tenente Lawrence Falls, navegador; Sargento Técnico Walter Piskor, engenheiro de vôo; Sargento Técnico David Bushfield, operador de rádio; Sargento Charles Allison, artilheiro da torre superior; Sargento Charles Baumgartner, artilheiro da torre inferior; Sargento Camillous Kirkpatrick, artilheiro da torre inferior; Sargento Julius Moinar, artilheiro da cauda; e um “passageiro”, Capitão Donald Marvin, a bordo para adquirir experiência de combate.
Não muito atrás do Taloa voava o Lonesome Lady, com sua tripulação de nove homens: Segundo-Tenente Thomas Cartwright, piloto; Segundo-Tenente Durden Looper, co-piloto; Segundo-Tenente Roy Pedersen, navegador; Segundo-Tenente James Milke Ryan, bombardeador; Sargento Hugh Atkinson, operador de rádio; Sargento William Abel, artilheiro da cauda; Sargento Ralph Neal, artilheiro da torre inferior; Cabo John Long, artilheiro do nariz; e Sargento Buford Ellison, engenheiro de vôo.
Os homens a bordo dos dois B-24 sabiam das ordens expressas proibindo bombardear Hiroxima. Mas, ao que soubessem, não havia qualquer ordem proibindo-os de sobrevoarem a cidade.
Nenhum dos aviadores sabia coisa alguma sobre as defesas de terra de Hiroxima. Quando a cidade fora “reservada” para possível ataque atômico, todas as informações a seu respeito tornaram-se confidenciais.
Ao se aproximarem da extremidade sul de Hiroxima, uma barragem de fogo antiaéreo foi disparada de baterias perto do gaisenkan, o “portão do retomo triunfante”, e no parque Eba, protegendo a fábrica Mitsubishi.
Os bombardeiros continuaram a cruzar Hiroxima, na direção do Monte Futaba.
E quando era quase uma hora da tarde, com dois terços da cidade para trás e a segurança do campo aberto um pouco à frente, o destino dos 20 homens a bordo dos dois bombardeiros iria ligar-se irremediavelmente ao de Hiroxima, um fato que jamais foi comunicado oficialmente pelo Governo americano.
* * *
Assim que os B-24 ficaram ao alcance do fogo, Yokoyama ordenou que sua bateria disparasse.
A primeira salva enquadrou o Taloa. Pequenas nuvens de fumaça surgiram abaixo e acima do avião. Yokoyama gritou uma correção imediata.
A salva seguinte pareceu atingir o Taloa no nariz. Os artilheiros soltaram gritos frenéticos de alegria. Yokoyama gritou-lhes que continuassem a disparar.
O céu em tomo do bombardeiro avariado estava agora repleto de explosões de granadas. Deixando uma esteira de fumaça, o avião virou abruptamente para a esquerda, afastando-se do Monte Futaba.
Atrás, o Lonesome Lady parecia ter sido também atingido.
* * *
Das janelas da sala de conferências, o Marechal-de-Campo Hata e seus oficiais de estado-maior observaram os vultos minúsculos pulando do Taloa. Momentos depois, quando o B-24 atravessava a parte oeste de Hiroxima, os pára-quedas se abriram.
O bombardeiro mergulhou contra uma colina entre as duas aldeias de Itsukaichi e Inokuchi. Uma grande língua de fogo e uma nuvem de fumaça preta subiram pelo ar. O estrondo fez com que pessoas das fazendas e casas próximas saíssem em campo aberto. Alguns trabalhadores de um mercado de peixe local brandiam facas e machados.
Pelo menos três homens do Taloa estavam agora flutuando na direção da terra. Eram o piloto Joseph Bubinsky, o bombardeador Robert Johnston e o artilheiro da cauda Julius Moinar.
Todos estavam em estado de choque e com ferimentos superficiais, mas instintivamente manejaram as cordas de seus pára-quedas, a fim de cair longe dos civis que se concentravam lá embaixo.
* * *
O Lonesome Lady estava deixando uma esteira de fumaça e sendo alvejado por uma bateria próxima do Castelo de Hiroxima. O bombardeiro virou bruscamente para a direita, voltando na direção de Kure. Os artilheiros de Yokoyama iriam acreditar para sempre que tinham sido os autores do coup de grâce no avião avariado.
O Lonesome Lady perdeu altitude, passando sobre a fábrica Toyo e seguindo para a densa floresta a sudeste de Hiroxima. Oito homens conseguiram pular do aparelho. Somente o navegador Roy Pedersen ainda estava a bordo quando o Lonesome Lady se chocou com o solo.
A emoção na bateria do Monte Futaba era imensa. Para Tatsuo Yokoyama foi “o meu dia mais feliz durante toda a guerra”. Ele prometeu a seus artilheiros a maior comemoração que pudessem imaginar. Depois, focalizou o binóculo na direção oeste, onde os homens que haviam saltado do Taloa estavam prestes a chegar ao solo.
* * *
Pelotões da Kempei Tai espalhavam-se por Hiroxima atrás dos aviadores.
Um desses pelotões, comandado pelo Suboficial Hiroshi Yanagita, parou para pedir uma orientação ao Cabo Kanai Hiroto, do Exército Imperial, que morava nas proximidades e estava pedalando furiosamente sua bicicleta na direção em que o avião caíra.
Hiroto disse a Yanagita que falava inglês e ficaria feliz em oferecer seus serviços como intérprete. Trepou no estribo do carro da Kempei Tai, e seguiram para Inokuchi.
Hiroto cursara uma escola secundária em Pasadena, perto de Los Angeles. Voltara ao Japão em 1934 e fora convocado pouco depois. Após três anos de luta na Mandchúria, passara o resto da guerra na mais absoluta monotonia.
Yanagita era um dos mais antigos chefes da Kempei Tai em Hiroxima. Era um calejado soldado profissional.
Ao chegarem ao sopé da colina em que o Taloa caíra, o suboficial da Kempei Tai e seus homens correram na direção dos pára- quedas presos nas árvores.
Hiroto parou ao lado do bombardeiro ainda fumegante. O avião dividira-se em duas partes, separadas por cerca de 200 metros.
Já ia entrar nos destroços quando Yanagita voltou, dizendo que um dos americanos fora capturado.
Era o artilheiro da cauda, Sargento Julius Moinar, de Kalamazoo, Michigan.
Mesmo antes de alcançá-lo, Hiroto percebeu que Moinar corria grande perigo. O franzino sargento estava cercado por civis que “queriam espancá-lo até a morte. Abri caminho por entre á multidão, coloquei-me à frente do prisioneiro e tentei evitar os golpes”.
Yanagita adiantou-se, brandindo sua pistola. Fez uma ameaça: seus homens atirariam no primeiro civil que se mexesse.
A multidão recuou.
Flanqueado por Hiroto e Yanagita, Moinar foi escoltado para a relativa segurança de uma granja próxima. Ali, Moinar foi cercado pelos homens da Kempei Tai.
Hiroto percebeu que o jovem americano estava fazendo o maior esforço para controlar sua tremedeira. Ele falou com o americano pela primeira vez, dizendo em inglês que já vivera na América. O aterrorizado Moinar começou a se acalmar.
Pressionado por Yanagita, Hiroto interrogou Moinar, que prontamente disse seu nome, número de série 36453945 e posto. Informou que tinha 21 anos, fizera o treinamento no Texas, seu avião decolara de Gkinawa para atacar o porto de Kure. Afirmou que não sabia os nomes dos outros tripulantes do Taloa.
Hiroto foi então chamado para outra parte da granja, onde estava o bombardeador Robert Johnston. A multidão de aldeões a ameaçar o prisioneiro foi novamente repelida pela Kempei Tai.
Johnston escondeu seu medo melhor do que Moinar, mas Hiroto percebeu, “pelos olhos dele, que estava apavorado”. O tenente também informou seu nome, número de série 0698565 e posto.
Como Johnston se recusasse a dizer qualquer outra coisa, o chefe do pelotão da Kempei Tai disse a Hiroto que os serviços de intérprete dele não eram mais necessários. O cabo voltou para junto dos destroços do avião, à procura de comida e peças de rádio.
Yanagita e seus homens capturaram três outros tripulantes do Taloa, inclusive o piloto Joseph Bubinsiky, levando-os para o quartel- general da Kempei Tai, no Castelo de Hiroxima, onde poderiam ser devidamente trabalhados por especialistas em interrogatório.
Dos 20 tripulantes dos dois bombardeiros, 13 haviam sobrevivido à queda dos aparelhos e sido capturados. Com a chegada deles a Hiroxima, subia a 23 o número de prisioneiros de guerra americanos na cidade.
Para eles, a experiência mais terrível ainda estava para vir.
20
Às primeiras horas de 29 de julho, em Tinian, 81 homens do 509º reuniram-se a fim de ouvir as instruções para a quarta e última — missão de treinamento sobre o Japão. O Tenente-Coronel Hazen Payette, oficial de informações do grupo, confirmou os alvos designados anteriormente para as nove tripulações.
Lewis ia bombardear um complexo industrial em Koriyama. O Capitão Frederick Bock deveria lançar sua bomba de quatro mil quilos em Osaka. Eatherly bombardearia os ramais ferroviários em Maizuru. Os outros atacariam alvos em Kobe, Shimoda, Ube, Nagoya, Wakayama e Hitachi. Ferebee, como Tibbets, fora proibido de voar sobre o Japão até a missão atômica.
Naquela missão, Lewis voaria no avião de Sweeney, que tinha o apelido de Great Artiste, enquanto seu B-29 estava recebendo uma inspeção especial dos técnicos do grupo. Van Kirk substituiría o navegador habitual de Lewis. Tais mudanças deixaram Lewis apreensivo.
A reunião de instrução foi rotineira. O fogo antiaéreo provavelmente seria de “moderado a pequeno”. Van Kirk falou aos navegadores sobre as rotas para os objetivos, onde planejavam chegar, como sempre, por volta das nove horas da manhã. Depois, os caminhões levaram as tripulações para seus aviões.
O Straight Flush foi o primeiro a decolar. Eatherly estava disposto a fazer um vôo recorde até o Japão e voltar rapidamente, a fim de terminar um jogo de pôquer que deixara pelo meio.
Minutos depois, Bock’s Car, comandado pelo Capitão Frederick Bock, avançou pela pista.
Em seguida, foi a vez do Major James Hopkins, no Strange Cargo. Lewis observou os quatro motores sendo acionados. Depois, o aparelho taxiou para a cabeceira da pista.
Subitamente, houve um rangido de metal raspando em metal. As portas do compartimento de bombas do Strange Cargo estavam abaixando lentamente, as dobradiças de aço reforçado rangendo sob a pressão.
Hopkins freou o avião. Com um baque assustador, a bomba arrasa-quarteirão caiu no asfalto.
Lewis ficou contemplando, de olhos esbugalhados, a imensa bomba, a poucos passos de distância. Se explodisse, destruiría tudo, num raio de centenas de metros.
Calmamente, Lewis avisou sua tripulação através do interfone. Pelo rádio, podia ouvir Hopkins pedindo socorro à torre de controle. Momentos depois, o barulho de caminhões, ambulâncias e jipes da PM encheram o ar.
O oficial de controle disse a Lewis e a Hopkins que mantivessem suas tripulações a bordo. O menor solavanco poderia detonar a bomba de quatro toneladas.
Refletores portáteis foram focalizados na pista. Através de binóculos, bombeiros e armeiros examinaram a bomba alaranjada, as barbatanas inclinadas e torcidas pela queda.
Os bombeiros foram os primeiros a entrar em ação. Cobriram a bomba com espuma, esperando que isso pudesse amortecer uma possível explosão.
Uma turma voluntária de armeiros empurrou um guincho para baixo do avião. Trabalhando no mais absoluto silêncio, passaram correntes em tomo da bomba e a suspenderam, centímetro por centímetro. Depois, enfiaram um carro por baixo da bomba. O carro foi preso por um cabo a um pequeno trator e rebocado.
Uma voz aliviada da torre de controle disse às duas tripulações que podiam relaxar.
Lewis gritou uma resposta típica.
— Relaxar coisa nenhuma! Ainda temos uma missão a cumprir!
Minutos depois, os motores do Great Artiste estavam em pleno funcionamento. Sem olhar para o Strange Cargo, Lewis e sua tripulação decolaram a caminho de Koriyama.
21
Seis dias antes, o General Carl Spaatz tinha chegado a Washington, vindo da Europa e a caminho do Pacífico, a fim de assumir o comando das Forças Aéreas Estratégicas, recentemente criadas, para a iminente invasão do Japão. Depois que Groves o informou da bomba atômica, Spaatz, um holandês da Pensilvânia grisalho e de rosto magro, foi falar com o General Thomas T. Handy, chefe interino do Estado-Maior, enquanto Marshall estava em Potsdam. E insistiu, obstinadamente:
— Se vou matar 100 mil pessoas, não irei fazê-lo por ordens verbais. Quero a autorização por escrito.
O documento foi preparado por Groves a 23 de julho, sendo transmitido para a Pequena Casa Branca, em Potsdam, para aprovação ... imediatamente concedida. Handy assinou e entregou o documento a Spaatz, em 25 de julho.
Quando Spaatz chegou a Guam, seu novo chefe de estado-maior, LeMay, sugeriu que tivesse uma reunião imediata com os elementos-chave envolvidos na missão atômica. Spaatz concordou. A reunião foi realizada a 29 de julho, no gabinete de LeMay, com a presença de Tibbets, Parsons, Blanchard e o chefe do serviço de meteorologia da Força Aérea. A data exata da missão dependería da previsão meteorológica, da indicação de “um bom dia de bombardeio”, quando haveria um máximo de três-décimos de nuvens e ventos favoráveis sobre o Japão.
Spaatz leu a ordem em voz alta:
Para: General Carl Spaatz, Comandante da USAF.
1. O 509º Grupo Integrado, da 20º Força Aérea lançará sua primeira bomba especial assim que o tempo permitir bombardeio visual, depois de 3 de agosto de 1945, num dos seguintes objetivos: Hiroxima, Kokura, Niigata e Nagasáki. Haverá aviões adicionais para acompanharem o aparelho com a bomba, levando pessoal militar e civil científico, com a finalidade de observar e registrar os efeitos da bomba. Os aviões de observação ficarão a vários quilômetros do ponto de impacto da bomba.
2. Serão lançadas bombas adicionais nos demais objetivos antes referidos, assim que estiverem prontas. Demais instruções serão transmitidas em relação a outros objetivos além dos citados.
3. A divulgação de toda e qualquer informação relativa ao uso da arma contra o Japão está reservada ao Secretário da Guerra e ao Presidente dos Estados Unidos. Nenhum dos comandantes na frente de combate poderá divulgar comunicados a respeito, sem autorização específica anterior. Qualquer notícia deverá ser enviada ao Departamento da Guerra, para a necessária autorização.
4. Esta diretiva tem a orientação e aprovação do Secretário da Guerra e do Chefe do Estado-Maior Conjunto. Deverá entregar pessoalmente uma cópia desta diretiva ao General MacArthur e outra ao Almirante Nimitz, para conhecimento.
Ass.: Thos. T. Handy General, G.S.C.
Chefe do Estado-Maior Interino
Finalmente, o Comandante americano no Pacífico, MacArthur, iria tomar conhecimento da arma revolucionária.
Spaatz dobrou o documento e guardou-o novamente na pasta. E perguntou:
— Cavalheiros, os preparativos estão dentro dos prazos?
Os homens em torno da mesa assentiram. Em seguida, Parsons leu um telegrama que acabara de receber, enviado por Oppenheimer, de Los Alamos.
Depois do teste de Alamogordo, Oppenheimer calculara que a energia liberada pela bomba a ser lançada no Japão seria entre 12 e 20 mil toneladas. A explosão seria equivalente a de oito a 15 mil toneladas de TNT.
Seriam necessários quase dois mil B-29, transportando as cargas máximas de bombas convencionais, para igualar uma bomba atômica. Mesmo agora, quase um ano depois de começar a trabalhar com o Projeto Manhattan, Tibbets ainda ficava aturdido só de pensar em tamanha potência destruidora.
Talvez Oppenheimer se estivesse sentindo da mesma maneira ao escrever o memorando para Parsons. Depois de mencionar que a bomba provavelmente explodiria 600 metros acima da cidade- alvo, ele declarava:
Não se espera que a contaminação radioativa alcance o solo. A Bola de Fogo deverá ter um brilho que persistirá por mais tempo que em Trinity (Alamogordo), já que não haverá poeira. De um modo geral, a luz visível emitida pela unidade deverá ser mais espetacular. A radiação letal, é claro, alcançará o solo, partindo da própria bomba.
Oppenheimer terminava o memorando com duas palavras: “Boa sorte. ”
A reunião no gabinete de LeMay se encerrou com a introdução de mais dois nomes em código. LeMay passaria a ser conhecido como “Canhão”; o General Farrell, a caminho de Guam para funcionar como representante principal do Projeto Manhattan nas Marianas, seria “Escala”.
Ao voar de volta para Tinian, em companhia de Parsons, cujo nome em código era “Juiz”, Tibbets pensou que, se pudesse escolher um pseudônimo, gostaria de ser conhecido como “Justiça”.
* * *
Pouco depois de sua chegada a Tinian, Tibbets saiu novamente para a pista, a fim de receber suas tripulações, de volta das missões solitárias sobre o Japão.
Nenhuma delas fora atingida por fogo antiaéreo. O tempo sobre os alvos estava razoável, e todos os aparelhos puderam bombardear visualmente.
Quando Lewis aterrou, Tibbets deu parabéns a ele e a seus homens, por não terem perdido o controle com a experiência da bomba caída, antes da decolagem. Lewis aproveitou a oportunidade para recordar a seu comandante:
— Minha tripulação é a melhor que você tem.
Houve então uma breve conversa, a respeito da qual Tibbets e Lewis iriam mais tarde divergir.
Embora Lewis esperasse lançar a primeira bomba atômica com "sua tripulação”, em “seu avião”, Tibbets já o informara de que Van Kirk e Ferebee iriam participar da missão. Lewis não gostara da idéia, mas tivera que aceitá-la. Encarara o fato de Van Kirk ter voado com ele naquele dia como uma confirmação do plano.
Ao voltar da missão, segundo Lewis, Tibbets lhe dissera que ele, Lewis, “voaria a missão”. O capitão julgou que isso significava que seria o comandante do aparelho.
Tibbets não negou ter feito tal comentário, mas iria divergir radicalmente de seu subordinado na interpretação:
— Lewis voaria como co-piloto. Van Kirk e Ferebee iriam substituir seu navegador e bombardeador habituais. Era evidente para qualquer um que, em tal missão, eu tinha que estar sentado no lugar do piloto.
22
A bordo do submarino I.58, pouco antes de meia-noite, o oficial de guarda acordou o Comandante Mochitsura Hashimoto e informou-lhe de que estava tudo em ordem. Hashimoto comentou que ia ser “uma boa noite para caçar”.
No dia anterior, às duas horas da tarde, Hashimoto avistara um petroleiro, escoltado por um contratorpedeiro. Julgando desaconselhável aproximar-se demais para lançar seus torpedos convencionais, Hashimoto decidira em vez disso lançar dois dos seus seis kaitens. Depois de se despedirem rapidamente do Comandante, os dois pilotos suicidas haviam deixado o submarino através de uma escotilha, indo pegar seus torpedos, presos no tombadilho do I.58. Os jovens oficiais gritaram pelo interfone:
— Três vivas ao Imperador!
Hashimoto ordenara em seguida que fossem lançados. Os kaitens haviam seguido na direção do petroleiro com péssima visibilidade. O capitão acompanhara-os pelo periscópio, até que a chuva os apagara por completo. Ficara esperando. Depois, muito fraco, mas inconfundível, ouviu explosões. Hashimoto calculou que o petroleiro fora atingido. Mas como não tivera certeza absoluta, registrara no diário de bordo apenas como “provável”.
Depois de comandar a tripulação em preces pelos pilotos kaitens falecidos, Hashimoto partira para a “encruzilhada”, o cruzamento das rotas de navegação americanas, ligando Guam com Leyte, nas Ilhas Filipinas, e Okinawa com Peleliu, nas Ilhas Palau.
A “encruzilhada” ficava exatamente a 600 milhas de Guam. O I.58 chegara lá bem cedo, naquela manhã de domingo. O mar estava sereno e o submarino permanecera na superfície durante a maior parte do dia. Ao cair da tarde, a visibilidade se reduzira, quando uma neblina baixara sobre o mar. Hashimoto ordenara que o submarino submergisse até o nascer da Lua, por volta das 11 horas.
Depois de acordado, o capitão foi fazer suas preces no santuário do submarino. Em seguida, ordenou que todos ficassem a pastos para ação noturna. Enquanto o chefe de máquinas aumentava a velocidade para três nós, toda a tripulação entrou em estado de alerta.
Hashimoto determinou que o submarino subisse até 20 metros sob a superfície e ergueu o periscópio noturno. Depois de ajustar o visor, esquadrinhou a superfície num ângulo de 360°. A Lua estava cerca de 20° a leste e havia nuvens esparsas.
Ele ordenou que o submarino ficasse a três metros da superfície .
— Levantem o radar tipo-13!
O mecanismo para detectar aviões ergueu-se ligeiramente acima das ondas. Seu operador informou não haver qualquer sinal de aviões.
— Levantem o radar tipo-22!
O radar de superfície, que indicava a presença de outras embarcações num raio de três milhas do I.58, ergueu-se acima das águas. Pela experiência passada, o capitão sabia que o mecanismo era passível de equívocos, tomando madeiras à deriva, cardumes e aflorações de rochas por navios.
Somente quando o operador comunicou que o arredor estava vazio, é que o comandante deu a ordem seguinte:
— Subir à superfície!
Hashimoto baixou as alças do periscópio.
— Abrir os tanques de lastro!
O ar comprimido entrou nos tanques principais, expelindo o que restava de água e fazendo com que o submarino subisse rapidamente à superfície.
Assim que o tombadilho ficou livre das águas, Hashimoto ordenou que fosse aberta a escotilha da torre. O sinaleiro e o navegador subiram para a ponte com o oficial de vigia, todos esquadrinhando o horizonte com potentes binóculos noturnos.
Lá embaixo, na sala de controle, o capitão também esquadrinhava, pelo periscópio noturno. O operador do radar de superfície continuava a vigiar.
A rotina foi quebrada pelo grito do navegador da ponte:
— Navio à vista! Possível navio inimigo!
Hashimoto baixou o periscópio.
— Preparar para ação!
As campainhas de alarme soaram e a tripulação correu para os postos de combate, enquanto o comandante subia a escada para a torre. Olhando pelo binóculo, avistou um ponto escuro ao luar, claramente visível no horizonte. Desceu a escada gritando:
— Mergulhar!
O vigia da torre seguiu atrás dele. A escotilha foi fechada. Os tanques de lastro foram abertos e o I.58 mergulhou, com Hashimoto sempre olhando pelo periscópio noturno, a fim de não perder o alvo de vista.
Era o Indianapolis.
* * *
O velho cruzador zarpara de Tinian na quinta-feira, 26 de julho, depois de entregar em segurança sua misteriosa carga. Após uma breve escala em Guam, o Indianapolis seguira para Leyte, nas Filipinas. De lá, provavelmente retomaria a São Francisco, para pegar mais material nuclear.
Aquele domingo no mar seguira a rotina habitual: serviço religioso pela manhã no tombadilho, todo mundo proibido de fumar até que terminasse, nenhum trabalho até ser servido o almoço.
Ao cair da tarde, o mar ligeiramente encapelado se tornara mais agitado, mas não o suficiente para afetar o curso em ziguezague que o navio seguia. Os motores foram reguladas para produzir sons desiguais, a fim de confundir os submarinos inimigos que pudessem estar na escuta por hidrofones.
O Capitão McVay dissera ao oficial de plantão que o navio não precisava mais de continuar por um curso em ziguezague, depois do escurecer.
Às 10:30 horas, com a visibilidade ainda precária, o Capitão McVay assinara as ordens noturnas. Não havia qualquer instrução para retomar o ziguezague, se o tempo melhorasse. McVay fora dormir em seu camarote, perto da ponte de comando.
A uma velocidade de 16 nós, o Indianapolis seguia em linha reta na direção do submarino I.58. Estavam separados por menos de 10 milhas de mar.
* * *
Dez metros abaixo da superfície, o I.58 virou lentamente para ficar de frente para o navio que se aproximava. Hashimoto permanecia inclinado sobre o periscópio, comprimindo o rosto com tanta força contra a proteção de borracha do visor que seus olhos ficaram aguados. Ele os piscou, para clarear a visão, depois retomou a observação. À medida que o alvo foi-se aproximando, o ponto preto assumiu um formato triangular distinto. O comandante do submarino sentiu-se excitado. Não era um mero navio mercante, mas sim um vaso de guerra.
— Todos os tubos prontos! Kaitens de prontidão!
A distância entre o submarino e o Indianapolis era agora de cinco milhas.
Ainda olhando pelo periscópio, Hashimoto calculou que a altura do mastro principal era de 30 metros. O navio era grande demais para ser um contratorpedeiro. Devia ser um encouraçado ou um cruzador, um alvo de primeira.
Os operadores de hidrofones informaram que já podiam captar o barulho dos motores. A três milhas de distância, Hashimoto ajustou um par de fones aos ouvidos. O alvo, claramente delineado ao luar, estava num curso de quase colisão com o submarino.
Hashimoto desconfiou de uma armadilha. Será que o navio que se aproximava. não seria uma isca, atraindo seus disparos enquanto os contratorpedeiros se aproximavam para atacá-lo? Nervosamente, esquadrinhou em derredor. Não havia qualquer outro navio à vista.
A duas milhas, o capitão japonês compreendeu que sua sorte continuaria. Virando-se para os homens agrupados a seu redor, permitiu-se uma predição:
— Nós o pegamos!
O silêncio baixou sobre o submarino. Toda a tripulação esperava pela ordem de disparar.
Subitamente, os pilotos kaitens começaram a pedir para serem lançados. Hashimoto disse-lhes rispidamente que só seriam usados, se o ataque de torpedos comuns fracassasse.
A distância era de menos de 3.000 metros, quando Hashimoto iniciou os cálculos finais.
* * *
A bordo do Indianapolis, o oficial de plantão de meia-noite às quatro horas da madrugada chegou à ponte de comando. Havia ali 13 homens, entre oficiais e graduados, controlando curso e velocidade.
* * *
No I.58, Hashimoto fez uma revisão do seu cálculo original de que o Indianapolis estava avançando a uma velocidade de 20 nós. Baseado no que podia ver pelo periscópio e no que ouvia pelos hidrofones, calculou agora que a verdadeira velocidade era de 12 nós. Resolveu protelar o disparo até que a distância estivesse reduzida a uma milha.
Os torpedos foram ajustados para cortar a água a uma profundidade de quatro metros e a uma velocidade de 48 nós. Sem fazer esteira, seriam invisíveis até mesmo para o vigia mais atento a bordo do Indianapolis.
Quando a distância entre o submarino e o cruzador era inferior a 1.500 metros, Hashimoto finalmente gritou as palavras que toda a tripulação aguardava ansiosamente:
— Atenção! Disparar!
Os torpedos foram disparados a intervalos de dois segundos. Depois de 12 segundos, o oficial de torpedos comunicou:
— Todos os tubos disparados sem problemas!
Seis torpedos, lançados de forma a se abrirem três graus, avançavam em alta velocidade para o Indianapolis, como um leque.
Passavam dois minutos da meia-noite.
* * *
A bordo do Indianapolis, um dos oficiais na ponte de comando comentou que a visibilidade estava melhorando, enquanto a Lua subia no céu, à frente do navio.
Lá embaixo, várias centenas de homens dormiam em colchões e mantas estendidos sobre o tombadilho, para escapar ao calor sufocante dos alojamentos.
Numa cabina de boreste, uma festa estava chegando ao fim. Em seu camarote de emergência, por trás da ponte de comando, o Capitão MacVay dormia, inteiramente nu.
* * *
Hashimoto contou os segundos enquanto o submarino se virava, para ficar paralelo ao cruzador.
— Cinquenta e um, cinquenta e dois. ..
Uma gigantesca coluna de água se ergueu no ar, bloqueando a vista da torre da proa do Indianapolis. Outra coluna de água se ergueu diante da torre da popa. Depois, chamas alaranjadas surgiram em diversas partes da superestrutura do navio. Enquanto os torpedos iam acertando no alvo, um a um, Hashimoto soltou um grito exultante:
— Acertamos em cheio!
A tripulação do I.58 dançou de alegria, gritando e batendo com os pés, que o submarino ficou parecendo um manicômio submerso.
* * *
Não houve pânico a bordo do Indianapolis, apenas uma incredulidade aturdida de o navio ter sido atingido. Rapidamente a tripulação entrou em ação para enfrentar a emergência. O velho cruzador estava rangendo e gemendo.
O Capitão McVay ordenou à sala de rádio que transmitisse uma mensagem de socorro. Momentos depois, com fogo e fumaça envolvendo quase todo o convés da proa, sem luz nem energia, indício certo de que a avaria era mortal, McVay deu ordem para abandonar o navio.
O Indianapolis inclinou-se para boreste. Enquanto o cruzador se enchia rapidamente de água, a proa ia-se erguendo gradativamente, até ficar 30 metros acima da água, e uma parte cada vez maior do casco afundava no Pacífico. Centenas de homens, vivos, agonizantes e já mortos, boiavam no mar.
Por um momento, o casco reluzente permaneceu equilibrado. Gritos de pânico enchiam o ar. Depois, rapidamente, mal perturbando os movimentos do Pacífico, o Indianapolis mergulhou de todo. Era o último grande navio a ser afundado na II Guerra Mundial, e a vítima do maior desastre no mar na história da Marinha dos Estados Unidos.
Eram exatamente 14 minutos do dia 30 de julho de 1945.
* * *
Depois de recarregar os seis tubos de torpedo, Hashimoto levou o I.58 à superfície. Não se podia avistar coisa alguma na escuridão. Uma hora já se passara desde que a ação começara. Nada encontrando, ele ordenou que o submarino seguisse para nordeste.
* * *
Noventa e seis horas se iriam passar antes que o primeiro navio de socorro aparecesse para recolher das águas os poucos sobreviventes do Indianapolis. Quando a notícia da perda de quatro quintos da tripulação chegou a Tinian, causou consternação e horror. Em relação a Jake Beser, houve um sofrimento pessoal: pouco antes do Indianapolis deixar Tinian, ele jantara com um antigo colega de escola que estava a bordo. Agora, seu amigo estava morto, era uma das quase 900 vítimas dos torpedos de Hashimoto.
Em Washington, ao saber da tragédia, Groves ficou aliviado pelo fato de o navio ter entregue sua preciosa carga de urânio antes de ser afundado. No mesmo dia em que o Indianapolis foi atacado, Groves estava escrevendo um memorando para o chefe do Estado- Maior conjunto, fazendo uma previsão da produção de bombas atômicas depois de agosto:
Em setembro, devemos ter três ou quatro bombas... quatro ou três em outubro... Em novembro, teremos pelo menos cinco, e a produção subirá para sete em dezembro, aumentando ainda mais no início de 1946.
O chefe do Projeto Manhattan teria que pensar cuidadosamente no futuro, se a entrega da bomba por navio, como fizera com o Indianapolis, era de fato a melhor.
23
Os 13 tripulantes sobreviventes dos dois B-24 estavam sendo mantidos no Castelo de Hiroxima, alguns no quartel-general da Kempei Tai, outros na masmorra do próprio castelo, dois no quartel- general da 2º Divisão de Infantaria.
Os novos prisioneiros não tinham o menor conhecimento de 10 outros americanos que já estavam há semanas no castelo, em confinamento solitário.
Para todos os 23 americanos agora em Hiroxima, a vida era uma mistura de medo e desespero. Não havia qualquer mobília em suas celas, que continham somente uma bacia e uma manta. Os homens não tinham roupas além das que estavam em seus corpos ao serem capturados. Muitas horas de solidão eram entremeadas com interrogatórios. As tigelas de papa de farinha de trigo ou arroz que recebiam nas celas, três vezes por dia, mal davam para sustentá-los.
Regularmente, grupos de soldados japoneses curiosos iam espiá-los nas celas. Olhando pelas grades, gritavam insultos para os prisioneiros, enquanto estes tentavam agachar-se sobre os fedorentos buracos sanitários no chão.
De vez em quando, os prisioneiros eram levados para a sala especial de interrogatório usada pela Kempei Tai. Alguns americanos inventavam histórias, imaginando que conseguiriam permanecer vivos se dissessem o que pensavam que seus captores desejavam ouvir.
Os dois prisioneiros no quartel-general da 2º Divisão de Infantaria eram vigiados pelo soldado Masaru Matsuoka, que não pertencia à Kempei Tai. Ele ficava de guarda, o rifle com baioneta talada pronto para entrar em ação, em turnos de três horas de serviço, três horas de folga.
Matsuoka nunca falava com os americanos. Ele e os outros guardas acharam que as roupas dos prisioneiros eram tão esfarrapadas que “a América deve estar em péssima situação e ainda poderemos ganhar a guerra”.
Matsuoka sentia pena dos prisioneiros. Não podia compreender por que eles não se haviam matado para evitar a captura, como ‘nós teríamos feito”. Para ele, a desgraça de ter sido derrubado era razão suficiente para morrer.
Os cintos e cordões dos sapatos dos prisioneiros tinham sido tirados. Quando pediam uma navalha para se barbear, o pedido era recusado. Os japoneses temiam que os americanos ainda pudessem cometer suicídio.
24
Em Washington, Groves examinou a cópia de um cabograma urgente que Spaatz enviara de Guam:
REFERÊNCIA OPERAÇÃO QUILHA MARCADA DEPOIS 3 AGOSTO CONTRA NAGASAKI. INFORMES, FONTES PRISIONEIROS GUERRA, NÃO CONFIRMADOS POR FOTOS, DÃO LOCALIZAÇÃO CAMPO DE PRISIONEIROS GUERRA ALIADOS DOIS QUILÔMETROS NORTE CENTRO CIDADE NAGASAKI. ISSO INFLUENCIA ESCOLHA DESSE ALVO INICIO OPERAÇÃO QUILHA? SOLICITO RESPOSTA IMEDIATA.
Groves sabia que os prisioneiros em Nagasaki poderiam ficar cegos com a explosão atômica, na melhor das hipóteses. Era mais provável, no entanto, que morressem.
Não querendo por uma vez assumir a responsabilidade total por tudo o que envolvia o Projeto Manhattan, ele consultou o General Handy, que disse que o assunto deveria ser levado à consideração de Stimson, que acabara de voltar da Conferência dos Três Grandes.
Antes de ir falar com Stimson, Groves preparou a resposta para Spaatz comunicando que não deveria haver mudança nos alvos por causa de prisioneiros de guerra. Mas o comandante de Guam poderia ajustar os locais dos alvos em que a bomba poderia ser lançada de maneira a diminuir a possibilidade de atingir um campo de prisioneiros de guerra.
Cauteloso desde sua confrontação com Stimson a propósito da proposta para bombardear Kyoto, Groves apresentou-lhe o cabograma de Spaatz e depois a resposta que propunha. Mais tarde, Groves recordou:
— A única reação dele foi agradecer-me por ter mostrado meu cabograma antes de enviá-lo.
Enquanto isso, Spaatz enviara outra mensagem ultra-secreta pura Handy:
HIROXIMA SEGUNDO INFORMES PRISIONEIROS DE GUERRA É A ÚNICA DAS QUATRO CIDADES-ALVO PARA QUILHA QUE NÃO TEM CAMPOS DE PRISIONEIROS DE GUERRA ALIADOS. ACONSELHE.
Handy conversou com Groves pelo telefone, antes de responder. E depois passou o seguinte cabograma para Spaatz:
SE CONSIDERA SUA INFORMAÇÃO MERECEDORA CRÉDITO, HIROXIMA DEVE SER PRIMEIRA PRIORIDADE.
Hiroxima foi colocada em primeiro lugar na lista de alvos.
25
A maior frota aérea concentrada nas Marianas deveria bombardear o Japão a 31 de julho. Quase mil bombardeiros decolariam ao meio-dia para atacar uma dúzia de cidades japonesas.
Pouco depois do meio-dia, o primeiro motor Wright Cyclone entrou em funcionamento. Foi seguido por outro e mais outro, até que o barulho de centenas de motores ecoava estrondosamente.
Depois de se deslocarem para a cabeceira das pistas, os bombardeiros avançavam, quatro de cada vez, pelas pistas paralelas de 3.500 metros do Campo Norte. Levou duas horas para que todos os bombardeiros decolassem. Quando o último aparelho alçou vôo do Campo Norte, o que ia na vanguarda já estava a uma distância de quase 800 quilômetros.
Dezenas de homens das equipes de terra haviam esquecido o almoço para contemplar a partida da gigantesca frota aérea. Beser foi um dos poucos homens do 509º que acharam que valia a pena perder a comida de Perry para “apreciar o espetáculo”. O desejo de Beser de entrar em ação ainda não fora satisfeito, apesar de ele já ter realizado diversas missões sobre o Japão. Naquele dia, como sempre, o tenente desejou ardentemente estar voando também.
Contudo, Beser sabia que todos aqueles aviões reunidos levavam uma carga de bombas com poder explosivo inferior ao que se esperava da primeira bomba atômica.
O oficial de radar era um dos poucos homens em Tinian que sabiam que a arma estava agora finalmente montada. Encontrava-se sobre cavaletes na oficina da Área Técnica, pronta para entrega. Para Beser, a bomba parecia “uma lata de lixo comprida, com barbatanas”.
* * *
Tibbets, Ferebee e Van Kirk passaram a manhã em Iwo Jima, verificando os planos para usar a ilha como um local de pouso de emergência para a missão atômica. Meses antes, ficara decidido que, se por algum motivo, o avião transportando a bomba atômica apresentasse algum defeito no estágio inicial da viagem, deveria aterrar em Iwo Jima. Era melhor pôr em risco os poucos milhares de soldados americanos ali estacionados do que arriscar mais de 20 mil em Tinian... sem falar na segunda peça de material bélico de valor inestimável que havia em Tinian, a bomba de plutônio.
No centro de uma área cercada em Iwo Jima, havia um buraco grande e profundo, cujas dimensões eram as mesmas de outro buraco similar em Tinian, igualmente cercado. No dia da missão, a bomba atômica seria baixada para o buraco em Tinian, o B-29 iria parar sobre ele, e a bomba seria guinchada para o compartimento do avião. O buraco em Iwo Jima permitiría uma rápida transferência da bomba para um avião de reserva, caso o avião original fosse obrigado a fazer ali uma aterragem forçada. Um centro de comunicações especialmente preparado funcionaria como posto de muda entre o avião e Tinian.
Satisfeitos, Tibbets e seus companheiros deixaram Iwo Jima tão misteriosamente quanto haviam chegado. Voando novamente para o sul, encontraram o espaço aéreo de 900 quilômetros até Tinian “atravancado de bombardeiros”. Tibbets pensou consigo mesmo que “em breve tudo isso estará obsoleto... se a bomba atômica funcionar”.
* * *
A 19 de agosto, depois de um dos magníficos cafés da manhã de Perry, Tibbets foi para o seu gabinete no quartel-general do 509º, fechou a porta, sentou-se à mesa e começou a escrever rapidamente.
Levou apenas alguns minutos para elaborar a ordem ultra-secreta para o primeiro ataque atômico da história.
Guardou a ordem num envelope lacrado e despachou por mensageiro especial para o quartel-general de LeMay em Guam.
A ordem especificava que sete B-29 seriam usados na missão histórica. Um deles seria necessário em Iwo Jima para servir como avião de reserva. Três voariam à frente do avião com a bomba, um para cada cidade-alvo em potencial, a fim de verificar o tempo no local e transmitir as informações necessárias. O aparelho com a bomba seria acompanhado por dois aviões de observação.
O coronel tinha agora que decidir qual das suas tripulações iria voar com ele na missão, quais as que desempenhariam as outras funções.
Ele começou por escalar Eatherly para pilotar o avião que iria verificar o tempo em Hiroxima.
* * *
Ao meio-dia, Tibbets mandou chamar o oficial de informações do grupo, Tenente-Coronel Hazen Payette, e seu colega do 393º Esquadrão, Capitão Joseph Buscher. Fora este último, no primeiro dia em Wendover, há quase um ano, quem recomendara aos aviadores que se queixavam, para “darem uma chance ao lugar”.
Tibbets informou aos dois homens da missão iminente e determinou que se preparassem para dar a notícia às tripulações escolhidas sobre a aparência das cidades-alvo de 10 mil metros de altitude.
* * *
Em Guam, o General Thomas Farrell, Subchefe de Groves, que acabara de chegar às Marianas para servir de “olhos e ouvidos” do projeto, recebeu seu primeiro cabograma de “Casmurro”, o nome em código do quartel-general de Groves em Washington:
HÁ ALGUMA COISA QUE FICOU POR FAZER AQUI OU AI QUE ESTEJA ATRASANDO INICIO DA OPERAÇÃO GAROTINHO? Farrell, um homem louvavelmente de poucas palavras, passou o cabograma de resposta: NÃO.
* * *
Depois do almoço, Tibbets mandou chamar, em rápida sucessão, a Perry, o oficial do rancho, Sweeney, o Comandante do 393º, e Classen, o Subcomandante do 509º.
Entre outras instruções, determinou a Perry que providenciasse “um bom estoque de torta de abacaxi de 3 de agosto em diante”. Era sua sobremesa predileta e gostava de comê-la antes de voar.
Tibbets informou a Sweeney da missão iminente. Disse ao irlandês de Boston que o avião dele, o Great Artiste, seria transformado num laboratório voador, levando instrumentos sensíveis que iriam medir a explosão e outros efeitos da bomba. Sweeney e outro B-29, transportando equipamento fotográfico, acompanhariam o avião de Tibbets ao alvo.
Classen recebeu uma informação geral. Tibbets sentiu que seu Subcomandante, por tanto tempo negligenciado, ficou contente por ser finalmente posto a par de tudo.
O coronel não mandou chamar Lewis para informá-lo de que seria seu co-piloto na missão. Achava que isso “era tão evidente que não precisava nem dizer”.
Em Washington, Groves recebeu outro cabograma lacônico de Farrell. “Desde 10:00 horas Horário de Guerra no Oriente”, a bomba estava pronta para ser lançada sobre o Japão. Truman insistira em dar aos líderes inimigos mais alguns dias para reconsiderarem sua reação inicial à Proclamação de Potsdam. Mas tudo o que eles disseram desde então parecia confirmar a rejeição. Para Groves, a operação estava agora “em pleno andamento”.
26
No início da tarde de 2 de agosto, Tibbets e Ferebee chegaram ao quartel-general de LeMay em Guam para completar os detalhes que o Comandante do 509º fora incapaz de incorporar ao esboço da ordem de missão que enviara no dia anterior.
LeMay acabara de ser promovido a Chefe do Estado-Maior das Forças Aéreas Estratégicas. Estava de bom humor.
A primeira coisa que os dois aviadores precisavam saber era qual a cidade-alvo que LeMay pessoalmente preferia. Quando Groves, em princípio, recomendara Kyoto, LeMay discordara. Em sua opinião, Kyoto “não era um objetivo militar, apenas um lugar cheio de santuários e coisas do gênero; além do mais, bombardear pessoas não leva a parte alguma, simplesmente não é proveitoso”. Mas LeMay estava satisfeito com Hiroxima. Sabia que havia muitas tropas na cidade e uma boa concentração de fábricas de guerra. Virou-se para Tibbets e disse, tranquilamente:
— Paul, o alvo primário é Hiroxima.
A resposta de Tibbets foi imediata:
— Sempre foi a minha preferência.
LeMay levou os visitantes a uma imensa mesa de mapa, com as últimas fotografias aéreas de reconhecimento de Hiroxima. Enquanto Tibbets e Ferebee as estudavam, LeMay chamou seu oficial de operações, Blanchard. LeMay quebrou o silêncio:
— Bombardeando da altitude que você tenciona, os ventos transversais podem ser um problema.
Ferebee concordou, dizendo que seu visor “pode corrigir até 25 a 30 graus de ventos transversais, mas às vezes chega a haver 40 a 50 lá em cima”.
Blanchard propôs uma solução:
— Você deve voar diretamente com vento de cauda. Teria a dupla vantagem de aumentar a velocidade, deixando-o menos tempo vulnerável sobre o alvo, e não teria que se preocupar mais com ventos transversais.
Tibbets discordou. Achava melhor voar diretamente contra o vento, o que poderia eliminar também o efeito dos ventos transversais e dar a Ferebee a melhor chance de bombardear acuradamente.
LeMay ressaltou que ir contra o vento implicaria em diminuir a velocidade do avião, fazendo com que a passagem sobre o alvo se tomasse mais arriscada.
Ferebee olhou para Tibbets e depois falou por ambos:
— Nosso propósito primário é atingir o alvo. Estamos indo até lá para bombardear e não para fazer as coisas da maneira mais segura.
— Está certo. Irão contra o vento.
LeMay pediu em seguida a Ferebee que selecionasse seu ponto de alvo.
O bombardeador, sem hesitar, colocou o dedo indicador sobre a Ponte Aioi, em forma de T, no centro de Hiroxima.
LeMay assentiu.
Tibbets concordou.
— É o mais perfeito PA que já vi em toda esta maldita guerra!
FISSÃO
De 3 de agosto de 1945 a 8:16 horas
de 6 agosto de 1945