A construção da igualdade: política e identidade homossexual no Brasil da "abertura"
O jornal Lampião da Esquina
Embora o Lampião seja o jornal homossexual que tenha ficado mais conhecido e que tenha atingido um público maior, graças ao profissionalismo de sua equipe de jornalismo e à sua ampla distribuição, ele não foi único. Outras publicações, dedicadas a um público homossexual, já haviam surgido anteriormente e continuaram a ser editadas depois do desaparecimento daquele jornal, mesmo que, em sua maioria, não conseguissem manter uma periodicidade regular.
Diz-se que chegaram a circular 27 publicações gays no Brasil, na década de 1960 e no começo de 1970. Na sua maioria, eram mimeografados e, ocasionalmente, xerocados. Agildo Guimarães e Anuar Farah, dois dos principais responsáveis por essas publicações no Rio de Janeiro, admitem, em entrevista concedida a Leila Mícolis, que eram trabalhos ingênuos, embora não se pudesse deixar de reconhecer o seu valor criativo, inclusive quanto aos seus recursos de impressão. (MÍCOLIS, 1980) Alguns eram verdadeiras obras de arte artesanais, como os jornaizinhos baianos de um único exemplar, feitos à mão por Waldeiton Di Paula, o Gente gay de 1976, que trazia reduções e reproduções de fatos por processo de xerox e uma diagramação moderna.
A maioria dos textos desses jornais falava de amenidades e acontecimentos mundanos, embora também houvesse indicações culturais, reportagens, classificados, concursos de contos, poemas, roteiros gays, textos transcritos de jornais ou revistas de grande imprensa, assinados por nomes como Darcy Penteado, Antonio Bivar e outros.
A distribuição era geralmente feita de mão em mão, nos lugares de encontro dos homossexuais: boates, bares e restaurantes, por exemplo. Embora sua circulação fosse geralmente minúscula, esses zamiztats da homossexualidade ocasionalmente atraíam as atenções da repressão policial. Anuar Farah, por exemplo, uma vez foi chamado para comparecer ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Rio de Janeiro para prestar declarações sobre o seu Le Femme, mas a polícia não achou necessário levar o assunto adiante.
Além da qualidade de produção, esses jornais também diferiam do Lampião pelo fato dos seus autores geralmente esconderem suas identidades atrás de pseudônimos femininos. Isso, provavelmente, por duas razões: para evitar prejuízos às suas vidas profissionais ou familiares, e também porque, naquele tempo, a maioria dos homens que se consideravam como homossexuais ainda aderiam ao sistema tradicional de ordenação de identidades sexuais no qual “as bichas” eram geralmente associadas ao papel de gênero feminino. (FRY, 1982, p. 87)
Publicações nesse estilo continuam a ser produzidas até hoje. No Rio, por exemplo, circula, com periodicidade irregular, o Okzinho, órgão da Turma OK. Esta é uma associação de homens que têm
como divertimento o transformismo 1 praticado durante suas reuniões. Significativamente, a média de idade de seus associados é mais alta do que a dos grupos de militância homossexual, de quem fazem questão de se diferenciar, como diz Anuar Farah (apud MÍCOLIS, 1980, p. 6-7):
O que é movimento homossexual? Meia dúzia de viados escandalosos, no meio da rua, com tabuletas “queremos igualdade, queremos aquilo, eleger fulano, abaixo isso? [...] Acho uma anarquia. Agora: se o movimento homossexual é esta liberdade que nós temos hoje, essa motivação, esse trabalho honesto que fazemos, você vai ao teatro e assiste atuações como o da Camille, da Rogéria, você liga televisão, vê textos maravilhosos como o Crime do castiçal, pega o jornal de vocês (Lampião) e encontra coisas sensacionais, realmente honestas, então isso é o movimento. Mas tem gente que diz que estamos trancados dentro de uma garrafa. Isso é ridículo. Acho que nós estamos atuantes, estamos aí, todo mundo pela rua, um movimento incrível, tudo o que se faz é honesto, aí eu acredito: agora essa questão de política não, não aceito, não existe mesmo.
Ressaltando as diferenças no estilo da atuação homossexual, convém lembrar que as dissidências entre grupos desse tipo parecem ter uma origem estrutural, sendo quase inevitáveis, como será discutido mais detalhadamente em outra parte deste livro. Os próprios Agildo Guimarães e Anuar Farah, por exemplo, reconhecem que muitas vezes a criação de um jornalzinho novo se dava em função de uma dissidência ocorrida no grupo. Anuar Farah teria deixado o Snob, fundado por Agildo Guimarães, para editar o seu Le Femme. Esses grupos também tiveram uma atuação política embrionária, como a criação de uma Associação Brasileira de Imprensa Gay, que existiu entre 62 e 64, e que, como diz Farah (apud MÍCOLIS, 1980, p. 6-7), tinha o ideal de lutar para mostrar:
que éramos pessoas normais, que fazíamos o que as outras faziam. Normais sempre fomos, sem diferenças[...] Atualmente, eu passo no teatro e olho Camille, Marlene Casanova, e penso que há dez anos atrás elas nunca poderiam fazer isso. Daí, eu acho que, dentro de nossa batalha, nós ganhamos a luta em parte, porque, hoje, quando eu vejo o jornal de vocês (Lampião), vendido numa banca de revista, aberto, sinto que isto é uma vitória também nossa, também nós lutamos muito por tudo isso[...]. Uma das maiores contribuições nossas, na minha opinião, foi, sem dúvida, sairmos dos salões fechados, como chamávamos antigamente nossas casas, e nos apresentarmos em público.
Fry (1978) também defende essa imprensa ao escrever sobre a produção baiana, basicamente de autoria de Di Paula, conhecido em Salvador por seu trabalho como transformista. Este explica que, quando ele começou sua atividade “jornalística”, por volta de 1962, os homossexuais da Bahia tinham uma vida muito “fechada’’, não podendo: “ter liberdade de expressão, viver publicamente e ser aceitos pela sociedade”. Formaram-se, então, vários grupos exclusivos, com nomes como VID (Very Importants Dolls), Carimbos, e “Os Intocáveis”. Di Paula começou a fazer um jornalzinho satírico, sobre os membros do seu grupo. Era chamado Fotos e fofocas, feito à mão (as “fotos” eram desenhos, com a tiragem de um exemplar único). Nestes desenhos, os membros do grupo eram transformados em mulheres “finíssimas” retratadas descendo de aviões intercontinentais, participando de coquetéis refinadíssimos ou simplesmente posando para a “câmara” de Di Paula. Como diz Fry, numa situação de forte repressão, Di Paula conseguiu produzir “um elemento de ligação e união, além da informação. Era uma forma de expressar a nossa realidade.”
Fotos e Fofocas durou até 1967, quando, então, apareceu o Zéfiro, que já era datilografado. Em 1970, surgiu Little Darling, assim chamado em homenagem a um colega de Di Paula no curso de inglês. Este jornal era bastante diferente dos seus precursores, pois além das fofocas de turma, incluía crítica de teatro e de cinema, informes sobre os acontecimentos do “mundo gay” fora da Bahia e do Brasil, assim como informes que Di Paula achava importantes, mesmo se não diretamente relacionados à homossexualidade. Mais tarde, Little Darling mudou de nome para Ello – um saldo médio entre “ele” e “ela”. Em 1980, veio Baby, também datilografado e com uma tiragem de 50 cópias xerografadas.
Fry (1978) relaciona as mudanças percebidas nos jornaizinhos às grandes transformações ocorridas na vida homossexual. Ele cita Di Paula (apud FRY, 1978):
Hoje a mentalidade é outra. E tem a liberdade enorme que nós não tínhamos antigamente. Nos carnavais éramos todos mascarados, não tínhamos coragem de mostrar a cara. Hoje, na Praça Castro Alves, todo mundo faz o que quer, abertamente e com o apoio de todo o mundo, com cobertura da polícia. Foi a década de 70 que trouxe esta renovação. Está relacionada com o movimento tropicalista de Caetano Veloso. Acho que esse pessoal todo é que criou uma abertura maior [...] Eu, na minha adolescência, pensava em sociedade, em fofoca, aquela coisa mais social. Hoje, mais maduro, vejo que tem muita coisa importante para se pensar, para pesquisar, saber as origens, buscar as raízes [...] Naquele tempo, achava lindo fazer um desfile de miss. Hoje, se eu fizer um desfile, como faço, é uma sátira.
Fry (1978) conclui dizendo que, mesmo aqueles que criticam o trabalho de Di Paula como contribuidor para a manutenção do machismo, devem reconhecer que “o importante é que ele fez alguma coisa em prol da sua própria libertação e para a libertação dos outros”. Ele também chama a atenção para as várias transformações ocorridas na sociedade, transformações essas que levaram à possibilidade de se lançar o Lampião.
A imprensa alternativa
Uma das transformações importantes que ocorriam na época dava-se na imprensa, onde, desde a instalação do regime militar, um severo controle oficial era exercido sobre tudo o que se publicava. Para escapar dos rigores da censura e da autocensura, vigentes especialmente na grande imprensa, alguns jornalistas resolveram fundar pequenos jornais, de tiragem irregular, usando técnicas quase artesanais de impressão. Nascia, assim, a “imprensa alternativa” ou “imprensa nanica”.
O grande pioneiro dessa forma de produção jornalística foi O pasquim que começou a ser editado no Rio de Janeiro por volta de 1969. Nele não só se faziam críticas aos aspectos econômicos do regime, como também se promovia uma contestação cultural mais ampla, através do emprego ousado de expressões da gíria carioca e da mescla de discussões políticas com a “curtição” das belezas femininas. Não foi à toa que a escolhida “musa do Pasquim” foi Leila Diniz, uma atriz de cinema, defensora da liberdade sexual da mulher e dada a usar expressões, até então, consideradas impróprias a alguém do seu sexo. Também causou um pequeno escândalo ao se atrever a expor sua barriga de grávida, deixando-se fotografar de biquíni na praia.
Apesar das posições do jornal frequentemente deixarem transparecer uma visão de mundo “machista”, ele ousava tratar de forma irreverente assuntos raramente abordados pela grande imprensa de forma sisuda e altamente moralista. Usando uma linguagem informal, ele abordava o tema da homossexualidade e, durante certo tempo, até se referiu a um dos colaboradores como “a bicha do Pasquim”. Ao misturar em suas páginas matérias de crítica social “sérias” com aquelas que tratavam de aspectos do não conformismo sexual, O Pasquim contribuiu para dar também a estes uma aura “política”. Mais uma vez, repetia-se o processo em que a perseguição, promovida pela tirania do regime militar, acabava levando à união de vertentes de pensamento e prática bastante divergentes entre si. Forçados a conviver no estreito espaço permitido à oposição, os proponentes da crítica política e da crítica de costumes acabavam se influenciando mutuamente.
Na década de 1970, surgiu um grande número de jornais alternativos, dos quais, alguns dos mais importantes talvez tenham sido Opinião, movimento, Ex, Versus e Em Tempo. Através desses, certos segmentos do público – basicamente pertencentes à classe média intelectualizada – acompanhavam, em detalhes, os acontecimentos que marcaram o “despertar da sociedade civil” na segunda metade da década, como, por exemplo, as campanhas pela anistia para os acusados de cometer crimes políticos e pelo esclarecimento do paradeiro dos “desaparecidos”. Não se pode esquecer o escândalo, causado pela publicação, no jornal Em tempo, edição 25 julho de 1978, de uma lista com o nome de 233 pessoas acusadas pelos presos políticos de serem torturadoras.
Além de terem que lutar contra a censura e de sofrerem constantes apreensões, às vezes de edições inteiras – o que para essas firmas de pequeno capital era um golpe seríssimo –, os jornais alternativos eram também muitas vezes vítimas de atentados terroristas. Mesmo assim, eles foram bem sucedidos em desempenhar um papel que a grande imprensa só foi capaz de adotar depois do advento da “abertura”. Porém, com o acirramento da crise econômica e o consequente aumento dos custos da produção, assim como a onda de atentados terroristas às bancas que ousassem vendê-los, essas publicações começaram a deixar de circular. Com exceção do Pasquim, somente sobreviveram os jornais ligados às organizações político partidárias.
Surge o “Lampião”
Durante o período de maior proliferação dos “nanicos”, surgiu um jornal que, com a mesma seriedade de propósitos oposicionistas dos demais, mostrou-se mais questionador da moral vigente, voltando-se para o público homossexual, considerado até então frívolo, apolítico, quando não doente ou decadente. Esse jornal, cujo nome oficial era Lampião da Esquina, para diferenciá-lo de uma editora paulista chamada Lampião, teve seu número zero publicado em abril de 1980. De acordo com seu “mito de origem”, tudo começou com a visita ao Brasil, no final de 1977, do editor do Gay Sunshine, uma publicação americana dirigida a homossexuais. Winston Leyland viera para cá para entrar em contato com autores brasileiros, procurando contos para uma proposta de antologia da literatura gay latino-americana. O jornalista João Antonio Mascarenhas reuniu então um grupo de jornalistas para entrevistar Leyland para o Pasquim. Estes ficaram tão empolgados com a matéria que começaram a discutir a possibilidade de se lançar uma publicação que tratasse de forma séria a homossexualidade, destacando o seu contexto social. Realizaram-se várias reuniões e o grupo foi ampliado, para incluir alguns intelectuais que não haviam participado da reportagem para o Pasquim. As discussões serviram para revelar a existência de grandes diferenças de opinião entre os participantes, mas depois de algum tempo, estes resolveram deixar a teoria e passar à prática, produzindo o número zero, que saiu em abril de 1978.
Para financiar o jornal, nove dos seus onze idealizadores iniciais se cotizaram para criar uma editora de capital fixo. Resolveram também tentar arrecadar dinheiro através de uma carta endereçada a 12 mil amigos e amigos de amigos homossexuais de todo o Brasil. A receptividade que encontraram foi bastante boa e o dinheiro arrecadado serviu para financiar os dois primeiros números do jornal. Este, de formato tabloide, tinha vinte páginas e, começando com uma tiragem inicial de 10 mil exemplares, logo passou para 15 mil.
O número zero dedicava metade de sua segunda página a um editorial chamado “Saindo do gueto” e a outra metade a uma apresentação dos membros do conselho editorial. Estes dois textos revelavam bastante claramente as intenções que norteariam esse jornal durante certo tempo. Davam também uma indicação sobre o alto nível cultural e profissional dos seus responsáveis, o que, no futuro, daria ensejo a alguns dos seus detratores a chamá-los de “elitistas”.
Saindo do gueto
Brasil, março de 1978. Ventos favoráveis sopram no rumo de uma certa liberalização do quadro nacional: em ano eleitoral, a imprensa noticia promessas de um Executivo menos rígido, fala-se na criação de novos partidos, de anistia, uma investigação das alternativas propostas faz até com que se fareje uma ‘abertura’ do discurso brasileiro. Mas um jornal homossexual, para quê?
A resposta mais fácil é aquela que nos mostrará empunhando uma bandeira exótica ou ‘compreensível’, cavando mais fundo as muralhas do gueto, endossando – ao ‘assumir’ – a posição isolada que a Grande
Consciência Homossexual reservou aos que não rezam pela sua cartilha, e que convém à sua perpetuação e ao seu funcionamento. Nossa resposta, no entanto, é esta: é preciso dizer não ao gueto e, em consequência, sair dele. O que nos interessa é destruir a imagem padrão que se faz do homossexual, segundo a qual ele é um ser que vive nas sombras, que prefere a noite, que encara a sua preferência sexual como uma espécie de maldição, que é dado aos ademanes e que sempre esbarra, em qualquer tentativa de se realizar mais amplamente enquanto ser humano, neste fator capital: seu sexo não é aquele que ele desejaria ter.
Para acabar com essa imagem padrão, Lampião não pretende soluçar a opressão nossa de cada dia, nem pressionar válvulas de escape. Apenas lembrará que uma parte estatisticamente definível da população brasileira, por carregar nas costas o estigma da não-reprodutividade numa sociedade petrificada na mitologia hebraico-cristã, deve ser caracterizada como uma minoria oprimida. E uma minoria, é elementar nos dias de hoje, precisa de voz.
A essa minoria não interessam posições como as dos que, aderindo ao sistema – do qual se tornam apenas ‘bobos da corte’– , declaram-se, por ledo engano, livres de toda a discriminação e com acesso a amplas oportunidades; o que Lampião reivindica, em nome dessa minoria, é não apenas se assumir e ser aceito – o que nós queremos é resgatar essa condição que todas as sociedades construídas em bases machistas lhes negou: o fato de que os homossexuais são seres humanos e que, portanto, têm todo o direito de lutar por sua plena realização, enquanto tal. Para isso, estaremos mensalmente em todas as bancas do País, falando da atualidade e procurando esclarecer sobre a experiência homossexual, em todos os campos da sociedade e da criatividade humana. Nós pretendemos, também, ir mais longe, dando voz a todos os grupos injustamente discriminados – dos negros, índios, mulheres, às minorias étnicas do Curdistão: abaixo os guetos e o sistema (disfarçado) de párias. Falando da discriminação, do medo, dos interditos ou do silêncio, vamos também soltar a fala da sexualidade, no que ela tem de positivo e criador, tentar apontá-la para questões que desembocam todas nesta realidade muito concreta: a vida de (possivelmente) milhões de pessoas. Mostrando que o homossexual recusa, para si e para as demais minorias, a pecha de casta, acima ou abaixo das camadas sociais; que ele não quer viver em guetos, nem erguer bandeiras que o estigmatizem; que ele não é um eleito nem um maldito; e que sua preferência sexual deve ser vista dentro do contexto psicossocial da humanidade, como um dos muitos traços que um caráter pode ter. Lampião deixa bem claro o que vai orientar a sua luta: nós nos empenharemos em desmoralizar esse conceito que alguns nos querem impor – que nossa preferência sexual
possa interferir negativamente em nossa atuação dentro do mundo em que vivemos.
Em seguida, vinha outro artigo intitulado Senhores do conselho, onde era feita uma rápida apresentação dos onze responsáveis pela linha do jornal e de uma editora planejada para o futuro. Eram os jornalistas Adão Acosta, Aguinaldo Silva, Antônio Chrysóstomo, Clóvis Marques, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata, João Antônio Mascarenhas, o pintor Darci Penteado, o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet, o escritor e cineasta João Silvério Trevisan e o antropólogo Peter Fry. Nesse conselho de “senhores” não figurava nenhuma mulher. Na página 5 do primeiro número, um pequeno artigo de dois parágrafos, de autoria de Aguinaldo Silva, discutindo esse problema. Explicando que tudo começou com a visita de Leyland à coleta de material para uma antologia de autores homossexuais latino-americanos, a ser publicada sob o patrocínio do Congresso dos EUA, ele continua:
As mulheres editoras, procuradas por ele, reagiram de forma bastante estranha – não só deixaram bem claro que não estavam interessadas em participar da antologia, como algumas até se recusaram a falar com ele. A ausência de mulheres em Lampião não é, fique bem explicado, por culpa do seu conselho editorial: convites não faltaram, todos recusados, mas nossas colunas continuam à disposição. Uma das questões que o jornal pretende levantar é a do feminismo e, pelo menos quanto a este tema específico, as mulheres homossexuais não podem se furtar; no caso das mulheres, a discriminação é bem mais complexa e independente de suas preferências sexuais.
De fato, o Lampião, durante os seus três anos de existência, publicou um número considerável de matérias relacionadas ao feminismo, várias delas com chamadas na capa. Discutia-se, por exemplo, as questões do aborto e do estupro, houve ampla cobertura do 1º e do 2º Congresso da Mulher Paulista e do Encontro Nacional de Mulheres de 1979, e o número dedicado ao 1º Encontro de Grupos Homossexuais tinha na capa uma enorme foto de uma militante lésbica.
O assunto do lesbianismo mereceu bastante atenção – embora muito menos do que a homossexualidade masculina –, sendo o Lampião um dos grandes promotores da militância das mulheres homossexuais. Foram também publicadas matérias com chamadas na capa, discutindo a discriminação sofrida pela cantora negra Lecy Brandão e o caso de uma lésbica acusada de matar a sua amante.
Grande parte destes artigos foram escritos por mulheres, pois, Lampião, adotando os valores correntes da contracultura, pretendia dar a voz aos setores oprimidos da sociedade e às suas lutas políticas. Escreveram para Lampião intelectuais como Mariza Correa, Lelia Gonzales, Inês Castilho, Maria Luiza Heilborn, Cynthia Sarti; foram entrevistadas Marta Suplicy, Lecy Brandão, Alice Soares, Cassandra Rios, Norma Bengell, Darlene Glória, Zezé Mota, etc. Mas nenhuma destas se tornou uma colaboradora constante. A única mulher que participou de forma mais prolongada foi a poetisa e militante feminista Leila Mícolis, que acabou deixando o Lampião quando este se desentendeu com os grupos homossexuais, perto do final de sua existência. Portanto, apesar de não ter mulheres no seu conselho editorial, é necessário enfatizar que o jornal sempre se mostrou disposto a apoiar as lutas do movimento feminista, especialmente àquelas contra a esquerda stalinista ou instituições preconceituosas.
Voltando ao editorial, vemos que, desde o seu título, se enfatiza a necessidade de sair do gueto, visando deixar de lado a imagem padrão do homossexual como um ser amaldiçoado, incapaz de auto realização e que rejeita o seu sexo. Para isso, pretendia-se colocar os homossexuais como uma entre outras minorias oprimidas, todas com direito à sua voz, para poderem lutar por sua realização plena. Esse “dar voz às minorias” também incluiria falar livremente sobre o sexo. Reforçando a sua posição de colocar a discussão da homossexualidade dentro de um contexto social mais amplo, vemos também, neste texto, referências à situação política e cultural da época, com a menção à criação de novos partidos, à anistia e à “abertura”.
Embora Lampião não tenha sido plenamente bem sucedido em sair do gueto, certamente procurou iniciar uma discussão sobre as outras “questões minoritárias”. Além da atenção dada ao movimento feminista, deu grande destaque aos problemas da ecologia, dos negros, dos “presos comuns” e dos índios. Publicou vários artigos do ecólogo gaúcho José Lutzemberger, alguma coisa sobre os índios e bastante sobre os negros cuja luta contra a discriminação recebeu matérias de capa, incluindo uma longa entrevista com Abdias Nascimento e vários artigos de Rubem Confete sobre a vida e cultura negra.
Depois do movimento feminista, foram os negros os que receberam as maiores simpatias do jornal, principalmente no tocante às suas denúncias de arbitrariedades e violências policiais. Nestas, se revelava uma grande proximidade entre as dificuldades encontradas por eles e pelos homossexuais. A militância dos grupos negros foi tratada com bastante atenção e temas receberam coberturas de páginas inteiras, como as comemorações do dia de Zumbi e a inclusão de dados raciais ao censo da população nacional.
A questão da violência e das arbitrariedades policiais foi exaustivamente explorada e longos perfis foram traçados de dois delegados considerados especialmente agressivos: José Wilson Richetti, em São Paulo, e Geraldo Padilha, no Rio. Foi também feita uma campanha sistemática contra a proposta de oficialização da prisão cautelar e apontou-se a hipocrisia classista da campanha pela anistia ao preso político – geralmente de classe média – que não dava atenção à situação do preso comum – geralmente classe baixa – sujeito aos mesmos maus tratos e injustiças. Outra forma de atacar o moralismo da “esquerda bem pensante” foi a cobertura dada à prostituição, tanto feminina quanto a masculina, e à defesa das travestis, fazendo apologias a esses modos de vida.
Ao criticarem os poderes judiciais e policiais, a equipe redatora do jornal se mostrava muito bem informada. Não só contava com a coordenação editorial de Aguinaldo Silva, um conceituadíssimo repórter policial, mas, também, com a experiência própria dos membros do Conselho Editorial. Esses foram submetidos a inúmeros vexames durante o inquérito sofrido pelo jornal e promovido pelo Departamento de Polícia Federal do Rio de Janeiro, que pretendia enquadrá-los por ofensas à moral e ao pudor público. O Lampião desempenharia também papel importante na campanha dos grupos homossexuais, feministas e negros de São Paulo contra a Operação Rondão do Delegado Richetti, que pretendia retirar os homossexuais de seus pontos de encontro nas calçadas de certas ruas do centro da cidade.
Infelizmente, apesar desse empenho em manter as suas páginas abertas a outros grupos sociais, Lampião nunca conseguiu ser plenamente aceito como um jornal das minorias. A centralidade de seu foco em temas relacionados à homossexualidade emprestava-lhe um estigma que parecia por demais “contagiante”, afugentando os segmentos heterossexuais de seu público potencial. Essa constatação, aliada ao considerável número de cartas de leitores que reclamavam contra os aspectos “militantes” do jornal, juntamente com as desavenças que acabaram surgindo entre o conselho editorial e os grupos homossexuais organizados, terminariam por levar ao seu abandono dessa temática e a uma maior ênfase nos assuntos do gueto.
Desde o seu primeiro editorial, Lampião já manifestara claramente a ênfase a ser dada à discussão da questão homossexual. Pretendia desmontar a imagem padrão do indivíduo que, sentindo atração física por outros do seu próprio sexo, seria um amaldiçoado, incapaz de auto realização e com tendências a rejeitar a sua sexualidade. Portanto, sempre houve uma intenção de falar livremente a respeito de sexo, ridicularizando os tabus sociais e ressaltando os seus aspectos criativos e prazerosos.
Resgatou-se a linguagem do gueto, com um uso constante de termos até então considerados palavrões, como “bicha”, por exemplo. Muitas matérias foram dedicadas às possibilidades de prazer, escondidas nas ruas, nas praias e outros locais do Rio e do Brasil, discutindo-se assuntos como “caçação”, prostituição, etc. Geralmente, esses temas eram tratados de forma jocosa e bem humorada. Um bom exemplo disto foi a publicação da coluna Bixórdia, em que, todo mês, eram feitos comentários rápidos e, por vezes, maldosos a respeito de eventos ou personalidades em destaque no mundo gay. Nessa coluna, aparecia um personagem fictício de sexo ambíguo chamado de Rafaela Mambaba, possuidora de uma língua ferina, do tipo normalmente atribuído a travestis e “bichas loucas”.
O que vem a ser bixórdia? Está no dicionário da Mestra Mambaba, s.f.: em machês, palavra originária de ‘bicha’ s.i. (substantivo indefinido) somada a ‘mixórdia’ s.f.: mistura, bagunça. Representação do que é livre, auto permitido. Tudo é sério, nada é triste. Paradoxo vivo (finíssimo, adorei) em que se misturam viados, bichas, perobos, tias, primas, entendidos, gueis, transadores, mariconas, paneleiros, frescos, frutas e xibungos. Por ex.:
vale tudo, né queridinhas?2
A atitude irreverente, atribuída ao homossexual, se refletia em certas entrevistas, feitas com personalidades importantes da vida política ou cultural, onde o entrevistado poderia ser descrito como sendo “um gatão”, com possíveis comentários até ao tamanho de sua “mala”.
Implícita ou explicitamente, fazia-se uma campanha pelo “se assumir”. No número dois, havia, por exemplo, um artigo, de João Antonio Mascarenhas, enumerando as razões para se adotar essa postura. Mascarenhas define o “assumir-se” como “o processo de aceitar com naturalidade a condição de homossexual, sem alardeá-la, mas sem escondê-la”. Em seguida, apresenta-se como razão para a adoção dessa atitude perante a vida: a desobrigação da hipocrisia, da mentira e do medo de ser descoberto, que exporiam os homossexuais a chantagens de todos os tipos. Essa atitude também serviria de encorajamento para outros homossexuais se revelarem e ajudaria na construção de um mundo melhor, onde os direitos humanos e os das minorias seriam respeitados. Para Mascarenhas “o assumir-se constitui um ato essencialmente político, através do qual o indivíduo reconhece-se como integrante de um grupo oprimido, primeiro e indispensável passo para lutar contra a opressão”. Reconhecendo que muitos “opressores machistas” reagiram a essa prática de se assumir, ele faz a seguinte ressalva: em várias ocasiões, a fúria punitiva é tal que somente cada um de nós, individualmente acha-se habilitado a decidir quando e como poderá arcar com as consequências de uma
ostensiva rejeição dos preconceitos dominantes. 3
Como já foi dito anteriormente, não havia consenso entre os membros do conselho editorial sobre quase nenhum assunto e a questão do “se assumir” era um dos mais polêmicos. Algum tempo depois, tanto Peter Fry quanto Jean-Claude-Bernardet publicaram os já citados artigos em que diziam preferir evitar assumir identidades muito rígidas. Aludindo a uma declaração feita, pouco tempo antes, pelo então Ministro da Educação e Cultura, Eduardo Portela, sobre as probabilidades de sua eminente demissão daquele ministério, Fry fez um jogo de palavras e falou em “ser ou estar homossexual?” Mas a questão do “assumir” a homossexualidade, como se esta fosse algum tipo de essência pré-determinada do indivíduo, encontrava muitos ecos no meio homossexual. Tornou-se uma das preocupações implícitas em vários grupos de militantes, como o Somos de São Paulo, por exemplo, no qual, durante certo tempo, era grande a preocupação em “esvaziar” as palavras “bicha” e “lésbica”, através de seu uso corriqueiro e não pejorativo, como forma de auto designação.
Embora o jornal reforçasse a necessidade de “se assumir” – sendo o próprio ato de ir a uma banca de revista e comprar o Lampião uma maneira de fazê-lo – ele sempre deixou em aberto qualquer tentativa de explicação da etiologia dessa condição. Darcy Penteado, por exemplo, no seu artigo intitulado Homossexualismo: que coisa é essa?, reconhece a impossibilidade de “ajustar o homossexualismo a uma exata classificação genética, endócrina ou psíquica”. Segundo ele, na impossibilidade de “curar”, os psiquiatras trabalham no sentido de ajustar os pacientes à sua homossexualidade, o que é difícil, devido à intolerância da sociedade. Por causa dela, os homossexuais seriam obrigados a “viver em mutismo à sua verdade” ou então a se restringirem aos limites do gueto. Isso levaria a maioria a desejar ser “normal” e a recalcar seus sentimentos verdadeiros durante toda a vida, numa tentativa de condicionamento nessa “normalidade”. Darcy Penteado afirma concordar com a noção de Marc Oraison de que “o homossexualismo é um fato” e continua:
Mais do que um fato, o homossexualismo é condição humana. E como tal, mesmo sendo atributo de uma minoria, está exigindo o seu lugar atuante numa sociedade, com o direito a uma existência não mistificada, limpa, confiante, de cabeça levantada. Porque só a tolerância, como foi dada até
agora, não obrigado! É muito pouco.4
Essa convicção parece ter sido geralmente compartilhada, não só pelos outros membros do corpo editorial do jornal, mas também por grande parte dos seus leitores. Mesmo constatando as dificuldades de se determinar uma base biológica para a homossexualidade e enfatizando os aspectos arbitrários e relativos das normas sexuais, o jornal sempre falou sobre os homossexuais como uma categoria com interesses e direitos em comum, além de ser uma minoria oprimida. Mas, como já foi dito, a posição política do Lampião suscitava muitas discordâncias entre seu público. Uma carta publicada dois números depois e assinada por Gide Guimarães demonstra isso. Criticando a postura indecisa do jornal, que tenderia a torná-lo “um nanico muito chato”, ele continua:
O assumir-se (do artigo de João Antonio Mascarenhas) diante das regras do jogo opressor, enfatiza uma tradição de uma sociedade repressora que nos impõe uma rasgada de sedas para definir melhor o seu comportamento com a gente? Não seria o Lampião uma propriedade privada de uma elite que quer ser lida “do Oiapoque ao Chui” numa operação aspirina? Eu particularmente prefiro um jornal que abra abcessos. Gere câncer. E a família desta TFP não seria a obviedade de cristalizar o gueto de que falam libertar?
Ele acusa os redatores do jornal de paternalismo e de serem “bichas esclarecidas que tentam compreender e unir suas vozes às das outras minorias ao seu redor”. Ao mesmo tempo, o Lampião continuaria a fomentar o estereótipo de que os homossexuais seriam mais sensíveis, artísticos e inteligentes. Antes de concluir dizendo que a ideologia no jornal se parecia com a do “social-democrata-cristão – Jornal do Brasil”, o leitor questiona: Se os operários do metrô ou do ABC paulista se juntam às bichas (isto é, se eles não as caparem antes), em que é que vai dar? num prá
frente Brasil?5
Além de questionar a posição indefinida do Lampião, essa carta também chama a atenção pela violência da linguagem empregada. Isso refletia o tom altamente emotivo, constante nos debates dentro do movimento homossexual, onde a expressão direta dos sentimentos era muitas vezes mais valorizada que exposições que privilegiavam a frieza da lógica e da teoria. Além de ser mais “espontâneo”, era mais fácil, especialmente por conta da quase inexistência, no Brasil, um discurso homossexual mais elaborado. Tal mensagem, também reflete uma tradicional ambivalência a respeito das classes baixas por parte dos homossexuais, em cujas fantasias o operário figurava como o próprio símbolo do macho desejado e temido. (PERLONGHER, 1987)
Embora essas críticas, a um certo tipo de conformismo indeciso e à reprodução de estereótipos, tivessem fundamento em relação a algumas matérias, elas não poderiam ser compreendidas como dirigindo-se aos artigos escritos por João Silvério Trevisan, um dos mais dedicados “lampiônicos” de São Paulo e liderança importante no Somos-SP. Como o missivista Gide Guimarães, ele também era a favor da “abertura de abcessos” e da geração de “cânceres” no corpo político e social. Sua argumentação principal era dirigida contra o poder. Procurava outras formas, assumidamente utópicas de organização e luta, que não resultassem simplesmente em novas estruturas de poder, como as que teriam surgido na União Soviética, por exemplo.
Podemos ter um gostinho da sua retórica carismática e inflamada lendo o seu artigo. “Por uma política menor: bichas e lésbicas inauguram a utopia”. Lá, ele afirma ser necessário subverter a própria “subversão” e a sua institucionalização, criticando os partidos, por serem manipuladores e doutrinários. Trevisan também rejeita a ideia de se procurar salvação no herói/patrono de qualquer tipo “seja ele Lenin, Trotsky, Bakunin, Papa ou Lula”, pois heróis implicariam em dogmas, militantes e guerras pelo poder. Para realizar a utopia, seria necessário desenvolver as individualidades:
Partir de nossas individualidades para transformar – porque só somos verdadeiramente proprietários de nós mesmos. Daí, ser o indivíduo subversão à vista, nossa infinita variedade impulsiona uma invenção contínua e exige o novo. Então estaremos colocando imaginação, mistério e ambiguidade na política, considerada terreno da ciência. E inseriremos nosso corpo, cabeça, conceitos, quotidiano, a loucura de cada um no turbilhão das transformações. E, como a individualidade é o terreno do improvável, estaremos adentrando o universo da poesia onde, ao contrário da militância, tende-se a abolir a doutrina e a normalidade. Resta encontrar nossa perdida poesia: talvez num vago gesto desmunhecado ao dobrar a esquina, no bilhetinho descabelado de paixão abandônica, no
traje cafona da bichita orgulhosa de estar falando em público, na peruca velha que o travesti ganhou (ou roubou?) da patroa, nos fins de semana dormindo em grupo com as lésbicas, nas fantasias de trepar com o pai ou a mãe, nas tantas fantasias engolidas. Estamos misturando integrantes pouco usuais. Nossos.
O paraíso acabou, viva a utopia.
Direitas e esquerdas do sistema estão querendo tornar-nos consumidores de homossexualismo, e com isso recuperar-nos. Trata-se de uma forma de nos iludir com o poder, a neutralizar o potencial subversor. A única maneira de garantir nossa subversão e impossibilitar essa recuperação é ser cada vez mais viado e sapatona, portanto mais malditos e menos cobiçados por todas as formas de poder (ordem), do tipo partidos, publicidade, família, mídia. Quanto mais aprofundarmos nossas diferenças com a normalidade instituída (a sociedade heterossexual compulsória), tanto mais difícil será nos digerir. E tanto maior será nossa capacidade de virar a mesa.
Concluindo, ele diz que a luta pelo poder é “a luta da memória contra o esquecimento”. Não se deveria esquecer o desencanto com ídolos, evitando-se a recriação de novos heróis, mesmo que sejam a “Travesti Mártir”, o “Viado Padrão” ou a “Grande Sacerdotisa Lésbica”. Seria também necessário deixar de lado os “antigos manuais que dividem o mundo em bandidos(as) e mocinhos(as)”. Ao invés da busca de um paraíso que não existe, porque nele tudo está resolvido, Trevisan propõe: “Botar a cabeça
em altíssima velocidade para inventar o máximo possível, a utopia”.6
Nesse trecho, surgem vários temas e até expressões literárias que tiveram grande repercussão nas discussões travadas dentro dos grupos homossexuais. Embora a influência de Trevisan fosse maior em São Paulo, onde residia e militava, a distribuição do Lampião pelo país inteiro assegurou a divulgação de suas ideias em nível nacional. Seu tema constante era a necessidade de se “subverter a subversão”, abandonando a fé em “respostas prontas” ou “cartilhas”, incapazes de dar conta das perpétuas mudanças que ocorrem no mundo real. O foco de toda a subversão, segundo ele, é o indivíduo, “terreno de improvável”, “universo da poesia”. O grande perigo seria a “recuperação” da individualidade, por parte da sociedade consumista autoritária e a única forma de evitar isto seria exacerbar aqueles aspectos mais indisciplinados e renitentes à massificação ou definição, como o desejo e a anarquia.
Essa visão, individualista libertária, embora raramente expressa com mais talento do que fazia Trevisan, era na época bastante corrente entre certos setores intelectuais e estudantis. Uma forma de tentar entender a ubiquidade dessa postura é sugerida pelo trabalho de Louis Dumont, que tem estudado o individualismo como sistema de representações dominantes nas sociedades modernas. Contrastando estas com as tradicionais ou hierárquicas, na qual a totalidade social é enfatizada às custas dos indivíduos biológicos, ele diz que, no Ocidente, predomina uma contínua fragmentação do todo social e o surgimento de domínios crescentes autônomos. Traçando a trajetória da ascensão dessa ideologia, onde a representação da totalidade é deslocada para o indivíduo, ele destaca alguns eventos como cruciais à sua consolidação, como o Luteranismo, a Declaração dos Direitos do Homem, a Revolução Industrial e a constituição do Estado Burguês. Esses eventos são tomados como importantes, pois sinalizariam a entrada em vigor, em determinados domínios, da prevalência do indivíduo sobre o social. (DUMONT, 1972)
A intensidade do individualismo não é a mesma nos vários movimentos citados, pois cada um tem suas especificidades. A consolidação do individualismo, como corpo de representações dominantes, implica em um processo de fragmentação contínua e incessante, em uma autonomização de esferas. Franchetto e outros chamam a atenção para o fato de que o feminismo viria a representar mais um desdobramento dessa ideologia individualista, investindo sobre um dos domínios mais resistentes à destotalização: a família. Embora levantando questões de natureza distinta, os movimentos de libertação homossexual também se colocam ao lado do feminismo, elaborando novas identidades sexuais, subtraindo a sexualidade, à família e a constituindo como domínio autônomo, totalmente independente da reprodução da espécie. (FRANCHETTO, 1981)
A luta feminista, porém, não se restringe somente à preocupação com a autonomia da sexualidade feminina, dedicando uma grande, se não a maior, parcela de seus esforços para consolidar a cidadania das mulheres. Existe uma acentuada defasagem entre os processos de individualização dos dois sexos. A identidade masculina já se encontra fortemente ancorada na esfera pública, no trabalho, na política, etc., enquanto as mulheres só recentemente começaram a se emancipar do domínio exclusivo da família, passando também a exigir igualdade de condições no trabalho e na educação. Portanto, o feminismo, ou mesmo a sua expressão menos elaborada presente no senso comum das mulheres contemporâneas, abrange uma vasta gama de questões. Mesmo ao tratar da sexualidade, a nova contestação feminina não pode deixar de levar em conta os problemas levantados pelo potencial reprodutivo de sua prática heterossexual, o que inevitavelmente leva à necessidade de abordar temas pertinentes ao futuro do conjunto da sociedade. Consequentemente, a consolidação da plena individualização feminina requer um certo grau de solidariedade grupal e uma identificação com mulheres oriundas de um amplo espectro social com reivindicações múltiplas.
Já os homossexuais, embora frequentemente agredidos em seus direitos humanos, são menos presos a essa identidade, que se revela parcial e variável no tempo e no espaço. Grande parte deles podem utilizar a tática do passing e assegurar os seus direitos de cidadãos, manipulando sua identidade de forma quase impossível às mulheres, para quem é muito mais difícil “virar homem”. Para os homossexuais, a questão se coloca de forma ainda mais individualizante e, como vimos no próprio texto de Trevisan, há uma rejeição por novas categorias de heróis culturais, mesmo que homossexuais.
Outro ponto em comum desses vários grupos era uma visão de poder que hoje chamaríamos de “foucaultiana”, ainda que na época a obra do filósofo francês fosse menos conhecida e as origens da ideia provavelmente fossem outras. O poder era pensado como difuso na sociedade, mais do que concentrado principalmente no Estado ou nos grandes conglomerados financeiros. Ele era vislumbrado como também atuante nas relações interpessoais, onde sua contestação tomava-se igualmente importante. Assim, buscavam-se formas de organização ultra democráticas e, quando algum tipo de liderança fosse imprescindível, procurava-se dar a ele um caráter temporário e rotativo. A atribuição do “discurso competente” a determinados tipos de peritos era evitada e as opiniões de militantes de grande experiência e conhecimento teórico eram formalmente igualadas às dos menos experientes, mesmo quando, na prática, essa pretendida homogeneização não tivesse o sucesso almejado.
Ao contrário de Foucault, os militantes acreditavam que o poder era nocivo em si e poderia ser superado. Portanto, para eles, nada podia ser pior do que uma luta pelo poder e a pior acusação que se fazia, a respeito do funcionamento dos partidos e de outras instituições, era a de que ambicionavam conquistar o poder.
Trevisan, no seu papel como um dos principais ideólogos do movimento homossexual e do Lampião, teve uma atuação muito importante na difusão dessas ideias e uma das suas grandes preocupações era a de retirar do proletariado o privilégio de ser a grande força revolucionária:
Desmistificar a hegemonia transformadora do proletariado significa quebrar os limites e colocar como agentes de transformação também os loucos, os velhos, as crianças, a luta ecológica, os índios, os negros, os homossexuais, as mulheres, as putas – enfim, todos aqueles blocos de especificidades que caminham contra a corrente. Isso irá dificultar as formas hegemônicas, o controle do poder por uns poucos. Pois é mais fácil controlar uma classe revolucionária do que centralizar dezenas de blocos de transformação e apossar-se de tantas definições divergentes. Então, quero desafinar, passar os parâmetros da política para a margem: ficar pelado nas reuniões sérias, destampar nossas mais recônditas fantasias, desprogramar-nos sexualmente (a promiscuidade como elemento subverso), lutar junto com as classes proletárias pelo seu direito
ao prazer, e não apenas ao trabalho. 7
Para Trevisan (apud ZUCHA, 1980), uma mudança real somente seria possível através da ênfase na importância das “questões marginais”, associadas a personalidades incômodas; conforme disse a um entrevistador:
O ‘marginal’ que eu uso é um oprimido fora das cartilhas que definem o que é oprimido: no caso, por exemplo, a classe operária, a única grande definição de oprimido que as esquerdas patriarcais ortodoxas dão. Na
medida em que você se propõe, como novo tipo de oprimido, você abre caminho para todos os oprimidos que virão atrás de você, para quem quiser dizer: ‘Eu sou oprimido’. E, no fundo, cada indivíduo tem a sua especificidade de opressão. Você está colocando as individualidades na transformação, no movimento, no processo de transformação social. Já não é mais uma transformação vinda de baixo para cima, ou seja, do geral para o particular, mas ao contrário, é do particular para o geral. Então, é, na medida dessa compreensão teórica do problema da opressão, que esses grupos tão diversos, e que brigam para manter sua diversidade, irão se entender, se tornarão solidários... A liberdade a partir da diferença, que é a individualidade, compreende? Não é um programa fácil [...]. Nós estamos lutando contra a massa [...].
Segundo essa concepção, a forma de fazer militância também deveria ser diferente. Nisso, retomava-se uma tradição de luta política dos adeptos da contracultura que, durante a campanha contra a guerra do Vietnã, por exemplo, fizeram um ritual de exorcismo em volta do Pentágono. O movimento feminista adotou, também, a prática de distribuir flores em suas manifestações e os grupos homossexuais, em suas atuações públicas, adotavam um comportamento “fechativo” – estereotipadamente escandaloso e efeminado. Isso também era encorajado por Trevisan, que na sua luta contra o poder considerava o hedonismo um dos seus principais aliados:
Para questionar o militantismo sisudo, temos nas mãos, ao menos potencialmente, fatores inegáveis como a cama e suas variantes, esse espaço para o nosso desejo. E entenda-se por cama tudo o que esteja relacionado com prazer, corpo, sexualidade, quotidiano, nível pessoal, etc. Por ser lúdica, gratuita, irresponsável e farta em invenções, a cama pode relativizar o poder. É verdade que frequentemente o poder relativiza a cama, sempre que esquecemos nossa sexualidade em favor da militância sobre sexualidade. E, no entanto, a melhor maneira de afirmar nosso direito ao prazer é fazendo boa cama, contra a chatice de nossos discursos militantes. Não poderia ser essa uma das nossas contribuições, em termos de práxis política? Uma forma subversora e herética, na medida que estaremos misturando elementos desconcertantes e criando
misturas novas? 8
Ao contrário do proposto no primeiro editorial do Lampião, no qual se pretendia desmentir a imagem do homossexual como amaldiçoado por sua preferência sexual, Trevisan parece se felicitar com a maldição, para ele a marca real da individualidade subversiva. “Não peço que me aceitem, porque eles não são capazes de aceitar tudo o que eu quero que seja aceito em mim. Acho que sou inaceitável”. (TREVISAN apud ZUCHA, 1980)
Coerente com essas posições, Trevisan – e aqui ele parece refletir um consenso entre os membros do conselho editorial – era contra o Lampião se render a algum tipo de “consumismo”, tanto de direita como de esquerda. Por esta expressão, pretendia-se alertar para o perigo de massificação, implícito em qualquer modismo. Em relação à esquerda, um consumo da questão homossexual iria implicar numa moderação da linguagem e num maior controle sobre a “desmunhecação”, para permitir sua melhor digestão.
Eu tenho sérias dúvidas quando Movimento publica uma matéria sobre o homossexual [...]. De repente, é um assunto que está se tornando moda, está se tornando quase uma obrigação para as cartilhas progressistas... Então, é uma forma de se manter na crista da onda, para que você continue vendendo, não só jornais, mas ideias... É a ideia do poder, o poder você não atinge só através do capital, você objetiva esse poder inclusive tentando impor suas ideias. Então, eu tenho muito medo, quando esses jornais começam a publicar coisas sobre o homossexual que sejam consumidas, inclusive como uma forma de se modernizar o papel deles para não mudar nunca. (TREVISAN apud ZUCHA, 1980)
Apoiados nesse tipo de pensamento, Trevisan e outros membros do conselho editorial mais ativamente envolvidos na feitura do jornal – Aguinaldo Silva, Francisco Bittencourt e Darcy Penteado – começaram a atacar a militância homossexual. Diziam que certos militantes estariam interessados em usar esse movimento para “fazer a cabeça” de seus participantes e levá-los a se engajarem em agremiações político-partidárias, como o PMDB ou a Convergência Socialista. A partir disso, o Lampião entrou em conflito com o Grupo de Atuação Homossexual de Olinda – GATHO, um grupo que teve uma atuação bastante grande no Nordeste – e o Somos – Auê, do Rio de Janeiro. Em São Paulo, o jornal teve um papel importante no “racha” que o Somos sofreu, devido especialmente à “dupla militância” de Trevisan, que atuava tanto no grupo quanto no periódico. Esse episódio será tratado em mais detalhes em outro capítulo.
Embora, durante a maior parte de sua existência, o Lampião tenha defendido e promovido a militância, a partir de um determinado momento na posição do jornal, tornou-se francamente agressiva em relação aos grupos. Suas manchetes e artigos que publicava serviram para divulgar, pelo país inteiro, uma grande desconfiança a respeito de qualquer política homossexual. Assim, seu papel no processo de desintegração do movimento homossexual foi considerável. Em uma época em que as recordações das arbitrariedades cometidas pela ditadura ainda estavam frescas, houve também uma série de acusações de que o jornal estaria usando o seu poder para “entregar” profissionais, cujos empregos corriam risco se sua identidade homossexual se tornasse pública, ou ainda, estrangeiros que seriam passíveis de deportação se sua participação em grupos de esquerda, oficialmente proscritos, fosse alardeada.
Grande parte dessa agressividade foi devida, provavelmente, às desavenças pessoais e políticas de Trevisan, Aguinaldo Silva e Francisco Bittencourt com integrantes do movimento homossexual do Rio, e de São Paulo especialmente. Isso somado às ideias “anarquistas” – para usar um termo repudiado pelo jornal –, ou antileninistas, veiculadas pelo Lampião, lhe valeu a pecha, por parte de alguns, de ter se tornado um “jornal de direita”. De fato, inúmeras matérias foram publicadas denunciando o machismo e o conservadorismo da esquerda. O número de fevereiro de 1981, por exemplo, tinha em sua capa uma caricatura de Fidel Castro, em que aparecia barbudo e vestido como Carmem Miranda. De sua boca saía um balão com os dizeres: “Yo no creo en maricones, pero que los hay, los hay”. No interior do jornal, uma reportagem de seis páginas detalhava a perseguição aos homossexuais movida pelo regime revolucionário cubano. Porém, em outros números, havia também sido denunciada a repressão sexual na Argentina, Chile e outras ditaduras direitistas, além de serem constantes as referências às arbitrariedades do sistema brasileiro. Estas iam, por exemplo, desde vagas acusações de corrupção contra os Atallas, Lutfallas e Ludwigs cuja impunidade, apesar dos escândalos financeiros, era contratada com os vexames infligidos aos membros do conselho editorial durante o inquérito sofrido pelo jornal, a críticas dos sistemas judiciário e carcerário, acusações contra um síndico autoritário que hostilizava uma travesti que morava no seu prédio, etc.
A ousadia do periódico não poupou nem a Igreja. Em julho de 1980, por ocasião da visita papal, quando só se viam elogios ao pontífice na imprensa, foram publicadas quatro páginas sobre os aspectos sexualmente repressivos dos dogmas católicos. A capa carregava uma caricatura de Cristo na cruz, rodeado por sinistras figuras paramentadas como bispos. Acima da cabeça do crucificado, ao invés do tradicional “I.N.R.I.”, uma placa com o dizer Homossexual. O número seguinte relatou a experiência de integrantes do Grupo Homossexual de Brasília, Beijo Livre, que haviam tentado entregar pessoalmente ao papa uma carta, criticando o seu posicionamento contra a atividade homossexual.
Os conflitos em que o Lampião se viu envolvido foram inúmeros e de todos os tipos: políticos, econômicos, pessoais, estéticos, etc. Mais do que os erros de uma determinada política, eles refletiam a grande diversidade de opiniões existentes, não só na redação do jornal, mas também entre o seu público leitor. Esse era sabidamente heterogêneo em termos de classe, cultura, idade, ideologia política, localização geográfica, etc. Entre os “lampiônicos” acusados de “direitismo”, alguns possuíam um considerável currículo de militância oposicionista e era com base nessa experiência que faziam suas críticas à esquerda. O ocasionalmente vitriólico Trevisan, por exemplo, militou na Juventude Operária Católica e na Juventude Universitária Católica, que depois virou a Ação Popular, onde ele rachou com a linha do PC soviético para se tornar um “maoísta político”, como diz. Em suas viagens, conheceu a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia, onde ficou horrorizado com a repressão vigente. Durante sua estada nos EUA, conheceu também vários estudantes radicais, entre eles, Charlie, um rapaz trotskista, que veio ao Brasil encorajado por ele. Este iria, mais tarde, se tomar seu grande adversário, ao liderar uma facção acusada de tentar “atrelar” o Somos-SP à Convergência Socialista.
Aguinaldo Silva era outro membro do conselho que, ao atacar os preconceitos, agia com conhecimento de causa. Desde o golpe militar de 1964, ele tivera problemas com a repressão política, tendo sido forçado a abandonar Recife naquele ano, por trabalhar no jornal Última hora do Nordeste, cuja linha fora considerada demasiadamente radical. Passou quarenta e cinco dias incomunicável numa cela do presídio da Ilha das Flores, onde fora mandado pelo Centro de Informações da Marina (CENIMAR) por ter escrito um prefácio para o diário de Che Guevara. Uma vez libertado, chegou a trabalhar no Opinião e no Movimento. Durante esse tempo, pôde ver a pouca importância dada, pelos radicais de esquerda, ao tema da sexualidade e a forma com que se tentava silenciar qualquer referência à homossexualidade. Conta como, uma vez, escreveu crítica favorável ao livro “Amor entre mulheres” para Opinião. Ele havia gostado desta obra da psicanalista Charlote Wolff, porque nela se falava de homossexuais de forma aberta e sem culpabilização. Porém, segundo diz, o editor do jornal, Raimundo Pereira, se colocou contra o livro, justamente por essa razão. (SILVA, 1981)
Relatos de experiências negativas desse tipo são frequentes entre homossexuais e mulheres com vivência política esquerdista tradicional e, até hoje, grande parte das organizações tratam com hostilidade qualquer reivindicação baseada na sexualidade, como mostram Fernando Gabeira e Herbert Daniel, entre outros.
Depois de um começo auspicioso, com muitas vendas e recebendo apoio de diversas áreas identificadas com as lutas das chamadas “minorias”, Lampião começou a sofrer um sério desgaste. Outras publicações voltadas para o público homossexual surgiram, como a revista Rose, por exemplo. Aproveitando a maior tolerância das autoridades na área de costumes, começaram a ser editadas revistas sem nenhuma pretensão cultural ou política, mas dispostas a preencher suas páginas com fotos de nus masculinos. Alguns dos conselheiros do Lampião, em função de seus princípios políticos de seriedade anticonsumista, ou então temerosos de enfrentar novos dissabores com o inquérito policial, se colocaram contra o uso de nus para aumentar as vendas do jornal, levando a novas dissenções internas e finalmente à demissão de um dos “senhores do Conselho”.
Além disso, existiam outros fatores de desagregação interna. Desde o início, surgira uma rivalidade entre os conselheiros residentes em São Paulo e os do Rio. Originalmente, planejara-se alternar as reuniões de pauta entre as duas cidades, mas isso logo se mostrou impossível e, aos poucos, o jornal ficou cada vez mais sob a responsabilidade e direção de Aguinaldo Silva e Francisco Bittencourt, no Rio. Isso, inevitavelmente, levou a desentendimentos, especialmente entre Trevisan e Aguinaldo Silva. Este era acusado de não abrir espaço suficiente para artigos vindos de São Paulo, fazendo com que o jornal ficasse quase exclusivamente voltado para os acontecimentos do gueto homossexual carioca. Não eram somente os paulistas que reclamavam. Como o jornal tinha uma distribuição nacional, leitores de outros estados escreviam cartas criticando o espaço excessivo dado a matérias sobre o Rio.
As desavenças internas e as brigas com os grupos homossexuais e de esquerda eram refletidas nas páginas do jornal, que tinha, como política, publicar as principais cartas críticas que recebia, embora, muitas vezes, juntando uma resposta desaforada. As notícias sobre o ativismo das minorias também eram pouco alentadoras. Vários números estampavam manchetes de capa como: “A esquerda joga bosta nas feministas”, “Bichinhas sonhando com o poder” ou “Mais tesão e menos encucação”. Chegara ao fim o messianismo que caracterizara suas fases iniciais, com referências ao Encontro Nacional do Povo Gay ou Homossexuais a Nova Força. A isso se somou uma onda de terrorismo de direita que, durante alguns meses, quase conseguiu acabar definitivamente com a imprensa alternativa, ameaçando queimar todas as bancas de jornal nas quais os “nanicos” estivessem à venda.
Para aumentar as dificuldades, o preço do papel começou a disparar e os custos de produção ameaçavam tornar o jornal inviável. As vendas caíram. Outras formas de manter o Lampião, através de venda de espaço para anúncios ou pela edição de livros, também se frustraram. A orientação explicitamente homossexual afugentava anunciantes e criava resistências entre as grandes distribuidoras, como Fernando Chinaglia, que se recusava a trabalhar com o Lampião, tornando muito mais difícil a sua divulgação em nível nacional.
Os últimos números do jornal começaram a refletir cada vez mais a convicção de Aguinaldo Silva, de que não se estava oferecendo o produto que o mercado queria e que o ativismo só apelava à minoria de uma minoria. Mas, apesar de começar a dar mais ênfase às reportagens sobre temas como masturbação, prostituição, travestis, etc., o jornal não conseguiu aumentar suas vendas. Em junho de 1981, saiu seu último número, o 37.
Sobreviveram várias outras publicações mais amenas. O próprio Aguinaldo Silva lançou seu Homo-Pleiguei, de duração efêmera. Aos poucos, foram desaparecendo do mercado todas as revistas dirigidas ao público homossexual, que publicavam notícias e artigos além de fotos de nus. Hoje imperam revistas declaradamente pornográficas, títulos como Macho Sex, Sex Gay, Narciso ou Marilyn Monroe, de impressão barata, mas contendo fotos nas quais se veem, em detalhe, relações sexuais entre duplas ou grupos homossexuais.
Em uma entrevista que concedeu ao Pasquim em 1981 Aguinaldo Silva afirma: “[...] o Lampião foi a coisa mais importante que surgiu na imprensa brasileira dos últimos cinco anos. Depois do Pasquim não pintou nada de extraordinário até o Lampião, um jornal louquíssimo. Agora que ele parou é que as pessoas vão refletir sobre sua importância”. (A PALAVRA..., 1981)
Relendo os números antigos daquele jornal e vivendo nos últimos anos da década de 1980, quando mesmo as publicações mais estimulantes e irrequietas raramente ousavam se desviar do liberalismo bem comportado, tem-se a impressão que Aguinaldo Silva tinha bastante razão. Certamente, no tocante ao desenvolvimento de uma discussão constante da homossexualidade, só nos resta hoje recorrer às revistas pornográficas americanas, vendidas em profusão em milhares de bancas de jornais no país inteiro.