A construção da igualdade: política e identidade homossexual no Brasil da "abertura"

Diferenças irreconciliáveis entre os “iguais”

Diferenças irreconciliáveis

 

entre os “iguais”

 

Exemplos de um novo tipo de mobilização popular, os movimentos sociais são muitas vezes apresentados de maneira demasiadamente idealizada. O seu suposto caráter espontâneo e democrático tem sido especialmente ressaltado e valorizado. Porém, pesquisas mais cuidadosas têm demonstrado que por trás dessas organizações ser comum se encontrarem indivíduos ou grupos ideologicamente motivados, nem sempre originários dos setores mobilizados. Estes impõem o seu próprio discurso ideológico sobre o movimento e se assenhoram de sua liderança. São geralmente pessoas cuja concepção de vida, religiosa ou laica, os leva a questionar a ordem social vigente. Procurando algum modo de atuar na sociedade, passam a organizar movimentos, com os quais costumam ter uma vinculação puramente circunstancial. Embora seja norma se engajarem em algo com o qual tenham um mínimo de relação – por exemplo: são mulheres que organizam movimentos feministas e negros que organizam movimentos contra a discriminação racial –, essas pessoas ideologicamente motivadas tanto podem se engajar em um movimento quanto em outro e geralmente são organizadoras de mais de um. (SINGER, 1983, p. 225)

É uma característica comum desses movimentos a existência de uma notável distinção entre os “organizadores”, portadores de uma série de ideias já elaboradas a respeito da sua atuação social, e as “bases”, que são propelidas por uma motivação muito mais imediatista, específica e temporária. Outras diferenças importantes também são comuns, ocorrendo em termos de nível educacional, status social e disponibilidade de tempo para militância. Mas, uma das principais características desses movimentos é também a ênfase dada à igualdade de todos os seus participantes perante uma carência coletiva. Essa igualdade na carência é, então, percebida como obliterando todas as outras heterogeneidades.

Costumeiramente, manifesta-se o ideal de transmitir a motivação dos organizadores às bases, mas, na maior parte dos casos, somente um número limitado de membros da organização é alcançada dessa forma. Enquanto estes são capacitados para ascender da base para posições de liderança, o restante fica onde estava. (SINGER, 1983, p. 225) Mas, nem sempre é proposital ou consciente a manutenção dessa distinção entre os organizadores e as bases. Sabe-se, afinal, que a ideia da igualdade dos participantes é geralmente um dos cânones máximos desse tipo de movimento, em volta da qual se cria um sentimento de comunidade, unindo todos os seus participantes.

Eunice Durham nos chama a atenção para outro aspecto desses movimentos. Lembra que essa vivência da comunidade, da coletividade de iguais, criada pela ação conjunta, se dá numa dimensão própria, que implica uma novidade muito importante: o reconhecimento da pessoa num plano público e não privado. Essa experiência seria muito marcante para os participantes desses movimentos, que a percebem como um enriquecimento pessoal, uma intensificação de sua qualidade de sujeito. No movimento, as pessoas se conhecem, ampliam a sua sociabilidade e aprendem a encarar de forma nova as suas vidas, tornando coletivas e dessa forma integrando as experiências antes concebidas como individuais e fragmentadas. (DURHAM, 1984, p. 28)

Vemos, portanto, uma série de similaridades entre esse espírito comunitário e o já referido conceito de comunitas desenvolvido por Turner. Mas, da mesma forma, como esse é inevitavelmente ameaçado pela estrutura, a comunidade dos iguais deve manter uma permanente vigilância contra o surgimento da heterogeneidade em seu seio. Singer atribui a isso o fenômeno de “basismo”, a constante reiteração da necessidade de “ouvir” as bases, às quais caberia sempre tomar as decisões. Mas, para ele, na maioria das vezes, tanto o “basismo”, quanto a rejeição dogmática dos “de fora”, ajudam pouco a superar a distância entre a “cúpula” e as bases, sendo apenas armas nas lutas de facções entre os próprios organizadores. (SINGER, 1983) Afinal, são comuns as disputas entre lideranças e não é raro o caso de desavenças pessoais entre líderes adquirir uma coloração ideológica mais abrangente, se estendendo ao movimento como um todo. Nesse processo, as diferenças ocultas não desaparecem, mas passam para o espaço informal das fofocas, das acusações pessoais, das manipulações conscientes e inconscientes que caracterizam a prática desses movimentos quanto à vivência da união com a qual coexistem. (DURHAM, 1984, p. 30)

O desejo de evitar o aparecimento da heterogeneidade, em seu seio, leva esses movimentos a se declararem firmemente “apartidários”. A justificativa, normalmente oferecida nesses casos, é de evitar a manipulação dos movimentos para fins políticos definidos fora dele e não por ele. Mas, tanto as necessidades intrínsecas à atuação política na sociedade, quanto às já referidas convicções ideológicas dos “organizadores” tendem a estabelecer para esses movimentos conexões partidárias que, devido à sua natureza clandestina, são, então, pejorativamente classificadas como “clientelismo” – se com a direita –, ou “infiltração militante” – se com a esquerda. Entretanto, essas infiltrações e manipulações são partes integrantes do processo de mobilização e são importantes no estabelecimento de elos entre mobilizações restritas, centradas no interesse de alguns, com forças sociais e políticas mais universalizantes, presentes no conjunto da sociedade. (DURHAM, 1984, p. 30)

 

Mudanças na composição da cúpula

 

A história do Somos mostra muitos exemplos desses processos, a começar pela formação de uma cúpula dirigente com motivações ideológicas diversas. Durante o ano de 1974, dois dos principais organizadores do grupo podem ser considerados: Trevisan e Charlie. Eles não estavam sós na “cúpula”, mas foram os principais expoentes de duas concepções antagônicas, que conseguiram muito apoio dentro do grupo, no qual se digladiaram durante vários meses. Ambos tinham demonstrado, anteriormente, a sua propensão a ingressarem em organizações de forte componente ideológico.

Trevisan, além de seminarista católico, havia sido militante de organizações esquerdistas. Ao se desiludir com elas, passou alguns meses morando na Califórnia, onde travou contato com a contracultura americana e com o movimento de libertação gay, que passava, então, por sua fase mais eufórica. Ao regressar ao Brasil, depois de muitas andanças pelo mundo, procurou diversas vezes começar nele um grupo de militância homossexual, entendendo que assim encontraria os parceiros e amizades que não achava em outras partes. Em 1978, começou a ter sucesso, participando da fundação do Núcleo de Ação pelos Direitos dos Homossexuais e do conselho diretor do Lampião. Durante muito tempo, sua relação com ambas as organizações foi intensamente emocional. Além de ter ligações de muito afeto com alguns dos militantes do Somos, exercia uma grande influência sobre o público leitor do jornal, escrevendo artigos em que defendia, com uma linguagem exaltada, a primazia do indivíduo contra qualquer tipo de massificação, quer inspirada por ideologias de direita ou de esquerda.

Charlie, também, tinha um passado de militância marxista, mas, ao contrário de Trevisan, nunca se “desiludiu” com ela. Militante trotskista de longa data nos Estados Unidos, lá, também havia participado de um grupo gay esquerdista. Chegando ao Brasil, logo se engajou na Convergência Socialista, vindo a ocupar uma posição de certo destaque na sua hierarquia. Sua vida parecia ser inteiramente voltada à militância e, apesar de inscrito em um curso de pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP), dava pouca prioridade aos estudos em si. Mesmo sua vida social parecia ser completamente norteada pelos interesses da sua militância política, levando alguns de seus opositores a duvidarem da sinceridade de sua amizade e até a acusarem-no de fazer “política de cama”.

Apesar de Trevisan ter adotado uma visão política que, a grosso

modo, se poderia chamar de “individualismo anarquista”,1 durante certo tempo, ele e Charlie foram excelentes amigos, colaborando em harmonia para a criação do Somos, entre 1978 e 1979. Devido às suas experiências americanas, ambos tinham muitas ideias em comum a respeito de como deveria ser um grupo de militância homossexual. Eram também simpatizantes do feminismo, na época ainda pouco conhecido no Brasil, e pareciam concordar sobre a necessidade de autonomia para os movimentos de minorias. Desde o início do grupo, porém, havia algumas divergências entre eles, a respeito das principais funções do coletivo. Trevisan enfatizava o aspecto afetivo, de realização pessoal e de desenvolvimento de uma “consciência homossexual”, enquanto Charlie priorizava o ativismo mais claramente político, interessando-se muito na criação de alianças com outros movimentos e na tomada de posições em relação à questão da chamada “luta geral”. Foi um dos primeiros a propor a formação de um subgrupo de atuação, no qual essas questões pudessem ser discutidas.

Inicialmente, mesmo as divergências mais sérias entre eles, nunca afloravam em público, e suas posições só começaram a se definir como claramente antagônicas depois da já narrada reestruturação do grupo ocorrida no final de outubro de 1979.

Apesar do Somos ter perdido a sua comunitas, a nova estrutura concebida para o grupo funcionou adequadamente durante alguns meses. Uma das principais causas da “crise”, pela qual havia passado, tinha sido diagnosticada como a liderança excessiva exercida pela “cúpula”, formada por alguns dos seus fundadores e outros que compartilhavam das mesmas ideias. A solução encontrada visava esvaziar o grupo de atuação do seu excesso de tarefas e poderes. Novos subgrupos foram formados para realizar tarefas específicas. Como se esperava, estes subgrupos permitiram uma maior participação dos membros novos, que continuavam a ingressar no grupo em números razoáveis, constituindo vários subgrupos de reconhecimento. Ao mesmo tempo, o desgaste produzido pela “crise” e pela perda de interesse depois de meses de atuação, levou vários dos veteranos a saírem do grupo ou, então, como Trevisan, a restringir drasticamente a sua atuação. Esta época também coincidiu com uma grave crise do grupo lésbico, cujos números desceram para quatro. Em suas reuniões ficava patente a perplexidade decorrente de uma total falta de noção a respeito dos seus objetivos e formas de atuação.

O resultado disto foi que, depois de dois meses de funcionamento, relativamente harmonioso, os integrantes realmente ativos no Somos eram outros. O subgrupo de coordenação havia sido imaginado originalmente como tendo uma composição rotativa e de mês em mês seus integrantes deveriam se revezar. Mas, por uma série de razões de ordem prática, essa ideia nunca se materializou e a coordenação foi feita por um grupo mais ou menos estável, dos “mais interessados” que, com exceção de Charlie, faziam parte de uma geração intermediária entre os veteranos e os ingressos depois da “crise”.

A segunda metade de 1979 também contou com uma maior publicidade dada ao movimento homossexual, especialmente nos jornais da imprensa alternativa. Talvez, como consequência disto, ou como reflexo da crescente politização da sociedade, entre os que começaram a entrar para o Somos, havia uma proporção considerável já influenciada por, ou até engajada, em grupos de esquerda. Com a entrada destes e o retraimento dos veteranos que eram os principais formuladores da visão de mundo que se poderia chamar de “anarquista”, dominante até então, começou uma mudança na orientação do grupo que, aos poucos, se tomou mais clara.

Um dos primeiros reflexos dessa alteração se deu com a participação do grupo nas comemorações do Dia de Zumbi, em 20 de novembro de 1979. Organizado pelo Movimento Unificado, esse ato público, em frente ao Mappin, no centro de São Paulo, era destinado a ser uma manifestação negra contra o racismo. Charlie e outros já falavam, há algum tempo, da importância de se estabelecer uma aliança com o Movimento Negro, cuja luta por uma identidade própria, por um fim à discriminação e contra a repressão policial, teria vários pontos em comum com a dos homossexuais. Esse parecia ser o momento certo para estabelecer contato.

Avisados dos planos para o ato público, o grupo de atuação externa e voluntários de outros subgrupos resolveram comparecer ao local. A ideia entusiasmou muita gente e entre vinte a trinta integrantes do Somos se propuseram a ir, incluídos aí alguns dos opositores de qualquer engajamento em uma “luta geral”. Os negros eram vistos como outro grupo minoritário, lutando por suas especificidades e, portanto, dignos de todo apoio. Até mesmo o fato da Convergência Socialista oferecer a sua sede para a confecção de faixas não causou maiores questionamentos, assim como o fato da ideia de participar do ato ter partido de Charlie.

Esse dia marcou a primeira aparição em público dos militantes do Somos, que portavam faixas levando o nome do grupo e repudiando o racismo. Durante o ato, foi também distribuído um panfleto enfatizando que tanto os negros quanto os homossexuais eram “setores oprimidos”.

Ao final do ato público, houve uma passeata até a Praça da Sé, e os militantes homossexuais, congregados embaixo de suas faixas, desfilaram abraçados, homem com homem, mulher com mulher, e, para o espanto divertido dos manifestantes negros e das pessoas que se encontravam nas ruas, “fechavam” exageradamente. Para os membros do grupo, esta pareceu ser a primeira passeata homossexual, apesar das palavras de ordem se referirem exclusivamente à condição negra. Reinava um clima de grande euforia entre os integrantes do Somos, felizes e ligeiramente surpresos com o sucesso de sua participação na passeata. Até então, sempre tinham receado sair abertamente em público, com medo de ataques, não só da polícia, mas do próprio povo nas ruas. Agora constatavam que não só o regime se tornara menos agressivo, mas que os próprios heterossexuais eram mais tolerantes do que haviam imaginado.

A política de “alianças”, defendida por Charlie e até então só aplicada em relação ao Lampião, se mostrava uma ótima ideia. Nessa ocasião, além do apoio explícito dado ao Movimento Negro Unificado, o Somos havia também se aproximado da Convergência Socialista cujos membros se mostraram muito simpáticos, emprestando a sua sede para a confecção de faixas e oferecendo também outros tipos de auxílio. Charlie explicou várias vezes, nessa ocasião, que a Convergência Socialista fazia isso porque era parte de seu programa político dar apoio às lutas dos vários setores oprimidos da sociedade, respeitando, no entanto, o seu desejo de autonomia.

Mas, Charlie começava a ser visto com suspeita por alguns dos membros do Somos, que manifestavam um grande receio de serem usados como “buchas de canhão da esquerda”. Apesar de não ter sido o seu autor, foi ele quem sofreu a maior parte dos ataques lançados contra o texto do panfleto que se propunha distribuir no gueto homossexual, em apoio ao Lampião. Mesmo assim, ele continuava a contar com a simpatia de grande parte do grupo. Sua aparência extremamente atraente e seu modo afável tornaram-no muito bem visto, e mesmo querido, até por alguns de seus mais férreos opositores. Todos o “paqueravam” e a todos ele dava atenção e mostras de interesse e afeto. Sua dupla militância não era percebida como “infiltração” e certamente cumpria o papel de estabelecer elos entre o Somos e outras forças mais universalizantes do conjunto da sociedade.

Mas, com esse sucesso, sua atuação dentro do Somos passou a ser mais ousada, na tentativa de estabelecer conexões mais fortes do grupo com a Convergência Socialista, fortalecendo as suspeitas daqueles que receavam que ele desejasse “atrelar” o Somos àquela organização partidária.

Em meados de novembro de 1979, Charlie contatou vários amigos homossexuais, incluindo militantes da Convergência Socialista, colegas seus da Universidade de São Paulo (USP) e alguns integrantes do Somos, cuidadosamente escolhidos. As suas intenções declaradas eram a leitura comentada, em quatro semanas, de um documento interno da Convergência Socialista, que ele e outros homossexuais daquela organização, dentro da qual compunham a chamada Fração Gay, haviam elaborado, com a pretensão de convencer aquele partido a adotar oficialmente uma posição favorável à luta homossexual. O documento, intitulado Tese para a libertação homossexual e contando com 33 páginas, foi entregue com um pedido de sigilo, pois conteria uma discussão sobre casos de discriminação anti-homossexual dentro da própria Convergência Socialista. Uma vez que o que se propunha era um trabalho interno para modificar atitudes preconceituosas, era razoável, dizia Charlie, evitar que essa informação fosse usada contra a organização.

Esse pedido foi compreendido e acatado pela maior parte dos integrantes, porém, a forma como as discussões foram conduzidas, dentro de um clima de segredo e mistério, rapidamente chamou a atenção dos integrantes do Somos que não haviam sido convidados. Achando que algo de estranho estava acontecendo, sua primeira suposição foi de que se planejava uma “tomada” do grupo por elementos que pretenderiam desviá-lo para a atuação partidária. Os participantes dessas reuniões secretas ficaram logo apelidados de “beterrabas”, por serem “vermelhas e ficarem escondidas embaixo da terra”. A situação ficou tão constrangedora que, após duas ou três semanas, Charlie se viu obrigado a fazer uma declaração aos outros integrantes do grupo, explicando o que se passava e que as reuniões convocadas por ele não incluíam nenhuma discussão a respeito do Somos. Embora isso fosse verdade, já nessa época, ele informou a alguns que pretendia organizar, na sede da Convergência Socialista, uma série de discussões sobre marxismo, visando especificamente um grupo de homossexuais. O comparecimento a essas discussões não implicaria em nenhum tipo de engajamento com a organização, mas era clara a sua esperança de, a partir daí, algumas pessoas manifestassem o desejo de se aproximar mais dela. Uma vez esclarecida a situação, o caso caiu em um certo esquecimento, restabelecendo-se, então, a confiança da maioria na sinceridade da militância de Charlie dentro do grupo.

Singer, ao discutir o funcionamento dos movimentos sociais, chama atenção para o importante papel desempenhado por órgãos externos aos movimentos, que podem até constituir seus “aparelhos ideológicos”. Nessas ocasiões, aumenta o perigo do distanciamento entre as bases e os organizadores, especialmente quando esses fazem parte dos organismos ideológicos, aos quais os primeiros não têm acesso. (SINGER, 1983, p. 228) Durante o ano de 1979, esse foi, de fato, o papel desempenhado pelo Lampião, em cujas páginas se podiam ler discussões mais articuladas a respeito de certos temas que eram debatidos dentro do Somos de forma muito mais fragmentada e inconclusiva. Em suas páginas, as posições “anarquistas” tinham quase exclusividade e as organizações político partidárias eram constantemente atacadas. Como um dos principais responsáveis pelo jornal em São Paulo – o outro era Darcy Penteado –, Trevisan conseguia destaque para suas ideias, embora já começassem a surgir divergências entre ele e a equipe carioca. Essa tomada de posição, por parte do jornal, aos poucos começou a ser criticada pelos militantes do Somos mais favoráveis às teses do socialismo clássico. Mas, durante vários meses, o Lampião continuou a ser muito influente, não só dentro do Somos, mas em todo o movimento homossexual. Suas ideias se transmitiam pelo país afora, inspirando a criação de novos grupos, primeiramente no Rio de Janeiro e depois em vários outros Estados.

Apesar de se propor a unir o “povo gay” do Brasil, o Lampião acabou servindo para tornar ainda mais evidente a sua heterogeneidade, não só devido às diferenças culturais, regionais, classistas e etárias, mas também entre os próprios “homossexuais organizados”. O estopim disso foi a decisão do jornal de promover uma reunião preliminar no Rio de Janeiro para discutir a viabilidade de um congresso nacional de homossexuais. Ele se propunha a pagar as passagens de dois representantes de cada grupo, além de lhes garantir hospedagem na casa de integrantes do recém-criado

Somos-Rio de Janeiro.2 Durante novembro, e começo de dezembro, esse foi o assunto que dominava as reuniões do Somos e certos detalhes geraram discussões intermináveis, como o status do subgrupo lésbico e a questão da escolha de representantes.

Apesar de ainda serem consideradas como pertencentes ao Somos, as mulheres agrupadas no subgrupo de Atuação Lésbica Feminista receberam um convite em separado para mandarem suas próprias representantes. Esse convite foi significativo e viria a dar respaldo ao sentimento de algumas que desejavam uma organização completamente separada daquela dos homens e, talvez, tenha apressado a formação do grupo autônomo lésbico.

Outra questão delicada era a da representação e essa foi a primeira ocasião em que o Somos se viu forçado, a contragosto, a escolher duas pessoas que falassem em seu nome. Depois de muita discussão, foram finalmente escolhidos os seus quatro representantes, dois homens, veteranos – um dos quais estava entre os fundadores do grupo e era morador da casa que se tornara uma espécie de sede “não oficial” do grupo, devido ao grande número de reuniões realizadas lá –, e, representando as mulheres, havia uma veterana e uma recém ingressa. Além dos dois representantes de cada grupo, que teriam direito ao voto e à passagem paga, todos os otros que quisessem ir seriam bem vindos, sendo assegurado o seu direito à voz. Assim, vários outros membros do Somos resolveram participar desse encontro também.

A reunião se deu no Rio de Janeiro, no dia 16 de dezembro de 1979, um domingo ensolarado. Havia sido marcada para às nove horas, no prédio da Associação Brasileira de Imprensa, mas, como houvera na véspera uma festa para os representantes que se estendera noite adentro, muitos chegaram atrasados para a reunião. Estavam representados quatro grupos de São Paulo – Somos, LF, Eros e Libertos-Somos-Sorocaba, Beijo Livre-Brasília, e três grupos do Rio – GAAG-Caxias do Sul, Somos-RJ e Auê, este último uma dissidência do Somos RJ, que se constituíra como grupo na véspera da reunião. Apesar da festa, do sol e da praia, todos os integrantes do Somos que haviam ido até o Rio – dez, aproximadamente – acharam importantíssimo comparecer, mesmo se um pouco atrasados.

Durante o seu período de maior lotação, estavam presentes na sala de reunião aproximadamente 60 pessoas. Inicialmente, elegeu-se uma mesa para conduzir os debates, composta por uma das veteranas do Somos-SP e um rapaz negro do Somos-RJ.

Comentou-se que essa escolha refletiria as características novas e progressistas do Movimento Homossexual, que demonstrava, assim, a sua natureza antirracista e antimachista. Mas, as apresentações feitas a seguir, pelos representantes dos vários grupos participantes, mostraram que, apesar de todos expressarem um desejo de maior aproximação entre si, muitas questões e prioridades acabavam provocando um distanciamento entre eles. Discutiu-se a oportunidade de buscar uma atuação em nível nacional, quando nem os grupos do mesmo estado se conheciam direito. Também foram lançadas propostas iniciais para campanhas como a alteração do capítulo da Constituição Federal em que se proibia a discriminação “por sexo”, para que então se passasse a constar “por opção sexual”. Outra proposta sugeria a modificação do código do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social-INAMPS, para que o homossexualismo deixasse de ser catalogado como “desvio e transtorno sexual”.

Mas, a principal preocupação do dia, como não poderia deixar de ser, foi a respeito da viabilidade ou não de um encontro nacional de homossexuais. Depois de muitas discussões, onde ficaram patentes vários desentendimentos entre os grupos, decidiu-se por um encontro, a ser realizado em São Paulo, durante os feriados da Semana Santa – 4, 5, 6 de abril de 1980. São Paulo foi escolhida por ter um número maior de “homossexuais organizados” e ficou a cargo deles a organização do encontro e a elaboração de uma agenda de discussões, a partir de temas a serem previamente sugeridos pelos diversos grupos participantes.

De volta a São Paulo, a grande preocupação passou a ser a organização dessa reunião. O assunto adquiriu prioridade absoluta, relegando para segundo plano todos os outros interesses manifestados no grupo. Entre os subgrupos voltados à execução de tarefas específicas, somente o de divulgação externa continuou a funcionar, constituindo-se numa comissão preparatória do encontro, juntamente com representantes dos dois outros grupos homossexuais paulistas: o Eros e o Libertos.

Aos poucos, a comissão preparatória do encontro foi se inchando. Esse sentimento de prioridade passou a ameaçar até mesmo o funcionamento dos grupos de reconhecimento que haviam se formado após a reestruturação de outubro, elevando o número de integrantes do Somos para a casa dos sessenta. Além dessas discussões, só uma festa de fim de ano, realizada na chácara de um dos membros do grupo, conseguiu mobilizar as atenções gerais.

Nessa ocasião, foi possível constatar o quanto o Somos mudara em relação a quem o integrava. A grande maioria dos participantes eram novatos e compareceram poucas mulheres e “bichas históricas” – como eram apelidados aqueles que haviam entrado no grupo durante os seus primeiros meses. Embora a festa durasse dois dias e uma noite, estes permaneceram somente algumas horas. Sua retirada foi pouco sentida pelos presentes e isso, aliado às brincadeiras a que haviam sido submetidos – um dos “anarquistas” mais ardorosos foi até jocosamente chamado de “stalinista” por um dos novatos –, deixou evidente o quanto os veteranos haviam perdido em importância e prestígio.

O encontro dos grupos homossexuais

 

organizados

 

O mês de janeiro viu um esvaziamento do grupo devido às férias e ao declarado cansaço dos veteranos. Além disso, foi um período de relações conturbadas entre os homens e as mulheres do grupo. Em meados do mês, foi feita uma reunião de pouco sucesso, no Teatro Ruth Escobar, para tentar resolver esta situação. As mulheres continuavam a alegar que o grupo não dava a devida importância às questões especificamente lésbicas e os homens as acusavam de divisionismo.

A desmobilização havia atingido um tal estado em que, na reunião de representantes dos grupos do Brasil, realizada em 3 de fevereiro,1980, na Fundação Getúlio Vargas, não se tinha nenhuma proposta para apresentar. Isto abriu um espaço para Charlie atuar, colocando, como representante do Somos, posições e propostas que não haviam sido discutidas anteriormente pelo grupo. Sua atuação deixou insatisfeitos vários dos “anarquistas”, que o acusaram de “conchavar” e de usar um “tom panfletário”.

Dessa reunião, saiu a decisão de se dividir o encontro em duas partes: uma fechada, na qual só participariam os integrantes dos grupos homossexuais e convidados, e outra, aberta ao público. O encontro fechado contaria com discussões em pequenos grupos, com temas específicos aos grupos organizados e gerais sobre homossexualidade; além disso, haveria reuniões plenárias, onde seriam relatados os resultados das discussões. O encontro aberto seria realizado na tarde de domingo e haveria uma discussão sobre opressão e repressão. Para esta ocasião, seriam convidados representantes de outros grupos minoritários – negros, mulheres e índios –, que teriam tempo para expor seus pontos de vista. Essa divisão do encontro traduzia, em termos práticos, a diferenciação que os militantes começavam a fazer entre categorias de homossexuais, apesar de sua postura teórica de que a estigmatização comum igualava a todos. Note-se que, o espaço reservado aos “não organizados” era aberto ao público em geral e dedicado à discussão de um tema que igualava não só os homossexuais, mas todos os grupos “minoritários”. Os “organizados” davam ainda outra indicação de que começavam a adotar uma identidade diferenciada ao atribuírem um novo nome ao conjunto de grupos homossexuais, que passou a ser chamado de Movimento Homossexual Brasileiro. Reconhecendo sua particularidade, resolveram que a reunião da Semana Santa deveria ser chamada de “encontro” e não “congresso”, para deixar claro que não pretendia ter poderes deliberativos ou representativos dos homossexuais em geral.

Surgia, porém, o problema de como os militantes dos grupos homossexuais autônomos deveriam se relacionar com os homossexuais organizados, dentro das agremiações político partidárias, como os integrantes da Fração Gay da Convergência Socialista. Segundo as ideias vigentes, estes deveriam ser considerados “iguais”, mas a sua militância partidária era percebida como séria ameaça à tão prezada autonomia homossexual. Abandonando seus purismos, os representantes dos vários grupos autônomos optaram pelo formalismo casuístico, decretando que só poderiam participar da parte fechada do encontro aqueles grupos que já houvessem enviado representantes a uma das prévias. Impedia-se, assim, a inclusão da Fração Gay da Convergência Socialista. Os preparativos para reunião passaram a ocupar toda a atenção do Somos, cujos militantes tiveram que enfrentar as dificuldades decorrentes de sua falta de experiência e de infraestrutura organizacional. Charlie e alguns simpatizantes ainda tentaram envolver a Fração Gay nessas discussões, mas enfrentaram uma oposição intransigente de outros integrantes do Somos, além dos representantes dos grupos paulistas: Eros e Libertos. Foi finalmente resolvido que a Convergência Socialista só participaria do encontro enquanto colaboradora na organização, sem direito a voto ou a participação na mesa. Este também seria o status de outros participantes como: o jornal Lampião, o Jornal do Gay e do Círculo Corydon.

Concomitantemente, estavam em processo os preparativos para o IIIº Congresso da Mulher Paulista. Este viria a se realizar em março de 1980 e contou com a participação de muitos integrantes dos grupos homossexuais, tanto homens quanto mulheres. As tentativas de interferência e sabotagem, por parte da organização MR8, que desejava impedir a criação de um movimento feminista autônomo, serviram para exacerbar, ainda mais, os receios dos que suspeitavam da sinceridade de Charlie e outros simpatizantes da política partidária.

O encontro de grupos Homossexuais Organizados (1º EGHO) ocorreu, como proposto, nos dias 4, 5, e 6 de abril de 1980. No encontro fechado, localizado em salas do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), compareceram aproximadamente 200 pessoas, incluindo integrantes e convidados dos grupos Auê-RJ, Somos-SP, Somos-RJ, Eros, Libertos, Somos-Sorocaba, Beijo Livre-Brasília, além de participantes vindos de Belo Horizonte, Vitória, Goiânia, Curitiba e uma comissão de representantes do jornal Lampião. À porta, seus nomes eram conferidos numa lista previamente preparada. Um esquema de segurança, contando com a participação tanto de homens como de mulheres – enfatizava-se assim a abolição de papéis de gênero –, certificava-se também de que ninguém levava máquinas fotográficas, já que o único órgão credenciado a fazer a cobertura do acontecimento era o Lampião. Além de evitar a entrada de “penetras”, procurava-se, assim, defender o anonimato dos participantes que não desejassem ver sua homossexualidade divulgada nos meios de comunicação de massa. Depois de uma solenidade de abertura, durante a qual a mesa apresentou uma moção de apoio aos metalúrgicos do ABC que estavam em greve, os participantes se dividiram em vários grupos para discutir os temas previamente propostos. No dia seguinte, houve uma reunião plenária na qual os pontos levantados nas várias discussões foram relatados, e, à tarde, novos debates em grupos pequenos, com uma última reunião plenária no Teatro Ruth Escobar. Os grupos de discussão variavam de tamanho e de clima emotivo, de acordo com os tópicos discutidos.

Os temas haviam sido elaborados a partir de sugestões enviadas por todos os grupos participantes e refletiam, sobretudo, grande preocupação com as questões de identidade homossexual, a constituição de uma comunidade e os métodos políticos a serem adotados pelos grupos e pelo movimento como um todo. A questão da identidade estava refletida na preocupação com os problemas de relacionamento entre os homens e as mulheres, o efeito da imposição de modelos preexistentes de homossexualidade, os papéis sexuais, as travestis e as formas de expressão artística e linguística dos homossexuais.

Associada à questão da identidade, estava a da comunidade homossexual e sua problemática heterogeneidade. Pôde-se incluir nesta categoria as discussões sobre a prostituição, a beleza, a discriminação e as violências sofridas por alguns mais do que por outros, a criminalidade e o gueto homossexual. Por último, a questão dos métodos políticos se estendia, desde a discussão sobre a tática do “se assumir” e os problemas do Lampião, até as questões de conjuntura nacional e internacional, como a reformulação partidária, então em curso no Brasil, a relação dos homossexuais com a esquerda e a discussão da própria noção de “poder”.

Os debates sobre os diversos tópicos atraíram públicos variados e os que provocaram as discussões mais esquentadas e mais concorridas foram os que se relacionavam à questão lésbica e aos problemas da relação entre política homossexual e política partidária. Os resultados dos debates sobre a problemática das lésbicas estão em outra parte deste livro. Aqui pretende-se somente falar sobre a questão “política”.

Apesar dos esforços para manter fora pessoas não ligadas aos grupos homossexuais, compareceram indivíduos cujas lealdades principais pareciam ser voltadas às organizações de natureza político partidária mais clássicas. Ficou evidente que não era somente entre os recém-ingressos do Somos-SP que se encontravam os partidários de uma concepção social informada pelo marxismo. Entre os integrantes de vários dos grupos homossexuais representados, haviam simpatizantes de diversos partidos políticos, legais ou clandestinos, como: o Partido dos Trabalhadores, a Convergência Socialista, o Partido Comunista Brasileiro e o Partido Comunista do Brasil. Procurando encaminhar as discussões para assuntos mais ligados às suas preocupações político partidárias, estas pessoas contribuíram para causar grandes polêmicas, especialmente devido ao receio generalizado de que se reproduzissem no EGHO o caos e o tumulto ocorridos no 2º Congresso da Mulher Paulista.

Uma das discussões mais acaloradas se deu em torno da proposta de comparecimento dos grupos homossexuais aos atos públicos de 19 de maio, em apoio à greve dos metalúrgicos do ABC. Mesmo reconhecendo a importância do evento, muitos, sob a liderança dos veteranos do Somos, se opunham à participação dos grupos homossexuais, alegando a necessidade de se evitar qualquer confusão entre a luta homossexual e a luta classista. Depois de uma conturbadíssima votação, a proposta foi derrotada, apesar da sua defesa ser feita por integrantes do subgrupo lésbico feminista, que diziam que iriam de qualquer forma, por já ter assumido esse compromisso perante o Movimento Feminista. Consumava-se, assim, uma primeira ruptura declarada entre as lideranças tradicionais dos homens e das mulheres do Somos.

Também causou muita animosidade a proposta de criação de uma comissão para coordenar o movimento homossexual em nível nacional. Defendida pelos partidários da “luta geral”, ela foi atacada ferozmente pelos “autonomistas”, que receavam o aparecimento de um “comitê central”, que tentaria impor uma linha comum aos grupos. Essa discussão também serviu para afastar os veteranos do Somos-SP dos militantes cariocas, lançadores da proposta.

A proposta da criação da comissão coordenadora foi, finalmente, derrotada por questões técnicas, pois, como ficara estabelecido, o encontro não tinha poder deliberativo e ficava, portanto, incapacitado de criar qualquer comissão. Apesar de impor o seu ponto de vista através deste expediente técnico, que muitos classificaram como “manobra”, os veteranos do Somos acusavam seus opositores de “lutarem pelo poder”, e esta acusação logo passou a ser usada por todos os lados envolvidos na disputa. Opunha-se o “poder” à “individualidade”, assim, onde houvesse “luta pelo poder” haveria “autoritarismo” e uma tendência à “massificação”, ou homogeneização dos anseios e necessidades individuais.

Tornava-se inevitável o reconhecimento de que a suposta comunidade homossexual estava irremediavelmente fracionada e que os antigos valores, cultuados pelos militantes homossexuais como consensuais, eram passíveis de múltiplas interpretações. “A luta pelo poder” se mostrava inevitável e daí por diante até aqueles que regularmente a denunciavam passaram, de maneira declarada, a se preocupar em arregimentar suas forças.

Essa dificuldade, em aceitar posições políticas conflitantes dentro do movimento homossexual, correspondia a uma certa intolerância em relação às representações tradicionais da homossexualidade, correntes no gueto. Isso ficou evidente durante uma festa de confraternização dos participantes do encontro, realizada na noite de sexta feira, na discoteca gay Mistura Fina.

Durante grande parte da noite, houve muita animação e euforia entre os presentes, que até organizaram um pequeno show satírico. Porém, a certa altura, foi também apresentado o espetáculo que a discoteca oferecia costumeiramente a seus fregueses. Nesse espetáculo, apresentavam-se dois personagens, um “machão”, de corpo e porte de halterofilista, e uma conhecida travesti, Phedra de Córdoba. Enquanto o “homem” permanecia de pé, imóvel, com as costas voltadas ao público, a travesti representava um jogo de sedução, estereotipadamente “feminino”, fazendo tudo para conquistá-lo, rebolando, insinuando-se, e colocando-se num papel de subserviência.

Rapidamente, a plateia “militante”, bastante diferente daquela que normalmente frequentava a casa, foi tomada de mal-estar e murmúrios de descontentamento começaram a ser ouvidos. A certa altura, um rapaz das primeiras fileiras gritou: “Machista, pare com isso!” A plateia aderiu imediatamente ao protesto, vaiando e gritando expressões como “machista”, “autoritário”, etc. Sem condições de prosseguir, o espetáculo foi abruptamente encerrado.

Menos que a pseudofeminilidade da travesti, o que, provavelmente, mais atiçou a ira dos militantes foi a encenação de um jogo de dominação e submissão, pois, especialmente entre os homossexuais masculinos dos grupos homossexuais, a efeminação e o desmunhecamento básico do “fechar” sempre foram muito praticados e vistos como simples brincadeira. Mais uma vez, evidenciava-se, assim, a crescente distância entre os valores dos militantes e dos habituais participantes do gueto gay.

A tarde do domingo de Páscoa foi dedicada à reunião aberta ao público geral, realizada na sala Gil Vicente, do Teatro Ruth Escobar. Entre 600 e 1000 pessoas estiveram presentes nestas reuniões, incluindo várias travestis e muitas pessoas vindas da periferia, de uma posição sócio econômica bastante baixa.

Comandando os acontecimentos, havia uma mesa com dez membros dos vários grupos homossexuais de São Paulo, Rio e Brasília, uma travesti, um homossexual negro, do Movimento Negro Unificado, uma representante do grupo feminista Centro da Mulher Brasileira e a Dra. Alice Soares, uma advogada, conhecida, entre outras coisas, por seu trabalho de assistência legal a travestis e aos militantes homossexuais.

A essa altura, já se instalara, entre os participantes, um clima de desconfiança mútua e, deixando de lado os seus tão alardeados princípios, quase todos passaram a “manobrar” e a “conchavar”. Um dos principais promotores e alvos dessas operações era Charlie, acusado de manipular suas duplas conexões com a Convergência Socialista e com o Somos, para transmitir a impressão de uma falsa identidade de propósitos entre as duas organizações. Nesse clima conturbado, dois integrantes da mesa tiveram um destaque especial, por sua habilidade em conduzir da forma menos autoritária possível o andamento da reunião: Eduardo do Somos-RJ e Teca do Somos. A atuação de Teca foi elogiadíssima e lhe valeu uma foto na capa do Jornal Lampião. Descrevendo o estilo “bicha”, usado pelo presidente da mesa para controlar o plenário, um jornalista daquele periódico disse: “Foi uma delícia ver Eduardo aplacando os ânimos e se aplacando a si mesmo com aquela sua gesticulação de

medusa que parece lhe prover de duzentos braços”.3

Durante a reunião, os vários participantes da mesa falaram rapidamente sobre as diversas formas de opressão sofridas pelas minorias e discutiu-se uma série de reportagens, que haviam sido publicadas pouco antes, no jornal O Estado de S. Paulo, atacando a presença de travestis nas ruas da cidade. Foi lida a carta endereçada ao Papa, que o grupo Beijo Livre – Brasília pretendia entregar pessoalmente durante sua programada visita ao Brasil, protestando a respeito das declarações que ele fizera contra o homossexualismo. Foi também feito um relato dos debates entre os grupos e das conclusões a que se havia chegado.

O restante da reunião foi tomado por depoimentos de homossexuais que protestavam contra variadas formas de opressão e repressão e, na plenária, houve muitos chamados à unidade e a uma luta comum. Porém, os ânimos entre as facções, que se cristalizaram durante a parte fechada, estavam bastante exaltados e houve questionamento da razão de ser da reunião, uma vez que não tinha caráter decisório. Em resposta, Teca definiu a reunião como um “ato público”, arrançando demorados aplausos da plateia, por conta do que foi festejado como “seu achado semântico”.

Em nível linguístico, as divergências eram expressas nas formas de tratamento usadas pelos oradores. Aqueles que vinham de organizações engajadas em política partidária usavam o costumeiro “companheiro”, que era violentamente rechaçado pelos que não desejavam ser vinculados à “luta geral”. Estes, por seu lado, não estando acostumados a reuniões desse tamanho, envolvendo tantos grupos diferentes e tantas pessoas desconhecidas, não sabiam quais outros termos usar, empregando repetidamente a expressão “colega”, que também parecia pouco apropriada. Eram os termos mais debochados empregados no dia a dia, como “queridinha”, “bicha”, “santa”, etc., que arrancavam manifestações de aprovação e aplauso de um público que via no seu uso um alívio da tensão causada pela seriedade inusitada para uma grande parcela deste público, acostumado a tratar sua orientação sexual de uma forma mais irônica e informal. Ficaram também evidentes várias interpretações existentes sobre o que seria a homossexualidade e a luta homossexual, relativizando, dessa forma, a visão homogeneizadora reinante nos grupos. Trevisan, em seu artigo sobre o encontro, descreve uma dessas situações refletindo na sua linguagem a idealização da marginalidade, comumente evocada naquela época para se contrapor à militância esquerdista.

 

[...] o travesti da mesa, sem nenhum charme estudado, tomou a palavra e, querendo usar um termo mais fino, declarou que ali todo mundo era ‘homem-sexual’ do mesmo jeito. Esse homem-sexual soou como uma benfazeja dificuldade em digerir e veicular um conceito que nos discrimina por nos classificar exclusivamente por um aspecto de nossas vidas.

Esse travesti me lembrou um índio que tivesse mantido suas raízes em plena metrópole, porque tratava-se de um estigmatizado que, aprendendo a falar, não repetia a linguagem de seus estigmatizadores; pelo contrário, modificava-a e por isso tive inveja dele. Ri, deliciado, e pensei inaugurar termos como ‘mulher-sexual’, ‘bicha-sexual’, ‘lésbica-sexual’, etc. Aquele travesti proleta devorava e criava em cima dos seus opressores. E espontaneamente protestava contra a guetoização, inerente ao conceito de ‘homossexual’, criado para marcar os limites entre normal e anormal. (TREVISAN, 1980, p. 5)

 

Imperava um clima de grande emoção, todos sentiam que estavam vivendo um momento “histórico”, termo usado várias vezes, e que refletia a convicção dos participantes de que o movimento homossexual fazia parte de toda uma série de mudanças, em curso na sociedade, naquele período de “abertura”. Alguns observadores, mesmo afastados do movimento homossexual, sentiram-se profundamente tocados, e, em certos casos, não puderam conter suas lagrimas. O clima de emoção foi aumentado pelas tentativas da imprensa de entrar, e equipes de televisão exigiam o direito de filmar os acontecimentos para o noticiário da Globo e para o programa sensacionalista da TV Record, O Homem do Sapato Branco. Essas exigências eram rigorosamente negadas, de acordo com as resoluções da comissão de preparação do encontro, que visavam proteger o anonimato dos participantes.

Quando o encontro chegou ao fim, teve-se como saldo uma série de resoluções aceitas por consenso: chamando pela legalização jurídica dos grupos; a dinamização dos contatos intergrupais, através de jornais e boletins; a promoção de debates sobre a homossexualidade durante o congresso anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); a realização de campanhas para a alteração da constituição brasileira, visando a proteção dos direitos à liberdade de opção sexual e alteração do código da OMS e do INAMPS, abolindo a classificação da homossexualidade como desvio sexual; a denúncia da discriminação exercida por empregadores e o acompanhamento de investigações sobre arbitrariedades cometidas contra homossexuais. Atendendo a questão da autonomia dos grupos em relação à política partidária, recomendou-se que os grupos deveriam se manter abertos à participação de qualquer homossexual que desejasse se aproximar deles. Enfatizou-se a importância de se preservar a autonomia do movimento, sem, porém, vedar a

participação de seus militantes em “outras linhas”. 4

Embora, na época, parecessem utópicas, muitas dessas resoluções foram postas em prática alguns anos depois, por grupos que nem existiam então. Especial destaque deve ser dado à legalização do Grupo Gay da Bahia e do grupo Triângulo Rosa (RJ) e à alteração na classificação do homossexual, recomendado em 1985, pelo Conselho Federal de Medicina, que sugeria sua inclusão na categoria “Outras Circunstâncias Psicosociais”, ao lado de outras condições não patológicas.

Uma importante constatação que pode ser feita a partir dessas resoluções é a da afirmação reiterada da igualdade de todos os homossexuais. Nunca foi colocada em questão a validade da categoria “homossexual”, que atribuía uma só identidade social a um conjunto, mesmo quando sua heterogeneidade ficou tão evidente. Ao invés disso, as diferenças surgidas foram relegadas ao nível individual e interpretadas como manifestações de “alienação” ou “mau caratismo”. Mas, a partir desse encontro, o movimento homossexual passou a viver uma nova fase, em que não era mais possível ignorar as diferenças que surgiam em seu seio. Para seus participantes, ocorrera uma “perda de inocência” e ficara claro que não era mais possível um relacionamento baseado em confiança mútua entre as duas facções, em que se agruparam todos os que já tinham uma certa vivência no grupo Somos.

Polarizando as discussões estava a atuação de Charlie, acusado de tentar manipular o Somos em benefício da Convergência Socialista. Desde o episódio das “beterrabas”, ele nunca mais conseguira se livrar plenamente das suspeitas de algumas pessoas e seus esforços, para incluir a Fração Gay da Convergência Socialista nos preparativos do encontro, pareciam justificá-las. Aos poucos, dúvidas sobre sua confiabilidade política tornaram-se dúvidas sobre a sua confiabilidade enquanto amigo, pois começou a se alardear que ele teria uma “técnica” de se aproximar de certas pessoas de maneira afetiva para promover fins políticos. Esse tipo de comportamento parecia ameaçar os laços básicos de união entre os membros do grupo, que, retoricamente, consideravam o “tesão” e o afeto mais importantes que a execução de tarefas políticas. Aceitava-se, por exemplo, como desculpa válida por não se ter cumprido alguma obrigação assumida, a alegação de que sua atenção havia sido tomada por algum tipo de aventura sexual ou afetiva. Já fazia algum tempo que se levantavam críticas sobre os supostos “charmes interesseiros” de Charlie. Alegava-se que ele teria até feito curso de treinamento em liderança política esquerdista nos Estados Unidos e que tudo que ele fazia era premeditado. Dizia-se que ele não hesitava nem em levar alguém para a cama só para promover seus fins.

A veracidade, ou não, dessas acusações importa menos que os valores revelados pela interessante contradição manifestada no grupo, que costumava afirmar que o privado era político, mas não se dispunha a admitir o uso político das relações pessoais. O “tesão” parecia ser visto como uma “força natural”, espontânea, uma das bases da “individualidade”, mesmo que as relações desenvolvidas a partir dele pudessem ser objeto de frios cálculos políticos.

Nesse período de preparação do EGHO, aqueles integrantes com uma visão de mundo mais influenciada pelo marxismo passaram a se encontrar e a saírem juntos, para conversar nos bares do centro da cidade. Surgia um novo grupo de afinidade que se opunha à “panelinha” dos veteranos, ainda quase hegemônica.

Essas pessoas eram identificadas, pelos outros, com Charlie e suas posições, embora entre eles houvessem várias discordâncias políticas, uma vez que eram ligados a organizações políticas diferentes e até antagônicas. Entre eles haviam simpatizantes do PT, CS, PCB, Liberdade e Luta e do jornal Em Tempo. Nesta época, Charlie também tentou incentivar alguns integrantes do Somos a participar da Convergência Socialista, chegando mesmo a distribuir entre eles um novo documento confidencial, aparentemente preparado por ele, intitulado Teses para a libertação homossexual. Muitos destes “mais politizados” passaram a atuar no subgrupo de divulgação externa, no qual eram maiores as possibilidades de dar vazão aos seus desejos de ativismo. Isso, porém, não deixou de atrair as suspeitas do resto do Somos, que sempre vira esse subgrupo com uma certa desconfiança, e receava que esses militantes com interesses partidários traíssem a autonomia do grupo.

Mais tarde, essas desconfianças mostraram-se plenamente justificadas. Apesar de muitos dos “marxistas” discordarem da política geral da Convergência Socialista, havia uma certa concordância a respeito do que seria uma atuação “progressista” para o Somos. Embora Charlie o negasse, um vazamento de documentos destinados exclusivamente à circulação interna na Convergência Socialista deixou bastante claras, alguns meses depois, as suas pretensões hegemônicas dentro do Somos e do Movimento Homossexual. Esses documentos tomavam como óbvio que ele e seus companheiros se julgavam a direção do “polo progressista” do Somos-SP e davam pouca importância aos seus ideais autonomistas. Isso fica perceptível nas seguintes citações:

 

Em grupos onde o polo progressista é maior, o imobilismo dos anarquistas vai agudizar as diferenças entre os dois polos. Nesta situação, nossa tarefa vai ser dividir o grupo, levando o polo progressista para uma organização de frente única pró PT.

 

Após recomendar essa cisão, e a condução do “polo progressista” para uma nova organização pró PT, o documento continua suas prescrições para os homossexuais da Convergência Socialista:

 

Composta de todos os homossexuais assumidos na Convergência Socialista, a Fração vai levar a questão do homossexual em todas as frentes onde atuamos, dando direção para esses trabalhos. Os companheiros da Fração têm a possibilidade de tornarem-se a direção do Movimento Homossexual nesses setores (i.e., secundaristas, universitários, artistas, bancários, professores, etc.). Em termos superestruturais, a Fração também vai funcionar como um grupo de homossexuais organizados e assim participar de uma eventual coordenação nacional do MH, conferências, jornais, etc.

 

Temos aí, portanto, a intenção declarada de um setor da Convergência Socialista de tomar a direção do Movimento Homossexual. Mais adiante o documento continua:

A Fração Homossexual da Convergência Socialista vai eleger uma direção com as funções de elaborar as linhas gerais do trabalho da Convergência Socialista e ajudar na formalização do trabalho homossexual em todas as regiões. É possível que seja necessário cooptar não homossexuais ao

nível da direção nacional para participar na coordenação.5

 

Nessa altura, a pretensa comunidade dos iguais do Somos já estava bastante fraturada. A clivagem entre “veteranos” fundadores e os recém-ingressos era potencializada por uma diferença ideológica entre “anarquistas/autonomistas” e “marxistas”. Devido à exigência de consenso dentro do grupo, não havia a possibilidade dessas tendências aflorarem claramente e ser calmamente discutidas em seus prós e contras. Qualquer manifestação de divergência mais acentuada era definida como “luta pelo poder”, por aqueles mais influentes dentro do Somos. Portanto, a partir do momento em que a existência de posições antagônicas ficou clara, a única forma de manter a suposta unidade do grupo foi pela adoção de atuações clandestinas.

A participação no Somos afetou profundamente a vida de muitos dos seus membros, e, consequentemente, seus sentimentos a respeito do grupo eram altamente emocionais. Para muitos, o sentimento comunitário, o “casamento com o grupo”, continuava a existir, até em meio às crises. Mesmo envolvendo-se em “conchavos” e intrigas políticas, eles se recusavam a reconhecer a natureza fundamental das divisões surgidas, na esperança de que algumas reuniões, ou uma “reestruturação”, bastassem para resolver esses problemas. Sua certeza de que o problema básico de todos os homossexuais era a “opressão” os levava a crer que todo “homossexual consciente” acabaria optando pela autonomia do movimento. Qualquer outra opção parecia ser evidentemente “incorreta”, ou de má fé. Nem mesmo as diferenças políticas, representadas pela atuação divergente de Charlie, eram completamente apreendidas por muitos integrantes do grupo que, considerando-o “consciente” e incapaz de “agir de má fé”, permaneciam confusos perante os acontecimentos. Perdurava assim uma certa relutância em reconhecer o já insanável fracionamento do grupo.

As comemorações do 12 de Maio e o

 

“racha”

 

A partir do EGHO, as divergências dentro do movimento homossexual se acentuaram dramaticamente e contribuíram para a consolidação, em seu seio, de novas e antagônicas redes de afinidade e sociabilidade. Como importante ponto de discórdia, surgia agora a questão da participação do Somos nas comemorações de 19 de maio, 1980, organizadas pelos metalúrgicos grevistas do ABC e geralmente consideradas um marco histórico na derrubada do regime militar. Previamente, Charlie e seus amigos, entre os “novos”, já haviam se manifestado a favor dessa participação, enquanto grande parte dos “veteranos” eram contra.

Em princípio, mesmo aqueles identificados com uma posição contrária à ida do grupo à manifestação, não se posicionavam contra a causa operária em si. Vários se diziam dispostos a ir, mas não como “homossexuais organizados”. Protestavam, porém, contra o que consideravam ser uma tendência a se confundir a luta dos homossexuais com a luta de classe, alegando que seria muito pouco provável que os líderes operários estivessem dispostos a dar apoio real aos homossexuais, se estes o pedissem.

Nessa época, Charlie e outros interessados convocaram algumas reuniões, para planejar a ida daqueles que pretendiam participar do ato público. Foi proposto que se levasse uma faixa identificando o grupo homossexual, mas sem usar o nome Somos. Havia grande receio de repressão, tanto por parte das autoridades, que até o final mantiveram uma postura bastante ameaçadora, quanto por parte dos operários. Era a primeira vez que o grupo tentava uma aproximação com a classe operária e havia muito medo de que eles reagissem de uma forma machista e brutal. Charlie propôs que os militantes homossexuais se mantivessem ao lado da representação da Convergência Socialista que, em caso de ataque, estaria disposta a defendê-los. As integrantes do subgrupo lésbico-feminista, que já haviam se comprometido a comparecer ao lado de outras militantes feministas, não se interessaram pelas discussões preparativas dos homens.

Nesse meio tempo, aqueles que se opunham a Charlie e à participação na demonstração começaram assumidamente a “conchavar”, reunindo-se secretamente para planejar sua atuação. Em pelo menos uma instância, compareceram a uma reunião geral de preparação para a passeata com um esquema diversionista montado para atrapalhar as discussões. Essa atitude foi justificada, mais tarde, com a alegação de que esta era a forma de atuação de Charlie e das outras “beterrabas”. Em oposição à ideia de participar do ato público na Vila Euclides, foi proposto um piquenique, onde seria possível se restabelecer um clima mais descontraído, depois de toda a atividade e nervosismo do encontro. Propunha-se lembrar o grupo de que eles estavam juntos para lutar pelo direito ao prazer e que já era tempo do grupo “curtir o seu afeto”. Esta proposta foi rechaçada violentamente pelos favoráveis à ida ao ato público, sob a alegação de que era parecida com a do “sistema”, que tentava transformar urna data histórica relacionada à luta operária em um simples dia de lazer. Seus proponentes eram sarcasticamente chamados pelos outros de “farofeiras”.

No dia 19 de maio, integrantes dos dois grupos se encontraram fortuitamente na cidade, a caminho de suas respectivas atividades. Tal era o clima de desconfiança, que os adeptos do piquenique consideraram que o encontro fora proposital, uma forma de espionagem, para conferir quem seriam os responsáveis pela oposição à participação no ato público.

Os 50 homens e mulheres homossexuais que acabaram participando do ato público, sob a faixa “Comissão de Homossexuais Pró – 19 de maio”, foram muito bem recebidos pelos outros manifestantes, o que os deixou eufóricos.

Os que foram ao piquenique também aproveitaram o dia para levar adiante a sua discussão sobre o estado do grupo, que concluíram ser lamentável. Porém, para eles, a ideia de dividir o grupo ou simplesmente deixá-lo era demasiadamente dolorosa. Assim, resolveram chamar uma reunião geral para alertar todos os integrantes sobre o que estaria acontecendo e discutir a atuação de Charlie, vista como comprometedora à autonomia do grupo. Acreditava-se que, dessa forma, seria possível recuperar o Somos.

Durante suas reuniões secretas, os opositores de Charlie e do novo rumo que o Somos estaria tomando fizeram uma análise dos problemas do grupo que, para eles, eram basicamente três.

 

1. O grupo estaria sem identidade;

2. O grupo estaria se esvaziando, em termos de número de

integrantes;

3. A estrutura do grupo não corresponderia aos anseios, era muito

facilmente controlável por indivíduos desejosos de “atrelá-lo” a algum partido político.

 

Esses, afinal, eram os pontos críticos da tentativa de se organizar um grupo de militância homossexual. A falta de identidade do grupo refletia a própria falta de consistência na noção de uma “identidade homossexual”, que igualava uma população extremamente heterogênea. A própria aplicação ou aceitação do rótulo “homossexual”, na nossa sociedade, é basicamente circunstancial e não abarca todas as dimensões da personalidade. O esvaziamento do grupo também correspondia à compreensão de como seriam instáveis as comunicações afetivas baseadas na simples admissão da homossexualidade. O principal atrativo do grupo, para aqueles menos ideologicamente motivados, era o apoio emocional e a possibilidade de sociabilidade que ele oferecia. Quando as brigas internas do Somos começaram a se tornar públicas, o grupo deixou de se mostrar atrativo nesse aspecto. Além disso, essa época foi também marcada por um boom do comércio voltado ao mercado gay e o desenvolvimento do que os militantes chamavam de “gueto”. Isso, em parte, era devido à própria atuação dos militantes homossexuais, que lutavam pelo enfraquecimento do tabu que envolvia a homossexualidade, promovendo a sua inclusão no rol da normalidade. Tudo isso contribuía para tornar a participação nos grupos uma opção menos atraente, perante as novas alternativas de sociabilidade oferecidas pelo gueto homossexual.

Já os “problemas da estrutura do grupo” eram basicamente relacionados à impossibilidade da convivência, em seu seio, de concepções muito divergentes. Inevitavelmente, surgiam posições hegemônicas que, embora mascaradas como consensuais, acabavam sendo impostas de forma mais ou menos autoritária, situação bastante comum em outros movimentos sociais deste tipo. (DURHAM, 1984, p. 30)

Na esperança de “salvar a unidade do grupo”, através de uma catarse emocional e da retirada de Charlie, os “autonomistas” resolveram convocar uma reunião geral para “lavar a roupa suja”. Houve, de fato, duas dessas reuniões, que contaram com o comparecimento da maioria dos integrantes regulares do grupo. As reuniões foram palco de colocações passionais, de cunho estritamente pessoal, ao lado de disputas em um nível mais classicamente político. Para os participantes do grupo, não existiria uma separação entre esses dois níveis e era, portanto, considerado legítimo alegar, por exemplo, que aqueles mais interessados em se engajar na “luta geral” eram os que mais adotavam uma postura “macha” no seu modo de andar, vestir, gesticular, etc. – ou seja, não seriam verdadeiramente “bichas”, sendo, portanto, lícito desconsiderá-los. Houve, também, a repetição das acusações de “política de cama”, “manobrismo”, etc.

Nem só Charlie e seus aliados sofreram agressões. Também foi cobrada das mulheres uma maior participação na atuação do Somos e uma definição mais clara de suas lealdades. Afinal, perguntou-se se consideravam em primariamente como homossexuais ou como mulheres? Ainda incertas a respeito dessas questões, as lésbicas resolveram adiar suas respostas sobre o assunto.

Constatou-se claramente que o Somos estava irreversivelmente dividido em, no mínimo, duas facções. Entre as mulheres, havia muito apoio a Charlie, devido às inúmeras críticas pessoais sofridas por ele que, aos olhos de muitas, parecia ter se tornado vítima de um novo “Macarthismo homossexual”. Ele continuava irredutível, desafiando seus opositores a tentarem expulsá-lo do grupo.

Depois da segunda reunião de “lavagem de roupa suja”, ficou óbvio que a esperada catarse emocional não estava funcionando e os ataques pessoais promoviam somente o enrijecimento das posições. Mesmo assim uma nova reunião foi marcada para discutir a reestruturação do Somos.

Nesse meio tempo, os opositores de Charlie chegaram à conclusão de que o grupo era “irrecuperável”. Como, entre eles, estavam alguns militantes com cargos importantes, tal como o presidente – até então só considerado para efeitos formais ou jurídicos –, se pensou em tentar um ato de força para expulsar os indesejáveis. Mas isto seria difícil, dado o apoio que Charlie gozava e também porque essa atitude era vista como uma capitulação final à “luta pelo poder”, justamente a principal bandeira que se levantava contra ele. A partir dessa constatação, resolveram simplesmente abandonar o grupo, procurando levar consigo o máximo de simpatizantes para, juntos, formarem outro.

As mulheres, cuja atuação é descrita em mais detalhes adiante, também resolveram que o Somos não tinha mais nada a lhes oferecer. Entendiam a briga que se desenrolava como uma disputa entre “machos ambiciosos por poder” e decidiram estabelecerem-se formalmente como o grupo independente, que, há algum tempo, elas já eram de fato.

Porém, o Somos continuava a representar uma ideia extremamente importante e de forte carga emotiva para os envolvidos nesses acontecimentos e muitos ainda acreditavam que seus problemas poderiam ser sanados mediante uma nova reestruturação do grupo. Na data marcada para a primeira reunião após as “lavagens de roupa suja”, como de costume, o início das discussões se atrasou e os militantes, ao chegarem, se agrupavam em rodinhas de conversa, à porta do local escolhido para a reunião, a discoteca gay Mistura Fina, localizada na Rua Major Sertório, na

chamada “Boca do Lixo”. 6 Reinava um clima inesperadamente ameno, ao contrário de outras reuniões do grupo. Dois rapazes de atuação destacada no Somos, contrariando o uso costumeiro, haviam vindo semitravestidos. Ambos estavam de sapatos de salto alto, calças, túnicas de aparência feminina, com os olhos, a boca e o rosto maquiados, embora um também ostentasse bigodes. O outro estava com o cabelo penteado em estilo feminino, uma grande quantidade de colares de candomblé pendurados no pescoço e várias pulseiras nos braços. Suas aparências foram bastante comentadas, embora não de forma desaprovadora, mas ninguém parecia se perguntar porque eles haviam vindo assim. Aqui, cabe ressaltar que a forma costumeira dos integrantes do grupo se vestirem era das mais corriqueiras: o uniforme unissex da juventude, cuja marca básica é o brim, usado especialmente em forma de calças e jaquetas. Normalmente, nem os homens e nem as mulheres usavam maquilagem ou arranjos de cabelo mais elaborados.

Quando a reunião foi dada por iniciada, todos se sentaram em círculo na pista de dança da discoteca. Eram trinta e sete homens e vinte e oito mulheres. No momento inicial, de leitura da pauta para a reunião, foi anunciado que Evaristo, um dos veteranos do grupo e ator profissional, faria primeiro um comunicado importante. Houve um silêncio, enquanto ele assumia uma expressão digna, de quem estava para fazer uma declaração histórica. Evaristo passou então a ler, de forma pausada, o seguinte texto:

 

Ao Grupo Somos

Considerando que a imagem externa do Grupo Somos está irreversivelmente associada ao grupo Convergência Socialista; Considerando que a autonomia do Grupo Somos está comprometida pelo caráter da atuação de elementos filiados a organizações políticas e partidárias;

Considerando que o Grupo Somos foi desviado de sua definição como grupo de homossexuais interessados basicamente em discutir nossa sexualidade e lutar contra a discriminação sexual; Nós, abaixo nomeados, nos declaramos desligados do Grupo Somos a partir desta data, e passamos a constituir um novo grupo que se propõe a reafirmar a definição do grupo homossexual autônomo e interessado prioritariamente na questão homossexual.

Às pessoas dispostas a integrar o novo grupo, comunicamos que nossa primeira reunião deverá realizar-se no dia 25 de maio de 1980, domingo, às 16 horas, em local a ser definido.

São Paulo, 17 de maio de 1980.

Cacá, Celso I, Emanoel, Evaristo, Glauco, Reynaldo I, Ricardo III, Tosta, Zezé.

 

Terminada a leitura, os nove assinantes da carta se retiraram sem mais comentários, seguidos por dois rapazes que fizeram pequenos discursos, que se pretendiam improvisados. Declaravam uma concordância com o documento lido e manifestavam uma adesão “espontânea” ao novo grupo. Eles, então, também se retiraram do recinto. Porém, ficou pouco clara a intenção destes últimos e só mais tarde vim saber que era uma tentativa premeditada de estimular a retirada maciça dos descontentes.

Vitório, o último a manifestar a sua adesão, fora um dos que viera semitravestido – o outro fora Zezé, um dos signatários da carta – e, depois de seu pequeno discurso, atravessou a pista de dança com ar solene, apesar de demonstrar uma certa dificuldade em se equilibrar nos seus saltos altos. Ficou bastante óbvio que ele viera preparado para um “acontecimento histórico”. Isso conflitava de tal modo com sua “adesão espontânea”, que sua fala acabou sendo interpretada como uma simples “manifestação de estrelismo”, pela plateia atônita.

Uma vez que os dissidentes haviam saído, houve um clima de indignação geral por parte daqueles que permaneciam no Somos, mas não se consideravam ligados, de nenhuma maneira, à Convergência Socialista. Quando os ânimos se acalmaram um pouco, as mulheres anunciaram que haviam chegado à decisão de sair do Somos, por acharem impossível um grupo feminista coexistir dentro de um grupo maior, também integrado por homens. Ao mesmo tempo, disseram lamentar a coincidência das duas saídas, pois as razões que elas tinham para sair eram diferentes.

Porém, uma das integrantes do grupo, Alice, manifestou sua discordância com essa separação, alegando que ela e seu “caso” não desejavam interromper uma experiência que, para elas, estava sendo muito rica. Além disso, diziam nunca ter passado dificuldades com os homens do grupo, ao passo que, em várias ocasiões anteriores, já haviam entrado em choque com uma “cúpula” formada por quatro ou cinco mulheres, que tentavam controlar toda a atuação lésbica-feminista. Essas duas eram as únicas que não haviam participado da reunião, na qual as mulheres haviam resolvido se desligar do Somos. Para resolver essa situação, todas se retiraram para uma sala separada, onde, depois de uma discussão, foi votada a confirmação da decisão de saída do grupo e ficou explicitado que não seria permitida a dupla militância dentro do Somos e do grupo lésbico-feminista. Forçada a escolher entre os dois, Alice resolveu ficar com o Somos, no qual ela e sua companheira passaram a ser as únicas mulheres.

Com a saída desses dois segmentos do Somos, somando aproximadamente trinta e nove pessoas, o grupo que restou se sentiu muito abalado mas continuou a reunião. Não era mais viável discutir uma reestruturação, pois tornava-se necessária uma pausa para reflexão sobre o significado do ocorrido. Apesar de espantados com os acontecimentos, vários dos presentes expressaram uma certa satisfação, pois haviam saído os elementos discordantes e os que ficaram pareciam ter opiniões bastante homogêneas. A maior discordância nesse momento era a respeito da saída das mulheres, já que muitos homens diziam que a experiência de pertencer ao grupo se empobrecia sem a presença das lésbicas para “apontar tendências machistas” e confrontar a experiência homossexual masculina e feminina. Alguns defendiam a saída das mulheres, repetindo as alegações delas de que a luta lésbica era essencialmente feminina. Porém, em um ponto, eram quase unânimes: não se acataria o pedido das mulheres separatistas de que o Somos se tornasse exclusivamente masculino, enviando candidatas a integrantes para o grupo lésbico-feminista. A certa altura, o trabalho de limpeza da discoteca tornou necessário esvaziar o salão e, sem chegar a nenhuma conclusão, o grupo, ainda aturdido, resolveu, como sempre, chamar outra reunião geral de emergência.

Com esse incidente, ficou claramente marcado o fim de uma fase do Somos, na qual as diferenças internas eram camufladas por um espírito grupal, fortalecido, durante algum tempo, pelo sentimento do comunitas da época do “casamento com o grupo”. Porém, chegou um momento em que esse espírito grupal teve de ceder lugar a uma estrutura mais burocratizante, em que uma pequena “cúpula” exercia informalmente a liderança.

A questão da tentativa de “atrelamento” do grupo, por parte de militantes da Convergência Socialista, embora tenha sido um fator relevante, não deve ser vista como uma explicação suficiente Não se pode deixar de também levar em conta as dificuldades apresentadas pela suposta “identidade homossexual”, que embasaria toda a atuação do Somos. Devido à generalização do estigma homossexual, atribuía-se a essa identidade uma uniformidade espúria, que deveria se sobrepor às diferenças de idade, classe, raça, religião, filiação partidária, etc. Assim, o recurso de dois rapazes ao semitravestismo buscava enfatizar a homossexualidade “verdadeira” dos “autonomistas” e, implicitamente, pôr em questão a dos acusados de atrelar o grupo à política partidária. Nessa ocasião, não faltou nem mesmo um apelo ao gueto homossexual, geralmente tão malvisto pelos militantes por sua “futilidade”. Zezé explicou, mais tarde, o incidente da seguinte forma:

 

Agora, quanto à gente ir maquiado na reunião geral, a gente queria assumir mesmo o nosso lado bicha. A gente não quer fazer a apologia da bicha do gueto, a gente queria dizer para as pessoas que a gente vai lutar muito prá tentar se aproximar, o máximo possível, das bichas do gueto, porque nossa preocupação é essa, acima de tudo. Aliás, não foi proposta do grupo, foi em um bate-papo que eu tive com o Vitório. Como sair do Somos? Eu vou me sentir mutilado, eu vou ter que me sentir muito lá em cima, para conseguir aguentar a coisa. Realmente, eu fui com as pernas tremendo. Foi também uma transação emocional, individual nossa, ou seja, duas pessoas que estavam terrivelmente ligadas com o ativismo do grupo, para conseguirem se desligar do grupo, tiveram que assumir um astral muito incrível, para a gente poder ser sedativo nosso. (Zezé)

 

A tentativa de desqualificar os “agentes infiltrados da Convergência Socialista”, negando-lhes a identidade homossexual, foi levada até mais longe. Um deles foi acusado de ser, de fato, “heterossexual” e de namorar outra militante daquela organização, também envolvida na tentativa de “atrelar” o Somos à Convergência Socialista. Essa alegação, de natureza bastante fantasiosa, chegou até a ser aceita por rapazes que tinham eles mesmos, mantido relações sexuais com o “agente duplo” em questão. Os “anarquistas” pareciam, portanto, querer tomar para si a quase exclusividade da identidade homossexual.

Incapazes de enxergar as descontinuidades e heterogeneidades da homossexualidade e ansiando pela catarse emocional do comunitas, os militantes do Somos recorriam, assim, muitas vezes, a explicações simplistas baseadas em visões caricaturais do marxismo, do feminismo, do gueto ou da história, em sua busca por legitimidade.