A construção da igualdade: política e identidade homossexual no Brasil da "abertura"

O “casamento” com o grupo

 

Estudiosos dos movimentos sociais costumam enfatizar a importância dos seus aspectos expressivos e o fato de incorporarem valores que questionam o sentido básico da vida, enfatizando a comunidade, a amizade e a sociabilidade. Introduzem as dimensões afetivas da existência na discussão sobre as necessidades humanas. Viola e Mainwaring (1979, p. 165) mostram como esses movimentos incorporam noções convencionais, tanto de natureza liberal individualista quanto marxista materialista, superando essas divisões através da inclusão das dimensões afetivas da vida. Localizando o seu foco de interesse maior justamente na questão dos relacionamentos interpessoais e sexuais afetivos, os movimentos feminista e homossexual foram os que mais enfatizaram esses aspectos.

Paralelamente à consolidação do Somos, ocorria o desenvolvimento de profundos laços afetivos entre seus integrantes. Após as reuniões, eles, eventualmente, saíam juntos para jantar, tomar café ou cerveja na região do gueto homossexual, quando continuavam as discussões sobre o grupo. Essas noitadas serviam também de introdução ao gueto, para muitos que não o haviam frequentado anteriormente, além de tornarem o grupo conhecido entre homossexuais que não participavam das suas atividades. Os locais de encontro preferidos eram a lanchonete “17”, o restaurante “O gato que ri”, ambos no largo do Arouche, e o “Ferro’s Bar”, tradicional ponto de reunião das lésbicas, na Rua Martinho Prado.

Quando houve uma sugestão de que se aproveitasse o feriado de 19 de maio de 1979 para realizar uma excursão de quatro dias à Praia Grande, a proposta foi recebida com entusiasmo. Naquele fim de semana prolongado, dezoito pessoas se hospedaram em um pequeno apartamento de dois quartos pertencentes à família de um dos integrantes do Somos. Apesar de nenhum dos fundadores do grupo ter comparecido, havia muita consciência de que esta era uma excursão do Somos e esse foi um tema constante de conversas e discussões. Reiterou-se o quanto todos estavam se dando bem e como normalmente seria difícil a convivência prolongada de tantos homossexuais, em condições tão exíguas. Notou-se uma ausência, considerada surpreendente, de “estrelismo” e um ótimo entrosamento entre pessoas fundamentalmente muito diferentes. De fato, conviveram com um mínimo de atrito, cinco mulheres e treze homens, alguns com mais de trinta anos e muitos com menos de dezenove. Vinham de vários estratos sociais, embora a maioria fosse orientada para uma cultura estudantil.

Vale também ressaltar que, ao contrário dos anos seguintes, não se cogitou em participar das manifestações operárias de 19 de maio, que nesse ano já começavam a capturar a imaginação da juventude universitária.

Deve-se registrar também que a proximidade física em que os participantes da excursão se encontravam – muitas vezes duas pessoas tinham que compartilhar da mesma cama de solteiro –, deu ensejo a uma grande atividade sexual. Esta ocorria geralmente baseada na amizade na compreensão e no sentimento grupal. Não surgia um sentimento de posse decorrente das relações sexuais, mantidas, concebidas como grandes brincadeiras. Muitos chegaram a ter várias relações por dia e, no final do feriado, alguns diziam ter “transado” com quase todos os presentes do seu próprio sexo. A certa altura, chegou mesmo a ocorrer uma “suruba” (orgia), em que cinco ou mais homens fizeram sexo grupal. Apesar dessa intensa atividade sexual, não ocorreu nenhum problema sério de ciúmes ou outro desentendimento amoroso. A partir dessa data, alguns começaram a se dizer “casados com o grupo”. Como se vê, essa expressão, que refletia um sentimento de amizade e união entre os integrantes, tinha também um sentimento mais literal e algumas pessoas até passaram a restringir sua atividade sexual aos integrantes do Somos.

No fim de semana que se seguiu ao passeio, houve uma das reuniões gerais mais bem sucedidas do Somos. Compareceram quarenta e sete pessoas, incluindo dezesseis mulheres e oito outras pessoas novas no grupo. Caracteristicamente, a longuíssima pauta havia sido elaborada durante a reunião do subgrupo de atuação e depois completada por um dos fundadores do Somos. Dada a sua extensão, a reunião se prolongou das 15 horas e 45 minutos até às 22 horas e, durante os debates, foram levantados vários tópicos prenunciadores das grandes discussões, que iriam envolver o Somos. Entre estes se encontravam: a necessidade de uma sede, a possibilidade de se fazer uma reunião com homossexuais de outros estados, o reconhecimento da especificidade da problemática das lésbicas e da dupla opressão destas, enquanto mulheres e homossexuais, críticas à imprensa, tanto a estabelecida quanto a alternativa, o relacionamento entre Somos e Lampião, a necessidade de recrutar novos integrantes, a admissão ou não de heterossexuais e de menores, assim como o apoio do grupo aos operários em greve.

A discussão sobre esse último tema serviu, mais uma vez, para revelar a ausência, no Somos, de uma posição elaborada a respeito da política geral e como os ideais autonomistas contribuíam para isso. Foi dito que o grupo não deveria se atrelar ao movimento operário “só para dizer que também fazemos política”. Argumentando a necessidade do assunto ser amplamente discutido – o que poucos consideravam prioritário, preferindo discutir temas mais diretamente relacionados à homossexualidade –, dizia-se que qualquer moção apresentada refletiria somente o ponto de vista de uma minoria, sem legitimidade para representar o grupo. A solução encontrada foi elaborar uma nota de solidariedade, como grupo oprimido, e a recomendação de que o assunto fosse discutido dentro dos subgrupos. Durante essas discussões, Charlie, um rapaz recém-chegado dos EUA, mas que, em estadas anteriores no Brasil, participou das tentativas do Trevisan de formar um grupo homossexual, defendeu a necessidade de se levar em conta as organizações e as lutas do operariado declarando ser também filiado à Convergência Socialista.

A reunião terminou com uma prolongada polêmica sobre o meu pedido de autorização para usar o grupo, como tema para minha tese de pós-graduação em Antropologia. Várias objeções foram levantadas, como a questão de segurança, em relação à repressão policial e o receio de eu vir a dar uma interpretação demasiadamente pessoal e parcial do coletivo. Finalmente, o pedido foi aprovado por unanimidade, com a condição de que o grupo tivesse participação ativa na elaboração da tese.

Notei, com interesse, que o encaminhamento não seguia os padrões normalmente adotados em reuniões político partidárias ou do movimento estudantil. Isso, em parte, se deveu à falta de hábito de grande número dos presentes a participar de tais eventos, mas também a uma rejeição do que era visto como um formalismo desnecessário e castrador. Adotava-se, frequentemente, um tom emocional e, em vez de digressões abstratas ou teóricas, as intervenções, muitas vezes, consistiam em relatos de experiências ou sentimentos pessoais, em um estado pouco elaborado. Não havia ordem de inscrições para aqueles que desejassem falar, mas, no geral, prevalecia uma disciplina auto imposta pelos participantes para evitar que alguns falassem demais, roubando a possibilidade de outros se expressarem. Porém, aqueles que tinham mais experiência de oratória conseguiram predominar e muitos dos mais inexperientes simplesmente não tiveram coragem de tomar a palavra. Originalmente, pretendia-se que a coordenação da reunião ficasse a cargo dos vários coordenadores dos subgrupos, mas isso não funcionou e um deles assumiu a tarefa sozinho, embora procurasse fazê-lo da forma mais democrática possível.

No final da reunião, fez-se uma festa no mesmo local. Porém, prenunciando futuras tendências separatistas, algumas das mulheres presentes anunciaram a realização de uma outra festa, à mesma hora e em local próximo. Organizada para comemorar a criação de um subgrupo lésbico dentro do Somos, a festa era fechada aos homens, provocando protestos de vários membros, de ambos os sexos. Nem todas as mulheres presentes aderiram à ideia, ficando evidente uma divisão entre elas, pois a celebração planejada para ambos os sexos contava com uma lésbica entre seus organizadores. Esta, porém, tinha posições mais gerais de oposição à formação de um subgrupo integrado exclusivamente por mulheres. Finalmente, algumas optaram por uma solução de compromisso, participando das duas festas. A festa, na qual era impedida a entrada de homens, não teve uma frequência muito grande e, a certa altura, foi perturbada por uma briga física entre duas participantes, motivada por razões de ciúmes amorosos.

Já nesta fase, podemos detectar as duas importantes tendências antagônicas que iriam dificultar o funcionamento do Somos durante grande parte de sua existência. Por um lado, havia o igualitarismo radical, que preconizava práticas comunitaristas e negava a relevância de qualquer heterogeneidade a ser encontrada dentro do Somos ou até na população homossexual como um todo. De acordo com essa visão, todos seriam igualados por uma mesma discriminação social, dirigida contra todos os homossexuais, fossem eles homens ou mulheres, ricos ou pobres. Nisso, o movimento feminista serviu como modelo, com sua ênfase na identidade da opressão sofrida pela mulher, fosse ela uma esposa de banqueiro ou uma favelada.

Por outro lado, surgiam as inevitáveis pressões, devidas à grande heterogeneidade a ser encontrada na prática entre os homossexuais. Embora fatores diferenciadores, como status sócio econômico, idade, raça, “beleza”, existissem entre os integrantes do grupo e fossem comentados, o único que a ser reconhecido, como importante e legítimo, foi a diferença de sexos. Homossexuais, masculinos e femininos, têm se mantido bastante separados. Embora, no gueto, muitos lugares de encontro sejam frequentados por indivíduos de ambos os sexos, em alguns, impera uma política declaradamente discriminatória contra homens ou mulheres. Além disso, é também comum entre homossexuais a expressão de sentimentos negativos a respeito do sexo oposto. Além desses aspectos, que poderíamos chamar de “tradicionais” entre os homossexuais frequentadores do gueto, existia uma justificativa “mais respeitável” para aqueles com motivações conscientemente políticas. Era a posição separatista e autonomista adotada por mulheres do movimento feminista, em relação aos partidos e outros agrupamentos políticos que incorporam membros de ambos os sexos. Nessa época, começava a se divulgar amplamente as argumentações, segundo as quais seria impossível para as mulheres tomarem consciência de suas necessidades específicas dentro de grupos mistos. Isso seria devido à irresistível tendência masculina de tratar, como gerais, as necessidades dos homens que, por conta de uma educação diferenciada, as mulheres teriam muita dificuldade em contestar. Essa mesma argumentação separatista, expressa pelas feministas, era também o suporte ideológico para a proposta de se formar grupos exclusivamente homossexuais. Era, portanto, difícil de refutar dentro do Somos.

Em contraponto à homogeneidade com que se procurava dotar o Somos, desenvolvia-se a suspeita generalizada a respeito de todos os homossexuais que não participassem dele e dos heterossexuais em geral. Assim, tanto a imprensa, exceto inicialmente o Lampião, quanto à polícia, os partidos políticos e até a universidade eram concebidos como inimigos em potencial. Enquanto se manteve relativamente pequeno, o grupo dispunha de mecanismos informais que controlavam as tendências diferenciadoras, levando os inconformados ou destoantes a simplesmente abandoná-lo. Quando, porém, o grupo começou a crescer, essas tendências se tornaram mais difíceis de ignorar, apesar de se lançar mão de vários recursos homogeneizadores.

O principal método empregado para manter a unidade do grupo foi a tentativa de promover o que o antropólogo Victor Turner chama de comunitas. Este foi um fenômeno que ele detectou, inicialmente, ao estudar sociedades sem escrita e em certos movimentos, como os dos primeiros franciscanos ou dos Viasnavas de Bengala nos séculos XV e XVI, mas que posteriormente iria também encontrar em todas as sociedades, até as mais complexas. Tornou-se, então, patente para ele que os modelos que se constroem em termos de status, papéis e cargos, embora muito úteis, não esgotavam as modalidades das relações sociais. Além do “estrutural”, existiria o comunitas, concebido como um relacionamento entre indivíduos históricos, concretos e idiossincráticos, que não se segmentam em papéis ou status, mas se confrontam de uma maneira direta, imediata e total. Este tipo de relacionamento ocorre em certas épocas, quando os ciclos de desenvolvimento social e individual são marcados por instantes, mais ou menos prolongados, de liminaridade, ritualmente protegida e estimulada. Nas sociedades complexas, a vida social também seria marcada por numerosos instantes de comunitas espontâneo, embora, neste caso, geralmente goze de estímulos e proteções. Este tipo de relacionamento parece se desenvolver melhor em situações espontaneamente liminares, fases entre estados em que a representação de papéis sócio estruturais é dominante e, especialmente, entre pessoas do mesmo status. Nestas horas, surge um modelo de sociedade com um comunitas homogêneo e desestruturado, cujas fronteiras idealmente deveriam coincidir com as da espécie humana. (TURNER, 1974)

Turner mostra como, através da história, muito se disse e se escreveu, a respeito da melhor forma dos homens conviverem em harmonia e fraternidade. Geralmente, é feita uma ligação entre liminaridade, inferioridade estrutural, status baixo e exclusão da estrutura, por um lado, e, por outro, valores humanos universais, tais como: paz e harmonia entre os homens, fertilidade, saúde do corpo e do espírito, justiça universal, fraternidade e a igualdade, perante Deus, a lei ou a força vital, entre os homens e mulheres, jovens e velhos.

A partir de uma série de experiências muito marcantes desse tipo de “fraternidade”, como a ocorrida durante a excursão à Praia Grande, e que, talvez, Turner chamasse de “comunitas existencial ou espontâneo”, os integrantes do Somos procuraram idealizar um sistema social mais duradouro, que o preservasse – um comunitas normativo, nos termos de Turner. Para tanto, pregava-se uma união entre a militância e o prazer, num grupo sem hierarquia ou estrutura fixa, no qual a atuação política se baseasse no reconhecimento do valor único da individualidade de cada um de seus integrantes.

Os militantes homossexuais preenchiam os pré-requisitos apontados por Turner, para a erupção do comunitas, de estarem à margem, nos interstícios ou nos degraus mais baixos da estrutura social. Grande parte deles era proveniente de uma classe média baixa, e havia a tendência a se recrutar novos militantes entre camadas da população cada vez mais baixas, em termos sócio econômicos. O grupo tinha, em geral, uma imagem de si mesmo como pobre, em termos monetários, e o custo de qualquer evento programado sempre tinha que ser mantido baixo, para possibilitar a participação de todos os seus integrantes. Durante quase toda a época de que se trata aqui, o Somos não tinha local fixo para reuniões, dependendo de ajuda de terceiros para encontrar espaço. Isso também ajudava a manter frouxa a sua estrutura.

Além da pobreza e da marginalidade dos militantes, outro fator que promovia o comunitas era a criação de um inimigo externo. Turner faz a seguinte observação, a respeito da importância, para a constituição do comunitas, da percepção de uma ameaça:

 

Frequentemente vemos que o conceito de ameaça ou perigo para o grupo... está presente de forma importante. E este perigo é um dos principais ingredientes na produção do comunitas existencial, tal como a possibilidade de um “bad trip” no comunitas dos narcóticos em uma cidade moderna... Também encontramos mitos e suas representações ritualísticas em estado de liminaridade que relatam catástrofes e crises divinas... situando a crise no passado recente ou no futuro iminente. (TURNER, 1974, p. 142, grifo do autor)

 

Essa ideia pode nos ajudar a entender melhor o que, às vezes, parecia ser uma busca quase proposital por novos inimigos e ameaças externas. Nesse ponto, os inimigos mais eficazes seriam os mais próximos, ou seja, outros grupos homossexuais como o Eros ou, mais tarde, a Fração Gay da Convergência Socialista. Essa seria uma razão para a diferença entre o clima das reuniões do Somos e aquelas do Núcleo de Proteção dos Direitos dos Homossexuais, em que vários grupos presentes passavam grande parte do tempo se hostilizando.

 

Os subgrupos de identificação

 

Durante o ano de 1979, e no início do seguinte, o aspecto do Somos que atraía o interesse da maior parte de seus integrantes era as reuniões dos subgrupos de identificação. Sem seguir nenhum parâmetro rígido, essas reuniões consistiam, basicamente, em relatos autobiográficos, em que todos os participantes tinham a oportunidade de revelar suas concepções a respeito da sexualidade em geral, e da homossexualidade em particular. Para embasar as suas ideias, costumavam relatar episódios de suas vidas, dando ênfase especial à maneira como tinham sido afetados pela homossexualidade.

Esses relatos possuíam uma forte carga emotiva, que levava à rápida criação de vínculos afetivos entre os membros de cada subgrupo. Ao lado da motivação política, uma das razões mais comuns que motivavam indivíduos a participarem do Somos era a necessidade de estabelecer contato com outros, em igual situação de marginalização, sexual e social. Geralmente, encontravam no Somos, pela primeira vez, a possibilidade de discutirem de maneira não culposa a sua homossexualidade, que, nesse contexto, poderia até tornar-se motivo de orgulho. Em sua grande maioria, os participantes dessas reuniões sentiam que, em pouco tempo, suas vidas mudavam, sendo comum ocorrer alterações radicais, em seus círculos de amigos e até em suas vivências profissionais ou educacionais. Velhos amigos eram relegados, surgindo uma preferência marcada pela companhia dos outros participantes do grupo. Os antigos interesses eram igualmente abandonados em favor da frequência assídua às reuniões, quase diárias, dos vários subgrupos do Somos. Tão grande era a dedicação às atividades do grupo que, durante o seu auge (1979 e 1980), vários indivíduos deixaram cursos e empregos para poder lhes devotar uma atenção integral. Era, o já mencionado “casamento com o grupo”, ou o enaltecimento do comunitas.

A contrapartida do estabelecimento desse círculo afetivo era, porém, um certo sentimento de exclusão por parte dos recém-ingressos. Era notável que todos os membros mais antigos do Somos usavam como saudação um rápido beijo (selinho) na boca. Os novatos, porém, eram excluídos dessa manifestação de intimidade, embora não lhes fosse exigida uma participação muito prolongada para a admissão nesse círculo. De toda forma, essa prática servia para marcar aqueles que eram considerados como efetivos participantes do Somos e aqueles que eram “de fora”. Na falta de qualquer outra formalidade de demarcação de fronteira do grupo, tais como a elaboração de uma lista de membros, o pagamento de mensalidades, etc., esse hábito informal, e raramente discutido abertamente, era o único sinal de reconhecimento de participação no Somos. Em certas ocasiões, quando o contato entre os vários grupos de militância se tornou mais rotineiro, essa forma de saudação se estendeu a todos os homossexuais organizados.

Além do seu aspecto social afetivo, as reuniões de identificação eram importantes para a articulação de um novo tipo de discurso político homossexual, até então, completamente inexistente no Brasil. A própria questão da identidade homossexual era extremamente confusa e não era muito claro, nem para os militantes, quem seriam esses homossexuais, cujos direitos pretendiam defender.

Para lidar com esse desconhecimento, várias vezes surgiram propostas de se realizar um levantamento da população homossexual da cidade através da distribuição de questionários no gueto. Nenhuma dessas pesquisas foi levada a uma conclusão, devido à magnitude da tarefa e à falta de experiência e de recursos dos que se propunham a executá-la. Outros grupos de militância homossexual também se propuseram a fazer levantamentos desse tipo, buscando assim uma orientação para a sua atuação, como uma de suas primeiras atividades.

O aspecto confessional do chamado “processo de identificação”, nos remete inevitavelmente a sugestões de Foucault, para quem a sociedade ocidental, pós século 18, elegeu, como fonte de sua verdade, a “questão” do sexo – nos dois sentidos: de interrogatório e de problematização; de exigência de confissão e de integração a um campo de racionalização. (FOUCAULT, 1979, p. 68)

Seguindo essa tendência, e, de certa forma, adotando como modelo uma prática já difundida nos “grupos de reflexão” do movimento feminista, o Somos, em sua busca pela politização da questão homossexual, entendia que, para isso, seria necessária a politização do cotidiano, do afetivo e do privado. Enfatizavam-se, então, aqueles aspectos da experiência dos indivíduos escamoteados na priorização da chamada “luta geral”, costumeira dentro das organizações políticas tradicionais. Nas atividades do Somos, em geral, e, especialmente, durante as reuniões de identificação, incentivava-se, por outro lado, a tematização prioritária das questões mais pessoais.

A antropóloga Heloísa Pontes também estudou a ocorrência desse processo no grupo feminista SOS Mulher. Lá, como no Somos, esse tipo de reflexão surge como momento privilegiado de libertação, em contraposição ao silêncio, que é tido como interdição e, portanto, como resultado de um poder repressivo, patriarcal, etc. Através do relato autobiográfico, surgiria uma “fala nova” revelando tudo aquilo que, antes, se encontrava oculto ou suprimido. (PONTES, 1986)

Porém, na crença de que cada homossexual, ao revelar seus sentimentos mais profundos, possa reconhecer-se na “verdade” dos outros, existe a tendência, altamente homogeneizadora, de se procurar uma identidade compartilhada por todos. Em muitos casos, esse processo chegava a ser bastante eficaz, provavelmente devido ao clima extremamente emocional das reuniões. As transformações na personalidade e nos valores de muitos dos que, participantes das reuniões de identificação, chegavam a lembrar processos de conversão religiosa ou de “lavagem cerebral”. Conscientes do poder normatizador desse processo, muitos militantes do Somos chegaram a concebê-lo como solução infalível para as crises que periodicamente assolavam o grupo, embora outros o encarassem com grandes reservas.

Ao contrário do que muitos achavam, creio que essas reuniões não serviam para resgatar uma fala ou cultura homossexual longamente reprimida. Como estou querendo demonstrar, mais do que sendo descoberta, uma identidade homossexual estava sendo construída. Mas, nisso, as reuniões de identificação certamente foram muito eficazes e novos valores eram criados, previamente desconhecidos mesmo entre os frequentadores do gueto. De uma forma muito real, aprendia-se a ser homossexual, ou melhor, militante homossexual. Embora muitas das ideias correntes no gueto fossem aproveitadas, grande número delas passava por uma reciclagem, sofrendo consideráveis transformações.

Porém, como já se comentou mais acima, tal era a diversidade da população homossexual em geral, que, mesmo dentro do contexto mais restrito do Somos, era inevitável o surgimento de uma certa diferenciação baseada em experiência de vida, nível sócio educacional, convicções políticas, idade, raça, charme pessoal, etc. Surgiam assim, por exemplo, lideranças informais, por parte daqueles mais experientes, com maior disponibilidade de tempo ou com ligações privilegiadas de amizade com outros “líderes”. Os vários subgrupos de identificação também tendiam a assumir características próprias e seu grau de ligação com o resto do Somos era dependente da atuação de seu coordenador, que deveria servir como elo de comunicação. Alguns procuravam manter o subgrupo disciplinado e fielmente obediente às normas decididas durante as reuniões gerais ou, mais tarde, pela comissão de coordenadores dos subgrupos. Outros, mais “autonomistas”, procuravam seguir um ritmo especificamente próprio ao seu subgrupo, contribuindo para o afrouxamento das suas ligações com a totalidade do Somos.

Com o correr do tempo, essa atitude tornou-se bastante comum e esses subgrupos tornaram-se tão dispersos que era difícil contabilizar o número dos que estariam realmente em funcionamento em um dado instante. A minha estimativa é de que, durante 1979 e começo de 1980, devem ter funcionado regularmente aproximadamente 30 subgrupos de identificação, mas, devido ao fato de alguns funcionarem até seis meses ou mais, enquanto outros se dispersavam após algumas poucas reuniões, é muito difícil ser preciso neste ponto.

O recrutamento para esses grupos se dava de várias formas. Originalmente, a principal fonte de novos membros eram as redes de amizades dos integrantes do grupo. Durante o ano de 1979, havia um grande entusiasmo no meio homossexual, em geral, pela ideia de um movimento de reivindicações que também servisse como local de encontro de novos amigos. O Lampião, durante esse tempo, também dava ampla cobertura às atividades do Somos e divulgava o número de sua caixa postal. Mais tarde, outros jornais da imprensa alternativa também começaram a discutir as posições do grupo, elogiando a sua atuação no gueto homossexual. Ser militante do Somos conferia um certo prestígio.

 

O ideário do grupo Somos

 

Inicialmente, para se ingressar no Somos bastava contatar um membro do grupo e ir com ele a uma reunião. Depois de um certo tempo, porém, os subgrupos de identificação começaram a se ressentir do permanente fluxo de recém-ingressos que atrasavam o prosseguimento dos seus trabalhos, além de dificultar a criação do espírito grupal tão almejado. Resolveu-se, então, fechar esses subgrupos de identificação, organizando-se reuniões periódicas de um grupo de recepção. Nessas ocasiões, convidava-se os interessados para um encontro com alguns militantes veteranos, que explicavam o funcionamento do grupo e tentavam delinear algumas das ideias correntes em suas discussões.

A visão que se preparava para os candidatos a ingresso era a de que existiria uma ampla gama de ideias e posições dentro do grupo, com cada um dos integrantes zelando pelo seu direito a ter uma opinião própria. Apresentava-se, então, uma carta de princípios, elaborada em junho de 1979 por um dos fundadores do Somos. Nem todos concordavam com as ideias lá expostas, mas, durante algum tempo, esse era um dos únicos documentos elaborados pelo grupo e era usado na falta de alternativa melhor. Mais esclarecedoras sobre o seu ideário, eram as várias exposições feitas pelos militantes veteranos. De qualquer modo, aqueles que passavam a frequentar as reuniões do Somos, logo se familiarizavam com suas posições básicas.

Eram três, os pontos, sobre os quais parecia existir uma unanimidade, entre os frequentadores mais assíduos do Somos:

 

1. O grupo deveria ser exclusivamente formado por

homossexuais;

2. As palavras “bicha” e “lésbica” deveriam ser esvaziadas de sua

carga pejorativa para, desta forma, se tornar inofensiva, uma das grandes armas usadas pela sociedade machista para oprimir aqueles que se desviam de suas normas sexuais;

3. O autoritarismo devia ser combatido em todas as suas

manifestações fora ou dentro do grupo.

 

A partir dessas formulações básicas, quase consensuais, uma série de elaborações eram feitas, contando com maior ou menor endosso, formando o arcabouço para os debates mais teóricos que ocorriam.

Durante a fase do grupo mais estudada neste trabalho, a complexidade inerente à questão da identidade homossexual ainda não havia sido plenamente percebida pelos militantes, que tendiam a conceber a humanidade como dividida em duas categorias sexuais estanques: os homossexuais e os heterossexuais. Dizia-se, então, que a natureza exclusivamente homossexual da filiação ao grupo Somos refletia a ideia de que os setores “minoritários”, como os homossexuais, as mulheres, os negros, os índios, etc., tinham reivindicações específicas, que só podiam ser levadas adiante por membros das ditas minorias. Isto porque, de um lado se achava que só os realmente interessados seriam capazes de assegurar a importância devida às suas reivindicações e, por outro, porque haveria a necessidade de se criar uma “consciência homossexual”. Até então, os homossexuais teriam tido a palavra cassada e todos os valores propagados pela sociedade teriam a heterossexualidade e até o machismo, como a norma.

Somente fechando-se entre seus iguais, discutindo sua situação e lutando para melhorá-la é que se chegaria a criar uma consciência homossexual. Não seria necessário ouvir a posição de heterossexuais, que poderia ser encontrada por toda parte, constituindo a norma ser posta em questão.

De vez em quando, essa posição era contestada por pessoas que diziam achar necessário “educar” os heterossexuais, deixando-os conviverem com os homossexuais, ou, então, por aqueles que argumentavam que certos indivíduos heterossexuais simpatizantes poderiam vir a ajudar o grupo.

Invariavelmente, essas opiniões eram refutadas pela grande maioria dos integrantes e até os seus proponentes, quase sempre pessoas “novatas”, mudavam de ideia com o passar do tempo. Sempre que abordada, essa discussão provocava reações muito emotivas, indicando que, possivelmente, o que estava em jogo não era somente algumas ideias, mas a própria natureza do grupo como um dos poucos lugares onde o fato de ser homossexual não era um fator de diferenciação ou inferiorização. Durante 1979, as reuniões do Somos eram permeadas por um forte clima de erotismo e muitos participantes ficavam de mãos dadas, trocando carícias ou se beijando. Dizia-se, então, que a naturalidade e descontração dessas ocasiões seriam prejudicadas pela presença de heterossexuais.

Outro ponto sobre o qual parecia haver um consenso bastante forte era quanto à necessidade de se livrar as palavras “bicha” e “lésbica” de suas conotações pejorativas. Para tanto, os integrantes do grupo as usavam constantemente para se referirem a si mesmos e a palavra “homossexual” era quase mal vista, considerada um eufemismo empolado. Evitava-se também as palavras “entendido” e “gay”. Essa prática se generalizou a tal ponto em que muitos homens chegavam a se referir ao conjunto de todos os integrantes como “bichas”, o que causava protestos por parte das mulheres, as quais diziam que isso denotava um esquecimento das especificidades de sua condição. Embora usado de forma cordial entre certos setores do gueto homossexual masculino, a palavra “bicha” ainda ofende a maioria dos homossexuais, que procuram evitá-la para designarem a si mesmos. “Lésbica” é considerado igualmente ofensivo entre muitas das frequentadoras do gueto homossexual feminino. Para vários dos integrantes novos, era um choque o uso dessas expressões e, às vezes, eles até reclamavam disso. Mas tão generalizada era essa prática que, depois de algum tempo, até mesmo os recalcitrantes se conformavam com ela.

Essa atitude de plena aceitação da identidade homossexual, sem recurso a eufemismos, estaria por trás do próprio nome Somos – Grupo de Afirmação Homossexual. Ligado a isto estava também a questão de “se assumir” ou “se enrustir”. Esses termos nunca foram muito claramente definidos e havia três níveis em que se podia ser um “homossexual assumido”:

 

a. perante si mesmo;

b. perante o público anônimo;

c. perante a família e colegas de trabalho.

 

Perante si mesmo e um grupo de amigos próximos: neste nível, o grupo era de grande eficácia, especialmente através dos grupos de identificação. Durante as discussões que giravam em torno de troca de experiências pessoais, os novatos aprendiam a não mais se considerarem seres estranhos. Convenciam-se de que seus problemas e, especialmente, os sentimentos de culpa, que muitos carregavam, eram, em grande parte, o resultado de um preconceito, totalmente carente de fundamentos, que permeava toda sociedade que os rodeava. Em vez de razão de vergonha, dentro desses grupos uma ampla vivência homossexual era até um fator de certo prestígio. Nestas reuniões, eram transmitidas também importantes informações a respeito da subcultura homossexual como: endereços de locais de encontro, as diversas formas de se obter parceiros sexuais, uma iniciação no jargão homossexual e uma apresentação a todo o universo de reflexões sobre a homossexualidade. Como já vimos, era notável a euforia inicial reinante dentro dos grupos de identificação e fortes ligações que se desenvolviam entre seus participantes. Estes frequentemente passavam por mudanças positivas muito marcadas em termos de auto aceitação, auto confiança e uma maior eficácia em lidar com o mundo que os cercava. Mesmo que ainda perdurassem receios de se declarar como homossexuais fora das reuniões, o grupo rapidamente se transformava em um ponto referencial, tão importante que chegava a eclipsar, para os seus integrantes, outros mais antigos:

 

Quando pintou o grupo, foi um grande deslumbramento. Na época eu não tinha turma. Tinha vários grupos de amigos. Em cada um eu era diferente e me sentia perdido com todas estas facetas. No grupo eu me encontrei mais integralmente. (Ulisses)

 

Outro fenômeno era a transformação pela qual passavam os hábitos dos que participavam dos grupos, muitas vezes deixando de lado suas antigas amizades heterossexuais.

 

Com o grupo, perdi muitos medos. Agora, acho um saco ter que ir ao cursinho. O grupo está sendo um processo muito mais importante do que o tempo perdido na escola [...]. Com o grupo eu aprendi a vencer certos problemas, a encarar certas pessoas com mais confiança chegando até a fazer algumas cabeças. Porém, o grupo parece ter me causado um esvaziamento cultural. Deixei de ler, de ir ao teatro, etc e agora passo grande parte de meu tempo em boates. (Ricardinho)

 

Perante o público anônimo: já se falou do clima de erotismo difuso que predominava em muitas reuniões dos grupos homossexuais e da forma costumeira como todos se beijavam na boca ao se encontrarem e ao se despedirem. Uma vez criados esses hábitos dentro de recintos fechados, era quase automática a sua manifestação em locais públicos como áreas do gueto, certos bares, e até nas ruas do centro da cidade. Recusar um beijo ou censurar alguém por falar muito alto sobre homossexualidade, ou por “fechar” demais em público seriam atitudes completamente contraditórias com o teor das discussões mantidas durante as reuniões. Desta forma, alguns militantes mais ousados, ou “pintosos”, levam os mais recatados a aderir a certos comportamentos em público que eles dificilmente adotariam espontaneamente. Porém, existia uma preocupação generalizada em não comprometer ninguém em sua vida pessoal e bastava alguém estar perto de seu local de trabalho, moradia, etc., para que todos passassem a controlar ao máximo qualquer manifestação aberta de homossexualidade. Como as reações do público anônimo de São Paulo eram geralmente de indiferença, ocasionalmente de espanto misturado com curiosidade e só raramente se ouvia algum comentário zombeteiro ou agressivo, ia-se criando coragem para se deixar reconhecer em público como homossexual. A fonte de maior temor era a polícia, especialmente depois da “Operação Rondão”, da qual se falará mais adiante.

Também ligada a este processo estava a prática de dar entrevistas ou comparecer à faculdade para colocar os pontos de vista do grupo. Quando convidados a ir à Faculdade de Psicologia de Itatiba, por exemplo, compareceram seis integrantes do Somos e dois do Eros. A sala de aula, onde seriam os debates, estava apinhada de gente – umas 200 pessoas aproximadamente – e os representantes dos homossexuais foram acomodados na frente, com cadeiras voltadas para o público. Depois de uma exposição inicial sobre os princípios e estrutura dos grupos, foi aberta uma sessão de perguntas e os militantes presentes passaram a responder sobre as suas formas de encarar a homossexualidade e a opressão. Essas ocasiões exigiam a disposição de se identificar como homossexual perante um grande número de estranhos e eram, geralmente, precedidas de um certo nervosismo. Mas também eram, quase invariavelmente, seguidas de uma euforia e de um sentimento de haver, coletivamente, surpreendido e desarmado um público potencialmente hostil, usando somente as armas da franqueza e da aceitação plena da homossexualidade.

Perante a família e situação de trabalho: neste sentido, além da maior autoconfiança advinda da participação em suas atividades, o grupo não procurava influir no comportamento dos seus integrantes. Comumente, dizia-se que, “se assumir não implica em suicídio” e que cada um sabia como melhor se adaptar à sua situação específica. Reconhecia-se que, em certos casos, o “enrustimento” era a melhor forma de proteção em um meio hostil. É interessante notar a diferença entre essa posição e a de grupos de libertação homossexual de outros países, como os EUA, por exemplo, que chegaram a promover campanhas para os homossexuais usarem distintivos no seu dia a dia, informando a todos à sua volta sobre a sua identidade homossexual. Talvez as razões para essa diferença sejam relacionadas com a especificidade de nossa sociedade, que é muito mais autoritária do que a dos EUA ou dos países europeus. Aqui a estabilidade de emprego, por exemplo, é mais precária e o indivíduo se encontra extremamente vulnerável. Igualmente, aqui os laços familiares são mais fortes e a dependência econômica dos filhos tende a ser maior, o que restringe as suas possibilidades de ação dentro de suas casas. Além disso, não se pode esquecer que a própria noção de identidade homossexual é menos cristalizada no Brasil.

Outro ponto sobre o qual parecia haver um consenso bastante amplo no grupo, pelo menos em nível de discurso, era o que dizia respeito ao antiautoritarismo, posição bastante difundida entre os segmentos jovens da população da qual provinham a maioria dos membros do Somos. Porém, as ideias a esse respeito eram pouco elaboradas, raramente indo além de uma posição genérica que, às vezes, tendia a ver qualquer estrutura de poder como intrinsecamente ruim. Em nome do antiautoritarismo, restrições eram feitas tanto aos grupos de direita – universalmente execrados –, quanto aos de esquerda – que, embora fossem olhados com suspeita, contavam com as simpatias de vários integrantes do Somos. Como expressão mais forte dessas ideias, existia a estrutura formal do grupo, criada com a intenção de evitar o aparecimento de líderes. Era instituída uma comissão de coordenadores que, ao menos em teoria, deveria ser mudada mensalmente. Embora isso não funcionasse perfeitamente, pois era difícil encontrar integrantes com tempo e disposição para dedicar às reuniões de coordenadoria, uma preocupação com sua rotatividade era regularmente expressa e os esforços eram feitos para colocá-la em prática.

Os males da sociedade eram atribuídos, em geral, ao autoritarismo, do qual o machismo e o racismo seriam duas manifestações. Muitas vezes, as expressões “machista”, “fascista” e “autoritário” eram usadas indistintamente, demonstrando uma elaboração muito simplificada do conceito de machismo. Como já vimos, por ocasião da promoção de uma festa exclusivamente lésbica que se seguiu a uma das primeiras grandes reuniões gerais do Somos em 1979, várias mulheres do grupo começaram a reclamar de expressões de machismo que seriam correntes no grupo. Uma das piores, segundo elas, seria a tendência a ignorar as necessidades específicas das lésbicas, quando não a sua própria existência dentro do Somos. Posteriormente, isso levaria a grandes disputas, entre alguns membros dos grupos masculinos e femininos, quando se discutia a questão do separatismo lésbico.

As mulheres do grupo criticavam especialmente o hábito de alguns dos homens de se referirem à totalidade do grupo como composto por “bichas”. Insistiam que se usassem os termos “bicha e lésbica”. Elas, igualmente, repudiavam o uso da palavra “rachada”, termo pejorativo usado no gueto homossexual masculino para designar mulheres. Suas aspirações eram vistas, por muitos homens, como perigosamente enfraquecedoras do movimento e como se estivesse roubando do grupo possibilidades de descobertas a respeito do sexo oposto e seus problemas, que todos diziam achar muito enriquecedores. A resposta que as mulheres e alguns homens, geralmente “veteranos” aliados seus, davam a essas alegações era de que elas obedeciam à mesma lógica que as acusações dos partidos políticos ortodoxos, que enfatizavam a unidade e criticavam as organizações feministas e homossexuais, por serem divisionistas.

Existia também outra manifestação da preocupação com o machismo, manifestado mais no plano comportamental que no discursivo e que se referia ao desempenho dos papéis sexuais. Dentro do Somos nunca houve uma preocupação em promover uma divisão sexual de tarefas a serem executadas. A única ocasião em que a diferença entre os sexos era formalmente reconhecida, antes do surgimento de um subgrupo exclusivamente lésbico, era por ocasião da escolha de representantes ou coordenadores de reuniões. Nessas ocasiões, sempre se enfatizava a importância de haver representantes de ambos os sexos.

Quanto à questão da “masculinidade” ou “feminilidade” do comportamento pessoal de seus membros, o Somos sempre refletiu o padrão encontrado entre a juventude de nível colegial ou universitário. Uma grande parte dos integrantes costumava usar a calça jeans e camiseta, que eram quase o uniforme de sua geração, e suas posturas corporais, movimentos e tom de voz, geralmente eram iguais aos de seus pares heterossexuais. Era comum ouvir pessoas de fora do grupo expressarem surpresa e até desapontamento perante a falta dos trejeitos e roupas espalhafatosas, que imaginavam ser a marca da homossexualidade.

Isto não quer dizer que inexistiam, no Somos, homens que se aproximavam do estereótipo do “efeminado”. Eram as chamadas “bichas pintosas”, que, ocasionalmente, reclamavam que estariam sendo discriminadas pelos outros integrantes do grupo. Esta é uma discriminação encontrada costumeiramente no mundo homossexual de São Paulo, onde a apresentação viril é bastante valorizada. (PERLONGHER, 1987) O próprio Somos reiterou sua posição diversas vezes contra esse preconceito, lembrando sempre que foram os homossexuais mais óbvios e mais escandalosos os que abriram os espaços, agora ocupados por todos. Porém, depois de uma convivência prolongada no grupo “as pintosas” pareciam se tornar mais sóbrias, apesar de não haver nenhuma pressão explícita a empurrá-las neste sentido. No boletim interno do grupo, Leva e traz, nº 1, editado em 19 de maio de 1980, publicou-se o seguinte texto que refletia as ideias, geralmente expressas dentro do grupo, sobre o problema da “desmunhecação” e das “bichas pintosas”:

 

- Onde está o problema de desmunhecar?

Somos educados numa sociedade heterossexual que exige, de homens e mulheres, expressões corporais muito distintas, que exige, inclusive, uma verbalização muito distinta para cada sexo.

Mesmo na dança, que seria uma forma de descontração, os papéis são muito diferentes. E, se à mulher se permite então uma liberdade maior de gestos, cabe ao homem uma postura mais rija, mais rígida e algumas regiões do corpo têm de ser esquecidas.

E qualquer “invasão” de um dos sexos, no âmbito de comportamento do

outro, tende a ser logo reprimida, se usando para isso da classificação de comportamento ridículo ou anormal, sem qualquer questionamento do que possa significar “normal”. Me parece que isso revela um comportamento maniqueísta, heterossexual: pessoas propensas a taxar todas as coisas de certo ou errado, normal, segundo padrões sociais preestabelecidos. Mas este tipo de preconceito não deveria pintar nas cabeças homossexuais. Afinal, nós também somos o que usualmente se classifica de anormal, o que gera logo uma pergunta - anormal por quê? O fato de a nossa transa ser com pessoas do mesmo sexo torna o nosso desejo, o nosso amor, o nosso prazer menos legítimo? E se procurarmos na cama uma expressão sexual que nos dá muito prazer, mas foge aos padrões, no mínimo deveríamos ter um respeito muito grande por quem, através de roupas, de gestos e falas, também procura se expressar diferentemente.

Acho que as bichas pintosas ou os travestis, ou as lésbicas tipo macho são pessoas corajosas, que subvertem o padrão hetero que nos é cobrado a cada instante. Não importa o motivo que leva a isso - a busca de aceitação, ou a agressão, a identificação com o outro sexo ou com um estereótipo. O que importa realmente é que são pessoas que estão procurando uma expressão mais verdadeira de si próprias e assumir publicamente essa postura é um ato revolucionário de grande importância.

 

Se é verdade que, no grupo, as “bichas pintosas” às vezes se tornavam mais sóbrias, também deve ser lembrado que o processo de “desenrustimento” motivado pelo contato com o coletivo levava muitos homossexuais masculinos a terem menos medo da estigmatização. Sentindo-se mais livres e desejosos de manifestar sua identificação com o Somos, ou com os homossexuais em geral, em certas ocasiões passavam a adotar um comportamento “fechativo”, que anteriormente lhes seria inconcebível.

Outro aspecto importante da atitude corrente dentro do Somos, em relação à questão dos papéis de gênero, era aquele relacionado com a adoção de um modelo “igualitário” para categorizar a sexualidade, já discutido anteriormente. (FRY, 1982, p. 87) Provavelmente, um grande número dos integrantes do grupo já adotava esse modelo antes mesmo de conhecerem o Somos. Possivelmente, seria por essa sua concepção igualitária que eles se interessariam pela ideia de reivindicar um tratamento mais democrático para os homossexuais. Outros que, ao ingressarem no grupo, ainda usavam o esquema hierárquico, geralmente se convertiam rapidamente ao modelo mais igualitário.

Entre os militantes homossexuais, tanto do Somos quanto da maioria dos outros grupos que surgiram no Brasil, as noções de “ativo” e “passivo” eram ridicularizadas. Apesar disso, vários deles admitiam que, em nível de fantasia, essas categorias continuavam a ser importantes, mas, mesmo esses, recusavam-se a admitir qualquer tipo de hierarquização de papéis sexuais “fora da cama”. Embora alguns dissessem preferir ser ativos ou passivos, dentro do Somos dava-se muito valor à variedade, tanto de parceiros quanto de formas de desfrutar os prazeres do sexo. O “machão”, protótipo do ativo, apesar de ser desejado sexualmente por muitos homens do grupo, não era levado a sério e circulavam histórias sobre homens de apresentação hiper masculina, que, na hora do sexo, pediam para ser penetrados. Muito comentados, também, eram os casos de travestis que comumente eram pagas por seus clientes para adotar o papel ativo.

Mas, enquanto todas as possibilidades da sexualidade homossexual eram discutidas e exploradas, o bissexualismo, isto é, o relacionamento sexual indiscriminadamente homossexual ou heterossexual, não recebia nenhum endosso. Especialmente nos primeiros tempos, integrantes do Somos que diziam ter relacionamentos heterossexuais eram ligeiramente mal vistos e encontraram pouquíssimo apoio. Existia uma corrente de pensamento bastante forte que negava a existência de uma categoria de bissexuais. Eles seriam simplesmente homossexuais que, por falta de coragem de se assumirem plenamente enquanto homossexuais, usariam relacionamentos heterossexuais como disfarce. Similarmente argumentava-se contra o uso do termo “bissexual”. (TREVISAN, 1986, p. 21)

Esta discussão sobre o comportamento durante o ato sexual e a sua valorização é mais aplicável aos homens do grupo que às lésbicas, sobre quem me foi mais difícil obter informações neste sentido. Mas, sobre elas, posso afirmar que as integrantes do Somos diferenciavam-se muito, em seu comportamento, das mulheres que podiam ser encontradas nos poucos locais públicos frequentados por lésbicas em São Paulo por volta de 1980. Nestes locais, a norma era encontrar uma reprodução muito mais restrita do comportamento heterossexual. Essas lésbicas assumiam os papéis de lady – a parceira que faz o papel de “mulher” – ou de fanchona – a parceira que faz o papel de “homem”. Esses relacionamentos, às vezes, chegavam a níveis quase caricaturais, com as fanchonas se esforçando ao máximo em imitar homens, chegando, em casos extremos, a usar cuecas, adotar gestos bruscos e a tratar as “suas mulheres” de acordo com os padrões machistas vigentes na sociedade.

As mulheres do Movimento Homossexual diziam que a maioria das lésbicas eram muito menos visíveis que os homossexuais masculinos. Assim, comparar as militantes às ladies e fanchonas, talvez seja tão errado quanto comparar os homens do grupo às travestis ou aos michês. Em geral, as atitudes das lésbicas militantes eram bastante parecidas às dos homens dos grupos homossexuais; davam grande importância ao aspecto democrático e não demonstravam desejo de se parecerem com o sexo oposto. Ao contrário, as suas atividades feministas as levaram a valorizar ainda mais tudo que era ligado à mulher.

Outro aspecto do desempenho de papéis é o relacionado às várias formas possíveis de ligações afetivas sexuais encontradas entre os integrantes do Somos e dos outros grupos saídos dele. Novamente, aqui terei que me ater mais ao caso dos homens porque, neste campo, me foi difícil apreciar a prática das mulheres. Entre os homens dos grupos homossexuais, sempre reinou um espírito de hedonismo e havia uma postura bastante generalizada de incitação permanente ao sexo, não importando se com parceiros de dentro ou de fora do grupo. Porém, continuava-se a dar grande valor ao antiautoritarismo e nas raras vezes em que se faziam críticas sobre o comportamento sexual dos integrantes do grupo, estas eram direcionadas contra manifestações de dominação ou possessividade de um parceiro por outro. Aqui, o termo pejorativo “galinha”, muito usado em meios homossexuais para indicar reprovação sobre o comportamento de indivíduos considerados demasiadamente promíscuos ou inconstantes, deixava de ter uma carga negativa, nas poucas vezes em que era empregado. Talvez, grande parte dos militantes não tivesse “casos”, ou seja, ligações mais duradouras com uma pessoa em particular.

A atividade sexual desses se daria através de encontros mais ou menos passageiros com indivíduos “caçados” nas ruas, nos bares, boates e saunas do gueto homossexual e até em certos cinemas e banheiros públicos. Embora alguns destes manifestassem o desejo de terem um “caso”, muitos diziam não sentir necessidade disso.

Entre aqueles que tinham um “caso”, alguns se definiam como em “relacionamento aberto”, o que lhes permitia ter atividades sexuais com outros. Este tipo de relação era bastante admirado dentro do Somos e de outros grupos homossexuais, embora muitos dos que o elogiavam confessassem ainda não ter “estrutura para isso”. Existiam também os “casos fechados”, em que relacionamentos sexuais fora da relação não eram tolerados e, quando ocorriam, tinham que ser mantidos secretos. A desonestidade de um parceiro com outro, revelada nestas situações, era, geralmente, ridicularizada pelos demais militantes.

Outra manifestação de autoritarismo da sociedade à qual o Somos se opunha era o racismo, especialmente aquele dirigido contra negros e índios. Um dos grupos com o qual o Somos mantinha diálogos era o Movimento Negro Unificado, considerado por muitos como um importante aliado. Entendiam que esse movimento lutava contra um preconceito que, assim como o machismo, afetava o seu alvo de forma total, restringindo suas possibilidades no campo sócio econômico e chegando a penetrar nos recessos mais recônditos da psique, no qual produzia o “negro de alma branca”, considerado análogo ao “homossexual enrustido”. Assim como as feministas e os homossexuais, os negros também teriam reivindicações específicas. Devido a sua posição “minoritária” teriam de enfrentar constantemente as organizações de oposição político partidária, que os criticavam por serem divisionistas e tentavam englobá-los em uma luta maior, na qual suas reivindicações seriam necessariamente subordinadas a outras consideradas mais gerais.

Os contatos entre os movimentos homossexual e negro geralmente ocorriam em debates sobre as “questões das minorias” e em atos públicos, especialmente aqueles de protesto contra a violência policial, como a passeata realizada contra a “Operação Rondão”, em 1980, relatada mais adiante. Deve-se lembrar, também, que a primeira aparição do Somos em passeata foi por ocasião do Dia de Zumbi, celebrada pelo Movimento Negro Unificado em 1979. Apesar destes pontos de contato, dizia-se que o machismo seria muito forte entre os negros e que o movimento homossexual não havia sido capaz de fugir por completo do racismo generalizado na sociedade brasileira. Dentro do Somos, o problema do racismo foi raramente discutido até meados de 1980, quando alguns de seus integrantes negros tentaram formar o Grupo dos Negros Homossexuais, visando atuar dentro dos dois movimentos.

O movimento indígena e a Comissão Pró Índio, de São Paulo, também contavam com as simpatias do Somos. Suas lutas eram, ocasionalmente, invocadas de maneira genérica e seus representantes convidados a participar tanto de abaixo assinados, quanto de debates. Este relacionamento, porém, raramente passou do nível de apoio formal.

Uma das principais fontes de inspiração, para essa política de alianças com outros grupos com reivindicações específicas, foi o jornal Lampião. Como Trevisan, um dos propulsores dessa política do jornal, era também uma importante liderança do Somos, essas ideias foram levadas para reuniões do grupo e geralmente aceitas em consenso geral.

Outra influência para a política de alianças foi a atuação dos elementos ligados às organizações de esquerda engajadas na luta partidária, especialmente as trotskistas. Dessa forma, a primeira participação do Somos na comemoração do Dia de Zumbi, em 1979, foi incentivada por Charlie, militante da Convergência Socialista.

Na carta de princípios, intitulada “Nossa Proposta”, também usada como apresentação do grupo durante o ano de 1979, explicitava-se a crença na necessidade de “uma profunda transformação social que ponha fim à divisão de classes dentro da sociedade, sejam elas econômicas ou sexuais”. Para tanto, seria necessário que os homossexuais encontrassem seus “próprios caminhos” e a mudança teria que se iniciar neles próprios, na luta contra o machismo e autoritarismo que eles também carregariam. Além dessas ideias, pouco mais era dito sobre como se promoveria tão grandes mudanças na sociedade e, nas conversas informais, transparecia muitas vezes a ideia de que a própria luta pelos direitos dos homossexuais acabaria por provocá-la. Essa concepção do poder da sexualidade em regulamentar o resto das relações sociais, remete ao comentário de Foucault: “O que me parece essencial é a existência em nossa época, de um discurso onde o sexo, a revelação da verdade, a inversão de lei do mundo, o anúncio de um novo dia e a promessa de felicidade estão ligados entre si”. (FOUCAULT, 1979, p. 13)

Aí parece estar resumido o cerne do ideário do Somos.