A construção da igualdade: política e identidade homossexual no Brasil da "abertura"
As crises do Somos e a defesa do Lampião
As crises do Somos e a defesa
do Lampião
No decorrer do primeiro semestre de 1979, o Somos parecia atingir a condição de um verdadeiro grupo político, dotado de dinâmica própria, deixando de ser um simples círculo de amigos que só existia em função de um ou dois líderes. Estavam ocorrendo mudanças qualitativas, não só no seu interior, como na sociedade como um todo, e logo surgiram sinais de que a maneira de funcionar do grupo dificultava sua adaptação às novas circunstâncias.
Inicialmente, o grupo encontrou uma importante fonte de motivação na experiência de fraternidade exacerbada que, usando a terminologia de Turner (1974), poderíamos chamar de “comunitas existencial ou espontâneo”. Este, porém, tende a ser de duração efêmera e qualquer grupo que almeje conservá-lo como sua fonte inspiradora acaba tendo que adotar algum tipo de organização que o preserve diante das influências do tempo, da necessidade de mobilização e de arranjo de recursos, assim como da necessidade de controle social entre seus membros. Turner chama de “comunitas normativo” esse tipo de organização, afirmando ser o destino histórico de quase todo “comunitas espontâneo”, cair na estrutura e na lei. (TURNER, 1974, p. 120) Embora muitos dos integrantes do Somos desejassem perpetuar a união entre a militância e o prazer, evitando o surgimento tanto de lideranças quanto de massas de manobras, logo começaram a ficar evidentes as dificuldades inerentes à proposta de se manter por tempo indeterminado, um grupo sem hierarquia e sem estrutura, no qual a atuação política se baseasse prioritariamente no reconhecimento do valor único da individualidade de cada um de seus membros. Por mais nebulosos que fosse, o grupo tinha certos objetivos a serem cumpridos e esses, assim como suas pretensões à permanência, tornavam necessário algum tipo de estruturação.
A fase de transição, em que comunitas se transforma em “estrutura”, é dolorosa para os que dela participam. No caso do Somos, seus integrantes logo começaram a perceber crises no grupo. Essas eram potencializadas pela dor que acompanha a mudança de um tipo de relacionamento carregado de uma dose muito forte de afetividade para uma vida estruturada, em que decisões têm que ser tomadas, preferências pessoais sacrificadas perante as necessidades coletivas e quando obstáculos físicos ou pessoais só podem ser ultrapassados a custo. Como diz Turner (1974, p. 127):
A grande tentação humana, encontrada proeminentemente entre os utopistas, é de negar-se a desistir das qualidades boas e agradáveis daquela fase (comunitas) para abrir caminhos para o que podem ser os sofrimentos e perigos necessários para a próxima. O comunitas espontâneo tem algo de mágico. Subjetivamente ele carrega o sentimento de poder ilimitado. Mas este poder se não for transformado não pode ser aplicado aos detalhes organizacionais da existência social. Não é um substituto para o pensamento lúcido e a vontade sustentada.
Tornava-se mais necessário adotar certas medidas que fortalecessem a organização do Somos, enfatizando inevitavelmente os aspectos de militância às custas do prazer.
O Somos começa a se burocratizar
O crescimento numérico dos integrantes do grupo foi um dos importantes geradores dessa tensão. Até então, o número reduzido de seus militantes possibilitava um relacionamento pessoal e direto entre todos, mesmo quando participando de subgrupos diferentes. Era comum, por exemplo, no final das reuniões de identificação, a maioria das quais ocorria nos sábados à tarde, que os seus participantes saíssem em grandes turmas para jantar em restaurantes da área do Centro. Nesses momentos, quando imperava um clima de grande descontração e amizade, trocavam-se informações sobre o andamento dos vários subgrupos. Mas, aos poucos, com a proliferação de novos subgrupos de identificação, esta prática foi deixando de ter a característica de se estender a todo o Somos, para tomar um caráter de reuniões restritas, de pequenas redes de amizade, dentro do grupo maior.
Várias “panelinhas” informais foram se cristalizando, enquanto os elos de amizade entre elas se enfraqueciam. Neste processo, tornou-se problemático um dos subgrupos de identificação que fazia reuniões afastadas do Centro e era composto quase exclusivamente por pessoas novas ao Somos. Como, além de tudo, seu coordenador, Glauco Mattoso, não sentisse grande satisfação com o cargo de servir de elo com o resto do grupo, este subgrupo foi, aos poucos, se desgarrando do corpo do Somos. Pela primeira vez no grupo, enfrentava-se a existência de membros que não só não podiam ser realisticamente tratados como amigos íntimos, mas, pior que isso, em muitos casos, nem ao menos eram conhecidos de vista dos outros.
O crescimento desordenado também causava problemas para o próprio “processo de identificação”, pois a constante entrada de militantes novos rompia a continuidade entre uma reunião e outra. Parecia que toda semana ocorria uma repetição da reunião anterior, com a já ritualizada apresentação dos indivíduos que davam alguns dados pessoais de forma cada vez mais concisa e entediada. As discussões tornavam-se infrutíferas, versando sempre sobre os mesmos temas: a falta de objetivo explícito do Somos, a necessidade de se excluir heterossexuais, o perigo que representava para os homossexuais a subordinação de sua luta à chamada “luta geral”, etc. Estas dificuldades logo começaram a levar algumas pessoas a pedir que os subgrupos se fechassem e que se instituísse alguma forma mais ordenada de acomodar integrantes novos.
Como já vimos, para tentar resolver os problemas causados pelo ingresso de novos membros no Somos, criou-se a instituição de “reuniões de recepção” regulares, que resultavam na formação de novos subgrupos de identificação, sob a coordenação de veteranos do grupo. Em pouco tempo, havia vários subgrupos em funcionamento, todos bastante autônomos, pois a única subordinação formal que todos aceitavam era à reunião geral, que deveria ocorrer mensalmente, com a participação de todos os integrantes do Somos.
Rapidamente, ficou claro que esse arranjo era bastante ineficaz, se o que se pretendia era levar adiante uma atuação mais concreta, além do chamado “processo de identificação”, como desejavam os participantes do subgrupo de atuação externa. Na falta de uma entidade mais representativa do grupo como um todo e habituado a falar em nome do Somos, quando assinando cartas de protesto, participando de debates, etc, esse subgrupo começou a tomar para si a função de coordenação informal do Somos. A consolidação definitiva deste papel foi dada pela incumbência de organizar as reuniões gerais. Esta tarefa não era nada fácil, exigindo experiência e contatos amistosos com outras entidades, dada a necessidade de sempre se achar um local emprestado para essas reuniões. Em se tratando de um grupo de homossexuais, a tarefa se tornava ainda mais difícil, devido ao forte preconceito social contra eles. Assim, acabavam gravitando para este subgrupo alguns dos militantes mais dinâmicos e experientes, entre eles vários dos fundadores do Somos.
Pertencer ao subgrupo de atuação começou a ser uma marca de prestígio, mas, embora ele fosse formalmente aberto a todos os integrantes do Somos, somente homens e mulheres com mais autoconfiança ousavam participar de suas reuniões. O hábito de organizar as reuniões gerais logo levou os integrantes desse subgrupo a quererem estender seu poder para as reuniões semanais de identificação, exigindo que um espaço de tempo fosse reservado para informes sobre a situação do grupo em geral e sobre as atividades de atuação. A ingerência nas atividades dos subgrupos de identificação chegou ao ponto de se tentar instituir uma programação comum de tópicos a serem debatidos por todos, atrapalhando, desta forma, o fluxo espontâneo das discussões de cada um. Dentro do próprio subgrupo de atuação, havia uma tendência a surgirem líderes informais, mas altamente carismáticos. Apesar do comando exercido por eles ser de natureza não oficializada e de serem frequentes suas próprias denúncias do papel que lhes estaria sendo imposto, esses acabavam tacitamente assumindo a liderança e, eventualmente, até brigavam por ela, embora geralmente de forma velada.
Vários fatores, alguns mais circunstanciais, outros menos, causavam essas situações. Havia, por exemplo, a falta de locais disponíveis para reuniões, levando a maioria delas a serem realizadas na moradia de uma das poucas pessoas que dispunha de casa em que não residiam outras pessoas contrárias a essas reuniões e onde não havia o problema de porteiros repressores ou bisbilhoteiros, encontrados na maioria dos prédios de
apartamentos.1 Obviamente, o morador de tal casa encontrava-se em uma posição privilegiada para controlar o grupo. Aqueles integrantes que não se davam bem com ele tinham poucas opções, além de deixar de ir às reuniões. Outro fator importante era o acesso, ou não, a um telefone. Como a maioria dos contatos e a divulgação de informações eram feitas de forma informal e verbal, aqueles que tinham telefone recebiam mais informações e podiam divulgar suas opiniões mais facilmente.
A disponibilidade de tempo também era crucial e podia-se constatar que os membros mais ativos, e portanto mais influentes em dados momentos, eram pessoas desempregadas ou subempregadas. O ativismo homossexual revelou-se uma boa maneira de preencher o vazio existencial causado por estas condições e, havendo tempo disponível, sempre surgia alguma coisa que precisava ser feita. Em vários casos, estudantes deixaram cursos frustrantes para dedicarem mais tempo ao Somos e alguns até largaram seus empregos. Prestígio no mundo externo também era um fator importante, especialmente quando usado para conseguir vantagens para o grupo. Em nível mais pessoal, também pareciam ter importância o desenvolvimento intelectual e a habilidade de se expressar bem. Reflexo disso, temos o fato de que, quando alguns destes líderes passaram a ser questionados, falava-se na “tirania dos seus belos discursos”.
De importância primordial também era o grau de simpatia e facilidade de relacionamento. Dentro de um grupo como esse, que se declarava empenhado em valorizar o prazer e o “tesão”, não deixavam de ser notáveis as vantagens auferidas por aqueles que eram percebidos como “bonitos” ou “gostosos”. Mesmo em casos de franco desentendimento e desacordo total de ideias, integrantes do Somos muitas vezes se deixavam influenciar por charmes físicos ou de personalidade. Como o “tesão” era considerado por muitos um valor supremo, capaz de justificar quase tudo, esse fato não era comumente criticado. O que era ocasionalmente questionado era a manipulação consciente de dotes pessoais para a obtenção de fins não ligados ao prazer sensual ou afetivo, como aconteceu com as acusações levantadas contra um militante da Convergência Socialista, criticado por praticar “política de cama” para difundir suas ideias dentro do Somos.
A posição de liderança do subgrupo de atuação externa se consolidou fortemente durante a primeira metade de 1979, mas ela sempre encontrou resistência em alguns setores. Eram constantes as reclamações dos subgrupos de identificação, por exemplo, contra o “desperdício de tempo” de suas reuniões com a sessão de informes do grupo. Também, foram levantadas objeções ao documento intitulado A nossa proposta, escrito por um integrante da atuação externa, assim como se faziam questionamentos sobre tabu contra a participação de heterossexuais nas reuniões e em outras atividades do grupo. Como já vimos, muitos dos recém-ingressos no Somos também estranhavam o uso das palavras “bicha” e “lésbica”, como forma de auto referência, acostumados que estavam a entender esses termos como pejorativos. Outros questionavam a postura “anarquista” do grupo, pedindo definições mais claras dos seus objetivos e explicações sobre os deveres e direitos de cada integrante.
Aos poucos, foi aumentando a contradição entre os ideais antiautoritários, constantemente divulgados pelos membros da atuação externa, e sua maneira de agir na prática. A contradição se acirrava diante da necessidade sentida por aquele subgrupo de coordenar e uniformizar as atividades do Somos, sob o pretexto de que seria necessário evitar que o crescimento contínuo o levasse ao esfacelamento. A crescente centralização e a diminuição do contato direto e pessoal entre todos os integrantes do grupo, agora cada vez mais difícil devido aos inúmeros envolvidos, levava muitos, especialmente os recém-ingressos, marginalizados do centro de decisões, a crer que o grupo se burocratizava demasiadamente.
A manipulação do “feminismo”
O Somos começava a ser tomado por um sentimento de mal estar generalizado e várias causas eram apontadas. Um dos pontos de atrito, logo levantado, foi a situação das mulheres, que se sentiam demasiadamente dispersas entre os vários subgrupos, nos quais se encontravam invariavelmente em menor número. Isso, alegavam, tornava difícil desenvolver dentro do Somos uma consciência sobre as necessidades específicas das lésbicas. Diziam que, na sua condição de duplamente oprimidas, – como mulheres e como homossexuais – teriam algumas reivindicações diferentes das dos homossexuais masculinos que, apesar de sofrerem discriminações e opressões em virtude de sua orientação sexual, nem por isso deixariam de ter um comportamento machista, que seria inerente a todos os membros da sociedade e especialmente aos homens.
A questão começou a polarizar todas as tensões do Somos. A proposta de algumas mulheres de formar um subgrupo de lésbicas, fechado aos homens, provocou muita controvérsia e indignou alguns. Os mais contrariados eram os homens recém-admitidos no grupo e algumas mulheres que também tinham desentendimentos pessoais com as que faziam essas reivindicações, que começaram a ser consideradas frutos de um “feminismo radical”. Essa acusação era devolvida pelas “radicais”, que acusavam todos os que discordavam delas de serem “machistas”. A partir daí, durante alguns meses, “machismo” passou a ser uma palavra usada para explicar todos os males que assolavam o grupo e era usada indiscriminadamente contra homens, mulheres, “bichas pintosas”, “bichas enrustidas”, pessoas engajadas na política partidária, etc.
Como antídoto ao “machismo”, surgiu a ideia de se estudar o feminismo, concebido por muitos como uma espécie de panaceia universal, mas cujos conceitos básicos eram desconhecidos por quase todos os integrantes do grupo. Mesmo as poucas pessoas que tinham contato mais próximo com os grupos feministas de São Paulo tendiam a considerar aquelas organizações como demasiadamente voltadas para a “luta geral”, além de terem preconceitos anti-homossexuais. Somente o grupo Nós Mulheres contava com mais simpatia, pois, durante a Semana das Minorias da Universidade de São Paulo (USP), sua representante tinha sido atacada de forma parecida com a dos homossexuais.
Dentro do Somos, a defesa do “feminismo” se apresentou como uma arma preciosa para a liderança informal, cuja influência estava sendo questionada. Além disso, tornara-se senso comum dentro do coletivo que, enquanto visão de mundo, o marxismo tradicional dos opositores mais ferrenhos do regime militar não seria capaz de dar conta satisfatoriamente da experiência homossexual. Mas um grupo do tamanho do Somos, que já contava com 80 a 100 integrantes, precisava acreditar na existência de alguma forma de explicação para a sua condição, mesmo que só alguns poucos realmente estivessem familiarizados com ela. Nesse momento, foi amplamente alardeado que tal explicação seria encontrada no “feminismo”, generalizando-se a crença de que a teoria feminista teria a chave da solução dos problemas do grupo. Dessa forma, a “cúpula” do Somos pôde, mais uma vez, legitimar sua ascendência através da detenção do poder do saber, uma vez que eram eles os que conheciam melhor aquela teoria.
A desagregação do Somos era uma possibilidade que parecia se tornar cada vez mais real. Durante os feriados de Corpus Christi (14 a 18 de junho) deste mesmo ano de 1979, foi promovida uma excursão visando reaproximar os integrantes do grupo e tornar conhecidos de todos um novo subgrupo de identificação que manifestava grandes sinais de rebeldia contra decisões do subgrupo de atuação. Várias tentativas de explicação eram propostas para esse fenômeno. Alguns diziam que seria um grupo “naturalmente fútil”, outros atribuíram as diferenças ao fato desta “nova geração” ter entrado para o rupo quando ele já se encontrava formado e que, portanto, eles estariam menos identificados com seus ideais, não tendo que “lutar por eles” durante a fase de construção dos Somos. Por fim, corria a ideia de que esse subgrupo estava mais isolado dos outros, em termos geográficos e que faltaria a ligação afetiva, tão enfatizada por alguns dos fundadores do grupo, entre seus integrantes com o resto do Somos.
Um dos membros do grupo colocou então à disposição do grupo uma casa de campo de sua família em Campos do Jordão, não muito distante de São Paulo, onde todos poderiam passar o feriado juntos. Sua oferta foi aceita e, embora a casa não dispusesse de muitos cômodos, era bastante ampla e foi possível acomodar nela trinta pessoas, incluindo seis mulheres.
Nessas condições era inevitável um certo desconforto e equipes tiveram que ser organizadas para cuidar de tarefas como cozinhar, manutenção da limpeza, etc. Logo surgiram reclamações sobre a rigidez dessa organização e sobre a obrigatoriedade do comparecimento às assembleias matinais realizadas entre 10:30 e 11 horas, convocadas por integrantes do subgrupo de atuação, para resolver questões financeiras, geralmente relacionadas ao planejamento do cardápio do dia. Muitos criticaram o que julgavam ser um burocratismo excessivo, reclamando contra a interrupção de seu sono ou de suas relações sexuais.
Além de argumentar que certas decisões precisavam ser tomadas em conjunto para evitar qualquer “autoritarismo”, alguns membros do subgrupo de atuação alegaram que o Somos estaria acometido de “machismo” e “alienação”. Quando se propôs discutir essas questões, a maioria dos presentes protestou dizendo que estavam lá “para se divertir e não para fazer militância”.
Durante grande parte do feriado, reinou um clima de compreensão entre a maioria dos presentes, mas houve um incidente em que ânimos se exaltaram e ficou comprovado que o clima de comunitas seria difícil de restaurar. Tudo começou quando um grupinho, contando com a presença maciça dos integrantes do subgrupo “rebelde”, resolveu fazer um passeio pela cidade. Um número grande de homossexuais juntos, inevitavelmente, chama a atenção do público e uma mulher desconhecida começou a fotografar “as bichas fechando”. Ao perceber isso, alguns dos membros do “subgrupo problema” foram conversar amigavelmente com ela, posando em atitudes caricaturalmente homossexuais. Alguns dos seus parceiros de passeio criticaram o “papel de palhaços” que estavam fazendo e ficaram mais irritados ainda ao ouvirem a fotógrafa e seus amigos serem convidados para filmar uma festa junina, que estava sendo preparada na casa para aquela noite. A ameaça de uma “invasão de heterossexuais” deixou muitos alarmados e alguns líderes informais do grupo começaram a emitir opiniões contrárias ao costume de “fechar”. Alegavam que estavam ocorrendo expressões de alienação e machismo por parte de alguns homens, que, por brincadeira, se diziam mulheres ou então usavam expressões misóginas, como “rachada”, para designar o sexo feminino. Muito criticado foi um rapaz que fazia referências constantes à sua “chana” – vagina na gíria lésbica – enquanto outros faziam strip-teases e andavam pela casa nus, ou com cuecas minúsculas, adotando posturas supostamente lascivas ou femininas. Falava-se em “vulgarização do corpo” ou em “uso de uma linguagem corporal desprovida de sentido”.
O incidente com a fotógrafa foi motivo de grandes discussões e a maioria dos integrantes do subgrupo de atuação foram muito criticados, especialmente por aqueles que estavam há menos tempo no Somos e que achavam que o incidente não passara de uma inofensiva brincadeira. Os ânimos ficaram tão exaltados que Raimundo, um dos principais líderes informais, chegou a chorar. Uma das figuras mais polêmicas do grupo, ao mesmo tempo muito querido e respeitado por alguns, mas chamado de autoritário por outros, ele foi muito atacado durante esse feriado, sendo até chamado de “aiatolá”, durante uma reunião matinal, o que causou muito riso da parte dos presentes. Outro ataque que sofreu, obviamente relacionado à sua preocupação em detectar machismo no Somos, foi uma inscrição anônima no mural, que ele mesmo havia colocado, para permitir a livre expressão de sentimentos do grupo. Esta inscrição dizia: “Raimundo, o que a bicha precisa fazer para não ser machão?”. O mesmo mural continha outras inscrições críticas, como: “Quando a gente imagina/acredita que encontrou o lugar, clima, pessoas legais, pinta a repressão – super chato”.
Mas não foi somente o suposto autoritarismo dos principais organizadores da excursão, que foi criticado. Durante as reuniões matinais, muitas críticas disfarçadas de brincadeiras ocorreram. A certa altura, por exemplo, um rapaz, realçando sua aparência feminina com o uso de uma túnica, um pouco de maquilagem e uma mudança de penteado, assumiu o papel de mestre de cerimônias, adotando o nome de “Bixênia” – paródia do nome da apresentadora de programas femininos na rádio e TV, Xênia Bier. Quando todos se apresentavam seguindo a fórmula de praxe dentro do grupo – nome, idade, trabalho, signo zodiacal e “estado civil” – ele fazia comentários maliciosos. Estes versavam, geralmente, sobre o item “estado civil”, quando os presentes deveriam se declarar comprometidos, ou não, com uma pessoa em especial. A maioria se declarava “solteira”, mas vários se disseram “casado em regime aberto”, o que provocava aplausos e outras manifestações de aprovação por parte da audiência. Quando um dos integrantes do subgrupo de atuação se apresentou como “casado em regime fechado”, Bixênia comentou: “Fechado pela frente e aberto por trás”, causando grande hilaridade e levando o rapaz em questão a criticar a “demagogia” que estaria sendo feita a respeito dos “casos abertos”.
Também, no tocante à questão da fidelidade entre pessoas “de caso”, surgiram alguns conflitos. Imperava uma grande promiscuidade libidinosa e, como da vez anterior, em Praia Grande, muitos dos participantes mantiveram relações sexuais com múltiplos parceiros. Até a orientação exclusivamente homossexual do grupo chegou a ser transgredida e, se não houve ato heterossexual consumado, chegou-se muito perto disso. Todos se beijavam, se roçavam e muitos apalpavam a genitália ou os seios uns dos outros. Especialmente entre as mulheres, até então mais adeptas da exclusividade sexual, vários “casos se abriram”. Todos incentivavam a libidinagem e o clima era francamente de orgia.
Porém, nem tudo foi compreensão e amizade. Um dos integrantes mais recentes, um homem aparentando 40 anos – ele não quis dizer sua idade –, visto por todos como sendo “de outra geração”, manifestou uma visão mais “careta” sobre a homossexualidade e declarou sua intenção de deixar o Somos, pois haviam “roubado a sua transa” – um rapaz com quem ele havia planejado passar a noite, acabou dormindo com outro, acontecimento corriqueiro durante esses dias. Até os dois rapazes que haviam se declarado “casados em regime fechado” acabaram tendo um desentendimento, motivado pelo passeio de um dos parceiros com outro do grupo. Esses incidentes foram isolados, mas serviam para levantar a questão da monogamia, que foi muito discutida e criticada, sendo também taxada de “machista”. A exclusividade sexual era vista como mais uma ideia que os novos traziam para o grupo e que tinha de ser combatida pelos “mais conscientizados”, especialmente os do grupo de atuação.
Ao contrário da esperada recuperação do sentimento de fraternidade grupal, essa viagem serviu para deixar mais claras as desavenças dentro do Somos. O “subgrupo problema” ficou mais marginalizado ainda e alguns dos líderes do subgrupo de atuação foram atacados, como o próprio Raimundo, fundador do Somos e influente líder informal, que foi acusado de se comportar como “uma rainha destronada”.
Também em relação às mulheres, nada foi conseguido: as chamadas “feministas radicais”, isto é, aquelas que vinham acusando os homens de serem “machistas” e que exigiam um subgrupo exclusivamente lésbico, não compareceram. As que haviam ido eram, compreensivelmente, aquelas que admitiam a possibilidade de uma convivência frutífera ao lado dos homens e que tinham uma certa suspeita do termo “machismo”. Consideravam esse termo demasiadamente amplo, além de ser uma expressão até então usada quase exclusivamente pelas “radicais”. Porém, não tardaram a adotar esse termo, elas mesmas, contra as suas adversárias.
Assim, apesar da ausência das mulheres mais críticas, esse feriado marcou a adesão definitiva, por parte do subgrupo de atuação, ao termo “machismo”. Até então, era um conceito mais usado por algumas mulheres, para agredir os homens, embora, às vezes, também, fosse usado contra as mulheres. Depois, começou a ser usado também pela “cúpula” masculina, contra outros homens. Nesse momento, foi muito comentada a falta que faziam as “feministas radicais”, dizendo-se que elas teriam forçado uma maior discussão do assunto.
Havia fortes laços de simpatia e amizade entre os que eram vistos como “fundadores” da “cúpula” dos homens e as “feministas radicais”, também acusadas de quererem formar uma “cúpula” das mulheres. Desde o início da campanha das feministas contra o “machismo” do grupo, elas haviam contado com o apoio de influentes membros do subgrupo de atuação. Estes agora se sentiram um pouco abandonados pelas suas antigas companheiras, que seriam as mais indicadas para legitimar o uso da expressão “machismo” contra seus opositores. De qualquer forma, o termo ficou definitivamente incorporado ao arsenal de acusações do grupo e, depois de certo tempo, quando outros aprenderam a empregá-lo, deixou de ser exclusividade das “cúpulas” masculina e feminina. A expressão adquiriu então um sentido mais amplo, sinônimo de autoritarismo, e não tardou a ser empregada contra seus introdutores originais. Logo algumas atitudes do subgrupo de atuação, que desagradavam outros integrantes do Somos, também começaram a ser chamadas de “machistas”. A partir de então, todos concordaram em achar que seria esse o grande mal que atrapalhava o grupo, embora o sentido atribuído ao termo variasse de acordo com as pessoas e a ocasião.
De volta a São Paulo, o sentimento de mal estar do grupo continuava, talvez até mais exacerbado. Com o fracasso do “subgrupo problema”, começou-se a colocar em questão até a ligação afetiva, considerada fundamental entre os integrantes do Somos. Tornava-se evidente que o “processo de identificação” era de natureza não somente finita como de curta duração. Significativamente, ele se esgotava mais rapidamente entre os novos membros, talvez porque os veteranos, dada a sua ascendência sobre o grupo, se sentiam mais estimulados por ele, do que os marginalizados recém-ingressos. A constatação do esvaziamento, ou mal funcionamento, dos subgrupos de identificação pôs em cheque também a posição do subgrupo de atuação, que os via como base de apoio e legitimidade para intervir na sociedade. Eram eles que davam ao Somos uma importância numérica e o “processo de identificação” era o que legitimava a ideia de um consenso grupal, atingido através das discussões informais de identificação e posto em prática pelo subgrupo de atuação. As divergências expressas pelas mulheres e pelos subgrupos forçaram a “cúpula” a encarar mais abertamente a questão de sua liderança. Numa reunião de atuação, em que se discutiu o assunto, esses indivíduos se caracterizaram como guardiões autoproclamados dos valores básicos do grupo, acima das reuniões gerais, consideradas por eles como “oscilantes” demais. Significativamente, durante essa reunião de atuação, foi proposto que este grupo também devesse ser fechado, para evitar a entrada demasiada de homens e de “novos” que o tornasse incapaz de funcionar – ou seja, que contestariam as posições “antimachistas” da “cúpula dominante”). A grande ameaça percebida eram os “novos”, que logo dominaram o grupo numericamente. Este fenômeno foi chamado pejorativamente de “inchaço” e o grupo foi declarado “em crise”.
O apoio do Somos ao Lampião
Outros focos importantes de atrito foram o relacionamento do Somos com o jornal Lampião e as medidas que grupo deveria tomar em seu apoio, quando este começou a sofrer ataques do governo. Mais uma vez, ficava evidenciada a heterogeneidade da composição do Somos, em particular, e do mundo homossexual, como um todo.
Já em agosto de 1978, os editores do jornal haviam sido informados que o Departamento de Polícia Federal do RJ decidira abrir um inquérito, com vistas a enquadrar a publicação, junto com seus responsáveis, no decreto 1077, da Lei de Imprensa, que
tratava de ofensas à moral e ao pudor público. 2 Este item da lei já fora usado contra o jornalista Celso Curi, responsável pela coluna gay do jornal paulista Última Hora e contra um poeta de Brasília, Nicolas Behr, mas ambos conseguiram absolvição. Ainda pendiam inquéritos contra a revista Interview, que publicou entrevistas consideradas atentatórias à moral e bons costumes, com Ney
Matogrosso, Bety Faria3 4 5 e Yonita Salles Pinto; e com Isto É, que também havia dedicado várias de suas páginas, além de sua capa, a um longo artigo sobre homossexualidade. Dizia-se que o inquérito teria o respaldo do próprio Ministro da Justiça de então, Armando Falcão.
A absolvição de Celso Curi foi vista como altamente positiva para a defesa do Lampião. O jornal, que em seu número zero publicara extensa matéria sobre o processo contra Curi, se juntou ao Somos para divulgar um panfleto anunciando que esse havia sido o primeiro caso de denúncia à homossexualidade na Justiça Brasileira e que a sentença de absolvição seria um precedente benéfico para outras publicações submetidas a inquéritos por razões similares. O documento terminava com a declaração de que essa absolvição havia redobrado “as forças de luta de todos os que defendem o livre arbítrio, a liberdade de imprensa e as liberdades democráticas neste país”. As reivindicações dos homossexuais eram, assim, colocadas em pé de igualdade com as outras exigências que a sociedade civil estava fazendo ao governo. Essa seria a tônica principal da campanha daí para frente, conseguindo-se, desse modo, o apoio de personalidades e organizações, que normalmente relutariam em se comprometer com a causa homossexual.
Em abril de 1979, os membros do conselho editorial do jornal, residentes no Rio de Janeiro, Aguinaldo Silva, Francisco Bittencourt, António Chrysóstomo, Clóvis Marques e Adão Acosta tiveram que se apresentar no DPF, para serem fotografados e terem suas impressões digitais tomadas, além de prestarem depoimentos. Alguns meses depois, o mesmo ocorreu com os residentes em São Paulo: Darcy Penteado, João Silvério Trevisan, Jean-Claude Bernardet e Peter Fry. Em julho de 1979, foi enviada outra intimação ao jornal. Desta vez, era exigida a apresentação dos livros de contabilidade no DOPS do Rio de Janeiro. O advogado da ABI, Luis Celso Soares de Araújo, que estava representando o Lampião, considerou a solicitação ilegal, arbitrária e sem nenhuma relação ao inquérito em andamento. Acreditava-se que esse novo tipo de pressão, por parte das autoridades policiais, era inspirado em um documento secreto do Centro de Informações do Exército (CIE), que algum tempo antes havia sido levado ao público, pelo jornal O Estado de S. Paulo. Este documento recomendava medidas alternativas para controle da imprensa, uma vez abrandada a censura oficial. Uma das medidas preconizadas era a de promover devassas na contabilidade das editoras de jornais “nanicos”, para levá-las a encerrarem suas atividades por razões fiscais. Pretendia-se provar que o Lampião não tinha condições de sobreviver como empresa.
O ataque ao jornal revestia-se de características que claramente ameaçavam toda a imprensa brasileira e, portanto, o Lampião pôde gozar de bastante solidariedade por parte de seus pares. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo mandou um telegrama ao Presidente da República, pedindo que cessassem as perseguições aos jornais, citando nominalmente o caso do Lampião. Uma nota de protesto do Lampião foi publicada no Rio de Janeiro e em São Paulo, pelos jornais, O Globo, Tribuna da Imprensa, Última Hora, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Segundo Lampião, o Jornal do Brasil se omitiu, porque seus diretores tinham ordem expressa de ignorar qualquer reivindicação
de homossexuais. 6
Por sua parte, o jornal procurou revidar as suspeitas de sua falência, publicando um artigo explicando que, ao contrário dos Atallas, da Construtora Adolfo Lindenbergh e outros casos célebres de insolvência na época, Lampião não devia nada a ninguém. Afirmava-se que a editora não visava lucro, a verba da venda de um número sendo usada para pagar a edição do próximo, e que, até
então, o jornal nunca se atrasara para chegar às bancas. 7
Este novo desenvolvimento da perseguição ao Lampião levou alguns dos integrantes do Somos, especialmente aqueles mais comprometidos com o subgrupo de atuação, a tomarem atitudes de apoio ao jornal. O relacionamento entre o Somos e o Lampião tinha um componente simbiótico, pois, várias vezes, integrantes do grupo haviam saído às ruas divulgando o jornal em meios homossexuais, distribuindo cópias de números antigos que tivessem artigos sobre o Somos. Havia-se até feito um carimbo para marcar esses exemplares, com os dizeres “Cortesia Grupo Somos”, seguidos do número da sua caixa postal.
Agora considerou-se necessário ir mais além e uma reunião foi convocada pelos interessados em apoiar o jornal. Esta reunião foi coordenada por Charlie, que lembrou aos presentes que, pouco tempo antes, a revista Versus, ligada à Convergência Socialista, também havia sofrido perseguições das autoridades e conseguira escapar graças a uma campanha de defesa, da qual ele participara e cujo know-how poderia transmitir ao Somos. Foi dito, também, que uma campanha de apoio ao Lampião poderia canalizar o desejo de mobilização, cada vez mais premente para os integrantes do subgrupo de identificação.
Sugeriu-se a criação de uma comissão de defesa do Lampião, que poderia, ou não, ser ligada nominalmente ao Somos e que poderia, também, incluir Darcy Penteado ou outros que se mostrassem interessados, mesmo não integrando o grupo. Charlie informou que já havia conversado com o líder da campanha do Versus e este recomendara a elaboração de um abaixo assinado restrito, por razões de tempo e logística, a personalidades políticas, artísticas e entidades democráticas como: ABI, CBA, sindicatos, etc. Durante essa reunião, foi argumentado que muitas dessas personalidades, com projeção na vida parlamentar ou artística, talvez relutassem em ver seus nomes associados à causa homossexual e que, portanto, seria melhor enfatizar a questão da liberdade de imprensa ao invés da questão sexual.
Apesar de ser inicialmente muito bem recebido, o auxílio proposto pela Convergência Socialista logo começaria a despertar as desconfianças dos outros fundadores do Somos e amigos seus. Alegando longa experiência política, alertavam para o perigo do “entrismo”, que diziam ser praticado por grupos trotskistas, desejosos de tomar o controle de determinadas organizações populares.
A proposta de se organizar uma comissão de defesa e de circular um abaixo assinado parece ter sido completamente independente dos responsáveis pelo jornal, chamados desdenhosamente de As tias do Rio, por serem considerados mais velhos e mais “caretas”. Alguns receavam que certas propostas mais radicais, como a pichação de muros, pudessem ter efeitos adversos. Mas nada parecia desaconselhar o abaixo-assinado e seus preparativos foram levados adiante.
Alguns dias depois, Charlie apresentou um texto para o documento a ser endereçado ao Ministério da Justiça. Este foi aprovado, mas a redação de um panfleto a ser distribuído nos meios homossexuais foi mais problemática e, apesar de uma comissão ser nomeada para reescrevê-lo, a partir de um esboço previamente elaborado pelo grupo, o resultado acabou sendo considerado “demasiadamente panfletário”. Durante algum tempo, isso seria apresentado como nova tentativa de atrelamento do Somos à “luta geral”.
Nessa ocasião, Charlie apresentou outra sugestão, inspirada nas práticas da imprensa partidária. Todo militante deveria se comprometer a vender dez exemplares de cada edição do Lampião. Isso causou nova polêmica, alguns diziam temer a repressão, outros não concordavam com a linha editorial do jornal, outros ainda diziam não desejar se assumir como homossexuais fora do Somos. Por fim, decidiu-se deixar a opção por vendagem do jornal a cargo de cada um, sem nenhum tipo de pressão grupal. Esta ideia não teve muito sucesso e o Somos vendeu poucos exemplares nessa ocasião. Vale aqui lembrar, porém, que as mulheres do grupo costumavam sair à região do gueto lésbico vendendo aqueles números que falavam delas. Mas, mais que uma forma de ajudar o jornal, esta atividade era encarada como maneira de aproximação com as lésbicas “não organizadas”.
Outra questão controversa referia-se ao status da comissão de defesa do Lampião dentro do grupo, já que contaria com a participação de indivíduos, como Darcy Penteado, que não pertenciam ao Somos. Dentro do clima de crise do grupo e do questionamento da representatividade do subgrupo de atuação isso criava problemas. Por outro lado, o estado de desorganização, em que o Somos se encontrava, impossibilitava a tomada de decisões rápidas por consenso.
Estimulados pela iminência de fechamento do Lampião e pela ideia de que a participação na campanha fortaleceria o grupo, alguns militantes resolveram levar adiante o trabalho por conta própria. Charlie obteve do Versus uma lista de possíveis assinantes, e, a esta, Darcy Penteado acrescentou outra de artistas amigos seus.
Dentro do Somos, as diferenças tornavam-se cada vez mais claras e irreconciliáveis; incapaz, tanto de consenso, quanto de conviver com uma pluralidade de posições políticas, o grupo dava sinais de esfacelamento.
A comissão formada para lidar com a questão da defesa do jornal acabou servindo para aglutinar aqueles que tinham um interesse pela militância política mais tradicional. Pois, nesse caso, pretendia-se adotar as mesmas técnicas usadas pelos responsáveis pela revista Versus, pautados por um modelo organizacional leninista. O grande propulsor dessa comissão foi Charlie, que abrigava as reuniões em sua própria casa. Detentor de um certo know-how para esse tipo de atividade, devido a sua experiência de militância nos EUA, além de ser o principal contato do grupo com a revista Versus e a Convergência Socialista, ele foi escolhido coordenador e representante da comissão perante o Somos. Outros membros dessa comissão também faziam parte do subgrupo de atuação e, deste modo, ela ficou identificada, aos olhos do resto do grupo, como mais uma tentativa da “cúpula” de impor a sua autoridade sobre os subgrupos de identificação.
Um dos “velhos”, como eram chamados os veteranos fundadores do Somos e os seus mais influentes integrantes, era, justamente, Charlie, que, segundo muitos, desejaria atrelar o Somos às posições trotskistas da Convergência Socialista. Como, além disso, a comissão passou a ser o único subgrupo do Somos a manter qualquer tipo de atividade não explicitamente voltada à solução da “crise” que o grupo estaria sofrendo, ela começou a polarizar as atenções e os sentimentos de agressão originalmente dirigidos diretamente ao subgrupo de atuação.
Começou-se a falar que Charlie pretendia radicalizar indevidamente o Somos e o texto do documento a ser distribuído no gueto foi muito criticado por seu suposto tom “panfletário” e “provocador”.
O conselho editorial carioca do Lampião, representado por Antônio Chrysóstomo, de passagem por São Paulo, também considerou o seu teor provocativo e sugeriu que ele fosse submetido ao parecer de um advogado antes da sua distribuição. Isto ajudou a insuflar o medo de vários integrantes do Somos que passaram a criticar até a confecção de fotocópias para fins de discussão interna, receando que algumas, carregando o nome do grupo, “caíssem em mãos indevidas”.
A maioria dos integrantes do Somos nunca tinha tido nenhuma experiência de organização política e compartilhava dos sentimentos, comuns na sociedade em geral, de total suspeita e cinismo a respeito da política tradicional. Somando-se isto ao temor da, ainda real, repressão policial exercida contra organizações da oposição, apresentava-se, assim, uma desculpa perfeita para muitos encerrarem sua participação no grupo, que já sentiam como frustrante e desgastante, por uma série de outras razões. Portanto, ao invés de funcionar como a solução para o problema da falta de objetivo concreto do Somos, o trabalho da comissão de defesa do Lampião tornou-se mais um ponto de atrito e Charlie começou a ser visto com grandes suspeitas por alguns, que chegaram a acusá-lo de pretender levar o grupo à dissolução. Polarizou a tal ponto o descontentamento geral, que a autoria do polêmico panfleto era comumente atribuída a ele, embora, na realidade, outros personagens, bem menos controvertidos, tivessem sido os responsáveis. Apesar de eu ter apontado esse paradoxo várias vezes, este dado não foi levado em consideração, reforçando minha opinião de que as críticas a Charlie se deviam, também, a outros fatores menos explicitados.
Devido ao intenso questionamento que os outros subgrupos faziam a respeito do “cupulismo” do subgrupo de atuação e, por extensão, da comissão de apoio ao Lampião, esta sentia-se tolhida para tomar decisões em nome do grupo. Como essas decisões eram necessárias, para levar em frente o trabalho proposto, os membros do subgrupo foram tomados por um forte sentimento de frustração.
O único momento em que se poderia tomar uma decisão deste tipo seria durante uma reunião geral, quando todos os participantes poderiam dar suas opiniões e manifestar sua aprovação ou não da ideia. Alguns dias depois, houve a esperada reunião, convocada não só para discutir a questão do panfleto, mas também para tentar resolver a crise interna pela qual passava o Somos. A discussão sobre o documento acabou tomando a maior parte do tempo da reunião, frustrando as expectativas daqueles que desejavam uma reestruturação do grupo. Resolveu-se que o panfleto, como fora apresentado, não era aceitável, mas que uma versão ligeiramente adaptada do texto do abaixo assinado, desde o início concebido como mais branda em sua linguagem, poderia ser distribuído entre frequentadores do gueto homossexual. Ironicamente, alguns viram isto como uma derrota sofrida por Charlie, quando, de fato, o texto que foi finalmente aceito havia sido escrito por ele, ao contrário do mais agressivo panfleto original.
Mas, apesar do tempo e da energia despendidos nesta discussão, que muitos consideraram quase fatal para o Somos, a panfletagem acabou não se consumando e o abaixo assinado deixou de ser entregue às autoridades. Afinal, em outubro, a Justiça resolveu arquivar o processo contra o Lampião, levando em conta o parecer do Procurador da República, Sérgio Ribeiro da Costa, a respeito do jornal. Parte desse parecer dizia: “No caso em exame, a publicação inquinada de ofender a moral pública pode ofender a moral de alguém, mas não de todos. Portanto, é relativo e não absoluto o
conceito de moral daqueles que condenam essas publicações”. 8
Chegava ao fim uma série de pressões e vexames sofridos pelos responsáveis pelo jornal. Essas haviam incluído: visitas matinais de agentes do DPF, solicitações arbitrárias, como a de exigir livros contábeis, a humilhação de serem qualificados e identificados como criminosos numa repartição policial, etc. Dias antes, fora também arquivado um inquérito contra a revista Isto É, que publicara matéria de capa sobre homossexualidade, e houve quem atribuísse esta mudança de atitude à troca do Ministro da Justiça, pois saíra Armando Falcão e entrara Petrônio Portela, considerado mais liberal. Encerrado o episódio, em dezembro de 1979, Lampião
publicou um artigo agradecendo a todos que o haviam apoiado. 9
Neste relato das perseguições sofridas pelo Lampião, observa-se como era bem fundamentada a percepção dos integrantes do Somos sobre opressão generalizada sofrida pelos homossexuais. Além da ridicularização e do ostracismo sofrido por eles em nível individual e razão para uma mobilização de natureza defensiva e de apoio mútuo, persistiam sérios entraves a uma discussão positiva e bem informada sobre sua orientação sexual.
Como já foi mencionada, a perseguição policial não se restringia a um órgão da imprensa “nanica”, como o Lampião, mas até uma revista “respeitável”, como a Isto É, e um jornalista escrevendo para a grande imprensa, como Celso Curi, chegaram a sofrer ataques, por terem ousado levantar uma discussão mais informada sobre o assunto. O próprio documento do CIE. mencionava nominalmente o Lampião, como um jornal a ser vigiado. A única forma oficialmente aceitável de abordar o assunto parecia ser aquela da imprensa sensacionalista, do tipo Notícias populares, ou deturpadora, como a Manchete.
Mas os ataques não vinham somente da direita. Os incidentes ocorridos durante a Semana da Convergência Socialista e as intervenções agressivas por parte de esquerdistas presentes aos debates na USP comprovam o quanto a questão era mal vista também por certos setores oposicionistas. A isto devemos também ajuntar os casos de alguns integrantes do Somos que contavam terem sido expulsos de grupos marxistas por causa de sua homossexualidade.
Se juntarmos a essas constatações a lembrança da repressão sistemática, que existiu até 1978, contra qualquer agrupamento contestatório, torna-se fácil entender a aparente timidez inicial dos integrantes do Somos que receavam se expor em público. Para muitos, os debates de fevereiro de 1979 foram sua primeira admissão pública de homossexualidade. Vários dos que participaram da mesa de trabalhos, no dia do debate sobre o assunto, relataram depois ter sentido muito receio, algumas vezes beirando o pânico. Até durante os inquéritos policiais sobre o Lampião a defesa achou prudente enfatizar ao máximo a categoria de “jornal das minorias”, tentando minimizar o seu aspecto homossexual. Esta mesma estratégia, de se acobertar sob a maior “respeitabilidade” de outros grupos minoritários, tais como os negros ou as mulheres, também foi adotada ocasionalmente pelo Somos. Não foi mero acaso o fato do seu primeiro aparecimento em um ato público ter sido nas comemorações do Dia de Zumbi, de 1979, promovidas pelo Movimento Negro Unificado. Essa preocupação com “respeitabilidade” não era infundada. Sua importância pôde ser comprovada posteriormente, por ocasião dos protestos contra os ataques policiais às áreas centrais da cidade, quando nem a presença simbólica de representantes negros, feministas e estudantes foi suficiente para animar políticos e personalidades de destaque a participarem de uma passeata predominantemente formada por homossexuais e prostitutas.
Foi somente após se tornar conhecido, especialmente através de publicações de imprensa alternativa, que o Somos começou a sair em público e a ser aceito como mais um grupo político que reivindicava os seus direitos de cidadania.
O Somos tenta resolver sua “crise”
Nas semanas que seguiram o feriado de Corpus Christi, a situação do grupo parecia piorar. Tornava-se evidente a falta de consenso dentro do grupo e o sentimento de afeto entre os seus membros era percebido como enfraquecido. Foi iniciada a campanha em apoio ao Lampião, com todos os receios e desavenças já narrados, e acirravam-se os desentendimentos entre os homens e as mulheres do grupo. O resultado das críticas que elas faziam pareciam apontar para a saída definitiva de muitas mulheres do Somos, pois poucas estavam dispostas a permanecer no subgrupo lésbico feminista, que havia tomado para si o espaço feminino do grupo. Embora, por ser homem, eu não tenha podido acompanhar muito de perto os acontecimentos entre as mulheres, dispondo, portanto, de poucos dados, não pude deixar de notar uma crescente desavença entre elas, com as chamadas “feministas radicais” sendo acusadas de querer formar uma “cúpula de mulheres”. Ilustrativa dessa tendência, foi uma das exigências que elas fizeram em uma reunião geral, pouco antes do feriado de Corpus Christi, em que propuseram que só poderiam falar pelas mulheres aquelas que pertencessem aos subgrupos exclusivamente femininos. As outras dos grupos mistos, consideradas como de “pouca consciência da condição específica da mulher”, só poderiam falar pelos homossexuais. Porém, diante dos veementes protestos, por parte de várias que se sentiam bem integradas com os homens, esta exigência teve de ser abandonada. Mas, começara um êxodo das mulheres do Somos e, mesmo dentro do subgrupo lésbico, só restavam quatro integrantes “convictas”, embora várias outras comparecessem a algumas reuniões para, depois de certo tempo, desaparecerem.
Outro sinal preocupante foi a progressiva deterioração das festas organizadas pelo Somos. Concebidas, originalmente, como ocasiões em que as pessoas poderiam se encontrar em situações mais informais do que nas reuniões para se “paquerarem” e “transar seu afeto”, algumas destas festas, realizadas no Studio Twenty-Four, uma discoteca gay, na Rua das Palmeiras, nº 240, acabaram perdendo seu aspecto de festas do grupo, tornando-se meros encontros de alguns integrantes do Somos, dentro de uma discoteca onde a maioria dos frequentadores eram homossexuais “não organizados”, os seus clientes usuais. Nessas condições, elas também logo começaram a perder sua atração para os membros do Somos.
Reinava um mal estar generalizado. Até integrantes fundadores do Somos, assíduos nas reuniões de atuação, começaram a se queixar da excessiva politização do grupo, revelada pela proposta do panfleto de apoio ao Lampião. Alguns criticavam, também, um certo radicalismo anti-heterossexual, manifestado na forma profundamente desconfiada com que eram discutidos possíveis apoios a serem dados por não homossexuais ou como eram encaradas as entrevistas solicitadas por qualquer publicação que não fosse o Lampião. Nessa época, também se começou a falar de roubos e estragos ocorridos durante reuniões do grupo nas poucas casas ou apartamentos onde isso era viável. Como consequência, diminuíram os locais disponíveis tornando necessária a reabertura das discussões sobre como conseguir uma sede para o Somos. Esse era sempre um assunto frustrante, dada a dificuldade sentida pelo grupo em se comprometer a pagar um aluguel mensal, justamente quando aparecia o risco de uma dissolução definitiva.
No dia 11 de agosto de 1979, houve uma reunião geral do Somos, realizada em uma sala disponibilizada pelos representantes estudantis da Faculdade de Ciências Sociais da USP. Havia-se pensado em fazer a reunião no Teatro Oficina, como da vez anterior, mas o relacionamento entre aquele grupo teatral e o Somos se azedara por vários motivos que tinham por base as posturas intransigentes dos militantes homossexuais e a sua inabilidade em conviver com pontos de vistas ligeiramente diferentes.
Os problemas entre os dois grupos haviam começado quando, em uma ocasião anterior, o Somos pediu emprestado o palco do Teatro Oficina para realizar uma reunião geral. Seguindo uma orientação de ceder os seus espaços para outras manifestações políticas e culturais, o Oficina havia aberto suas portas à organização homossexual. Além de ter uma proposta sexual libertária, aquele grupo contava com vários atores de orientação homossexual e na hora da reunião, alguns pediram para assisti-la. Porém, alegando que essa seria uma reunião exclusiva para os membros do Somos, alguns militantes expulsaram do recinto os membros do Oficina.
Desejando manter um diálogo entre os dois grupos representantes do Oficina, convidaram o Somos a assistir um dos seus espetáculos para depois realizar um debate a respeito. Porém, integrantes influentes do Somos comentaram que o espetáculo, ao propor uma liberdade sexual generalizada, parecia mais interessado no bissexualismo do que na homossexualidade. Esse era um velho tema de discussões no Somos, no qual os membros da classe teatral costumavam ser acusados de “enrustir” sua homossexualidade atrás de uma suposta bissexualidade. Como grande parte dos integrantes do grupo não tinha muito interesse pelo teatro e como alguns dos líderes de opinião do grupo criticavam severamente as ideias do Oficina, a maioria das integrantes do Somos não compareceu na data marcada para a reunião teatral.
No mês seguinte, impulsionada pela dificuldade de encontrar espaços suficientemente amplos para a realização de reuniões gerais do Somos, uma comissão do grupo voltou a pedir emprestado o palco do Oficina. Desta vez, foi-lhes novamente oferecido o teatro, mas com condição de que assistissem ao espetáculo e ao filme O parto, que José Celso Martinez Correa e outros membros da companhia haviam feito sobre a Revolução Portuguesa de 1974.
Isto causou grandes discussões dentro do Somos. Alguns lembraram que o Oficina costumava ser invadido pela polícia e estava sujeito a um tipo de repressão muito parecido ao que poderia ser desencadeado contra o Somos a qualquer hora e que, portanto, seria apropriado buscar algum tipo de aliança com eles. Outros tinham reservas a respeito da proposta, dizendo que o Oficina desejava simplesmente “fazer a cabeça” dos homossexuais. Outros ainda criticavam o espaço disponível no teatro, por ser demasiadamente grande e frio, o que dificultaria o contato mais íntimo entre os participantes da reunião. Essas objeções parecem, em retrospectiva, resumir alguns dos principais problemas do Somos: a sua inabilidade de conviver com pontos de vista divergentes e a ênfase absoluta no contato pessoal e íntimo entre seus integrantes, que inevitavelmente limitavam as possibilidades de expansão do grupo.
Alegando que não lhes era permitido tomar decisões do tipo proposto pelo Oficina, a comissão do Somos recusou a oferta condicionada do espaço e a reunião seguinte foi realizada na Cidade Universitária, local pouco conveniente, devido à sua distância do centro da cidade e do gueto homossexual.
Nessa reunião, o declínio do entusiasmo pelo grupo ficou mais uma vez patente no número relativamente reduzido de participantes – 49, incluindo 8 mulheres. Com o surgimento de conflitos internos mais sérios, as propostas “assembleistas” de organização mostravam-se insuficientes e desgastantes, permitindo a dominação inquestionável por parte de certos líderes informais, que monopolizavam grande parte do tempo disponível. Nessa reunião, esse processo se exacerbou. A maior parte do tempo foi tomada pela discussão de uma pauta de informes de pouco interesse geral, preparada anteriormente pelo subgrupo de identificação que, ignorando o limite de tempo preestabelecido para cada exposição e se aproveitando da vacilação e inexperiência do coordenador provisório escolhido para a reunião, ocupou mais de uma hora com sua exposição. Com o passar do tempo, a má vontade dos ouvintes foi crescendo e a reunião começou a se dissolver sem chegar a nenhuma conclusão. Nos últimos instantes, quando todos já começavam deixar o recinto, Charlie propôs que o subgrupo de atuação fosse substituído em suas atividades organizativas por um grupo de coordenadores escolhidos pelos vários subgrupos, para voltarem a se reunir em “território neutro”, em outras palavras, em um apartamento onde a “cúpula” não pudesse exercer seu poder costumeiro.
Esta nova reunião aconteceu, de fato, na data marcada, mas não diferiu muito das reuniões normais do subgrupo de atuação. Quase todos os nove homens presentes, escolhidos como representantes, pertenciam àquele subgrupo e os coordenadores dos subgrupos mais problemáticos deixaram de comparecer. Vários membros da “cúpula” participaram dessa reunião, na condição de “interessados”, mesmo sem serem indicados para ir. Conseguiu-se, assim, a aprovação de uma proposta, previamente elaborada pelo subgrupo de atuação, para um novo encontro que se realizaria em algum lugar de São Paulo. Este deveria durar dois dias e, além de possibilitar uma maior discussão dos problemas do Somos, esperava-se que a convivência prolongada fomentasse o ressurgimento do velho espírito fraternal. Afinal, este, que era considerado por muitos como o aspecto mais importante do grupo estava claramente se esvaindo.
Incidentes que ocorreram numa reunião geral, realizada poucos dias depois, no salão de festas do prédio onde moravam dois integrantes do Somos, mostraram, porém, que nem mesmo a atuação de agentes percebidos como “inimigos externos” conseguiria mais ressuscitar o velho comunitas.
Nessa reunião, um grande número de participantes se mostrou disposto a discutir, durante quatro horas e meia, os problemas do grupo, chegando até a um acordo satisfatório sobre a questão do abaixo assinado de apoio ao Lampião. Em seguida, como previamente programado, o local de reunião foi arrumado para uma festa.
Carmem Cinira Macedo, em seu trabalho sobre as Comunidades Eclesiais de Base, enfatiza a importância de festas para a construção de uma imagem e a representação da visão ideal do grupo. Essas comemorações, segundo argumenta, servem para exprimir e afirmar valores, reforçando certos padrões ideais de conduta ao mesmo tempo em que são cerimônias rituais; um revivescimento e reafirmação expressiva de valores que regem aquela comunidade. (MACEDO, 1986, p. 186) Nesta ocasião, quando se estaria pretendendo resolver as várias crises do Somos, uma celebração desse tipo era considerada por todos como importante e um grupo de rapazes até preparou um espetáculo para apresentar. Embora nenhum deles externasse qualquer pretensão didática para a ocasião, um exame mais atento de seu roteiro revela facilmente como o “show de variedades” servia como reafirmação explícita dos valores do grupo, ao aludir a vários aspectos do universo de preocupação do Somos. Concebido no mesmo estilo daquele realizado durante o feriado de Corpus Christi, esse espetáculo traria de volta a personagem “Bixênia”, revivida pelo seu criador original, como a apresentadora de um programa de televisão. Suas apresentações seriam ocasionalmente interrompidas por “comerciais”, cantados e dançados pelas “bichetes” ou “fedidinhas”. Apareceriam também quatro rapazes vestidos de travestis caricatos, uma “espanhola” dublaria um tango, “Bixênia” entrevistaria o político “Brichola”, fundador do PTB (Partido de Todas as Bichas), haveria uma cena de fim de caso, parodiando uma peça famosa, um “desfile de modas femininas” e uma dança do ventre. O show deveria terminar com “Bixênia” denunciando um certo CCB (Comando de Caça às Bichas) e sendo arrastada do “estúdio” enquanto as “bichetes” interviriam fechando o programa, com um número musical.
Fica evidente, nesse roteiro, o desejo de ridicularizar tanto o machismo da esquerda, representado pelo caudilho “Brichola”, quanto o perigo da repressão direitista, por parte do CCB, já que um, obviamente, parodiava Leonel Brizola, enquanto outro aludia às memórias, ainda recentes, das atividades terroristas do Comando de Caça aos Comunistas. O aspecto “comercial” do programa pode ser entendido como um reflexo das discussões sobre o “consumismo de direita e de esquerda”, promovidas por Trevisan e pelo Lampião, enquanto a discussão do “fim de caso” aludia aos debates sobre a vida dos militantes, que ocorriam durante as reuniões de identificação.
O clima satírico e o travestismo, em torno do qual se construíam vários números, reafirmavam a importância da “fechação”, enquanto forma de questionamento e crítica social. Servia também para reafirmar a importância das ligações entre o Somos e o gueto homossexual, na procura de combater o “ranço elitista”, percebido como uma eterna ameaça à militância homossexual. Finalmente, deve-se notar que a total ausência de mulheres nessa apresentação espelhava o crescente distanciamento entre os homens e as lésbicas, tanto na direção, quanto no dia a dia do grupo.
O desenvolvimento dessa festa também serviu para desvelar cruelmente a verdadeira estrutura de comando do Somos e os seus valores. Inicialmente, devido à conclusão, considerada “bastante satisfatória” das discussões da tarde, o clima parecia propício a uma festa divertida e até as mulheres compareceram em bom número. O antigo espírito de fraternidade e camaradagem dava indicações de se recuperar, até ocorrerem uma série de tumultos ocasionados pela chegada indesejada de um grande número de rapazes e moças, que estavam saindo de um espetáculo de música popular realizado no auditório da Fundação Getúlio Vargas, na vizinhança. De início, a invasão foi pouco notada até que um rapaz bêbado começou a incomodar os presentes, fazendo comentários considerados “machistas”. Alguns dos integrantes da festa – em sua quase totalidade integrantes do subgrupo de atuação – tentaram tirá-lo à força, o que causou uma grande algazarra. Em pouco tempo, seguindo o exemplo dado por alguns dos “líderes” do Somos, os participantes da festa foram tomados de pânico e passaram a exigir que todos os penetras se retirassem. Nesse meio tempo, a moradora do edifício havia chamado a polícia e, com a colaboração de muitos do subgrupo de atuação, interrompeu a festa no meio do show, pedindo a todos que se retirassem antes da chegada da Rádio Patrulha. O desapontamento e a frustração foram gerais. O clima tornou-se ainda mais tenso devido ao fato dos rapazes que estavam travestidos para o show se sentirem muito ameaçados pela iminente vinda da polícia, pois receavam ser acusados de “atentado ao pudor”.
Dessa forma, a já criticada dominação exercida pela “cúpula” ficou mais uma vez evidenciada e, dados os sentimentos de igualdade que eram especialmente fortalecidos nessas ocasiões festivas, foi percebida como exacerbadamente agressiva. Mais frustrante ainda foi a dificuldade encontrada em manter os ideais autonomistas do Somos perante o Estado e, especialmente, os seus agentes de repressão. Afinal, grande parte dos presentes haviam compartilhado do sentido de ameaça perante os “penetras heterossexuais”, corroborando para que o chamado da odiada polícia, feito por uma das integrantes do grupo e moradora do prédio que temia a ocorrência de um quebra-quebra, encontrasse defensores, apesar da percepção geral de um possível desdobramento moralista e repressivo contra os próprios militantes.
Nesse momento, a tensão atingiu níveis altíssimos e, como uma forma de desabafo, alguns dos atores improvisaram um “espaço cênico” embaixo do viaduto na Praça 14 Bis, defronte ao prédio, onde apresentaram a programada cena de “fim de caso”. Foi um comentário inconsciente, mas apropriado para a ocasião. Naquele clima de frustração e agressividade foi enterrada a antiga camaradagem e unidade do Somos. Para muitos, o “casamento com o grupo” acabou, definitivamente, naquela noite.
O “Encontro”
A partir de então, a atenção do grupo começou a ser voltada quase exclusivamente para a organização de um “Encontro”, em que se uniriam discussões organizacionais e uma atividade mais lúdica, como um passeio conjunto, que ajudasse a reviver o espírito de sociabilidade dentro do grupo. Pouco depois da reunião geral, soube-se do arquivamento do processo contra o Lampião, e, a partir de então, o único assunto discutido era a crise do grupo e como resolvê-la. Foram feitas várias tentativas para achar um lugar barato, discreto e grande, adequado para o encontro. Tentou-se obter o uso de sítios, conventos e hotéis, mas tudo sem muito resultado. Nesse meio tempo, foram passando as semanas e o Somos parecia prestes a se esfacelar. O subgrupo lésbico passava por maus momentos, reunindo somente quatro mulheres. Perguntava-se se ele ainda existia. Quase todos os subgrupos de identificação deixaram de funcionar e as atividades alternativas propostas não conseguiam entusiasmar muitas pessoas. Tentou-se levar adiante um grupo artístico e até se cogitou em organizar um recital de poemas homossexuais. Outras formas de realizar as reuniões de identificação usando recursos psicoterapêuticos foram também experimentadas, mas tiveram pouco sucesso. Uma das realizações mais bem-sucedidas, nessa época, foi a feitura do Suruba, um jornalzinho interno do grupo, que seria aberto a todos os interessados e publicaria qualquer texto recebido, sem nenhuma espécie de censura.
Os únicos subgrupos que continuaram a se reunir regularmente eram os de atuação e a comissão de representantes. Mas estes tinham cada vez menos pessoas para representar e chegavam a convocar “representantes” de grupos, que, sabidamente, já não existiam mais, só para aumentar o número de interlocutores. No dia 19 de outubro, perante a constatação de que os dois grupos tinham quase a mesma composição, a comissão de representantes deixou de marcar reuniões, deixando a cargo do subgrupo de atuação a organização do encontro. Porém, esse subgrupo também estava indo mal e uma série de desavenças entre seus integrantes parecia prenunciar um fim iminente para o que sobrava do Somos.
Finalmente, perante a constatação de que o grupo não se aguentaria por muito mais tempo, resolveu-se promover o encontro na USP, deixando-se a ideia de um passeio conjunto para uma outra ocasião. Nos dias 27 e 28 de outubro, reuniram-se, no prédio da Faculdade de Filosofia da USP, vinte e três militantes do Somos, um número muito inferior aos oitenta em que se pensava originalmente. A grande maioria era frequentadores das reuniões do subgrupo de atuação e entre eles só haviam duas mulheres, que insistiam em não serem consideradas representantes do subgrupo lésbico – já então chamado LF – Lésbico Feminista. Mesmo estas, não pouparam críticas ao grupo, alegando que não só as suas reuniões, mas também seus próprios integrantes, eram “chatos”, “autoritários” e “machistas”.
Grande parte do tempo foi dedicado à discussão de duas propostas antagônicas. A maioria dos presentes favorecia uma simples divisão do subgrupo de atuação para a realização de tarefas predeterminadas. Esses novos subgrupos funcionariam ao lado do subgrupo de identificação e cada um enviaria representantes para uma comissão encarregada de coordenar o grupo como um todo. Para evitar o surgimento de novas “cúpulas”, recorria-se, mais uma vez, ao já desacreditado método de rodízio de coordenadores.
Contra essa proposta surgia outra minoritária que argumentava que o Somos deveria desistir de suas pretensões de crescimento constante. Ao invés disso, defendia-se que ele se limitasse a articular e a ajudar na formação de novos grupos homossexuais autônomos, com os quais pudesse estabelecer relações eventuais de colaboração. Esta segunda proposta foi quase unanimemente rechaçada. Mesmo aqueles “anarquistas”, que mais reclamavam da “luta pelo poder”, não concordaram com a proposta, chamando-a de “suicida”. Charlie e os de visão marxista se colocaram claramente contra esta fragmentação proposital, lembrando da necessidade de força numérica e organização, para se poder fazer exigências em nome dos homossexuais.
Finalmente, premidos pela aproximação da hora de abandonar o recinto, os participantes concordaram com uma nova reestruturação dos subgrupos, seguindo de perto a primeira proposta. Os subgrupos de identificação foram rebatizados como “de reconhecimento”, um termo considerado menos homogeneizador, e o subgrupo de atuação fracionou-se, criando novas comissões com tarefas específicas.
Coincidentemente, nesse fim de semana, a USP também era palco de uma manifestação estudantil pela retomada do seu Conjunto Residencial, fechado, em 1968, pelas autoridades militares. Um acampamento estudantil havia sido erguido nos gramados da universidade, próximo ao local em que o Somos realizou um piquenique durante um dos dias do Encontro, sem que houvesse nenhum tipo de confraternização entre os dois grupos de militantes. Apesar dessa falta de comunicação, não deixava de ser significativa a existência de outros movimentos simultaneamente ao Somos. Estes eram, muitas vezes, dirigidos a necessidades mais cotidianas, ligadas ao que os anglo-saxões chamam de life style, que à luta de classes propriamente dita. Questões relacionadas à vida cotidiana e aos costumes ganhavam grande destaque, alcançando status de “política”, e o país parecia tomado por uma onda de liberalismo nesse campo. Durante o verão, por exemplo, sem nenhuma pressão popular que reivindicasse isso, as autoridades das grandes cidades litorâneas, como Rio de Janeiro e Salvador, anunciaram que, a partir de então, seria permitido às mulheres tomarem banho de sol com os seios descobertos. Também nesse ano, durante a viagem para Salvador onde participariam do XXXIº Congresso da UNE, que pela primeira vez ocorria abertamente, depois de anos de clandestinidade, um grupo de estudantes paulistas concebeu a ideia de lançar um movimento de liberação sexual. Este nunca foi muito adiante, mas o fato de se ter cogitado a seu respeito é indício que não eram só os homossexuais que se preocupavam com o assunto. Nesse ano, foi realizado também o Iº Congresso da Mulher Paulista e os grupos feministas começaram a alcançar melhor as mulheres das classes populares, ao lutar pela abertura de mais creches. Nesse clima, as reivindicações do Somos rapidamente ganharam espaço nos meios de comunicação, encontrando um público muito receptivo. Assim, apesar de suas “crises”, o grupo continuou a atrair um considerável número de novos membros.
Nesta ocasião foi publicada também a lista de signatários do abaixo-assinado, reproduzida abaixo:
Clarice Herzog - Plínio Marcos - Luis Gonzaga Jr. - Alberto Guzik -Ivan Lins - Flávio Aguiar - Leyla Perrone Moisés - João Alexandre Barbosa - Antônio Cândido de Mello e Souza - Alfredo Bozi - David Arrigucci Jr. - Walnice Nogueira Galvão - Tereza Pires Vara - Paul Singer - Heloisa Fernandes - Maria Silvia Franco - José Arthur Gianotti - José Alvaro Moisés - Ruth Corrêa Cardoso - Fernando Herinque Cardoso - Luiz Roberto Cardoso de Oliveira - Yara de Homoway - Lúcio Kowarick - Maria Teresa Sadek - Leôncio Martins Rodrigues - Eunice R. Durham - Maria Lúcia Montes - M. Manoela Carneiro da Cunha - José A. Guilhon de Albuquerque - Octávio Ianni- Francisco C. Weffort - José de Souza Martins - Cândido Procópio F. Camargo - Vinícius C. Brant - Gabriel Cohn - Nicete Bruno - Paulo Goulart - Paulo Kein - Fernando Torres - Fernanda Montenegro -David José - Ester Góes - Nilda Maria - José Celso Martinez Correa- Cacilda Lanuza - Juliana Carneiro da Cunha - Sônia Mota - Tato Fischer - Roberto Piva - Altair Lima - Júlio Vilan - Paulo Villaça -Dercy Gonçalves - Bruna Lombardi - Carlos Alberto Ricelli - Fauzi Arap - Pedro Si Agnero - Fernando Peixoto - Ruth Escobar - Juan Oviedo - Luiz H. Galante - Antonio Maschio - Assunta Perez - João José Pompeu - Rafael de Carvalho - Consuelo Leandro - Ismael Ivo- Raúl Raschou - Ruth Raschou - Marilena Ansaldi - Leilah Assunção - Ruthinéa de Moraes - Yolanda Cardoso - José Roberto Freitas - Sônia Loureiro - Imara Reis - Denise del Vecchio - Cláudia Mello - Eugênia de Domênico - Roberto Farina - Irene Ravache -Jacob Klintowitz - Renina Katz - Carlos Ricardo da Silva - Jornal Em Tempo - Jornal Convergência Socialista - Mário Sérgio Conti -Raimundo Rodrigues Pereira - Jornal Versus - Hélio Goldsztejn -Sindicato dos Jornalistas de São Paulo - APEOESP - AGRAF - Júlio Tavares - João Adão de Oliveira - Amílton Monteiro - Fernando Morais - Sérgio Santos - João Batista Breda - Franco Baruselli -Mauro Brosato - Eduardo Matarazzo Suplicy - André Bonassi -Rubens Larz Geraldo Siqueira Filho - Aírton Soares - Wanderley Macris - Almir Pazzianotto Pinto - Goro Hama - Marcos Aurélio Ribeiro - Mareia Porto Pimentel - Maria Cristina de Azevedo Róseo -Maria Aparecida Pinto Silva - José Augusto de Carvalho Junior -Isabel Blemel - Rita de Cássia Vilares - Rodolfo Bontuni - Antônio Carlos Pimentel - Clívio Tavares de Araújo - Celso Nunes - Regina Braga - Maria Bonomi - Cláudio Abramo - Radha Abramo.
Desta lista deixaram de constar um grande número de assinantes de igual expressão social, cujas assinaturas foram arrecadadas de maneira ilegível em uma reunião acadêmica da Unicamp.