A construção da igualdade: política e identidade homossexual no Brasil da "abertura"
Os respeitáveis militantes e as bichas loucas
Os respeitáveis militantes e as
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Durante alguns meses nos anos de 1980 e 1981, um jornal alternativo editado em São Paulo resolveu, por conta própria, convidar alguns militantes do Movimento Homossexual para formarem uma editoria homossexual, prometendo-lhes um espaço mais ou menos regular na sua publicação. Apesar de não terem uma ideia muito clara sobre o que era o Movimento Homossexual no Brasil, os editores daquele periódico procuravam ser coerentes com o seu princípio de apoio às reivindicações das chamadas “minorias” e estavam dispostos a dar bastante respaldo aos seus novos companheiros.
Obviamente surgiram vários problemas, principalmente devido a diferenças nas escalas de prioridades. O jornal, apesar de pretender ocasionalmente ceder espaço para matérias sobre os homossexuais, não era o Lampião e tinha como um de seus objetivos principais a construção do então recém-criado Partido dos Trabalhadores. Além disso, há indícios que sua direção não era totalmente autônoma, devendo prestar contas a uma organização de inspiração trotskista, com ramificações em várias regiões do país, para a qual o jornal servia como uma espécie de porta-voz. Por outro lado, no seio do Movimento Homossexual, acabava de ocorrer uma série de incidentes extremamente penosos e algo decepcionante. Esses haviam resultado do esfacelamento do Grupo Somos-SP, pelo qual muitos, com maior ou menor razão, culpavam a atuação de integrantes de outra entidade trotskista; a Convergência Socialista que, segundo se afirmava na época, teria tentado “atrelar” o grupo à sua organização. Como consequência, instaurou-se no Movimento Homossexual uma profunda suspeita de qualquer tipo de atividade político-partidária. Os novos responsáveis pela editoria homossexual nem mesmo estavam inscritos no Partido dos Trabalhadores, então em campanha para conseguir o número mínimo de filiados que lhe possibilitasse uma existência legal. Mas, apesar de sua posição herética no jornal, eram convidados a participar de todas as reuniões de pauta, onde suas opiniões eram devidamente ouvidas e discutidas.
Todo esse relato está aqui para caracterizar o inusitado grau de boa vontade estendida ao Movimento Homossexual e para caracterizar as divergências que surgiram, não como resultado de mero preconceito heterossexual, mas das dificuldades tanto a nível tático quanto estratégico de um entrosamento da luta dos homossexuais organizados com a militância socialista.
Durante algumas semanas conseguiu-se estabelecer um modus vivendi razoavelmente satisfatório e chegou-se a publicar artigos questionando os papéis sexuais e até a forma tradicional de militância esquerdista. Por exemplo, uma manchete encimando um artigo de página inteira sobre a atuação política das lésbicas organizadas, proclamava: “Chanacomchana”, o primeiro jornal lésbico do Brasil, declara: “Por uma prática de erotizar a subversão”.
Porém, as dificuldades ficaram explícitas quando se quis publicar um artigo enviado pelo Grupo Gay da Bahia, a respeito do 1º Encontro de Homossexuais Organizados do Nordeste. Este artigo, escrito na linguagem comumente usada pelos integrantes do Movimento Homossexual, procurava transmitir não só as reivindicações levantadas, mas também o clima da reunião. A certa altura, eram transcritas as palavras de ordem que haviam sido gritadas durante uma pequena passeata promovida pelos participantes do encontro.
Estas eram frequentemente escandalosas ou aparentemente levianas, como se pode ver pelos seguintes exemplos.
Au, au, au, é legal ser homossexual.
Éte, éte, éte, é gostoso ser gilete.
Ado, ado, ado, ser viado não é pecado.
U, u, u, é gostoso dar o cu.
Ona, ona, ona, é legal ser sapatona.
O coito anal derruba o capital.
Algumas das opiniões dos participantes que foram transcritas pareciam especialmente provocativas às pessoas engajadas em uma militância ortodoxa esquerdista, como a que dizia:
Diversidade não é divisão. É pluralismo, é criatividade. Quanto mais diferente, melhor. Somos pelo show pirotécnico! Pela esculhambação organizada!
Logo de início, ao receberem o artigo, os responsáveis pela editoria homossexual constataram que seria impossível a sua publicação em versão integral devido a problemas de espaço, mas no resumo que fizeram mantiveram algumas das palavras de ordem, como as que diziam que é legal ser homossexual e que é gostoso ser gilete, que consideraram as menos escandalosas. Mesmo assim, os resultados desta autocensura levantaram inúmeras dúvidas entre os outros membros do corpo editorial. Estes, embora dispostos a publicar o artigo por uma questão de democracia interna, não deixaram de dar vários conselhos a respeito da matéria da orientação que estava sendo dada àquela editoria em geral. Alegava-se que a linguagem usada era apropriada a uma publicação voltada a um mercado gay, mas que naquele jornal ela serviria somente para confirmar preconceitos, reforçando a imagem caricatural do homossexual como palhaço e ridículo. Também foi lembrado que alguns leitores já haviam reclamado do espaço excessivo que estaria sendo reservado a essas matérias de importância considerada secundária.
Nesta ocasião, o resumo do artigo acabou sendo publicado, mas provavelmente só porque seu conteúdo tratava de uma importante reunião dos grupos homossexuais do Nordeste, caindo, portanto, na categoria de “militância”, tão cara à direção do jornal. Tivesse ele uma natureza mais reflexiva, discutindo em mais profundidade a questão homossexual, suas dificuldades de aceitação certamente seriam maiores, se persistisse em empregar tal linguagem. Ficou então colocado para os editores homossexuais, de forma bastante clara, as contradições que defrontavam na sua tentativa de levar a discussão da homossexualidade para um campo dominado por uma concepção de política como relacionada primária e quase exclusivamente à luta de classes. Para serem ouvidos e entendidos, pediam-lhes que higienizassem a homossexualidade, reduzindo seus praticantes à categoria mais facilmente assimilável de “grupo oprimido lutando por seus direitos”, conceptualmente não muito diferente de uma associação de favelados talvez lutando pela abertura de uma escola em seu bairro para possibilitar a integração de seus filhos na estrutura social em uma posição mais vantajosa.
Não se deve criticar demasiado o corpo editorial do jornal por isso, pois a atitude que recomendavam foi adotada durante muito tempo pelos próprios batalhadores pelos direitos dos homossexuais. Desde os primórdios daquela campanha, tentou-se mostrar que eles poderiam ser cidadãos tão bons, decentes e integrados quanto os heterossexuais. No século passado chegou-se ao ponto de inventar a ideia de um “terceiro sexo” para o qual a homossexualidade seria “natural”, por ser uma tendência congênita. Mas, ao lado desta aristocracia, homossexual por nascimento, haveria um bando desclassificado de parvenus degenerados, os “pervertidos”, cuja homossexualidade era “adquirida” e, portanto, ilegítima e passível a todo tipo de repressão.
Os militantes homossexuais de então eram realmente bastante respeitáveis, frequentemente escudando suas reivindicações atrás de títulos médicos e quase invariavelmente procurando angariar as simpatias do establishment. Em seu livro de memorias Christopher and his kind, o romancista inglês Christopher Isherwood descreve o contato que ele teve com Magnus Hirschfeld, provavelmente o mais importante dos primeiros militantes homossexuais. Em 1929, visitando o Instituto de Ciência Sexual, alojado em um belo palácio da antiga Berlim, ele se surpreendeu com o clima de seriedade e respeitabilidade do que era então uma espécie de quartel general do movimento homossexual.
O mobiliário era clássico, com pilares e guirlandas, mármores pesados, cortinas solenemente esculturais e gravuras sóbrias. O almoço era uma refeição de decoro e sorrisos graciosos, presidida por uma senhora grisalha de amável dignidade: uma garantia viva de que o sexo naquele santuário era tratado com seriedade. Como não seria? Sobre a entrada do Instituto havia uma inscrição em latim com os dizeres: “Sagrado ao Amor e à Mágoa”. (ISHERWOOD, 1977, p. 15, tradução nossa)
Mas, apesar de toda a sua dignidade, o Instituto não resistiu à ascensão de Hitler e foi o primeiro alvo da campanha nazista contra livros “pouco germânicos” e, já em maio de 1933, foi saqueado e sua biblioteca de 10.000 volumes incinerada em uma fogueira pública junto com um busto do próprio Hirschfeld.
O advento do nazismo e do stalinismo significou o fim de toda militância homossexual até a conclusão da II Guerra Mundial e foi somente em 1948 que se voltou a retomar a campanha por direitos para os homossexuais. Nos Estados Unidos formou-se o Mattachine Society, inicialmente uma organização semiclandestina que, adotando uma linha de moderação e cautela, visava a integração dos homossexuais na sociedade. Seus associados muitas vezes aceitavam a noção da homossexualidade ser uma doença, frequentemente adotavam pseudônimos e enfatizavam a sua respeitabilidade. A própria palavra “homossexual” era rejeitada devido à sua ênfase no “sexual” e outros neologismos eram adotados como “homófilo” e “homoerótico”. Esta postura aparentemente tímida pelos padrões atuais é bastante compreensível, se levarmos em conta a natureza repressiva da sociedade americana de então, e a ameaça constante que o macartismo representava para qualquer atuação política mais radical. Em outros países também começaram a surgir grupos similares, como o Arcadie da Franca, o Forbundet 48 da Dinamarca, o COC da Holanda, etc.
Porém, no final da década de 60, depois do aparecimento do movimento hippie e da contracultura, após os eventos de maio-junho de 68 em Paris, surgiu o Gay Liberation Front, nos EUA, advogando uma postura muito mais radical e questionadora da sociedade. Para caracterizar a ruptura que ele representou com os métodos tradicionais de militância; basta lembrar que o marco simbólico de seu aparecimento foi uma batalha de três noites, travada por homossexuais, incluindo muitos travestis e prostitutos, contra a polícia no gueto gay de Nova York em junho de 1969. A luta foi bastante violenta e os homossexuais, além de evidenciar uma fúria inusitada contra seus tradicionais repressores, também gritaram palavras de ordem insólitas para a época, como:
Poder Gay
Sou bicha e me orgulho disso
Eu gosto de rapazes, etc.
Poucos meses depois, o Gay Liberation Front, já mais estruturado, lançaria seu próprio jornal, chamado Come Out – que pode ser traduzido como Assuma-se – e consagraria o dia 28 de junho como o “Dia de Orgulho Gay”.
O exemplo de Nova Iorque logo foi seguido em outras partes dos Estados Unidos, e também na Europa, onde surgiram grupos radicais que, além de adotarem táticas de luta muito mais diretas e às vezes violentas, tinham reivindicações qualitativamente diferentes. Indo muito além de uma exigência por direitos civis, desprezavam os “homófilos” por desejarem uma integração à sociedade existente. Eles exigiam uma mudança radical na própria sociedade, preconizando a abolição das diferenças entre os papéis sexuais desempenhados pelo homem e pela mulher, juntamente com os padrões estereotipados de masculinidade e feminilidade. Até mesmo a dicotomia hetero/homossexual foi criticada, advogando-se a bissexualização da sociedade. Procurava-se acabar com a sociedade dos “normais”, incorporando às táticas de agressão e aos padrões e valores estabelecidos a desmunhecação e outros comportamentos homossexuais extremamente estereotipados, em alguns casos, adotando o travestismo.
O uso da desmunhecação e do escândalo, por parte de militantes homossexuais, é suscetível de várias abordagens e, dada a frequência de sua recorrência, não pode ser ignorado em qualquer abordagem mais aprofundada do tema da militância homossexual. Uma das formas interessantes e produtivas de encarar o fenômeno é vê-lo à maneira de Goffman (1968), como uma tática para lidar com uma identidade estigmatizada.
Como ele nos mostra, o indivíduo estigmatizado, além das outras dificuldades inerentes à sua condição específica, ainda está sujeito a um permanente bombardeio de “conselhos” sobre como portar-se e como encarar a sua identidade. Porém, esses conselhos, parecidos com os dados aos responsáveis pela editoria homossexual do jornal esquerdista mencionado anteriormente, são geralmente contraditórios, enfatizando, ao mesmo tempo, a necessidade do estigmatizado se integrar na sociedade tão bem quanto possível e a importância dele não tentar negar o seu estigma e o grupo de estigmatizados ao qual pertence. Dependendo da forma como ele resolve esta charada o indivíduo será então julgado “alienado” ou “autêntico”. (GOFFMAN, 1968, p. 135) Mesmo que ele queira ignorar o seu estigma, sempre lhe é cobrado um posicionamento e, portanto, torna-se compreensível, especialmente da parte de indivíduos mais auto afirmativos, um comportamento que, ao menos ocasionalmente, enfatize a condição estigmatizada. Outros indivíduos poderão optar por um modo de ação contrário, adotando uma prática de camuflagem de sua condição estigmatizada. Mas Goffman (1968) nos chama a atenção para o fato de que muitas vezes se espera que o indivíduo se identifique com o agregado de seus companheiros de infortúnio porque este é considerado o seu grupo verdadeiro, aquele ao qual ele pertence naturalmente. Todas as outras categorias ou grupos, aos quais o indivíduo também pertence, não são considerados como realmente seus. Ele não é um deles. Portanto em termos de sua identidade de ego, ou seja, a forma como ele deveria se avaliar, a posição da camuflagem pode ser demasiadamente penosa. (GOFFMAN, 1968, p. 139)
Já vimos como os participantes do Encontro de Homossexuais Organizados do Nordeste, de 1981, adotaram atitudes estereotipadas como maneira de marcar sua presença. Essa prática está também presente em todos os grupos de militância homossexual que eu já tive a oportunidade de ver atuando no Brasil. A propósito, durante uma passeata promovida em 1980 para protestar contra a repressão policial em São Paulo, um dos slogans
mais repetidos era: “Agora, já, queremos é fechar”.2 Igualmente, durante bastante tempo entre os grupos de São Paulo, discutiu-se o esvaziamento da conotação pejorativa da palavra “bicha” que passou a ser usada pelos militantes para se referirem uns aos outros.
O que estaria ocorrendo aqui é a recuperação, por parte de militantes, das práticas e de uma linguagem corrente em certos meios homossexuais mais imediatamente visíveis. Sua negação ou reprovação seriam mais uma forma de reprimir os gays mais arrojados e “escandalosos” que, embora de modo até agora desorganizado e pouco teorizado, representariam a ponta de lança da afirmação homossexual. Essa política, porém, é alvo de muitas críticas por parte daqueles que receiam uma nova normatização da homossexualidade. Mas Foucault pode ser invocado aqui para nos ajudar a clarear nossos pensamentos sobre o assunto quando ele discute a polivalência tática dos discursos que, segundo ele, devem ser entendidos como uma multiplicidade de elementos discursivos capazes de entrar em estratégias diferentes. Como ele diz: “É preciso admitir um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito do poder, e também escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta”. (FOUCAULT, 1979, p. 96)
Portanto, seguindo sua lógica, reforçar novas categorias ou identidades não é simplesmente normatizar, mas também pode ser uma tática inteligente de resistência para fazer valer as reivindicações de um discurso geralmente desqualificado.
Existe também uma outra discussão possível da questão, informada em parte pela releitura de Freud como a feita por Guattari. Ele fala sobre uma trupe teatral francesa As Mirabelles (GUATTARI, 1981,
p. 43), bastante semelhante aos Dzi Croquetes brasileiros. Usavam o travestismo não somente para imitar mulheres mas para perturbar o espectador, questionando suas ideias recebidas a respeito da feminilidade e da masculinidade de uma forma análoga, embora talvez, mais trabalhada, à “fechação” de alguns militantes homossexuais. Segundo ele, aquela trupe de travestis coloca uma nova questão que não é mais a de saber se vamos desempenhar o papel feminino contra o masculino, ou o contrário, e sim fazer com que os corpos, todos os corpos, consigam se livrar das representações e dos constrangimentos do “corpo social”, bem como das posturas, atitudes e comportamentos estereotipados, da “couraça” de que falava Wilhelm Reich.
Para Guattari (1981) o movimento operário e revolucionário estaria atualmente esclerosado, devido à sua postura de surdez perante os verdadeiros desejos do povo e esta situação só poderia ser remediada se nós pudermos nos colocar à escuta de nosso próprio desejo e daquele de nosso entorno mais imediato. O efeito da atuação das Mirabelles como também o da “fechação” seria então o de explorar, impulsionados pelo nosso desejo, o caminho que nos remete a nossos corpos, um devir-OUTRO, um tornar-se diferente daquilo que o corpo social repressivo nos destinou autoritariamente. Guattari vai mais além na sua formulação e levanta também a ideia de que, embora não se pretenda substituir a luta de classe pelas lutas do desejo, mesmo assim os pontos de junção entre elas trarão àquelas uma energia inimaginável.
Mieli, um antigo militante do movimento homossexual italiano, sustenta posições parecidas. Para ele, os homossexuais, com sua presença, revelam um dos mistérios fundamentais do mundo – a “trans-sexualidade”. Ele explica o termo da seguinte forma:
Neste livro denominarei ‘trans-sexualidade’ a disposição erótica polimorfa e ‘indiferenciada’ infantil, que a sociedade reprime e que, na vida adulta, todo ser humano carrega consigo em estado de latência ou mantida confinada nos abismos do inconsciente sob o jugo do bloqueio. O termo ‘trans-sexualidade’ me parece mais idôneo para expressar ao mesmo tempo a pluralidade das tendências do Eros e o hermafroditismo originário e profundo de cada indivíduo. (MIELE, 1979, p. 25, tradução nossa)
Segundo Mieli (1979), a importância da “trans-sexualidade” revelada pelos homossexuais pode ser aquilatada pelo grau de repressão que eles têm sofrido. Hoje o capital estaria tentando estender seu domínio sobre o inconsciente, permitindo que ele apareça em determinadas formas sublimadas e domesticadas. Mas esta pseudoliberalização das chamadas “perversões”, além de ter fins econômicos imediatos, teria um efeito muito mais importante, favorecendo a submissão de toda a vida humana ao capital. Portanto Mieli recomenda que se assumam posições extremas e intransigentes pela “liberação - conquista de qualquer aspecto do nosso ser-em-devir”. (MIELE, 1979, p. 146) Isto implicaria que os homossexuais devem se libertar do sentimento de culpa, a fim de difundir o homoerotismo e induzir os heterossexuais absolutos a descobrir a sua homossexualidade. Dessa forma, contribuiriam, através do confronto e do choque dialético entre a tendência sexual da minoria e a da maioria, para a conquista da trans-sexualidade a que remete a profunda natureza polissexual do desejo. A severidade da repressão sofrida por eles seria evidência de que a maior ameaça apresentada ao sistema constituído era a sexualidade.
Mas as colocações categóricas, tanto de Guattari, quanto de Mieli, às vezes parecem demasiadamente otimistas sobre o efeito revolucionário do travestismo e da fechação. A suposição de Guattari de que uma “energia inimaginável resultaria dos pontos de junção da luta de classes e das lutas do desejo” é frequentemente posta em questão pelo caos e desânimo que rondam os grupos feministas e homossexuais quando estes tentam fazer esta síntese: “Até o potencial perturbador do travestismo é suscetível de ser cooptado pelo status quo”.
Durante a campanha eleitoral de 1982, ele foi até usado pelo conservador PDS de São Paulo em showzinhos de fim de semana, organizados pela municipalidade e realizados no coreto da Praça da República, uma região frequentada por migrantes e outros membros de setores marginalizados do centro de São Paulo. A alegação de Mieli de que o potencial revolucionário dos homossexuais, especialmente dos mais escandalosos, pode ser avaliado a partir de repressão que lhes é movida pela sociedade, também deve ser questionada por ser demasiadamente mecânica a relação “repressão social” = “perigo para o sistema”. Seguindo esta lógica, teríamos que considerar como perigosíssimos à ordem estabelecida um grupo como o dos ciganos, constantemente enxotados de seus locais de acampamento e vítimas de constante repressão policial. Os menores abandonados e os indigentes que se abrigam embaixo dos viadutos das nossas grandes cidades também teriam que ser considerados de altíssima periculosidade, uma vez que parecem suscitar brutais reações repressivas, por parte de policiais, que frequentemente chegam a assassinatos. Feitas essas restrições, concordamos que estes personagens mais escandalosos certamente são dotados de um poder de inquietação que força aqueles ao seu redor a questionarem uma ampla gama de atitudes preconcebidas.
Talvez o mais importante alvo deste questionamento seja a concepção de que haveria um substrato de “naturalidade” para os padrões de masculinidade e feminilidade. Susan Sontag escreveu na década de 60 um artigo seminal chamado Notes on camp que deslanchou toda uma discussão sobre o tema. Lá ela diz que camp – um termo difícil de traduzir, mas equivalente, a grosso modo, ao nosso “fechação” ou “bichice” – seria uma sensibilidade, um tipo de esteticismo, uma forma de ver o mundo como um fenômeno estético, mas não em termos de beleza e sim em termos do grau de artifício e estilização. (SONTAG, 1966) Esta forma de percepção do mundo seria uma decorrência da condição de oprimido do homossexual, que torna possível que ele enxergue a natureza artificial de categorias sociais e a arbitrariedade dos padrões de comportamento. A forca do camp repousa em grande parte no seu humor corrosivo e iconoclasta, disposto a ridicularizar todos e quaisquer valores. Por exemplo, por ocasião da visita do Papa ao Brasil, nos meios homossexuais a solenidade da ocasião era frequentemente esvaziada através de referências ao luxo dos “modelitos” envergados por aquele digno personagem, e quando ele descia do avião, as bichas mais tresloucadas demonstravam séria preocupação que ele pudesse “quebrar seu salto alto” e pôr todo o espetáculo a perder. É neste sentido que Sontag (1966) aponta o camp como sendo um “solvente moral”.
Frequentemente esse tipo de atuação “fechativa” é criticado por militantes mais sérios dos movimentos homossexual e feminista que dizem que, além de ser uma reprodução de estereótipos, ele não leva a nenhuma mudança, seu humor funcionando mais como uma forma de anestesia. O padrão de masculinidade seria mantido como um ponto fixo em relação ao qual as mulheres e os homossexuais masculinos emergiriam como “aquele que não é masculino”.
O que provavelmente mais irrita aqueles militantes é a falta de seriedade da “fechação”, pois quando todos os valores se tornam objetos de zombaria; nem a própria militância escapa. Como Goffman (1968) nos lembra, quando um grupo estigmatizado resolve lutar por direitos, as reivindicações e as estratégias que propõe são todas partes do idioma e dos sentimentos usados pela sociedade como um todo.
Seu desdém por uma sociedade que os rejeita só pode ser entendido nos termos em que aquela sociedade concebe o orgulho, a dignidade e a independência. Em outras palavras, a menos que ele possa recorrer a uma cultura estrangeira, quanto mais ele se separa estruturalmente dos normais, mas ele se torna culturalmente parecido com eles. (GOFFMAN, 1968, p. 139)
Como exemplo desse processo, é relevante notar aqui que ocasionalmente os próprios militantes homossexuais têm insistido que a homossexualidade é tão saudável quanto outras orientações sexuais, sem se aterem ao fato de que o conceito “saudável” remete à discussão da sexualidade mais uma vez ao foro médico-psiquiátrico, que eles tanto rechaçam.
Por ridicularizar todos os valores da sociedade, a “fechação” parece roubar os militantes de pontos de apoio para as suas reivindicações e talvez seja essa a chave para a compreensão do seu poder, que está além da militância social e, em um nível existencial profundo, nos remete ao aspecto lúdico de nossa existência. Guattari (1981) nos diz que As Mirabelles não pretendem ser levadas a sério – suas palavras de ordem são: crise monetária e travesti, bananas e travesti [...]. E parece salutar apontar, através do deboche, para o componente ridículo e absurdo da militância que, ao se opor aos padrões existentes de comportamento sexual, frequentemente determina novos modos e paradigmas que podem tornar-se tão opressivos quanto os velhos. Talvez essa seja uma forma de evitar o surgimento de novos tiranetes.
Sempre haverá aqueles que lembrarão que a luta é séria, que travestis são regularmente torturados e mortos e que muitos homossexuais são desrespeitados em sua dignidade humana. Eles têm razão e a luta por melhores condições de existência sempre é válida. Porém, é bom que fique sempre lembrado que seus novos valores também são arbitrários e não são de nenhuma forma “naturais”. Aliás, como dizia, se não me engano, Oscar Wilde: “A naturalidade é uma pose tão difícil de se manter”.
Referências
ISHERWOOD, C. Christopher and his kind. Nova York: Avon Books, 1977.
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
GOFFMAN, E. Stigma: notes on the management of spoiled identity. Londres: Penguin Books, 1968.