A Dama e o Unicórnio
Capítulo III
PARIS E CHELLES
Páscoa de 1491
NICOLAS DÊS INNOCENTS
Eu achava que nunca mais veria as tapeçarias nem os desenhos delas. Quando faço uma miniatura, enfeito um escudo ou desenho um vitral, só vejo o trabalho enquanto o estou fazendo. O que acontece com eles depois não me interessa. Nem sequer penso neles; trato de fazer outra miniatura, decorar a porta de uma carruagem, pintar uma Madona com o Menino para uma capela, ou um brasão num escudo. Sou assim também em relação às mulheres: pego uma e me divirto, depois outra e me divirto.
Não penso mais nelas depois.
Não, isso não é totalmente verdade. Há uma mulher na qual penso o tempo todo, embora não a tenha possuído.
Aquelas tapeçarias de Bruxelas ficaram na minha cabeça por muito tempo. Lembrava delas nas horas mais estranhas: quando via um buquê de violetas numa banca do mercado na rue St Denis, ou sentia o cheiro de uma torta de ameixas saindo por uma janela aberta, ou ouvia os monges cantando as Vésperas na Notre Dame, ou mastigava um cravoda-índia num assado. Certa vez, quando estava com uma mulher, pensei de repente se o leão da cena do Tato não havia ficado muito parecido com um cachorro e murchei na mão da moça como uma alface velha.
Esqueço logo quase todos os trabalhos, mas lembro de vários detalhes dos cartões: as longas mangas de cor laranja do vestido da criada, na Audição; o macaco de corrente no pescoço, no Tato; o vento levantando o lenço de cabeça da Dama, no Paladar; o escuro por trás do unicórnio refletido no espelho, na "visão.
Consegui provar alguma coisa com aqueles desenhos. Léon Lê Vieux, tratava-me agora com mais respeito, quase como se fôssemos iguais, e não um comerciante rico tolerando um mau pintor. Eu continuava fazendo miniaturas, mas ele passou a trazer encomendas de tapeçarias de outras famílias nobres. Espertamente, ficou com as pinturas que fiz das seis Damas- deu uma desculpa para não entregá-las a Jean Lê Viste, embora pertencessem ao cliente. Léon mostrava as pinturas para os Monseigneurs que, por sua vez, comentavam com outros nobres, e assim passei a receber mais encomendas de tapeçarias. Fiz outras com unicórnios, às vezes sozinhos no bosque, outras sendo caçados ou ao lado de uma Dama, embora tomasse sempre o cuidado de fazê-las diferentes das Damas Lê Viste. Léon estava satisfeito.
- Veja como as pessoas se entusiasmam apenas com os desenhos - ele dizia. - Imagina como vão ficar quando virem as tapeçarias dependuradas na Grande Salle de Jean Lê Viste: você vai ter trabalho pelo resto de seus dias.
E com o dinheiro no bolso, Léon deveria acrescentar. Mas eu estava contente: se as coisas continuassem assim, nunca mais teria de pintar um escudo ou uma porta de carruagem. Um dia, fui à casa de Léon discutir a encomenda de uma nova tapeçaria - não de unicórnios, mas de falcoeiros caçando no campo. Léon vive muito bem de suas comissões nas encomendas. Tem uma casa grande perto da rue dês Rosiers, com um aposento só para trabalhar. Espalhados pela sala há lindos objetos de lugares distantes - baixelas de prata gravadas com letras esquisitas, caixas para especiarias em filigrana do Oriente, espessos tapetes persas, arcas de teca com entalhes de madrepérola. Olhei em volta, lembrei do meu quarto simples em cima do Lê Coq d'Or e fiquei sério.
Provavelmente já devia ter ido a Veneza, pensei. Provavelmente já devia ter ido a todo canto.
E achei que algum dia eu também ganharia o bastante para ter aqueles lindos objetos.
Enquanto falávamos da encomenda, desenhei as asas e a cauda de um falcão Depois larguei o carvão, recostei-me na cadeira e anunciei: - Já que a temperatura melhorou, acho que termino esse desenho e vou viajar.
Estou cansado de Paris.
Léon também se recostou.
- Aonde vai?
- Não sei. Uma peregrinação, talvez.
Léon revirou os olhos, sabia que eu não era muito de freqüentar a igreja.
- Verdade - insisti. - Quero ir ao Sul, a Toulouse, a Lurdes. Talvez percorra todo o caminho de Santiago de Compostela.
- O que você espera encontrar num lugar desses? Dei de ombros.
- O que se encontra ao fazer uma peregrinação. - Só não disse que jamais havia feito uma. - Mas acho que você não entende muito disso -acrescentei, para provocá-lo.
Léon não se incomodou com a brincadeira.
- Uma peregrinação é uma longa viagem para uma Pequena recompensa. Pensou nisso?
Pense nas encomendas que você terá de recusar só para ver pouca coisa. Um pouquinho do todo.
- Não estou entendendo aonde você quer chegar.
- Estou falando dessas relíquias que os peregrinos viajam para ver. Toulouse não guarda uma lasca da cruz de Nosso Salvador? Quanto de uma cruz você pode ver numa lasca? Você verá e se desapontará!
- Eu não me desapontaria - insisti. - Estranho você não ter feito uma peregrinação, como bom cristão que é.
Peguei uma das caixas de prata para especiarias. O esmerado trabalho em filigrana tinha uma tampa com dobradiças e cadeado.
- De onde veio isso? - perguntei.
- De Jerusalém.
Fechei os olhos. - Talvez eu deva ir lá. Léon riu alto.
- Gostaria de ver isso, Nicolas dês Innocents. Ttens, você está falando em viajar. As estradas de Paris a Bruxelas agora estão boas, e um comerciante comentou comigo das suas tapeçarias. Deu uma passada no ateliê de Georges para mim.
Léon e eu não falávamos daquelas tapeçarias há meses. No começo do Advento, as estradas estavam ruins demais para alguém ir facilmente de Paris a Bruxelas.
Léon não tinha mais ouvido falar delas e eu parei de perguntar. Coloquei no lugar a caixa de especiarias.
- O que disse o comerciante?
- Os tecelões terminaram as duas primeiras cenas depois do Natal e começaram as duas seguintes no Dia de Reis, aquelas duas grandes. Mas estão atrasados porque duas pessoas adoeceram.
- Quem?
- Georges Lê Jeune e um dos tecelões que contrataram. Já estão melhor, mas perderam tempo.
Senti um alívio ao saber que não havia sido Aliénor. E me surpreendi. Peguei o carvão e desenhei a cabeça e o bico do falcão.
- Como ficaram as tapeçarias?
- Georges mostrou a ele as duas primeiras, a Audição e o Olfato, e o comerciante disse que estavam ótimas.
Acrescentei um olho na cabeça do falcão.
- E as duas que estão fazendo agora? Como estão?
- Estavam fazendo o cachorro que fica na cauda do vestido da Dama, no Paladar. E já estão fazendo a criada em À Mon Seul Désir. Claro que só se pode ver uma tira do que estão tecendo. Uma pequena parte do todo -acrescentou ele, sorrindo.
Tentei lembrar os detalhes dos desenhos. Conhecia, de tanto tempo, tão bem os desenhos, que conseguia desenhá-los de olhos fechados. Estranhei que eu tivesse esquecido um cachorro sentado ao lado do vestido da Dama.
- Léon, me dê as pinturas, quero dar uma olhada nelas. Léon riu.
- Faz tempo que você não pede para vê-las - disse ele, pegando as chaves no cinto e abrindo a arca de teca. Tirou os desenhos e colocou-os na mesa.
Olhei o cachorro, no Paladar, e calculei quanto tempo os tecelões levariam para chegar ao rosto da Dama. O rosto de Claude.
Há meses eu não via Claude Lê Viste. Não estivera mais na casa da rue du Four depois que voltara de Bruxelas, no verão. Não fizeram outras encomendas, e a família estava no castelo perto de Lyon. Na Festa de São Miguel, soube que tinham voltado e passei algumas vezes por SaintGermain-des-Prés, esperando ver Claude.
Um dia eu a vi com a mãe e as damas de companhia na rue du Four. Quando passaram, fui acompanhando pelo outro lado da rua, esperando que ela me visse.
E viu. Parou como se tivesse estacado. As damas ficaram dos lados de ambas até só restar ela e Béatrice na rua. Claude fez sinal para a dama e abaixou-se como se fosse arrumar os sapatos. Deixei uma moeda cair perto e também me abaixei para pegá-la, e, nesse instante, sorrimos um para o outro. Não ousei tocar nela, pois um homem da minha situação não pode tocar numa moça na rua.
- Tentei ver você - sussurrou Claude.
- E eu a você. Vai à minha casa?
- Vou tentar, mas...
Antes que ela pudesse terminar ou eu dizer aonde morava, Béatrice e o mordomo que a acompanhavam correram até nós.
- Vá embora, antes que Dame Geneviève o veja! - disse Béatrice, ríspida.
O mordomo me empurrou para longe de Claude, que continuou abaixada, com os olhos claros me seguindo pela rua.
Depois disso, eu a vi umas duas vezes de longe, mas não pude fazer nada. Afinal, tratava-se de uma nobre e eu não devia ser visto com ela na rua. Embora tivesse vontade de tê-la na minha cama, achava que não conseguiria passar pela vigilância das damas. Saí com outras mulheres, mas nenhuma me agradava. Toda vez eu acabava concluindo que não estava totalmente vazio, como um caneco que ainda tinha um gole de cerveja no fundo. Ao ver a Dama, do Paladar, senti a mesma coisa. Não bastava.
Léon mostrou as pinturas.
- Un moment - pedi, pegando a cena de À Mon Seul Désir, onde a Dama segura as jóias. Ela estava colocando ou tirando as jóias? Eu nunca tinha certeza.
Léon estalou a língua e cruzou os braços.
- Não quer olhar? - perguntei. Ele deu de ombros. -Já vi todas.
- Você não gosta delas, embora as elogie tanto para os outros - observei.
Léon pegou a caixinha de especiarias que eu havia examinado e colocou-a numa prateleira ao lado das outras.
- São boas para vender. E vão fazer com que a Grande Salle de Jean Lê Viste fique um aposento onde valha a pena dar recepções. Mas, realmente, suas Damas não me seduzem. Prefiro coisas úteis: pratos, arcas, castiçais -disse.
- As tapeçarias também são úteis, escondem as paredes ásperas e deixam os aposentos mais quentes e mais bonitos.
- É verdade. Mas, para a minha casa, prefiro desenhos meramente decorativos, como esse. - E apontou para uma pequena tapeçaria dependurada numa parede que tinha apenas millejleurs, sem pessoas ou animais. - Não quero Damas num mundo onírico, embora para você elas talvez sejam reais.
Gostaria que fossem, pensei. - Você é muito pé no chão.
Léon inclinou a cabeça de lado. - Sou assim. E é assim que vivemos. Vai desenhar alguma coisa agora ou não? perguntou, juntando as pinturas.
Rápido, desenhei falcões atacando uma garça, enquanto homens e damas olhavam, e cachorros corriam ao fundo, deixando um grande espaço a ser preenchido com millejleurs.
Já tinha desenhado tantas tapeçarias que conseguia fazê-las com facilidade.
Graças ao jardim de Aliénor, eu conseguia desenhar até as millejleurs com precisão.
Léon ficou me olhando desenhar. As pessoas costumam fazer isso, acham que desenhar é uma coisa mágica, como uma atração na feira. Para mim sempre foi fácil, só que a maioria das pessoas pega num carvão para desenhar como se estivesse segurando um toco de vela.
- Você aprendeu bastante nesses meses - avaliou ele. Dei de ombros. - Eu também posso ser pé no chão.
Naquela noite, sonhei com uma tira de tapeçaria que tinha o rosto de Claude, e acordei excitado.
Há muito isso não acontecia. No dia seguinte, achei um motivo para ir a SaintGermain-des-Prés: um amigo que morava lá poderia me dar mais informações sobre a caça com falcões. Claro que eu podia perguntar a alguém na rue St Denis, mas assim me dava a oportunidade de passar pela rue du Four e olhar a casa dos Lê Viste. Também fazia tempo que não passava por lá. As janelas estavam fechadas, embora a Páscoa mal tivesse passado e fosse pouco provável que eles já se encontrassem em Lyon. Esperei, mas ninguém saiu nem entrou.
Meu amigo também não estava em casa e fiquei caminhando. Atravessei os muros da cidade na porta de St Germain, passei pelas barracas do mercado em volta dos muros e então vi uma mulher conhecida, olhando atenta alguns pés de alface. Não estava mais tão gorda.
- MarieCéleste! - chamei, sem saber que ainda lembrava seu nome.
Ela se virou e me olhou sem surpresa quando me aproximei.
- O que quer? - perguntou.
- Ver seu sorriso.
MarieCéleste resmungou e virou-se de novo para as alfaces.
- Essa aqui está com as folhas queimadas - disse para o vendedor.
- Então pegue outra - resmungou ele.
- Está fazendo compras para os Lê Viste? MarieCéleste mexeu nas alfaces, a boca crispada.
- Não trabalho mais lá, você deveria saber.
- Por que saiu?
- Tive de sair para ter o bebê. Claude disse que ia falar com a patroa, mas, quando voltei, tinha outra criada no meu lugar e a patroa não queria mais saber de mim.
Ao ouvir o nome de Claude, estremeci de desejo. MarieCéleste me olhou e tentei pensar em outra coisa.
- Alors, como está o bebê?
Ela parou de mexer nas alfaces, voltou a mexer de novo e respondeu: -Entreguei a menina para as freiras no convento. Pegou uma alface e a sacudiu.
- O quê? Por que fez isso?
- Tinha de trabalhar para sustentar minha mãe. Ela está muito velha e doente para cuidar de um bebê. Eu não podia fazer outra coisa. E nem sequer tinha aonde trabalhar.
Fiquei calado, pensando numa filha em algum lugar, cuidada por freiras, Não era o que esperava de qualquer filho que pudesse ter.
- Que nome você deu à menina?
- Claude.
Dei um tapa tão forte na cara de MarieCéleste que a alface voou da mão dela.
-Holà! Deixou cair, paga! - gritou o vendedor de alfaces.
MarieCéleste começou a chorar, pegou a cesta de compras e correu.
- Pega a alface no chão! - gritou o vendedor.
Peguei a alface, que estava com as folhas se soltando, coloquei-a em cima das outras e corri atrás dela. Quando alcancei MarieCéleste, ela estava com o rosto afogueado de correr e chorar ao mesmo tempo.
- Por que lhe deu esse nome? - perguntei, agarrando o braço dela.
Ela balançou a cabeça e tentou se desvencilhar de mim. Juntou gente em volta: num mercado, qualquer coisa é atração.
- Vai bater nela outra vez? - quis saber uma mulher. Se vai, espere minha filha voltar para ver!
Empurrei MarieCéleste para longe das pessoas até chegarmos num beco. Os vendedores jogavam lá restos do mercado: repolhos velhos, peixes podres, estrume de cavalo.
Um rato passou correndo enquanto eu a empurrava pela pilha de mercadorias estragadas.
- Por que deu esse nome a minha filha? - perguntei, dessa vez mais baixo. Era estranho usar a palavra filha.
Maríe-Céleste me olhou magoada. Tinha parado de chorar. Seu rosto flácido parecia um bolo com duas passas enfiadas no lugar dos olhos, os cabelos pretos escapando da touca. Perguntei-me por que havia ido para a cama com ela.
- Prometi a Claude que daria esse nome; ela foi tão gentil ao se oferecer para falar com a patroa! Mas não falou. Quando procurei Dame Geneviève, elajurou que Mademoiselle não lhe havia dito nada. A patroa pensou que eu tinha ido embora para casa, e pronto. Então, o bebê ficou com o nome dela por nada, depois de tudo que fiz por Mademoiselle quando pequena. Ainda bem que consegui outro trabalho com os Belleville, uma família na rue dês Cordeliers. Não são tão ricos quanto os Lê Viste, mas serve. As vezes até convidam as Lê Viste para uma visita.
- As Lê Viste freqüentam a casa onde você trabalha?
- Quando elas aparecem, fico bem longe. - MarieCéleste recuperara-se do tapa.
Olhou o beco e sorriu. Nunca pensei em vir parar num beco outra vez com você.
- Quais são as Lê Viste que aparecem nas visitas? Apenas Madame Geneviève ou ela vai com as filhas?
- Claude costuma vir com a mãe. Gosta de encontrar uma filha dos Belleville da idade dela.
- Elas sempre vão lá?
MarieCéleste franziu o cenho como a velha que um dia seria - O que isso interessa a você? Dei de ombros.
- Só por curiosidade: como você sabe, trabalhei para Monseigneur Lê Viste e fiquei imaginando como devem ser as mulheres da família.
Um olhar sagaz mostrou-se no rosto de MarieCéleste.
- Você deve estar querendo ir lá me ver, não é? Fiquei pasmo com aquela pergunta e que ela estivesse flertando comigo depois de tudo que havia acontecido. Mas ela poderia ser útil.
Sorri e tirei uma pena de ave que tinha ido parar no ombro dela.
- Pode ser - respondi.
Quando ela passou a mão em mim, fiquei imediatamente excitado, e o rosto dela, menos sem graça e mais corado. com a mesma rapidez com que me tocou, ela tirou a mão.
- Tenho de voltar, venha me ver um dia. - E descreveu como era a casa na rue dês Cordeliers.
- Pode ser que eu vá quando as Lê Viste também forem. Assim poderei dar uma olhada nelas e satisfazer a minha curiosidade - acrescentei.
- Se quiser. Enfait, elas irão lá depois de amanhã, ouvi a patroa dizer.
Era fácil demais. Assim que MarieCéleste foi embora, balançando a cesta de compras, fiquei pensando o que ela esperava conseguir nesse encontro, além de um instante de prazer entre as pernas. Não pensei por muito tempo. Iria ver Claude Lê Viste e isso era o bastante.
Claro que estava fácil demais. MarieCéleste não era tão bondosa assim.
A casa dos Belleville realmente não era tão grande quanto a dos Lê Viste. Tinha dois andares e algumas janelas envidraçadas, mas ficava espremida entre outras casas, e uma parte do madeirame estava podre. Fiquei prestando atenção enquanto esperava MarieCéleste do outro lado da rua, pensando se veria Claude chegar.
Não imaginava como poderia falar com ela a sós, já que estaria com a mãe e Béatrice, além das damas da casa. E eu ainda teria de possuir MarieCéleste só para me livrar dela.
Meu plano era apenas ficar alerta e dar uma olhada. Pelo menos tentaria ver Claude num instante para marcar outro encontro. Cheguei a pagar um homem para escrever um bilhete para mim: Claude sabia ler, embora eu não soubesse. O homem zombou de minhas palavras, mas acabou escrevendo. Os homens são capazes de fazer quase qualquer coisa em troca de umas moedas.
MarieCéleste abriu a porta da frente, olhou e fez sinal para mim. Corri e entrei na casa, sorrateiro. Ela me fez passar por um aposento, depois por outro com tapeçarias nas paredes (embora fosse escuro demais para enxergá-las direito), em seguida pela cozinha, onde o cozinheiro me olhou, agachado ao lado de uma panela no fogo.
- Não faça barulho, senão vai dar problema - resmungou ele.
Eu não lembrava se MarieCéleste era barulhenta quando abria as pernas, mas continuei seguindo-a e olhei o cozinheiro quando saíamos pela porta dos fundos.
- Idiota! -xingou ele, entredentes.
Não tive tempo de entender o aviso latente no xingamento. Cheguei ao jardim dos fundos e ouvi alguma coisa atrás de mim no mesmo instante em que me deram um soco na cabeça que me fez ver estrelas.
Parei e, sem ver quem me atacava, levei um chute nas costas e caí no chão. O homem, então, passou a me chutar dos lados e na cabeça. Consegui olhar para cima, com sangue escorrendo dos olhos, e vi MarieCéleste em pé, com os braços cruzados.
- Cuidado com a roupa lavada! - disse ela para o homem que eu não conseguia ver.
Tarde demais: o lençol atrás de mim já estava com espirros de sangue.
Consegui gemer antes de o homem me dar outro chute. Fez-se um estranho silêncio, só ouvi o som dos socos e dos sapatos de MarieCéleste no chão, mudando o peso do corpo de um pé para outro. Enrosquei-me como uma bola, tentando proteger as vísceras e receber os socos nas costas. Depois de dois chutes na cabeça, tudo escureceu.
Quando acordei, ouvi uma espécie de guincho alto, como de um coelho pego numa armadilha. Por que MarieCéleste está fazendo esse ruído?, pensei, - Fique quieto - murmurou ela, e percebi que o guincho era meu.
- Chuta o saco dele! - mandou MarieCéleste. Chuta bastante para ele nunca mais fazer filho em ninguém!
O homem chutou meus joelhos para eu me desenroscar, e, quando ia dar o conp degrâce, fechei os olhos. Ouvi, então, uma janela rangendo ao ser aberta. Descerrei os olhos e vi uma pessoa: era Claude, debruçada numa janela, bem em cima de mim.
Arregalou os olhos claros. Parecia uma tira de tapeçaria.
- Arrêtez! - gritou MarieCéleste.
O homem que me batia parou, olhou para cima e sumiu. Nunca pensei que alguém pudesse desaparecer tão rápido! Mas vi bem a cara dele: era o mordomo dos Lê Viste. Eu devia mesmo tomar cuidado, pois ele sempre me detestara; pelo visto, odiava-me bastante para arriscar perder o emprego. Era esse o motivo, ou então ele também se engraçava com MarieCéleste.
- O que foi? É você, MarieCéleste? - gritou Claude.
- E esse é... Nicolas?
Surgiram outros rostos ao lado de Claude: Geneviève de Nanterre, Béatrice, Madame e Mademoiselle de Belleville. Era tão estranho ver aquelas cabeças juntas olhando para mim, lá embaixo, como pássaros numa árvore olhando um verme - tão estranho que fechei os olhos outra vez.
- Oh, Mademoiselle, um homem atacou esse Monsieur! Não sei de onde veio, pulou em cima dele - dizia MarieCéleste, chorando.
De repente, os socos que levei doeram no corpo todo. Gemi sem querer, sentindo o gosto de sangue na boca.
- Vou descer - disse Claude.
- Não, não vai. Béatrice, ajude MarieCéleste a socorrer o homem! - Era a voz da mãe de Claude.
Quando abri os olhos, as cabeças haviam sumido; só restava a de Claude. Ela me olhava; e estava bem calma. Sorrimos. Ver o rosto dela era como apreciar um céu azul em meio à folhagem de uma árvore. De repente ela sumiu, como se tivesse sido puxada da janela.
- Não abra a boca - avisou MarieCéleste, baixo. Você estava me visitando e um homem tentou roubá-lo.
Continuei deitado no chão. Não ia ganhar nada se dissesse para Béatrice o que realmente havia acontecido. Ainda por cima MarieCéleste podia contar que tínhamos uma filha e Claude ficaria sabendo. Eu não queria que ela soubesse.
Béatrice veio segurando uma tigela de água e um panoAjoelhou-se a meu lado, colocou minha cabeça no colo e começou a tirar o sangue do meu rosto. Só de mexer a cabeça fiquei nauseado e tive de fechar os olhos.
Quando MarieCéleste repetiu que um homem me atacara, tentando me roubar, Béatrice não disse nada. MarieCéleste, então, ficou agitada, foi inventando uma história cada vez mais complicada com disputas e bolsas de dinheiro, amigos de irmãos e palavrões. Criou uma grande confusão.
Finalmente, Béatrice cortou a conversa: - Como foi que o homem entrou na casa? Devia conhecer alguém aqui dentro.
MarieCéleste começou a falar, mas acabou percebendo que as palavras eram suas inimigas e calou-se como se tivessem enfiado um pano em sua boca.
Béatrice abriu minha túnica e apertou o pano nos meus ombros e peito, fazendo-me gemer e reclamar. Meus gritos soltaram a língua de MarieCéleste outra vez: - Não sei o que aquele homem estava fazendo...
- Vá buscar água limpa e morna! - mandou Béatrice. Quando MarieCéleste entrou na casa, alguém deve ter aparecido na porta, atrás de mim, pois Béatrice virou a cabeça.
- Pergunte se têm dorônico. Se não, pode ser um maço de margaridas secas ou calêndulas com água morna.
A pessoa, não sei quem era, mexeu-se e sumiu.
- Era Claude? - perguntei, mal conseguindo mexer os lábios.
Béatrice não respondeu. Vi aqueles olhos castanhos que ocupavam grande parte de seu rosto sem graça.
- Não, era a menina da casa - respondeu ela.
Não podia saber se estava ou não mentindo. Virei a cabeça e cuspi dois dentes.
Eles quase bateram na brilhosa saia azul de Béatrice e caíram no chão.
- O que você fez para apanhar tanto? Seja o que for devia merecer -disse Béatrice, calma.
- Béatrice, enfie a mão no meu bolso.
Suas sobrancelhas pintadas em forma de arco ficaram ainda mais arqueadas.
- Por favor, tem um papel no meu bolso para você entregar.
Ela ficou indecisa, mas tirou o papel do meu gibão. Estava manchado de sangue.
- Entregue-o a Claude. Béatrice olhou para trás.
- Você sabe que não posso fazer isso - sussurrou.
- Pode sim, por favor! Ela vai gostar que você o faça. Você é dama de companhia dela, n 'est-ce pás? Tem de fazer o que for melhor para ela. -Olhei firme. As mulheres sempre dizem que meus olhos são o de que mais gostam em mim. Ainda bem que não são meus dentes...
Béatrice sorriu, inclinou a cabeça, e o queixo tocou no pescoço e as narinas se abriram. Não disse nada, mas enfiou o bilhete na manga do vestido.
MarieCéleste voltou com uma tigela cheirando a flores. Fechei os olhos e deixei que as duas me lavassem. Se fosse outra a situação, eu teria gostado de merecer as atenções de dois pares de mãos femininas. Porém, naquela hora, eu estava tão doído que só queria dormir para não sentir mais dor. Madame de Belleville apareceu por um instante e mandou que chamassem os homens para me levarem de charrete para casa. Eu estava quase dormindo quando a voz áspera da mulher falou com MarieCéleste.
Fiquei três dias de cama, até conseguir me mexer. Minhas juntas estavam duras, os olhos com manchas escuras, o nariz inchado, e eu tinha uma costela quebrada, que causava uma dor aguda ao menor gesto. Fiquei na cama, bebi cerveja e não Comi nada; dormia quase o dia todo, e à noite ficava maldizendo a dor.
Esperava que Claude viesse. No quarto dia, ouvi passos na escada, mas não foi ela quem abriu a porta. Foi Léon Lê Vieux, que parou na porta e deu uma olhada no quarto frio e sujo - a moça do Lê Coq d'Or ainda não tinha vindo acender a lareira e levar a comida que trouxera no dia anterior. Léon não costuma me visitar, manda um mensageiro me chamar. Fiz um esforço para me sentar na cama.
- Você foi bem inocente, não?
Eu ia reclamar, mas parei. Léon parecia saber de tudo não valia a pena mentir para ele. Deitei-me outra vez.
- Levei uma surra e tanto. Léon riu.
- Agora descanse, precisa ficar bom logo. Por causa de seus males, vou mandá-lo a uma peregrinação.
Olhei para ele.