A Dama e o Unicórnio
Geneviève de Nanterre
Foi um choque ter a língua molhada de alguém se enfiando pela minha boca, o peso de um corpo dificultando a minha respiração, mãos passando por lugares que nenhum
homem jamais havia tocado. E eu não esperava que fosse pensar tantas coisas quando um homem estivesse comigo. com Nicolas, encontrei palavras para definir tudo que estávamos fazendo: "Por que ele está fazendo isso? A língua dele no meu ouvido é tão molhada", e "O cinto dele está batendo do meu lado", e "Será que isso é gostoso?".
Pensei também em meu pai, por estar embaixo da mesa da sala dele e pela importância que dava à minha virgindade. Será que eu podia acabar com ela num instante, como fizera MarieCéleste? Talvez fosse, acima de tudo, aquilo que me impedisse de gostar do que estava fazendo.
- Será que devíamos fazer isso? - sussurrei, quando Nicolas começou a morder meus seios por cima do vestido.
- Somos loucos, eu sei, mas talvez nunca mais tenhamos chance de fazer isso. - Nicolas começou a levantar a minha saia. - Eles jamais deixam você sozinha; a filha de Jean Lê Viste não pode ficar com um mero pintor. - Ele levantou a minha saia e a saia de baixo, e passou a mão em minha coxa. -Agora, minha bela, este é mon seuldésir. -Ao dizer isso, tocou na minha virgindade, e a onda de prazer que senti foi tão forte que me dispus a entregá-la a ele.
- Claude!
Virei para o lado e vi a cabeça de Béatrice para baixo, olhando para nós.
Nicolas tirou a mão debaixo das minhas saias, mas não saiu logo de cima de mim.
Aquilo me agradou. Olhou para Béatrice e me deu um longo beijo antes de, devagar,
ficar de joelhos.
Béatrice ameaçou: - Por causa disso, vou mesmo me casar com você, Nicolas dês Innocents! Juro que vou!
GENEVIÈVE DE NANTERRE
Béatrice me avisou que os corpetes de meus vestidos estão ficando cada vez mais largos: - Madame, ou a senhora come mais ou teremos de chamar a costureira para apertá-los.
- Pois chame a costureira.
Não era a resposta que ela desejava, por isso seus olhos castanhos de cachorro grande recaíram sobre mim até eu dar as costas e desfiar meu rosário. Minha mãe havia me olhado do mesmo jeito (embora seus olhos sejam mais argutos do que os de Béatrice) quando levei as meninas para visitá-la em Nanterre. Expliquei a ela que Claude não tinha ido conosco porque estava com dor de estômago, assim como eu. Mamãe não acreditou, da mesma forma que eu não acreditei quando Claude me veio com a mesma desculpa. Talvez seja assim mesmo; as filhas mentem para as mães e estas fazem de conta que acreditam.
Gostei que Claude não tenha ido conosco, embora as duas irmãs não cessassem de implorar. Claude e eu somos como dois gatos, um com o pêlo sempre eriçado para o outro. Ela me trata mal e me critica com os olhos. Sei que está se comparando comigo e concluindo que não quer ser igual a mim.
Também não quero que ela seja como eu.
Ao voltar de Nanterre, estive com Père Hugo, que, quando sentei no banco ao lado dele, falou: - Vmiment, mon enfant, você não pode ter pecado tanto em três dias a ponto de precisar se confessar outra vez.
Ele foi gentil, mas amargo. Preocupa-se comigo, como eu também.
Olhando para as ranhuras no banco à nossa frente, repeti para ele a mesma coisa do outro dia de manhã: - Meu único desejo é entrar para o convento em Chelles. Mon seul dêsir. Minha avó fez isso antes de morrer, assim como minha mãe.
- Você não está morrendo, mon enfant. Nem seu esposo. Sua avó era viúva quando vestiu o hábito de freira.
- O senhor acha que a minha fé não é firme? Preciso prová-la ao senhor?
- Não, firme é a sua vontade de se livrar da vida que leva. Isso me preocupa.
Tenho certeza de sua fé, mas é preciso querer se entregar a Cristo...
- Mas eu quero!
- ... entregar-se a Ele sem pensar em si própria e na sua vida mundana. O convento não pode ser uma fuga da vida que você detesta...
- Vida que detesto! - Mordi a língua.
Père Hugo fez uma pausa e depois continuou: - As melhores freiras costumam ser as que são felizes fora do convento, pois continuarão felizes lá.
Calei-me e abaixei a cabeça. Vi que tinha sido um erro falar daquele jeito. Eu devia ter tido mais paciência - esperar meses, um ano, dois anos, para sugerir a Père Hugo, amaciá-lo, fazê-lo concordar. Falei impetuosamente, desesperada. Claro, Père Hugo não decidia quem entrava em Chelles - só quem tinha esse poder era a Abadessa Catherine de Lignières. Porém, eu precisava da autorização de meu esposo para ser freira e do apoio de homens influentes para me defenderem. E Père Hugo era um deles.
Eu ainda tinha um argumento que podia tocar Père Hugo. Alisei minha saia, limpei a garganta e falei, baixo: - Tenho um grande dote; garanto que, se eu for noiva de Cristo, poderei doar uma parte para SaintGermain-des-Prés, em retribuição à ajuda que me tem dado. Se o senhor pudesse falar com o meu esposo... - Não terminei a frase.
Foi a vez de Père Hugo ficar em silêncio. Aguardei, passando o dedo numa ranhura do banco. Quando ele finalmente falou, estava com a voz sinceramente triste - não sei se pelo que eu havia dito ou pelo dinheiro que não poderia receber.
- Geneviève, você sabe que Jean Lê Viste jamais a autorizará a entrar num convento. Ele quer uma esposa, não uma freira.
- O senhor poderia falar com ele, dizer que eu quero muito entrar para Chelles.
- Você já falou, como sugeri no outro dia?
- Não, pois ele não me ouve. Mas ouviria o senhor, tenho certeza. Ele se interessa pelo que o senhor diz.
Père Hugo pigarreou.
- Sua alma está sem pecados, mon enfant. Não comece a mentir agora.
- Ele se interessa pela Igreja!
- A Igreja não tem tido tanta influência nele quanto você e eu gostaríamos - disse Père Hugo, com cuidado.
Fiquei quieta, sentindo-me castigada pela indiferença de meu esposo por mim.
Será que Jean iria queimar no fogo do inferno por causa disso?
- Vá para casa, Geneviève - pediu Père Hugo, com ternura. - Você tem três lindas filhas, uma bela casa e um esposo que é íntimo do Rei. São bênçãos que muitas mulheres gostariam de ter. Seja esposa e mãe, faça suas orações, e que Nossa Senhora sorria para você.
- Ela vai sorrir também para o meu leito frio?
- Vá em paz, mon enfant. - Père Hugo já estava se retirando.
Fiquei mais um pouco na igreja. Não queria voltar para a rue du Four, para o olhar crítico de Claude ou de Jean, que nem sequer me olhava. Era melhor ficar naquela igreja que havia se tornado meu abrigo.
Saint Germain-des-Prés é a igreja mais antiga de Paris, e gostei quando mudamos para bem perto dela. Seus pátios são lindos e silenciosos, e a vista é muito bonita: do lado que dá para o rio, pode-se ver até o Louvre. Antes de ir para a rue du Four, morávamos mais perto de Notre Dame de Paris, mas essa igreja é grande demais para mim - fico tonta quando olho para ela. Jean gostava, claro, como gostaria de qualquer lugar imponente, onde o Rei costuma aparecer. Agora estamos tão perto de Saint Germain-des-Prés que nem sequer preciso que um criado me acompanhe até lá.
Meu lugar preferido na igreja é a capela de Sainte Geneviève, padroeira de Paris, que veio de Nanterre e de quem cujo nome recebi. Fica atrás do altar-mor e me dirigi para lá, depois de me confessar com Père Hugo. Ajoelhei-me e avisei minhas damas de companhia para me deixarem só. Elas se sentaram no degrau baixo que leva à capela, um pouco distante de mim, e ficaram cochichando até que me virei para trás e avisei: - É bom lembrar que essa é a casa de Deus e não um lugar para fazer mexericos.
Ou vocês rezam ou saem daqui.
Todas abaixaram a cabeça; só Béatrice ficou me encarando com aqueles olhos castanhos. Olhei bem para ela, até que também abaixou a cabeça e fechou os olhos. Quando finalmente vi seus lábios numa prece, virei-me para o pequeno altar.
Não rezei, fiquei olhando os dois vitrais que mostram cenas da vida da Virgem.
Já não enxergo tão bem quanto antes, mal distingo as figuras: vi as cores -os azuis, vermelhos, verdes e marrons. Fiquei contando os amarelos que contornavam o vitral e pensando que flores seriam aquelas.
Há meses Jean não vem ao meu leito. Na presença dos outros, ele sempre foi formal comigo, como exige nossa posição social. Mas era caloroso na cama. Depois que a Petite Geneviève nasceu, ele passou a me visitar com mais assiduidade ainda, querendo ter finalmente um filho e herdeiro. Engravidei algumas vezes, mas perdia logo a criança. Faz dois anos que não há mais sinal de filho. Na verdade, meu sangue secou, não contei para Jean. Ele descobriu, talvez por MarieCéleste ou por uma de minhas damas - quem sabe até por Béatrice. Ninguém sabe o que seja lealdade naquela casa. Até que uma noite ele veio me dizer que eu havia fracassado na única coisa que se esperava de uma esposa e que nunca mais iria me tocar.
Ele tinha razão, eu havia falhado. Podia confirmar isso no rosto dos outros: de Béatrice e de minhas outras damas de companhia, de minha mãe, dos convidados que recebíamos para entretenimentos no salão, e até no rosto de Claude, que Participa desse fracasso. Lembro-me de que quando ela estava com sete anos, entrou em meu aposento depois que dei à luz Petite Geneviève. Olhou o bebê enrolado em panos no meu colo e, ao saber que não era um menino, torceu o nariz e foi embora. Claro que ela gosta da pequena, mas preferia ter um irmão e um pai satisfeito.
Sinto-me como um pássaro ferido por uma flecha, sem poder mais voar.
Seria uma bondade se Jean me deixasse entrar para o convento. Porém, ele não é generoso. E ainda precisa de mim mesmo me desprezando, quer que eu esteja por perto quando ceia em casa e quando recebemos convidados ou vamos à Corte atender ao Rei. Não ficaria bem para ele ter um espaço vazio ao lado. Além disso, ririam dele na Corte - o homem cuja esposa entrou para o convento. Sei que Père Hugo tem razão -Jean não me deseja mais, porém ainda quer que eu fique ao lado dele. A maioria dos homens é assim - as mulheres que entram para o convento costumam ser viúvas, e não casadas. Só uns poucos esposos permitem que suas mulheres entrem, sejam quais forem os pecados delas.
Às vezes, quando ando à beira do Sena para ver o Louvre, penso em me jogar no rio. É por isso que as damas de companhia ficam perto de mim. Elas sabem. Ouvi uma delas agora mesmo reclamando de tédio. Por um instante, tive pena delas, entediadas como eu.
Mas, pelo fato de viverem a meu lado, elas têm belos vestidos, comida farta e uma boa lareira para aquecê-las à noite. O bolo que comem tem mais açúcar, e o cozinheiro não poupa temperos - canela, noz-moscada, macis e gengibre - pois prepara pratos para nobres.
Deixei meu rosário cair no chão e chamei: - Béatrice, pegue meu terço.
Duas damas vieram me ajudar a levantar na capela, enquanto Béatrice se abaixava para pegar meu rosário.
- Preciso falar com a senhora, Madame. A sós - disse ela, baixo, enquanto me entregava o terço.
Provavelmente era alguma coisa com Claude. Minha filha não precisava mais de pajem, como Jeanne e Petite Geneviève, mas de uma dama de companhia. Há algum tempo eu emprestava Béatrice para ela, e assim via como as duas se davam. Podia ceder uma de minhas damas, pois agora minhas necessidades eram mais simples. Uma mulher
no início da vida precisa mais de uma boa dama de companhia como Béatrice do que eu. Béatrice continuava me contando tudo sobre Claude para ajudar-me a prepará-la para a vida de mulher e não deixar que cometesse erros. Um dia Béatrice ficaria com a sua nova patroa e não voltaria para mim.
Esperei até sairmos da igreja e nos encaminharmos para o grande portão do convento. Ao sairmos na rua, falei: - Estou com vontade de dar um passeio pela margem do rio. Béatrice, venha comigo, as outras podem voltar para casa. Se virem minhas filhas, digam para irem ao meu aposento mais tarde. Quero falar com elas.
Antes que as damas pudessem responder, segurei Béatrice pelo braço e virei à esquerda, pela rua que dava no rio. As damas tinham de virar à direita, para casa. Elas não gostaram muito da idéia, mas devem ter obedecido, pois sumiram.
Na rue de Seine, as pessoas me olhavam, estranhando que uma nobre estivesse sem seu séquito. Para mim era um alívio não ter as damas em volta como um bando de pombos.
Às vezes elas são barulhentas e cansativas, principalmente quando estou querendo sossego. Não conseguiriam passar um dia num convento, por isso nunca as levo quando visito Chelles - exceto Béatrice, claro.
Do outro lado da rua, um homem que passava com seu escriba fez uma enorme mesura para mim, mas eu não podia saber quem era apenas pela copa de seu chapéu. Somente quando ele terminou a mesura reconheci ser Michel d'Orléans, que conhece Jean da Corte e esteve ceando conosco.
- Dame Geneviève, estou à sua inteira disposição. Diga-me aonde posso levá-la.
Jamais me perdoaria deixar que andasse sozinha pelas ruas de Paris. O que Jean Lê Viste iria pensar de mim se eu fizesse tal coisa?
Ele me olhou por quanto tempo quis. Certa vez, deixou claro que poderíamos ser amantes se eu aceitasse. Eu não quis e, nas raras vezes em que nos vemos, os olhos dele ainda perguntam.
Jamais tive amantes, embora muitas mulheres tenham. Não quero entregar a Jean uma chibata para me açoitar. Se eu cometesse adultério, ele poderia escolher outra mulher para tentar ter um herdeiro. Não estou tão louca por companhia na cama a ponto de querer jogar fora meu título de esposa.
- Obrigada, Monsieur - falei, sorrindo, meiga. - Não estou desacompanhada, minha dama vai caminhar comigo pela margem do rio. Gostamos de ver os barcos passando.
- Então eu as acompanharei.
- Não, não, o senhor é muito gentil. Deve estar indo fazer algum trabalho importante com o seu escriba. Não vou prendê-lo.
- Dame Geneviève, nada é mais importante do que estar a seu lado.
Sorri outra vez, com mais firmeza e menos meiguice.
- Monsieur, se meu marido souber que deixou seus afazeres com o Rei e com a Corte para caminhar a meu lado, ficaria muito contrariado. O senhor quer que ele se zangue comigo?
com isso, Michel d'Orléans desanimou. Desculpou-se várias vezes e seguiu seu caminho. Béatrice e eu, então.
começamos a rir. Fazia algum tempo que não achávamos tanta graça em alguma coisa, e lembrei como estávamos sempre rindo quando éramos mais jovens. Iria sentir falta dela, depois que passasse a ser dama de Claude. Ela ficaria com Claude para sempre, a menos que minha filha permitisse que se casasse e deixasse de servi-la.
O rio estava cheio de barcos subindo e descendo. Homens descarregavam sacos de farinha na outra margem para as muitas cozinhas do palácio do Louvre. Ficamos olhando.
Sempre gostei de olhar o Sena - ele traz uma promessa de fuga.
- Tenho de contar uma coisa sobre Claude. Ela foi muito imprudente -disse então Béatrice.
Suspirei. Eu não queria saber, mas, como mãe, era obrigada.
- O que fez?
- A senhora lembra de Nicolas dês Innocents, aquele artista que está desenhando as tapeçarias para a Grande Salle?
Fiquei olhando uma pequena mancha de sol no rio.
- Lembro.
- Quando a senhora saiu, Claude ficou com ele sozinha, embaixo da mesa!
- Embaixo de uma mesa? Onde?
Ela hesitou, os grandes olhos temerosos. Béatrice se veste bem, como todas as minhas damas. Mas nem sequer a melhor seda entremeada de fios de ouro e jóias consegue melhorar seu rosto sem graça. Os olhos podem ser atentos, porém o rosto é encovado; o nariz, achatado; e a pele ruboriza por qualquer motivo. Como naquele momento.
- No aposento dela? - suponho.
- Não.
- Na Grande Salle?
- Não.
Minhas suposições estavam incomodando Béatrice, da mesma forma que a indecisão dela me incomodava. Olhei para o rio outra vez, contendo minha vontade de gritar com ela. É sempre melhor ter paciência com Béatrice.
Num barco, dois homens pescavam perto de nós. As linhas dos anzóis estavam frouxas, mas eles não pareciam se incomodar; conversavam e riam de alguma coisa.
Ótimo que não nos tenham percebido ali, pois, se nos vissem, remariam para longe. Há alguma coisa de animador em ver dois homens simples e alegres.
- Claude estava nos aposentos de seu esposo - sussurrou Béatrice, apesar de ninguém poder nos ouvir.
- Sainte Vierge! - exclamei, benzendo-me. - Quanto tempo ela ficou a sós com ele?
- Não sei, apenas alguns minutos, acho. Mas estavam...
- Béatrice parou.
Eu tinha vontade de sacudi-la para que continuasse.
- Estavam o quê?
- Não bem...
- E onde, em nome de Deus, você estava? Sua obrigação é acompanhar tudo que ela faz!
Quando fui para Nanterre, deixara Béatrice em casa com Claude para impedir que minha filha fizesse alguma bobagem.
- Eu estava cuidando dela! Mas ela me enganou, a danadinha. Pediu para eu buscar uma coisa... - Béatrice mexeu no seu rosário. - Ah, não tem importância. Mas não perdeu a virgindade, Madame.
- Tem certeza?
- Tenho, ele ainda não... não tinha tirado a roupa.
- Mas ela tirou?
- Só uma parte.
Apesar de ter ficado muito irritada, tive vontade de rir da ousadia de Claude.
Se Jean a descobrisse lá, eu nem conseguiria pensar no que ele faria.
- O que você fez?
- Mandei que ele saísse de lá na hora! Mandei mesmo. Não mandou - vi pela cara dela. Nicolas dês Innocents deve ter rido de Béatrice e demorado a ir embora.
- O que a senhora vai fazer, Madame?
- O que você fez quando ele foi embora? O que disse para Claude?
- Falei que a senhora certamente iria conversar com ela.
- Claude pediu para você não me contar? Béatrice franziu a testa.
- Não, ela riu na minha cara e correu.
Rangi os dentes de raiva. Claude sabe muito bem como a virgindade dela é importante para os Lê Viste: se for deflorada, nenhum homem de bem irá querer casar-se com ela. Um dia o esposo dela herdará a fortuna dos Lê Viste, já que não poderá herdar o nome. A casa na rue du Four, o Château d'Arcy, os móveis, as jóias, até as tapeçarias que Jean está encomendando -tudo será do esposo de Claude. Jean irá escolhê-lo com cuidado, e o esposo, por sua vez, esperará que Claude seja piedosa, respeitosa, admirada - e virgem, naturalmente. Se Jean soubesse o que houve - fiquei arrepiada só de pensar.
- Vou falar com ela - prometi, transferindo minha raiva de Béatrice para Claude, por se arriscar por tão pouco. - Vou já falar com ela.
Quando Béatrice e eu chegamos à casa, as damas já haViam reunido as meninas no meu aposento. Petite Geneviève e Jeanne correram para me abraçar, enquanto Claude ficou na janela, brincando com um cachorrinho no colo, sem olhar para mim.
Eu havia esquecido por que chamara as meninas no meu aposento. Mas duas delas - especialmente Petite Geneviève - estavam tão contentes de me ver que tive de inventar um motivo.
- Meninas, vocês sabem que daqui a pouco as estradas estarão sem lama e poderemos passar o verão no Château d'Arcy?
Jeanne bateu palmas de alegria. Das três, era a que mais gostava de nossa temporada anual no castelo. Adorava brincar com as crianças das propriedades vizinhas e passava quase todo o verão descalça.
Claude deu um grande suspiro e pôs as mãos em concha na cabeça do cachorrinho.
- Eu quero ficar em Paris - anunciou.
- Resolvi que, antes de irmos para Arcy, seu pai e eu daremos uma festa de Primeiro de Maio - continuei. Vocês poderão usar seus vestidos novos. -Eu sempre encomendava vestidos para as meninas e minhas damas usarem na Páscoa.
As damas começaram a falar todas ao mesmo tempo, menos Béatrice.
- Claude, venha comigo, quero ver seu vestido. Não estou gostando do decote. - Encaminhei-me à porta e virei-me para esperá-la. - Só nós duas, não demoraremos - acrescentei, quando as damas fizeram menção de nos acompanhar.
Claude apertou os lábios e não se mexeu, continuando a brincar com o cachorrinho, virando as orelhas dele para a frente e para trás.
- Venha comigo ou rasgarei o vestido com as próprias mãos - ameacei, ríspida.
As damas cochicharam, e Béatrice me olhou.
- Mamãe! -gritou Jeanne.
Claude arregalou os olhos, e um olhar de fúria percorreu seu rosto. Levantou-se e tirou o cachorrinho do colo com tanta raiva que ele chegou a ganir. Passou por mim e saiu da Ssala sem sequer me olhar. Segui-a, passando pelos aposentos que nos separam.
O aposento de Claude é menor do que o meu, com menos móveis. Claro que ela não tem cinco damas ao seu lado quase o dia inteiro. Minhas damas precisam de cadeiras
e uma mesa. E também de almofadas, banquinhos para os pés, lareiras, tapeçarias nas paredes e jarros de vinho. O aposento de Claude tem apenas uma cama revestida de seda vermelha e amarela, uma cadeira, uma mesinha e uma arca para guardar os vestidos. A janela abre para o pátio e não para a igreja, como a minha.
Claude foi direto para a arca, tirou o vestido novo e jogou-o na cama. Por um instante ficamos olhando o vestido. Era lindo, de seda amarela e preta, com estampas de romãs e sobreveste amarelo-claro. Meu vestido novo era do mesmo modelo, de um tecido resistente como o da veste de baixo e saia de seda vermelhoescuro. Nós duas faríamos bonita figura juntas na festa, embora naquele momento eu achasse que deveríamos usar trajes bem diferentes, para evitar comparações.
- O decote do vestido não tem nada de errado. Não é isso que preciso conversar com você - avisei.
- Então, o que é? - perguntou Claude, indo para a janela.
- Se continuar se comportando assim, mandarei você morar com a sua avó. Ela lhe ensinará a respeitar sua mãe ameacei. Minha mãe não hesitaria em chicotear Claude, fosse ela herdeira de Jean Lê Viste ou não.
Um instante depois, Claude murmurou: - Pardon, Maman.
- Olhe para mim, Claude.
Ela finalmente me encarou, os olhos verdes mais confusos do que irritados.
- Béatrice me contou o que houve entre você e o artista. Claude revirou os olhos.
- Béatrice é traidora!
- Au contraire, ela fez exatamente o que devia. Ainda é minha dama; portanto, tem obrigação de ser leal a mim. Mas não se incomode com ela. O que está pensando? Ainda por cima fazer uma coisa dessas no aposento de seu pai?
- Eu o quero, Maman. - O rosto dela se desanuviou, como se uma tempestade tivesse passado e as nuvens sumido.
Zanguei-me com ela: - Não seja boba, é claro que você não quer esse homem! Nem sabe o que isso quer dizer!
A tempestade voltou: - O que você sabe de mim?
- Sei que você não foi feita para se misturar com homens dessa laia. Um artista é pouco mais do que um camponês!
- Não é verdade!
- Você sabe muito bem que se casará com quem seu pai escolher. Um nobre para a filha de um nobre. Não vai arruinar essa nobreza com um artista, ou outro qualquer.
Claude me olhou, cheia de rancor.
- Só porque você e meu pai não dormem juntos não quer dizer que eu também tenha de ficar dura e seca como uma velha pêra murcha!
Por um instante pensei que eu fosse estapear aquela boca polpuda e vermelha até sangrar. Respirei fundo.
- Ma filie, vê-se que você é que não sabe nada de mim! Abri a porta do aposento.
- Béatrice! - Chamei-a tão alto que o grito ecoou pela casa. O mordomo deve ter ouvido na despensa, a cozinheira na cozinha, os cavalariços nas cocheiras, as criadas na escada. Se Jean estivesse em casa, certamente teria ouvido no aposento dele.
Fez-se um curto silêncio, como a pausa entre o raio e a tempestade. Depois, a porta do aposento ao lado se escancarou e Béatrice veio correndo, seguida pelas outras damas. Ela diminuiu a pressa quando me viu na porta. As damas pararam aos poucos no aposento, uma ao lado da outra, como pérolas num cordão. Jeanne e Petite Geneviève ficaram na porta do meu aposento, olhando.
Puxei com força o braço de Claude até ela ficar de frente para Béatrice, a quem avisei:
- Você agora é dama de companhia de minha filha. É obrigada a ficar ao lado dela todas as horas do dia e da noite. Irá com ela à Missa, ao mercado, às visitas, ao costureiro, às aulas de dança. Fará as refeições com ela, andará a cavalo com ela, dormirá com ela - não ficará num quartinho ao lado, mas na mesma cama.
Jamais
sairá do lado dela. Ficará a seu lado até quando ela urinar no penico.
Uma das damas fez uma exclamação: - Se ela ronca, você vai saber. Se ela arrotar ou peidar, você vai sentir o cheiro. Claude estava chorando.
- Vai saber se ela precisa pentear o cabelo, se as regras dela vieram ou se ela chorar - continuou Geneviève. - Na recepção que vamos oferecer no Primeiro de Maio, sua tarefa e de todas as minhas damas será vigiar Claude, se ela se aproximar de qualquer homem - seja para falar, dançar ou até Para ficar perto, pois ela não merece confiança. Façam com que ela tenha uma péssima noite! -A coisa mais importante que minha filha precisa aprender é respeitar seus pais. Para isso, você vai levá-la já para passar uma semana na casa de minha mãe em Nanterre. Mandarei um mensageiro avisar que ela pode usar o chicote, se preciso for.
- Maman, por favor, não... - pediu Claude.
- Calada! Béatrice, entre e arrume as arcas de roupas falei, olhando firme para a dama.
Béatrice mordeu os lábios.
- Sim, Madame - disse ela, baixando os olhos. - Bien sür. - Esgueirou-se entre Claude e eu, e se dirigiu à arca cheia de vestidos.
Saí do aposento e fui direto para o meu. À medida que eu caminhava, cada dama seguia atrás de mim e fazia sentir-me como uma pata à frente de quatro patinhas.
Ao chegar em meu aposento, minhas duas outras filhas estavam de pé, com a cabeça baixa. Elas também me seguiram quando passei. Uma das damas fechou a porta.
Virei-me e pedi:
- Vamos rezar para que a alma de Claude ainda possa ser salva -recomendei para elas, séria, e nos ajoelhamos.