A Dama e o Unicórnio
Philippe de La Tour
Christine ficou brava só de lembrar.
- Aquele Nicolas dês Innocents se acha muito importante! Phihppe vai ter a maior dificuldade para convencê-lo de que teremos de alterar os desenhos. Precisei intervir duas vezes: Philippe é um bom moço, mas não tem condições de competir com um galinho francês.
Achei graça.
- Tenho de ir. Os rapazes estão me esperando no Lê ieux Chien para tomar um trago em comemoração ao corte da tapeçaria.
- Attends, Georges. O que você resolveu com Léon Lê vieux? Aceitou a encomenda?
Chutei um estrume no chão.
- Não disse nem sim nem não. Mas acho que não tenho escolha, com esse problema das meiascalças verdes. Léon pode contar para os Bourbon que copiei o desenho.
- Você não copiou, apenas pegou emprestado um detalhe. A Guilda vai apoiá-lo. - Ela parou de repente, o que fez sua saia ficar balançando. - Diga-me, afinal: vamos ou não fazer as tapeçarias?
Eu não devia aceitar. Minha experiência de lissier dizia para não aceitar -o pagamento era pouco, o ateliê ia ficar sobrecarregado, eu ia perder outras encomendas e lutar para conseguir entregá-las no prazo que o cliente exigisse. Se não tomasse cuidado, poderia me arruinar. Mas respondi à pergunta de Christine, sentindo as tripas darem um nó: - Vamos fazer. Nunca vi desenhos tão lindos. - Pronto, pensei, deixei que as Damas das tapeçarias me seduzissem!
Christine deu uma risada aguda, como uma faca batendo no chão. Acho que sentiu um alívio.
- Elas vão nos dar fama, você vai ver.
PHILIPPE DE LA TOUR
Quando cheguei de manhã, o ateliê estava vazio. Gostei, pois assim poderia olhar sozinho os desenhos, sem Nicolas des Innocents contando bazófias, nem Christine se intrometendo, ou Aliénor levantando a cabeça e sorrindo enquanto costurava. Poderia olhar e pensar em paz.
O dia estava claro, com o sol entrando pelas janelas. Luc tinha varrido bem o chão e tirado do ateliê os novelos de lã que haviam sobrado da tapeçaria da Adoração dos Magos. Tirara também a lã que havia ficado no tear, agora pronto para os próximos fios de urdidura. Meus passos pelo ateliê faziam com que, de vez em quando, o piso de madeira rangesse como se eu fosse um cavalo batendo as patas no chão da cocheira.
Os desenhos de Nicolas estavam guardados e enrolados numa arca junto com os outros desenhos de tapeçarias. Eu sabia onde Georges deixava a chave: peguei-a e abri os desenhos no chão como havíamos feito na tarde anterior. Enquanto Nicolas e eu comentávamos os desenhos, o parisiense ficou olhando Aliénor sentada ao lado da mãe, costurando a tapeçaria que acabara de ser cortada. Virando os desenhos de um lado e de outro, ele achou que ela gostaria de olhá-los.
- Será que não pode largar a costura agora, bela? finalmente perguntou.
Aliénor e Christine levantaram a cabeça ao mesmo tempo. Ninguém jamais havia chamado Aliénor de bela, por mais que a achasse bonita. Eu mesmo a acho linda, principalmente seus cabelos, que são compridos e dourados, mas não teria coragem de dizer-lhe.
E difícil eu conseguir falar essas coisas. Decerto ela riria de mim e diria que sou bobo. Ela me trata como se eu fosse um irmão mais jovem e ingênuo, embora eu seja alguns anos mais velho do que ela. Nicolas continuou: - Está tão escuro aí nesse lugar! Vai acabar ficando cega. Devia se aproximar mais da janela, onde tem mais luz. Além do mais, ouvi falar que os tecelões de Bruxelas devem obedecer às leis. É proibido trabalhar depois que escurece, proibido trabalhar aos domingos. Se os pintores de Paris tivessem uma vida tão fácil, não prejudicariam suas vistas.
Christine e eu ficamos olhando para ele, surpresos, mas Aliénor inclinou a cabeça sobre a costura, contendo o riso. Acabamos todos rindo: ela, Christine e eu.
- Qual é a graça? - perguntou Nicolas, fazendo com que ríssemos mais ainda.
Fiquei pensando se devíamos ter pena dele e contar-lhe o que ainda não havia percebido.
A própria Aliénor resolveu falar, quando então finalmente paramos de rir.
- Essas leis não servem para as mulheres, não somos tecelãs; somos apenas da família.
- Sei - disse Nicolas, confuso, pois isso não explicava nosso riso. Mas não contaríamos para ele. Era bom fazer o parisiense de bobo.
Nicolas e eu produzimos pouca coisa naquela tarde. Logo depois, fomos à taberna Lê Vieux Chien com Georges Lê Jeune e Luc; mais tarde chegou o velho Georges para brindar à tapeçaria pronta e à nova encomenda. Nicolas mostrava-se bem animado e nos fez beber mais do que costumávamos.
Esse artista de Paris gosta de contar vantagem. Nunca fui a Paris. Só atravesso os muros de Bruxelas para pegar lenha e cogumelos nas florestas próximas ou para pescar no Sena. Mas já conheci parisienses em quantidade suficiente para saber que não gostaria de lá. Eles são muito cheios de si. Sempre têm o melhor de tudo: o melhor vinho, os melhores sapatos, os melhores tecidos, os melhores pincéis, as melhores tintas. As mulheres deles têm mais filhos, as galinhas põem mais ovos e as vacas produzem mais leite. As catedrais são mais altas, os navios navegam mais rápido, as estradas são mais largas. Eles seguram melhor a caneca de cerveja, montam a cavalo com mais elegância, sempre vencem as batalhas. Vai ver que cagam mais cheiroso.
Ah, eu estava me sentindo tão bem no ateliê sem ele. Fui olhar os desenhos.
Minha cabeça doía por causa do barulho, da fumaça e da bebida da noite anterior na taberna; não costumo ir lá. Vou dizer uma coisa de Nicolas: posso não gostar de seu jeito parisiense, mas ele é um ótimo artista. E sabe disso; portanto, não preciso elogiar os desenhos dele.
É fácil encontrar defeitos nos desenhos, se eu considerar que foram feitos para uma tapeçaria. Só que, para ele, são pinturas; não percebeu que, nas tapeçarias, é preciso que haja uniformidade nos desenhos para que fiquem homogêneos, sem nada destoante. E o que faço quando desenho um cartão: amplio o desenho e pinto como sei que a lã vai ficar quando tecida, com menos mistura de cores e tons mais fortes e definidos. Os cartões não são tão bonitos quanto as pinturas, mas são fundamentais para o tecelão trabalhar. É como, em geral, me sinto: fundamental, mas ignorado, da mesma forma que Nicolas dês Innocents é como um quadro do qual não se consegue desgrudar os olhos, mas também não se pode levar.
Eu ainda estava olhando os desenhos, quando Georges entrou no ateliê. Sua fisionomia era de quem havia dormido mal, o cabelo desgrenhado como se tivesse passado a noite virando a cabeça de um lado para o outro. Ele se aproximou e ficou olhando as pinturas.
- Você pode fazer com que fiquem adequadas para uma tapeçaria? -perguntou.
- Posso.
- Bien, então faça pequenos esboços das mudanças para Léon ver. Quando ele aprovar, passe-os para os cartões.
Concordei.
Georges ficou olhando a Dama com o unicórnio em seu colo. Pigarreou.
- Nicolas vai ficar aqui e pintar os cartões. Recuei.
- Por quê? Você sabe que sou capaz de pintar tão bem quanto ele. Quem...
- Léon quer. Ficou combinado assim. Monseigneur Lê Viste vai comprar os cartões para dependurá-los no lugar das tapeçarias quando viajar com elas. Léon quer ter certeza de que os cartões ficarão exatamente como as tapeçarias, lemos tão pouco tempo para tecer que ele ficar aqui só irá nos ajudar.
Tive vontade de reclamar, embora soubesse que não devia. Georges é o lissier - resolve o que deve ser feito, e faz. Sei o meu lugar.
- Farei os desenhos nos cartões ou ele os fará também?
- Você desenhará e fará as mudanças necessárias. E ajudará Nicolas a pintar. Os dois trabalharão juntos, mas será ele quem mandará.
Fiquei quieto.
- Serão apenas algumas semanas - acrescentou Georges.
- Nicolas sabe disso?
- Léon vai contar para ele. Na verdade, vou vê-lo agora, para fazer o contrato.
- Olhou os desenhos e balançou a cabeça. - Isso vai me trazer problema... Preço baixo, pouco tempo, cliente difícil. Devo estar maluco.
- Quando vamos começar?
- Já. Georges Lê Jeune e Luc foram comprar o linho e voltam logo. Você e Nicolas poderão levar os desenhos, se preferirem, para sua casa e trabalhar lá, ou então ficar aqui.
- Prefiro trabalhar aqui - falei logo.
Quando posso, prefiro sempre trabalhar na rue Haute. A casa tem mais luz do que a casa de meu pai, que fica perto de uma das torres do muro da cidade, e também porque, apesar dos teares, há mais espaço no ateliê. Meu pai é pintor como eu, embora não seja tão bem-sucedido quanto Georges. Meus irmãos mais velhos trabalham com ele e sobra pouco espaço para mim, o caçula.
Além do mais, aqui eu fico perto dela. Não que ela se importe, jamais mostrou interesse por nenhum homem - até agora.
- Se o tempo continuar bom, você poderá pintar no jardim de Aliénor; assim não atrapalhará os tecelões. Aqui vai ficar apertado com dois teares -disse Georges, enquanto ia saindo.
Ficar no jardim era melhor ainda, embora eu não tivesse muita certeza de querer Nicolas tão perto dela. Não confiava nele.
Exatamente quando pensei nela, Aliénor surgiu na porta com a minha cerveja da manhã. Aliénor é uma coisinha miúda e delicada. O restante da família é bem mais alto.
- Estou aqui, Aliénor - avisei.
Ela veio vindo com um sorriso, o rosto alegre, mas tropeçou na sacola de apetrechos de desenho que, por descuido, eu havia deixado no chão. Segurei-a antes de cair, mas quase toda a cerveja derramou na manga da minha camisa.
- Dieu megarde! Desculpe! O que molhou? Espero que não tenha caído nas pinturas!
- Não, foi só na minha manga, não tem problema. Foi pouca cerveja.
Ela apalpou a manga molhada da camisa e balançou a cabeça, irritada consigo mesma.
- Não tem problema, sério! Foi burrice minha deixar a sacola ali. Não se preocupe com a cerveja, eu não estava com sede mesmo - falei.
- Não, vou pegar mais. - Ela não me ouviu, saiu rápido e voltou logo com outro caneco cheio, dessa vez andando com todo cuidado.
Ficou a meu lado, os desenhos a nossos pés, enquanto eu bebia. Tentei não engolir a cerveja fazendo barulho. Quando estou com ela, vejo como sou barulhento: minhas botas rangem, trinco os dentes, passo a mão nos cabelos, tusso e fungo.
- Conte-me a história - pediu ela. Aliénor tem voz baixa e suave - suave como o jeito com que ela anda, vira a cabeça, pega alguma coisa ou sorri. Ela é calma em tudo que faz.
- Que história?-perguntei. Minha voz não é tão suave.
- Das tapeçarias. A Dama e o unicórnio. Que história contam?
- Ah, sim. Bem, na primeira, tem uma Dama na frente de uma tenda azul onde está escrito o lema À mon seul désir. Li bem devagar.
-À mon seul désir-repetiu Aliénor.
- O leão e o unicórnio estão segurando as abas da tenda, além do estandarte e do emblema da família Lê Viste.
- Esses Lê Viste são muito importantes lá em Paris?
- Acho que sim, para encomendarem tapeçarias tão grandes! Então, nesse mesmo desenho, a Dama está pegando jóias numa caixinha, que usa também nas outras tapeçarias.
A seguir, vêm três tapeçarias onde a Dama se aproxima do unicórnio. Finalmente, ele apoia as patas dianteiras no colo dela e se olha num espelho. Na última, ela o dirige, segurando no chifre dele.
- Qual é a Dama mais bonita?
- A que está dando comida ao periquito. Essa é a tapeçaria que simboliza um dos cinco sentidos, o Paladar. Nela tem também um macaco comendo alguma coisa aos pés da Dama, o que a torna mais vivaz do que as outras. O vento faz as pontas do lenço de cabeça voarem. E o unicórnio tem mais movimento.
Aliénor passou a língua no lábio superior.
- Já não gostei dela. Fale dos outros quatro sentidos em cada tapeçaria.
- O unicórnio olhando no espelho é a cena da Visão, e a Dama segurando no chifre dele é o Tato. Está bem evidente. Depois vem a Audição, onde a Dama está tocando órgão. E esta aqui acho que é a do Olfato, porque tem um macaco cheirando uma flor - expliquei, inclinando-me sobre a pintura.
- Que tipo de flor? - Aliénor sempre quer saber de flores.
- Não tenho certeza; acho que é uma rosa.
- Veja com seus próprios olhos, bela. - Nicolas estava na porta, olhando para nós. Parecia animado e disposto, como se a bebida da noite anterior não o tivesse alterado. Deve viver nas tabernas de Paris. Ele entrou no ateliê. -Soube que você tem um jardim; portanto, deve saber a diferença entre um cravo e uma rosa. Minha pintura é tão ruim assim que não dá para distinguir, bela?
- Não a chame assim; é a filha do Hssierl. Deve ser tratada com respeito -reclamei.
Aliénor enrubesceu, não sei se pelo que ele disse ou pelo que falei.
- O que acha das minhas pinturas, be... Aliénor? São bonitas, n'est-cepás?
- São desenhos - corrigi. - Desenhos para tapeçarias, e não pinturas. Você esquece que são apenas uma orientação para o trabalho que alguém irá fazer- o pai e o irmão de Aliénor, e outros tecelões. Não será você. Os desenhos ficarão bem diferentes nas tapeçarias.
- Tão bons quanto? - zombou Nicolas.
- Melhores.
- Acho impossível fazer melhor; você acha que pode, Aliénor?
Ela apertou os lábios - prefere a modéstia à bazófia.
- O que sabe de unicórnios, bela? Posso lhe falar um pouco deles? -perguntou, com um olhar matreiro que não me agradou.
- Sei que são fortes - ela respondeu. - Assim está no Livro de Jó e no Deuteronômio, da Bíblia: "Seu chifre é como o chifre dos unicórnios: com ele você levará o povo até o fim da terra."
- Prefiro o que dizem os Salmos: "Vais exaltar meu chifre como o chifre de um unicórnio." Você sabe o que faz o chifre do unicórnio? - Nicolas piscou para mim ao perguntar isso.
Aliénor parecia não estar mais ouvindo o que Nicolas dizia: franzia o nariz, sentindo um cheiro. Também senti, assim como Nicolas, que gritou: -Dieu au ciei! Que cheiro é esse? Parece um barril de urina!
- É Jacques Lê Boeuf, que tinge lã com anil - falei.
- É esse o cheiro do anil? Nunca cheguei perto; em Paris eles são obrigados a trabalhar fora dos muros, num lugar onde ninguém passa perto.
- Aqui também, mas Jacques ainda entra na cidade. O cheiro gruda nele, mas não se pode proibir um homem de exercer seu ofício. Fique calmo, ele sempre resolve tudo rápido.
- Onde está a moça? - A voz possante de Jacques Lê Boeuf veio de dentro da casa.
- Georges saiu. Jacques, volte outro dia - ouvimos Christine responder.
- Não é ele que estou procurando. Quero ver a moça, apenas por um instante. Está no ateliê? - Jacques Lê Boeuf enfiou a cabeça despenteada na porta. Meus olhos sempre ficam lacrimejando por causa do cheiro dele.
- Olá, Philippe, seu velhaco! Onde está a filha de Georges? Ela está se escondendo de mim?
Aliénor havia se abaixado e estava escondida atrás do tear.
- Ela saiu, foi comprar ostras para mim - disse Nicolas, inclinando a cabeça de um lado e cruzando os braços.
- Saiu, agora? E quem é você para mandá-la fazer alguma coisa? -perguntou Jacques, aparecendo de corpo inteiro. É um homem grande como um barril, de barba pontuda e mãos manchadas do azul do anil.
- Sou Nicolas dês Innocents. Fiz os desenhos das tapeçarias que Georges vai tecer.
- O artista de Paris, então? Não gostamos muito dos Parisienses, não é, Philippe? - provocou Jacques, cruzando os braços também e encostando-se na porta.
Eu ia responder, mas Nicolas se adiantou: - Não me importo de esperá-la. Falei para ela comprar as Melhores ostras, sabe, aquelas próprias para os parisienses comerem. Aqui nessa cidade isso pode demorar um pouco, pois o mercado de peixes de vocês também não é dos melhores.
Fiquei olhando para Nicolas, sem entender por que estaria provocando um homem tão maior do que ele. Será que não queria continuar com a cara bonita para as mulheres?
Aliénor se mexeu ao lado do tear e tentei não olhar para ela. Talvez estivesse querendo aparecer e, assim, evitar que Nicolas discutisse.
Jacques Lê Boeuf também parecia surpreso. Não respondeu com um murro, mas amarrou a cara. - Então é pintor, não? - Aproximou-se e olhou as pinturas no chão. Tentei não sentir enjôo com o cheiro dele. - Têm mais vermelho do que azul. Talvez não valha a pena Georges aceitar esta encomenda. - Ele deu um risinho e fingiu que ia pisar na pintura da Dama com o unicórnio no colo.
- Jacques, o que está fazendo?
A pergunta ríspida de Christine fez Jacques Lê Boeuf gelar, com um pé balançando em cima da pintura. Deu um passo para trás e ficou tão sem jeito que foi engraçado ver seu rosto atônito.
Christine avançou para cima dele: - Se essa é a sua intenção, isso não tem graça! Já disse que Georges saiu. Ele vai falar logo com você sobre a lã azul para essas tapeçarias, se você não estragá-las antes. Pode sair agora, estamos ocupados aqui.
- Ela abriu a porta da rua e ficou de lado para ele passar.
Foi como ver um cachorro rondando uma vaca no pasto. Jacques abaixou a cabeça e se dirigiu para a porta. Só quando pisou na rua foi que enfiou a cabeça numa janela e disse:
- Diga à moça que procurei por ela.
Quando tivemos certeza de que havia ido embora, pois seu cheiro horrível diminuíra, Nicolas inclinou-se e sorriu para Aliénor atrás do tear. -Pode sair, bela, a fera foi embora.
- Estendeu a mão para ela, que levou um instante para aceitar a ajuda e, quando ficou em pé, levantou o rosto e agradeceu: - Obrigada, Monsieur.
Era a primeira vez que olhava para ele daquele seu jeito: os olhos tentando encará-lo, mas sem conseguir ver ninguém. E o sorriso de Nicolas desapareceu ao olhar para o rosto de Aliénor; parecia atingido por um golpe de vento. Finalmente ele percebeu, pensei. Para um artista, digamos que não é uma pessoa muito observadora.
Aliénor sabia que, finalmente, ele havia entendido - deixou que percebesse que era cega. Às vezes faz isso. Então, puxou sua mão da dele e abaixou a cabeça.
- Vamos, filha, senão nos atrasaremos - chamou Christine, olhando sério para Nicolas. E saiu pela mesma porta que Jacques Lê Boeuf - Vamos à Missa- disse Aliénor para mim, antes de correr ao encontro da mãe.
- Missa? - repetiu Nicolas, olhando o sol que entrava pela janela. - Já é a Sexta hora?
- É uma Missa especial dos tecelões, na igreja de Notre Dame du Sablon; aqui perto - falei.
- Os tecelões têm uma Missa só para eles?
- Três vezes por semana, pois é uma guilda poderosa. Nicolas, então, perguntou: - Desde quando Aliénor é assim?
Dei de ombros. - Toda a vida, por isso não se percebe logo. Para ela, é uma coisa natural.
- Mas como ela consegue... - Nicolas mostrou a tapeçaria da Adoração dos Magos que estava sobre o tear.
- Ela tem dedos muito sensíveis e hábeis, parece que a visão está em seus dedos.
Sabe diferençar a lã azul da vermelha, diz que a tinta dá uma textura diferente.
E escuta coisas que não somos capazes de ouvir. Certa vez, ela me disse que cada pessoa tem um jeito diferente de andar. Eu não consigo perceber, mas depois que ela conhece uma pessoa, sempre sabe antes de todos quando ela está chegando.
Já deve conhecer seus passos.
- Ela ainda é donzela?
Franzi o cenho. - Não sei do que você está falando. De repente eu não queria mais falar nela.
Nicolas sorriu. -Você sabe sim. Já pensou nisso.
- Deixe-a em paz; se encostar um dedo nela, Georges acabará com você, seja artista parisiense ou não - avisei, ríspido.
- Tenho muitas mulheres na hora que eu quiser. Eu estava me referindo a você.
Imagino que as moças se sintam atraídas por você, com esses longos cílios. Elas adoram olhos assim.
Sem dizer nada, peguei a minha sacola e retirei dela papel e carvão para desenhar.
Nicolas riu. - Pelo jeito, vou ter de contar para os dois a história do chifre do unicórnio.
- Agora não. Temos de começar o trabalho. Eles só poderão tecer depois que pintarmos um dos cartões. - Rangi os dentes ao me referir a "nós".
- Ah, sim, a pintura. Que sorte eu ter trazido meus pincéis! Não confio nos de Bruxelas. Se pintasse meu unicórnio com um pincel daqui, ele iria ficar parecendo um cavalo!
Ajoelhei-me ao lado das pinturas - o que me impediu de lhe dar um pontapé.
- Alguma vez você já desenhou ou pintou cartões? Nicolas parou de sorrir daquele jeito afetado. Não gostava que lembrassem do que não sabia.
- Tapeçarias são bem diferentes de quadros - comecei.
- Quem não fez tapeçaria não sabe disso, acha que qualquer coisa que pintar poderá ser ampliada e tecida do jeito que fizer. Mas olhar uma tapeçaria não é a mesma coisa que olhar um quadro. Um quadro costuma ser menor, de modo que os olhos captam tudo de uma só vez. E a pessoa não fica muito perto, mas a dois passos de distância, como se estivesse falando com um padre ou um professor.
Ficamos perto da tapeçaria como se ela fosse um amigo. Você só vê uma parte dela, nem sempre a mais importante. Por isso nada deve se destacar do resto, mas combinar de forma que os olhos sintam prazer em qualquer ponto dela. Essas pinturas que você fez não estão assim. O fundo de millejleurs vai ajudar, mas mesmo assim teremos de fazer algumas mudanças.
- Que mudanças? - perguntou Nicolas.
- Vamos acrescentar coisas, começando por mais figuras. A Dama deveria ter pelo menos uma dama de companhia, ríest-ce pás? Alguém segurando cravos enquanto ela trança a coroa na tapeçaria do Olfato, ou acionando os foles do órgão na Audição, ou segurando uma tigela com comida para ela dar ao periquito no Paladar. Você fez uma criada segurando uma caixa de jóias em Mon Seul Désir. Por que não colocou uma criada nas outras também?
- Porque num momento de sedução uma dama deve estar sozinha.
- Damas de companhia devem ter assistido a muitas cenas de seduções.
- Como sabe? Já seduziu alguma nobre?
Enrubesci. Não podia nem sonhar em entrar nos aposentos particulares de uma nobre. Mal passo na mesma rua que elas, quanto mais no mesmo aposento. Só na Missa respiramos o mesmo ar, mas elas ficam longe, nos bancos da frente, separadas das outras pessoas. Saem da igreja primeiro, antes de nós, e suas carruagens levam-nas antes que eu alcance a porta da igreja. Aliénor diz que os nobres têm o cheiro da pele do animal que usam, mas nunca cheguei perto o suficiente para saber. O nariz dela é mais apurado.
Claro que Nicolas tinha estado com mulheres da nobreza. Deve saber tudo sobre elas.
- Que cheiro elas têm? - perguntei, sem me conter. Nicolas sorriu. -Cheiro de cravo. Cravo e hortelã. Aliénor tem cheiro de erva-cidreira. Está sempre pisando nela, em seu jardim.
-E sabe que sabor têm as nobres?-perguntou Nicolas.
- Não me diga. - Peguei o carvão, escolhi copiar a pintura do Olfato e comecei a fazer o esboço. Desenhei umas linhas do rosto da mulher e o ornato de sua cabeça, depois o colar, o corpete, as mangas e o vestido. - Não queremos grandes blocos de cor. Por exemplo, a saia de baixo, amarela, precisa de uma padronagem. No Paladar, e em À Mon Seul Désir, você usou um brocado com estampa de romãs. Então, vamos colocá-lo aqui, assim, para quebrar o amarelo liso.
Nicolas ficou olhando por cima dos meus ombros, enquanto eu preenchia o triângulo de tela com folhas e flores. -Alors, temos o leão e o unicórnio segurando os estandartes à esquerda e à direita. Entre a Dama e o unicórnio há um macaco num banco, segurando um cravo. Está muito bom. E se pusermos uma criada entre a Dama e o leão? Ela poderá segurar um prato com flores que a Dama usará para fazer a sua coroa. - Desenhei uma dama de companhia de perfil. - Assim já melhora bastante. O fundo com millefleurs vai completar a cena. Não vou desenhar aqui na pintura, mas no cartão. Aliénor poderá nos ajudar nisso. Nicolas balançou a cabeça, sem acreditar.
- Ela vai ajudar como? - perguntou, mostrando os próprios olhos.
Franzi o cenho. - Ela sempre ajuda o pai com as millefleurs. Tem um lindo pomar, conhece bem as plantas e para que servem. Pediremos a ela quando começarmos a desenhar os cartões. Alors, no meio das millefleurs colocaremos alguns animais. - Fui desenhando enquanto falava. - Vamos pôr um cachorro em algum lugar como símbolo de fidelidade, talvez. Alguns pássaros na cena em que a Dama caça o unicórnio. Um cordeiro aos pés dela para lembrar Cristo e Nossa Senhora. E, claro, um ou dois coelhos. E assim que Georges assina suas tapeçarias: faz um coelho com a patinha na cara.
Terminei de desenhar e colocamos lado a lado a pintura e o esboço.
- Ainda não está bom - confessei.
- O que você acha que poderemos acrescentar, então? -Árvores -respondi na hora.
- Onde?
- Atrás dos estandartes e das insígnias. Vão destacar mais o brasão no fundo vermelho. E mais duas árvores atrás do leão e do unicórnio. Quatro árvores, para indicar os quatro pontos cardeais e as quatro estações do ano.
- Um mundo contido num quadro - murmurou Nicolas.
- Isso mesmo. E o azul vai agradar a Jacques Lê Boeuf Não que eu queira agradá-lo, pensei. Longe disso! Desenhei um carvalho atrás do estandarte para indicar o verão e o norte. Depois, um pinheiro atrás da insígnia, para o outono e o sul. E um azevinheiro atrás do unicórnio, para o inverno e o oeste. E uma laranjeira atrás do leão, para a primavera e o leste.
- Melhorou - disse Nicolas, quando terminei. Parecia surpreso. - Mas poderemos fazer tantas mudanças sem o cliente autorizar?
- Fazem parte da verdure. Os tecelões podem fazer plantas e animais no fundo das tapeçarias; só não podemos mudar as figuras. Há uma lei para isso aqui em Bruxelas; assim evita problemas entre clientes e tecelões.
- Ou entre artistas e cartunistas.
- Também.
Ele olhou para mim e perguntou: - Há algum problema entre nós?
Levei um susto. - Não! - Pelo menos quanto a trabalho, acrescentei para mim mesmo. Não sou tão corajoso a ponto de falar sobre certas coisas.
- Muito bem. Agora faça essa cena - disse Nicolas, pegando o Paladar e colocando no lugar o Olfato.
Estudei a Dama alimentando o periquito. - Você fez o rosto dela com mais cuidado do que o das outras.
Nicolas brincou com o carvão, apertou-o, depois esfregou os dedos até ficarem cinzentos.
- Estou acostumado a fazer retratos de damas e prefiro pintar mulheres reais, se possível.
- Essa Dama se destaca demais, assim como a de A Mon SenlDésir, que aparenta ser triste demais.
- Não vou mudá-las.
- Você as conhece, então, não é?
Ele deu de ombros. - Pertencem à nobreza.
- E você as conhece bem.
Ele balançou a cabeça.
- Não tanto. Eu as vi algumas vezes, mas... Fiquei surpreso por ele estar inseguro.
- A última vez que as vi foi numa festa de Primeiro de Maio. Ela estava dançando em volta de um mastro - disse ele, mostrando a cena do Paladar -, enquanto a mãe olhava. Usavam vestidos iguais.
- O vestido de brocado com estampa de romãs.
- Isso mesmo. Eu não podia me aproximar dela na festa, as damas de companhia não deixavam. - Ele franziu o cenho ao lembrar. - Ainda acho que não deveríamos colocar criadas nessas tapeçarias.
- A Dama precisa de uma acompanhante; do contrário, fica malvista.
- Mas não na cena da sedução - insistiu ele.
- Por que não colocamos criadas em todas as tapeçarias, exceto na que ela captura o unicórnio? Na cena da Visão, em que ele põe a cabeça no colo dela?
- E no Tato - acrescentou ele -, quando segura seu chifre.
- Você não quer uma dama de companhia, então.
Ele sorriu à vontade outra vez, como se a tempestade tivesse passado. -Posso lhe contar agora a história do chifre do unicórnio? Poderá ser útil a você.
Antes que eu pudesse responder, Aliénor apareceu na mesma janela onde Jacques Lê Boeuf tinha enfiado a cabeça antes. Nicolas e eu pulamos.
- Estamos aqui, Aliénor, ao lado do tear - falei.
- Eu sei. Mamãe e eu já voltamos. Aquele Jacques nos atrasou tanto que chegamos quando a Missa já estava quase acabando. Aceitam um pouco de cerveja?
- Daqui a pouco - respondeu Nicolas.
Depois que ela entrou na casa, ele se virou para mim.
- Se você não quer saber do chifre do unicórnio, vou lhe contar outra coisa, então.
- Não. - Eu não queria que ele falasse essas histórias com Aliénor tão perto.
Ele sorriu, malicioso, para mim. Ia contar de qualquer jeito.
- Mulheres podem ter cheiro de cravos, mas têm sabor de ostras.