A Dama e o Unicórnio
Philippe de La Tour
Minha esposa é uma mulher calada. Isso não é ruim, pois mulheres caladas não fazem nem causam intrigas.
Mesmo assim, gostaria que ela conversasse mais comigo.
Ela não disse nada quando nos casamos, só respondeu as perguntas do padre na igreja. Também nunca falou no bebê que esperava, nem em Nicolas. Nunca me agradeceu.
Uma vez, falei que estava contente por tê-la ajudado, e ela disse: "Eu me ajudei", e virou-me as costas.
Ainda não estávamos morando na casa de meus pais, só iríamos para lá depois que as tapeçarias ficassem prontas. Precisavam que ela costurasse à noite, não que dormisse comigo. Embora tivéssemos ajoelhado na frente do padre na igreja de Notre Dame du Sablon, ainda não tínhamos dormido juntos para fazer as coisas que aprendera com uma dama da noite, no verão. Aliénor estava muito barriguda e ainda não queria.
Eu esperava que, com o tempo, ela aceitasse.
Quando Georges e Christine foram falar com Jacques Lê Boeuf, mandaram que, por segurança, eu ficasse na casa de vizinhos. Recusei-me, pois não poderia me esconder dele a vida inteira. Eles nunca me contaram a reação de Jacques ao saber que Aliénor seria minha esposa, mas alguns dias depois eu o vi. Ele também me viu no mercado da Plâce de Ia Chapelle, onde eu estava comprando nozes. Dava tempo de eu correr, mas fiquei parado, vendo-o caminhar na minha direção como um touro. Bem que eu poderia ter-me assustado, mas na hora só pensei no sorriso triste de Aliénor. Ela sorria pouco para mim e não sorriria nunca para aquele brutamontes fedido. Mesmo com ele se aproximando naquela hora, eu estava satisfeito por tê-la salvado de suas garras.
Ficou tudo preto depois que ele me deu um soco. Quando voltei à consciência, estava deitado na neve (a primeira do inverno) com as nozes espalhadas à minha volta, e Jacques Lê Bceuf em cima de mim. Olhei as altas e delicadas janelas da Chapelle que apareciam por trás dele e fiquei pensando se iria me matar. Na verdade, ele é um homem simples, com ambições simples, e me derrubar foi o bastante.
Inclinou-se e resmungou: - Pois fique com ela. Para que serve uma esposa sem olhos? Caso com minha prima e ela me será mais útil.
Eu não ia discutir com ele. Nem podia: o cheiro fazia tudo escurecer outra vez.
Quando voltei a mim de novo, ele já havia ido embora e eu estava sendo carregado pela rue Haute para a casa de Georges. Aliénor lavou meus machucados, segurando minha cabeça por cima do barrigão. Ela não respondeu quando perguntei o que tinha acontecido. Só quando eu quis saber que planta era aquela misturada na água, ela respondeu: "Verbena". Foi só uma palavra, mas soou como música.
Depois daquela cena, Jacques Lê Bceuf me deixou em paz, mas insistiu para Georges pagar adiantado a última remessa de lã azul, senão ele não a mandaria.
Georges já havia dado o dinheiro para pagar a cama do dote de Aliénor. Então, pude ajudá-lo; seria a minha primeira ajuda como genro. Eu tinha uma prima que ia se casar logo e convenci os pais dela a comprarem a cama de castanheiro, e assim Georges teve o dinheiro de volta. Aliénor e eu podíamos esperar por uma cama de casal.
Graças a essa minha ajuda, as coisas ficaram um pouco mais fáceis para Georges - embora de vez em quando eu percebesse que ele me olhava, intrigado. Devia estar pensando como eu pudera ter estado com Aliénor sem ele ter percebido e por que eu fizera aquilo. Antes, ele confiava em mim, mas agora não sabia mais o que pensar.
Tinha de me aceitar como genro, mas em vez de me receber bem na família estava canhestro e sem jeito.
Georges Lê Jeune também era estranho comigo e menos simpático do que antes, embora agora fôssemos considerados irmãos. Já Thomas e Luc gostavam de rir e brincar comigo, o que não me surpreendia. Pelo menos deixavam Aliénor em paz. Ninguém disse nada para ela.
Foi mais fácil suportar tudo isso porque Christine era gentil. Ela deixou claro que me aceitava na família, e assim os outros se pouparam de dizer o que estavam achando da situação. Ninguém parecia entender o que realmente havia acontecido, mesmo com a pista nas tramas da tapeçaria bem debaixo do nariz de cada um. Como eram muito bons tecelões, talvez estivessem próximos demais do trabalho para poder avaliar. Nunca pensaram em Nicolas; acharam que o unicórnio era eu. Assim tudo ficava mais fácil.
Mas também não havia muito tempo para essas considerações, pois estávamos quase terminando a Visão e o Tato. Os dias de inverno eram curtos e escuros. Às vezes, parecia que os sinos da Chapelle tinham acabado de repicar anunciando o início do dia de trabalho e já tocavam o final, com a nossaprodução rendendo pouco. O frio não ajudava. Os ateliês de tapeçaria são especialmente frios porque as portas e janelas precisam ficar abertas para entrar luz e não têm lareiras, por receio de que as brasas provoquem um incêndio. Muitos ateliês fecham ou diminuem o ritmo de trabalho nos meses mais frios, mas claro que Georges não podia fazer isso. Embora ainda fosse o Advento, já estava tão frio como se a Epifania tivesse passado há tempos.
Madeleine tirava baldes de brasas da lareira e colocava-os aos pés dos tecelões, mas isso não fazia muita diferença. Os artesãos também não podiam usar roupas pesadas, pois atrapalhavam o movimento dos braços e dos ombros. Usavam luvas sem os dedos, que Christine tricotava com sobras de lã, e mesmo assim tinham frieiras nas pontas dos dedos.
Georges enfrentou com determinação os dias de inverno. Os meses que ele passou preocupado com o trabalho deixaram marcas: olheiras escuras e olhos vermelhos.
Do dia para a noite seus cabelos embranqueceram. Ele ficou com os ombros caídos e passou a falar pouco e sem ânimo. Christine não deixava que trabalhasse aos domingos, mas ele estava tão cansado que dormia na Missa da Notre Dame du Sablon. Ninguém tentava acordá-lo, nem mesmo quando devia levantar ou ajoelhar-se. O padre não dizia nada. Ele e todos os demais sabiam que o ateliê passava por problemas.
Quase todos os dias eu ia ajudar. Não havia cartões para eu desenhar em outros ateliês, pois os lissiers não recebem muitas encomendas no inverno: nenhum cliente vem de Paris nem de outros lugares. Além disso, eu queria ir lá-mesmo que fosse só para ficar perto de minha esposa. Aliénor ajudava Madeleine, ou costurava as tapeçarias quando havia espaço para ela trabalhar. Mas, na maior parte do tempo, éramos como dois gatos vagando pelos cantos em busca de alguma coisa para fazer.
Era triste ver os outros trabalhando tanto e não poder participar. Eu invejava a disposição de Christine, embora ainda me causasse medo vê-la tecendo tapeçarias que passariam pela Guilda. Claro que eu não dizia nada; agora fazia parte da família e não podia contar os segredos dela.
Fizemos poucas comemorações pelo Natal. Tivemos só a véspera, pois a comida foi pouca e sem graça; não havia dinheiro para comprar carne, bolos ou vinho. Só Joseph e Thomas não trabalharam no Dia de Santo Estêvão, 26 de dezembro. Christine foi à Missa dos Santos Inocentes e insistiu para todos assistirem à cerimônia da Epifania, mas depois trabalhamos em vez de comemorar. Nem Joseph nem Thomas participaram dos festejos nas ruas, pois estavam quase terminando o Tato, e queriam acabar logo.
Eles estavam à frente dos outros tecelões - embora nosso trabalho não fosse uma competição, nem houvesse vencedores - por causa de um problema na tapeçaria da Visão.
Um dia, Georges deu uma olhada e não gostou das folhas de um carvalho que Christine havia tecido.
- Faltou um pedaço de galho. Olhe só, o galho termina aqui e começa de novo lá, com folhas onde devia ser o galho.
Christine olhou bem o que fez, enquanto os outros tecelões ficaram em silêncio.
Georges Lê Jeune veio olhar.
- Isso tem problema? Ninguém vai perceber! - concluiu, depois de examinar as folhas.
Georges olhou sério para o filho e depois disse: Christine, saia daí. - Ela ficou ao lado de Aliénor na noveleira e chorou quando o marido começou a desmanchar a tapeçaria. Eu nunca a tinha visto chorar.
- Bonjour! - disse alguém, e todos nós olhamos para a cabeça que surgiu na janela do ateliê. Era Rogier Lê Brun, lissier que viera inspecionar o ateliê em nome da Guilda. Georges também fazia essas visitas inesperadas a outros ateliês e assim a Guilda garantia que seus membros respeitassem as leis, que os lissiers não fraudassem e que fosse mantida a alta qualidade das tapeçarias de Bruxelas.
Eu não saberia dizer há quanto tempo Rogier Lê Brun estava nos observando da janela. Se tivesse visto Christine tecendo, poderíamos ter ainda mais problemas.
Certamente, ele a viu chorando e devia estar pensando no motivo. Estávamos todos pensando nisso enquanto Christine enxugava as lágrimas na manga da blusa e corria para receber o lissier com Georges.
- Você vai aceitar um caneco de cerveja e alguns bolos de especiarias que sobraram da Epifania.
Madeleine! - chamou Christine, entrando na casa.
Rogier Lê Brun agradeceu, mas recusou gentilmente o oferecimento de comida e bebida. Devia saber como o ateliê estava passando dificuldades. Os bolos haviam sido presente de um vizinho generoso.
- Madeleine saiu - informei para Aliénor, baixo, que imediatamente me entregou a lã que estava enrolando e foi ajudar a mãe.
Rogier Lê Brun seguiu-a com os olhos pelo ateliê, a barriga aparecendo no vestido. Quando ela saiu, Rogier me olhou por um instante, como se tentasse adivinhar como um tímido como eu tinha conseguido engravidar aquela moça. Corei de vergonha.
- Desmanchando trabalho, hem? O aprendiz fez uma confusão como sempre, não? - disse Rogier, vendo o carvalho que Georges desmanchava na tapeçaria.
Rogier deu um tapinha na cabeça de Luc, que olhou para ele, mas teve a gentileza de não contradizer o visitante. É um rapaz inteligente e sabe quando deve se calar.
Rogier sorriu e voltou a falar com Georges: - Sinto muito, Georges, não há nada pior para um lissier do que desmanchar um trabalho. Mas numa tapeçaria como essa, cada ponto tem de ser perfeito, não é? Não adianta ter tecelões que não trabalham direito, pois a Guilda não aprovaria a tapeçaria.
O ateliê permanecia em silêncio.
- Luc cometeu poucos erros - resmungou Georges.
- Claro, tenho certeza de que você foi um excelente mestre para ele. Mas isso vai atrasá-lo, n'est-cepás? Exatamente quando você mais precisa de tempo. Qual o prazo das tapeçarias?
- A Festa da Candelária.
- Candelária? E como você vai conseguir?
Antes que Georges pudesse responder, Christine apareceu com os canecos de cerveja.
- Não se preocupe conosco, Rogier, vamos dar conta. Veja, essa tapeçaria está quase pronta e logo em seguida os tecelões passarão para a outra.
Thomas zangou-se. - Se ganharmos um pouco mais.
Rogier não ouviu direito o que Thomas disse, pois estava avaliando o que ainda restava fazer, a quantidade de tecelões (será que incluíra Christine?) e o tempo que faltava para entregar o trabalho. Todos nós o olhávamos fazendo os cálculos. O banco onde os tecelões estavam sentados rangia a cada vez que eles se mexiam.
Esfreguei os pés no chão. Apesar do frio, pingava suor da testa de Georges.
Christine cruzou os braços. - Vamos dar conta, como espero que você dê conta de tudo quando Georges visitá-lo em nome da Guilda - disse ela, sorrindo para Rogier.
Fez-se um curto silêncio enquanto Rogier entendia o que ela dissera: que os membros da Guilda se ajudam. Ele olhou para ela e vi o pomo-de-adão de Rogier mexer quando engoliu em seco.
Aliénor, então, apareceu e se aproximou devagar de Rogier.
- Por favor, Monsieur, prove um - ofereceu, mostrando um prato de bolinhos.
A essa altura, Rogier sorriu, mordendo um bolinho: - Georges, você pode ter problemas no ateliê, mas suas mulheres compensam!
Depois que ele foi embora, Georges e Christine se entreolharam.
- Georges, acho que São Maurício deve estar nos protegendo. Se eu não tivesse errado naquele carvalho, estaria no tear quando Rogier chegou. E se me visse tecendo, talvez ele não fizesse vista grossa.
Georges sorriu pela primeira vez em semanas. Foi como o gelo partindo num lago após um longo inverno, um quebranto que acabou. Os rapazes sorriram também e começaram a imitar Rogier enquanto Christine foi buscar mais cerveja. Quanto a mim, cheguei perto de Aliénor e dei um beijo em sua testa. Minha esposa não levantou a cabeça, mas sorriu.
Duas semanas antes da Festa da Candelária, os tecelões terminaram o Tato. Cortar a tapeçaria do tear não foi uma cerimônia longa, como Georges Lê Jeune, Joseph e Thomas gostariam, mas rápida e apressada. Depois, a tapeçaria foi desenrolada e virada para cima - Georges gostou e elogiou o trabalho, mas estava com os pensamentos nos próprios dedos, que queriam tecer.
Christine percebeu o desapontamento dos rapazes e cutucou Georges, que então deu suas últimas moedas para eles gastarem na taberna.
Georges Lê Jeune foi ajudar o pai e Luc no tear da Visão, e Christine foi fazer a bainha do Tato. Ela e Aliénor dobraram as pontas dos fios de urdume e costuraram-nos com lã marrom para dar o acabamento.
Fiquei perto de Aliénor, olhando-a e à mãe costurando, e pedi, de repente: - Mostre-me como se faz isso. Christine riu e Aliénor franziu o cenho.
- Por quê? Você é pintor, não é mulher.
- Quero ajudar. - O que eu queria dizer era: "Você é minha esposa, quero ficar perto de você."
- Por que não procura o que fazer?
Tive então uma idéia: - Se você me ensinar, poderei ajudar na bainha enquanto Christine ajuda os outros.
Christine olhou para Georges, que pensou por um instante e concordou.
- Está certo, Aliénor vai lhe mostrar como fazer - disse ela, enfiando a agulha na lã e levantando-se.
- Mamãe! - chamou Aliénor, parecendo aborrecida. Christine virou-se para ela e disse: - Ele é seu esposo, menina. E melhor você se acostumar com a idéia e ser grata. Pense em qual seria a outra opção.
Aliénor abaixou a cabeça enquanto Christine sorria para mim. Agradeci com o olhar.
Aliénor não deixou que eu fizesse logo a bainha na tapeçaria; deu-me um pedaço de pano para praticar. Era muito fácil, mas eu não conseguia fazer os pontos tão iguais quanto os dela e furei tanto os dedos que Aliénor riu.
- Mamãe, se você deixar Philippe fazer isso, nunca terminaremos. vou ter de desmanchar e refazer tudo que ele fizer. E ele ainda vai deixar o tapete pingado de sangue por causa dos furos nos dedos!
- Deixe-o experimentar, você poderá se surpreender disse Christine, sem levantar os olhos.
Depois de passar um dia errando, comecei a melhorar e, finalmente, Aliénor me deixou fazer a bainha, embora eu costurasse bem mais devagar do que ela. No começo, não falávamos muito, mas ficarmos sentados durante tantas horas parecia facilitar as coisas entre nós. Ela sempre gostou do silêncio. Aos poucos, começamos a conversar - sobre o frio lá fora, a bainha que fazíamos ou as nozes em conserva que comemos na ceia. Pequenos comentários.
Estávamos quase terminando a bainha e tomei coragem para perguntar algo mais importante. Olhei o barrigão onde ela apoiava as mãos como se fosse uma mesa coberta
pela tapeçaria. - Que nome daremos ao bebê? - perguntei, baixo, para que os outros não ouvissem.
Aliénor parou de costurar, colocou a agulha sobre o pano. Como os olhos dela não enxergam, é difícil saber o que está pensando. E preciso ouvir sua voz. Esperei um bom tempo. Quando respondeu, o tom não foi tão triste quanto eu esperava: - O bebê vai se chamar Etienne, como seu pai. Ou Tiennette, se for menina.
Sorri.-Merci, Aliénor.
Minha esposa deu de ombros. Mas não continuou a costura. Enfiou a agulha no pano, virou-se para mim e disse: - Gostaria de sentir seu rosto com os dedos, para saber como é meu esposo.
Inclinei-me e coloquei as mãos dela em meu rosto. Ela passou as mãos e apertou todo o meu rosto.
- Seu queixo é pontudo como o do meu gato! - gritou. Ela gosta do gato, eu a vi com o bichano no colo, afagando-o por horas.
- É, como o seu gato - concordei.
Uma semana antes da Festa da Candelária, Georges terminou a última volta do rabo do leão. Três dias antes da data, Christine e depois Luc chegaram ao fim da tapeçaria.
Georges continuava fazendo um coelho, que é a assinatura dele - um coelho com a patinha na cara - enquanto Georges Lê Jeune terminava o rabo de um cachorro.
Aliénor foi para o banco onde estavam o pai e o irmão para costurar as tiras, embora estivesse com a barriga tão grande que tinha de ficar longe da tapeçaria. Fiquei olhando quando ela parou por um instante, apertou a barriga com as mãos e franziu o cenho. Voltou a costurar. Minutos depois, ela fez o mesmo gesto e percebi que o nascimento estava começando.
Se ela não dissesse nada, sei que não gostaria que eu comentasse. Por isso, puxei Christine para um lado e fiz sinal, mostrando a filha: -Achamos que ainda faltam umas semanas, está cedo disse Christine.
- Não é melhor ela ficar deitada? - perguntei. Christine balançou a cabeça.
- Ainda não. Depois do nascimento ela vai ficar muito tempo na cama. Ainda pode demorar dias. Deixe-a trabalhar; se quiser, vá distraí-la da dor.
E assim Aliénor costurou durante horas naquele dia, até bem depois do anoitecer e de os tecelões terem parado de trabalhar. Mesmo quando todos foram dormir, ela continuou costurando. Fiquei acordado, deitado num catre e ouvindo-a se mexer e se esticar no banco. Finalmente, tarde da noite, ela gemeu: - Philippe, chame mamãe.
Eles a colocaram na cama dos pais e Georges foi dormir no ateliê. De manhã, Christine mandou que Luc chamasse a parteira. Dali a pouco, Luc irrompeu de volta no ateliê, avisando: - Os soldados de Jean Lê Viste estão aí. Soube na rua que foram à Guilda na GrandPlace perguntar seu endereço.
Pai e filho levantaram os olhos da tapeçaria.
- Ainda faltam dois dias para a Candelária - disse Georges pai, e olhou para as mãos deles. - Terminamos hoje, falta fazer a bainha e as mulheres estão ocupadas.
- Olhou para a casa, de onde vinha um longo urro, que terminou num grito.
- Posso fazer a bainha - anunciei, satisfeito por finalmente ser útil.
Georges me olhou e disse: - Bon. - Pela primeira vez desde que Aliénor e eu nos casamos, senti que eu era útil no ateliê.
- Não se preocupe, rapaz - disse ele para Luc, que pulava de um pé para outro, nervoso. - Os soldados esperam. Tiens, vá dizer a Joseph e a Thomas que venham à tarde para acompanhar o corte da tapeçaria - eles vão querer participar. Não poderemos contar com as mulheres.
Outro gemido vindo de dentro da casa fez com que pai e filho enfiassem a cara no trabalho e Luc saísse correndo do ateliê.
Aliénor gritava na hora em que cortamos a lã da Visão. O corte é um momento que deve ser alegre, mas os gritos dela fizeram com que cortássemos o mais rápido possível.
Só quando viramos a tapeçaria para cima e vimos a cena por completo pela primeira vez foi que me esqueci dos gritos.
Georges olhou e começou a rir. Era como se estivesse prendendo a respiração há meses e de repente a soltasse. Já Georges Lê Jeune, Luc e Thomas começaram a se cumprimentar com tapinhas nas costas. Georges ria sem parar e Joseph também. Riram tanto que tiveram de se apoiar um no outro, as lágrimas escorrendo. Foi uma estranha reação para uma longa viagem, mas eu também ri. Realmente, havíamos percorrido um longo caminho.
Aliénor gritou de novo e todos pararam. Georges enxugou as lágrimas, olhou para mim e disse: - Vamos para o Lê Vieux Chien. Avise-me quando o bebê nascer ou quando os soldados chegarem; quem vier primeiro. - Então, depois de quase dois anos de trabalho que embranqueceram os cabelos dele, fizeram-no andar curvado e deixaram seus olhos vesgos, o lissier afastou-se da tapeçaria sem sequer olhar para trás. Acho que não quis.
Depois que eles se foram, fiquei observando a Visão por um bom tempo. A Dama está sentada e o unicórnio pusera a cabeça em seu colo. Pode-se dizer que eles se amam.
Talvez se amem. Mas a Dama tem um espelho e o unicórnio pode estar amando a si mesmo, em vez de amar a Dama. O olhar dela está desviado; as pálpebras, pesadas.
O sorriso é preocupado. Talvez ela nem o veja.
É o que acho.
Fiquei satisfeito por Georges confiar em mim para fazer a bainha. Peguei fios de lã marrom, agulha e tecido, e dobrei com cuidado o fio de urdume para baixo, como
tinha visto Aliénor e Christine fazerem. Depois, sentei ao lado da janela e dei um ponto, outro e mais outro. Costurei bem devagar, como se estivesse contando os cabelos na cabeça de um bebê dormindo. Cada vez que Aliénor gritava, eu rangia os dentes e continha minhas mãos trêmulas.
Já havia costurado a metade de um lado quando os gritos cessaram. Parei também e fiquei só esperando. Devia ter rezado, mas tive medo até de fazer isso.
Finalmente, Christine apareceu na porta com um monte de linho macio nos braços.
Sorri para mim mesmo.
- Como está Aliénor? - perguntei. Christíne riu da minha expressão.
- Sua esposa está ótima. Toda mulher grita desse jeito; nascimento é assim mesmo. Mas você não quer saber? Temos um novo tecelão - disse ela, mostrando o neto.
O rosto do bebê era amassado, vermelho, e ele era careca. Pigarreei e estendi meus braços para Etienne.
- Você esquece quem é o seu pai - eu disse. - Ele será um pintor.