A Dama e o Unicórnio
Capítulo IV
BRUXELAS
De Primeiro de Maio de 1491 ao Domingo da Septuagésima de 1492
GEORGES DE LA CHAPELLE
Quando ele chegou, já havíamos começado a trabalhar há muito tempo. O ateliê estava em silêncio. SvFazia pelo menos uma hora que ninguém abria a boca, sequer para pedir lã, uma lançadeira ou agulha. Quase não se ouvia o ruído dos pedais dos teares; pareciam acolchoados. As mulheres também mantinham-se caladas: Christine enrolava fios de lã numa lançadeira, Aliénor trabalhava em seu jardim, e Madeleine tinha ido ao mercado.
Com silêncio, eu trabalho melhor. Posso tecer horas, sem sentir o tempo passar, pensando só nos fios coloridos em meus dedos enquanto eu os puxo para a frente e para trás por entre o urdume. Mas um tecelão agitado ou uma mulher faladeira pode deixar o ateliê sem condições de produzir. Precisaremos de silêncio para fazer o trabalho direito, se quisermos terminar no prazo. Mesmo quando está tudo calmo, só penso no prazo: o que já fizemos e o que ainda falta fazer, como conseguiremos e o que poderemos fazer para compensar o atraso.
Eu estava sentado entre Georges Lê Jeune e Luc, terminando as jóias que a Dama segura em À Mon Seul Désir, ao mesmo tempo em que prestava atenção em meu filho, que começava o sombreado do ombro da Dama em tons que iam do amarelo ao Vermelho. Ele estava fazendo um bom trabalho -realmente eu não precisava mais acompanhar seu serviço. É difícil largar esse hábito de fiscalizar.
Os dois tecelões contratados, Joseph e seu filho Thornas, faziam as millejleurs no Paladar. Já tinham feito isso antes para mim, e eram competentes e rápidos.
Além de calados, embora Thomas costume usar os pedais do tear mais vezes do que o necessário. Às vezes acho que é de propósito, só para fazer barulho, coisa de que os jovens gostam. Tive de ensinar Georges Lê Jeune a mexer nos pedais o mais silenciosamente possível, e só fazê-lo quando é preciso separar bem os fios do urdume para passar a trama. Claro que não posso ensinar a um tecelão contratado, mas fico nervoso quando Thomas faz essa barulheira toda.
Não é fácil ser o lissier. Além de fiscalizar os outros, sou eu que teço as partes mais difíceis: os rostos e as mãos, a juba do leão, a cara e o chifre do unicórnio, o tecido intricado. Fico entre as duas tapeçarias, tentando acompanhar, enquanto os outros fazem as millejleurs e os animais, esperando que eu preencha o que falta no meio.
Avisei aos tecelões que estivessem sentados em seus teares, prontos para começar o trabalho, assim que os sinos da Chapelle tocassem - eles têm tocado mais cedo, agora que estamos em maio. Hoje, começamos a trabalhar às sete da manhã. Os outros ateliês usam os sinos como sinal para preparar o dia, mas as leis da Guilda permitem que os tecelões cheguem mais cedo, estudem os cartões do que vão tecer naquele dia e preparem as lançadeiras. Assim, quando os sinos tocam, eles já estão prontos para começar.
Não me preocupo com Georges Lê Jeune nem com Luc - eles sabem que não podemos perder tempo pela manhaOs outros dois tecelões vão indo bem, mas não são sócios do ateliê nem receberão comissão pelo trabalho, embora eu confie neles, pois fazem millejleurs tão bem quanto eu. Fico achando que um dia encontrarão um trabalho menos exigente e sumirão daqui. Joseph não reclama, mas tenho visto o filho Thomas, sentado, olhando para o tear depois que os sinos tocam e, logo em seguida, pegar nos fios como se tivesse pedras amarradas nos pulsos. E ainda preciso do trabalho dele por mais dez meses, quer faça barulho ou não com os pedais. Vai ver, ele não se recuperou bem da doença que teve nesse inverno.
Aliénor deu remédios para ele e Georges Lê Jeune quando ambos tiveram febre, mas os dois custaram a se recuperar. Contudo, o tempo perdido ainda não recuperamos também.
Christine está sempre recomendando para rezarmos. Mas perde-se muito tempo; então, mando-a ir à Notre Dame du Sablon rezar por todos nós; só assim podemos ficar aqui tecendo.
Ouço vozes na cozinha. Madeleine acaba de chegar do mercado e está acompanhada de um homem. Não dou muita importância, pois ela tem sempre um abelhudo zunindo em volta. Qualquer dia vai levar uma ferroada!
Então, Aliénor vem do jardim, com uma expressão estranha.
- O que foi? - perguntou Christine, quebrando o precioso silêncio do ateliê.
Aliénor estava prestando atenção aos sons da casa.
- Ele voltou - disse.
Georges Lê Jeune levantou os olhos: - Ele quem?
Não precisava perguntar. Eu sabia quem era. Nossa paz estava prestes a acabar: aquele sujeito jamais conseguia ficar Parado.
Madeleine entrou no ateliê com um sorriso bobo, - O homem de Paris está aqui - anunciou.
Nicolas dês Innocents apareceu por trás dela, ainda com pingos de lama da estrada, e sorriu irônico para nós.
- Vocês estão sentados exatamente como os deixei no verão passado. O mundo gira, mas Bruxelas nunca se mexe - zombou.
Levantei-me. - Seja bem-vindo. Christine, traga bebida para a nossa visita. Um caneco pequeno de cerveja - mandei.
Embora ele fosse um incômodo, ninguém poderia me acusar de que não recebo bem as visitas, principalmente as que vêm de longe.
Georges Lê Jeune e Luc também fizeram menção de se levantar, mas fiz sinal para que continuassem trabalhando. Nicolas não precisava atrapalhar o ateliê inteiro.
Ao passar para a cozinha, Christine cumprimentou Nicolas, e perguntou: - Quer dizer que veio dar outra olhada, não? - Fazendo um gesto com a cabeça que abrangia não só os teares, mas também Aliénor, que ainda estava parada na soleira da porta.
- Isso mesmo, Madame. Queria ver Aliénor dançando em volta do mastro na festa de Primeiro de Maio, mas cheguei tarde.
Christine entrou em casa sem dizer a ele que costumamos trabalhar no dia 1° também, embora eu tenha liberado Luc e Thomas mais cedo para irem à festa.
Nicolas entrou mancando no ateliê, como se tivesse pisado num prego.
- Você está bem? - perguntei.
Ele fez um gesto querendo dizer que não era nada, mas continuou sem mexer um braço.
- Estou um pouco cansado da viagem, só isso. - Virou-se para Aliénor: - E você, como vai? - perguntou, e, quando sorriu para ela, notei que estava sem dois dentes e com um machucado em volta do olho. Devia ter caído do cavalo ou se metido em alguma briga. Talvez as estradas estivessem cheias de ladrões.
- Estou muito bem, Monsieur, e o jardim vai melhor ainda. Venha sentir o perfume das flores - ela convidou.
- Daqui a pouco, bela. Primeiro, quero dar uma olhada nas tapeçarias.
Aliénor sorriu, desapontada. - Quer ver a sua Dama, não é? bom, veio cedo demais.
Não entendi o que ela quis dizer até Nicolas olhar a faixa pronta do Paladar no tear.
- Ah! - exclamou, frustrado.
Ele viu apenas um braço da dama com a mão segurando o periquito, a dobra de uma sobreveste, o começo de um macaco e a ponta da asa de uma pega. E muitas millefleurs, claro. Um tapeceiro teria muito com que se admirar, mas percebi que, para alguém como Nicolas, aquela faixa devia ser um desapontamento. Olhou À Mon Seul Désir, talvez esperando ver um rosto, mas havia apenas outro braço da Dama segurando as jóias, outra sobreveste, um macaco e uma dobra azul da tenda com chamas douradas espalhadas.
- Poderia ser mais decepcionante seja tivéssemos feito o rosto, pois então ele estaria enrolado no cilindro e você só poderia vê-lo quando a tapeçaria estivesse pronta - disse Aliénor.
-A menos que você o desenrolasse para mim, Mademoiselle.
- Papai não desenrola tapeçarias para ninguém, pois prejudica a tensão da urdidura - explicou Aliénor, rápido, dando uma resposta de filha de lissier.
Nicolas sorriu outra vez. - bom, nesse caso terei de ficar aqui até vocês terminarem de tecer a Dama.
- Veio de tão longe só para ver uma faixa de tapeçaria? Uma longa viagem por um rosto de mulher? - perguntei.
Nicolas negou com a cabeça. - Tenho de conversar com o senhor, em nome de Léon Lê Vieux.
Franzi o cenho. O que Léon poderia querer agora? Sabia que eu estava muito ocupado, que não aceitaria outras encomendas. E por que havia mandado aquele artista em vez de vir pessoalmente? Os tecelões ficaram me olhando. De todo jeito, eu queria que eles trabalhassem em vez de ficarem ouvindo a conversa.
- Então vamos para o jardim. Assim você poderá ver as flores de Menor enquanto conversamos - convidei.
Fui na frente. Nicolas me seguiu, e Aliénor afastou-se da porta para nos deixar passar.
- Vá ajudar sua mãe - sugeri, quando ela veio atrás de nós.
Foi a vez de ela ficar frustrada, mas é claro que me obedeceu.
Em maio, o jardim de Aliénor está na apoteose. As flores são novas e viçosas, ainda não murcharam com o sol. Selosde-salomão, pervincas, violetas, aqüilégias, margaridas, cravos, miosótis: tudo está florido. Ainda por cima, por toda parte há líriosdo-vale com suas flores efêmeras e seu perfume estranho e sedutor.
Sentei-me num banco enquanto Nicolas caminhava um pouco, sentindo o aroma e admirando-o.
- Esquecera-me de como é lindo este jardim; tem o efeito de um bálsamo curativo, principalmente depois de vários dias na estrada - disse ele ao voltar.
- Qual o motivo de sua viagem, então? Nicolas riu. - Brusco, como sempre - disse ele.
Dei de ombros. Minhas mãos estavam coçando, precisavam tecer.
- Estou ocupado, ainda temos muito o que fazer expliquei.
Nicolas colheu uma margarida. Aliénor detesta que as pessoas arranquem suas flores: dá muito trabalho cuidar delas, e aí vem alguém e as mata. Nicolas ficou girando a flor nos dedos, até que disse: - Vim porque Jean Lê Viste está preocupado com a entrega das tapeçarias no prazo.
Lembrei-me daquele maldito comerciante que tinha aparecido no ateliê na Quaresma. Eu sabia que ele estava espionando para Léon, embora se mostrasse ansioso em me fazer uma encomenda. Depois disso, nunca mais soube dele.
Ouvi um rumor atrás de mim: era Aliénor, abaixada no canteiro de ervas com uma tesoura de cozinha. Estava tentando não ser vista, mas é difícil para uma menina cega se esconder direito.
- O que faz aí, filha? Mandei você ajudar sua mãe - reclamei.
- Estou ajudando; ela pediu cerefólio para a sopa.
A mãe dela mandava-a ouvir a conversa; conheço minha esposa; não gosta de ser excluída de coisa alguma. Não mandei Aliénor de volta para a cozinha, já que ela e Christine iam mesmo saber de tudo, mas recomendei: -Não conte o que ouviu para os tecelões, nem para os vizinhos; ninguém!
Ela concordou com a cabeça, cortou os temperos e colocou-os no avental.
- O atraso não é preocupante - tranqüilizei Nicolas. Atrasamos no inverno por motivo de doença, mas estamos compensando agora. Até a Páscoa teremos tudo terminado, como Monseigneur Lê Viste pediu.
Nicolas pigarreou e abaixou-se para cheirar alguns cravos e tocar nas pétalas.
Eu sabia que ele queria dizer mais alguma coisa; só estava esperando o momento certo.
Christine surgiu na porta com canecos de cerveja, e ele pareceu aliviado.
- Ah, obrigado, Madame! - exclamou, tratando de se servir.
Em geral, Christine manda Madeleine ou Aliénor servir às visitas, mas dessa vez veio pessoalmente, para ouvir as notícias de Nicolas, em vez de esperar. Fiquei com pena dela e mandei que se sentasse no banco ao meu lado. Ela poderia ouvir, mas que não esperasse nada de bom. Ficamos de frente para Nicolas, enquanto Aliénor cortava os temperos em silêncio atrás de nós, aguardando.
Nicolas bebeu a cerveja, admirou mais flores e finalmente disse: -Jean Lê Viste quer as tapeçarias para o dia da Festa da Candelária.
Atrás de nós, Aliénor parou.
- Impossível! Estamos trabalhando sem parar cada minuto que Deus nos dá - protestou Christine.
- Não pode contratar mais tecelões? Colocar três em cada tear? - sugeriu Nicolas.
- Não - respondi. - Se pagarmos mais um homem, estaremos perdendo dinheiro.
Seria como se eu pagasse a Jean Lê Viste pelo privilégio de fazer as tapeçarias para ele.
- Se você terminar mais rápido, poderá começar logo outro trabalho e, assim, ganhar mais dinheiro - raciocinou Nicolas.
Balancei a cabeça. - Não tenho dinheiro sobrando para pagar ninguém, e não poderia contratar um tecelão sem dar-lhe um adiantamento.
Nicolas fez um gesto de quem não estava interessado em detalhes.
- Jean Lê Viste quer a encomenda para a Candelária e vai mandar soldados buscá-las. Se não estiverem prontas, pegará tudo sem pagar o que deve.
Fiquei irritado. - Soldados de quem?
Nicolas parou um pouco e disse, calmo: - Do Rei.
- Mas o contrato diz que a encomenda é para a Páscoa! Ele não pode desrespeitar o acordo - argumentou Christine.
Não dei atenção ao que ela disse. Nobres podem fazer o que bem entendem. Além do mais, Léon ainda poderia me ameaçar por causa da tapeçaria que copiei. Se eu fosse obrigado a pagar uma multa por isso, estaria arruinado.
- Por que Léon não veio? Eu preferia discutir isso com ele - falei, zangado.
Nicolas deu de ombros. - Estava muito ocupado.
Aliénor parou de lidar no canteiro outra vez. Minha filha parece-se comigo ao avaliar as pessoas. Seus ouvidos percebem as mentiras na voz, da mesma forma que eu as vejo nos olhos. Ela ouviu alguma coisa como eu vi a mentira nos olhos dele, tentando não me encarar. Nicolas estava escondendo uma parte da história, mas não perguntei nada. Achei que não me diria naquela hora: talvez contasse mais tarde, num lugar onde se sentisse mais à vontade.
- Depois conversamos no Lê Vieux Chien. - Virei-me para Christine: - O jantar está pronto? - perguntei.
Ela se levantou rápido. - Já, já.
Deixei Nicolas no jardim, terminando a cerveja, e voltei para o ateliê. Não fui tecer: fiquei na porta, observando os tecelões. Estavam debruçados no trabalho, sem se mexer, como quatro passarinhos empoleirados num galho de árvore. De vez em quando, um apertava os pedais para trocar as linhas de posição e mudar a cala, porém, afora esse barulho de Cadeira, tudo estava calmo.
Christine chegou do meu lado e disse, baixo:-Você sabe o que podemos fazer.
Respondi, no mesmo tom: - Não podemos trabalhar à noite. Além de nos ser proibido pela Guida, forçamos a vista no escuro e as velas pingam cera nas tapeçarias.
É difícil tirar os pingos, além de ser uma pista fácil para qualquer membro da Guilda armar uma confusão, - Não quis dizer isso. Nem você é capaz de tecer direito sem luz.
-Então você está querendo que trabalhemos aos domingos? Estranho que sugira isso, embora talvez possa subornar o padre; afinal, ele ouve você.
- Também não é isso que quero dizer. Claro que não tecemos aos domingos - é dia sagrado.
- Então, o que quer?
Os olhos de Christine brilharam. - Deixe que eu teça as millefleurs enquanto Georges Lê Fils e você fazem as partes mais difíceis.
Fiquei calado. Ela continuou a argumentar: - Como você disse, não podemos contratar outro tecelão. Mas posso ser aproveitada e deixe nosso filho fazer o que sabe. Você ensinou tudo a ele; está na hora de ele se tornar um tecelão -, disse ela, olhando firme para mim.
Christine estava tentando fazer de conta que era só aquilo mesmo, porém eu sabia o que estava por trás de suas palavras: ela queria tecer. !
- Tiens, estou com fome; o jantar ainda não está pronto?
- Foi só o que respondi.
Assim que os sinos tocaram, anunciando o fim do trabalho, levei Nicolas à taberna Lê Vieux Chien, Não gostava muito de ficar no meio de homens falando alto, mas era o melhor lugar para conversar com ele sobre as exigências de Jean Lê Viste. Georges Lê Jeune nos acompanhou e mandei Luc chamar Philippe também; fazia tempo que não bebíamos juntos.
- Ah, cerveja e amigos, tudo de Bruxelas! - suspirou Nicolas, estalando os lábios num gole da cerveja. - Como esquecer tudo isso? Tabernas que parecem túmulos, onde servem uma água que chamam de cerveja! Foi para isso que enfrentei dez dias de estradas ruins?
Achei ótimo que a taberna estivesse calma. - Mais tarde isso aqui ficará mais animado e você irá se divertir!
Georges Lê Jeune queria saber como havia sido a viagem de Nicolas: se o cavalo dele era bom, com quem ele viajara, onde se hospedara no caminho. Georges gosta de saber de outras cidades, mas, quando foi comigo à Antuérpia e Bruges, ele dormiu mal, comeu pouco e teve medo dos estranhos. Fica contente de voltar para casa.
Diz que um dia quer conhecer Paris, mas sei que jamais irá.
- Tinha ladrões nas estradas? - perguntou Georges Lê Jeune.
- Não, nada além de lama e do meu cavalo manco.
- Então, como você conseguiu isso? - perguntou Georges Lê Jeune, mostrando as manchas amareladas em volta do olho de Nicolas. - E você se machucou aí do lado.
Nicolas não deu importância. - Houve uma briga numa das tabernas onde costumo beber em Paris. Pegaram-me, embora eu não tivesse nada a ver com a história. - Depois, virou-se para mim e perguntou: - Como vai Aliénor? Preparando o enxoval?
Franzi o cenho. Como ele sabia do enxoval de minha filha? Só Christine e Georges Lê Jeune sabiam do acordo que eu havia feito com Jacques Lê Boeuf Christine insistira para contarmos a nosso filho, com o intuito de ele saber o que teria de enfrentar quando assumisse o ateliê. E nosso filho não contou a ninguém: ele sabe guardar segredos.
Antes que eu pensasse numa resposta, chegaram Philippe e Luc que, sentando-se, disse a Nicolas: - Pensamos que você não fosse voltar. Pintou com tanta pressa no verão passado, que achei que queria ir embora logo. E acho que jurou nunca mais sair de Paris novamente.
Nicolas sorriu. - Tenho negócios com Georges e queria ver como vão indo as tapeçarias. Claro que é sempre um prazer ver Christine e Aliénor. Estava acabando de perguntar a Georges pela filha. -Virou-se para mim outra vez: -Então, como vai ela?
- Está muito ocupada, costura as tapeçarias à noite para não nos atrapalhar de dia - respondi, sem entrar em detalhes.
- Alors, você tem uma vantagem em relação aos outros ateliês - disse Nicolas. - Se ela pudesse enxergar, não conseguiria costurar à noite. Sendo cega, pode trabalhar a noite inteira e não apenas entre os toques dos sinos. Você deve agradecer por Aliénor ser tão útil.
Eu ainda não tinha visto a questão sob esse ângulo.
Nicolas continuou: - Claro que ela então fica sem tempo para fazer o enxoval.
Philippe se surpreendeu ao ouvir isso. Acho que qualquer pessoa ficaria surpresa, pois ninguém espera que Aliénor se case.
- Minha filha não está preocupada com o enxoval, mas com essas tapeçarias, como todos nós - resmunguei. - E agora que o prazo de entrega foi reduzido em dois meses, ainda será pior. - Eu não queria falar sem pensar, mas Nicolas me incomodava tanto que não me contive.
Georges Lê Jeune ficou me olhando: - Por que menos dois meses, se já estamos atrasados?
- Pergunte a Nicolas.
Meu filho, Luc, Philippe e eu viramos para Nicolas, que ficou sem jeito e olhou a cerveja no caneco. Finalmente ele disse:
- Não sei, Léon só avisou que Jean Lê Viste quer as tapeçarias antes do prazo, mas não explicou por quê.
Se nem ele não sabia, não tínhamos muito o que discutir.
- Léon deve saber, sabe de tudo - falei, cheio de ironia.
- Por que ele não veio? Não me diga que está muito ocupado; isso nunca o impediu de vir, principalmente quando é do interesse de Jean Lê Viste.
Nicolas fez um olhar de desafio, mostrando que não gostava de ser rejeitado.
Pegou o caneco e bebeu toda a cerveja. Ficamos olhando-o encher o caneco de novo e beber de um só gole. Enfiei as unhas nas palmas de minhas mãos, mas não disse nada, embora ele estivesse bebendo demais.
Nicolas deu um arroto. - A esposa de Lê Viste mandou Léon me tirar de Paris; não queria que eu ficasse lá.
- O que você fez a ela? - perguntou Philippe. Falava baixo, mas deu para ouvirmos bem.
- Tentei encontrar-me com a filha dela.
- Idiota - resmunguei.
- Você não diria isso se visse a moça.
- Ele viu, nós todos vimos; ela está na cena do Paladar - disse Philippe.
- E agora estamos pagando pela besteira que você fez reclamei. - Se Léon estivesse aqui, eu poderia combinar direito as coisas e ele conversaria com Jean Lê Viste.
Mas você é só um moleque de recados. Não podemos acertar nada com você.
- Desculpe, Georges, mas não creio que Léon pudesse ajudar. Jean Lê Viste é uma pessoa difícil depois que resolve uma coisa; não é fácil fazê-lo mudar de idéia.
Só consegui uma vez, quando ele queria que as tapeçarias mostrassem uma batalha.
Mas acho que dessa vez nem eu nem Léon conseguiríamos nada - disse Nicolas.
- Foi você que mudou o tema de batalha para unicórnios? Eu devia ter imaginado, vendo como você favorece suas damas.
- Na verdade, foi a mulher dele quem mudou. Enfait, vocês deveriam culpá-la.
Culpem as mulheres. - Dizendo isso, ele levantou o caneco de cerveja e brindou uma dama da noite de traje amarelo, que estava do outro lado do salão. Ela sorriu.
As damas da noite de Bruxelas gostam de estrangeiros, acham que um sujeito de Paris deve pagar melhor e ser mais gentil. Vai ver estão certas. Então, começaram a rodear Nicolas como gaivotas em volta de tripas de peixe. Só estive com uma dama da noite uma vez na vida, antes de me casar com Christine, mas tinha bebido tanta cerveja que não lembro o que ela fez comigo. Hoje em dia, às vezes as damas da noite ficam no meu colo, na falta de outro lugar para se sentarem ou se a noite está meio parada. Mas sabem que não vão conseguir nada comigo.
- Tiens, Georges, lastimo tudo isso - desculpou-se Nicolas. - Posso lhe dar uma ajuda no ateliê, se adiantar.
Zanguei-me: - Você... - Parei o que ia dizer, pois lembrei de Christine no meu ouvido: "Aceite qualquer ajuda que pudermos ter." Então aceitei. -Chegou uma nova remessa de lã que precisa ser arrumada. Você pode ajudar.
- Nicolas, você não quis saber como ficaram as duas primeiras tapeçarias: o Olfato e a Audição. Afinal, sua Dama do Paladar não é a única mulher do mundo - disse Philippe.
O Olfato e a Audição estavam enroladas com ramos de alecrim para afastar as traças e trancadas numa comprida caixa de madeira, no canto do ateliê. Não consigo dormir direito quando há tapeçarias prontas no ateliê. Apesar de Georges Lê Jeune e Luc dormirem perto, todo passo que ouço na rua já acho que é um ladrão querendo roubá-las; qualquer charna no fogão, já acho que uma fagulha vai queimá-las.
- Você não mudou nada nas damas, não é? - perguntou Nicolas a Philippe.
- Não, não, estão como nós as pintamos. E ficaram ótimas depois de dependuradas.
São como dois pequenos mundos.
Georges Lê Jeune perguntou a Nicolas: - É só isso que as nobres fazem o dia inteiro? Tocam música, dão comida a pássaros e usam lindas jóias para passear na floresta?
Nicolas irritou-se: -Algumas, talvez. - Pegou o caneco de cerveja e balançou-o.
Não fez barulho no fundo, sinal de que a cerveja tinha acabado.
- Luc, vá buscar mais cerveja - mandei. Eu havia desistido de me aborrecer com Nicolas. Talvez ele estivesse certo: Jean Lê Viste exigia porque exigia as coisas e só nos restava obedecer.
Luc pegou a jarra de cerveja e levou-a até o rapaz que ficava ao lado do barril, no canto da taberna. Enquanto esperava encher a jarra, a dama da noite de traje amarelo veio conversar com ele, apontando Nicolas. Luc arregalou os olhos (não está acostumado às atenções das mulheres) e balançou a cabeça.
- E você já viu um unicórnio? - Georges Lê Jeune continuou fazendo perguntas a Nicolas.
- Não, mas tenho um amigo que viu, num bosque a dois dias de viagem a cavalo de Paris - respondeu Nicolas.
- É mesmo? - Sempre achei que os unicórnios viviam longe, no Oriente, junto com os elefantes. Mas como não entendo nada disso, então não abri a minha boca.
- Meu amigo disse que o unicórnio é rápido como um raio branco e luminoso no meio das árvores e que não conseguiu ver direito como ele era, afora o chifre.