A Dama e o Unicórnio

Tracy Chevalier · Capítulo 16 de 18

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A Dama e o Unicórnio

Capítulo V

PARIS

A Septuagésima de 1492

NICOLAS DÊS INNOCENTS

Jamais gostei das semanas que antecedem a Páscoa. Faz frio, um frio que já dura meses e que entra por todo o meu corpo. Não agüento mais as frieiras, os ossos rangendo e meu corpo rígido, porque se eu relaxar os músculos, sinto mais frio ainda. A comida é pouca e o que sobrou não tem gosto - conservado em temperos, salgado, seco e duro para resistir ao inverno. Tenho vontade de comer alface fresca, carne de caça fresca, uma ameixa ou um morango.

Não trabalho muito no período da Septuagésima minhas mãos ficam duras de frio e não conseguem segurar um pincel. Também não encontro mulheres que me agradem.

Estou aguardando esse tempo terminar. Prefiro a Quaresma, apesar de sua austeridade.

Pelo menos a cada dia a temperatura aumenta e os dias ficam mais claros, mesmo que ainda haja pouco o que comer.

Numa gelada manhã, eu tremia embaixo de vários cobertores e pensava se ia me dar ao trabalho de levantar da cama, quando recebi um recado para encontrar Léon Lê Vieux em SaintGermain-des-Prés. Não fui mais lá, temendo encontrar Geneviève de Nanterre, embora sentisse um pouco de medo e nenhuma esperança de ver a filha dela.

Um amigo ficou atento à rue du Four (onde eu não ousava aparecer) e me informou que Claude havia sido mandada para fora da cidade no verão anterior e que nenhum dos criados sabia para onde. Béatrice também havia sumido.

Enrolei-me em todas as minhas roupas e corri para o sul de Paris, atravessando as pontes de Change e de St Michel sobre o Sena congelado. Não parei em Notre Dame - estava frio demais até para isso. Quando cheguei em SaintGermain-des-Prés, olhei dentro da igreja, pensando se não veria Geneviève de Nanterre ajoelhada por ali.

Mas não havia ninguém - era um intervalo entre duas missas e fazia frio demais para alguém estar lá.

Finalmente, encontrei Léon no pátio da igreja com seu jardim de plantas secas.

Quase nada crescia naquela época do ano, embora houvesse alguns galantes e outros brotos surgindo da lama. Eu não tinha a menor idéia do que nasceria ali. Aliénor tentara me ensinar sobre plantas, mas eu precisava de mais do que uma ponta verde para saber o que aquilo viria a se tornar um dia.

No inverno, Léon Lê Vieux usa uma bengala para andar melhor na neve e no gelo.

Naquele momento, a bengala servia para mostrar as moitas de lavanda e alecrim.

Levantou os olhos para mim e disse: - Sempre me impressiono com a resistência dessas plantas no inverno, mesmo quando tudo está morto. -Pegou, então, umas folhas de cada moita, amassou-as nas mãos e cheirou-as.- Claro que agora não são tão perfumadas; o perfume vem do sol e do calor.

- Elas também dependem dojardineiro, n'est-cepas?

- Talvez. - Léon largou as folhas e virou-se para mim.

- Chegaram as tapeçarias de Jean Lê Viste.

Senti uma inesperada alegria com a notícia.

- Quer dizer que Georges conseguiu terminá-las antes da Candelária! Você já as viu?

- Recuso-me a enfrentar essas estradas no inverno; não iria a Bruxelas nem se o Rei mandasse. Na minha idade, eu devia estar sentado ao lado da lareira e não cavalgando a noite inteira na neve e na lama para trazer tapeçarias no prazo marcado. Quero morrer na minha cama e não numa estalagem suja de beira de estrada. Mandei recado pelos soldados, e um comerciante de Bruxelas conferiu o trabalho para mim.

Claro, a Guilda dos tapeceiros de lá também as aprovou isso é o importante.

- Ainda não viu as tapeçarias? Como ficaram?

Léon apontou com a bengala, encaminhando-se na direção do arco da saída. - Vamos até a rue du Four e você verá com os próprios olhos.

- Será que me receberão?

- Monseigneur Lê Viste dependurou-as nas paredes e quer que você diga se a altura está certa. - Olhou para mim e acrescentou: - Tiens, comporte-se! - E riu.

Nem nas minhas mais embriagadoras fantasias no Lê Coq d'Or jamais pensei que seria convidado a entrar pela porta da frente da casa de Claude Lê Viste. E lá estava eu, com o mordomo de cara azeda nos fazendo entrar. Se eu não estivesse com Léon, iria atrás dele para revidar a surra que me dera. Mas tive de segui-lo, humilde, até a Grande Salle, onde nos deixou para buscar o patrão.

Fiquei no meio do salão, com Léon do lado, passando os olhos de uma Dama para outra, tentando vê-las todas ao mesmo tempo. Olhei mais do que jamais observara qualquer coisa. Léon também estava calmo e quieto. Era como se estivéssemos congelados num sonho. Eu não sabia se queria ser acordado.

Quando finalmente Léon se mexeu, abri a boca para dizer alguma coisa -mas só consegui rir. Não era a reação que eu esperava. Fiquei pensando: "Como pude me preocupar com leões com cara de cachorro, unicórnios gordos, laranjas que pareciam amêndoas quando havia aquelas Damas? Eram todas lindas, tranqüilas, satisfeitas.

Ficar no meio delas era fazer parte da magia de suas abençoadas e mágicas vidas. Que unicórnio não ficaria seduzido por elas?"

Não eram só as damas que faziam as tapeçarias tão atraentes, mas as millejleurs também. Qualquer defeito que houvesse nos desenhos desaparecia naqueles campos azuis e vermelhos com centenas de flores. Era como se eu estivesse no meio de um campo no verão, apesar de estar num dia escuro e frio em Paris. Aquelas millejleurs davam unidade ao salão, juntando as Damas e seus unicórnios, os leões, as criadas e eu também. Senti como se fizesse parte das tapeçarias.

- O que acha? - perguntou Léon.

- Maravilhoso! Ficaram melhores do que jamais imaginei. Léon riu. -Vejo que você continua orgulhoso. Lembre-se de que fez apenas uma parte de tudo isso. Georges e o ateliê dele merecem também os maiores elogios. - Era o tipo da coisa que Léon Lê Vieux gostava de dizer.

- Georges vai ficar em boa situação.

Léon balançou a cabeça. - Rico não vai ficar, pois Jean Lê Viste é mão-fechada.

E, pelo que eu soube, Georges talvez não consiga mais trabalho. Meu amigo comerciante em Bruxelas contou que o lissier está sempre bêbado ou dormindo, além de ter ficado vesgo. Foi o cartonista que teve de ajudar Christine a fazer a bainha da última tapeçaria; Georges estava bêbado e a filha teve um bebê. - Ao dizer isso, Léon sorriu para mim. - Você sabia do bebê?

Dei de ombros, embora, por dentro, achasse graça: Aliénor conseguira o que queria de mim. - Desde maio não vou a Bruxelas, como poderia saber?

- Há nove meses não vai a Bruxelas, hem? Não tem importância, ela se casou com o cartonista.

- Ah. - Fiquei mais surpreso do que dei a entender. Philippe não era tão tímido com as mulheres quanto pensava. O fato de eu tê-lo apresentado àquela dama da noite certamente o ajudou. Mas fiquei satisfeito por Aliénor. Philippe é um bom homem, além de não ser Jacques Lê Boeuf.

- Tiens, você não disse o que achou das tapeçarias observei. - Você queria que as mulheres fossem reais. Será que eu, Georges e Philippe conseguimos?

Léon olhou outra vez as paredes da sala, depois deu de ombros e sorriu. -Tem alguma coisa nelas que nunca vi nem senti. Você criou um mundo para elas viverem, embora não seja como o nosso.

- Você se sente atraído?

- Por elas? Non.

Ri. - Portanto, não conseguimos mudá-lo. As Damas não são tão poderosas quanto pensei.

Ouvimos um ruído do outro lado da porta: Jean Lê Viste e Geneviève de Nanterre entraram na Grande Salle. Rápido, fiz uma reverência para disfarçar a minha surpresa, pois não esperava vê-la. Quando levantei a cabeça, ela estava sorrindo para mim como no dia em que a conheci: a primeira vez que flertei com Claude. Madame sorria como se soubesse o que passava pela minha cabeça.

- Alors, pintor, o que acha delas? - perguntou Jean Lê Viste. Será que esqueceu meu nome?, pensei. Antes que eu pudesse responder, ele acrescentou: - Estão na altura certa?

Acho que deviam ficar mais um braço acima do piso, mas Léon diz que assim estão ótimas.

Foi bom eu não ter respondido, pois percebi que ele não queria falar da beleza das tapeçarias ou da habilidade dos tapeceiros, mas no fato de enfeitarem a sala dele. Olhei-as bem. Estavam a um palmo do chão, o que fazia com que as Damas ficassem só um pouco acima de nós. Se ficassem mais acima ainda, elas nos dominariam.

Virei-me para Geneviève de Nanterre: - O que acha, Madame? A Dama deveria estar mais no alto?

- Não, não é preciso - disse ela.

Concordei. - Monseigneur, todos nós concordamos. A sala está ótima assim.

Jean Lê Viste deu de ombros. -Vai ficar adequada para o evento. - E virou-se para sair.

Não resisti a perguntar: - Por favor, Monseigneur, qual das tapeçarias prefere?

Jean Lê Viste parou e olhou como se só então tivesse percebido que as tapeçarias eram para ser vistas. Franziu o cenho.

- Esta - respondeu, mostrando a da Audição. - A bandeira está ótima e o leão numa postura nobre. Vamos disse para Léon Lê Vieux.

- Vou ficar aqui um instante para falar com Nicolas de Innocents -anunciou Geneviève de Nanterre.

O esposo pareceu mal ouvir e se dirigiu para a porta, seguido de Léon. Antes de sair do aposento, o velho deu uma olhada para mim, como para lembrar da recomendação de me comportar. Achei graça da idéia. Estava com a mulher errada para fazer travessuras.

Depois que os dois se retiraram, Geneviève de Nanterre riu baixinho.

- Meu esposo não tem uma tapeçaria preferida. Escolheu a que estava mais perto dele, você percebeu? Não é a melhor, as mãos da Dama estão esquisitas, e a estampa da toalha de mesa é muito quadrada e rude.

É evidente que ela havia observado as tapeçarias com atenção. Pelo menos não disse que o unicórnio era gordo.

- Qual prefere, Madame?

Ela mostrou. - Aquela - disse. Fiquei surpreso por escolher o Tato; esperava que preferisse À Mon Seul Désir; afinal, era ela a Dama.

- Por que essa, Madame?

- A Dama é muito pura; tem pureza de alma. Está na soleira da porta, entre uma vida e outra, e olha para a frente com alegria. Sabe o que vai acontecer com ela.

Pensei no que me inspirara a fazer a Dama daquele jeito: era Christine na soleira da porta do ateliê, satisfeita porque poderia tecer. Era tão diferente do que Geneviève de Nanterre tinha acabado de dizer, que precisei me conter para não corrigi-la.

- E essa Dama aqui, Madame? - Mostrei À Mon Seul Désir. - Ela também não sai de um mundo para outro?

Geneviève de Nanterre ficou calada.

- Pintei-a especialmente para a senhora; assim, as tapeçarias não seriam somente sobre uma sedução, mas sobre a alma também. A senhora vê: pode começar por esta tapeçaria da Dama colocando o colar e percorrer a sala acompanhando-a na sedução ao unicórnio. Ou pode ir pelo outro lado, com a Dama dando adeus para cada sentido, e terminar com essa cena, em que ela tira o colar - para se afastar da vida material. Viu o que fiz por Madame? Quando a Dama segura as jóias, não sabemos se as está colocando ou tirando. Podem ser as duas coisas - este é o segredo que quis presentear a senhora nas tapeçarias.

Geneviève de Nanterre balançou a cabeça. - A Dama parece não saber o que prefere: a sedução ou a alma. Eu sei o que quero e gostaria que a escolha dela ficasse clara.

Tiens, é melhor que as tapeçarias sejam sobre a sedução de um unicórnio, pois devem acabar sendo presenteadas para a minha filha. Ela vai gostar da sedução. - Olhou para mim, e enrubesci.

- Lastimo que não goste delas, Madame. - E realmente lastimava. Eu achava que havia sido muito esperto, mas a minha esperteza me enganara.

Geneviève de Nanterre olhou em volta, apreciando todas as tapeçarias mais uma vez.

- São lindas, e isso basta. Claro que Jean gostou, mesmo que não tenha demonstrado. Claude também vai adorar. Para lhe agradecer, eu gostaria que você viesse aqui amanhã para a recepção.

- Amanhã?

- Sim, na Festa de São Valentim, o dia em que os pássaros escolhem seus pares.

- E o que diz a tradição.

- O senhor virá, então. - Ela olhou para mim antes de se retirar.

Fiz uma mesura às suas costas. Uma das damas de companhia pôs a cabeça na porta e saiu junto com a patroa.

Fiquei sozinho com as tapeçarias. Passei muito tempo na sala, olhando e pensando por que estavam me causando melancolia.

Eu nunca tinha ido a uma recepção da nobreza, pois pintores não costumavam ser convidados para tais eventos. Não sabia bem por que Geneviève de Nanterre me havia pedido para ir. Rápido, e por um alto preço, encomendei uma nova túnica: de veludo negro com barra amarela e uma capa combinando. Lustrei as botas e me banhei, embora a água estivesse gelada.

Quando cheguei à casa iluminada por tochas na rue du Four, os escudeiros me conduziram sem piscar, como se eu fosse um nobre no meio dos outros. Antes, quando eu estava no meu quarto, achei muito elegantes a túnica nova e a capa - e foram elogiadas pelos homens e mulheres no Lê Coq d'Or -, mas, quando entrei na Grande Salle, os ricos trajes das damas e dos cavalheiros fizeram com que eu me sentisse um camponês.

Três meninas iam e vinham no meio dos inúmeros convidados. A mais velha era Jeanne, que olhava para dentro do poço do pátio no dia em que conheci Claude. A segunda era parecida com ela e devia ser a caçula das Lê Viste. A menor batia nos meus joelhos e não parecia com uma Lê Viste, embora fosse bonita, com caracóis ruivos que caíam nos ombros. Perdida entre os convidados, ela se prendeu nas minhas pernas, e, quando a ajudei, olhou-me séria, de um jeito que me pareceu familiar.

Correu antes que eu pudesse perguntar seu nome.

A sala estava cheia, comjongleurs se apresentando, dançando e fazendo acrobacias, mordomos oferecendo vinho e acepipes - ovos de codorna em conserva, costeletas de porco, almôndegas decoradas com flores secas e até framboesas, que costumam ser impossíveis de encontrar no inverno.

Jean Lê Viste ficou num lado do salão, próximo à tapeçaria do Olfato -usava uma túnica vermelha com barra de pele, e estava com outros homens vestidos com o mesmo traje. Deviam estar falando do Rei e da Corte, assuntos que nunca me interessaram muito. Eu preferia o lado do salão onde se encontrava Geneviève de Nanterre e de onde podia ver as damas nos seus vestidos de brocado ornados de peles de mink, raposa e coelho. A dona da casa estava vestida com simplicidade, de seda azul-celeste e pele de coelho cinzento, ao lado de À Mon Seul Désir.

As tapeçarias foram muito elogiadas, mas, embora aquecessem o salão e abafassem as vozes, não ficavam tão bem em meio ao barulho, como quando fiquei sozinho com elas. Percebi, então, que uma batalha, com seu clamor de cavalos e soldados, seria mais adequada num salão de festas, enquanto aquelas deveriam ficar no aposento de uma dama. Jean Lê Viste tinha finalmente razão.

Procurei não pensar muito nisso e bebi tanto vinho temperado quanto os criados quiseram me servir. Primeiro, fiquei sozinho, assistindo aos acrobatas e às damas dançando, e comi um figo assado. Até que fui chamado por uma nobre cujo rosto certa vez pintei. Depois disso ficou mais fácil conversar, rir e beber como se eu estivesse numa taberna.

Quando Claude entrou no salão com seu vestido de veludo vermelho, cercada de suas damas (inclusive Béatrice), senti um peso nos ombros e meus braços caíram como se fossem barbantes. Claro que eu esperava que ela aparecesse, mesmo enquanto bebia, flertava e comia meu figo, e até na hora em que dançava uma galharda com uma dama animada. Claro que Claude estaria na festa. Havia sido por isso que eu aceitara o convite.

O salão estava cheio, e acho que ela não me viu. Pelo menos não demonstrou.

Estava bem mais magra do que na última vez em que a vira. Os olhos ainda eram como dois marmelos, mas não mostravam mais a mesma vivacidade; estavam cravados nas damas de companhia, em vez de acompanhar os dançarinos. Em seguida, ela olhou para alguma coisa que estava longe - talvez para uma das milkfleurs na cena do Olfato ou do Paladar, do outro lado do salão, e não exatamente para a Dama das tapeçarias.

Ousada, Béatrice me encarou com seus olhos negros. Também havia emagrecido. Não se inclinou para falar com a patroa, segredar ou apontar: ficou me observando até eu desviar os olhos.

Não tentei me aproximar de Claude. Sabia que seria inútil - alguém me impediria, ou o mordomo seria chamado para me tirar dali e me jogar na rua, talvez me dando outra surra. Sabia disso sem que ninguém precisasse me dizer. Percebi, então, por que Geneviève de Nanterre havia me convidado: para me castigar.

Dali a pouco a música e as danças foram interrompidas e as trombetas anunciaram o início da ceia. Claude ficou na mesa principal com os pais e mais algumas pessoas, aquela mesma mesa de carvalho onde eu subira para medir as paredes. Os demais convidados foram distribuídos em mesas sobre cavaletes nas laterais do salão.

Coloquei-me bem ao fundo - no lugar mais longe de Claude. A meu lado estava a tapeçaria do Paladar; em frente, o rosto delicado e triste de Aliénor, na Visão, fazia-me companhia.

Veio um padre de SaintGermain-des-Prés para nos fazer rezar. Jean Lê Viste, então, ficou de pé e levantou a mão, indicando que ia comunicar alguma coisa aos convidados.

Ele não adoçou as palavras, falou bruscamente, de forma que, quando ouvi, o golpe foi fundo: - Estamos aqui reunidos para anunciar o enlace de minha filha mais velha Claude com Geoffroy de Balzac, integrante da noblesse d'épée e primeiro mordomo do Rei.

Teremos orgulho de chamar de filho um membro de tão honrada família.- Indicou com a mão um jovem de barba castanha, que se levantou da mesa principal e fez uma pequena mesura para Jean Lê Viste e Claude, que manteve os olhos fixos na mesa.

Geneviève de Nanterre não inclinou a cabeça, olhou para a mesa sobre cavaletes no fundo, onde eu estava sentado. O olhar dela dizia: "Eis o seu castigo."

Baixei os olhos para meu trinchante e vi que o pão servido no almoço tinha esculpidas na casca as iniciais CLV e GDB entrelaçadas. Pássaros encontrando seus pares, realmente.

Depois, não escutei mais o que Jean Lê Viste disse; só ergui a taça junto com todos para os brindes que não ouvi. As trombetas soaram, os mordomos entraram carregando as baixelas de aves assadas - um pavão exibindo a cauda para a pavoa, mais um casal de faisões com as asas arrumadas como se estivessem prestes a voar, e dois cisnes com pescoços enlaçados. Olhei tudo aquilo com desgosto e não estiquei meu trinchante para cortar uma fatia sequer. Meus vizinhos de mesa devem ter-me achado uma péssima companhia.

Quando trouxeram um javali laqueado a ouro, vi que eu não ia esperar os muitos pratos que estavam sendo anunciados, a bebida, a comida e o espetáculo prosseguindo pela noite toda e pelo dia seguinte. Não tinha mais interesse pela festa.

Levantei-me, dei uma última olhada nas tapeçarias (sabia que não iria mais vê-las) e me encaminhei para a porta. Para chegar até lá, tinha de passar pela mesa principal, e, ao fazer isso, percebi algo. Claude havia batido a mão na mesa e sua faca caíra no chão.

- Oh! - exclamou. Uma das damas de companhia fez menção de pegar a faca, mas ela a impediu com um riso - primeiro sinal de alegria que vi em seu rosto naquela noite.

- Eu pego - disse ela, e entrou embaixo da mesa. Não a vi - a toalha branca pintada com o brasão dos Lê Viste caía até o chão, escondendo tudo.

Esperei um instante. Ninguém parecia me notar. Béatrice estava atrás da cadeira da patroa, falando com um homem que servia Geoffroy de Balzac. Geneviève de Nanterre conversava com o futuro genro. Jean Lê Viste olhava para o meu lado, mas parecia ver através de mim. Já não devia lembrar quem eu era. Quando ele pediu mais vinho ao mordomo, tirei o capuz da cabeça, deixei que caísse no chão e me ajoelhei para pegá-lo. Num segundo, entrei por baixo da toalha e fiquei embaixo da mesa.

Claude estava sentada, abraçando as pernas, o queixo encostado nos joelhos.

Sorria para mim.

- Seus encontros são sempre embaixo de mesas, Mademoiselle? -perguntei, colocando o capuz.

- As mesas são ótimas para nos escondermos.

- Foi onde você ficou escondida todo esse tempo, bela? Embaixo de uma mesa?

Claude parou de sorrir. - Você sabe onde eu estava. Nunca foi me procurar. - Colocou o rosto entre os joelhos, escondendo-o. Só pude ver sua coifa de veludo vermelho entremeada de pérolas, o cabelo cuidadosamente arrumado por baixo.

- Eu não sabia onde você estava; como poderia saber? Claude olhou outra vez para mim. - Sabia, sim. MarieCéleste me disse... - Parou de falar e demonstrou dúvida.

- MarieCéleste? Não a vejo desde a última vez que estive com você, quando levei aquela surra. Você mandou recado por ela?

Claude fez sinal afirmativo com a cabeça.

- Jamais recebi. Ela mentiu para você se disse que recebi.

- Oh.

- Maldita, por que mentiu?

Claude colocou a cabeça sobre os joelhos. -Têm lá seus motivos... Fui má com ela.

Um galgo entrou embaixo da mesa, procurando sobras de comida, e Claude estendeu a mão para acariciá-lo. Quando o pulso apareceu sob a manga do vestido, vi que tinha sido arranhado com força por unhas que precisavam de corte. Segurei com carinho o pulso de Claude.

- O que houve, bela? Você se machucou? Claude puxou a mão.

- Às vezes, a única forma de me sentir viva é me arranhando. Alors, não tem importância, você não ia conseguir mesmo que eu saísse de lá - disse ela, coçando os arranhões.

- Aonde você estava?

- Num lugar que é um paraíso para mamãe e uma prisão para mim. Mas descobri que a vida de uma dama é assim mesmo.

- Não diga isso. Você ainda não está presa. Venha comigo, fuja do seu noivo!

Por um instante o rosto de Claude se iluminou como o sol sobre o Sena, mas ela pensou melhor e sua fisionomia voltou a se anuviar, com a cor escura que o rio costuma ter. Fosse lá onde ela havia estado, o lugar alterara seu espírito. Era triste de ver.

- E mon seul désir? Esqueceu dele? - perguntei, gentil. Claude suspirou.- Perdi o desejo. Era isso que mamãe queria. - O cachorro cheirou o colo dela, e Claude colocou as mãos em concha na cabeça dele, acrescentando: -Obrigada pelas tapeçarias; alguém lhe agradeceu?

São lindas, embora me entristeçam.

- Entristeçam? Por quê, bela?

Ela olhou para mim. - Elas me lembram como eu era antes, tão leve, tão feliz, tão livre. Só a do unicórnio no colo dela é como sou agora - aquela Dama é triste e sabe um pouco como o mundo é. Gosto mais dela do que das outras.

Suspirei. Pelo jeito eu havia entendido mal todas as Damas.

A toalha da mesa se mexeu e a menininha ruiva engatinhou para baixo da mesa. Ela viu o rabo do cachorro e veio atrás dele. Não estava interessada em Claude nem em mim; ficou apertando as costelas do cachorro com as duas mãos. O cachorro não parecia se incomodar: tinha achado um osso de carneiro e não parava de roê-lo.

- Sabe, descobri uma coisa boa na prisão - disse Claude, mostrando a menina. - Eu a trouxe comigo. Nicolette, leve o cachorro. Béatrice arrumará um osso maior para ele. Vá! - disse, empurrando o cachorro.

A menina e o cachorro não se importaram de sair.

- Quando ela crescer, será uma das minhas damas de companhia. Claro que precisará ser ensinada, mas terá muito tempo para isso. Ainda é quase um bebê.

Então perguntei: - Ela se chama Nicolette?

Claude riu de novo, um riso de menina, cheio de esperança.

- Mudei o nome dela; não podia haver duas Claudes no convento, não é?

Ela riu de novo quando levantei a cabeça com tanta força que bati no tampo da mesa. Então aquela menina era a minha filha. Olhei estupefato para Claude, que me encarou com seus olhos claros. Por um instante, senti o antigo desejo me lançar até ela e tentei segurá-la.

Jamais saberei se Claude teria me deixado tocá-la. Exatamente como da última vez em que ela e eu estivemos embaixo já de uma mesa, Béatrice enfiou a cabeça em nosso esconderijo. Era tarefa dela colocar-se sempre entre nós dois. Nem se surpreendeu ao me ver; devia estar ouvindo tudo, como fazem as damas de companhia.

- Mademoiselle, sua mãe a está chamando - disse. Claude fez uma careta, mas ficou de joelhos.