A Dama e o Unicórnio
Aliénor de La Chapelle
Só disse que parecia sorrir para ele; por isso eu o fiz tão contente nas pinturas.
- As mulheres também estão contentes? - perguntou Philippe.
Nicolas deu de ombros.
O rapaz do barril encheu a jarra de cerveja e entregou-a à dama da noite, e não a Luc, que foi atrás dela. A mulher segurou a jarra bem perto do peito e veio saracoteando em nossa direção.
- Aqui está a cerveja, senhores - disse, plantando-se na frente de Nicolas e debruçando-se para mostrar os peitos ao colocar a jarra na mesa. - Tem lugar para mim aqui?
- Claro, uma mesa não está completa se não tiver uma ou duas damas da noite - disse Nicolas, puxando-a para o banco ao lado dele.
Eu jamais diria uma coisa assim para alguma mulher, mesmo sendo ela uma dama da noite, mas aquela de amarelo riu.
- Então vou chamar minhas amigas - anunciou ela. Dali a pouco havia mais duas na mesa e nosso canto se transformou no mais barulhento da taberna.
Resolvi não demorar. Damas da noite são coisa para jovens. Quando saí, a de amarelo estava sentada no colo de Nicolas; uma de verde abraçava o ruborizado Georges Lê Jeune, e uma terceira, de vermelho, mexia com Luc e Philippe.
Na volta para casa, urinei quase toda a cerveja na rua. Christine estava sentada em casa me esperando e não perguntou nada da conversa. Eu sabia o que ela queria ouvir.
- Alors, você pode tecer a tapeçaria. É o único jeito de conseguirmos terminá-las. Mas não diga nada a ninguém falei.
Christine concordou com a cabeça, sorriu e me deu um beijo. Depois, puxou-me para o nosso quarto. Isso mesmo, é melhor deixar as damas da noite para os jovens.
ALIÉNOR DE LA CHAPELLE
Nunca pensei que fosse ficar outra vez sozinha no jardim com Nicolas dês Innocents. Meus pais nos deixaram lá; estavam tão preocupados com as notícias que Nicolas trouxera de Paris, que mamãe nem me disse para sair do jardim.
Abaixei-me com cuidado para não pisar nos líriosdo-vale. Eles roçaram em minhas pernas, e a qualquer toque soltavam um perfume doce no ar.
No verão passado, quando Nicolas foi embora, achei que nunca mais voltaria. Logo que chegou ao ateliê, ele ficou à vontade conosco, mas de repente parou de ser simpático comigo e se tornou ríspido com meus pais. Ao mesmo tempo, passou a pintar mais depressa. Até que um dia não veio ao ateliê e Philippe avisou que Nicolas tinha ido embora e deixado para ele terminar o último cartão. Talvez nós o tivéssemos ofendido com nosso jeito simples de Bruxelas. Ou não tivéssemos elogiado bastante o trabalho dele. Amigos de papai estiveram várias vezes no ateliê, postaram-se atrás do banco onde Nicolas sentava para pintar e mostravam erros no que ele estava fazendo: diziam que o unicórnio estava muito Parecido com um cavalo ou um bode, que o leão parecia um cachorro, ou o ginete parecia uma raposa, ou a laranjeira, uma nogueira. Nicolas detestava esses palpites.
Naquele momento, ele estava do meu lado. Levantei-me. Não me afastei, fiquei bem perto dele, tanto que senti o calor de sua túnica, as mãos com cheiro das rédeas do cavalo, o suor no cabelo e o rosto quente de sol.
- Você está parecendo cansada, bela.
- Passo quase a noite inteira costurando. Agora, depois do que você contou, não vou nem dormir.
- Sinto muito. Não gosto de dar más notícias para ninguém.
Recuei. - Por que você foi embora no verão, sem se despedir?
Nicolas não gostou: - Você é igual a seu pai: bem franca. Fiquei calada.
- Eu tinha trabalho me aguardando em Paris. Pela voz, eu sei quando um homem está mentindo. Nicolas esfregou a sola dos sapatos no chão.
- Qual é o problema de eu ter ido embora, bela? Para você e sua família eu não passo de um incômodo artista parisiense.
Sorri. - Talvez, mas sempre se espera merecer a boa graça de uma despedida.
Jamais eu iria contar que, depois que ele foi embora, fiquei três dias em silêncio. Ninguém percebeu - sou quieta assim mesmo -, só mamãe deu um beijo na minha testa quando finalmente abri a boca. É raro ela dar um beijo em alguém.
Nicolas suspirou. - Naquela época, soube de algumas coisas que preferia ignorar.
Talvez um dia conte a você. Não agora.
Antes que pudéssemos falar mais, mamãe nos chamou para a mesa. Depois da refeição, Nicolas saiu e só voltou quando os sinos da tarde anunciaram o fim do trabalho.
Papai e os rapazes foram com ele para a taberna, enquanto mamãe costurava o Paladar e eu À Mon SeulDésir. Ficamos bem quietas. Preocupada com as tapeçarias, mamãe nem sequer perguntou o que achei da volta de Nicolas.
Papai chegou mais tarde, foi para o quarto com mamãe e eu fiquei costurando.
Georges Lê Jeune e Luc voltaram da taberna mais tarde ainda. Luc tinha bebido muita cerveja e ficou na rua.
Sem querer, perguntei a meu irmão, que tinha se jogado num catre a meus pés: - Nicolas não veio com você?
Georges estava com o cheiro da cerveja e da fumaça da lareira da taberna e - meu nariz farejou - uma água-decheiro barata que as damas da noite compram no mercado.
Meu irmão achou graça da pergunta e riu alto; tinha bebido demais para perceber o barulho que fazia. Mandei-o ficar quieto; podia acordar nossos pais ou Madeleine, - Nicolas não deve voltar hoje. Achou uma dama de amarelo - disse Georges, rindo outra vez.
Levantei, passei ao lado dele e entrei em casa. Preferia dormir a ficar no ateliê com aquele fedor de cerveja, ouvindo as bobagens que ele ia ficar dizendo, por mais que eu tivesse costura a fazer. Acordaria cedo e trabalharia enquanto os homens ainda estivessem dormindo.
Nicolas só voltou bem tarde no dia seguinte, quando já estávamos trabalhando há horas. Luc também não estava trabalhando - passara tão mal da bebedeira que não servia para nada; ficou dormindo em casa.
Os tecelões estavam ocupados nos teares. Mamãe e eu ficamos com a remessa nova de lã que tinha acabado de chegar. Algumas lãs eram para as tapeçarias que estávamos fazendo naquele momento, e o restante para as duas últimas.
Mamãe estava separando a lã, usando uma noveleira de madeira que lhe batia pela cintura para enrolar as lãs em novelos, que depois pendurava, conforme a cor, em rolos. ela estava preparando as lançadeiras: puxava os fios de lã dos rolos e os enrolava nos pequenos bastões, que iam ficando prontos para os tecelões usarem.
- Aonde ele está? - mamãe não parava de perguntar, enquanto esticava a lã.
Papai não parecia se incomodar com a demora de Nicolas: - Daqui a pouco ele chega.
- Estamos precisando dele agora.
Eu não sabia por que mamãe estava tão zangada. Nicolas não tinha qualquer obrigação conosco, nem nós estávamos precisando dele. Se queria dormir a manhã toda com a sua dama da noite, isso era problema dele. Não tínhamos de nos preocupar em saber onde ele estava.
Até chegou, quase tão fedido quanto Jacques Lê Boeul Continuava meio embriagado, depois de uma noite no Lê Vieux Chien, enquanto todo mundo no ateliê estava quieto, preocupado. Cumprimentou papai e Georges Lê Jeune com um tapa nas costas de cada um, e perguntou, dirigindo-se a mamãe e a mim: - Sabiam que Phílippe se dedica agora aos prazeres da carne? Praticou ontem à noite com uma dama da noite, ou, melhor, aprendeu com ela. Agora eleja sabe.
- Essas últimas palavras pareciam uma flecha que atravessou a sala e entrou direto em mim. Abaixei a cabeça sobre a lançadeira e enrolei mais rápido a lã.
Mamãe colocou a mão em cima da minha para que eu fosse mais devagar com o meu trabalho. Senti a raiva dela pelo toque.
- Não fale nesses pecados na frente de Aliénor e pode levar agora a sua dama da noite para Paris - resmungou ela.
- Christine! - ralhou papai.
- Não permito que um homem tão grosseiro fique na minha casa, por mais que precisemos da ajuda dele.
- Pare com isso! - mandou papai.
Mamãe parou. Quando meu pai usa um determinado tom de voz, ela sempre o obedece.
Ele pigarreou e eu parei de encher a bobina - papai costuma pigarrear quando vai dizer algo importante.
- Alors, Nicolas, na noite passada você disse que ia nos ajudar por um tempo.
Talvez a cerveja tenha apagado sua intenção, por isso a repito para você lembrar. Pode nos ajudar nessa nova remessa de lã junto com Aliénor, assim Christine fará outra coisa. Aliénor lhe ensinará e você servirá de olhos para ela - disse papai.
Levei um susto. Não queria que ele sentasse a meu lado, cheirando a outra mulher.
Papai, então, deu-nos um susto ainda maior. - Christine, você, por enquanto, vai tecer no lugar de Luc. Quando ele melhorar da bebedeira, você ficará no lugar de nosso filho. E você, Georges Lê Jeune, vai fazer as figuras em À Mon Seul Désir.
- As figuras? Mas que partes? - perguntou meu irmão.
- Todas. Comece pelo rosto da Dama, quando a lã estiver pronta. Já pode fazer isso sem eu ficar do seu lado.
Meu irmão apertou com força os pedais do tear, fazendo um barulhão. -Obrigado, papai.
- Também pode começar, Christine - mandou papai. O banco rangeu quando mamãe e meu irmão se sentaram lado a lado. O resto da sala permanecia em silêncio.
- Temos de fazer essa mudança, senão não terminaremos as tapeçarias no prazo.
Ninguém pode comentar nada fora do ateliê. Se a Guilda souber que Christine está tecendo, poderá nos multar ou até fechar nossos teares. Christine vai trabalhar só no tear do fundo, ao lado da porta do jardim, para não ser vista, caso alguém olhe pela janela da frente. Joseph e Christophe Jean, vocês receberão uma quantia extra no final do trabalho para ficar de boca calada.
Joseph e Thomas não disseram nada. O que poderiam dizer? O emprego deles dependia de mamãe também trabalhar. Como dissera papai, não tínhamos escolha.
Nicolas se aproximou de mim: - Então, bela, o que devo fazer? Mostre, aqui estão as minhas mãos. - Colocou sua mão sobre a minha. Estava com cheiro de cama dormida.
Retirei minhas mãos. - Não me toque.
Nicolas riu. - Não está com ciúme de uma dama da noite, está? Achei que você nem sequer gostasse de mim!
- Mamãe! - chamei.
Mas ela estava rindo de alguma coisa com meu irmão. Já havia esquecido a raiva de Nicolas, contente por estar tecendo. Eu teria de me defender sozinha.
Virei de costas para ele e coloquei as mãos na noveleira que mamãe havia deixado, dedilhando os fios esticados.
- Estamos enrolando essa lã em novelos - falei, ríspida.
- Depois, enchemos as lançadeiras com elas. Tiens, teremos de desmanchar o que mamãe fez e começar de novo. Segure a lã enquanto irei desenrolando. Não deixe cair no chão, senão sujará.
Nicolas pegou o fio e eu fui girando a noveleira cada vez mais depressa, para ele não conseguir acompanhar.
- Devagar, lembre-se de que nunca fiz isso. Tem de ter paciência comigo- pediu ele.
- Não dá para ser devagar. Você e Jean Lê Viste deixaram isso bem claro.
Acompanhe-me.
- Certo, bela. Como quiser.
No começo, tive o cuidado de ficar o mais longe possível de Nicolas e não deixar nossas mãos se tocarem - o que é difícil quando se trabalha com lã. Não dei conversa e respondi com poucas palavras às perguntas que ele fazia. Toda hora eu corrigia alguma coisa e não elogiava nada que acertava.
Mas, em vez disso, fazer com que ele ficasse irritado ou distante parecia agradá-lo ainda mais. Começou a me chamar de Dona da Lã, e quanto mais lacônicas eram as minhas respostas, mais ele perguntava. Mesmo depois de aprender a fazer um novelo bem-feito, ele embaraçava os fios só para eu tirar os nós e tocar nele.
Era um bom aluno. Em poucos dias já conseguia fazer novelos e preparar as lançadeiras quase tão bem quando mamãe e eu. Às vezes eu podia até deixá-lo trabalhando sozinho, enquanto cuidava de minhas plantas, pois em maio não se pode negligenciar um jardim.
Nicolas tinha jeito com as cores e fez novelos em mais tonalidades do que mamãe teria feito. Percebeu até que um love de lã vermelha estava misturado com outro que não combinava. Papai devolveu toda a remessa e exigiu que o tintureiro pagasse para não ser denunciado à guilda dos tintureiros.
Naquela noite, papai levou Nicolas mais uma vez à taberna, para comemorar, e o artista só voltou no meio da manhã seguinte. Dessa vez ninguém se zangou com ele: entreguei a lançadeira que estava enchendo e fugi para o jardim - assim não teria que sentir aquele cheiro de dama da noite.
Mamãe passou a se preocupar menos por Nicolas ficar comigo agora que ele estava nos ajudando e enquanto ela tecia. Nunca a vi tão feliz quanto trabalhando no tear.
Quase não prestava atenção em Madeleine e em mim, a menos que Nicolas e eu pedíssemos uma ajuda com a lã. De dia, ela ficava calada no tear, trabalhando tanto quanto qualquer tecelão, e à noite, quando eu costurava as partes que ela havia tecido, via que estavam bem-feitas, firmes e por igual. À noite, ela comentava com papai o que havia feito e o que ainda faltava. Papai não argumentava muito quando ela falava desse assunto; só negava quando ela pedia para aprender a fazer sombreado na tapeçaria.
Quase todas as noites, Nicolas ia ao Lê Vieux Chien, embora nem sempre ficasse a noite inteira. Às vezes, Georges Lê Jeune ia com ele, mas Luc não; foi convencido a parar com a cerveja depois da última vez. Em geral, Nicolas ia sozinho, e de madrugada eu o ouvia descendo a rua, cantando ou conversando com homens que conhecera na taberna. Fiquei surpresa por ele arrumar amigos com tanta facilidade. No verão passado, não era tão simpático e afável, mas um arrogante artista parisiense.
Agora, havia homens (e mulheres também) no mercado perguntando e querendo saber notícias dele.
Quando ele voltava para casa, eu costumava estar ainda costurando. Fiquei com mais trabalho, já que mamãe não ajudava mais: depois de tecer o dia inteiro, ela ficava exausta e precisava descansar a vista para o dia seguinte. Dessa vez, Nicolas ficou conosco para não pagar uma hospedaria e, quando voltava da taberna, deitava-se no catre ao lado do tear onde o Paladar estava sendo feito. Quando eu costurava uma tapeçaria, ele ficava deitado quase a meus pés. Toda noite, ficávamos lá, juntos no escuro e quase sem falar, pois eu não queria acordar Georges Lê Jeune e Luc.
Mas às vezes eu sentia que ele estava virado para mim. Se enxergar for como um fio de urdidura amarrado aos dois rolos de um tear, eu podia sentir o fio dele, tenso.
Uma noite, Nicolas chegou bem tarde. Todos estavam dormindo, menos eu. Costurava o rosto da Dama, no Paladar, enfiando a agulha com cuidado em volta de um olho.
O rosto estava quase pronto e logo Nicolas poderia realizar seu desejo de vê-la.
Quando ele se deitou no catre, a meus pés, senti esticar-se a linha invisível que existia entre nós. Ele queria dizer alguma coisa, mas desistiu. O silêncio estava pesado. Esperei até não agüentar mais.
- O que foi? - perguntei, na sala silenciosa, sentindo que estava finalmente coçando uma picada de pulga.
- É uma coisa que estou querendo contar faz tempo, bela. Desde o verão passado.
- Foi por isso que você foi embora?
- Sim.
Contive a respiração.
-Jacques Lê Boeuf esteve hoje na taberna, Apertei os lábios.-Alors?
- E um homem grosseiro.
- Isso não é novidade.
- Não consigo imaginar...
- O quê?
Nicolas parou de falar. Senti com os dedos uma abertura junto ao olho da dama na tapeçaria e enfiei a agulha nela.
- No verão passado, ouvi uma conversa de seus pais sobre Jacques Lê Boeuf. Seu pai fez um acordo com ele. Sobre você.
Ele estava com dificuldade para falar, mas não o ajudei.
- Você tem de se casar com ele. Será no Natal, foi o que combinaram, embora possam mudar a data agora que as tapeçarias terão de ser entregues antes. Mas será quando elas estiverem prontas; na Quaresma, acho.
- Eu já sabia disso - falei.
- Sabia?
- Madeleine me disse. Meu irmão contou para ela. Eles... - fiz um gesto com a mão sem terminar de mostrar o que Georges Lê Jeune e Madeleine andavam fazendo. Nicolas podia adivinhar. - Ela disse, então, que não ia contar para mais ninguém, porém Bruxelas inteira já deve saber. Por que se interessa pelo que acontece comigo? Não sou nada para você, senão uma cega que não pode admirar seu rosto bonito.
- Não me agrada que uma moça bonita se case com um brutamontes, c'est tout. - Pela voz dele, não parecia ser tudo. Aguardei.
- É estranho, essas tapeçarias me fazem ver as mulheres de outro jeito. Algumas mulheres - consertou ele.
- Mas essas tapeçarias não mostram mulheres de verdade fazendo coisas de verdade - falei.
Nicolas riu. -Algumas têm rostos de verdade. É por isso que sou conhecido; afinal, pinto rostos de damas. E, agora, faço tapeçarias.
- Ganhou bem por esses desenhos, alors"?
- Pelo jeito, ganhei mais do que seu pai.
- Coitado de papai, ele está se arruinando com o seu Jean Lê Viste.
- Sinto muito.
Ficamos por um instante em silêncio. Dava para ouvir a respiração calma dele.
- O que você vai fazer quanto a Jacques Lê Bceuf? perguntou Nicolas.
Luc virou-se no catre onde dormia e resmungou alguma coisa.
Achei certa graça. - O que posso fazer? Sou uma moça cega que teve a sorte de, finalmente, ter uma proposta de casamento.
- Proposta de um homem que tem cheiro de urina de carneiro?
Dei de ombros, embora me sentisse um pouco sem jeito"
- Tu sais, Aliénor, você pode fazer uma coisa.
A voz dele mudou ao dizer isso. Gelei. Sabia o que ele estava pensando. Também havia pensado a mesma coisa. Só que, se aceitasse, eu poderia acabar ficando numa situação pior do que casada com Jacques Lê Bceuf.
Entretanto, Nicolas parecia muito convicto.
- Venha, bela, vou lhe contar toda a história do chifre do unicórnio.
Passei de leve os dedos sobre os sulcos que a urdidura deixa na tapeçaria. A lã e a seda da trama firme e áspera faziam cócegas nas pontas de meus dedos e deixei minhas mãos descansarem ali por um instante. Mamãe e o padre já haviam dito que seria pecado, a não ser que o homem e a mulher fossem casados, mas também nunca soubera que isso impedisse alguém de fazê-lo - mamãe mesma havia feito. Por mais que ela e papai digam que se casaram para manter os ateliês dos pais, meu irmão nasceu apenas um mês depois que eles passaram a dormir na mesma cama como esposos. Madeleine e meu irmão também não pareciam temer o pecado, nem Nicolas, nem os casais que eu ouvia nos becos, nem as mulheres rindo dessas coisas ao lado da fonte ou no mercado.
Enfiei a agulha na boca da Dama para saber a partir de onde deveria continuar e estendi as mãos para Nicolas. Ele me levantou do banco, carregou-me no colo por cima dos tecelões dormindo e me levou para o jardim. Segurei bem no pescoço dele e enfiei o nariz em sua pele cálida. Tinha um cheiro delicioso.
Ele me deitou num canteiro de flores - margaridas e cravos, miosótis e aqüilégias. Não me incomodei de amassá-las, só não gostei dos líriosdo-vale caindo sobre o meu rosto. Eles são difíceis de cultivar, duram pouco e têm um perfume tão suave que me afastei dos lírios e deitei a cabeça numa moita de erva-cidreira. As folhas frias e felpudas ficaram roçando a minha testa e meu rosto. Sorte que a erva-cidreira cresce logo outra vez, mesmo quando alguém pisa nela.
Jamais imaginei que finalmente fosse estar com um homem e ainda me preocupar com minhas plantas.
- Do que está rindo, bela? - perguntou Nicolas, com o rosto bem em cima do meu.
- De nada - respondi, e toquei no rosto dele com a mão.
Ele ficou por cima de mim, com as pernas nas minhas coxas, o peito sobre meus seios, seu sexo pressionando com força o meu. Nunca havia sentido um peso assim sobre mim; mesmo assim não me assustei. Queria que ele me apertasse mais ainda.
Ele me beijou, a boca ávida, a língua entrando na minha boca, e tive vontade de rir outra vez. Era macio e, ao mesmo tempo, duro e molhado, e se mexia. Ele chupou minha língua para dentro da sua boca e lá era quente, com gosto da cerveja que ele bebera e de outra coisa que eu não sabia o que era; acho que o gosto dele.
Nicolas pegou o meu vestido, levantou as saias e abaixou o corpete. Minha pele arrepiou com o frio e também ao sentir a pele dele.
Todos os meus sentidos estavam alertas, com exceção de um. Pensei como seria enxergar enquanto fazia aquilo. Pelo pouco que eu sabia do que se passava entre homens e mulheres, só pelo que ouvira de meus pais à noite, de meu irmão com Madeleine no jardim, ou das mulheres fazendo chacota no mercado ou cantando músicas maliciosas, sempre achara que seriam necessários olhos para poder desfrutar, o que era uma coisa que eu não poderia fazer, ou só poderia com um homem como Jacques Lê Boeuf, e que ele me machucaria, e eu sempre ficaria com medo de fazer de novo. Doeu só um instante, quando Nicolas me penetrou pela primeira vez, depois senti o corpo dele no meu, lambendo-me, tocandome, cheirando-me e ouvindo-me.
- O que você está olhando? - perguntei, enquanto ele entrava e saía de dentro de mim, e entre nós ficava molhado, ao mesmo tempo que fazia um som parecido com o de um pé saindo da lama - Não estou olhando nada, fechei os olhos - é melhor assim. Sinto melhor. De qualquer jeito, a noite está muito escura, não há lua.
Então, eu não estava perdendo nada. Estava realmente ali com ele, tanto quanto qualquer mulher poderia estar. com isso, descobria que aquele era um prazer que eu também podia sentir.
Alguma coisa começou a crescer dentro de mim e foi crescendo conforme o ritmo dele, até que não consegui segurar mais e gritei, enquanto meu corpo inteiro se esticou e depois relaxou: uma mão fechada que em seguida se abria.
Nicolas colocou sua mão sobre a minha boca. - Psiu! fez, mas também estava rindo. - Quer que todos ouçam?
Dei um longo suspiro. Não estava assustada, apenas surpresa.
Nicolas se movimentava mais rápido e emitia alguns sons; sua respiração estava rápida como a minha, e então uma coisa quente espalhou-se dentro de mim. Ele parou
e desabou sobre meu corpo, tão pesado que eu mal conseguia respirar. Em seguida, rolou para o lado. Ouvi as plantas sendo esmagadas, senti o cheiro doce dos líriosdo-vale e tive certeza de que estavam amassados. Mas tudo aquilo era tão doce como o mel sem o pão para passar por cima. Além daquele cheiro forte, senti o perfume de outra coisa, mais real e parecida com terra. Era o cheiro de cama que já havia sentido nos outros, só que fresco como brotos de planta e terra molhada de chuva.
Ficamos inspirando e expirando juntos, cada vez mais lentamente, até que nos acalmamos.
- É isso, então, o que você faz com as damas da noite? perguntei.
Nicolas respondeu-me irritado: - Mais ou menos. Às vezes é bom; outras, não.
Costuma ser melhor quando a mulher fica feliz.
Eu estava feliz.
- Que cheiro é esse? - perguntou ele.
- Qual deles?
- O cheiro doce. O outro eu conheço.
- É do lírio-do-vale. Você está deitado sobre um, Ele riu.
- Nicolas, quero fazer isso de novo.
- Agora? Vai ter de me dar um tempo, bela. Deixa eu descansar um pouco, depois vejo o que poderei fazer - disse ele, rindo mais ainda.
- Amanhã e depois de amanhã, e depois de depois de amanhã - falei.
Nicolas virou o rosto para mim: - Tem certeza, Aliénor? Sabe o que pode acontecer?
- Sei. - Todas as conversas, as canções, as piadas me haviam ensinado isso também. Eu sabia o que queria. Deixaram de me informar tantas coisas só porque meus olhos não vêem. Eu ia ter aquilo e também as suas conseqüências.
Durante duas semanas, trabalhamos juntos no ateliê e deitamos no jardim à noite, amassando todas as minhas flores. No final, a lã estava separada; as Damas do Paladar e de À Mon SeulDésir, prontas; e tínhamos terminado.
Papai colocou um espelho sob o Paladar no tear para Nicolas ver todo o rosto da Dama. Naquela noite, ele se despediu de mim no jardim e, ao descansar a cabeça no meu colo, disse: - Não fique triste, bela.
- Não estou triste e não sou bela - respondi. No dia seguinte, ele voltou para Paris.