A Dama e o Unicórnio
Christine Du Sablon
Ele foi bem esperto, esse Nicolas dês Innocents, tenho de admitir. Fez uma travessura embaixo do nosso nariz e eu só percebi muito depois de ele ter ido embora. Acho que as tapeçarias não me deixaram ver as coisas. Estava tão ocupada, prestando atenção no trabalho, que nem sequer percebi o que estava acontecendo à minha volta. Eu me culpei por ter cometido o pecado do orgulho de tecer, orgulho que se transformou em arrogância -além de não ter ido à Missa na Notre Dame du Sablon a semana inteira, como sempre fazia religiosamente. Descuidei de Nossa Senhora e Nosso Senhor, e fomos todos castigados.
Num domingo, depois da Missa, Georges e Georges Lê Jeune desenrolaram e dependuraram as tapeçarias da Audição e do Olfato para Nicolas ver, pois foram as primeiras a ficar prontas. Encostei-me na soleira da porta, admirando-as. Mas percebi que as mãos da Dama tocando órgão poderiam estar mais bem-feitas. Se Georges me tivesse deixado há mais tempo tecer, ele teria tido a oportunidade de fazer melhor aquelas mãos. Mas não comentei nada com ninguém.
- A senhora está satisfeita, Madame? - perguntou Nicolas, então.
Balancei a cabeça. - Estava admirando a perícia de meu marido. -Nicolas continuou rindo para mim até que bati palmas e mandei: - Agora chega de olhar.
Enrolem de novo as tapeçarias, senão as traças atacarão. Aliénor, corte um pouco de alecrim para colocar no meio das tapeçarias.
Nicolas tinha visto as duas primeiras tapeçarias, além da terceira e da quarta enquanto estavam sendo feitas, e queria ver os desenhos das duas últimas (a Visão e o Tato) para garantir que tudo estava correto. Foi o que disse.
Confesso que não pensei muito a esse respeito. Luc pegou os cartões para Nicolas, que os olhou sozinho no jardim enquanto todos trabalhávamos no ateliê.
Logo em seguida, ele entrou e disse: - Gostaria de mudar uma coisa.
- Por quê? Já estavam aprovadas - disse Georges.
- Quero repintar os líriosdo-vale, agora que pude conhecê-los bem no jardim de Aliénor.
Atrás do tear, Aliénor deu uma risada como eu nunca tinha visto. Na hora, não desconfiei de nada, embora devesse.
- Mudaremos quando começarmos a tecer. Lembre-se de que os tecelões podem mudar a verdure como quiser explicou Georges.
- Mesmo assim, eu queria repintar. Como sempre, meus dedos ficaram tão ásperos de lidar com a lã que não sei o que as mulheres irão dizer quando eu tocar nelas.
- Ele piscou para Georges Lê Jeune, e Aliénor riu outra vez.
Franzi o cenho, mas meu marido só deu de ombros. Como queira, a lã está separada; não vamos precisar mais de sua ajuda mesmo.
Agora, quando penso nisso, lembro que ninguém foi ver o que Nicolas havia feito nos cartões. Ele havia mostrado sua perícia no verão anterior, quando pintara os cartões, e não tivemos tempo de ficar acompanhando por cima do ombro dele Pintara no jardim e, quando secaram, enrolara e guardarajunto com os demais.
A despedida dele era para ser em grande estilo, mas estávamos ocupados demais para pensar a respeito. Tecíamos catorze horas por dia, mal tínhamos tempo de comer, e eu estava tonta com a trama da tapeçaria na minha frente, mesmo quando não estava tecendo.
Toda noite eu caía na cama e dormia sem me mexer, até Madeleine me acordar pela manhã. Não dispunha de muito tempo para pensar na viagem dele. Na noite anterior à partida, Nicolas foi à taberna com os homens, mas estavam todos tão cansados que dormiram em cima dos canecos de cerveja.
Nicolas voltou para Paris sem se despedir daquela dama da noite que usava traje amarelo. Parecia ter-se afastado dela naquelas últimas semanas. Só agora, claro, eu sabia por quê.
Depois, seguiram-se lindos dias de verão, incessantes, em que tecemos quase sem abrir a boca para dizer qualquer coisa. Os dias de verão costumam ser compridos, com menos festas do que as outras épocas do ano. Começávamos a trabalhar mais cedo e terminávamos mais tarde. Eram quinze, dezesseis horas por dia nos teares, no calor, parados e em silêncio. Não falávamos, e até Joseph e o filho Thomas passaram a respeitar o silêncio. Minhas costas doíam muito, meus dedos estavam esfolados pela lã, e meus olhos, vermelhos. Mesmo assim, nunca estive mais contente.
Estava tecendo.
Madeleine nos deixou em paz, trazendo cerveja sem que fosse preciso pedir, servindo as refeições depressa e sem confusão. Estava cozinhando melhor desde que a encarreguei disso, assim como meu Georges Lê Jeune estava tecendo muito bem, tanto, a ponto de eu não conseguir diferençar o que havia sido feito por ele ou pelo pai.
Aliénor mantinha-se calada, mas sempre foi assim. Costurava para nós, cuidava do jardim e ajudava Madeleine nos afazeres da casa. As vezes dormia de dia para costurar a noite toda, depois que as tapeçarias eram liberadas pelos tecelões.
No final do verão, pouco depois da Festa da Natividade da Virgem, conseguimos terminar. Há semanas eu sabia que estávamos perto do fim -pelos dedos, eu sentia a barra da tapeçaria se aproximando lentamente à medida que eu ia finalizando as diversas cores: verde, depois amarelo, depois vermelho. Pensei que fosse comemorar, mas, quando terminei a última barra vermelha, dei um nó na última lançadeira e ajudei Aliénor a costurar os últimos espaços abertos na troca de cores; estava me sentindo como um assado sem pimenta. O dia havia sido igual a todos os outros.
Claro que fiquei orgulhosa quando Georges me deixou participar do corte da tapeçaria. Era a primeira vez que tinha permissão de cortar os fios da urdidura.
E quando desdobramos as tapeçarias para vê-las integralmente, foi uma alegria. Meu trabalho em À Mon Seul Désir estava igual ao dos outros tecelões, como se eu sempre tivesse sido um deles.
Não tínhamos tempo de descansar. Ainda havia duas tapeçarias para serem feitas em cinco meses. Georges não disse, mas eu sabia que também iria tecê-las. Os dias estavam ficando mais curtos e precisávamos de todos os artesãos. Se Aliénor pudesse enxergar, Georges provavelmente a aproveitaria também.
Num domingo, após a Missa, única ocasião em que eu agora saía para ver gente, estávamos caminhando pela GrandPlace, quando Aliénor agarrou meu braço: -Jacques Lê Bceuf! - murmurou. Seu nariz havia identificado o cheiro: Jacques estava do outro lado da praça, vindo em nossa direção. Confesso que nem pensei no tintureiro de anil naquele verão inteiro. Não conversamos com Aliénor a respeito das bodas, nem fiz nada para o enxoval dela.
Coloquei sua mão no braço de Georges Lê Jeune e ordenei, baixo: - Leve-a para o U Arbre d'Or. É a Guilda onde só os tecelões e suas famílias podem entrar.
Os dois seguiram rápido, eu agarrei o braço de meu esposo e ficamos bem juntos, como se esperássemos uma tempestade que pudesse nos derrubar. Ficamos olhando o Hotel de Ville, construção sólida e marcante com seus arcos, esculturas e torre. Seria bom se também fôssemos tão sólidos.
Jacques surgiu, agitado. - Onde foi a menina? Sempre foge de mim! -gritou. - Assim não vale a pena ter uma esposa que corre toda vez que o esposo aparece!
- Psiu! - fez Georges.
- Não me mande falar baixo! Estou cansado de ficar quieto. Não fiquei quieto o ano passado inteiro? Não fiquei calado quando os mexeriqueiros do mercado perguntaram se eu ia me casar com ela? Por que não posso falar? E por que não posso me encontrar com ela? Um dia ela terá de se acostumar comigo, por que não desde já? - perguntou ele e virou-se na direção do U Arbre d'Or.
Georges segurou o braço dele. - Não vá lá, Jacques, você sabe que não pode entrar na Guilda. E só estou pedindo para guardar segredo mais um pouquinho.
- Por quê?
Georges largou o braço de Jacques e olhou para o chão.
- Porque ainda não comuniquei a ela.
- Ela não sabe? -Jacques falou ainda mais alto do que antes. As pessoas foram se juntando em volta, à distância de um cuspe, por causa do cheiro dele.
Tossi. - Tenha paciência conosco, Jacques. Sabe que estávamos muito ocupados com as tapeçarias, onde suas lãs azuis foram muito importantes. Tanto que tenho certeza
de que vai receber uma enxurrada de encomendas de azul quando as pessoas começarem a ver - falei, segurando no braço dele, e, com calma, afastando-o dali, apesar de meus olhos lacrimejarem com seu cheiro.
Os olhos de Jacques brilharam por um instante, mas só por um instante.
- E a moça? Ela virá para a minha casa no Natal, não é? Já compraram a cama?
- vou encomendá-la amanhã, de castanheiro. A nossa é da mesma madeira, muito boa - disse Georges.
Jacques deu uma risadinha que revirou minhas tripas, e expliquei: - Meu esposo vai conversar com você logo, pois não podemos discutir negócios no sabá. - Olhei firme, e ele abaixou a cabeça. Ralhei um pouco mais, consegui que ele fosse embora e que as pessoas em volta sumissem sem descobrir o motivo de seus gritos, embora já devessem saber, pelo que ele disse dos mexericos no mercado.
Georges e eu nos entreolhamos.
- A cama - disse ele.
- O enxoval - falei ao mesmo tempo.
- Onde vou achar dinheiro para comprar a cama?
- Quando vou ter tempo de fazer o enxoval?
Georges balançou a cabeça. - E o que ele vai dizer quando souber que o casamento não será no Natal, mas na Candelária?
Pouco depois tive todas as respostas para todas essas perguntas, embora não fossem as que esperava.
No começo, ninguém percebeu. Os teares estavam prontos para fazer a Visão e o Tato, e passávamos quase o dia todo urdindo, com a ajuda de Philippe e Madeleine.
Depois, Georges desenrolou os cartões para colocá-los embaixo da urdidura.
Prestei atenção na borda dos desenhos, para ver se dispúnhamos das cores certas. Nisso, olhei a Dama no cartão da Visão. Levei um instante para perceber e então recuei como se tivesse levado um soco no peito.
Não havia dúvida de que Nicolas tinha mudado alguma coisa, e não haviam sido apenas os líriosdo-vale.
Georges Lê Jeune viu também e começou a rir.
- Regards, mamãe! Foi isso que Nicolas foi pintar no jardim; você devia ficar contente - gritou ele.
Fiquei tão irritada com aquele riso que dei um tapa em seu rosto. Georges Lê Jeune me olhou, surpreso. Nem esfregou o rosto, embora eu tivesse dado um tapa tão forte que a pele avermelhou.
- Christine, o que é isso? - perguntou meu esposo. Olhei para Aliénor, que estava sentada num banquinho, desembaraçando a lã. Claro que ela não podia ver o que Nicolas fizera com a Visão.
- Eu só disse para mamãe que Nicolas fez a Dama parecida com ela no Tato, e ela me estapeou! - reclamou meu filho.
Olhei para ele, depois para a tapeçaria. Olhei bem. Ele tinha razão: a Dama era parecida comigo, com meus cabelos compridos e rosto longo, o queixo pontudo e o maxilar marcado, as sobrancelhas em arco. Eu era a orgulhosa esposa do tecelão empunhando, satisfeita, o estandarte numa das mãos e segurando o chifre do unicórnio na outra. Lembro do instante que ele captou, quando eu estava na porta, pensando no que estava tecendo. Nicolas dês Innocents me conhecia bem.
- Desculpe, meu filho, pensei que você estivesse falando da Visão, onde a Dama é parecida com Aliénor - falei.
Todos olharam para a tapeçaria, e Aliénor levantou a cabeça. -Zanguei-me porque achei cruel colocar uma moça cega na tapeçaria da Visão -expliquei logo. Não comentei o fato de o unicórnio estar com a cabeça no colo de minha filha e o que isso poderia significar. Meu esposo e os outros ficaram olhando, mas pareciam não perceber nada. Os homens às vezes são inocentes.
- Parece mesmo com você, Aliénor, com seus olhos tortos e seu sorriso torto - disse Georges Lê Jeune.
Aliénor enrubesceu e se atrapalhou com a lã que tinha no colo.
- Vamos deixar os cartões assim mesmo, papai? Não podemos mudar as figuras depois de serem aprovadas pelo cliente - considerou meu filho.
Meu esposo passou a mão no rosto, sério. - Podemos usar assim mesmo, não lembro como eram os rostos antes. Você lembra, Philippe?
Philippe olhou bem o cartão. Depois, levantou os olhos redondos para Aliénor e vi que estava tão preocupado quanto eu com a mudança nos desenhos e o que aquilo podia significar. Por sorte, Philippe é discreto, quase tão calado quanto Aliénor.
- Não lembro como eram os rostos, por isso não conseguiria refazer os desenhos - disse ele.
- Então está bem. Vamos tecer assim, esperando que ninguém perceba -decidiu Georges. - Dane-se o pintor, não preciso de mais uma preocupação.
Ao ouvir isso, Aliénor mexeu a cabeça com força, e, por um instante, ficou tão triste quanto a Dama da Visão. Mordi o lábio. Será que Nicolas a retratou na virgem
que segura o unicórnio porque a desejava ou porque havia realizado o desejo?
Comecei a observar minha filha - do jeito como deveria ter feito quando Nicolas se encontrava entre nós. Observei-a com olhos de mãe. Não parecia diferente. Ela não sentia dor de estômago, nem estava mais cansada do que todos nós, nem sentindo dor de cabeça ou irritada. Tive tudo isso quando a estava esperando e, depois, o mesmo com Georges Lê Jeune. Ela também não estava com a cintura grossa nem a barriga redonda.
Talvez tivesse conseguido escapar da armadilha que os homens preparam para as mulheres.
Mas ela havia mudado numa coisa: não era mais tão curiosa como sempre fora.
Costumava pedir para eu descrever uma coisa, ou dizer o que eu ou os outros estávamos fazendo. Eu havia começado a preparar seu enxoval à noite, quando não podíamos tecer, pois, à medida que os dias passavam e iam ficando mais curtos, eu já não estava tão cansada no fim da jornada e podia costurar após a ceia. Nas noites em que eu fazia vestidos, lencinhos ou lenços de cabeça para a arca do enxoval dela, Aliénor não perguntava por que eu não estava costurando as tapeçarias com ela, ou o que eu estava fazendo. Na verdade, ela parecia contente de costurar sozinha. Às vezes, eu a olhava lidando com as lãs ou no jardim, ou ajudando Madeleine no fogão, ou debruçada sobre a tapeçaria, e ela estava sorrindo de um jeito que eu nunca tinha visto, como um gato que comeu bem e achou um canto ao lado da lareira. Nessa hora eu ficava preocupada e achava que minha filha tinha caído na armadilha dos homens, O problema era aquela cegueira. Aliénor jamais pudera saber como os outros a viam. Eu estava sempre tirando folhas do cabelo dela, graxa de seu queixo ou alisando sua saia porque ela não imaginava que as pessoas percebessem. Assim, quando começou a ficar mais redonda, achou que o pesado casaco de inverno escondesse a barriga, sem saber que o jeito e o andar dela haviam mudado.
Eu tinha certeza de que ela estava grávida. Fui percebendo aos poucos, como um amanhecer chegando, e num certo dia de novembro, quando a vi andando pelos canteiros da horta, desajeitada, colhendo os repolhos antes que começasse a nevar, simplesmente me perguntei quando deveria dar a notícia a Georges. Claro que já deveria ter contado há semanas, quando ele estava pensando em encomendar a cama de casal. Todo dote deve ter uma cama, e ele procurara um carpinteiro, preocupado com o preço.
- Não tenho um centavo para pagar a cama, a não ser que eu use o dinheiro que devo a Jacques pela última remessa de lã - explicou ele. - E Jacques vai ficar furioso, porque na mesma ocasião também terei de dizer que ela não poderá se casar antes de fevereiro.
- Quando você vai avisá-la do casamento? - perguntei. Aliénor ainda não sabia o que ele estava planejando para ela.
Georges deu de ombros. Meu esposo não é covarde, mas não queria ver a filha infeliz.
Eu também não sou covarde, mas não contei do que desconfiava, nem perguntei nada para Aliénor. Claro que devia ter perguntado, mas não queria perturbar a tranqüilidade do ateliê. Naqueles muitos meses de trabalho, Georges e eu mantivéramos distância dos problemas. Só voltaríamos a pensar neles depois que as tapeçarias estivessem prontas. Estava tudo parado: a casa suja; o jardim de Aliénor, largado; Georges, sem procurar trabalho para o ano seguinte; eu não ia ao mercado, nem queria saber o que estava acontecendo na cidade. Tenho vergonha de dizer que até nossas preces acabaram sendo suspensas e não respeitávamos os dias de guarda.
Trabalhamos no Dia de Todos os Santos e nos Finados, quando devíamos ter ficado na igreja.
Mas o problema de Aliénor não podia esperar. Um bebê não pode ser adiado para outra ocasião.
Foi Thomas quem percebeu. De todos os tecelões, era ele quem tinha os olhos mais atentos - não ficavam parados acompanhando o que seus dedos faziam no tear. Se alguém se mexia no ateliê (principalmente Aliénor ou Madeleine), seus olhos iam atrás.
Uma manhã, Aliénor ficou ao lado de um dos teares para entregar uma lançadeira de linha branca para Georges, que começava o rosto da Dama, na Visão. Ela ficou com Joseph e Thomas, um de cada lado, e, quando se inclinou sobre o tear, mostrou a barriga para quem quisesse ver. Ninguém quis, exceto Thomas, que, ao lado dela, procurava uma desculpa para interromper o trabalho.
- Alors, Dona da Lã - disse ele, repetindo o apelido que Nicolas havia dado a ela, embora sem a mesma graça do artista. - Vejo que a plantinha está crescendo.
Quando vai ser a colheita?
Pisei nos pedais com tanta força que o barulho ecoou pelo ateliê inteiro -mesmo assim, não deu para abafar o que ele disse. Quando meu tear silenciou, o ateliê também ficou em silêncio.
Aliénor deixou cair a lançadeira sobre o urdume e recuou. Abaixou as mãos e agarrou a saia, e com isso a repuxou, delineando a barriga de tal modo que, se alguém ainda não havia entendido o que Thomas havia dito, passou a entender.
Meu esposo foi quem mais demorou. Quando tece, Georges fica absorto e leva tempo para tomar conhecimento das coisas ao redor. Olhou para Aliénor, mas não parecia vê-la, embora ela continuasse de frente para ele, as mãos caídas, a cabeça inclinada. No momento em que finalmente entendeu, Georges me olhou e confirmou na linha séria da minha boca o que estava pensando. Levantou-se, e o banco rangeu. Joseph e o filho Thomas abriram caminho para ele passar.
- Tem alguma coisa a me dizer, Aliénor? - perguntou ele.
- Não. - Aliénor estava mais calma ainda.
- De quem é? Silêncio.
- Quem é ele?
Ela não se mexeu nem falou. Seu rosto estava desolado.
Georges passou por cima do banco e deu-lhe um tapa que a derrubou no chão. Como qualquer mãe, ao cair, Aliénor colocou as mãos na barriga para proteger o filho.
Bateu a cabeça no banco do tear. Levantei do meu banco e me coloquei entre eles.
- Não faça isso, Christine - mandou Georges.
Parei. Há situações em que a mãe não pode proteger seu filho.
Alguém se mexeu na porta; Madeleine estava assistindo a tudo e desapareceu. Um instante depois, eu a vi passar rápido pelas janelas do ateliê.
Aliénor levantou-se. De seu nariz escorria sangue. Talvez por ver isso, Georges se conteve. Ela se levantou, vacilante, saiu do ateliê e dirigiu-se para o jardim, sempre com passos inseguros.
Georges olhou para Joseph, Thomas, Georges Lê Jeune e Luc, sentados em fila como juizes, olhando para ele.
- Voltem ao trabalho - mandou.
Um a um, eles inclinaram a cabeça sobre as tapeçarias.
Georges me olhou, desesperado. Fiz sinal com a cabeça para dentro de casa e me seguiu. Ficamos lado a lado, olhando a lareira acesa. Só quando senti o calor do fogo foi que percebi o frio que fazia no ateliê.
- Quem você acha que é o pai? - perguntou Georges. Ele não tinha feito uma ligação entre o que a Dama da Visão estava fazendo e o que Aliénor tinha feito.
De certa forma, eu esperava que ele jamais fizesse.
- Não sei - menti.
- Talvez seja o próprio Jacques Lê Boeuf - Georges tentava ser otimista.
- Você sabe que não é. Ela jamais faria amor com ele.
- O que faremos agora, Christine? Jacques não vai aceitá-la assim, e decerto nunca mais tingirá lã para nós. E tem a cama que já paguei com o dinheiro que era para ele.
Lembrei de Aliénor tremendo na igreja quando falou em Jacques e senti uma certa alegria por ela não ter de dormir naquela cama com ele, embora, claro, eu não pudesse dizer isso.
Antes que eu respondesse, ouvimos passos do lado de fora e Madeleine entrou seguida por Philippe de Ia Tour. Suspirei: mais um estranho para testemunhar nossa vergonha e o sofrimento de Aliénor.
- Saia, estamos ocupados - disse Georges, antes que Philippe abrisse a boca.
Philippe não obedeceu a ordem agressiva.
- Queria falar com você - disse ele; depois pareceu perder a coragem. Madeleine deu-lhe, então, um safanão e ele continuou: - É sobre Aliénor.
Georges fechou os olhos por um instante e perguntou a Madeleine: -Você já foi contar para todo mundo, não é? Por que não berra a notícia no mercado? Ou traz Jacques aqui, para ver a loucura que acabou de acontecer?
Madeleine zangou-se com Georges: - Vocês são todos cegos, não viram até agora como ele gosta dela? - Ficamos olhando para ela, que jamais rebatia coisa alguma.
Será que estava se referindo a Jacques Lê Boeuf? Não era o tipo de homem que gostasse de alguém.
- Georges, deixe Madeleine falar, ela sabe o que diz explicou Philippe, inseguro. - Não vim aqui para zombar da situação, é que.,. - Parou, como se estivesse com muito receio de falar.
- O que é, então? No que você pode nos ajudar?
- E que eu... eu sou o pai.
- Você?
Philippe me olhava firme e, num lampejo, compreendi. Fiz um leve sinal para ele tomar coragem e prosseguir. Madeleine devia ter razão: Philippe amava Aliénor e ia ajudála. A ela e a nós também.
Philippe engoliu em seco e continuou olhando para mim em busca de apoio.
- Sou o pai da criança e quero que Aliénor seja minha esposa, se ela me aceitar.