A Dama e o Unicórnio

Tracy Chevalier · Capítulo 3 de 18

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A Dama e o Unicórnio

Claude Lê Viste

Eu não queria agradar só a ele, mas à esposa e à filha também. Não sabia quem me interessava mais: o lindo rosto de Claude ou o rosto triste de Geneviève. Talvez houvesse espaço para ambos na floresta do unicórnio.

Naquela noite, fui beber no Lê Coq d'Or para comemorar a encomenda, e depois dormi mal. Sonhei com unicórnios e damas rodeadas de flores, uma menina mastigando cravoda-índia, outra se olhando no fundo de um poço, uma dama segurando jóias ao lado de um cofrinho, uma menina alimentando um falcão. Tudo tão misturado que não Página 14

consegui entender. Não foi um pesadelo, mas um desejo.

Quando acordei, minha cabeça estava desanuviada, e eu, pronto para tornar os sonhos realidade.

 

CLAUDE LÊ VISTE

 

Depois que assistimos à Missa de Páscoa no domingo, mamãe perguntou a papai a respeito das tapeçarias, e então eu soube que o artista iria aparecer de novo. Estávamos todos retornando para a rue du Four; Jeanne e Petite Geneviève queriam que eu corresse na frente com elas e pulasse as poças d'água, mas fiquei ouvindo a conversa deles. Sou boa para ouvir o que não é da minha conta.

Mamãe é sempre cuidadosa em não incomodar papai, mas ele parecia estar de bom humor - decerto contente como eu, por estar ao sol depois de uma Missa tão longa!

Quando ela lhe perguntou das tapeçarias, ele disse que já estava com os desenhos e que Nicolas dês Innocents viria logo para conversar sobre eles. Ainda não havia adiantado muita coisa do trabalho, o que foi suficiente para irritar papai. Acho que ele se arrependeu de mudar o tema da batalha para o de um unicórnio: ele adora suas batalhas e seu Rei. No meio da conversa, papai foi embora abruptamente, dizendo que tinha de falar com o mordomo. Olhei para Béatrice e ambas rimos, o que fez mamãe franzir o cenho.

Obrigada, meu Deus, por Béatrice! Ela me contou tudo a mudança do tema da batalha para o do unicórnio, a observação esperta que fez sobre a palavra Viste e, o melhor de tudo, disse o nome do artista: Nicolas. Mamãe nunca me contaria nada disso, além de a porta do aposento dela ser muito grossa não consegui ouvir uma única palavra quando Nicolas ficou lá dentro com ela, exceto o riso de Béatrice. Sorte que ela me conta as coisas - dentro de pouco tempo será minha dama de companhia. Mamãe pode abrir mão dela, e Béatrice ficará melhor comigo, irá se divertir muito mais.

Mamãe anda tão entediada - tudo que quer fazer é só rezar. Agora insiste em ir à Missa duas vezes ao dia. Às vezes, tenho lições de dança na hora da Terça ou da Sexta, mas ela me leva às Vésperas na igreja por causa da música, e fico tão impaciente que dá vontade de gritar. Quando sento num banco de SaintGermain-des-Prés, meus pés ficam batendo no chão, e as mulheres por perto percebem o movimento, mas não sabem de onde vem -só Béatrice, que põe a mão na minha perna para eu parar.

A primeira vez que ela fez isso, dei um pulo e gritei; fiquei tão assustada.

Mamãe inclinou-se e me olhou; o padre virou para trás no altar e também olhou.

Tive de enfiar a boca na manga da blusa para não rir.

Parece que agora eu irrito mamãe, embora não saiba o que a enerve tanto. Ela também me irrita - toda hora repete que estou rindo demais, ou andando depressa demais, ou que meu vestido está sujo, ou minha touca vive torta. Ela ainda me trata como uma menina, mas espera que eu também seja uma mulher. Não me deixa sair quando quero - diz que estou muito grande para brincar de dia na Feira em SaintGermain-des-Prés e que sou tão jovem para ir lá à noite. Não sou jovem demais - as outras meninas de catorze anos vão à feira de noite ver osjongleurs. Muitas já estão noivas.

Quando peço, mamãe diz que estou sendo desrespeitosa e devo esperar papai resolver quando e com quem vou me casar. Fico tão frustrada! Se eu sou uma mulher, onde está o meu homem?

Ontem, tentei ouvir a confissão de mamãe na SaintGermain-des-Prés para ver se ela se sentia culpada por ser tão má comigo. Eu me escondi atrás de uma coluna, perto de onde ela estava sentada com o padre, mas falava tão baixo que tive de me agachar quase ao lado dela.

Tudo que consegui ouvir foi "Ca c'est mon seul désír", até um dos padres me ver e me mandar sair dali.

- Mon seul désir - murmurei para mim mesma. "Meu único desejo." A frase é tão encantadora que eu a repito o dia inteiro.

Quando tinha certeza de que Nicolas viria, decidia que teria de vê-lo. C'est mon seul désir. Ah! Ele é o meu homem! Desde que o conheci, penso nele todas as horas

de todos os dias. Claro que não comentei nada com ninguém, só com Béatrice, que, para minha surpresa, não se entusiasmou muito. E o único defeito dela. Eu estava descrevendo os olhos dele - marrons como castanhas e caídos nos cantos de forma que ele parece meio triste mesmo quando nem está.

- Nicolas não merece você - Béatrice me interrompeu.

- E apenas um artista e, portanto, não é digno de confiança. Você devia pensar em lordes, isso sim, - Se ele não fosse de confiança, meu pai jamais o contrataria; Oncle Léon não iria deixar - argumentei.

Léon não é meu tio de verdade, mas um velho comerciante que cuida dos negócios de meu pai. Ele me trata como sobrinha, e até pouco tempo atrás dava tapinhas no meu queixo e me trazia doces, mas agora diz para eu ficar em pé direito e pentear os cabelos. "Diga que tipo de esposo você quer e eu vejo se tem algum no ponto", ele gosta de dizer. Levaria um susto se eu falasse em Nicolas! Tenho certeza de que não tem o artista em alta conta: ouvi quando falava com papai, tentando cancelar os unicórnios de Nicolas, dizendo que não seriam adequados para a Grande Salle.

A porta do aposento de papai não é tão grossa; e se eu colocar o ouvido no buraco da fechadura, consigo ouvir. Papai não vai mudar de idéia outra vez. Eu podia ter dito isso a Léon. Mudar uma vez já foi ruim, voltar atrás será impensável!

Assim que consegui a informação de que Nicolas viria à rue du Four, fui direto ao mordomo para saber exatamente quando. Como de hábito, o mordomo estava na despensa, contando coisas da casa. Está sempre achando que estamos sendo roubados. Quando falei em Nicolas, ele ficou ainda mais assustado do que Béatrice.

- Não queira nada com aquele tipo, Mademoiselle disse.

- Estou só perguntando quando ele virá. - Esbocei um meigo sorriso. - Se você não contar, digo a papai que não quis me ajudar.

O mordomo riu.

- Terça-feira, na hora da Sexta - resmungou. - Léon virá com ele.

- Está vendo? Não custou nada. Você devia sempre me dizer o que quero saber; assim me faz contente.

O mordomo fez uma reverência, mas continuou me olhando, quando me virei para sair da despensa. Parecia que ia dizer algo, mas desistiu. Achei aquilo muito engraçado, e saí correndo e rindo.

Na terça-feira, eu teria de passar o dia com mamãe e minhas irmãs na casa da vovó em Nanterre, e dormir lá, mas inventei que estava com dor no estômago e não fui.

Quando Jeanne viu que eu não ia, quis inventar como eu, embora não soubesse o verdadeiro motivo para eu ficar. Não podia contar de Nicolas -minha irmã é jovem demais para entender. Ficou atrás de mim até eu me zangar; então, chorou e saí correndo. Depois me senti horrível, não devia tratar minha irmã assim. Sempre fomos muito unidas, e até pouco tempo dormíamos na mesma cama. Jeanne também chorou quando eu disse que queria dormir sozinha. Meu sono tem sido muito agitado: chuto as cobertas, rolo na cama, e só de pensar em ter outra pessoa ao lado (que não seja Nicolas) me incomoda.

Agora Jeanne é obrigada a ficar mais tempo com Petite Geneviève, que é um amor, mas tem só sete anos, e Jeanne sempre gostou de meninas mais velhas. Petite Geneviève também é a preferida de mamãe, o que irrita Jeanne. Claro que ela tem o lindo nome de mamãe, enquanto Jeanne e eu fomos batizadas de forma a lembrar que não somos os filhos homens que papai queria.

Mamãe mandou Béatrice ficar cuidando de mim, e as três finalmente foram para Nanterre. Mandei, então, Béatrice comprar tiras de casca de laranja no mel, que adoro, explicando que fazem bem ao estômago. Insisti para ela ir até uma barraca que fica perto de Notre Dame. Ela fez uma cara de quem não gostou, mas foi assim mesmo.

Quando saiu, dei um grande suspiro e corri para o meu aposento. Os bicos de meus seios roçavam no forro do meu vestido, e então deitei na cama, colocando um travesseiro no meio das pernas e desejando uma resposta para a pergunta que meu corpo fazia.

Eu me sentia como um cântico da Missa que interrompem no meio.

Finalmente, levantei-me, ajeitei minha roupa e a touca, e corri para o aposento particular de meu pai. A porta estava aberta e dei uma olhada. Só MarieCéleste estava lá, ajoelhada ao lado da lareira para acender o fogo. Quando eu era mais jovem e passávamos o verão no Château d'Arcy, MarieCéleste costumava me levar com Jeanne e Petite Geneviève até a beira do rio e cantar músicas maliciosas enquanto lavava roupas. Eu estava com vontade de contar para ela a respeito de Nicolas dês Innocents, dizer aonde gostaria que ele passasse as mãos em mim e o que eu faria com a minha língua. Afinal, havia aprendido tudo nas músicas que ela cantava e nas histórias que contava sobre essas coisas. Mas algo me impediu. Ela havia sido minha amiga quando eu era pequena; agora que crescera, a ponto de logo ter uma dama de companhia e me preparar para um esposo, não era certo falar essas coisas com ela. Preferi, então, perguntar alguma coisa, embora já soubesse a resposta: - Por que está acendendo a lareira, MarieCéleste?

Ela levantou os olhos para mim. Estava com cinzas riscadas na testa, como se ainda fosse Quarta-feira de Cinzas. Sempre foi uma garota desarrumada.

- Porque seu pai vai ter visitas, Mademoiselle - respondeu.

A lenha estava começando a fazer fumaça, e as chamas lambiam as achas aqui e ali. MarieCéleste segurou numa cadeira para se levantar com um resmungo. O rosto dela estava mais gordo; aliás, notei também o corpo dela crescendo horrivelmente.

- Marie Céleste, você está de filho?

Ela abaixou a cabeça. Que estranho - apesar de todas aquelas músicas falando de criadas sendo agarradas por homens, ela não deve ter imaginado que fosse acontecer consigo própria. Claro que toda mulher quer ter filhos, mas não desse jeito, sem esposo.

- Sua boba. Quem é o pai? - perguntei, zangada. MarieCéleste balançou a mão como se quisesse afastar a pergunta.

- Ele trabalha aqui? Ela negou com a cabeça.

- Alors, vai se casar com você?

Ela se zangou: - Não.

- E o que você vai fazer?

- Não sei, Mademoiselle.

- Mamãe vai ficar furiosa! Ela já a viu?

- Não chego perto dela, Mademoiselle.

- Ela logo vai perceber. Você devia pelo menos usar um manto para esconder.

- Criadas não usam manto, Mademoiselle, não dá para trabalhar com manto.

- Pelo jeito, daqui a pouco você não vai mais conseguir trabalhar. Terá de voltar para a casa de seus pais. Atíends, invente alguma coisa para a mamãe. Já sei: diga que sua mãe está doente e que você precisa cuidar dela. Depois que a criança nascer, você volta.

- Não posso falar com a sua mãe assim, Mademoiselle. Ela irá perceber na hora qual é o problema.

- Eu conto, então, quando ela voltar de Nanterre. Fiquei com pena de Marie Céleste e queria mesmo ajudá-la.

Marie Céleste se animou: - Ah, muito obrigada, Mademoiselle. Que bondade!

- Melhor você ir embora assim que puder.

- Obrigada, Mademoiselle, obrigada. Quando eu voltar, procurarei você. -Ela se virou para ir, depois olhou para mim de novo e disse: - Se for menina, darei o seu nome.

- Está ótimo. E se for menino? Vai ter o nome do pai? MarieCéleste apertou os olhos com raiva.

-Jamais! O pai não quer saber de nada; então, eu também não quero nada com ele!

- zombou ela.

Depois que MarieCéleste saiu, dei uma olhada no aposento particular de papai.

Não é um lugar confortável. As cadeiras de carvalho não têm almofadas e rangem quando se toca nelas. Acho que papai quis assim de propósito, para ninguém ficar muito tempo com ele. Percebi que Oncle Léon sempre fica em pé quando vem falar com papai.

As paredes são cheias de mapas mostrando as propriedades dele (o Château d'Arcy, nossa casa na rue du Four, a mansão Lê Viste, em Lyon), além de mapas das disputas de terras que papai está resolvendo para o Rei. Os livros de papai ficam guardados nesse aposento, numa caixa trancada.

A sala tem duas mesas: numa, papai escreve; na outra, maior, ele abre mapas e documentos nas reuniões. Essa mesa costuma ficar vazia, mas hoje deixaram lá grandes folhas de papel. Olhei uma, e recuei, surpresa. A folha tinha um desenho em que eu estava entre um leão e um unicórnio, com um periquito pousado no meu dedo enluvado.

Eu usava um vestido e um colar lindos, um lenço simples na cabeça, e estava com os cabelos soltos. Olhava de lado para o unicórnio e sorria como se estivesse pensando num segredo agradável. O unicórnio era bonito, gorducho e branco, em pé nas patas traseiras, e tinha um comprido chifre espiralado. Ele não olhava para mim, como se não quisesse se enfeitiçar com a minha beleza. Tinha um pequeno manto com o brasão dos Lê Viste. O vento parecia soprar no desenho, levantando o manto do unicórnio e o do leão, além da ponta do meu lenço e o estandarte dos Lê Viste que o leão segurava.

Fiquei um bom tempo olhando o desenho. Não conseguia tirar os olhos dele, nem levantar a folha para ver os que estavam por baixo. Ele me havia desenhado.

Estava pensando em mim como eu nele. Meus seios intumesceram. Mon seul désir.

Então ouvi vozes no corredor. A porta se abriu e só deu tempo de me jogar no chão e me enfiar embaixo da mesa. Estava escuro, e era estranho ficar sozinha naquele chão de Pedra fria. Costumava me esconder aqui com as minhas irmãs, e ríamos tanto que éramos descobertas na hora. Sentei abraçando os joelhos e rezei para não me descobrirem.

Dois homens entraram e vieram direto para a mesa. Um estava com aquela túnica longa e marrom que os comerciantes usam; devia ser Oncle Léon. O outro usava uma túnica verde na altura dos joelhos e meiascalças azul-escuro. Suas pernas eram torneadas e, antes de ele falar, eu já sabia que era Nicolas. Não havia passado tantos dias pensando nele por nada. Minha imaginação havia completado todos os detalhes - os ombros largos, o cabelo encaracolado caindo na nuca, o traseiro parecendo duas cerejas, as pernas esguias.

Naquele momento, minha imaginação teria de preencher mais detalhes, pois os homens começaram a falar e eu só via as pernas deles. Fiquei imaginando o rosto de Nicolas franzindo a testa lisa, os olhos penetrantes me vendo no desenho, seus dedos compridos percorrendo o papel áspero do desenho. Tudo isso eu imaginei enquanto estava ali sentada, quase no escuro, ouvindo-os falar.

- Monseigneur já vem - avisou Oncle Léon. Enquanto isso, vamos ver algumas coisas. - Ouvi o som de papel sendo desenrolado.

- Ele gostou dos desenhos? Elogiou? - perguntou Nicolas. Sua voz segura foi direto para o meio de minhas pernas, como se ele me tocasse lá.

Léon não respondeu. Nicolas insistiu: - Ele deve ter dito alguma coisa. O senhor pode ver que são desenhos esmerados.

Ele deve ter ficado muito entusiasmado.

Léon riu. - Monseigneur Lê Viste não se entusiasma com nada, não é do feitio dele.

- Mas deve ter aprovado os desenhos.

- Você está se antecipando, Nicolas. Nesse negócio, você tem de esperar o dono opinar. Alors, prepare-se para encontrar Monseigneur. A primeira coisa que precisa entender é que ele não viu os desenhos.

- Mas já os entreguei há uma semana!

- Sim, e ele vai dizer que estudou bem os desenhos, mas não os viu.

- Por que não, em nome de Notre Dame?

- Monseigneur Lê Viste anda muito ocupado. Só pensa nas coisas na hora de decidir. Então, resolve logo e espera que o obedeçam sem perguntar nada.

Nicolas irritou-se: - É assim que um nobre como ele trata uma encomenda tão importante? Acho que um verdadeiro nobre não faria isso.

Oncle Léon baixou a voz: -Jean Lê Viste sabe que pensam isso dele. -Percebi que o tom era grave. - Ele faz do trabalho duro e da fidelidade ao Rei uma compensação para o desrespeito que muita gente tem por ele - até artistas como você, que trabalha para ele.

- Tenho respeito suficiente para aceitar trabalhar para ele - disse Nicolas, rápido.

- Claro. As pessoas precisam ser práticas. Dinheiro é dinheiro, quer venha de um nobre ou de um mendigo.

Os dois riram. Levantei a cabeça e quase bati no tampo da mesa. Não gostei daqueles risos. Não sou apegada a papai, ele é tão frio comigo quanto com todo mundo, mas não gostei que o nome e a reputação dele fossem jogados como um pau para um cão pegar. E nunca pensei que Oncle Léon pudesse ser desleal. Na próxima vez que o encontrasse, daria uma boa pisada no pé dele. Ou coisa pior!

- Não nego que os desenhos são promissores - disse meu tio.

- Promissores! São mais do que isso!

- Se você ficar quieto um instante, vou ajudá-lo a fazer com que essas tapeçarias fiquem melhores ainda do que são - melhores até do que você poderia imaginar.

Você está muito próximo de sua criação para saber o que vai melhorá-la. Precisa de mais um olho para ver os defeitos.

- Que defeitos? - Nicolas repetiu o que eu pensei. O que poderia melhorar aquele desenho onde eu estava?

- Pensei duas coisas ao olhar os desenhos, e é claro que Jean Lê Viste terá outras sugestões a fazer.

- Quais são as duas coisas?

- Serão seis tapeçarias cobrindo as paredes da Grande Salle, n'est-cepas? Duas grandes e quatro um pouco menores.

- Sim.

- Elas mostram em seqüência a Dama seduzindo o unicórnio, n'est-cepas?

- Como combinei com Monseigneur.

- A sedução está bem evidente, mas eu me pergunto se você não escondeu alguma coisa nos desenhos. Um outro jeito de olhá-los.

Nicolas esfregou os pés no chão, impaciente. - Como assim?

- Tenho a impressão de que eles se referem aos cinco sentidos. - Léon bateu com o dedo num dos desenhos e o som foi perto do meu ouvido. -A Dama tocando órgão para o unicórnio dá idéia de Audição, por exemplo. E segurando o chifre do unicórnio é certamente o sentido do Tato. Aqui. Ele bateu outra vez na mesa. -A Dama trançando uma coroa de cravos seria o Olfato, embora talvez não seja tão óbvio.

- As noivas usam coroas de cravos - explicou Nicolas. -A Dama está atraindo o unicórnio com a idéia de casamento e do leito nupcial. Não tem relação com o Olfato.

- Ah, bem que eu achava que você não era tão sutil! A ligação com os sentidos não passa de mero acaso, então.

- Eu...

- Mas você percebe que podia haver essa relação? Faça o unicórnio cheirar o cravo. Ou outro animal. E na tapeçaria em que ele põe a cabeça no colo da Dama você poderia fazer com que ela mostrasse um espelho para ele- o sentido da Visão.

- Mas isso faria o unicórnio parecer vaidoso, não?

- E daí? O unicórnio parece mesmo um pouco vaidoso. Nicolas não respondeu.

Talvez tenha me ouvido rir dele e do unicórnio, embaixo da mesa.

- Então você fez a Dama segurando o chifre do unicórnio, o Tato. Tocando órgão, a Audição. com os cravos, o Olfato. O espelho, a Visão. O que falta? O Paladar.

Sobram duas tapeçarias: a que mostra Claude e Dame Geneviève.

Mamãe? O que Léon queria dizer? Nicolas emitiu um som engraçado, como se risse e chorasse ao mesmo tempo.

- Como assim, Claude e Dame Geneviève?

- Ora, você sabe muito bem o que estou dizendo. Era essa a outra coisa que eu queria dizer. Os rostos estão muito parecidos com as duas. Jean Lê Viste não vai gostar.

Sei que você está acostumado a pintar retratos, mas nos desenhos definitivos você tem de fazer com que elas sejam mais parecidas com outras damas.

- Por quê?

- Jean Lê Viste queria tapeçarias mostrando batalhas. Você fez a esposa e a filha dele: não há comparação entre as duas coisas.

- Ele aceitou que eu fizesse as tapeçarias de unicórnio.

- Mas você não precisa dar a ele uma ode à esposa e à filha dele. Eu gosto de Dame Geneviève. Só que Jean Lê Viste é um homem difícil e você sabe que ela e Claude são espinhos na vida dele. Não vai gostar que elas apareçam em algo tão importante quanto essas tapeçarias.

- Ah! - gritei, e dessa vez bati com a cabeça no tampo da mesa. Doeu.

Ouvi uns resmungos de surpresa, e duas caras apareceram embaixo da mesa. Léon estava sério, mas Nicolas sorriu ao ver que era eu. Estendeu a mão e me ajudou a sair de lá.

- Obrigada - agradeci ao me levantar. Nicolas fez menção de beijar minha mão, mas puxei-a antes e arrumei meu vestido. Não estava disposta a perdoá-lo pelas grosserias que havia dito sobre meu pai.

- O que fazia embaixo da mesa, menina travessa? perguntou Oncle Léon. Por um instante, achei que ele fosse me dar umas palmadas, como se eu tivesse a mesma idade de Petite Geneviève, mas pareceu se dar conta antes: - Seu pai vai ficar bem zangado se souber que você estava nos espionando.

- Meu pai ficaria bem zangado se soubesse o que você, Oncle Léon, e você, Monsieur, disseram dele - acusei, olhando para Nicolas.

Fez-se silêncio. Vi que os dois estavam pensando no que haviam dito, tentando ver o que poderia ofender meu pai. Ficaram tão preocupados que tive de rir.

Oncle Léon me olhou sério.

- Claude, você é mesmo uma menina muito travessa...

- Dessa vez ele parecia menos severo, como se quisesse acalmar um cãozinho.

- Ah, sim. E você, Monsieur? Também acha que sou uma menina muito travessa? - perguntei para Nicolas. Era ótimo olhar para o lindo rosto dele.

Eu não sabia o que ele responderia, mas fiquei encantada ao ouvir: - Você é certamente a garota mais travessa que já vi, Mademoiselle. - Pela segunda vez, a voz dele chegou ao meio das minhas pernas, e fiquei úmida.

Oncle Léon não gostou.

- Basta, Claude, pode sair. Seu pai já está chegando.

- Não, quero antes ver o retrato de minha mãe. Onde está? - Olhei os desenhos na mesa e mexi neles. Havia várias damas, estandartes dos Lê Viste, leões e unicórnios.

- Claude, por favor...

Não dei atenção ao pedido de Oncle Léon e perguntei a Nicolas: - Qual é o retrato de minha mãe? Gostaria de vê-lo.

Sem uma palavra, ele tirou um desenho da mesa e me mostrou.

Fiquei aliviada de ver que mamãe não estava tão bem no desenho quanto eu. Nem sequer seu traje era tão bonito quanto o meu; era bem mais simples. E o desenho dela não tinha vento soprando - o estandarte não ondeava, o leão e o unicórnio estavam quietos e não em pé, ameaçadores, como no meu. Na verdade, tudo estava bem parado - mamãe só tirava um colar de um cofre que uma das damas de companhia segurava.

Não me incomodei mais por mamãe também estar nas tapeçarias, já que a comparação me favorecia.

Mas, na opinião de Oncle Léon, nenhuma das duas deveria aparecer. Eu precisava fazer alguma coisa. O quê? Embora tivesse ameaçado contar para meu pai o que Léon dissera, sabia que papai não acreditaria em mim. Era bem ruim que mamãe e eu fôssemos chamadas de "espinhos", mas tio Léon tinha razão: mamãe não conseguira ter um filho homem. Toda vez que papai olhava para nós, ele lembrava que a fortuna dele iria um dia para o meu esposo e o meu filho, que não poderiam usar o nome nem o brasão dos Lê Viste. Por isso, mostrava-se ainda mais frio conosco. E Béatrice me contou que papai não dormia mais na cama com mamãe.

Nicolas tentou salvar mamãe e eu: - Se Monseigneur Lê Viste mandar, mudo os rostos das damas. Faço alterações para o patrão, mas não para o negociador do patrão - declarou.

Oncle Léon olhou sério para ele, mas, antes que pudesse reagir, ouvimos passos no corredor.

- Saia - disse Léon baixinho para mim, porém não dava mais para fugir.

Nicolas pôs a mão na minha cabeça e gentilmente me obrigou a entrar embaixo da mesa. Por um instante meu rosto ficou perto daquele volume que ele tem no meio das pernas. Levantei os olhos e vi que Nicolas sorria para mim. Depois, me empurrou para baixo da mesa.

Dessa vez estava ainda mais frio lá, mais duro e mais escuro; ainda bem que eu não teria de agüentar por muito tempo. Os pés de papai vieram direto para a mesa e ficaram entre os de Léon e Nicolas. Olhei bem as pernas de Nicolas. Ele parecia estar numa posição diferente, sabedor de que eu estava ali, embora eu não percebesse exatamente a diferença. Era como se as pernas tivessem olhos e me observassem.

As pernas de papai eram como ele mesmo: retas e neutras como as pernas de uma cadeira.

- Vamos aos desenhos - mandou papai. Alguém moveu os desenhos sobre a mesa.

- Aqui estão, Monseigneur - disse Nicolas. - Como pode ver, podem ter essa ordem. Primeiro, a Dama põe o colar, para atrair o unicórnio. Na tapeçaria seguinte, ela toca um órgão, para chamar a atenção do unicórnio. Nessa aqui, ela dá comida ao periquito e o unicórnio se aproxima, embora esteja rampante e com a cabeça virada para o outro lado. Está quase seduzido, mas precisa de mais tentação.

Percebi a pausa que Nicolas fez antes de dizer "ela dá comida ao periquito".

Portanto, eu havia me transformado em Paladar, pensei. Pois então prove logo um pedacinho de mim, artista.

- A seguir, a Dama trança uma coroa de cravos para ser usada num casamento. O casamento dela. Como o senhor pode ver, o unicórnio agora está sentado, calmo.

Finalmente, ele põe a cabeça no colo dela e os dois se olham - explicou Nicolas, batendo com os dedos na mesa. - Na última tapeçaria, ela o domina: segura-o pelo chifre. Pode ver que os animais ao fundo estão acorrentados, passaram a ser escravos do amor.

Nicolas terminou de falar e fez-se silêncio, como se ele esperasse meu pai dizer alguma coisa. Mas nada disse. Costuma fazer isso, fica calado para que as pessoas se sintam inseguras. Dessa vez também fez efeito, pois Nicolas voltou a falar, parecendo nervoso.

- Monseigneur pode ver que o unicórnio está sempre com o leão, que representa nobreza, força e coragem, como complemento à pureza e à impetuosidade do unicórnio.

O leão é exemplo de nobre selvageria domada.

- Naturalmente, o fundo será coberto com millefleurs, Monseigneur -acrescentou Léon. - Os tapeceiros de Bruxelas que farão as florezinhas são especialistas nisso.

Nicolas só deu uma indicação.

Fez-se outro silêncio. Percebi que eu havia prendido a respiração para ouvir o que papai diria dos desenhos de mamãe e eu.

- Há poucos brasões - disse ele, afinal.

- O unicórnio e o leão estão com os brasões e os estandartes dos Lê Viste em todas as tapeçarias - observou Nicolas, parecendo aborrecido. Cutuquei a perna dele para que não falasse naquele tom com meu pai. Nicolas arrastou os pés no chão.

- Há duas tapeçarias com apenas um estandarte observou papai.

- Posso colocar escudos no leão e no unicórnio, Monseigneur. - Nicolas deve ter levado em consideração a minha cutucada, pois parecia mais calmo. Passei a mão na perna dele.

- A insígnia e o estandarte devem ter as pontas em forma de lança e não arredondadas como você fez - observou papai outra vez.

- Mas, Monseigneur, lanças são para serem usadas em batalhas - disse Nicolas como se estivesse sendo estrangulado. Ri e subi a mão para a coxa dele.

- Quero que os estandartes tenham pontas de lança repetiu papai. -Essas tapeçarias estão com mulheres e flores demais. Tem de haver lanças de batalha e mais alguma coisa que lembre guerra. O que acontece com o unicórnio depois que a Dama o seduz?

Felizmente, Nicolas não teve de responder, pois não teria conseguido falar. Eu havia colocado a mão naquele volume no meio da perna dele, duro como um galho de árvore.

Nunca tinha tocado em algum antes.

- A Dama não leva o unicórnio para o caçador matar? continuou papai, que gosta de responder às próprias perguntas. - Tem de ter mais uma tapeçaria para finalizar a história.

- Creio que não há espaço na Grande Salle para outra tapeçaria - disse Oncle Léon.

- Então substitua uma das mulheres, essa com os cravos ou a que está dando comida ao pássaro.

Tirei a mão.

- Muito boa idéia, Monseigneur - disse Oncle Léon. Soltei uma exclamação.

Felizmente, Nicolas também fez algum ruído, por isso acho que papai não me ouviu.

Então Oncle Léon mostrou por que é um ótimo negociante.

- Muito boa idéia - repetiu. - Claro que a ousadia da morte vai fazer um bom contraste com a insinuação mais sutil das lanças de batalha. Mas não precisa ser sutil demais, não?

- O que você quer dizer com sutil demais?

- Bom, por exemplo, podemos apenas dar a entender que se trata de uma caçada, ou de uma batalha, se preferir, com as lanças em ponta, que, aliás, Monseigneur, são um belo detalhe. Além dos escudos de batalha que Nicolas sugeriu e mais algum pormenor de batalha. Deixe-me ver: que tal uma tenda, dessas armadas nos campos de batalha para o Rei se instalar? Isso lembraria não só o Rei como a batalha. Mas também poderia ser sutil demais. Talvez um caçador matando o unicórnio ficasse melhor.

- Não, quero a tenda do Rei.

Fiquei de cócoras, impressionada com a argúcia de Oncle Léon. Tinha fisgado papai como se fosse um peixe sem que ele percebesse, e puxou-o para onde queria.

- A tenda seria bem grande, por isso deve estar numa das tapeçarias maiores - disse logo Léon para não deixar papai mudar de idéia. -Monseigneur prefere qual: a Dama com as jóias ou a Dama com o periquito?

Nicolas ia falar, mas papai o interrompeu: -A dama com as jóias é mais nobre do que a outra.

Antes que eu pudesse protestar alguma coisa, os pés de Nicolas procuraram os meus e deram uma pisada neles. Fiquei calada, mas ele continuou pisando.

- Certo, Nicolas, faça uma tenda nessa tapeçaria aqui disse Oncle Léon.

- Claro, Monseigneur. Gostaria de alguma coisa especial na tenda?

- Um brasão.

- Sim, nem precisava dizer, Monseigneur. Eu estava pensando num lema de batalha.

Algo que mostrasse que se trata de uma batalha por amor.

- Não entendo nada de amor. O que sugere? "Você tem jeito de entender bastante - resmungou papai.

Eu tinha uma idéia e bati na perna de Nicolas. Um instante depois, um dos desenhos caiu no chão. - Oh, pardon, Monseigneur! Sou um pouco desajeitado... - Nicolas abaixou-se para pegar o desenho e eu cochichei no ouvido dele: "C'est mon seul désir", e dei uma mordida na orelha dele.

Nicolas levantou-se.

- Sua orelha está sangrando? - perguntou papai.

- Pardon, Monseigneur. Bati na perna da mesa. Mas tenho uma sugestão: que tal "À tnon seul désir"? Quer dizer...

- Serve - papai cortou. Eu conhecia aquele tom de voz, mostrava que a reunião havia se prolongado demais. Mostre as alterações para Léon e traga os desenhos definitivos em 2 de maio, o dia seguinte à festa de limpeza das chaminés. Não poderá ser depois, pois iremos para o Château d'Arcy no dia da Ascensão.

- Pois não, Monseigneur.

As pernas de papai se afastaram da mesa.

- Léon, venha comigo, precisamos conversar. Pode me acompanhar até a Conciergerie.

A túnica de Léon moveu-se, depois parou.

- Talvez seja melhor ficarmos aqui, Monseigneur. E mais confortável para falarmos de negócios. Nicolas já está saindo, não é, Nicolas?

- Estou saindo, vou só juntar os desenhos, Monseigneur.

- Não, estou com pressa, venha. - E papai saiu do aposento.

Oncle Léon continuou indeciso. Não queria me deixar a sós com Nicolas.

- Vai - sussurrei. E ele foi.

Não saí debaixo da mesa; continuei ajoelhada lá. Um instante depois, Nicolas apareceu. Olhamo-nos.

- Bonjour, Mademoiselle - disse ele.

Sorri. Ele não tinha nada do homem que meus pais queriam para mim. Gostei.

- Vai me dar um beijo, então?

Antes que eu pudesse pensar qualquer coisa, ele me deitou no chão e ficou por cima de mim. Depois, enfiou a língua na minha boca e ficou apalpando meus seios. Que coisa estranha! Eu havia sonhado com aquele momento desde que o conhecera, mas na hora em que fiquei com um corpo em cima de mim, uma coisa entrando na minha barriga, uma língua molhada no meu ouvido, achei estranho como era diferente do que eu havia imaginado.

Uma parte de mim gostou - queria que aquela coisa entrasse ainda mais em mim e não com tantas saias por cima. Eu queria passar as mãos no corpo todo dele, apertar

seu traseiro que parecia uma cereja e apalpar suas costas largas. Minha boca entrou na dele como se estivesse mordendo um figo.