A Dama e o Unicórnio

Tracy Chevalier · Capítulo 11 de 18

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A Dama e o Unicórnio

Claude Lê Viste

- Preciso de sua ajuda, Léon - avisei, dando um gole em meu vinho. -Tem falado com meu esposo?

- A respeito das tapeçarias? Sim, falei esta manhã. Estava acabando de combinar como ir a Bruxelas quando Madame chegou.

- Quero lhe pedir uma coisa. Poderá ser bom para você também. Mande aquele Nicolas dês Innocents para Bruxelas em seu lugar.

Léon parou a taça a meio caminho da boca.

- É um pedido inesperado. Posso saber por quê, Madame Geneviève?

Eu queria contar a alguém. Léon é um homem discreto - eu poderia falar com ele sem que o assunto virasse intriga no dia seguinte. Então contei-lhe tudo que evitara dizer a Jean - como Claude e Nicolas haviam se encontrado pela primeira vez no aposento de Jean, tudo que eu fizera para afastá-los desde então, e o episódio na rue dês Cordeliers.

- Levei-a para Chelles, onde ficará até a data das núpcias - terminei. - Só quem sabe disso é você, Jean e eu. Por isso adiantamos o enlace para pouco antes da Quaresma, em vez de após a Páscoa. Mas não confio em Nicolas.

Quero que ele passe um tempo fora de Paris até que eu tenha certeza de que não descobrirá onde Claude está. Você tem negócios com ele, diga para ir a Bruxelas em seu lugar.

Léon Lê Vieux ouviu impassível. Quando terminei de falar, ele balançou a cabeça.

- Eu não devia ter deixado os dois sozinhos - resmungou.

- Quem?

- Nada, Madame Geneviève. Alors, vou fazer como deseja. Para mim será ótimo, pois não estava nada disposto a ir a Bruxelas agora. Essas tapeçarias parecem estar causando problemas, n'est-ce pás? - resmungou.

Suspirei e olhei para a lareira. - Sim. Estão dando mais problemas do que o preço de qualquer outra tapeçaria!

 

CLAUDE LÊ VISTE

No começo, não saí de minha cela, não comi, nem falei com ninguém, a não ser com Béatrice - e bem pouco, pois havia olhado o conteúdo das minhas arcas. As roupas que ela colocara lá eram os trajes mais simples -nada de seda, brocado ou veludo. Não havia jóias para meu cabelo e pescoço, nem toucas, mas simples lenços, nada para tingir meus lábios, e apenas um pente de madeira. Acusei-a de saber para onde estávamos indo e não me ter contado, mas ela negou que soubesse.

Não acredito nela.

Foi fácil não comer, pois o que me deram não serve nem para alimentar porcos. A cela, então, é tão pequena e despojada que, apenas um dia passado, já estou louca para sair daqui. Há espaço só para um catre com colchão de palha e um penico; nas paredes de pedra, apenas um pequeno crucifixo de madeira. Béatrice não conseguiu colocar seu catre na minha cela - dormiu do lado de fora, colada na minha porta.

Eu nunca havia dormido num colchão de palha. É espinhento e faz barulho quando eu me mexo; sinto falta das macias penas de ganso que tenho em casa. Papai ficaria muito zangado se visse a filha dele dormindo sobre palha.

Béatrice trouxe papel, uma pena de ganso e tinta de escrever. Pensei em mandar um bilhete para papai vir me buscar.

Afinal, ele não disse nada a respeito de conventos quando conversou comigo; só me lembrou que eu levava o nome dele e que devia obedecer mamãe em tudo. Pode ser verdade, mas não acho que ele estava querendo dizer que eu ia ficar trancafiada num convento, dormindo sobre palha e quebrando os dentes num pão duro como pedra.

Nunca consegui ficar à vontade para falar com papai. Queria dizer a ele que não pode confiar no mordomo que tem, que eu o vi batendo em Nicolas, na rue dês Cordeliers.

Claro que eu não podia falar em Nicolas; portanto, nada disse, só fiquei ouvindo ele contar do homem com quem vou me casar um dia e da importância de eu continuar virgem e piedosa para honrar o nome da família. Chorei de frustração. Depois disso, não chorei mais, porém continuo zangada com todos: papai, mamãe, Béatrice, e até Nicolas, por ter ajudado a me enfiar nesse convento, mesmo que nem saiba.

Na quarta manhã em que acordei, estava tão entediada com a minha cela que rompi o silêncio com Béatrice e implorei para que procurasse um mensageiro. Ela voltou mais tarde, dizendo que a abadessa informara que eu não podia enviar nem receber recados. O que quer dizer, então, que estou realmente encarcerada.

Mandei Béatrice sair da cela e depois também saí com o bilhete que havia escrito para meu pai. Amarrei uma pedra nele e tentei jogar por cima do muro, esperando que algum nobre do outro lado o achasse, sentisse pena de mim e desse um jeito de entregá-lo a papai. Tentei jogar mais duas vezes, porém o papel soltava da pedra e, além disso, eu estava me sentindo muito fraca para conseguir jogá-lo por cima daquele muro alto.

Então chorei lágrimas amargas. Mas não voltei para a cela. Fazia sol e tinha um jardim no meio do pátio, que era bem melhor do que minha pequena cela. Sentei num dos bancos de pedra em volta do pátio, sem me importar que o sol me queimasse. Algumas freiras estavam trabalhando no jardim e me olharam, curiosas. Não lhes dei atenção. Na minha frente, um canteiro de rosas que começavam a florir, e a roseira mais perto de mim estava carregada de botões brancos. Olhei-os, peguei um espinho e enfiei-o no dedo. Pingou uma gota de sangue e deixei-a escorrer pela mão.

Ouvi, então, algo que jamais imaginei ouvir num convento. Em algum lugar lá dentro, uma criança riu. Um instante depois, ouvi pequenos passos vindo da porta mais próxima e uma menininha surgiu na soleira. Usava um traje cinza, uma touca branca e parecia Petite Geneviève quando menorzinha. Era quase um bebê e dava passos incertos, como se estivesse prestes a cair e quebrar a cabeça. Tinha uma carinha engraçada, bem decidida e séria, como se caminhar fosse um jogo de xadrez que ela precisasse vencer. Eu não era capaz de dizer se seria bonita quando crescesse - o rosto parecia o de uma velha, o que nem sempre é bonito num bebê. Era bochechuda e tinha a testa pequena sobre penetrantes olhos castanhos - que poderiam ser mais claros. Mas os cabelos eram lindos, ruivos, caindo em grandes cachos.

- Venha aqui, mapetite, sente-se ao meu lado - chamei, limpando no vestido o sangue de minha mão.

Atrás da menina apareceu uma freira com seu longo hábito branco. Aqui em Chelles elas usam branco; pelo menos não fico rodeada de freiras de preto - cor que não combina com o rosto feminino.

- Achei você, sua malcriada! Tiens, venha aqui - ralhou a freira, e o efeito foi igual ao que se estivesse falando com uma cabrita, pois a menina nem se importou.

Passou pela Porta, sem firmeza, tropeçou no degrau e caiu esparramada no pátio.

-Ai! - gritei, e corri para acudir. Nem precisava: ela se levantou como se nada tivesse acontecido, e correu.

A freira não foi atrás; ficou me olhando de cima a baixo.

- Quer dizer que você saiu da cela - concluiu, azeda.

- Não vou ficar muito tempo aqui, voltarei logo para casa - respondi, rápido.

A freira ficou calada, olhando-me. Parecia muito interessada na minha roupa sem graça. Mas não tão sem graça, comparada com a dela, que era de lã branca áspera e caía no corpo como um saco. Meu vestido tinha sido marrom, mas estava desbotado; entretanto, a lã era ótima e o corpete tinha pequenos bordados brancos e amarelos.

Ela olhava para eles, quando eu disse: - Foi bordado por uma de nossas criadas, que é - aliás, foi - muito boa bordadeira.

A freira fez uma cara esquisita e olhou para a menina, que já havia percorrido dois lados do pátio e estava chegando ao terceiro.

- Attention, monpetit chou! Olha onde pisa! - disse a freira.

O aviso pareceu ter o efeito de provocar o que pretendia evitar. A menina caiu de novo, e desta vez ficou no chão e começou a chorar.

A freira correu pelo pátio, com a cauda do hábito se arrastando atrás. Conseguiu pegar a menina e zangou-se. Era evidente que não estava acostumada com crianças.

Corri para onde estavam, ajoelhei-me no chão e abracei a menina, colocando-a no colo como fiz muitas vezes com Petite Geneviève.

- Pronto - falei, fazendo carinho nos braços e nos joelhos dela, e limpando sua roupinha. - Pronto, deve ter se machucado... Onde foi? Na mão? No joelho?

A menina continuou chorando; abracei-a firme e fiquei ninando-a até se acalmar.

A freira continuava ralhando, embora a menina, claro, não conseguisse entender nada.

- Você é uma boba, não devia correr assim! Não teria caído se me obedecesse.

Agora vai ficar ajoelhada de castigo, durante a Sexta.

Fiquei irritada por alguém querer que uma menina tão pequena rezasse, pedindo perdão. Ela mal conseguia dizer "mamãe", quanto mais "Notre pére, qui est au ciei".

Só levamos Petite Geneviève à Missa depois que ela fez três anos, e mesmo assim minha irmã era uma coisinha barulhenta, não ficava quieta um instante. Aquela menina não parecia ter mais de um ano. Era como uma boneca no meu colo.

- Está arrependida agora, Claude? Está? Olhei para a freira.

- A senhora deve me chamar de Mademoiselle. E não tenho do que me arrepender, não fiz nada de errado, seja lá o que mamãe lhe tenha contado! É uma ofensa a senhora me dizer isso; vou falar com a Abadessa!

A menina começou a chorar de novo ao ouvir minha voz zangada.

- Psiu, psiu - sussurrei, virando-me de costas para a freira. - Psiu, psiu. -E comecei a cantar uma música que MarieCéleste me havia ensinado: Sou tão alegre, tão meiga, tão gentil.

Sou uma jovem criada que ainda não fez quinze anos.

Meus peitinhos estão brotando como devem.

Eu devia estar aprendendo as coisas do amor e do coração, mas estou na prisão. Que Deus castigue quem me pôs aqui!

A freira tentou dizer alguma coisa, mas cantei mais alto, ninando o bebê: Foi um erro, um mal e um pecado colocarem essa criadinha num convento.

Foi mesmo, posso jurar. No convento eu vivo cheia de tristeza, ó Deus, pois sou tão jovem. Sinto os primeiros desejos por baixo do meu cinto. Maldito seja quem me obrigou a ser freira!

A menina parou de chorar e dava uns resmungos como se também tentasse cantar, mas não soubesse pronunciar as palavras. Foi muito bom eu niná-la e cantar enquanto falava mal de tudo aquilo ali para a freira ouvir. Bem que a música podia ter sido feita por mim.

Ouvi passos às minhas costas e sabia que era Béatrice, minha carcereira. Ela era tão má quanto as freiras.

- Não cante isso! - falou, baixo. Não dei importância.

- Quer correr de novo? - perguntei à menina. Vamos correr? Vamos correr pelo pátio, vem! - Coloquei-a no chão, segurei sua mão e comecei a puxá-la de forma que ficou meio que correndo e meio que dependurada na minha mão. Seus gritinhos e os meus ecoaram pelas arcadas do pátio. O convento não ouvia tanto barulho desde que um leitão fugira do chiqueiro ou que formigas subiram pelas pernas de uma freira quando ela fazia jardinagem.

Surgiram freiras nas portas e janelas para nos olhar. Até a Abadessa Catherine de Lignières apareceu e ficou olhando, os braços cruzados. Segurei a menina no colo e corri uma, duas, cinco vezes em volta do pátio, gritando sem que ninguém nos impedisse. Cada vez que passávamos por Béatrice, ela parecia mais constrangida.

Ninguém nos fez parar - só um sino. Quando ele tocou, as freiras sumiram.

- Hora da Sexta - avisou a freira ao lado de Béatrice, e saiu.

Béatrice procurou pela freira, depois por mim. Eu continuava correndo mais rápido ainda, com a menina rindo no meu colo. Depois que dei a sexta volta no pátio, Béatrice também havia sumido e ficamos só nós duas. Dei mais uns passos e parei, pois não havia mais por que correr. Sentei num banco e coloquei a menina ao lado.

Ela imediatamente deitou a cabeça no meu colo. Estava com o rosto corado e, em seguida, dormiu. Engraçado como um bebê dorme rápido quando está cansado.

- Era por isso que estava chorando, chérie - falei, baixinho, segurando seus cachos. - Você precisa dormir em vez de rezar. Essas freiras idiotas não sabem nada do que as menininhas precisam.

Fiquei satisfeita, sentada com ela no colo, tomando sol, sozinha e olhando o jardim. Mas dali a pouco minhas costas começaram a doer de sentar ereta, sem ter onde encostar.

Estava esquentando, e como eu não tinha chapéu, fiquei preocupada que o sol criasse sardas em meu rosto. Não queria ficar parecendo uma mulher do povo que vive semeando no campo. Desejei que aparecesse alguém para eu entregar a menina, mas não apareceu - continuavam rezando. Não há nada de errado em rezar, mas não sei para que elas precisam rezar oito vezes ao dia!

Eu não sabia o que fazer com aquela coisinha, então peguei-a no colo e levei-a para a minha cela. Ela continuou dormindo quando a coloquei no catre. Procurei na minha bolsa algum bordado para fazer, saí da cela e sentei num banco na sombra.

Não gosto muito de bordar, só que não tinha outra coisa a fazer.

Não há cavalos para montar, nem danças, nem música; não podia jogar gamão com Jeanne, nem ter aula de escrita ou soltar falcões com mamãe no campo atrás de Saint-Germaindes-Prés, nem visitar minha avó em Nanterre. Também não tinha feiras ou mercados para ir, nem bufões oujongleurs para assistir. Não há banquetes - enfait, não tem nem comida que eu consiga comer. No dia em que sair daqui, estarei um feixe de ossos - seja lá quando for esse dia. Béatrice não vai me dizer.

Não há homens para olhar, nem sequer um velho jardineiro curvado, empurrando um carrinho de mão. Nem um mordomo suspeito. Nunca pensei que gostaria de ver a cara mesquinha do mordomo de meu pai, mas, se pudesse sair do convento naquela hora, sorriria e estenderia a mão para ele beijar, apesar de ter surrado Nicolas.

Agora só tenho mulheres para olhar, e mulheres bem sem graça, observando-me com a cara numa moldura oval e branca, sem cabelos ou jóias para suavizá-las. Elas parecem rudes e vermelhas, com bochechas, queixos e narizes saltados como um monte de nabos, olhos pequenos como passas. É verdade que freiras não precisam ser bonitas.

Béatrice um dia me contou que mamãe gostaria de ter entrado para Chelles. Nunca havia pensado muito nisso até vir para cá. Agora não consigo imaginar o rosto delicado de mamãe metido num grosseiro hábito de freira, nem vê-la cavando com uma enxada, cercada de alhos-porós e repolhos, nem correndo para rezar oito vezes ao dia, nem vivendo numa cela simples e dormindo num catre.

Mamãe acha que a vida no convento é parecida com as visitas que ela faz aqui, quando a Abadessa a adula, preparando deliciosos pratos com os produtos que o convento só planta para vender no mercado. Ela deve ficar num lindo aposento especial, cheio de almofadas, tapeçarias e cruzes douradas.

Se mamãe entrasse para o convento e se tornasse esposa de Cristo, o convento receberia um enorme dote. Por isso a Abadessa é tão simpática com ela e com outras mulheres ricas que vêm aqui visitar.

No convento, o assento dos bancos não tem almofadas nem tapeçarias para aquecer as paredes. Tenho de me contentar com as cruzes de madeira, a lã áspera e os sapatos simples; sopa sem temperos e pão feito com farinha escura.

Tudo isso eu havia percebido em apenas quatro dias no convento.

Olhei o que estava bordando e não gostei. Era para ser um falcão para uma almofada e estava parecendo uma cobra de asas. Além do mais, acabara de dar um ponto na cor errada, vermelho onde devia ser marrom, e a linha estava toda enroscada.

Suspirei.

Então, ouvi passos e alguém disse: "Ora!". Olhei. MarieCéleste estava do outro lado do pátio, parecendo confusa.

- MarieCéleste, que bom que você veio, ajude-me a desenroscar a linha -falei.

Era como se nós duas estivéssemos em casa, na rue du Four, bordando no pátio, enquanto Jeanne e Petite Geneviève brincavam em volta. Só que não estávamos. Levantei-me: - O que você está fazendo aqui? MarieCéleste fez uma reverência e começou a chorar.

- Venha aqui, MarieCéleste.

Ela estava tão acostumada a me obedecer que não hesitou; só ficou pensando que caminho fazer no pátio para chegar até onde eu estava. Chegou, fez outra reverência, enxugando os olhos na manga do vestido.

- Veio me buscar? - perguntei, ansiosa, pois não conseguia imaginar outro motivo para ela estar ali.

MarieCéleste pareceu ainda mais confusa: - Buscar Mademoiselle? Nem sabia que estava aqui; vim ver minha filha!

- Não foi meu pai que mandou você aqui? Ou mamãe? Ela balançou negativamente a cabeça. - Não trabalho mais na sua casa, Mademoiselle. Sabe disso e também sabe por quê. - Ela franziu a testa de um jeito estranhamente familiar, igual a sentir de repente na boca um gosto de bolo de amêndoas que já havia experimentado.

- Por que veio, se não foi por minha causa? - Eu só conseguia achar que ela era a solução para eu sair daquele lugar.

MarieCéleste olhou em volta. - Eu soube que minha filha está aqui. Sei que não devia, e ela nem sabe que sou sua mãe, mas tive de vir.

Olhei para ela, surpresa. - Então a menina é sua filha?

MarieCéleste parecia tão surpresa quanto eu. - Não sabia? Não lhe contaram?

Chama-se Claude, como você.

- Elas aqui não contam nada para mim. Alors, ela está dormindo ali, na quarta porta - falei, mostrando o corredor de minha cela.

MarieCéleste agradeceu com a cabeça. - vou só dar uma olhadinha nela, Mademoiselle. Pardon. - Atravessou o pátio e entrou no corredor.

Enquanto eu esperava, lembrei do dia em que ela me dissera que daria meu nome ao bebê. E lembrei-me de outra coisa: prometera falar para mamãe que MarieCéleste tinha ido cuidar da mãe e depois voltaria para a nossa casa. Só que esqueci de falar. Mamãe tinha ficado tão dura comigo desde aquela época que eu falava com ela o menos possível. E assim MarieCéleste não trabalhou mais para nós. Não costumo me sentir culpada, mas, naquela hora, fiquei bastante.

Quando ela voltou, abri espaço no banco.

- Sente-se aqui comigo - convidei, batendo no lugar a meu lado.

Ela parecia pouco à vontade.

- Tenho de voltar, Mademoiselle. Minha mãe não sabe que vim aqui, está me esperando.

- Só um pouquinho, você pode me ajudar no bordado. Regarde, estou com um vestido que você bordou. - Passei a mão no meu corpete.

Ela se sentou pouco à vontade. Devia estar zangada comigo. Eu teria de fazer as coisas direito se quisesse a ajuda dela.

- Como conhece esse lugar? - perguntei, fazendo de conta que éramos duas amigas conversando. Tínhamos sido, antes.

- Venho aqui desde pequena. Moramos perto e às vezes mamãe trabalhava aqui. Não como freira, claro, ajudava na horta e na cozinha. As freiras rezam tanto que precisam de ajuda nas tarefas domésticas.

Eu então entendi. - E mamãe conseguiu você aqui. MarieCéleste concordou.

- Ela queria uma nova criada e pediu às freiras. Suamãe vinha aqui umas três ou quatro vezes por ano. Queria entrar para o convento, só que não podia, claro.

- E você deu meu nome à sua filha.

- Sim. - MarieCéleste parecia se arrepender do nome e devia mesmo.

- O pai a conhece?

- Não! - Ela balançou a cabeça com força, como se espantasse uma mosca. - Ele não quer saber de mim nem da criança. Estivemos juntos uma única vez; ele não quis mais nada. Dois anos depois, teve o atrevimento de vir me procurar. Queria ficar comigo de novo, para depois não se importar se eu tivesse outro filho. bom, mostrei

para ele como são as coisas, não é? - disse ela, mostrando a mão fechada em punho. - Ele merecia tudo que levou. Se você não tivesse enfiado a cabeça na janela...

- Ela parou de falar, temendo dizer o que poderia ter acontecido, de repente.

Minha irmã Jeanne tem um brinquedo que gosta muito - um bilboquê, que consiste numa taça de madeira com uma bola presa na ponta de um barbante. Ela joga a bola para cima e tenta encaixá-la na taça. Naquele momento,

foi como se eu estivesse tentando acertar a bola na taça e, de repente, ouvisse o som da madeira batendo na madeira.

Talvez o convento já estivesse fazendo efeito em mim. Se estivesse em qualquer outro lugar e soubesse de uma coisa como aquela que tinha acabado de ouvir, eu teria gritado. Naquele momento, entretanto, sentada naquele tranqüilo jardim, não gritei, não arranquei os olhos de MarieCéleste, nem chorei. Mais tarde eu choraria.

Na hora, só perguntei: - Nicolas dês Innocents é o pai da Petite Claude? MarieCéleste concordou.

- Só nos encontramos uma vez, quando ele veio falar de um quadro com seu pai. Só nessa vez.

- Então, por que você estava com ele no pátio daquela casa, no outro dia?

Mandando baterem nele? Foi o que me pareceu.

Ela me olhou amedrontada e voltou a chorar. Rangi os dentes. - Pare. Pare com esse choro! Ela engoliu em seco, enxugou os olhos e passou o nariz na manga do vestido.

Realmente, MarieCéleste é bem idiota. Se estivéssemos em Paris, mandava-a direto para o tronco, para ficar de castigo, com os braços e as pernas presos durante horas. Ou a mandava para alguma coisa pior, por ter atacado um homem daquele jeito. Mas eu estava presa num convento, não podia fazer nada para castigá-la.

Ela também deve ter pensado isso, pois parou de chorar, olhou-me de soslaio e disse: - O que está fazendo aqui, Mademoiselle? Ainda não me disse.

Claro que eu não podia dizer nada sobre Nicolas. MarieCéleste não sabia o que eu sentia por ele nem o que tinha feito com ele... ou tentado fazer o que ela já havia feito. Eu estava com ódio dela, mas não podia deixar que percebesse. Tinha de fingir que queria estar no convento. Peguei meu bordado, assim podia ficar olhando para ele.

- Mamãe e papai acharam que seria bom eu passar os últimos meses antes de meu casamento aqui, para conhecer melhor a vontade da Igreja. Quando uma mulher se casa, perde a pureza do corpo de donzela. Mas é importante que sua alma permaneça pura, que ela não seja atraída pela luxúria, esquecendo-se de Nossa Senhora e do sacrifício feito por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Eu parecia mamãe falando, só que não era tão convincente. Vi que não havia convencido MarieCéleste, pois ela revirou os olhos. E verdade que ela havia perdido a virgindade há muito tempo e não dava tanto valor a isso quanto a minha família.

- Ele perguntou por você -- anunciou MarieCéleste de repente.

- Ele? Quem? - Meu coração disparou. Enfiei a agulha no bordado. MarieCéleste estranhou a incrível confusão que eu estava fazendo com os fios. Estendeu a mão e entreguei o bordado para ela.

- Aquele artista bastardo - disse ela, puxando os fios para desembaraçá-los. - Ele queria saber como você era e quando iria visitar as Belleville.

Quer dizer que Nicolas tinha mesmo ido à rue dês Cordeliers para me ver! Eu sabia que ele não podia ter ido lá por causa de MarieCéleste.

Olhei-a, a cabeça inclinada sobre o meu bordado, corrigindo todos os meus erros com destreza. Como eu poderia mandar um recado por ela sem que desconfiasse? Ela era boba, só que sempre adivinhava quando eu estava mentindo. Ouvimos uma tosse e uma vozinha chamando na minha cela. MarieCéleste olhou para mim, ansiosa.

- Vá lá, Mademoiselle - pediu.

- Você é a mãe!

- Ela não sabe. Fui lá olhar, porém não falo com ela, nem a seguro no colo. Se faço isso, depois sofro demais.

A menina tossiu outra vez e MarieCéleste me olhou como se alguém lhe tivesse pisado o pé. Por um instante, senti pena dela.

Fui até a porta da minha cela e olhei. Dormindo, Petite Claude mexia a cabeça no travesseiro. Franziu a pequena testa, depois esqueceu e relaxou o rosto num sorriso.

Naquele momento, depois de saber a história, achei incrível não ter visto Nicolas nela: os olhos apertados, o cabelo ruivo, o queixo bem desenhado. Quando sorria, parecia-se com ele, e, quando ficava séria, com a mãe.

Voltei e disse: - Ela está ótima. Estava vendo demônios no sono, mas agora eles foram embora.

Não me sentei no banco, fiquei em pé, esfregando os sapatos nos seixos do pátio.

MarieCéleste concordou. Ela bordava rápido e meu falcão já estava mais parecido com uma ave do que com uma cobra.

Depois de ver Petite Claude, tive uma idéia.

- Nicolas ajudou você com a criança? - perguntei. MarieCéleste ficou zangada.

- Jogou umas moedas em mim. Mas o dinheiro não deu para nada.

Eu não queria saber o que ele tinha feito ou não com a filha - para mim, MarieCéleste é que tinha se metido em encrenca. Só que não falei isso.

- Ele devia ter-lhe dado mais do que umas moedas considerei, andando de um lado para outro na frente do banco onde ela estava. - Você sabe que ele desenhou tapeçarias para meu pai que vão lhe trazer dinheiro e fama. Devia dar um pouco de dinheiro para a pequena Claude.

Deixei-a pensando nisso enquanto dava uma volta pelo canteiro de rosas. O lugar onde espetei um espinho no polegar dava uma dorzinha agradável. Voltei para o banco e sugeri: - Posso ajudar você a receber dinheiro dele; faça com que ele pague, e assim Petite Claude poderá sair daqui e ficar com você e sua mãe.

- Como? - perguntou ela, rápido. Espantei uma mosca da manga do vestido.

- Posso dizer que meu pai não pagará as tapeçarias se ele não der um dinheiro para a filha.

- Pode mesmo fazer isso, Mademoiselle?

- Vou escrever um bilhete já e você o entregará a ele.

- Eu? Por que não a senhora ou uma de suas damas de companhia? -perguntou ela, parecendo não entender. - Deve ter uma dama sua aqui, Béatrice talvez. Sua mãe sempre Página 80

quis que ela ficasse com Mademoiselle, não? Ela vai ficar surpresa de vir morar aqui outra vez.

- Outra vez? Ela já morou aqui? MarieCéleste deu de ombros.

- Bien sür. Cresceu aqui, como eu.

Eu não tinha pensado nisso, mas reparei que Béatrice parecia conhecer o convento e seu funcionamento, pois sabia onde ficavam as coisas e conhecia até algumas freiras.

- Béatrice poderá levar o bilhete, Mademoiselle - sugeriu MarieCéleste.

Esqueci que MarieCéleste não sabia que eu estava presa lá; achava que Béatrice e eu podíamos entrar e sair quando quiséssemos. E não podia saber. Se soubesse, talvez não me ajudasse a falar com Nicolas.

- Nem eu nem Béatrice podemos sair daqui. Faz parte da purificação da alma antes do meu enlace. Não posso ver ninguém, principalmente homens- falei.

- Eu também não posso levar o bilhete, depois do que aconteceu. Ele poderia me bater ou fazer algo pior.

Bem que ela merece, pensei.

- Então deixe-o no quarto dele, quando ele não estiver lá - sugeri.

Como ela parecia continuar na dúvida, perguntei: - Quer que eu conte a papai que você mandou o mordomo dele espancar o artista que ele tanto admira?

MarieCéleste sabia que estava numa enrascada. Fez cara de quem ia chorar outra vez.

- Então me dê o bilhete - murmurou.

- Espere aqui.

Corri para a minha cela antes que ela pudesse mudar de idéia. Procurei papel na minha bolsa, ajoelhei-me no chão e escrevi rápido um bilhete, contando para Nicolas onde eu estava e implorando que me tirasse dali. Não havia lacre para fechar o bilhete, mas não tinha importância, pois MarieCéleste certamente não sabia ler nem devia conhecer alguém que soubesse.

Esqueci de fazer tudo em silêncio, e, quando estava terminando o bilhete, Petite Claude sentou-se no catre e começou a chorar, esfregando os olhos. Os cachos castanhos caíam em volta do rosto. Estava tão parecida com MarieCéleste que tive vontade de rir.

- Venha, chêrie, venha ver a bobinha da sua mãe - falei baixo, pegando-a no colo.

Saímos da cela quando as freiras voltavam das preces da Sexta e MarieCéleste conversava com Béatrice. Ficavam engraçadas, uma ao lado da outra: uma, gigante; a outra, uma boneca. Era difícil imaginá-las como moças. Ao me verem, as duas se separaram e MarieCéleste nem sequer olhou para Petite Claude.

- Segure-a um instante, vou levar MarieCéleste ao portão - falei, entregando a menina para Béatrice, que estava muito surpresa.

Minha dama virou-se para mim com aqueles olhinhos de cachorro.

- Sabe que as freiras não vão deixá-la sair.

Fiz uma careta para ela e dei o braço a MarieCéleste. Quando tive certeza de que Béatrice não ia ver, enfiei o bilhete na mão dela.

- Sabe onde ele mora? - cochichei. MarieCéleste negou com a cabeça.

- O mordomo de papai sabe, mandou mensageiros lá para dar-lhe recados. Pergunte a ele; se não der o endereço, mandarei castigá-lo.

MarieCéleste concordou e soltou meu braço. Parecia cansada. A idéia de dividir um mesmo homem com ela não me agradava. Eu não entendia como Nicolas podia tê-la desejado, principalmente se pudesse vê-la naquela hora, com aquele nariz vermelho, aqueles olhinhos e aquela cara brava. Eu não entendia.

No portão do convento, uma freira entregou a ela uma cesta de ovos, pão e lentilhas - a cesta da caridade que davam aos pobres. MarieCéleste foi embora sem olhar para mim nem para a filha.

Fui falar com Béatrice, que ainda carregava no colo a agitada Petite Claude, e falei: - Você e MarieCéleste foram criadas aqui. Béatrice pareceu assustada, depois concordou.

- Meu pai morreu quando eu era pequena, e minha mãe, então, entrou para o convento.

Petite Claude esticou o bracinho e pegou uma mecha de cabelo de Béatrice, que gritou. A menina e eu achamos muita graça.

- Está contente de voltar para cá? - perguntei. Fiquei surpresa quando ela me olhou triste e disse: - O dia mais feliz da minha vida foi quando sua mãe me escolheu para ser dama de companhia. Para mim, está sendo horrível ter de ficar aqui outra vez.

Coloquei Petite Claude no chão, para que andasse pelo jardim. - Então me ajude a fugir daqui - disse.

Béatrice balançou a cabeça.

- É melhor ficar, Mademoiselle. Sabe disso. Por que estragar a sua vida? Vai se casar com um nobre e ter uma vida maravilhosa. Por que querer outra coisa? Não existe alegria maior para uma mulher do que se casar, n'est-cepás? De qualquer mulher.

Peguei o bordado que MarieCéleste deixara dobrado sobre o banco, com a agulha enfiada nele. Tirei a agulha e espetei meu dedo, só para sentir o choque da dor.

- Ai, olha o que fiz - falei. Depois, para atormentar Béatrice por ser carcereira em vez de dama de companhia, cantei a música que a deixou constrangida. Certamente ela havia cantado no convento, quando era menina: Eu devia estar aprendendo As coisas do amor e do coração, Mas estou na prisão.

Que Deus castigue Quem me pôs aqui!