A Dama e o Unicórnio
Geneviève de Nanterre
- Como? Onde?
Léon sorriu. - Não ao Sul, mas ao Norte. Para ver uma relíquia em Bruxelas.
GENEVIÈVE DE NANTERRE
Claude não olhou Para mim enquanto caminhávamos a pé para a rue du Four. Ela ia tão rápido que quase atropelou um rapaz que varria o estrume e o lixo da rua. Beatnce corria atrás. É
menor do que Claude, que puxou ao pai, na altura. Se fosse uma outra situação, eu acharia engraçado ver Beatnce trotando atrás da patroa como um cavalinho. Mas hoje não achei graça nenhuma.
Desisti de acompanhar minha filha e fui andando mais devagar com as minhas damas de companhia.
Daí, a pouco Claude e Beatnce estavam longe, dando trabalho ao cavalariço que nos acompanhara na ida e na volta da rue dês Cordehers. Ele ia até elas e voltava para nós, não ousando pedir para Claude andar mais devagar, nem para eu andar mais depressa. Falou com Béatrice, mas não adiantou, e quando chegamos à Porte St Germain, as duas estavam fora do alcance de nossas vistas.
- Deixe-as. De qualquer jeito, elas estão perto de casa falei para o cavalariço, quando ele voltou para o nosso lado As damas não paravam de falar, e devem ter estranhado essa minha ordem, pois no último ano eu mativera Claude sob vigilância severa. E, naquela hora, deixava-a sumir exatamente quando o homem que eu não queria que ela encontrasse aparecera na casa onde fazíamos uma visita. Como Claude conseguira aquele encontro debaixo dos nossos narizes? Eu mal conseguia acreditar, embora tivesse reconhecido Nicolas dês Innocents no mesmo instante em que o vira estirado no chão, com o rosto machucado e ensangüentado. Levei um susto e tive de me controlar para Claude não perceber. Ela também não se mexeu, como se quisesse esconder o que sentia. Ficamos as duas lado a lado, petrificadas, olhando para ele. Só Béatrice ficou zoando como uma abelha em volta das flores.
Foi um alívio mandar que descesse para acudi-lo.
Estou cansada de me preocupar com Claude. Não agüento mais pensar no que pode acontecer, embora ela mesma não se importe. Chegou uma hora em que tive vontade de jogá-la nos braços do pintor e nunca mais pensar nesse problema. Claro que eu não poderia fazer uma coisa dessas, mas deixei que ela e Béatrice sumissem na nossa frente na rua, para ver que atitude ela tomaria por mim.
Ao chegarmos em casa, o mordomo avisou que Claude tinha ido para seu aposento.
Subi para o meu e mandei chamar Béatrice, enquanto uma das minhas damas ficava no lugar dela ao lado de Claude.
Béatrice entrou, caiu de joelhos ao lado da cadeira onde eu estava sentada e começou a falar antes de eu pronunciar qualquer palavra.
- Madame, ela diz que não sabia que Nicolas dês Innocents estaria na rue dês Cordeliers. Ficou tão surpresa quanto nós ao vê-lo, ainda por cima do jeito em que o pintor se encontrava. Claude jura por Nossa Senhora que não teve qualquer contato com ele.
- E você acredita nela?
- Ela não pode ter tido qualquer contato, senão eu saberia. Fiquei ao lado dela todos esses meses.
- À noite também? Você deve dormir...
- Nunca durmo antes dela. Eu me belisco para manter-me acordada. -Os olhos de Béatrice estavam arregalados como eu nunca tinha visto. - E quando ela dorme, amarro uma corda de seda no calcanhar dela, para que não se levante sem eu perceber.
- Claude sabe desatar nós.
Eu estava me divertindo com o nervosismo de Béatrice. Era evidente que temia perder sua posição.
- Madame, ela não viu Nicolas. Juro para a senhora. Béatrice enfiou a mão na manga do vestido e tirou um papel dobrado. O papel tinha respingos de sangue, bem como a manga e o corpete dela.
- Olhe, talvez esse papel nos mostre como isso aconteceu. Nicolas me deu para entregar a ela.
Peguei o papel e o abri com cuidado. O sangue já estava seco.
MonAmour, Venha me ver: quarto em cima, Lê Coq d'Or, depois da rue St Denis. Qualquer noite, o mais rápido. Ca c'est mon seul désir. Nicolas Um grito rasgou minha garganta. Béatrice caiu para trás de susto e afastou-se de mim como se eu fosse um javali prestes a atacar. Todas as damas se levantaram causando uma confusão.
Não consegui evitar. Era demais ler minhas próprias palavras - pois eu sabia que Nicolas estava repetindo o que eu falara - num pedaço de papel ensangüentado, escritas numa taberna pelas mãos ignorantes de algum bêbado sarcástico.
Claude ia me pagar por aquilo. Se eu não podia realizar mon seul désir, ela também não.
- Vá lavar seu vestido, está imundo! - falei para Béatrice, amassando o papel.
Ela me olhou, puxou o vestido com as mãos trêmulas e levantou-se.
Depois que saiu, falei às minhas damas: - Venham mudar meu traje e fazer meu cabelo. vou ver meu senhor.
No último ano, não comentei nada com Jean acerca dos problemas que enfrentava com nossa filha rebelde. Sabia o que ele faria: jogaria as minhas próprias palavras na minha cara e me culparia de não cuidar direito de Claude. Ele não é amoroso com Claude nem com as outras filhas - embora seja um pouco mais carinhoso com Jeanne.
Mas Claude é a herdeira dele, queira ele ou não. Há certas coisas que se esperam dela e compete a mim prepará-la. Se Jean soubesse a verdade - que Claude preferia perder a virgindade para um artista parisiense do que preservá-la para o esposo -, bateria em mim, não nela. E por que em mim? Por não tê-la ensinado a obedecer.
Fui obrigada a quebrar meu silêncio. O que ia propor exigia a autorização dele - a mesma autorização que Père Hugo disse que eu não teria, um ano antes.
Jean estava em seu aposento com o administrador, cuidando das contas da propriedade. Era uma tarefa que eu devia fazer, mas Jean preferia ele mesmo cuidar, como em tudo. Fiz uma pequena reverência ao lado da mesa onde estavam.
- Monseigneur, gostaria de lhe falar a sós - disse eu. Jean e o administrador levantaram a cabeça e franziram o cenho, como se fossem marionetes controladas pela mesma pessoa. Meus olhos se fixaram na gola de pele do traje de Jean.
- Não pode esperar? O administrador esteve fora e acabamos de começar a trabalhar.
- Perdão, Monseigneur, mas é urgente.
Jean pensou por um instante e disse ao administrador: - Espere aí fora.
O administrador concordou com um gesto da cabeça como se tivesse dormido mal e ficado com o pescoço duro. Fiz o mesmo. Ele retribuiu com uma pequena reverência e saiu.
- O que é, Geneviève? Estou muito ocupado. Eu precisava falar com todo tato.
- E a respeito de Claude. Ela deverá se casar no próximo ano, como convém, e Monseigneur irá resolver logo - ou talvez já tenha resolvido -quem será seu lorde e senhor. Já comecei a prepará-la para a nova vida, ensinei-lhe como se cuidar, como se vestir, como lidar com os criados e as tarefas da casa, como receber convidados.
Ensinei também alguns passos de dança. Ela vai indo bem em tudo.
Jean permanecia calado, apenas martelando um dedo na mesa. O silêncio dele costuma fazer com que eu use mais palavras para tentar preencher o vazio. Ele fica me olhando e tudo que digo parece o palavrório de um bufão no mercado. Comecei a andar de um lado para o outro.
- Mas ela precisa de uma determinada orientação que não posso lhe dar. Claude ainda não compreendeu a vontade da Igreja, de Nossa Senhora e de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jean sacudiu a mão num gesto de impaciência que conheço bem. Já o vira fazer isso com homens que falavam de coisas que não interessavam muito a ele. A indiferença de Claude pela Igreja podia bem vir do pai - ele sempre menosprezara a importância da religião para a sua alma e só se interessava pelo poder da Igreja sobre o Rei.
Para ele, os padres não passam de homens para se negociar, e a Missa, de um local de encontro para negócios da Corte.
Continuei, firme: - Para uma dama da nobreza, é importante ter uma firme fé na Igreja. A Dama nobre deve ser pura, espiritual e fisicamente. E o que um cavalheiro nobre espera dela.
Jean franziu o cenho e fiquei pensando se eu havia ido longe demais. Ele não gosta de ser lembrado de que muitos não o consideram um autêntico nobre. Pensei no choque que tive quando meu pai me disse que me casaria com Jean Lê Viste. Minha mãe se trancou em seu aposento e chorou, mas eu tive o cuidado de não demonstrar meus sentimentos por me unirem a um homem cuja família comprara a sua nobreza. Minhas amigas foram gentis comigo, mas eu sabia que riam pelas minhas costas e sentiam pena de mim: "Pobre Geneviève, serviu de fantoche nas jogadas do pai na Corte!" Nunca fiquei sabendo o que papai ganhou por me dar em casamento a Jean Lê Viste. Pois, certamente, Jean se fez graças ao apoio que recebeu da família de meu pai. Eu é que perdi.
Fui uma menina feliz, parecida com Claude na idade dela. Mas, depois de passar anos com um homem tão frio, meu sorriso desapareceu.
- Diga logo o que é - disse Jean.
- Claude é agitada e, às vezes, difícil. Acho que seria bom para ela ficar num convento até a data do enlace - falei.
- Num convento? Minha filha não é freira!
- Claro que não. Mas passar uma temporada lá irá ajudála a entender o valor da Missa, das orações, da confissão e da comunhão. Ela mal recita as orações! O padre diz que ela inventa pecados na confissão e não sei se engole a hóstia na comunhão. Uma de minhas damas acha que Claude já cuspiu a hóstia no pátio da igreja, depois da Missa.
Jean parecia desdenhoso, e, então, recorri a algo mais próximo da verdade: - Ela tem um jeito impetuoso que nenhum esposo vai aceitar. Temo que isso a prejudique. O convento irá acalmá-la.
Existe um fora de Paris, em Chelles, onde tenho certeza de que as freiras poderão ajudála.
Jean estremeceu de raiva.
-Jamais gostei de freiras. Minha irmã virou freira.
- Claude não vai ser freira. Vai ficar segura lá e não poderá fazer nenhuma bobagem. Os muros são bem altos.
Eu não devia ter dito essa última frase. Jean se empertigou na cadeira e jogou um pedaço de papel no chão.
- Claude tem saído de casa sem acompanhantes?
- Claro que não, mas acho que gostaria. Quanto antes ela se casar, melhor- falei, abaixando-me para pegar o papel no chão. Mas ele o pegou antes, os joelhos rangendo.
- Creio, porém, que ela gostaria. Quanto mais cedo ela se casar, melhor.
- Por que você não cuida melhor de sua filha, em vez de encarcerá-la com freiras?
- Eu cuido muito bem dela, mas uma cidade como Paris tem suas tentações. O convento seria também uma forma de completar sua educação religiosa.
Jean pegou uma pena de ganso e fez uma marca no papel.
- As pessoas vão pensar que você não consegue controlar sua filha, ou que tem alguma coisa errada com ela, já que precisa escondê-la.
Ele quis dizer que ela podia estar esperando um filho.
- Não é errado uma dama ficar num convento antes de casar-se. Minha avó ficou, minha mãe também. E Claude pode vir nos visitar de vez em quando, nos dias santos
- na Assunção de Nossa Senhora, nos Finados e no Dia do Advento -, para que as pessoas vejam que não há nada de errado com ela.
- Não consegui evitar a zombaria na minha voz.
Jean apenas me olhou.
- Se preferir, também poderemos adiantar a data do enlace, se Monseigneur já terminou as conversas com a família do noivo - falei, rápido.- Converse agora, em vez de na próxima primavera. A recepção poderá não ser tão grandiosa, mas isso não importará.
- Não. Não vai parecer direito apressar as núpcias. E as tapeçarias só estarão prontas na próxima Páscoa.
Mais uma vez as tapeçarias! Tive de morder o lábio para não cuspir de raiva, - As tapeçarias precisarão mesmo ser vistas no casamento? - Tentei parecer menos cerimoniosa. - Poderíamos colocá-las na Festa de São Miguel, depois que voltássemos de Arcy, e as tapeçarias seriam presente de núpcias para Claude.
- Não! -Jean largou a pena de ganso e parou. - As tapeçarias não serão presente de núpcias; se fossem, teriam o brasão do esposo também. Elas comemoram meu cargo na Corte. Quero que meu genro veja o brasão dos Lê Viste nelas e saiba com que família estará se unindo pelo casamento. Assim, jamais esquecerá. -Jean dirigiu-se até a janela e olhou para fora. O dia estivera ensolarado, mas, naquele momento, começava a chover.
Fiquei calada. Jean olhou meu rosto impassível.
- Podíamos adiantar o enlace por um mês ou dois. Fevereiro não tem um dia dedicado às núpcias? - perguntou ele, para me acalmar.
- Tem a Festa de São Valentim.
-Então? Poderíamos fazer nessa data. Léon Lê Vieux me disse outro dia que o ateliê de Bruxelas está um pouco atrasado com as tapeçarias. vou mandar pressioná-los cortando dois meses de pagamento, assim eles trabalharão mais. Nunca entendi por que demoram tanto para fazer uma tapeçaria. Afinal, é só tecer. Enfiar a lã de um lado, tirá-la do outro; até as mulheres são capazes de fazer isso. - Ele se afastou da janela. - E peça a Claude para falar comigo antes de mandá-la para o convento.
Fiz uma reverência. - Sim, meu senhor. - Quando me levantei, olhei bem para ele.
- Obrigada, Jean.
Ele concordou e, embora não sorrisse, seu rosto se suavizou. É um homem duro, mas às vezes me ouve.
- Com quem ela se casará, Monseigneur? - perguntei. Ele balançou a cabeça.
- Isso é problema meu, não é para você se preocupar. Cuide só da noiva.
- Mas...
- Já que não me deu um filho, tenho o direito de escolher um. - Ele se virou de costas para mim, e o instante de ternura acabou. Estava me castigando por só ter tido filhas. Eu podia chorar, mas já tinha chorado tudo por causa disso.
Voltei para meu aposento e mandei chamar Béatrice outra vez. Ela apareceu num traje de brocado amarelo, que achei vistoso demais. Contudo, pelo menos, não estava manchado com o sangue do artista.
- Ponha as coisas de Claude na arca de viagem. Só as roupas mais simples, sem nenhuma jóia. vou levar vocês duas a passeio - falei.
- Aonde, Madame? - Béatrice parecia amedrontada; deveria estar mesmo. Passar nove meses no convento seria um castigo para ela também. Mas eu ainda gostava dela.
- Não se preocupe, cuide bem de Claude e será recompensada.
Mandei chamar um cavalariço, recomendei que preparasse minha carruagem e enviasse antes um mensageiro ao convento, anunciando nossa visita. Depois, mandei Claude falar com o pai. Irritada, minha vontade era encostar na porta e ficar ouvindo a conversa, mas não seria uma atitude digna e, então, ocupei-me em me preparar.
Troquei a roupa de brocado que usei para falar com Jean por uma outra simples, de lã escura, que vesti na Sexta-feira Santa. Tirei as jóias dos cabelos e troquei o crucifixo de pedras preciosas por uma cruz de madeira. Ouvi uma batida na porta e, em seguida, Claude entrou. Estava com os olhos vermelhos, e fiquei pensando o que Jean teria dito a ela. Pedi para meu esposo não dizer aonde ela ia, assim não ficaria chorando.
Ela veio direto para mim e ajoelhou-se a meus pés.
- Perdão, mamãe, faço qualquer coisa que você quiser. Percebi que a voz tinha medo e um pouco de obediência, embora no fundo ainda houvesse um toque de rebeldia.
Em vez de ficar de olhos baixos, em sinal de respeito, ela me olhava de soslaio, como um passarinho faz quando está sob a pata de um gato, buscando um jeito de escapar.
As freiras iam ter muito o que fazer com ela. Entrei com Claude e Béatrice na carruagem. As duas ficaram surpresas, esperavam um passeio a cavalo; deviam estar achando que íamos à casa de minha mãe em Nanterre. Fizemos outro caminho: depois de atravessarmos o Sena na Pont de Notre Dame, viramos para leste e saímos de Paris pela Bastille. Claude ficou sentada longe de mim, com Béatrice apertada entre nós duas. Pouco falamos. Minha carruagem não é para viagens longas, mas para pequenos passeios pela cidade, íamos aos solavancos e às vezes eu tinha a impressão de que as rodas se soltariam. Não consegui dormir; Claude e Béatrice cochilaram um pouco quando escureceu; não viram os campos passando pela janela.
Chegamos aos muros da cidade quase ao amanhecer. Dali a pouco as igrejas estariam rezando as Landes. Claude nunca havia ido a Chelles, e não fez nada quando paramos na frente da pequena porta no grande muro. Béatrice reconheceu o lugar na hora e ficou preocupada. Saltei e toquei o sino ao lado da porta.
- Madame... - começou ela a dizer, mas fiz sinal para se calar.
Só quando uma freira abriu a porta e Claude viu o hábito branco emoldurando o rosto à luz da tocha foi que, de repente, entendeu que lugar era aquele.
- Não! - gritou, encolhendo-se no canto da carruagem.
Não dei atenção e falei baixo com a freira.
Ouvi um barulho, e Béatrice gritou: - Madame, ela fugiu!
- Peguem-na! - falei baixo para os cavalariços que estavam limpando os cavalos.
Um deles deixou cair o pano e correu pela estrada no escuro, onde a luz da tocha não chegava. Foi por isso que eu havia trazido Claude de carruagem - se estivéssemos a cavalo, ela poderia fugir a galope. Logo depois o cavalariço voltou, trazendo Claude. Ela estava mole como um saco de centeio e não ficou em pé quando o cavalariço a colocou a meu lado.
- Leve-a para dentro - mandei. A freira levantou a tocha bem alto e fizemos nossa lastimável entrada no convento.
Levaram Claude. Béatrice foi atrás dela como um pintinho que perdeu a mãe. Fui assistir à cerimônia das Landes na capela com as freiras e caí de joelhos, sentindo
uma leveza espiritual que não experimentava há tempos. Depois, fui ao encontro da abadessa, para tomar uma taça de vinho, e dormi um pouco. Descansei tão bem no estreito catre de palha como nunca na minha enorme cama com as damas perto, na rue du Four.
Não vi Claude antes de ir embora. Só mandei chamar Béatrice, que parecia cansada e submissa. Sua reverência foi menos animada que o normal e vi que não conseguiu arrumar direito o cabelo - em geral, minhas damas arrumam umas o cabelo das outras. Além disso, não havia espelhos em Chelles. Gostei de ver que ela havia trocado o traje de brocado amarelo por algo mais discreto. Andamos pelos pátios, depois percorremos o jardim central onde algumas freiras estavam ocupadas plantando e capinando, cavando e amarrando. Não sou jardineira, mas sei apreciar o prazer simples da cor e do perfume de uma flor.
Alguns narcisos e jacintos ainda estavam floridos, e as violetas e pervincas começavam a desabrochar. Ramos de lavanda, alecrim e tomilho saíam dos arbustos, e a hortelã crescia em moitas. Naquele jardim calmo, ao sol da manhã, com as freiras ocupadas em silêncio à minha volta e o sino que em breve as chamaria para as Terças, senti uma ponta de inveja por Claude poder ficar lá e eu não. Pensei naquele lugar como um castigo para ela, além de uma proteção e educação. Mas, para mim, também era um castigo ela ter o que eu não podia.
- Olhe esse jardim, Béatrice, é como o Paraíso. Como o céu na Terra -falei, afastando meus pensamentos.
Béatrice não respondeu.
- Aonde vocês estavam na hora das Laudes? Sei que era bem cedo, mas vão se acostumar.
- Eu estava cuidando de Mademoiselle.
- Como está ela?
Béatrice deu de ombros. Em geral, ela não faria um gesto tão rude. Estava zangada comigo, embora, claro, não pudesse dizer.
- Ela não falou desde que chegou aqui. Também não comeu, embora não tenha perdido grande coisa.
É verdade que o mingau aqui é ralo, e o pão, duro.
- Ela vai se acostumar com o tempo. Este é o melhor lugar para ela ficar, como você sabe. Ela vai melhorar aqui falei, calma.
- Espero que esteja certa, Madame. Empertiguei-me.
- Acaso está questionando minha decisão de trazè-la para cá?
Béatrice abaixou a cabeça.
- Não, Madame.
- Ela vai estar bem melhor na Festa da Purificação da Virgem, em fevereiro.
Béatrice levantou a cabeça, surpresa. - A Purificação? Mas essa festa já passou faz tempo!
- Estou falando da próxima.
- Vamos ficar aqui até lá? - A voz dela se elevou. Sorri.
- O tempo vai passar mais rápido do que você pensa. Se quiser, arrumo um casamento para você, com a condição de ficarem direito e se comportarem, as duas - destaquei, para que ela entendesse.
A coitada tinha um rosto desanimado e uma boca triste, mas olhos ansiosos.
- Sabe que serão bem cuidadas aqui. Seja carinhosa com Claude, obedeça à abadessa e tudo dará certo - recomendei.
com isso, deixei-a naquele lindo jardim, lastimando entrar na minha carruagem para a longa viagem de volta à rue du Four. Confesso que chorei um pouco ao ver os campos passando, e de novo quando chegamos aos portões de Paris. Não queria voltar mais para a rue du Four. Mas era preciso.
Ao chegarmos, chamei os cavalariços antes que levassem os cavalos e paguei-os muito bem para manterem a boca fechada sobre aonde havíamos estado. Só eles e Jean sabiam aonde Claude estava - não contei aonde havíamos ido nern para as minhas damas. Não queria que Nicolas descobrisse e fosse lá importunar as freiras.
Tomei todos os cuidados, porém ainda estava insegura e gostaria que Nicolas se mantivesse bem longe. Não confiava nele. Vi como olhou minha filha quando estava lá, ensangüentado, no chão. Era um olhar que jamais Jean me havia dado. Fiquei roída de inveja.
Ao entrar no pátio, tive uma idéia e corri para as cocheiras.
- vou sair de novo, levem-me à rue dês Rosiers - falei para os surpresos cavalariços.
Léon Lê Vieux também se surpreendeu - é raro que uma nobre o visite, ainda mais sem acompanhantes. Foi muito gentil e me fez sentar ao lado da lareira. Léon vai muito bem de vida, tem uma ótima casa, cheia de tapetes, arcas entalhadas e baixelas de prata. Contei dois criados, embora tenha sido a esposa quem nos trouxe vinho doce e me fez uma profunda reverência. Parecia bem contente, e seu traje de lã era entremeado de seda.
- Como tem passado, Dame Geneviève? - perguntou Léon, quando nos acomodamos. - E Claude? Jeanne e Petite Geneviève? - Léon jamais deixava de perguntar sobre cada uma de minhas filhas. Sempre gostei dele, embora tema por sua alma. A família dele se converteu, mas ele ainda não é como nós. Olhei em volta, buscando algum sinal, e vi apenas um crucifixo na parede.