À Espera de um Milagre
Parte Seis .........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Que Deus nos salve - disse o Harry numa voz lacrimosa e enfraquecida.
Em seguida, aquela coisa transformou-se num branco tão radiante que se assemelhava ao sol de Janeiro a incidir sobre neve acabada de cair. Um momento mais tarde, a nuvem tinha-se dissipado. O Percy endireitou-se em movimentos lentos e voltou a exibir aquele olhar apático. “
- Nós não vimos aquilo - disse o Brutal. - Pois não, Paul?
- Não. Eu não vi e tu também não. E tu, Harry, viste alguma coisa?
- Não - respondeu ele. - Dean?
- Vi o quê? - O Dean tirou os óculos do nariz e começou a limpar as lentes. Pensei que ele iria deixá-los cair das mãos, que não paravam de tremer, mas conseguiu impedir que isso acontecesse.
- “Vi o quê?”, essa é boa. É o máximo. Agora prestem atenção ao vosso chefe dos escoteiros, rapazes, e vejam lá se compreendem tudo à primeira, dado que o tempo é escasso. Trata-se de uma história deveras simples. Portanto, não compliquemos as coisas.
3
Contei tudo isto à Jan por volta das onze horas dessa manhã - a manhã seguinte, estive eu prestes a escrever, mas é claro que se tratava do mesmo dia. O mais longo de toda a aninha vida sem dúvida alguma. Contei-lhe os acontecimentos nos mesmos moldes em que os descrevi aqui, terminando na maneira como o William Wharton tinha acabado os seus dias, estendido em cima da sua tarimba, com o corpo perfurado pelo chumbo do revólver do Percy Wetmore.
Não, isso não corresponde exatamente à verdade. Onde eu realmente terminei foi na substância que saiu da boca do Percy, os insetos ou o que quer que tenha sido. Era uma coisa difícil de descrever, até mesmo à nossa mulher, mas, apesar disso, lá consegui.
Enquanto eu falava, ela trouxe-me uma caneca meio cheia de café - inicialmente, as minhas mãos tremiam tanto que teria sido difícil agarrar numa caneca cheia, sem a entornar logo em seguida. Quando terminei, os tremores tinham-se acalmado um pouco, o que me levou a pensar que talvez fosse capaz de ingerir alguma comida - um ovo, talvez, ou mesmo um pouco de sopa.
- O que nos salvou foi o fato de não sermos obrigados a mentir, nenhum de nós.
- Tiveram apenas de omitir algumas coisas - comentou ela com um acenar de cabeça. - Na maior parte, coisas de somenos importância, tal como de que maneira fizeram sair da prisão um assassino e como ele curou uma mulher à beira da morte, e como enlouqueceu o Percy Wetmore só por ter... o quê? Cuspido um purê de tumor cerebral pela garganta dele abaixo?
- Não sei, Jan - disse eu. - Só sei que se continuares a falar assim, das duas uma: ou acabarás por ser tu a comer esta sopa ou terás de a dar ao cão.
- Desculpa. Mas tenho razão, não é verdade?
- Sim - admiti. - Só que conseguimos safar-nos com... - Com o quê? Não se lhe poderia chamar fuga. - Com a viagem ao campo. Nem sequer o Percy pode dizer-lhes... não teve conhecimento disso... se alguma vez conseguir recuperar.
- Se conseguir recuperar - ecoou a Janice. - Que hipóteses há de isso vir a acontecer?
Sacudi a cabeça, indicando que não fazia a mais pequena idéia. Mas isso não correspondia exatamente à verdade. Não me parecia que ele conseguisse vir a recuperar, pelo menos em 1932, nem em 1942, nem tão-pouco em 1952. Nisso eu estava absolutamente certo. O Percy Wetmore esteve internado no Briar Ridge até o hospício ter sido arrasado por um incêndio em 1944. Haviam perecido no fogo dezessete dos doentes internados, embora o Percy não se encontrasse entre eles. Em silêncio e apático - a palavra que aprendi para descrever o seu estado é catatônico - foi levado para fora por um dos guardas antes de o fogo ter começado a lavrar na ala onde se encontrava internado. Foi transferido para outro estabelecimento hospitalar - não me recordo do nome e calculo que, seja como for, isso não tenha interesse - tendo vindo a morrer em 1965. Tanto quanto me é dado saber, a última vez que falou foi quando nos disse que poderíamos marcar o seu cartão de ponto à hora em que o turno terminaria... A menos que pretendêssemos explicar por que motivo é que ele teria largado o serviço mais cedo.
A ironia daquela situação foi nunca termos sido obrigados a dar grandes explicações. O Percy tinha enlouquecido e alvejara o William Wharton até à morte. Foi a versão que contamos, e cada palavra correspondeu à verdade. Quando o Anderson perguntou ao Brutal qual havia sido o comportamento do Percy antes do tiroteio e o Brutus respondeu com uma palavra - “Tranqüilo” -, passei por um momento agonizante ao pensar que poderia desatar às gargalhadas. Porque na realidade isso era a verdade, o Percy tinha estado muito sossegado, uma vez que durante a maior parte do seu turno de trabalho tivera a boca tapada com fita adesiva, e apenas pudera articular um “huummm, huummm, huummm”.
O Curtis manteve o Percy no bloco até às oito horas, e o Percy esteve calado que nem uma múmia, embora a sua atitude metesse medo. Por essa altura já o Hal Moores tinha chegado à prisão, mostrando uma expressão soturna mas competente, pronto para voltar a assumir as rédeas da situação. O Curtis Anderson não levantou qualquer objeção, soltando um suspiro de alívio que nós, presentes na altura, quase conseguimos ouvir. O homem envelhecido e assustado, completamente desnorteado, desaparecera; foi o diretor da penitenciária quem se aproximou do Percy, quem o agarrou pelos ombros com as suas mãos enormes e o sacudiu com todo o vigor.
- Rapaz! - gritou ele para a expressão vazia do rosto do Percy.., um rosto que já tinha começado a desfazer-se como se fosse de cera, pensei eu na altura. - Rapaz! Estás a ouvir-me? Se ouves o que te digo, fala comigo! Quero saber o que aconteceu!
Da parte do Percy não houve qualquer reação, como é evidente. O Anderson pretendia falar com o diretor a sós, a fim de discutir a melhor maneira de tratar aquele assunto - assunto deveras sensível em termos políticos - mas o Moores afastou-o pelo menos de momento, e puxou-me para a Milha. O John Coffey encontrava-se deitado sobre a tarimba, com o rosto voltado para a parede, as pernas chocantemente suspensas tal como era seu hábito. Dava a impressão de estar a dormir, o que provavelmente era verdade... mas o certo é que ele nem sempre era o que aparentava ser, tal como já havíamos descoberto.
- Aquilo que aconteceu em minha casa teve alguma coisa a ver com o que se passou aqui, depois de vocês terem regressado? - perguntou o Moores em voz baixa. - Estou disposto a dar-vos toda a cobertura que me for possível, ainda que isso signifique perder o meu emprego, mas tenho de saber o que aconteceu.
Abanei a cabeça. Quando comecei a falar, também mantive a voz baixa. Nesta altura já por ali andavam cerca de uma dúzia de guardas bastante atarefados no extremo do corredor.
Um fotografava o Wharton na sua cela. O Curtis Anderson observava-o, pelo que, momentaneamente, o Brutal era o único cuja atenção se concentrava em nós dois.
- Não. Levamos o John de volta para a sua cela, tal como podes ver, e tiramos o Percy da cela do isolamento, onde o fechamos para maior segurança. Pensei que ele devia estar furioso por o termos encerrado ali, mas não, limitou-se a pedir a arma e o bastão. Não acrescentou mais nada, encaminhou-se apenas para o corredor. Então, quando se aproximou da cela do Wharton, sacou da arma e começou a disparar.
- Parece-te que o fato de ter estado fechado na cela do isolamento... teve algum efeito na sua mente?
- Não.
- Vocês colocaram-no dentro da camisa-de-força? Não. Não havia necessidade disso.
- Ele esteve tranqüilo? Não se debateu? Não, não se debateu.
- Mesmo quando verificou que a vossa intenção era fechá-lo na cela do isolamento, ele não se debateu e ficou sossegado.
- Foi exatamente isso que aconteceu. - Senti uma súbita vontade de dizer mais qualquer coisa... meter na boca do Percy uma ou duas frases, mas decidi ficar calado. Quanto mais simples melhor, sabia eu. - Não houve nenhuma complicação: ele limitou-se a ir para um dos cantos e sentou-se.
- Nessa altura não trocou qualquer palavra com o Wharton?
- Não.
- Também não falou no Coffey? - Confirmei com - abanar de cabeça. - Teria o Percy planeado qualquer coisa contra o Wharton? Achas que teria qualquer agravo contra o homem?
- É possível - respondi, baixando ainda mais o tom de voz. - O Percy era muito descuidado em relação aos sítios por onde caminhava, Hal. Houve uma ocasião em que o Warton estendeu as mãos e o agarrou contra as barras da cela, tendo-o maltratado um pouco. - Fiz uma pausa. - Pode-se mesmo dizer que não o tratou com muita suavidade.
- E nada mais? Apenas... “não o tratou com muita suavidade”? Sim, mas mesmo assim a situação não foi muito agradável para o Percy. O Wharton disse qualquer coisa em como preferiria comer o Percy em vez da irmã deste.
- Hum... - fez o Moores, olhando de esguelha para o John Coffey, como se sentisse necessidade de se certificar constantemente de que este era uma pessoa, e não fruto da sua imaginação. - Isso não explica o que lhe aconteceu, mas até certo ponto justifica, porque foi contra o Wharton que ele se voltou, e não contra o Coffey ou um dos teus homens. E, falando dos teus homens, Paul, será que eles contarão a mesma história?
- Sim - asseverei. - E vão contar - disse eu à Jan, começando a comer a sopa que ela trouxera para a mesa. - Certificar-me-ei de que assim seja.
- Mas é inegável que mentiste - retorquiu ela. - Mentiste ao Hal.
Ora bem, o que é que se esperaria da nossa mulher, não é verdade? Sempre à procura das nossas facetas mais fracas e encontrando sempre uma.
- Calculo que sim, se virmos o assunto por essa perspectiva. No entanto, não lhe contei nada com que ambos não possamos viver. Está tudo às claras, acho eu. Ao fim e ao cabo, ele nem sequer se encontrava presente. Estava em casa a tratar da mulher até que o Curtis lhe telefonou.
- Ele disse alguma coisa quanto ao estado de saúde da Melinda?
- Nessa altura, não. Não havia tempo, mas voltamos a falar quando o Brutal e eu nos preparávamos para sair. A Melinda não se recorda de grande coisa, mas sente-se ótima. Já não está na cama e anda por todo o lado. Já fala das flores que vai plantar nos canteiros no ano que vem.
A minha mulher ficou a olhar para mim durante algum tempo.
- O Hal sabe que se tratou de um milagre, Paul? - perguntou. - Ele compreende isso?
- Sim. Todos nós compreendemos. Todos os que estivemos presentes.
- Parte de mim deseja poder ter estado lá - acrescentou a Janice. - No entanto, a outra parte sente-se satisfeita por não ter assistido. Se eu tivesse visto aquelas escamas a saírem dos olhos de Saul, na estrada para Damasco, provavelmente teria morrido de um ataque cardíaco.
- Não - contradisse eu, inclinando a tigela para meter na colher o que ainda restava da sopa -, o mais certo teria sido preparares-lhe uma sopa. Esta está ótima, minha querida,
- Ainda bem. - Mas na realidade não era na sopa que ela pensava, nem em cozinhar nem tão-pouco na conversão de Saul na estrada para Damasco. A Janice olhava pela janela na direção das cumeeiras, com o queixo apoiado na palma da mão e os olhos tão toldados como aqueles cumes costumavam estar nas manhãs de Verão, nos dias em que fazia calor. Nas manhãs de Verão como aquela em que as garotas dos Detterick haviam sido encontradas, pensei eu sem qualquer razão aparente. Perguntei a mim mesmo por que motivo é que elas não teriam gritado.
O assassino tinha-as magoado; havia sangue nos degraus e no chão do alpendre. Por conseguinte, porque é que elas não teriam começado a gritar?
- Pensas que foi o John Coffey quem matou esse homem, o Wharton, não é verdade? - perguntou a Janice, desviando finalmente o olhar da janela. - Não estás convencido de que foi um acidente ou algo semelhante; acreditas que ele se serviu do Percy Wetmore para aniquilar o Wharton.
- Sim - concordei. Porquê?
- Não sei.
- Conta-me outra vez o que sucedeu quando tiraste o John Coffey da Milha, de acordo? Só essa parte.
Acedi ao seu pedido. Descrevi-lhe como é que o braço magro que saiu disparado por entre as barras de ferro, para pousar no bícepe do John, me dera a impressão de ser uma serpente - daquelas de água de que todos tínhamos medo quando éramos miúdos e íamos nadar para o rio - e a forma como o Coffey dissera que o Wharton era um homem mau.
Falei quase num murmúrio.
- E o Wharton disse o quê? - A minha mulher voltara a olhar através da janela, embora estivesse a prestar-me atenção: O Wharton disse: “É verdade, negro, tão mau quanto possas imaginar.”
-E foi tudo?
- Sim. Tive a sensação de que estava prestes a acontecer qualquer coisa, mas tal não sucedeu. O Brutal tirou a mão do Wharton do braço do John, e mandou-o deitar-se. Ele tinha-se levantado da tarimba. Acrescentou qualquer coisa acerca de como os negros deveriam ter a sua própria cadeira elétrica, e mais nada. E nós continuamos o que estávamos a fazer.
- O John Coffey chamou-lhe um homem mau.
- Sim. Também já tinha dito o mesmo numa ocasião, referindo-se ao Percy. Talvez o tenha dito mais de uma vez. Não consigo recordar-me com exatidão quando é que isso foi, mas sei que o disse.
- No entanto, o Wharton nunca fizera nada ao John Coffey, pois não? Quero dizer, tal como fez ao Percy.
- Não. A localização das celas dos dois... A do Wharton ficava próximo da secretária do corredor, de um lado, enquanto a do John se situava bastante mais abaixo, no lado oposto. Mal conseguiam ver-se.
- Descreve-me outra vez o aspecto do John Coffey quando o Wharton lhe agarrou no braço.
- Janice, esta conversa não está a levar-nos a lado nenhum - disse eu à minha mulher.
- Talvez não, mas por outro lado é possível que sim. Descreve-me outra vez qual era o aspecto dele.
- Acho que posso dizer que ficou chocado - repliquei depois de suspirar. - Ficou ofegante. Tal como aconteceria se tu estivesses estendida na praia ao sol, e eu me aproximasse sorrateiramente e deitasse água fria nas tuas costas. Ou como se tivesse sido esbofeteado.
- Bem com certeza - retorquiu a Janice. - O fato de ter sido agarrado dessa maneira, sem estar a contar com isso, sobressaltou-o, despertou-o por alguns segundos.
- Sim - concordei, para logo depois me contradizer. - Não.
- Em que é que ficamos? Sim ou não?
- Não. Não se pode dizer que tenha ficado sobressaltado foi mais como quando ele quis que eu fosse à sua cela, poder curar a minha infecção. Ou como quando me pediu para lhe entregar o rato. Ele sentiu-se surpreendido, mas não por alguém lhe ter tocado inesperadamente... não foi isso exatamente o que sucedeu... oh, bolas. Jan, não sei.
- De acordo, ponhamos o assunto de parte - disse ela. - Mas não sou capaz de imaginar o que é que teria levado o John a fazer isso. Não se pode dizer que ele seja, por natureza, um homem violento. O que nos leva a outra questão, Paul: como é que poderás executá-lo se tiveres razão quanto à morte das garotas? Como é que terás coragem de o sentar na cadeira elétrica se foi outra pessoa que...
Agitei-me na cadeira, sentindo um certo mal-estar. O meu cotovelo bateu na tigela e esta tombou para o chão, onde se estilhaçou. Tivera uma idéia. Naquela fase, era mais uma intuição do que um pensamento lógico e não deixava de ter uma certa elegância sombria.
- Paul? - perguntou a Janice, alarmada. - O que é que se passa?
- Ainda não sei - respondi. - Não tenho a certeza de nada, mas, se possível, tenciono vir a ter.
4
O rescaldo do tiroteio transformou-se num circo de três arenas, com o governador numa delas, a penitenciária na outra, e o pobre Percy Wetmore, com o juízo avariado, na terceira. E quem era o apresentador do circo? Pois bem, os diversos cavalheiros da imprensa ocuparam-se dessa função, à vez. Não eram tão maus como os seus colegas de hoje - não se permitiam comportar-se de forma tão má - mas até mesmo nessa época, antes do advento dos grandes apresentadores da televisão, eram capazes de galopar bastante bem, sempre que sentiam realmente o freio nos dentes. Foi isso que aconteceu naquela ocasião e, enquanto durou, o espetáculo foi bastante bom.
No entanto, até mesmo o circo mais animado, aquele com as aberrações mais aterradoras, com os palhaços mais divertidos ou os animais mais selvagens, é forçado a abandonar a cidade. Este desmontou a tenda depois da comissão de inquérito, que parece muito especial e assustadora, mas que na realidade veio a provar ser bastante inofensiva e negligente. Sem dúvida que noutras circunstâncias o governador teria exigido a cabeça de alguém numa bandeja, mas não daquela vez. O seu sobrinho por afinidade - do mesmo sangue da mulher - ficara desarranjado do juízo e decidira matar um homem. Havia pois um assassino - do mal o menos, podia-se dar graças a Deus por isso - mas tal não invalidava o fato de o Percy ter abatido um homem quando este se encontrava a dormir na cela, o que não era um gesto muito bonito. Quando se acrescentava o fato de o jovem em questão ter continuado tão demente como uma cadela com cio, poderia compreender-se a razão por que o governador desejava pôr uma pedra sobre aquele assunto, o mais rapidamente possível.
A nossa jornada até casa do diretor Moores, na pequena camioneta do Harry Terwilliger, nunca chegou a vir à baila. O fato de o Percy ter sido metido na camisa-de-força e encarcerado na cela do isolamento, durante o período de tempo em que estivemos ausentes, também nunca veio a lume. O pormenor de o William Wharton estar drogado até à inconsciência, na altura em que o Percy o abateu, também nunca chegou a ser mencionado. E porque haveria de ser? As autoridades não tinham a mais pequena suspeita da existência de qualquer coisa no organismo do Wharton, para além de meia dúzia de balázios. O médico legista procedeu à extração destas, o cangalheiro instalou-o dentro de um caixão de pinho, e aquele foi o fim de um homem que tinha uma tatuagem num antebraço onde se lia “Billy the Kid”. Poder-se-ia dizer: “Que bons ventos o levem!”
No cômputo geral, aquela confusão durou cerca de duas semanas. Durante esse período, eu nem me atrevi a dar um peido quanto mais tirar um dia de licença para poder investigar a idéia que me ocorrera à mesa da minha cozinha, na manhã seguinte a toda aquela confusão. Tinha a certeza de que o circo já havia abandonado a cidade quando fui trabalhar um dia antes da segunda quinzena de Novembro - parece-me que foi a doze mas não estou muito seguro quanto a essa data. Foi nesse dia que encontrei a folha de papel, que tanto receava, sobre a minha secretária: a ordem de execução do John Coffey. Fora o Curtis Anderson quem a tinha assinado, e não o Hal Moores, mas, como é evidente, isso não a tornava menos oficial, e devia ter passado pelas mãos do Hal antes de me ser entregue. Eu imaginava-o sentado à sua secretária nos serviços administrativos, com aquela folha de papel na mão, a pensar na mulher, a qual se transformara na última das sete maravilhas para os médicos do Hospital Geral de Indianola, A Melinda já tinha recebido os documentos relativos à sua própria execução das mãos desses mesmos médicos; todavia, o John Coffey tinha-os rasgado. Mas agora, ironicamente chegara a vez do próprio John Coffey percorrer a Milha Verde, e quem de entre nós poderia impedir que isso viesse a acontecer?
A data inscrita na sentença de morte era o dia 20 de Novembro. Três dias depois de eu a ter recebido - estou em crer que foi no dia 15 - pedi à Janice que telefonasse a informar que eu me encontrava doente. Uma caneca de café mais tarde, rolava eu pela estrada que seguia para norte, ao volante do meu Ford com a suspensão em mau estado, mas que nos outros pormenores era de toda a confiança. A Janice despedira-se de mim com um beijo, desejando-me boa sorte; eu tinha-lhe agradecido, embora já não formasse uma idéia clara daquilo que poderia ser considerado boa sorte - descobrir ou não o que me propusera encontrar. Tudo o que eu sabia era que não me apetecia muito cantar enquanto conduzia. Sobretudo naquele dia.
Por volta das três dessa mesma tarde, já eu me encontrava em terras montanhosas. Cheguei ao tribunal de Purdom exatamente antes do encerra-mento das suas portas, examinei alguns registros, e depois recebia visita do xerife, que entretanto fora informado pelo funcionário do tribunal de que havia um estranho a bisbilhotar os segredos locais. O xerife Catlet pretendia saber o que é que eu pensava que estava a fazer. Eu expliquei-lhe. O Catlet pensou no assunto por alguns momentos e então disse-me uma coisa interessante. Disse que negaria ter dito uma só palavra se eu repetisse alguma coisa a alguém. Não foi uma informação conclusiva, mas sem dúvida era alguma coisa. Durante todo o caminho até casa fui a pensar naquilo; naquela noite tive muito em que pensar, e as preciosas horas de sono no meu lado da cama foram bastante escassas.
Na manhã seguinte, levantei-me ainda o Sol não passava de uma ameaça a oriente, e fui de carro até ao município de Trapingus. Passei ao largo do Homer Cribus, aquela enorme saca de entranhas e fluidos preferindo falar com o assistente do xerife, o Rob McGee. O McGee não quis ouvir o que eu lhe dizia. Com toda a veemência, o homem deu-me a entender que não queria ouvir o que eu tinha para lhe dizer. A certa altura fiquei quase com a certeza de que ele me esmurraria em cheio na boca, para que pudesse parar de me ouvir, mas no fim acabou por concordar em ir até casa do Klaus Detterick a fim de lhe fazer umas perguntas. Na minha opinião, o fez para ter a certeza de que não seria eu a tomar aquela iniciativa.
- Ele só tem trinta e nove anos, mas parece um velho - comentou o McGee -, e não precisa que um guarda de prisão armado em checo esperto e em detetive o venha arreliar, agora que algum do desgosto que sofreu já começou a abrandar. Você vai deixar-se ficar aqui, na cidade. Não o quero ver à distância de um grito da quinta dos Detterick, mas quero ter a certeza de que poderei encontrá-lo quando acabar de conversar com o Klaus. Se por acaso começar a sentir-se desassossegado, vá até ao restaurante e coma uma fatia de parte de maçã. Isso há de acalmá-lo. - Acabei por comer duas fatias e o resultado foi sentir o estômago bastante pesado.
Quando o McGee chegou ao restaurante e se sentou ao balcão junto de mim, tentei ler alguma coisa na sua expressão, mas não consegui.
- Então?... - perguntei.
- Venha comigo até minha casa. É melhor falarmos lá - replicou ele. - Este lugar é demasiado público para o meu gosto.
Encetamos a nossa conversa no alpendre da casa do Rob McGee. Ambos estávamos bem agasalhados, embora sentíssemos frio, mas acontece que Mrs. McGee não permitia que se fumasse em parte alguma no interior da casa. Era uma mulher muito progressiva para a sua época. O McGee falou durante algum tempo com a atitude de um homem a quem não agradava nada o que ouvia da sua própria boca.
- Você compreende que isto não vem provar absolutamente nada não é verdade? - perguntou ele quando já me dissera quase tudo o que tivera a dizer. Na sua voz adivinhava-se uma certa beligerância, e enquanto falava espetou o cigarro enrolado à mão na minha direção com agressividade, apesar de o seu rosto deixar transparecer náusea. Nem todas as provas apresentadas num tribunal são aquilo que se ouve e vê, ambos sabíamos isso. Fiquei com a sensação de que aquela fora a única vez em toda a sua vida que o assistente de xerife, McGee, desejara ser tão imbecil quanto o seu próprio chefe.
- Eu sei - repliquei.
- E se está a pensar em conseguir arranjar-lhe um novo julgamento, só com base nesta única coisa, é melhor reconsiderar, senhor. O John Coffey é um negro e no município de Trapingus nós somos muito esquisitos quanto a concedermos novos julgamentos à gente de raça negra.
- Também estou a par desse aspecto.
- Por conseguinte, o que é que tenciona fazer? Lancei o meu cigarro para a rua por cima do corrimão do alpendre. Em seguida, levantei-me da cadeira. Era um longo percurso de regresso a casa, e quanto mais cedo eu partisse, mais cedo chegaria ao fim da minha viagem.
- Quem me dera saber, assistente McGee - retorqui -, mas o certo é que não sei. A única coisa de que tenho a certeza esta noite é que a segunda fatia de tarde foi um erro.
- Deixe-me dizer-lhe uma coisa, seu vivaço... - Continuava a expressar-se num tom de beligerância. - Não me parece que, em primeiro lugar, você devesse ter aberto a caixa de Pandora.
- Não fui eu quem a abriu - redargui, e iniciei a viagem de regresso a casa.
Quando cheguei já era tarde - passava da meia-noite. Contudo, a minha mulher esperava por mim a pé. Tinha desconfiado de que ela o faria, mas mesmo assim o fato de a ver a pé fez-me bem ao coração, assim como os seus braços à volta do meu pescoço, o corpo suave e firme contra o meu.
- Olá, forasteiro - saudou ela, tocando-me nas partes baixas. - Não há nada de errado com este fulano, pois não? Está tão saudável quanto possível.
- Sim, minha senhora - respondi-lhe, erguendo-a nos meus braços. Levei-a para o quarto e fizemos amor, tão doce como o açúcar, e quando eu estava prestes a atingir o meu clímax, esse sentimento delicioso de algo que me abandonava e que eu deixava ir, pensei nos olhos infinitamente lacrimejantes do John Coffey. E na Melinda Moores a dizer: Sonhei que andavas perdido na escuridão, tal como eu.
Continuando estendido em cima da minha mulher, com os braços dela em redor do meu pescoço e com as nossas coxas entrelaçadas, comecei a chorar.
- Paul! - exclamou ela, chocada e assustada. Não me parece que tenha visto lágrimas nos meus olhos em mais do que meia dúzia de ocasiões ao longo de todo o nosso casamento. Nunca fui, em circunstâncias normais, um homem dado a grandes choros. - Paul, o que é que se passa?
- Já sei tudo o que havia a saber - repliquei por entre as lágrimas. - Se queres saber a verdade, sei de mais. Devo eletrocutar o John Coffey em menos de uma semana, embora tenha sido o William Wharton quem assassinou as garotas dos Detterick. Foi o Bill Selvagem.
5
No dia seguinte, o mesmo grupo de guardas prisionais que havia almoçado na minha cozinha, depois da execução do Delacroix que tão mal tinha corrido, voltou a almoçar em minha casa. Desta vez encontrava-se presente um quinto no nosso conselho de guerra: a minha mulher. Foi ela quem me convenceu a contar aos outros; o meu primeiro impulso tinha sido não lhes dizer nada. Não era já suficientemente mau, perguntei à Janice, nós sabermos?
- Não estás a pensar com clareza - respondera-me ela. - Provavelmente, porque continuas bastante perturbado. Eles já têm conhecimento do aspecto mais grave: que o John Coffey foi acusado de um crime que não cometeu. Pelo menos, este esclarecimento servirá para melhorar um pouco a situação.
Eu não estava bem seguro disso; no entanto, cedi. Esperava uma grande agitação quando contasse ao Brutal, ao Harry e ao Dean aquilo que descobrira (não podia prová-lo, mas tinha a certeza); porém, inicialmente fez-se apenas um silêncio, durante o qual todos estiveram pensativos. Pouco depois, servindo-se de um dos pãezinhos feitos pela Janice, e começando a barrá-lo com uma ultrajante quantidade de manteiga, o Dean tomou a palavra.
- Achas que o John o viu a cometer o crime? Que viu o Wharton a deixar cair as garotas, se calhar até a violá-las? - Calculo que, se ele tivesse presenciado isso, teria tentado impedi-lo - respondi. - Quanto a ter visto o Wharton, suponho que isso seja possível, talvez quando ele começou a fugir.., Mas se foi esse o caso, mais tarde acabou por se esquecer.
- Claro - aquiesceu o Dean. - Ele é um homem muito especial, mas esse fator não o torna particularmente inteligente. Só veio a descobrir que tinha sido o Wharton, quando este estendeu o braço por entre as barras da sua cela para lhe tocar.
O Brutal concordou com um acenar de cabeça.
- Foi por isso que o John se mostrou tão surpreendido”, tão chocado. Recordam-se da forma como os seus olhos se arregalaram?
- Ele serviu-se do Percy para abater o Wharton - intervim com um acenar de cabeça -, como se este fosse uma arma, como disse a Janice, e foi isso que não lhe saiu da cabeça. Por que motivo é que o John Coffey havia de querer matar o Bill Selvagem? O Percy, sim... foi ele quem espezinhou o rato do Delacroix mesmo à nossa frente, foi o Percy quem queimou o Delacroix ainda em vida, como o John sabia, mas o Wharton? Este causou problemas a todos nós, de uma maneira ou de outra, mas nunca se meteu pessoalmente com o John. Tanto quanto sei, disse-lhe uma dezena de palavras durante o tempo em que estiveram na Milha, e metade delas foram ditas nessa última noite. Porque é que ele haveria de querer fazer uma coisa dessas? Era oriundo do município de Purdom e nessa região os brancos não dão pela presença de um negro, a menos que este, por mero acaso, apareça na rua deles. Portanto, o que é que o levou a fazer aquilo? O que é que ele poderia ter sentido ou visto de tão grave quando o Wharton lhe tocou que guardou em si o veneno que extraiu do corpo da Melinda?
- E quase se matou devido a essa atitude - atalhou o Brutal.
- É verdade. As gêmeas Detterick foram a única justificação que me ocorreu para explicar o seu ato. Disse a mim mesmo que essa idéia era um autêntico disparate, uma coincidência demasiado grande, que era impossível. Mas foi então que me recordei de algo que o Curtis Anderson tinha escrito no primeiro memorando que recebi sobre o Wharton... Que este era completa-mente louco, e que tinha vagueado por todo o estado antes do assalto em que matou toda aquela gente. “Tinha vagueado por todo o estado.” Isso ficou-me gravado na mente. Além do mais, havia ainda a maneira como ele tentara sufocar o Dean quando chegou ao bloco. Foi isso que me levou a pensar no...
- No cão - completou o Dean. Esfregava o pescoço na região onde o Wharton tinha enrolado a corrente. Não me parece que ele tivesse consciência do que estava a fazer.
A forma como o pescoço do cão foi fraturado.
- Seja como for, decidi ir até ao município de Purdom examinar os registros do tribunal referentes ao Wharton... Tudo o que tínhamos aqui eram os relatórios sobre os assassínios que o trouxeram para a Milha Verde. Por outras palavras, fim da sua carreira criminal. O que eu desejava era o princípio de muitos problemas? - perguntou o Brutal.
- Efetivamente. Vandalismo e pequenos furtos; lançou fogo a montes de feno e até o furto de um explosivo... Ele e um amigo roubaram uma barra de dinamite e fizeram-na explodir na margem de um riacho. Não há dúvida de que ele começou cedo, apenas com dez anos de idade; contudo, o que eu queria saber não se encontrava nessa documentação. Foi então que apareceu o xerife, para saber o que é que eu estava a fazer ali, e isso foi uma sorte. Contei-lhe uma aldrabice, dizendo-lhe que uma busca revelara uma grande quantidade de fotografias escondidas debaixo do colchão do Wharton... fotografias de garotinhas nuas. Acrescentei que pretendia saber se o Wharton tinha algum histórico como pederasta, porque ouvira falar de uns dois casos por resolver no Tennessee. Tive o cuidado de não mencionar as gêmeas Detterick. Tenho a impressão de que esse assunto também nunca lhe ocorreu.
- É claro que não - corroborou o Harry. - Porque é que ele se haveria de ter lembrado desse caso? Ao fim e ao cabo, acabou por ser resolvido.
- Eu disse-lhe que calculava que não faria qualquer sentido ir atrás dessa idéia, uma vez que não existia nada a esse respeito no cadastro do Wharton. Quero dizer, havia muita coisa nos registros, mas nada que se relacionasse com esse gênero de coisa. Então o xerife... Catlet, é como ele se chama... riu-se e disse que nem toda a gente era tão má rês como o “Bill” Wharton e que tudo o que ele fizera estava registrado na documentação do tribunal. Perguntou-me que interesse é que isso poderia ter agora? Ele estava morto, não era?
“Justifiquei-me, dizendo-lhe que procedia àquelas investigações apenas com o propósito -de satisfazer a minha curiosidade e nada mais, e isso descontraiu-o um pouco. Levou-me para o seu gabinete, convidou-me a sentar, ofereceu-me uma caneca de café e um donut, e contou-me que havia dezesseis meses, quando o Wharton acabara de fazer os dezoito anos, fora apanhado por um homem a oeste do condado no celeiro com a filha. Não se tratou exatamente de um caso de violação; o tipo descreveu o acontecimento ao Catlet como “não muito mais do que um dedo enfiado na coisa”. Desculpa a vulgaridade, querida.
- Não tem importância - disse Janice. No entanto, tinhas faces empalidecidas.
- Que idade tinha a rapariga? - inquiriu o Brutal. - Nove anos - respondi.
Ele retraiu-se.
- O próprio homem poderia ter-se encarregado do Wharton, se tivesse irmãos mais velhos ou primos que lhe dessem uma ajuda, mas não era esse o caso. Por isso, decidiu ir falar com o Catlet e deixou bem claro que só pretendia que o Wharton fosse advertido. Ninguém deseja que um assunto de uma natureza tão desagradável como aquela viesse a ser do domínio público. Seja como for, há muito que o xerife Catlet tratava das travessuras do Wharton... Mandara-o para uma instituição correcional durante mais ou menos oito meses quando tinha quinze anos... e decidira que aquilo já estava a passar das marcas. Reuniu três assistentes, foram até casa do Wharton, afastaram Mrs. Wharton quando esta começou a choramingar e a lamentar-se, e disseram ao William Billy “the Kid” Wharton o que costumava acontecer aos matulões desastrados, com borbulhas na cara, que tinham por hábito subir até ao sótão com feno dos celeiros com menininhas que ainda não tinham idade suficiente para terem ouvido falar das suas regras mensais, quanto mais terem idade para ser menstruadas. “Demos um bom aviso a esse pequeno arruaceiro”, disse-me o Catlet. “Advertimo-lo até ele ter começado a sangrar da cabeça, deslocado uma omoplata e ficado com o traseiro quase em carne viva.”
Embora houvesse tentado conter-se, o Brutal desatou às gargalhadas.
- Isso é mesmo típico do município de Purdom - disse ele. - Sem tirar nem pôr.
- Foi mais ou menos três meses depois disso que ° Wharton deu início às suas escapadelas violentas que culminaram no assalto - acrescentei. - Nisso e nos assassínios que o trouxeram até nós.
- Portanto, isso significa que ele já se tinha metido com uma menor, pelo menos numa ocasião - interveio o Harry. Tirou os óculos do nariz, lançou bafo para as lentes e começou a limpá-las. - De muito menor idade. Mas uma vez não pode ser considerado um padrão de comportamento, não é verdade?
- Um homem não se limita a fazer uma coisa dessas apenas numa ocasião - atalhou a minha mulher, cerrando os lábios com tanta força que dava a impressão que estes lhe tinham desaparecido do rosto.
Em seguida, descrevi-lhes a minha visita ao município de Trapingus. Eu fora bastante mais franco com o Rob McGee... Com efeito,. não me restara alternativa. Até hoje não faço a mínima idéia da espécie de história que ele magicou para contar a Mister Detterick, mas a realidade é que o McGee que se sentou ao meu lado ao balcão do restaurante parecia ter envelhecido uns sete anos.
Em meados de Maio, aproximadamente um mês antes do assalto e dos homicídios que puseram cobro à curta carreira criminal do Wharton, o Klaus Detterick pintou o celeiro (e, diga-se a título de curiosidade, também a casinha do Bowser, que lhe ficava adjacente). Não quisera que o filho trepasse para os andaimes e, em qualquer dos casos, o rapaz freqüentava a escola nessa altura, pelo que decidiu contratar um sujeito que lhe fizesse esse trabalho. Um fulano simpático. Muito sossegado. A tarefa levara três dias a completar. Não, o sujeito não pernoitara na casa, o Detterick não era irresponsável ao ponto de acreditar que um sujeito simpático e sossegado significasse ser de confiança, especial-mente nesses tempos em que havia tanta escumalha desempregada a vaguear por todas as estradas do estado. Um homem que tivesse família deveria ter todos os cuidados. Em qualquer dos casos, o homem não necessitara de alojamento; disse ao Detterick que alugara um quarto na cidade, no estabelecimento da Eva Price. De fato, havia uma senhora de nome Eva Price em Tefton, e efetivamente ela alugava quartos; contudo, nesse mês de Maio não teve um hóspede que se ajustasse à descrição que o Detterick fez do homem que contratara; em sua casa encontravam-se alojados apenas os indivíduos habituais de chapéus moles e fatos aos quadrados, acompanhados das suas malas de amostras... por outras palavras, os caixeiros-viajantes. O McGee pôde contar-me isso porque fora até casa de Mrs. Price ao voltar da quinta do Detterick, a fim de confirmar o que este lhe dissera, o que mostra até que ponto é que ficara perturbado.
- Ainda assim - acrescentou ele -, não existe qualquer lei que impeça um homem de dormir ao relento no bosque, Mister Edgecombe. Eu próprio já fiz isso numa ou duas ocasiões.
O homem contratado não tinha pernoitado em casa dos Detterick, embora houvesse jantado duas vezes com a família. Teria tido oportunidade de conhecer o Howie e as duas garotas, a Cora e a Kathe. Teria tido ocasião de ouvir as suas tagarelices, o quanto ambas se sentiam ansiosas pela chegada do Verão, porque caso se portassem bem e as noites estivessem quentes, a mãe por vezes deixava-as dormir no alpendre onde poderiam fingir que eram mulheres dos colonizadores a atravessar as grandes planícies em carroças Conestoga,
- Eu estou a imaginá-lo sentado à mesa, a comer galinha assada com o pão de centeio feito por Mistress Detterick, ouvindo atentamente com os seus olhos de lobo bem velados, acenando com a cabeça e sorrindo um pouco, enquanto ia armazenando todas aquelas informações.
- Essa descrição não se ajusta nada ao homem selvático de que me falaste, quando ele chegou à Milha, Paul - interveio a Janice com uma expressão de dúvida. - Nem um pouco.
- Está a dizer isso porque não teve oportunidade de o ver no hospital de Indianola, minha senhora - atalhou o Harry. - Ali de pé com a boca aberta e o traseiro a ver-se pela abertura da bata do hospital. Permitindo que o vestíssemos. Pensamos que ou ele estava drogado ou era apatetado. Não é verdade, Dean?
Este acenou afirmativamente.
- No dia em que acabou de pintar o celeiro e deixou a quinta, um homem com o rosto coberto por um lenço assaltou os escritórios dos Transportes Hampey, situados em Jarvis - continuei. - Conseguiu fugir com setenta dólares. Também se apoderou de um dólar de prata de mil oitocentos e noventa e dois, que a empresa de transportes guardava como uma espécie de amuleto da sorte. Esse dólar de prata foi encontrado na posse do Wharton quando ele foi capturado, e Jarvis fica apenas a quarenta e oito quilômetros de Teflon.
- Por conseguinte, este assaltante... este homem selvático... achas que ele esteve três dias na quinta do Klaus deste. Rick para o ajudar a pintar o celeiro - disse a minha mulher. -
Jantou na companhia da família e disse “por favor, passem-me as ervilhas”, como qualquer pessoa normal.
- O mais assustador nos homens da laia dele é a maneira de ser absolutamente imprevisível - comentou o Brutal.
É possível que ele tivesse planeado atacar a casa dos Detterick para os chacinar, e depois mudar de idéias, porque uma nuvem ocultou o Sol na altura inoportuna, ou algo de semelhante. Talvez pretendesse apenas manter-se um pouco fora das vistas. Contudo, o mais plausível seria ele já ter as duas garotas debaixo de olho e tencionar regressar à quinta. Não te parece que tenha sido assim, Paul?
Acenei que sim. Claro que era essa a minha opinião. - E temos ainda o nome com que ele se identificou perante o Detterick.
- De que nome é que estás a falar? - perguntou a Janice. ,-.-- Willy Bonney.
Bonney?... Não estou a...
Era o nome verdadeiro do Billy the Kid.
- Oh! - Os olhos dela arregalaram-se ao ouvir aquilo. - Oh! Portanto, isso quer dizer que poderás salvar o John Coffey! Graças a Deus! Só precisas de mostrar a Mister Detterick uma fotografia do William Wharton... Isso deve ser o suficiente...
O Brutal e eu trocamos um olhar constrangido. O Dean mostrava uma expressão um tanto esperançosa, mas o Harry não despregava o olhar das mãos que tinha no colo, como se, de repente, tivesse desenvolvido um enormíssimo fascínio pelas suas próprias unhas.
- O que é que se passa? - perguntou a Janice. - Porque é que estão a olhar uns para os outros dessa maneira? Com certeza que esse homem, o McGee terá de...
- O Rob McGee pareceu-me ser um homem de bem, e estou em crer que é um excelente polícia - disse eu. - No entanto, não tem qualquer peso no município de Trapingus. Quem detém o poder por aquelas paragens é o xerife Cribus, e o dia em que ele decidir reabrir o caso do Detterick com base naquilo que eu descobri será o dia em que começará a nevar no inferno.
- Mas... se o Wharton esteve lá... se o Detterick tem possibilidades de o identificar por uma fotografia, e se eles souberem que ele esteve presente...
- O fato de ele poder lá ter estado em Maio não significa, necessariamente, que tenha regressado em Junho para matar as duas garotinhas - argumentou o Brutal. Falava num timbre de voz baixo e suave, tal como quando se costuma anunciar a morte de um familiar. - Por um lado, temos esse fulano que ajudou o Klaus Detterick a pintar o celeiro e que depois se foi embora. Veio a descobrir-se que andava a cometer crimes por tudo quanto era lugar. Todavia, não existe nada contra o homem que durante os três dias, em Maio, andou pelos arrabaldes de Tefton. Por outro lado, temos esse negro enorme, de fato, esse negro gigantesco que foi encontrado na margem do rio, tendo nos braços duas meninas mortas completamente nuas.
Brutus abanou a cabeça.
- O Paul tem toda a razão, Jan. O McGee poderá ter as suas dúvidas, mas o que ele pensa não é importante. O Cribus é o único com poderes para reabrir o caso, mas não deseja interferir com aquilo que está convencido ter sido um fim feliz... “Foi um negro”, pensará ele, “e não, seja como for, um dos nossos. Esplêndido. Irei até Cold Mountain, como um bom bife acompanhado de uma bela cerveja à pressão num restaurante qualquer, depois vejo-o ser frito e será o fim de todo este assunto.”
A Janice ouviu tudo aquilo com uma expressão de horror crescente espelhada no rosto, e voltou-se para mim.
- Mas o McGee acredita no que tu descobriste, não é verdade, Paul? Eu vi isso no teu rosto. O assistente do xerife, o McGee, sabe que prendeu o homem errado. Não estará ele disposto a fazer frente ao xerife?
- O que ele pode conseguir ao enfrentar o xerife é perder o emprego - redargui. - Sim, acredito que bem no fundo do seu coração ele sabe que os crimes foram cometidos pelo William Wharton. Mas aquilo que diz a si próprio é que se mantiver a boca fechada e alinhar no jogo até o Cribus se aposentar, ou este se empanturrar até à morte, é que será ele quem virá a ocupar o seu lugar. E nessa altura as coisas serão diferentes. É isto o que ele repete a si mesmo todas as noites antes de conciliar o sono, imagino eu. E muito provavelmente, nisso não difere muito do Homer. Dirá a si mesmo: “Ao fim e ao cabo, o homem não passa de um negro. Não se pode dizer que vão eletrocutar um branco por um crime que ele não cometeu.”
- Nesse caso, tens de ir falar com eles - insistiu a Janice de uma forma que me fez gelar o coração, devido à profunda determinação que adivinhei na sua voz. - Vais ter de os pôr ao corrente daquilo que descobriste.
- E vamos dizer-lhes que descobrimos como, Jan? - perguntou o Brutal no mesmo timbre de voz. - Achas que devemos descrever a maneira como o Wharton agarrou o John quando íamos a tirá-lo da prisão para ele poder efetuar um milagre na mulher do diretor?
- Não... claro que não, mas... - Ela compreendeu até que ponto o gelo estava fino naquela direção, e começou a patinar numa outra. - Nesse caso, serão obrigados a mentir - continuou ela. Lançou um olhar de desafio ao Brutal, depois fitou-me. O olhar dela era tão quente, que quase seria capaz de queimar um buraco num jornal. -
- Mentir - repeti. - Mentir acerca de quê?
- Sobre o motivo que te levou a tomar a iniciativa de ires até ao município de Purdom e depois ao de Trapingus. Vai até lá falar com esse xerife gordo, o Cribus, e diz-lhe que o Wharton te contou que tinha assassinado as gêmeas Detterick. Diz-lhe que ele confessou. - Por breves momentos, a Janice concentrou o seu olhar acalorado no Brutal. - Tu podes confirmar o que ele disser, Brutus. Podes dizer que estavas presente quanto ele confessou e que ouviste tudo. Pois bem, provavelmente também o Percy testemunhou tudo, e talvez tenha sido precisamente isso que o fez perder as estribeiras. Alvejou o Wharton porque não foi capaz de suportar a idéia daquilo que este fizera àquelas crianças. Afetou-lhe a mente. Aconteceu que... O quê? O que foi agora, em nome de Deus?
Não era só eu e o Brutal; o Harry e o Dean também a fitavam com uma espécie de horror.
Nunca dissemos nada desse gênero, minha senhora - declarou o Harry. Expressava-se como se falasse a uma criança. - A primeira pergunta que as pessoas fariam seria por que motivo não o tínhamos feito já. É nosso dever participar tudo o que os nossos bebês de cela dizem a respeito dos seus crimes anteriores. Dos seus e dos de outros prisioneiros.
- Não que tivéssemos acreditado nele - atalhou o Brutal. - Um homem como o Bill “Selvagem” Wharton é capaz de mentir sobre tudo e mais alguma coisa, Jan. Sobre os crimes por ele cometidos, gente importante que conheceu, mulheres com quem foi para a cama, os jogos em que participou na escola secundária, até mesmo sobre o raio do tempo.
- Mas... mas... - O semblante da Janice era de grande agonia. Aproximei-me dela, colocando o meu braço à volta dos seus ombros mas ela afastou-o violentamente. – Mas ele esteve lá! Foi ele quem pintou o maldito do celeiro da quinta! ELE JANTOU NA COMPANHIA DELES!
- Mais uma razão para chamar a si todo o crédito pelo crime - interpôs o Brutal. - Ao fim e ao cabo, que mal é que poderia advir daí? Por que razão é que ele não se vangloriou? Afinal de contas, não se pode fritar um homem duas vezes.
- Deixem-me ver se estou a compreender corretamente esta situação. Nós sabemos que o John Coffey não só não matou essas garotas, como também tentou salvar as suas vidas. O assistente do xerife, o McGee, não se encontra ao corrente de tudo isto, como é evidente; no entanto, não deixa de calcular que o homem condenado à morte por causa desses crimes não é aquele que os cometeu. E ainda assim... mesmo assim... vocês não conseguem fazer com que ele seja julgado de novo. Nem sequer são capazes de reabrir o caso.
- É isso mesmo - afirmou o Dean, que limpava furiosamente as lentes dos óculos. - Isso resume mais ou menos a situação.
A Janice ficou sentada de cabeça baixa, embrenhada nos seus pensamentos. O Brutal começou a dizer qualquer coisa, mas eu ergui a mão para o calar. Não acreditava que a Janice fosse capaz de engendrar uma maneira de safar o John Coffey da cadeira elétrica, da qual ele já se encontrava bastante próximo, apesar de, ao mesmo tempo, estar em crer que isso não seria completamente impossível. A minha mulher era uma senhora inteligente e destemida. E muito determinada. Essa combinação tinha por vezes o poder de transformar montanhas em vales.
- Muito bem - disse ela ao fim de algum tempo. - Nesse caso, terão de ser vocês a fazê-lo sair da prisão. - Minha senhora?! - exclamou o Dean, absolutamente atordoado. E assustado, também.