À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 8 de 9 · parte 4/4

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À Espera de um Milagre

Parte Seis .........................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O Dean Stanton estendeu a correia - que deixou o mais larga que lhe foi possível - a toda a largura do peito do John, e entregou-ma. Tivéramos tanto cuidado a tentar proteger o Dean na noite em que fizemos a nossa viagem, por causa dos seus filhos, desconhecendo que lhe restavam menos de quatro meses de vida. Depois da morte do John Coffey, pediu transferência para o Bloco C, afastando-se da Velha Faísca, e foi lá que um prisioneiro o apunhalou na garganta com o cabo de uma colher, acabando o Dean por deixar o sangue da sua vida derramado sobre o soalho conspurcado. Nunca cheguei a saber por que motivo. Não me parece que alguém tenha vindo a descobrir a razão daquele ato. A Velha Faísca é uma coisa de onde emana uma grande perversidade, concluo eu sempre que me recordo desses dias. Todos nós somos frágeis que nem vidro a ser soprado, até mesmo sob as melhores condições imagináveis. Matarmo-nos uns aos outros com gás e eletricidade, a sangue-frio? Que loucura. Que horror.

O Brutal verificou a correia e retrocedeu. Esperei que ele começasse a falar, mas não o fez. Enquanto cruzava as mãos atrás das costas, mantendo-se numa posição de à-vontade em formação militar, eu soube que ele não diria nada. Talvez não fosse capaz. Não me pareceu que eu próprio estivesse capaz de proferir uma única palavra, mas então olhei para os olhos lacrimosos e atemorizados do John e concluí que não poderia evitar. Ainda que fosse amaldiçoado para todo o sempre, não me restava outra alternativa.

- Prosseguir com a fase dois - ordenei numa voz pouco firme e enrouquecida, que mal reconheci como sendo a minha.

O capacete começou a zunir. Dez grandes dedos ergueram-se das extremidades dos amplos braços de carvalho da cadeira, abrindo-se tensamente em dez direções diversas, com as pontas a tremerem espasmodicamente. Os joelhos enormes agitavam-se como pistões cujos êmbolos não tinham espaço suficiente; contudo, as braçadeiras que lhe prendiam os artelhos mantiveram-se firmes. No teto, três das lâmpadas suspensas estilhaçaram-se - com o ruído característico do vidro a desfazer-se em fragmentos. A Marjorie Detterick soltou um grito ao ouvir aquele som, desmaiando nos braços do marido. Decorridos dezoito anos, ela veio a morrer em Memphis. Foi o Harry quem me enviou a notícia do óbito. Faleceu num acidente com um elétrico.

O corpo do John sofreu um violento impulso contra a correia do peito. Por breves momentos, os seus olhos cruzaram-se com os meus. Estavam bem alerta; eu fui a última imagem que ele viu enquanto o empurrávamos pelo precipício do mundo. Em seguida, descaiu contra as costas da cadeira, com o capacete ligeiramente inclinado em cima da cabeça, o fumo - uma espécie de nuvem enegrecida - a evolar-se de debaixo dele. Mas sabem, de uma maneira geral, tudo aquilo se processou com rapidez. Duvido que ele não tenha sofrido dores, tal como os defensores da cadeira elétrica afirmam (é uma noção que nem sequer os mais acérrimos de entre eles mostrou alguma vez vontade de investigar), mas foi célere. As mãos voltaram a ficar inertes, com as meias-luas na base das unhas anteriormente branco-azuladas agora de uma tonalidade carregada de berinjela, enquanto se evolava um anel de fumo das faces ainda molhadas com a solução salina da esponja... e das lágrimas.

As derradeiras lágrimas do John Coffey.

Eu estava bem até chegar a casa. Por essa altura já era de madrugada e os pássaros já tinham começado a fazer ouvir os seus trinados. Estacionei o calhambeque, saí, dirigi-me para os degraus das traseiras, e foi então que me senti invadido pelo segundo maior desgosto de toda a minha vida. Foi o fato de ter pensado no quanto ele receava a escuridão que fez com que aquela sensação me assolasse. Recordei-me da primeira vez em que nos víramos, como ele me tinha perguntado se costumávamos deixar as luzes ligadas durante a noite, e senti as pernas enfraquecidas. Sentei-me nos degraus, verguei a cabeça para cima dos joelhos e comecei a chorar. Não me pareceu que chorasse apenas pelo John, mas sim por todos nós.

Entretanto, a Janice saiu de casa e sentou-se ao meu lado. Colocou um braço em redor dos meus ombros.

- Não o magoaste mais do que o indispensável, não é verdade? - Abanei a cabeça num gesto de negação. - E ele desejava ir. - Acenei que sim. - Vem para dentro – disse ela, ajudando-me a levantar. Fez-me recordar a forma como o John me tinha ajudado a levantar quando ambos estivéramos a rezar. - Vem para dentro e bebe uma caneca de café.

Fiz o que ela aconselhou. Decorreu a primeira manhã, e depois a primeira tarde; em seguida, veio o primeiro turno de regresso ao trabalho. O tempo encarrega-se de tudo, quer isso nos agrade ou não. O tempo apaga tudo, a passagem do tempo dilui as recordações na nossa memória, e no fim só nos resta a escuridão. Por vezes, encontramos outros nessa escuridão e noutras ocasiões perdemo-los nesse mesmo espaço do tempo. E isso é tudo o que sei, exceto que isto teve lugar em 1932, quando a penitenciária estatal ainda era em Cold Mountain.

Assim como a cadeira elétrica, claro.

 

12

Por volta das duas e um quarto, a minha amiga Elaine Connelly veio até junto de mim, quando eu ainda me encontrava sentado no solário com as últimas páginas da narrativa bem organizadas à minha frente. As suas faces mostravam-se bastante empalidecidas e na pele abaixo dos olhos havia um certo brilho. Fiquei 'com a impressão de que tinha estado a chorar.

Por mim, limitara-me a olhar. Precisamente isso. A olhar pela janela em direção às colinas situadas a oriente, sentindo a mão direita a latejar no extremo do seu pulso. Mas de certa forma, aquele latejar era tranqüilizante. Sentia-me vazio, como se houvesse sido despojado da minha pele. Um sentimento que era, simultaneamente, maravilhoso e aterrorizador.

Foi-me difícil enfrentar o olhar da Elaine - receava o ódio e o desprezo que talvez pudesse vislumbrar nos seus olhos - mas tal não aconteceu. A sua expressão era triste e interrogadora, mas não me causava qualquer intranqüilidade. Nela não lia ódio nem tão-pouco desdém, apenas descrença.

- Queres ler o resto da história? - perguntei. Com a minha mão dorida, dei uma pancadinha sobre a pequena pilha de folhas manuscritas à minha frente. - Está aqui, mas compreendo se preferires não...

- Não se trata de uma questão daquilo que quero - atalhou ela. - Tenho de saber como é que tudo veio a desenrolar-se, embora calcule que não possa haver a mais pequena dúvida quanto ao fato de o teres executado. A intervenção da Providência, com um “pê” maiúsculo, é exageradamente superestimada na vida do comum dos mortais, penso eu. Mas antes de agarrar nessas páginas... Paul...

A Elaine deteve-se, como que insegura quanto à forma como deveria prosseguir. Esperei. Por vezes, é-nos impossível ajudar as pessoas. Por vezes, é preferível nem sequer tentar.

- Paul, a julgar pela maneira como escreves, dá a impressão de que em mil novecentos e trinta e dois já tinhas dois filhos crescidos... não só um, mas sim dois. Ora, se não te casaste com a tua Janice quando tinhas apenas doze anos e ela onze, qualquer coisa mais ou menos assim...

- Éramos muito jovens quando casamos... - comecei a dizer, esboçando um sorriso. - Muitas das pessoas das regiões montanhosas casam cedo, a minha mãe também... bom, mas também não era assim tão jovem.

- Sendo assim, quantos anos tens? Sempre parti do princípio que andarias pelos oitenta e pouco, que talvez fosses da minha idade, possivelmente até mesmo um pouco mais novo, mas a fazer fé nos teus escritos...

- No ano em que o John percorreu pela última vez a Milha Verde, eu tinha quarenta anos - continuei. - Nasci em mil oitocentos e noventa e dois. O que significa que tenho cento e quatro anos, se os meus cálculos não me enganam. A Elaine ficou a olhar para mim incapaz de falar.

Agarrei nas últimas folhas do manuscrito, recordando-me uma vez mais de como o John me tinha tocado no interior da sua cela. Não vai explodir, dissera ele, esboçando um pequeno sorriso perante aquela idéia, e realmente eu não explodira... embora algo me tivesse acontecido. Algo duradouro. - Lê o resto da história - aconselhei. - Todas as respostas que eu possa ter encontram-se aí.

- De acordo - respondeu a Elaine numa voz que não era mais do que um murmúrio. - Devo confessar que me sinto um tudo-nada receosa, não posso negar, mas... muito bem. Para onde é que tencionas ir quando saíres daqui?

Levantei-me da cadeira, espreguicei-me e ouvi os estalos da minha espinha. Uma coisa que eu sabia era que estava mais que farto do solário.

- Vou para o campo de jogos. Ainda há uma coisa que gostaria de te mostrar e que fica nessa mesma direção. - É alguma coisa... assustadora? - perguntou a Elaine a medo, e na sua expressão tímida adivinhei a menininha que ela outrora fora, quando os homens costumavam usar chapéus de palhinha no Verão e casacos de pele de guaxinim no Inverno.

- Não - repliquei com um sorriso. - Não é assustador. - De acordo. - Agarrou nas folhas que eu lhe estendia. - Vou levar isto para o meu quarto. Encontramo-nos mais tarde no campo de jogos, por volta das... - Folheou o manuscrito, calculando o tempo de que necessitaria para o ler. - Quatro? Essa hora está bem para ti?

- Perfeitamente - respondi, pensando no curioso Brad Dolan. A essa hora já ele teria largado o serviço.

A Elaine estendeu a mão e deu-me um pequeno aperto no braço num gesto caloroso, afastando-se em direção ao seu quarto. Deixei-me ficar no mesmo lugar por breves momentos, baixando o olhar até à mesa, como se só então compreendesse que se encontrava de novo vazia, com exceção do tabuleiro com o pequeno-almoço que a Elaine me trouxera nessa manhã. Não sei porquê, mas era-me difícil acreditar que já estivesse despachado.., e uma vez que tudo o que eu escrevera tinha sido depois de ter registrado a execução do John Coffey e entregue o último conjunto de páginas à Elaine, é claro que ainda não estava despachado. E até mesmo então, parte de mim sabia por que razão.

Alabama.

Agarrei no último pedaço de torrada já fria que se encontrava no tabuleiro e desci as escadas, dirigindo-me ao campo de jogos. Ali chegado, sentei-me ao sol, vi meia dúzia de casais e depois um quarteto que caminhava num passo lento mas animado, acenando com os maços de croquet, e embrenhei-me nos meus pensamentos de homem idoso, deixando que os raios solares aquecessem os meus ossos já velhos.

Por volta das duas e quarenta e cinco, as pessoas que trabalhariam no turno das três às onze começaram a chegar, vindas do parque de estaciona-mento; às três da tarde, os que trabalhavam no turno da manhã começaram a sair. A maioria saía em grupos; todavia, o Brad Dolan, reparei eu, caminhava sozinho. Para mim, aquela foi uma visão que me deixou satisfeito; ao fim e ao cabo, talvez o mundo ainda não se encontrasse completamente à beira do inferno. Um dos seus livros de piadas saía-lhe pela parte de cima do bolso de trás das calças. O caminho que leva ao parque de estacionamento atravessa o campo de Jogos, pelo que ele me viu ali, mas não me mimoseou nem com uma expressão de repreensão nem com um acenar da mão, o que não me incomodou minimamente. Entrou no seu velho Chevrolet, com o autocolante no pára-choques que dizia: “Eu vi DEUS E O SEU NOME É NEWT.” Pouco depois já ele tinha partido para onde quer que costumava ir quando não estava a trabalhar ali, deixando atrás de si um rasto fino de óleo.

Por volta das quatro horas, a Elaine veio ter comigo, tal e qual como havia prometido. A julgar pela expressão do seu olhar, havia chorado um pouco mais. Colocou os braços à minha volta e deu-me um abraço apertado.

- Pobre John Coffey - disse ela. - E, também, pobre Paul Edgecombe.

Pobre Paul, ouvi a voz de Jan a dizer. Pobre homem. A Elaine recomeçou a chorar uma vez mais. Tomei-a nos meus braços, ali, no campo de jogos banhado pelos últimos raios de sol daquele fim de tarde. As nossas sombras pareciam dançar. Talvez no Salão de Baile das Ilusões, o programa que costumávamos ouvir no rádio nesses tempos de outrora.

Ao fim de algum tempo, ela conseguiu recompor-se,. afastando-se de mim. Encontrou um lenço de papel na algibeira da blusa com que limpou os olhos marejados de lágrimas.

- O que é que aconteceu à mulher do diretor da prisão, Paul? O que é que sucedeu à Melly?

- Foi considerada a maravilha da sua era, pelo menos no que dizia respeito aos médicos do hospital de Indianola . respondi. Dei-lhe o braço e começamos a andar na direção da vereda que saía do parque de estacionamento, entrando no bosque. A caminho do barracão próximo do muro existente entre Georgia Pines e o mundo da gente mais jovem. - Ela morreu... de um ataque cardíaco e não de um tumor no cérebro, dez ou onze anos mais tarde. Parece-me que foi em quarenta e três. O Hal faleceu de uma trombose por alturas do ataque a Pearl Harbor... é possível que tenha sido mesmo no dia de Pearl Harbor, tanto quanto me é dado recordar, o que significa que ela lhe sobreviveu por dois anos. O que até certo ponto é uma ironia.

- E quanto à Janice?

- Hoje não estou muito preparado para abordar esse assunto - disse eu. - Falar-te-ei disso noutra ocasião.

- Prometes? - perguntou a Elaine.

- Prometo. - Mas foi uma promessa que eu nunca cheguei a cumprir. Três meses depois do dia em que caminhamos juntos até ao arvoredo (eu ter-lhe-ia dado a mão, não fora o receio que sentia em lhe magoar os dedos enodados e inchados), a Elaine Connelly morreu tranqüilamente na sua cama. Tal como acontecera à Melinda Moores, a sua morte foi provocada por um ataque cardíaco. O auxiliar de enfermagem que a encontrou morta disse que ela tinha uma expressão serena, como se a morte houvesse chegado inesperadamente, sem lhe ter causado grande sofrimento. Espero que ele tenha tido razão quanto a isso. Eu amava a Elaine. Sinto muito a falta dela. Dela, da Janice e do Brutal, assim como de quase todos eles.

Chegamos ao segundo barracão à beira do caminho, o que se encontrava mais próximo do muro. Situava-se por detrás de uma espécie de abrigo formado por uns pinheiros enfezados; o teto, que tinha cedido, e as janelas entaipadas estavam mosqueados de sombras. Dirigi-me para o barracão. A Elaine ficou para trás por um momento, mostrando-se receosa.

- Não tenhas medo - disse-lhe eu. - A sério. Podes vir à vontade.

A porta não tinha trinco - este existira em tempos, mas entretanto fora arrancado - pelo que eu usava um bocado de cartão dobrado para poder mantê-la fechada. Abri-a e entrei no barracão. Deixei a porta toda aberta para trás, uma vez que no interior fazia escuro.

- Paul, o que é que?... Oh! Oh! - Aquele segundo “oh” tinha sido quase um grito.

Uma mesa fora afastada para um dos lados. Sobre o seu tampo estava uma lanterna e um saco de papel castanho. No chão de terra batida encontrava-se uma caixa de charutos

Hav-A-Tampa, que eu obtivera do empregado da empresa que tem a concessão das máquinas de refrigerantes e de doces do lar. Tinha-lhe pedido aquela caixa muito em especial, uma vez que a empresa em que ele trabalhava também comercializava produtos tabaqueiros, pelo que ele não teve qualquer dificuldade em satisfazer o meu pedido. Ofereci-me para lha pagar - na altura em que eu trabalhara em Cold Mountain aquele gênero de artigo tinha muito valor, tal como possivelmente já vos disse - mas ele limitou-se a rir perante a minha oferta.

A espreitar pelo acostamento da caixa, viam-se dois olhinhos vivos, negros como contas.

- Mister Jingles – chamei em voz baixa. - Vem até aqui. Vem cá, meu velho, vem ver esta senhora. Agachei-me - as articulações doeram-me, mas com algum esforço consegui baixar-me - e estendi a mão. De início não pensei que desta vez ele fosse capaz de sair do bordo da caixa, mas, com um impulso final, foi bem sucedido. Tombou no chão de lado, e lá se pôs de pé, aproximando-se. Corria com um ligeiro coxear numa das patas traseiras; a lesão que o Percy lhe infligira tinha-se acentuado nos anos de velhice do Mister Jingles. Os seus anos de velhice, velhice. Com a exceção da região superior da cabeça e a ponta da cauda, todos os seus pêlos haviam ficado completamente grisalhos.

Deu um salto para a palma da minha mão. Ergui-o e ele começou a esticar o pescoço, a farejar o meu bafo com as orelhas inclinadas para trás, mostrando uma expressão ávida nos seus pequeníssimos olhos negros e cintilantes. Estendi a mão na direção da Elaine, que olhava, estupefata, para o rato, e os lábios entreabertos.

- Não pode ser! - exclamou ela, erguendo os olhos para mim. - Oh, Paul, não é... não pode ser!

- Observa - disse-lhe eu -, e depois diz-me isso. Do saco que se encontrava sobre a mesa retirei um carretel que eu próprio havia colorido - não com lápis de cera, mas sim com canetas de feltro, uma invenção com que nem sequer se sonhava em 1932. No entanto, o resultado final era rigorosamente o mesmo. As cores eram tão garridas como tinham sido as do Del, talvez mesmo mais vivas. Messieurs et mesdames, pensei. Bienvenue au cirque du mousie!

Agachei-me de novo e o Mister Jingles correu para fora da palma da minha mão. Estava velho, apesar de se mostrar tão obcecadamente empenhado como sempre. Desde o momento em que eu tirara o carretel do interior do saco, deixara de ter olhos para mais o que quer que fosse. Fi-lo rolar pelo chão irregular do barracão e, de imediato, ele correu atrás do carretel. A sua corrida não tinha a mesma velocidade de antigamente, e o seu coxear era, até certo ponto, doloroso de observar, mas por que motivo é que naquela altura ele deveria ter sido veloz ou firme na sua corrida? Tal como eu já disse, ele era velho, um verdadeiro Matusalém dos ratos. Tinha, no mínimo dos mínimos, sessenta e quatro anos de idade.

Alcançou o carretel que batera contra a parede mais afastada, fazendo ricochete. Contornou-o e ficou deitado sobre um dos flancos. A Elaine fez menção de avançar, mas eu contive-lhe o movimento. Momentos depois, o Mister Jingles conseguiu pôr-se de pé uma vez mais. Devagar, muito devagar começou a empurrar o carretel na minha direção, servindo-se do focinho. Quando ele tinha chegado - eu encontrara-o caído nos degraus que dão para a cozinha exatamente dessa mesma maneira, como se houvesse viajado durante uma longa distância e se sentisse exausto - ainda era capaz de conduzir o carretel com as patas, à semelhança do que fizera havia tantos anos pela Milha Verde. No entanto, agora isso encontrava-se para lá das suas forças; as suas patas posteriores já não conseguiam suportá-lo. No entanto, o seu focinho continuava tão experiente e capaz como sempre o fora. Tinha apenas de ir de um extremo ao outro do carretel, a fim de o manter em movimento pela rota certa. Quando chegou junto de mim, peguei-lhe com uma mão - o seu peso não era maior do que o de uma pena - e com a outra peguei no carretel. Os seus olhos negros e cintilantes nunca o largaram.

- Não faças isso outra vez, Paul - pediu-me a Elaine numa voz embargada. - Não consigo suportar vê-lo a correr. Compreendi o que ela sentia, mas pensei que estava enganada ao pedir-me aquilo. O rato adorava correr para ir buscar o carretel; decorridos tantos anos, continuava a gostar tanto de fazer aquilo como sempre. Todos nós deveríamos ser tão afortunados em relação às nossas paixões.

No saco também há rebuçados de hortelã-pimenta - acrescentei. - Imagino que ele continue a gostar deles... não pára de farejar se eu lhe chegar um deles ao focinho, mas o seu aparelho digestivo deteriorou-se demasiado para conseguir comê-los. Em vez disso, costumo trazer-lhe pedaços de torrada.

Agachei-me de novo, parti um bocado pequeno da que trouxera comigo do solário, colocando-o no chão. O Mister Jingles farejou o pão e em seguida agarrou-o com as patas, começando a comer a torrada. Tinha a cauda em espiral enrolada à volta do corpo. Acabou de comer e soergueu o olhar numa expressão de expectativa.

- Por vezes, nós os velhos podemos surpreender os outros com o nosso apetite - disse eu à Elaine, entregando-lhe o que restava da torrada. - Experimenta tu.

Ela partiu outro bocadinho, deixando-o cair no chão. O Mister Jingles aproximou-se e começou a farejá-lo, olhou para a Elaine... em seguida agarrou no pão e começou a comê-lo.

- Estás a ver? - perguntei. - Ele sabe que tu não és uma temporária.

- De onde é que ele veio, Paul?

- Não faço a mais pequena idéia. Um dia, quando saí para dar o meu passeio matinal, dei com ele estendido nos degraus da cozinha. Não tive a mínima dúvida de quem ele era, mas para ter a certeza absoluta fui buscar um carretel à caixa de costura da lavanderia. Em seguida, arranjei a caixa de charutos. Forrei-a com o material mais macio que consegui encontrar. Estou convencido de que ele é exatamente como nós, Ellie... tem dias em que é um completo sofrimento. Ainda assim, não perdeu a vontade de viver. Continua a gostar do carretel e de receber a visita do seu velho companheiro de bloco. Ao longo de sessenta anos guardei a história do John Coffey dentro de mim, mais de sessenta, e agora finalmente passei-a a papel. Fiquei com a idéia de que foi por isso que ele regressou. Para que eu soubesse que deveria apressar-me a contá-la enquanto ainda me restava tempo para o fazer. Porque eu sou como ele... estou cada vez mais a chegar lá. - Achegar onde? - perguntou a Elaine.

- Oh, sabes bem o que quero dizer - repliquei, ficando a olhar em silêncio para o Mister Jingles por alguns momentos. Em seguida, por qualquer razão que não sei definir, voltei a lançar o carretel pelo chão, embora a Elaine me houvesse pedido que não voltasse a fazê-lo. Talvez somente porque, de certa forma, o fato de ele continuar a ir atrás do carretel era como as pessoas de idade levarem a cabo a sua versão lenta e cautelosa da atividade sexual - é possível que você não queira observar, você que é jovem e está convencido de que, quando chegar a velho, será aberta uma exceção no seu caso, mas o certo é que elas continuam a querer ter essa atividade.

O Mister Jingles foi de novo a correr atrás do carretel em movimento, e era evidente que sofria, mas também era evidente (pelo menos, na minha opinião) que sentia a mesma satisfação obsessiva de outros tempos.

- Janelas de folha de mica - murmurou a Elaine, observando o rato na sua corrida.

- Janelas de folha de mica - concordei, esboçando um sorriso.

- O John Coffey tocou no rato da mesma maneira que te tocou a ti. Não se limitou a fazer com que ficasses melhor da doença que te afligia então, ele tornou-te... o quê, será resistente?

- Essa é uma palavra tão boa como qualquer outra, acho eu. - Resistente aos fatores que acabam por derrubar o resto de nós, abatendo-nos como árvores infiltradas por térmitas. Tu... e ele. O Mister Jingles. Quando agarrou nele com as suas mãos.

- Foi isso exatamente. O poder que se manifestava através do John teve esse efeito, pelo menos, é essa a minha opinião, e agora, ele está finalmente a dissipar-se. As térmitas abriram caminho através da casca do nosso tronco. Foi necessário um pouco mais de tempo do que o habitual, mas ainda assim chegaram lá. É possível que ainda me restem mais alguns anos, os homens ainda vivem mais tempo do que os ratos, calculo eu, mas o tempo do Mister Jingles está rapidamente a aproximar-se do fim.

Entretanto, o rato chegou junto do carretel, coxeou à volta dele, caiu de lado com a respiração acelerada (conseguíamos ver o ritmo da sua respiração através dos pêlos acinzentados, em movimentos que se assemelhavam a uma ondulação suave) e em seguida levantou-se e começou a empurrá-lo corajosamente com o focinho. Os seus pêlos estavam quase todos grisalhos e a sua postura era pouco firme, mas as contas negras e cintilantes que eram os seus olhos continuavam tão brilhantes como sempre.

- Achas que ele desejava que tu escrevesses o que escreveste - disse a Elaine. - Não é verdade, Paul?

- Não o Mister Jingles - retorqui. - Não foi ele, mas sim a força que...

- Mas o que é isto, Paulie! E a Elaine Connelly também!!! - gritou uma voz vinda da porta aberta. Estava trespassada de uma espécie de horror satírico. - Mal posso acreditar no que os meus olhos estão a ver! Em nome de Deus, o que é que vocês dois poderão estar a fazer num lugar destes?

Voltei-me, sem me sentir minimamente surpreendido por deparar com o Brad Dolan à entrada do barracão. Exibia um esgar sorridente, daqueles que só é exibido por alguém que sabe que nos enganou muito bem enganados. Que distância é que ele teria percorrido no automóvel, depois de o turno ter terminado? Possivelmente, só até ao The Wrangler, onde tomou uma ou duas cervejas antes de regressar ao lar.

- Ponha-se na rua - disse-lhe a Elaine com grande frieza. - Ponha-se na rua imediatamente.

- Não me diga para me pôr na rua, sua velha cabra engelhada - redarguiu ele, continuando a sorrir. - Talvez possa dizer-me isso lá em cima, na colina, mas acontece que agora não é lá que se encontra. Também não é aqui que devia estar. Isto fica fora dos limites do lar. Um pequeno ninho de amor, Paulie? É para isso que vens até aqui? Uma espécie de antro da Playboy para os da terceira idade... - Os seus olhos arregalaram-se quando finalmente viram o ocupante do barracão. - Mas que merda vem a ser esta?

Não me voltei para ver. Por um lado, sabia o que estava ali; por outro, o passado havia-se subitamente sobreposto ao presente, produzindo uma imagem terrível que, em toda a sua realidade, adquirira proporções tridimensionais. Não era o Brad Dolan quem se encontrava ali na ombreira da porta, mas sim o Percy Wetmore. Dali a um momento, entraria no barracão num passo apressado para espezinhar o Mister Jingles (que já não tinha a mínima esperança de conseguir fugir-lhe) sob o seu sapato de sola dura. E desta feita não havia nenhum John Coffey que o fizesse reviver, arrancando-o das vascas da morte. Da mesma maneira que não houvera nenhum John Coffey quando eu precisei dele naquele dia chuvoso em Alabama.

Pus-me de pé e desta vez não senti qualquer dor nas articulações nem tão-pouco nos músculos; apressadamente, dirigi-me para o Dolan.

- Deixa-o em paz e sossego! - gritei-lhe. - Vais deixá-lo em paz, Percy, ou eu...

- A quem é que estás a chamar Percy? - perguntou ele empurrando-me para trás com tamanha violência que estive prestes a cair. A Elaine agarrou-me, embora lhe devesse ter doído fazer isso, conseguindo evitar que eu perdesse o equilíbrio. - E também não é a primeira vez que me chamas esse nome. E pára de mijar nas calças. Não tenciono tocar-lhe. Não há necessidade. Esse roedor já está morto.

Virei-me para trás, convencido de que o Mister Jingles só estava deitado de lado para recuperar o fôlego, tal como costumava fazer. Não havia dúvida de que estava realmente deitado de lado; todavia, aquela ondulação que se vira sob a pelagem deixara de se ver. Tentei convencer-me de que ainda conseguia detectá-la, mas foi então que a Elaine desatou a chorar num pranto desabalado. Baixou-se, sendo evidente que o movimento a fazia sofrer, e pegou no rato que eu tinha visto pela primeira vez na Milha Verde a dirigir-se para a mesa do guarda de serviço todo destemido, como um homem que se aproximasse dos seus pares... ou dos seus amigos. O rato estava inerte na sua mão. Os seus olhos eram opacos e sem expressão. Tinha morrido.

O Dolan fez uma careta desagradável, revelando uns dentes que nunca haviam sido observados por um dentista. - Cruzes, canhoto! O que é que temos aqui? - perguntou ele. - Será que acabamos de perder o animal de estimação da família? Devemos organizar um pequeno funeral, com flores de papel e...

- CALE A BOCA! - vociferou a Elaine, numa voz tão elevada e vigorosa que ele retrocedeu um passo, com o esgar sorridente a abandonar-lhe os lábios. - PONHA-SE DAQUI PARA FORA! SAIA IMEDIATAMENTE OU GARANTO-LHE QUE NUNCA MAIS TRABALHARÁ UM SÓ DIA AQUI! NEM SEQUER UMA HORA! JURO-LHE QUE ISSO ACONTECERÁ!

- Nem sequer te darão uma fatia de pão na fila para a sopa dos pobres - disse eu, mas numa voz tão baixa que nenhum dos dois me ouviu. Não conseguia desviar os olhos do corpo do Mister Jingles, deitado em cima da palma da mão da Elaine, como se fosse o mais ínfimo tapete do mundo feito de pele de animal.

 

O Brad pensou em responder-lhe na mesma moeda, pondo a descoberto o seu bluff - ele tinha razão, não se podia dizer que o barracão fosse território aprovado para os residentes de Georgia Pines, até eu mesmo estava a par disso - mas optou por não o fazer. Bem lá no fundo, o homem não passava de um cobarde, tal como o Percy. E o mais provável era ele já ter investigado se o neto da Elaine era ou não uma Pessoa Importante. Mas, possivelmente, mais do que tudo, a sua curiosidade fora satisfeita, o que mitigara a sua sede de descobrir algo que desconhecia. E depois de tantas interrogações da sua parte, verificara que o mistério não tinha nada de especial. Aparentemente, era apenas o animal de estimação de um homem idoso, que estivera a viver no barracão. Agora havia ido desta para melhor, sofrera um ataque de coração ou qualquer coisa do gênero enquanto empurrava um carretel colorido.

- Não compreendo por que razão é que está tão triste - disse o Brad Dolan. - Nem tu, Paulie. Estão a reagir como se fosse um cão ou qualquer animal assim.

- Vá-se embora - ripostou a Elaine com desdém. - Ponha-se na rua, seu ignorante. O pouco cérebro com que foi dotado é sinistro e tortuoso.

O Dolan, com uma expressão obtusa, corou; as marcas das suas borbulhas dos tempos de liceu encheram-se de um avermelhado mais acentuado. Pela aparência da sua pele, tinha havido uma grande quantidade de borbulhas...

- Eu vou - disse ele -, mas quando amanhã cá vieres... Paulie... encontrarás um cadeado nesta porta. Este lugar encontra-se fora da zona permitida aos residentes, independentemente daquilo que a senhora “A Minha Merda não Fede” tenha a dizer a meu respeito. Olhem para o chão! As tábuas estão todas podres e soltas! Se enfiar a sua velha perna escanzelada num desses buracos, ela quebrar-se-á como um galho ressequido. Portanto, agarrem no vosso rato morto, isto é, se desejarem levá-lo convosco, e ponham-se a andar daqui para fora. A partir deste momento, o Barracão do Amor vai ficar encerrado.

Depois daquelas palavras, deu meia volta e saiu porta fora com a expressão de um homem que acredita ter ganho, pelo menos, uma vaza. Esperei que ele tivesse desaparecido e depois, com toda a suavidade, agarrei no Mister Jingles que continuava na mão da Elaine. O meu olhar foi por acaso para o saco com os rebuçados de hortelã-pimenta, e isso bastou - senti os olhos alagados de lágrimas. Não sei porquê, mas nos dias que correm choro com muito mais facilidade.

- Estás disposta a ajudar-me a enterrar um velho amigo? - perguntei à Elaine, quando os passos pesados do Brad Dolan já só se ouviam muito vagamente à distância.

- Sim, Paul. - Passou um braço em redor da minha cintura e encostou a cabeça ao meu ombro. Com um dedo envelhecido e contorcido acariciou o flanco inerte do Mister Jingles. - Com todo o gosto.

E assim fomos buscar um ancinho ao barracão onde guardavam os utensílios de jardinagem e enterramos o animal de estimação do Del, enquanto as sombras se projetavam alongadas por entre as árvores. Depois de terminarmos aquela tarefa, regressamos para jantar e dar seguimento ao que restava das nossas vidas. E foi no Delacroix que dei comigo a pensar, no Del ajoelhado sobre a carpete esverdeada do meu gabinete, com as mãos unidas e a parte de cima da cabeça calva a brilhar sob a luz do candeeiro de teto, no Del que nos pedira que olhássemos pelo Mister Jingles, para que nos assegurássemos de que o “homem mau não lhe fazia mais mal”. Só que o homem mau acaba sempre por nos fazer mal, não é verdade?

- Paul? - chamou a Elaine. A sua voz tinha tanto de ternura como de cansaço. Imagino que até mesmo cavar uma sepultura com um ancinho, e colocar um rato no seu interior, é muita excitação para um par de velhotes como nós. - Estás bem?

Eu colocara o meu braço em redor da sua cintura. Apertei. - Estou ótimo - repliquei.

- Olha - disse ela. - Vai ser um pôr do Sol maravilhoso. Queres ficar cá fora para podermos vê-lo?

- De acordo - anuí, e ali ficamos no relvado durante algum tempo, com os braços à volta da cintura um do outro, a observar as cores vivas a surgirem no céu, para depois as vermos esbaterem-se em matizes de cinzento.

Sainte Marie, Mère de Dieu, priez pour nous, pauvres pécheurs, maintenant et à 1'heure de notre mort.

Ámen.

 

13

1956.

Alabama sob a chuva.

O nosso terceiro neto, uma menina maravilhosa de nome Tessa, estava prestes a licenciar-se na Universidade da Florida. Fizemos a viagem numa das camionetas da Greyhound. Ë Nessa altura eu tinha sessenta e quatro anos, era um mero rapazinho. A Jan tinha cinqüenta e nove e era tão bela como sempre fora. Pelo menos aos meus olhos. Seguíamos sentados no último banco, e ela não se calava porque eu não lhe tinha comprado uma máquina fotográfica nova para registrar aquele acontecimento de tão grande importância. Eu ia abrir a boca para lhe dizer que teríamos um dia inteiro para ir às compras e que ela poderia comprar a máquina nova se lhe apetecesse, uma vez que a despesa não iria afetar o nosso orçamento. Estava convencido de que ela continuava a implicar porque já se sentia aborrecida com a viagem e não gostava do livro que trouxera. Era um Perry Mason. Foi nessa altura que tudo na minha mente ficou em branco por algum tempo, como a película de um filme que fica exposta ao Sol.

Recordam-se desse acidente? Imagino que alguns de vós que estão a ler isto talvez se lembrem, embora a maior parte não tenha qualquer recordação. E, contudo, foi publicado em grandes parangonas na primeira página de todos os jornais de costa a costa, na altura em que ocorreu. Encontravamo-nos nas redondezas de Birmingham, o dia estava chuvoso, e a Janice reclamava da máquina fotográfica antiga, quando rebentou um pneu. A camioneta começou a ziguezaguear de lado sobre o pavimento escorregadio e foi colidir lateralmente contra um caminhão carregado de fertilizante. O caminhão atirou com a camioneta contra um dos pilares de uma ponte a mais de noventa e cinco quilômetros por hora, tendo-se esta esmagado contra o cimento e partido ao meio. Duas partes de metal que brilhava sob a chuva derraparam em direções opostas, a que tinha o depósito de gasóleo projetando uma bola de fogo preta e vermelha para o firmamento pardacento e chuvoso. Num determinado momento, a Janice queixava-se da sua velha Kodak e logo no seguinte dei comigo esparramado, à chuva a olhar para um par de cuecas de nylon azul que saíra da mala de viagem de alguém. Tinham um bordado em linha preta que dizia QUARTA-FEIRA. Por toda a parte viam-se malas abertas devido ao choque. E corpos. E membros. Dentro daquela camioneta seguiam setenta e três pessoas e só quatro conseguiram sobreviver à colisão. Eu fui uma delas, e a única que não ficou gravemente ferida.

Levantei-me do solo e cambaleei por entre as malas abertas e os corpos destroçados das pessoas enquanto gritava pelo nome da minha mulher. Dei um pontapé num despertador, recordo-me bem de ter feito isso, tal como me recordo de ter visto o cadáver de um rapazinho de treze anos estendido sobre um monte de vidros estilhaçados e com metade do rosto completamente desfeita. Sentia a chuva a açoitar-me as faces; passei por baixo da ponte e durante algum tempo deixei de a sentir. Quando saí pelo outro lado, lá estava ela outra vez a bater-me contra a testa e faces. Vi a Jan estendida junto da cabina capotada e em destroços do caminhão que transportara fertilizantes. Reconheci-a pelo vestido vermelho - era o segundo melhor que possuía. O melhor, como é evidente, ficara reservado para o dia da licenciatura.

Ela ainda não estava completamente morta. Tenho pensado com bastante freqüência que teria sido preferível - se não para ela, pelo menos para mim - que ela tivesse morrido imediatamente. Assim, teria saído da minha vida um pouco mais cedo, mas de uma maneira um pouco mais natural. Ou talvez eu esteja a enganar-me a mim próprio ao pensar assim. Tudo o que sei de certeza absoluta é que nunca a deixei partir realmente.

Todo o seu corpo era percorrido por estremecimentos. Um dos sapatos descalçara-se, o que me permitia ver o pé em convulsão. Os seus olhos mantinham-se abertos mas sem expressão, com o esquerdo alagado de sangue. Quando me ajoelhei junto dela sob aquela chuva que atravessava o ar que cheirava a fumo, a única coisa que conseguia pensar era que aquelas convulsões no pé significavam que ela estava a ser eletrocutada; a Janice estava a ser eletrocutada e eu tinha de mandar parar o acionamento da alavanca, antes que fosse demasiado tarde.

- Ajudem-me! - gritei eu. - Alguém que me ajude! Socorro!

Ninguém correu em meu auxílio, ninguém se aproximou. A chuva continuava a cair cada vez mais forte - em bátegas, uma chuva que encharcava tudo e todos e que me colava os cabelos ainda negros ao crânio - enquanto eu a mantinha nos meus braços, esperando em vão por alguém que nunca chegou. Os seus olhos sem expressão pareciam erguer-se para mim com uma espécie de aturdimento cheio de intensidade, ao mesmo tempo que o sangue jorrava em torrente da região posterior da cabeça esmagada. Ao lado de uma mão tremente, percorrida por espasmos, encontrava-se um bocado de aço cromado onde se via inscrita a palavra cnEY. Junto disso havia mais ou menos um quarto daquilo que em tempos fora um homem de negócios com um fato castanho de lã.

- Socorro! - gritei de novo, voltando-me na direção da ponte, e vi o John Coffey no meio das sombras, ele próprio uma mera sombra, um homem corpulento e calvo. - John! - gritei, - Oh, John, por favor ajuda-me! Por favor, ajuda a Janice!

A chuva continuava a cair-me sobre os olhos. Pestanejei para a afastar e ele desapareceu. Via as sombras que tinha confundido com a imagem do John... mas eu sabia que não haviam sido somente sombras. Tenho a certeza disso. Ele estivera ali. Talvez apenas sob a forma de fantasma, mas o certo é que tinha estado ali, com a chuva a bater-lhe nas faces e misturando-se com as suas lágrimas infindáveis.

Ela morreu nos meus braços, ali, à chuva, próximo daquele caminhão de fertilizante, com o cheiro de gasóleo queimado a entrar-me pelas narinas. Não houve um único momento de consciência - de olhos que mostrassem qualquer expressão de percepção, de lábios a moverem-se para murmurar uma derradeira declaração de amor. Senti uma espécie de estremecimento a apoderar-se da carne sob as minhas mãos, e então ela apagou-se. Pela primeira vez em muitos anos, ocorreu-me a imagem da Melinda Moores, a Melinda sentada na cama onde todos os médicos do Hospital Geral de Indianola tinham acreditado que ela se encontrava prestes a morrer; a Melinda Moores com um aspecto cheio de frescura e descansado, olhando para o John Coffey com uns olhos vivos e interrogadores. A Melinda a dizer: Sonhei que andavas perdido na escuridão, tal como eu. Encontramo-nos.

Pousei a cabeça destroçada da minha pobre mulher no pavimento molhado da auto-estrada interestadual, levantei-me (o que não exigiu grande esforço; tinha apenas um pequeno lanho na mão esquerda, não tendo sofrido mais ferimento nenhum), e comecei a gritar pelo nome dele, dirigindo-me às trevas existentes debaixo do viaduto.

- JOHN! JOHN COFFEY! ONDE É QUE ESTÁS, VADIO. Caminhei para as sombras, dando um pontapé a um urso de pelúcia ensangüentado para o afastar do meu caminho, fazendo o mesmo a uns óculos com armação de metal com uma das lentes estilhaçada, a uma mão decepada que tinha um anel com uma granada no dedo mindinho.

- Salvaste a vida da mulher do Hal, porque não fazes o mesmo à minha mulher? Porque não a Janice? PORQUE NÃO À MINHA JANICE?

Não obtive qualquer resposta; apenas o cheiro a gasóleo queimado e a corpos que ardiam, apenas o ruído da chuva que caía incessantemente vinda de um céu pardacento, tamborilando no asfalto enquanto a minha mulher se encontrava morta, estendida ao meu lado na estrada. Não houve resposta então, tal como não há agora. Mas é claro que não foi apenas a Melly Moores que o John Coffey salvou em 1932, nem o rato do Del, aquele que sabia fazer aquela habilidade tão engraçada com o carretel, e que parecera ter andado à procura do Del muito antes de este ter aparecido... de fato, muito antes de o John Coffey também ter aparecido.

O John também me salvou e, anos mais tarde, de pé sob a chuva que caía em bátegas sobre Alabama, enquanto procurava um homem que não se encontrava presente entre as sombras debaixo da ponte, no meio da bagagem espalhada por todo o lado e dos corpos sem vida, fiquei ciente de uma coisa terrível: por vezes não existe diferença absolutamente nenhuma entre a salvação e a danação.

Em simultâneo, sentira uma e outra a invadirem-me quando estivéramos sentados lado a lado na sua tarimba - a 18 de Novembro de 1932. A jorrar do corpo dele para penetrar no meu, fosse qual fosse a estranha força que ele possuía, a passar através das nossas mãos unidas, de uma maneira que o amor e a esperança que albergamos, assim como as boas intenções, nunca conseguem; uma sensação que começou por um formigueiro e que depois veio a transformar-se em algo imenso, com as proporções de uma maré, uma força muito além de qualquer outra coisa que eu tenha sentido anteriormente ou de então para cá. Desde esse dia, nunca mais sofri de pneumonias ou gripes, ou mesmo de qualquer infecção na garganta. Nunca mais voltei a ter uma infecção urinária e nem sequer um corte que tenha infectado. Tive algumas constipações, apesar de estas terem sido muito pouco freqüentes - intercaladas por períodos de seis ou sete anos - e, embora as pessoas que não sofrem de constipações sejam freqüentemente consideradas atreitas a outros males maiores, esse nunca foi o meu caso. Numa ocasião, no início daquele ano horroroso de 1956, expulsei um cálculo biliar. Embora possa parecer estranho a alguns dos que estão a ler esta narrativa apesar de tudo o que eu já disse, parte de mim regozijou-se com a dor que acompanhou a passagem do cálculo biliar. Foi a única dor séria que senti desde o problema com a minha canalização, que a antecedeu vinte e quatro anos. Os males que têm ceifado a vida dos meus amigos, assim como as dos entes queridos da mesma geração, até não me restar ninguém - as tromboses, os cancros, os ataques cardíacos, as doenças do fígado, as doenças do sangue - todos esses males nunca me afetaram, desviaram-se, evitando-me, da mesma maneira que um homem que conduz um automóvel se desvia para evitar colidir com um veado ou um guaxinim que se atravessem na estrada. O único acidente grave em que estive envolvido deixou-me incólume, excetuando um corte numa das mãos. Em 1932, o John Coffey inoculou-me com a vida. Eletrocutou-me com a vida, poder-se-ia dizer. Em última análise, acabarei por vir a falecer - como é evidente, tal será inevitável; quaisquer ilusões que eu possa ter acalentado sobre a imortalidade morreram com o Mister Jingles - mas o certo é que já terei desejado a morte muitas vezes antes de ela se decidir a vir buscar-me. Verdade seja dita que tenho vindo a desejá-la desde o falecimento da Elaine Connelly. Era necessário dizer-vos isto?

Passo em revista estas páginas, folheando-as com as minhas mãos trementes de pele manchada pela velhice, perguntando a mim mesmo se estas palavras terão algum significado, à semelhança daquilo que se passa com esses livros que, supostamente, servem para nos enobrecer e levantar o moral. Recuo no tempo e penso nos sermões da minha infância, afirmações troantes na Igreja do Jesus Seja Louvado, o Senhor É Todo-Poderoso, e recordo-me de como os pregadores costumavam dizer que ao olho de Deus não escapa nada, que Ele vê e assinala até a mais ínfima das Suas criações. Sempre que penso no Mister Jingles, e nas pequenas lascas de madeira que encontramos no orifício da trave, convenço-me de que de fato as coisas são assim mesmo. E todavia, este mesmo Deus sacrificou a vida do John Coffey, o qual só tentou fazer o bem, conquanto o fizesse à sua maneira um tanto ignorante, com a mesma ferocidade com que qualquer profeta do Antigo Testamento alguma vez sacrificou um cordeiro indefeso... Tal como Abraão teria sacrificado o seu próprio filho, se realmente tal lhe tivesse sido exigido. Penso no John a dizer que o Wharton matou as gêmeas Detterick com o amor que estas nutriam uma pela outra, e que isso acontecia todos os dias, em todas as partes do mundo. Se tal acontece de fato, é Deus que permite que isso suceda, e quando nós dizemos: “Não compreendo”, Deus responde: “Não Me interessa.”

Penso no Mister Jingles a morrer, numa altura em que eu estava de costas voltadas para ele, concentrado num homem de mau caráter, cuja emoção mais exaltada parecia traduzir-se numa espécie de curiosidade vingativa. Penso na Janice, com o corpo percorrido por espasmos durante os seus últimos segundos de vida, enquanto eu me ajoelhava ao seu lado sob a chuva que caía.

Pára com isso, tentei eu dizer ao John nesse dia na sua cela. Larga as minhas mãos, eu afogo-me se o não fizeres. Afogo-me ou expludo.

- Não vai explodir - respondera-me ele, ouvindo o meu pensamento e sorrindo perante aquela idéia. E a coisa mais terrível é que isso não aconteceu. Não explodi.

Pelo menos sofro de um mal característico da velhice: tenho insônias. Já noite adentro costumo ficar deitado na minha cama, escutando os sons mortiços e desesperados dos homens e mulheres enfermos que, sentindo-se acossados, vão penetrando cada vez mais nas suas velhices. Por vezes ouço o som de uma campainha a chamar, ou o ranger de um sapato no corredor, ou ainda o pequeno televisor de Mrs. Javits sintonizado nas últimas notícias. Permaneço deitado e, se a Lua puder ser vista da minha janela, fico a observá-la. Ali fico a pensar no Brutal e no Dean, por vezes até mesmo no William Wharton a dizer: É isso mesmo, negro, tão mau quanto possas imaginar. Penso no Delacroix a dizer: Veja isto, chefe Edgecombe, ensinei ao Mister Jingles uma nova habilidade. Penso na Elaine à porta do solário, dizendo ao Brad Dalon que me deixe em paz e sossego. Por vezes passo pelas brasas e vejo a ponte sob a chuva, onde o John Coffey se encontra envolto em sombras. Nunca se trata apenas de uma partida que a visão me prega nestes pequenos sonhos; sem dúvida que ele está sempre presente, o vadio, que está ali a observar. Fico deitado e aguardo. Penso na Janice, na forma como a perdi, de como ela fugiu ensangüentada através dos meus dedos, ali, à chuva... e espero. Todos nós temos uma morte, não existem exceções, eu sei que assim é, mas, por vezes, meu Deus, a Milha Verde é tão longa.