À Espera de um Milagre
Parte Seis .........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Vocês podem fazê-lo. Já o fizeram uma vez, não é verdade? Podem muito bem voltar a fazê-lo. Só que desta vez não o levam de regresso à penitenciária.
- Gostaria a senhora de explicar aos meus filhos a razão por que o pai deles foi para a prisão, Mistress Edgecombe? - perguntou o Dean. - Acusado de ter ajudado um assassino a fugir da penitenciária?
- As coisas não se passarão assim Deam havemos de estabelecer um plano. Fazer com que pareça ter sido uma verdadeira fuga.
Nesse caso, convém que se trate de um plano que possa ter sido concebido por um sujeito que nem sequer se recorda como é que se atam os atacadores - observou o Harry. -
Terá de ser suficientemente verossímil para as pessoas poderem acreditar nele.
A Janice olhou para ele, insegura.
- Isso não serviria de nada - interpôs o Brutal. - Ainda que conseguíssemos pensar numa maneira, não serviria para nada.
- E porque não? Ela parecia prestes a desatar a chorar. - Por que raio é que não?
- Porque ele mede mais de dois metros, é careca, preto e o seu cérebro mal lhe permite alimentar-se pela sua própria mão - repliquei. - Quanto tempo pensas que ele demorará a ser capturado? Duas horas? Talvez seis?
- Ele conseguiu sobreviver anteriormente sem despertar grandes atenções - argumentou ela. Por uma das faces correu-lhe uma lágrima. Com a palma da mão limpou-a num gesto de fúria.
Até certo ponto aquilo era verdade. Eu escrevera umas cartas a alguns amigos e familiares que tinha no Sul, perguntando-lhes se haviam lido alguma coisa nos jornais sobre um homem que se ajustasse à descrição do Coffey. Qualquer coisa. A Janice também fizera o mesmo. Até à data, só tivéramos conhecimento de uma ocasião em que ele, possivelmente, interviera com os seus poderes na localidade de Muscle Shoals, no Alabama. Um tornado atingira a igreja local enquanto o coro ensaiava - o que sucedera em 1929 - e um homem negro, de grande corpulência, conseguira retirar dois homens dos escombros. Inicialmente, ambos pareciam estar mortos, de acordo com a opinião dos presentes, tendo no entanto vindo a verificar-se que nenhum deles sofrera lesões graves. Foi como se se tratasse de um milagre, dissera uma das testemunhas. O homem de raça negra, um vagabundo, o qual fora contratado pelo pastor da igreja para executar algumas tarefas por um dia desaparecera no meio de toda a excitação que se seguiu.
- Tens razão, ele conseguiu safar-se - admitiu o Brutal. - Mas convém não esquecer que ele foi capaz de passar despercebido antes de ter sido julgado e condenado pelo homicídio de duas garotinhas.
A Janice permaneceu sentada sem dar qualquer resposta. Deixou-se ficar assim durante quase um minuto, e depois fez algo que me chocou tanto como o meu súbito ataque de lágrimas a deveria ter chocado. Estendeu o braço para a frente e com um gesto amplo, atirou para o chão tudo o que se encontrava em cima da mesa - os pratos, os copos, as canecas, os talheres, a terrina com a salada de couve, a tigela com a polpa de abóbora, a travessa com a perna de porco trinchada, o leite e o jarro que continha chá frio. Tudo aquilo acabou por tombar da mesa, tendo-se espalhado no meio do chão.
- Ora esta!!! - exclamou o Dean, fazendo recuar a cadeira com tanta força que quase caiu de costas.
A Janice não lhe prestou a mínima atenção. Olhava ora para o Brutal ora para mim, mais acentuadamente para mim. - Estão a dizer-me que tencionam matá-lo, grandes cobardes? - perguntou ela com desdém. - Estão dispostos a matar o homem que salvou a vida da Melinda Moores e que tentou salvar a vida dessas duas garotinhas! Ora bem, pelo menos haverá um negro a menos neste mundo, não é verdade? Vocês podem consolar-se com essa justificação. Um negro a menos!
Com aquelas palavras, a Janice levantou-se da mesa, olhou para a cadeira onde estivera sentada e deu-lhe um pontapé, arremessando-a contra a parede. A cadeira fez ricochete, tendo ido cair em cima da polpa de abóbora derramada no chão. Agarrei-a pelo pulso, mas ela libertou-se com um violento puxão.
- Não te atrevas a tocar-me - ripostou ela. - Por esta altura na próxima semana ter-te-ás transformado num assassino; não serás melhor do que esse homem, o Wharton. Portanto, não quero que me toques.
Dirigiu-se para o alpendre das traseiras, ergueu o avental, cobrindo o rosto e começou a chorar convulsivamente. Nós os quatro ficamos a olhar uns para os outros. Ao fim de algum tempo, levantei-me da mesa e comecei a limpar toda aquela porcaria. O Brutal foi o primeiro a ajudar-me, seguido do Harry e do Dean. Quando a cozinha voltou a ter de novo um aspecto mais ou menos arrumado foram-se embora. Nenhum de nós trocou uma única palavra. Na realidade, não havia mais nada a dizer.
6
Era a minha noite de folga. Sentei-me na sala de estar da nossa casa pequena, a fumar cigarro após cigarro, ouvindo o rádio e observando a escuridão a emergir do solo para tragar o céu. A televisão é um bom entretenimento, não tenho nada contra ela, mas não me agrada a maneira como nos afasta do resto do mundo, fazendo com que nos concentremos apenas no seu própria tela de vidro. Pelo menos nesse aspecto, o rádio era muito melhor.
A Janice regressou ao interior de casa, ajoelhou-se ao lado do braço da minha poltrona e agarrou-me na mão. Durante algum tempo, nenhum de nós disse nada, ficamos assim a ouvir no rádio o Kay Kyser's Kollege of Musical Knowledge e observamos as estrelas que começavam a .pontilhar o firmamento. Por mim estava muito bem assim.
- Desculpa ter-te chamado cobarde - disse ela ao fim de algum tempo. - Sinto-me pior por ter afirmado isso do que por qualquer outra coisa que possa ter dito ao longo de todos os anos do nosso casamento.
- Isso também inclui a ocasião em que fomos acampar e me chamaste Velho Sam Fedorento? - perguntei eu. Desatamos a rir e trocamos um beijo ou dois, o que fez com que a situação se desanuviasse um pouco entre nós. Ela era tão bonita, a minha Janice, e eu continuo a sonhar com ela. Sentindo-me velho e cansado de viver da maneira como vivo, sonho com ela a entrar no meu quarto neste lugar solitário e esquecido por todos, onde os corredores têm um fedor a mijo e a couve cozida retardada, e sonho que ela é maravilhosa e jovem, com os seus olhos azuis, seios firmes e direitos, dos quais eu mal conseguia manter as mãos afastadas, e ela dirá: Bem vês, querido, eu não estava naquele acidente de autocarro. Enganaste-te, mais nada. Até mesmo agora costumo sonhar com isso e, por vezes, quando desperto e compreendo que não passou de um sonho, começo a chorar. Eu que quando era novo só muito raramente é que chorava.
- O Hal já sabe? - perguntou ela por fim. - Que o John está inocente? Não vejo como possa saber.
- Achas que ele pode fazer alguma coisa? Tem alguma influência junto do Cribus?
- Nem um bocadinho, minha querida.
A Janice fez um acenar de cabeça como se já esperasse aquela resposta.
- Sendo assim não lhe digas nada. Se ele não puder auxiliar em nada, por amor de Deus não lhe contes.
- Não - respondi. É que ele...
Olhou para mim com olhos de expressão firme.
- E nessa noite não vais dar parte de doente. Nenhum de vós o fará. Não podem fazer uma coisa dessas.
- Não, não podemos. Se estivermos presentes, pelo menos poderemos acelerar o processo, facilitando-lhe as coisas. Isso estará ao nosso alcance. Não vai acontecer o que aconteceu ao Delacroix. - Por uns momentos, misericordiosamente breves, vi a máscara de seda negra a queimar-se sobre o rosto do Del, revelando as pequenas massas de gelatina cozinhada que haviam sido os seus olhos.
- Não tens maneira nenhuma de te livrares, pois não? . A Janice agarrou-me na mão e levou-a à pele aveludada da sua face. - Pobre Paul. Pobre homem.
Eu não lhe disse nada. Nunca antes, nem tão-pouco em qualquer outra altura da minha vida, me apeteceu tanto fugir de qualquer coisa. Levar apenas a Jan comigo, os dois sozinhos com um saco de tecido grosseiro contendo os nossos haveres, fugindo para qualquer lugar.
- Meu pobre homem - repetiu ela, acrescentando logo em seguida: - Fala com ele.
- Com quem? Com o John?
- Sim. Fala com ele. Descobre o que é que ele quer. Pensei no assunto, e acenei com a cabeça. Ela tinha razão. Costumava ter.
7
Dois dias mais tarde, a 18, o Bill Dodge, o Hank Bitterman e mais alguém - não me recordo de quem, um temporário qualquer - levaram o John Coffey até ao Bloco D para tomar um ducha, o que nos permitiu ensaiar a sua execução. Não deixamos que o Pouca Terra ocupasse o lugar do John; todos nos dávamos conta de que, ainda que não houvéssemos mencionado o assunto, isso teria sido uma obscenidade.
Fui eu quem ocupou o seu lugar.
- John Coffey - começou o Brutal a dizer numa voz que não primava pela firmeza, enquanto eu me sentava desajeitadamente em cima da Velha Faísca -, o senhor foi condenado a morrer na cadeira elétrica, tendo a sentença sido lavrada por um júri formado por seus pares...
Pares do John Coffey? Mas que grande piada. Tanto quanto me era dado saber, não existia em todo o planeta outra pessoa como ele. Então pensei no que o John dissera naquela ocasião em que ficara a olhar para a Velha Faísca, imobilizado ao fundo das escadas que saíam do meu gabinete: Eles continuam ali. Consigo ouvi-los gritar.
- Deixem-me sair daqui - disse eu numa voz enrouquecida. - Desapertem estas braçadeiras e deixem-me levantar. Eles assim fizeram, mas durante uns instantes senti-me imobilizado na cadeira, como se a Velha Faísca não desejasse que eu me levantasse.
Enquanto regressávamos ao bloco, o Brutal começou a falar comigo em voz baixa, de forma a que tanto o Dean como o Harry, os quais colocavam as últimas cadeiras atrás de nós, não pudessem ouvir-nos.
- Já fiz algumas coisas ao longo da minha vida das quais não me sinto muito orgulhoso, mas esta é efetivamente a primeira vez que sinto que estou a correr o risco de ir parar ao inferno.
Olhei para ele a fim de me certificar de que não estava a brincar. Não me pareceu que estivesse.
- O que é que pretendes dizer com isso? - perguntei. - Estamos a preparar-nos para matar uma bênção de Deus - continuou ele. - Uma bênção que nunca nos fez o mínimo mal nem a qualquer outra pessoa. O que é que eu vou dizer no caso de me ver em frente de Deus, o Pai Todo-Poderoso, e Ele me pedir para Lhe explicar por que motivo fiz isto? Que fazia parte do meu trabalho? Do meu trabalho?
8
Quando o John regressou do seu ducha e os temporários nos deixaram a sós, abri a fechadura da sua cela e entrei, sentando-me na tarimba ao seu lado. O Brutal encontrava-se sentado à secretária do guarda de serviço. Ergueu o olhar, viu que eu estava sentado na cela sem qualquer colega, mas não fez comentários. Voltou a concentrar a sua atenção na papelada em que trabalhava, enquanto lambia constantemente a ponta do lápis.
O John fitou-me com os seus olhos estranhos - raiados de sangue, distantes, à beira das lágrimas... e contudo, com uma expressão serena, como se o choro não fosse uma forma de vida assim tão má, sobretudo depois de nos termos acostumado. Conseguiu mesmo esboçar um pequeno sorriso. Cheirava a sabonete, recordo-me bem, tão limpo e com tanta frescura como um bebê depois do seu banho ao fim do dia.
- Olá, chefe - saudou-me ele, estendendo o braço e tomando as minhas mãos nas suas. Aquilo foi feito com uma naturalidade perfeita, sem nada de premeditado.
- Olá, John. - Eu sentia um pequeno embargo na garganta e tentei afastá-lo ao engolir em seco. - Suponho que já saibas que a data está a aproximar-se. Só faltam dois dias.
Ele não me deu réplica, limitando-se a continuar sentado com as minhas mãos nas suas. Estou convencido de que, agora que penso nisso, já começara a acontecer-me algo, mas eu encontrava-me demasiado concentrado - quer psicológica quer emocionalmente - em cumprir as minhas obrigações para poder ter reparado nisso.
- Há alguma coisa em especial que queiras para o jantar dessa noite, John? Podemos arranjar-te quase qualquer coisa que queiras. Até podemos trazer-te uma cerveja. Só temos de a despejar para dentro de uma caneca de café, mais nada. - Nunca gostei do sabor - disse ele.
- Então qualquer coisa especial para comer? - sugeri. A sua testa enrugou-se abaixo daquela grande extensão de pele castanha sem cabelos. Pouco depois, as rugas suavizaram-se e ele sorriu.
- Rolo de carne seria bom.
- Nesse caso, será mesmo rolo de carne. Com molho e purê de batata. - Senti um entorpecimento no braço, como quando adormecemos sobre ele, só que esta sensação percorria-me o corpo todo. O interior do meu corpo. - Que mais queres como acompanhamento?
- Não sei, chefe. O que houver. Talvez um pouco de quiabo.
- De acordo - anuí, pensando que ele também haveria de comer à sobremesa a torta de pêssego de Mrs. Janice Edgecombe. - E agora a respeito de um padre? Alguém com
quem possas rezar uma pequena oração, na noite de depois de amanhã? Serve para confortar um homem; já vi isso muitas vezes. Eu poderia entrar em contato com o Reverendo Schuster, ele é o homem que veio ao bloco quando o Del..
- Não quero nenhum pregador - disse o John. - O senhor tem sido bom para mim, chefe. Se quiser, pode rezar uma oração. Isso há de chegar. Acho que podia ajoelhar-me um pouco consigo.
- Eu! John, eu não seria capaz de...
Fez um pouco de pressão sobre as minhas mãos e aquela sensação tornou-se mais forte.
- Seria, sim - continuou o John. - Não acha, chefe? - Suponho que sim - ouvi-me a mim próprio dizer. Tinha a impressão de que a minha voz adquirira um eco. - Acho que seria, caso fosse necessário.
Naquela altura, a sensação dentro de mim era ainda mais forte; era a mesma que eu sentira anteriormente, quando ele tratara a minha canalização, mas também era diferente. Não apenas porque desta feita não havia nada de mal comigo. Era diferente porque desta vez ele não tinha consciência do que estava a fazer. Subitamente, senti-me aterrorizado, prestes a sufocar, tanta era a necessidade que me invadia de sair dali. Havia luzes acesas dentro de mim onde nunca tinham existido luzes anteriormente. Não só no meu cérebro, mas também por todo o meu corpo.
- O senhor e Mister Howell e os outros chefes têm sido bons para comigo - disse o John Coffey. - Eu sei que tem andado preocupado, mas agora deve parar com isso. Porque eu quero ir, chefe.
Tentei falar mas não consegui. Mas ele conseguia. O que o John disse a seguir foi a frase mais comprida que alguma vez ouvi da sua boca.
- Estou farto do sofrimento que vejo e ouço, chefe. Estou farto de andar pelas estradas, sozinho como um tordo à chuva, sem nunca ter um amigo para me acompanhar, ou para me dizer de onde é que viemos e para onde é que vamos, ou mesmo porquê. Estou farto que as pessoas sejam más umas para com as outras. É o mesmo que sentir bocados de vidro dentro da minha cabeça. Estou farto de todas as vezes em que quis evitar o mal e não fui capaz. Estou farto de estar sempre na escuridão. Por causa da dor. Existe muita no mundo. Se eu pudesse acabar com ela, acabava. Mas não posso.
“Pára com isso”, tentei dizer-lhe. “Pára com isso, larga as minhas mãos eu afogo-me, se o não fizeres. Afogo-me ou expludo.”
- Não vai explodir - disse ele, esboçando um pequeno sorriso perante aquela idéia... Contudo, largou-me as mãos. Com a respiração arquejante, inclinei-me para a frente.
Através do espaço entre os joelhos podia ver todas as fissuras existentes no chão de cimento, todos os sulcos, todas as partículas de mica. Ergui o olhar até à parede e vi os nomes que ali haviam sido inscritos em 1924, 1926 e em 1931. Aqueles nomes começavam a dissipar-se, tal como, para usar a mesma expressão, se haviam dissipado os homens que os tinham inscrito, mas imagino que nunca se consegue apagar por completo qualquer coisa, sobretudo deste mundo de vidro escurecido; naquele momento, via-os de novo, um emaranhado de nomes, uns por cima dos outros, e olhar para eles era o mesmo que ouvir os mortos a falar, a cantar e a implorar misericórdia. Senti os globos oculares a pulsarem dentro das órbitas, ouvi o bater do meu próprio coração, senti o fluxo do sangue a fluir através das artérias do meu corpo, quais cartas a serem remetidas para todos os lugares.
Ouvi o apito de um comboio à distância - o comboio das três e cinqüenta com destino a Priceford, calculei, mas não estava inteiramente seguro de que fosse, porque nunca tinha dado por ele antes. Pelo menos, tal nunca acontecera estando eu dentro de Cold Mountain, uma vez que a distância mais próxima a que passava da penitenciária estadual era a dezesseis quilômetros a oriente. Eu não poderia tê-lo ouvido do interior da prisão, poder-se-ia dizer, e até Novembro de 1932 era o que eu teria julgado, mas o certo é que o ouvi nesse dia.
Algures no bloco, uma lâmpada estilhaçou-se com um estrépito semelhante ao de uma bomba.
- O que é que me fizeste? - perguntei ao Coffey num sussurro. - Oh, John, o que é que me fizeste?
- Lamento muito, chefe - replicou ele na sua maneira calma. - Eu não estava a pensar. Mas acho que não foi muito. Dentro de pouco tempo voltará a sentir-se ótimo.
Levantei-me da tarimba e encaminhei-me para a porta da cela. Sentia-me como se caminhasse num sonho. Quando cheguei ao fundo, ele retomou a palavra.
- O senhor continua a perguntar a si mesmo porque é que elas não gritaram. É a única coisa para que ainda não descobriu a resposta, não é verdade? Por que razão é que essas duas meninas não começaram a gritar, quando ainda se encontravam no alpendre.
Dei meia volta e fiquei a olhar para ele. Conseguia distinguir todas as linhas vermelhas nos seus olhos, via todos os poros nas suas faces... e também sentia o seu sofrimento, dores que extraía às outras pessoas, como uma esponja que absorvesse água. Também era capaz de ver as trevas de que ele falara. Abatiam-se sobre todos os espaços do mundo tal como ele o avistava e, naquele momento, senti por ele um misto de piedade e de grande alívio. Sim, seria uma coisa terrível o que nos propúnhamos fazer, nada conseguiria alguma vez alterar esse fato... e, contudo, estaríamos a prestar-lhe um favor.
- Eu compreendi quando aquele tipo mau me agarrou - continuou o John. - Foi nessa altura que fiquei a saber que fora ele. Eu tinha-o visto nesse dia, estava no meio das árvores e vi-o quando as deixou cair e começou a fugir, mas... - Esqueceste-te - adiantei.
-- Foi isso mesmo, chefe. Até ele me tocar, esqueci-me. - Porque é que elas não gritaram, John? Ele feriu-as o suficiente para terem sangrado, os pais encontravam-se mesmo no andar de cima, portanto, por que motivo é que elas não gritaram?
John fitou-me através dos seus olhos assombrados.
- Ele disse a uma delas: “Se fizeres barulho, mato a tua irmã e não a ti”, e depois disse a mesma coisa à outra. Está a compreender?
- Sim - respondi num murmúrio, enquanto visionava a cena. O alpendre da casa dos Detterick mergulhado na escuridão. O Wharton debruçado sobre as duas crianças como se fosse um ser maléfico. Provavelmente uma delas teria começado a gritar, pelo que o Wharton a agredira, fazendo-a sangrar do nariz. Fora daí que se derramara a maior parte do sangue.
- Ele matou-as com o amor delas - acrescentou o John. - O amor que sentiam uma pela outra. Está a ver como é que aconteceu?
Acenei que sim, incapaz de proferir uma única palavra. Ele sorriu-me. As lágrimas escorriam-lhe de novo pelas faces abaixo, mas ele continuava a sorrir.
- É assim que as coisas se passam todos os dias - prosseguiu o John - por todo o mundo. - Em seguida, estendeu-se sobre a tarimba e voltou o rosto para a parede.
Saí para a Milha, fechei a cela à chave e dirigi-me para a mesa no corredor. Continuava a sentir-me como um homem no meio de um sonho. Apercebi-me de que era capaz de ouvir os pensamentos do Brutal - um sussurro muito vago, a forma como soletrava uma palavra, tenho a impressão que era “receber”. Ele perguntava a si mesmo se seria com dois ss ou com um c. Mas então soergueu o olhar e sorriu, mas o sorriso desapareceu quando olhou bem para mim.
- Paul? - perguntou. - Estás bem? - Sim.
Comecei a contar-lhe o que o John me dissera, omitindo alguns aspectos e sem mencionar a sensação que o seu toque me tinha provocado (nunca contei essa parte a ninguém, nem sequer à Janice; a Elaine Connelly será a primeira pessoa a inteirar-se disso - isto é, se desejar ler estas últimas páginas, depois de ter lido todas as outras); todavia, repeti o que o John dissera acerca de desejar partir. Aquela informação deu a impressão de ter provocado alívio no Brutal - pelo menos, um pouco - mas pressenti (teria ouvido?) que se interrogava se eu não teria inventado tudo aquilo para lhe tranqüilizar a consciência. Pouco depois, senti que ele optara por acreditar, simplesmente porque isso tornaria a situação um tudo-nada mais fácil quando chegasse a altura.
- Paul, essa tua infecção está a começar a afligir-te de novo? - perguntou ele. - Estás com um aspecto muito congestionado.
- Não. Acho que estou bem - repliquei. As minhas palavras não correspondiam à verdade, mas naquele momento fiquei com a certeza de que o John tinha razão, e que dentro em pouco me voltaria a sentir bem. A sensação de entorpecimento já começara a dissipar-se.
- Seja como for, não me parece que te fizesse mal ires para o teu gabinete deitar-te um bocado.
Deitar-me era a última coisa que me apetecia fazer naquele momento - a idéia parecia-me tão ridícula que quase me fez rir. Aquilo que me apetecia era talvez construir uma pequena casa para mim, pôr as telhas no telhado, lavrar a terra para, num jardim nas traseiras, plantar as flores. Tudo isto antes da hora de jantar.
É assim que as coisas são, pensei, todos os dias. Por todo o mundo. Essa escuridão. Por todo o mundo.
- Em vez de ir para o meu gabinete, vou até à administração. Tenho alguns assuntos a tratar.
- Se assim o dizes - replicou o Brutal.
Dirigi-me para a porta, abri-a e depois olhei para trás. - Escreveste bem a palavra - disse eu - r-e-c-e-b-e-r com c e não com dois ss, tal como diz a regra; mas imagino que haja exceções a todas as regras.
Continuei o meu caminho sem necessitar de olhar para ele para saber que me fitava com fixidez e de boca aberta. Durante o resto daquele turno, levei a cabo uma série de outras tarefas, incapaz de me sentar por mais de cinco minutos seguidos, antes de ser forçado a levantar-me de novo. Fui à administração e depois comecei a andar desassossegadamente pelo pátio de recreio, na altura sem ninguém, num passo alargado, de um lado para o outro, até que os guardas de vigia nas torres devem ter pensado que eu estava louco. Quando chegou a hora de o meu turno acabar, já me sentia mais calmo, e a torrente de pensamentos que me havia invadido a mente - como se fosse uma fiada de contas que se entrechocavam - já se tinha acalmado bastante.
Todavia, nessa mesma madrugada, a meio caminho de casa, voltou a acontecer a mesma coisa e com bastante intensidade, à semelhança do que sucedera com a minha infecção urinária. Fui obrigado a estacionar o Ford no acostamento da estrada, a sair do carro e andar durante quase oitocentos metros, de cabeça baixa, braços em movimentos rítmicos acompanhando o corpo, com a respiração arquejante tão quente como algo que se tivesse transportado debaixo do sovaco. Então, finalmente, comecei a sentir-me realmente normal. Num passo apressado, dirigi-me para o local onde estacionara o Ford, tendo percorrido metade desse caminho num passo mais regular, com a respiração a condensar-se no ar frio. Quando cheguei a casa, contei à Janice que o John Coffey me dissera que se encontrava preparado, que desejava ser executado. Ela acenou com a cabeça, mostrando uma expressão de alívio. Corresponderia a sua atitude à verdade? Não consegui dizer. Nas seis horas precedentes, até mesmo três, eu teria sabido com segurança, mas naquela altura era incapaz de ter a certeza. O que era uma coisa boa. O John dissera vezes sem conta que se sentia cansado, e agora eu era capaz de compreender porquê. Aquilo que ele possuía teria deixado qualquer pessoa exaurida. Seria o suficiente para que alguém ansiasse por descanso e tranqüilidade.
Quando a Janice me perguntou por que motivo é que eu tinha um aspecto tão congestionado, cheirando tanto a transpiração, disse-lhe que tinha parado o carro a caminho de casa e que correra durante algum tempo. Contei-lhe essa parte - como talvez eu já tenha dito aqui (neste momento já acumulei demasiadas páginas para que me apeteça voltar atrás, a fim de me certificar se fiz ou não essa afirmação), a mentira não era um elemento preponderante no nosso casamento - embora não lhe tivesse dito porque o fizera.
E ela não me perguntou.
9
Na noite em que chegou a vez de o John Coffey percorrer a Milha Verde, não houve tempestades. Fazia o frio adequado para a época, diria eu, e havia um milhão de estrelas que pontilhavam o firmamento acima dos campos lavrados e cultivados, onde a geada que caíra sobre as vedações e sobre a palha seca do milho de Julho cintilava como diamantes.
O responsável destacado para aquela execução fora o Brutus Howell - seria ele quem ajustaria o capacete e diria ao Van Hay que acionasse a alavanca, quando chegasse a altura apropriada. O Bill Dodge encontrava-se junto deste último. E por volta das onze e vinte do dia 20 de Novembro, o Dean, o Harry e eu dirigimo-nos para a única cela ocupada, onde o John Coffey se encontrava sentado no extremo da tarimba, com os dedos entrelaçados entre os joelhos. Via-se uma pequena nódoa de molho de rolo de carne no colarinho da sua camisa azul. Fitou-nos através das barras da cela, dando a impressão de se sentir bastante mais calmo do que nós próprios. As minhas mãos estavam frias e as têmporas pulsavam. Saber que ele desejava que aquilo acontecesse era uma coisa - pelo menos tornava possível que levássemos a nossa tarefa a bom termo - mas outra era saber que nos encontrávamos prestes a eletrocutá-lo pelo crime cometido por outrem.
A última vez que eu tinha visto o Hal Moores fora às sete horas dessa tarde. Na altura, ele encontrava-se no gabinete, a abotoar o seu sobretudo. Tinha as faces empalidecidas e as mãos tremiam-lhe tanto que abotoar aqueles botões era uma tarefa deveras difícil. Eu quase senti vontade de lhe afastar as mãos, para ser eu próprio a abotoar-lhe o sobretudo, como faria a uma criança. A ironia daquela situação era que a Melinda estava com melhor aspecto quando a Jan e eu fôramos visitá-la no fim-de-semana anterior do que o Hal no fim do dia em que o John Coffey seria executado.
- Não vou assistir a esta - dissera ele. - O Curtis estará presente, e sei que o Coffey vai estar em boas mãos, contigo e com o Brutus.
. Sim, faremos o nosso melhor - repliquei. - Há alguma novidade em relação ao Percy? - Como é evidente, o que eu perguntava era se ele teria dado algum sinal de estar a recuperar o juízo. Encontrar-se-ia ele naquele momento sentado num quarto algures, narrando a alguém, algum médico, muito provavelmente, a forma como nós o havíamos manietado no colete dos malucos e atirado para dentro da cela do isolamento, como qualquer outra criança problemática... qualquer outro mentecapto, utilizando a linguagem do Percy? E caso fosse isso o que estivesse a acontecer, os que o ouvissem acreditariam no que ele dizia?
Todavia, de acordo com o que o Hal dissera, o Percy continuava na mesma. Não falava e, tanto quanto qualquer pessoa pudesse saber, tão-pouco se encontrava neste mundo. Continuava internado em Indianola - “para ser submetido a avaliação”, acrescentou o Hal, exibindo uma expressão mistificada perante aquela expressão - contudo, caso não se verificassem quaisquer melhorias, dentro em pouco seria transferido.
- Como é que o Coffey está a agüentar-se? - perguntara o Hal nessa altura. Finalmente, e ao cabo de porfiados esforços, conseguira abotoar o último botão do sobretudo.
- Tudo correrá da melhor maneira - respondi com um acenar de cabeça.
Ele retribuiu-me com outro aceno e dirigiu-se para a porta, parecendo envelhecido e adoentado.
- Como é que no interior do mesmo homem poderão coabitar tanto bem e tanto mal? Como é que o homem que curou a minha mulher pode ser o mesmo homem que matou essas duas garotas? Consegues compreender uma coisa dessas?
Disse-lhe que não conseguia compreender, que os caminhos de Deus eram misteriosos, acrescentando que havia bom e mau em todos nós, que não nos cabia tentar descobrir a razão daquilo, e mais algumas patranhas do mesmo teor. A maior parte daquilo que lhe disse na ocasião aprendera na Igreja de Jesus Seja Louvado, O Senhor É Todo-Poderoso; o Hal acenara com a cabeça durante todo o tempo, exibindo uma expressão parecida com enlevo. Ele podia dar-se ao luxo de acenar com a cabeça, não é verdade? Sim. E também de mostrar-se enlevado. No seu semblante, adivinhava-se uma profunda tristeza - sem dúvida que ele se sentia abalado, nunca duvidei disso - mas desta vez não lhe assomaram lágrimas aos olhos, porque ele tinha uma mulher em casa à sua espera, a sua companheira que o aguardava, e ela estava bem de saúde. Graças ao John Coffey, ela encontrava-se completamente curada e o homem que tinha assinado a sentença de morte do John poderia ir-se embora para junto dela. Não era obrigado a presenciar aquilo que aconteceria a seguir. Teria possibilidades de dormir nessa noite no calor do corpo da mulher, enquanto o John Coffey estaria estendido sobre um bloco de mármore na cave do hospital do município, com o corpo a arrefecer à medida que as horas silenciosas e desprovidas de calor humano se aproximavam da alvorada. Odiei o Hal por todos aqueles motivos. Só um pouco, e claro que eu acabaria por ultrapassar esse sentimento, mas o que era inegável é que se tratava de ódio. Do mais genuíno que pudesse existir.
Pouco depois entrei na cela, seguido pelo Dean Harry; ambos estavam cabisbaixos e pálidos.
- Estás preparado, John? - perguntei.
- Sim, chefe. Acho que sim - respondeu-me ele.
- Muito bem, então. Tenho uma coisa a dizer antes de sairmos da cela.
- Diga tudo o que tem a dizer, chefe.
- John Coffey, na minha qualidade de funcionário autorizado pelo tribunal...
Fiz o discurso da praxe até ao fim e, quando terminei, o Harry Terwilliger aproximou-se e estendeu a mão. Por escassos momentos, o John mostrou-se surpreendido, mas depois sorriu e apertou-a. Em seguida, foi a vez do Dean, mais pálido do que nunca, fazer o mesmo.
- Tu merecias melhor sorte do que esta, Johnny - afirmou ele numa voz enrouquecida. - Lamento muito.
- Eu ficarei bem - replicou o John. - Esta é a parte mais difícil; daqui a pouco estou bem. - Com aquelas palavras, levantou-se da tarimba; a medalha de São Cristóvão que a Melly lhe oferecera soltou-se de dentro da camisa.
- John, tens de me entregar isso - disse eu. - Eu posso voltar a pôr-ta ao pescoço depois de... depois, se o desejares, mas agora não podes usá-la. - Era de prata e, se estivesse junto à pele quando o Jack Van Hay acionasse a corrente elétrica, poderia fundir-se com a pele. Ainda que isso não viesse a suceder, talvez lhe deixasse a imagem carbonizada do santo na pele do peito. Eu já presenciara isso. Durante os anos que passara na Milha já tinha visto quase tudo. Mais do que aquilo que era bom para mim próprio. Agora compreendo isso.
O John tirou o fio pela cabeça e pousou-o na minha mão. Coloquei o medalhão na algibeira e disse-lhe para sair da cela. Não havia necessidade de verificar a cabeça para me certificar de que o contato se faria de forma” adequada, permitindo uma boa passagem de corrente; eu sabia que estava tão macia como a palma da minha mão.
- Sabe, chefe, esta tarde adormeci e tive um sonho - ?disse ele. - Sonhei com o rato do Del.
- A sério, John? - Coloquei-me à sua esquerda e o Harry à sua direita. O Dean fechava a retaguarda; começamos a percorrer a Milha Verde. Foi a última vez que a atravessei na companhia de um prisioneiro.
- Sim - continuou o John. - Sonhei que ele tinha conseguido ir para aquele lugar de que o chefe Howell falou, aquela Vila dos Ratos. Sonhei que havia miúdos e que eles se riam ao ver as habilidades! Extraordinário! - Começou a rir-se ao pensar naquilo, mas pouco depois o seu rosto adquiriu uma expressão de maior seriedade. - Sonhei que aquelas duas meninas louras também lá estavam. Elas também se riam. Coloquei os braços à volta delas e o sangue parou de sair dos seus cabelos, e elas ficaram curadas. Todos nós ficamos a ver o Mister Jingles a rolar o carretel e fartamo-nos de rir. Quase explodimos de tanto rir.
- De verdade? - perguntei, embora pensasse que não seria capaz de prosseguir com aquilo, era absolutamente impossível. Ia começar a chorar ou a gritar, ou então o meu coração rebentaria de tanto desgosto, pondo fim a tudo.
Dirigimo-nos para o meu gabinete. O John olhou em redor por um momento ou dois, e deixou-se cair de joelhos, sem que houvesse necessidade de se lhe dizer que o fizesse. Por detrás dele, o Harry olhava para mim com uma expressão acossada. O Dean estava branco que nem uma folha de papel.
Ajoelhei-me ao lado do John, pensando que estava a verificar-se uma estranha inversão de circunstâncias: depois de todos os condenados que eu tivera de ajudar a terminar aquela jornada, desta feita o mais provável era que eu próprio viesse a precisar de ajuda. Pelo menos, foi isso que senti.
- O que é que devemos pedir, chefe? - perguntou-me John.
- Forças - repliquei sem sequer pensar. Cerrei os olhos e acrescentei: - Senhor, por favor ajudai-nos a concluir o que começamos, e, por favor, abri os braços a este homem,
John Coffey... como o nome da bebida, mas escrito de maneira diferente, dando-lhe as boas-vindas ao paraíso e concedendo-lhe paz. Por favor, ajudai-nos a enviá-lo da maneira que ele merece e não permitais que alguma coisa corra mal. Amém. - Abri os olhos e olhei para o Dean e o Harry. Estavam com melhor aspecto, o que provavelmente se devia ao fato de poderem ter recuperado o fôlego. Duvido que tenha sido a minha oração.
Comecei a erguer-me do chão, mas o John agarrou-me pelo braço. Lançou-me um olhar que era uma mescla de esperança e timidez.
- Lembrei-me de uma oração que me ensinaram quando eu era pequeno - disse ele. - Pelo menos, acho que me lembrei. Posso rezá-la?
- Não hesites, diz a tua oração - retorquiu o Dean. - Ainda temos muito tempo, John.
O Coffey fechou os olhos e franziu o sobrolho, tanta era a sua concentração. Eu estava à espera de uma oração que as crianças costumassem rezar antes de adormecerem, ou uma versão atabalhoada do padre-nosso, mas não obtive nem uma nem outra; nunca tinha ouvido o que lhe saiu da boca e nunca voltei a ouvir, apesar de as expressões e os sentimentos nas suas palavras não terem nada de particularmente invulgar. De mãos unidas em frente dos olhos fechados, o John Coffey começou a rezar.
- Menino Jesus, humilde e bom, reza por mim que sou uma criança órfã. Sê a minha força, sê meu amigo, fica comigo até ao fim. Amém. - Abriu os olhos e começou a erguer-se, olhando atentamente para mim.
Passei o braço pelos olhos umedecidos. Enquanto ouvia as suas palavras, tinha pensado no Del; no fim, ele também desejara rezar mais uma oração. Santa Maria, Mãe de Deus, rezai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. - Lamento muito, John.
- Não lamente - redarguiu ele, apertando-me o braço e esboçando um sorriso. E então tal como eu pensei que viria a suceder, ele ajudou-me a levantar do chão.
10
Não estavam presentes muitas testemunhas - ao todo, talvez fossem umas catorze, metade do número que tinha estado na arrecadação quando da execução do Delacroix. O Homer Cribus viera assistir, com as carnes gordas a transbordar da cadeira como era costume; contudo, não vi o seu ajudante, o McGee. À semelhança do diretor Moores, aparentemente, ele decidira manter-se ausente daquela.
Na fila da frente encontrava-se um casal de idade, que inicialmente não reconheci, embora houvesse visto as suas fotografias numa grande quantidade de artigos de jornal até àquele dia, na terceira semana de Novembro. Então, à medida que nos aproximávamos do estrado onde a Velha Faísca aguardava, a mulher deu largas à sua fúria.
- Morre devagar, grande filho da puta! - Foi então que compreendi que eles eram os Detterick, Klaus e Marjorie. Eu não os reconhecera, uma vez que não é normal ver-se velhos com pouco mais de trinta anos.
O John curvou os ombros ao ouvir a voz da mulher e o xerife Cribus grunhiu de aprovação. O Hank Bitterman, que se encontrava de guarda na frente daquele escasso grupo de espectadores, nunca desprendeu os olhos do Klaus Detterick. Estava a cumprir as minhas ordens; no entanto, nessa noite, o Detterick não fez o mais pequeno gesto na direção do John. O homem dava a impressão de se encontrar noutro planeta.
O Brutal, que estava junto da Velha Faísca, fez-me um pequeno gesto com um dedo quando subimos ao estrado. Meteu a arma no coldre e agarrou no John pelo pulso, escoltando-o com tanta suavidade em direção à cadeira elétrica como se fosse um rapaz a conduzir a namorada para a pista de dança no primeiro baile a que iam juntos.
- Está tudo bem, John? - perguntou ele em voz baixa. - Sim, chefe, mas... - Os seus olhos deslocavam-se de um lado para o outro dentro das órbitas e, pela primeira vez, mostrava-se assustado; a sua voz também deixando adivinhar isso. - Mas está aqui muita gente que me odeia. Muita. Eu sinto isso. Faz-me mal. Sinto picadas como se fossem o ferrão de abelhas, e dói.
- Nesse caso, deves pensar apenas no que nós sentimos - disse-lhe o Brutal no mesmo tom de voz baixa. - Nós não te odiamos..: Consegues sentir isso?
- Sim, chefe. - Mas a sua voz agora tremia ainda mais, enquanto dos olhos haviam começado a correr de novo, lentamente, lágrimas.
- Matem-no duas vezes, rapazes! - vociferou de súbito a Marjorie Detterick. A sua voz, áspera e estridente, era como uma bofetada. O John encolheu-se todo junto de mim, a gemer. - Yá lá, matem duas vezes esse violador, assassino de crianças, matem-no! - O Klaus, que continuava com a mesma expressão de quem sonhava acordado, puxou a mulher para junto do seu ombro. Ela começou a chorar convulsivamente.
Foi com grande estupefação que reparei que o Harry Terwilliger também chorava. Até ao momento, ainda nenhum dos espectadores tinha dado conta das suas lágrimas - ele estava de costas voltadas para a assistência - mas o inegável é que ele chorava. O que é que qualquer de nós poderia fazer, para além de dar seguimento ao assunto?
O Brutal e eu forçamos o Coffey a dar meia volta. O Brutal fez pressão sobre um dos ombros do homem gigantesco, e este sentou-se. Agarrou-se com força aos amplos braços de carvalho da Velha Faísca, com os olhos a rolarem dentro das órbitas e deitando a língua de fora, primeiro para umedecer um dos cantos da boca e depois o outro.
O Harry e eu ajoelhamo-nos. No dia anterior, tínhamos dado instruções a um dos presos de confiança que trabalhava na oficina para que este soldasse umas extensões flexíveis, mas temporárias, às braçadeiras das pernas da cadeira, uma vez que as canelas do John Coffey não eram do tamanho das de um tipo normal. Mesmo assim, atravessei uns momentos de pesadelo quando pensei que ainda seriam pequenas e que teríamos de levá-lo de regresso à cela, enquanto o Sam Broderick, o encarregado da oficina nessa época, procederia às alterações necessárias. Com a palma da mão, dei uma pancada especialmente forte contra a braçadeira do meu lado, que se fechou. A perna do John retraiu-se e ele ofegou. Eu tinha-lhe beliscado a pele.
- Desculpa, John - murmurei, olhando para o Harry. Ele conseguira ajustar a sua braçadeira com maior facilidade (ou a extensão do seu lado era um pouco maior, ou a canela da perna direita do John era um tudo-nada menos espessa); no entanto, olhava para o resultado com uma expressão de dúvida. Acho que compreendi por que motivo; as braçadeiras que haviam sido alteradas tinham um aspecto esfomeado, parecendo maxilas a abrirem-se como a boca de crocodilos.
- Vai correr tudo bem - disse eu, esperando que a minha voz fosse convincente... e que estivesse a dizer a verdade. - Limpa as faces, Harry.
Ele passou o braço pelo rosto, limpando as lágrimas das bochechas e as gotas de suor que lhe perlavam a testa. Demos meia volta. O Homer Cribus, que entretanto tinha estado a conversar em voz alta com o homem sentado ao seu lado (o promotor de justiça, a julgar pela gravata fina e fato negro com lustro), ficou em silêncio. Estava quase na hora.
O Brutal já prendera um dos pulsos do John e o Dean fizera o mesmo ao outro. Por cima do ombro do Dean, avistei o médico que, como sempre, tentava passar despercebido, de pé encostado à parede, com a sua maleta negra entre os pés. Nos dias que correm, imagino que eles tratem deste gênero de assunto com mais facilidade, principalmente com soluções intravenosas, mas naquela época era quase necessário arrastar os médicos, isto é, caso se desejasse a sua presença. Talvez nesses tempos eles tivessem uma noção mais precisa daquilo que era correto no comportamento de um médico, e daquilo que era uma perversão do juramento que haviam feito, aquele em que juram acima de tudo não provocar mal.
O Dean acenou na direção do Brutal. Este girou a cabeça, parecendo olhar para o telefone, cuja campainha jamais tocaria para os da igualha do John Coffey.
- Prosseguir com a fase um! - gritou ele, dirigindo-se ao Jack Van Hay.
Ouviu-se o zunido da corrente elétrica, como se fosse o barulho do motor de um velho frigorífico a arrancar, enquanto a luminosidade das luzes se intensificava um pouco mais. As nossas sombras projetaram-se um tudo-nada mais acentuadamente, sombras negras que se recortavam na parede e que pareciam pairar em redor da sombra da cadeira, quais abutres a rondar a presa. O John respirou fundo. Tinha os nós dos dedos brancos.
- Já começou a doer? - guinchou Mrs. Detterick numa voz entrecortada com a boca contra o ombro do marido. - Espero que sim! Espero que te faça doer como o inferno! - O marido apertou-a mais contra si. De uma das suas narinas escorria sangue, reparei eu, um fio vermelho estreito que corria até ao bigode. Quando abri o jornal em Março seguinte e li que ele morrera de uma trombose, senti-me o homem menos surpreendido do mundo.
Entretanto, o Brutal colocou-se no campo de visão do John. Enquanto falava, manteve a mão sobre o seu ombro. Aquilo ia contra os regulamentos, mas de todos os presentes só o Curtis Anderson é que tinha conhecimento disso, e ele não pareceu ter dado por nada. Pensei que o seu aspecto era o de um homem que desejava terminar, o mais depressa possível, com a tarefa que tinha em mãos. Queria desesperadamente ver tudo aquilo terminado. Veio a alistar-se no exército depois do ataque a Pearl Harbor, mas nunca chegou a ser enviado para o estrangeiro; morreu em Fort Bragg num acidente com um caminhão.
Entretanto, o John tinha-se descontraído um pouco sob os dedos do Brutal. Não me parece que ele compreendesse muito daquilo que o Brutal lhe dizia, mas isso não o impediu de se sentir confortado pela mão dele sobre o seu ombro. O Brutal, que veio a falecer de um ataque do coração vinte e cinco anos mais tarde (na altura comia ele uma sanduíche de peixe e assistia a um combate de luta livre na televisão de acordo com o que a irmã relatou), era um homem bom: Meu amigo. Talvez o melhor de todos nós. Não sentia a mínima dificuldade em compreender como é que um homem poderia desejar, simultaneamente, partir e sentir-se aterrorizado perante a perspectiva da viagem.
- John Coffey, o senhor foi condenado a morrer na cadeira elétrica, tendo a sentença sido lavrada por um júri formado pelos seus pares, e imposta por um juiz deste estado, Deus abençoe as pessoas deste estado. Tem alguma coisa a dizer antes de se dar cumprimento à sentença?
O John umedeceu os lábios uma vez mais, após o que falou com toda a clareza. Cinco palavras.
- Lamento muito aquilo que sou.
- Deves lamentar! - gritou a mãe das duas garotas assassinadas. - Oh, grande monstro, deves lamentar! TENS OBRIGAÇÃO DE LAMENTAR E MUITO!
Os olhos do John voltaram-se para mim. Na sua expressão não vi qualquer sinal de resignação, nem esperança do paraíso, nem tão-pouco o nascer de um sentimento de Paz.
Como eu gostaria de poder dizer que ele via essas coisas. Como eu gostaria de o poder dizer a mim próprio. Aquilo que vi foi medo, infelicidade e incompreensão. Eram os olhos de um animal encurralado que se sentia aterrorizado. Pensei no que ele dissera sobre a forma como o Wharton conseguira fazer com que a Cora e a Kathe tivessem saído do alpendre sem levantar as suspeitas de ninguém no interior da casa: Ele matou-as com o amor que elas sentiam. É o que acontece todos os dias. Em todas as partes do mundo.
O Brutal retirou a nova máscara do seu gancho de bronze nas costas da cadeira, mas assim que o John a avistou e compreendeu do que se tratava, os seus olhos arregalaram-se de horror. Olhou para mim e naquele momento eu via grossas gotas de suor sobre a curva do seu crânio desnudado. Pareciam tão grandes como ovos de tordos.
- Por favor, chefe, não ponha essa coisa em cima da minha cara - pediu ele num gemido sussurrante. - Por favor, não me faça ficar às escuras, não me obrigue a ficar às escuras, eu tenho medo do escuro.
O Brutal olhava para mim com os sobrolhos soerguidos, sem fazer o mais pequeno movimento, mantendo a máscara nas mãos. A expressão dos seus olhos dizia-me que a decisão era minha, fosse ela qual fosse, o destino do John já estava traçado. Pensei com toda a rapidez que me era possível e tão acertadamente quanto estava ao meu alcance - o que foi difícil, com a cabeça a latejar. A máscara era da tradição e não da lei. Na realidade, era uma medida que se destinava mais a poupar as testemunhas. Mas, subitamente, decidi que elas não precisavam de ser poupadas, sobretudo daquela vez. Ao fim e ao cabo, o John não tinha cometido crime nenhum em toda a sua vida que o fizesse ser merecedor de morrer com uma máscara a cobrir-lhe o rosto. Os presentes não estavam a par dessa circunstância, mas nós encontravamo-nos cientes disso, o que me levou a decidir que lhe concederia aquele último pedido. Quanto à Marjorie Detterick, o mais provável seria ela enviar-me uma carta de agradecimento.
- De acordo, John - murmurei eu.
O Brutal voltou a colocar a máscara no seu lugar. Atrás de nós, o Homer Cribus gritou a sua indignação numa voz de cana rachada.
- Vamos lá a ver, rapaz! Põe essa máscara na cara dele! Pensas que queremos ver os seus olhos a saltarem das órbitas?
- Faça o favor de se manter calado - disse eu sem me voltar para o homem. - Isto é uma execução e o senhor não é o responsável por ela.
- Nem foste o responsável pela sua captura, meu grande monte de tripas - sussurrou o Harry. O Harry morreu em 1982, muito próximo dos oitenta anos de idade. Um homem já bastante idoso. Não fazia parte da minha liga, como é evidente, mas poucos fazem. Veio a falecer de uma espécie qualquer de cancro intestinal.
O Brutal inclinou-se para baixo e retirou o círculo de esponja do interior do balde. Com um dedo fez pressão sobre a superfície e lambeu a ponta deste, embora não houvesse necessidade de o ter feito. Eu conseguia ver o líquido de um horrível tom acastanhado a pingar da esponja. Ajustou-a no interior do capacete e colocou este sobre a cabeça do John. Pela primeira vez reparei que o Brutal também estava branco - de um branco pastoso, parecendo prestes a perder a consciência. Ocorreu-me o fato de ele ter dito que sentia, pela primeira vez em toda a sua vida, estar à beira do inferno, porque estávamos a preparar-nos para matar uma bênção de Deus. De súbito, senti uma vontade irresistível de vomitar. Consegui controlá-la, mas só com muito esforço. A água gotejava da esponja por ambos os lados do rosto de John.