A Grande Saída
Parte II: Dinheiro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
desenvolvê-los e implementá-los. 15 Ele observa que, obviamente, não foi a maior qualificação dos trabalhadores deflagrada pela guerra do Vietnã a responsável pela invenção do computador, mas imagina um processo cumulativo em que a valorização da educação provocada por mudanças técnicas anteriores motiva mais gente a buscar ensino superior; a maior oferta de trabalhadores com diploma acelera o ritmo do progresso técnico, o que por sua vez eleva o valor do trabalhador mais capacitado, e assim por diante. O processo só terminará quando tivermos feito tudo o que for possível com as novas tecnologias da informação e o esforço inventivo passar a ser direcionado a outro setor da economia, exatamente como se deslocou das ferrovias para os automóveis e dos automóveis para a eletrônica. O crescimento da desigualdade salarial é um subproduto desse mecanismo e tem papel-chave no aumento da oferta de mão de obra qualificada. Portanto, embora a desigualdade não seja em si algo desejável, é parte de um sistema que está melhorando os padrões de vida de todos.
É possível fazer uma analogia interessante com a situação de pais que, cansados da bagunça dos filhos, atrelam o valor da mesada à organização e à limpeza dos seus quartos. Esquemas como esse normalmente alcançam, pelo menos em parte, os efeitos desejados, tornando a casa mais habitável, deixando pais menos irritados e filhos mais conscientes dos prazeres de ter um quarto arrumado. No entanto, também há riscos. Se um filho responde mais prontamente aos incentivos que os irmãos, ou um é mais ordeiro que o outro sem necessitar de qualquer incentivo, mesadas iguais logo se tornarão desiguais. Em uma família ideal, todos os filhos manteriam os quartos impecavelmente em ordem e receberiam a mesada integral. Em famílias reais, como em economias reais, incentivos mais agudos significam mais desigualdade. É possível que alguns pais não vejam nisso um problema: afinal, os filhos têm oportunidades iguais e devem aprender a conviver com as consequências dos seus atos. Outros pais talvez sejam mais complacentes: é possível que entendam que os filhos sejam dotados de capacidades diferentes de deixar tudo arrumado e que todos cometem erros de tempos em tempos; eles talvez compartilhem a percepção dos filhos de que a nova desigualdade que se instalou é injusta. Igualdade de oportunidade não garante resultados obviamente justos.
Se o esquema familiar de incentivo perdurar o suficiente, a desigualdade talvez recrudesça se os filhos economizarem parte de suas mesadas. Mesmo que todos eles poupem a mesma parcela percentual da mesada, um deles regularmente aumentará suas economias mais que os outros e ficará mais rico que seus irmãos. Poupar turbinará a desigualdade entre as mesadas e não demorará muito para que esta pareça insignificante diante da desproporção entre as poupanças acumuladas, da mesma forma que, na economia real, a desigualdade entre salários é insignificante diante da desigualdade entre patrimônios. A desigualdade será potencializada ainda mais rapidamente se os filhos naturalmente inclinados a serem ordeiros também tiverem tendência a economizar para o futuro. Na sociedade como um todo, funcionará o mesmo tipo de dinâmica se os que são mais inclinados a olhar para o futuro e têm mais autocontrole forem também os que tiverem mais chances de receber uma boa educação e de acumular riqueza a partir de seus ganhos potencializados pela educação que receberam. Há um profundo conflito entre incentivos e desigualdade, tanto em famílias quanto em países.
A explosão de novas tecnologias está realmente melhorando a vida de todos? A possibilidade certamente existe: maneiras melhores de se fazer as coisas significam que, em tese, mais renda total fica disponível para distribuição. E mesmo que a remuneração por possuir melhor qualificação esteja crescendo, o processo em si não deveria diminuir os salários dos menos qualificados. Embora a Figura 3 não mostre nenhum declínio na renda familiar na camada dos 20% mais pobres, o cenário é diferente quando analisamos os salários mais baixos, que efetivamente têm caído em termos reais. A renda das famílias só se manteve estável porque mais mulheres participam do mercado de trabalho, de forma que mais famílias agora têm mais de um gerador de renda. Impõe-se então a pergunta: o que faz os salários continuarem baixos?
Globalização é uma parte da resposta; a fabricação de muitos bens que anteriormente eram produzidos nos Estados Unidos por trabalhadores com pouca qualificação foi deslocada para países mais pobres, e muitas empresas transferiram para o exterior serviços que antes eram realizados domesticamente, inclusive back office (como processamento de pedidos de indenização) e call centers para atendimento a clientes. Imigração (legal e ilegal) também tem sido apontada como responsável por empurrar para baixo os salários de trabalhadores menos qualificados, apesar da hipótese continuar sendo controversa e alguns estudos sérios demonstrarem que seu efeito é limitado. O custo crescente de serviços médicos também tem peso importante: o pacote global de remuneração da maioria dos empregados inclui seguro-saúde, e a maior parte das pesquisas indica que os aumentos nos prêmios de seguro saem, em última instância,
dos salários. 16 Com efeito, na média, o desempenho dos salários tende a piorar quando os custos de saúde sobem rapidamente, e a melhorar quando tais custos sobem mais
lentamente.17 A fatia do PIB canalizada para a saúde, que era de apenas 5% em 1960 e 8% em meados da década de 1970, alcançou quase 18% em 2009.
Mesmo no caso de empregos que exigem baixa qualificação, o sucesso das pessoas depende de suas competências. Em pior situação estão aqueles que antes trabalhavam em escritório exercendo funções mecânicas repetitivas que podem ser (e de fato passaram a ser) executadas por um computador, ou terceirizadas para mão de obra barata em países mais pobres (embora não os mais pobres do mundo). Mesmo assim, para algumas das ocupações com as mais baixas remunerações médias, tanto os próprios salários quanto a oferta de empregos têm aumentado: são empregos no varejo, em restaurantes ou no setor de saúde — em funções que requerem contato com o público, mas, normalmente, um nível não tão alto de capacidade cognitiva (do tipo que se aprende na faculdade) e que não podem ser executadas por computadores. Tradicionalmente, eram as mulheres que exerciam muitas dessas funções, o que acabou colocando ainda mais pressão sobre os homens cujos postos de trabalho foram perdidos. As pessoas muito mais ricas que têm se saído extremamente bem (aprofundo-me sobre isso abaixo) também querem serviços: desde trabalhadores de restaurantes, funcionários de creches, babás, doulas, passeadores de cães, faxineiros e personal shoppers, até chefs de cozinha particulares, motoristas e pilotos. Neste campo, recriamos algo parecido com a velha aristocracia europeia, onde grandes proprietários de terra empregavam exércitos de serviçais — uma espécie
de Downton Abbey nos Hamptons ou em Palm Beach.18 Na medida em que esses grupos de serviços permanecem na base da pirâmide distributiva, salários e empregos ficaram polarizados, crescendo na parte mais alta do topo e na mais
baixa da base, e nada no meio.19
Política e desigualdade
Não é pequeno o papel da política na formação dos salários dos trabalhadores de baixa renda. O salário mínimo é estabelecido pelo Congresso — em 2013, eram 7,25 dólares por hora, ou 14.500 dólares por duas mil horas de trabalho por ano — e alguns estados têm seus próprios salários mínimos, dezoito dos quais são mais altos que o federal. A questão crucial é que o salário mínimo federal não é automaticamente corrigido pela inflação ou de acordo com o crescimento dos salários no mercado de trabalho. Em consequência disso, o valor real do mínimo está constantemente em queda, interrompida por ajustes ocasionais sempre que o Congresso resolve agir; quando os salários reais estão crescendo, a distância do salário mínimo para a média salarial aumenta ainda mais rápido.
Mudá-lo é quase sempre uma operação conflituosa; colocam-se frente a frente trabalhadores contra empregadores, ambos os campos com boa representação política. O resultado é que o salário mínimo pode permanecer inalterado por longos períodos: manteve-se em 3,35 dólares por hora de 1 o o de janeiro de 1981 até 1 de abril de 1990; em 5,15 dólares de 1o de setembro de 1997 a 24 de julho de 2007; e o valor em vigor atualmente (2013) foi estabelecido em 24 de julho de 2009. Mesmo quando aumentos foram decretados, não eram grandes o suficiente para compensar os aumentos nos preços; o salário mínimo de 1975, de 2,10 dólares, tinha poder de compra um terço maior que o de 2011, de 7,25 dólares por hora. Em outras palavras: alguém que ganhava um salário mínimo em 1975 teria recebido 4.200 dólares por ano, valor equivalente à linha de pobreza de uma família de três pessoas. Em 2010, esses ganhos seriam de 14.500 dólares por ano, mas a linha de pobreza havia subido para 17.374 dólares. Essa erosão a longo prazo, entremeada por correções ocasionais que resgatam apenas parcialmente o poder de compra, é um indicador do declínio do poder político dos trabalhadores que ganham salário mínimo ou perto disso.
Os efeitos do salário mínimo são tema controverso não só entre políticos como também entre economistas. A teoria padrão (e apenas levemente simplista) prevê que, se o governo eleva o mínimo para um nível acima do seu valor de mercado, empregadores demitirão parte dos trabalhadores que agora passaram a ser caros, pois sua contribuição passou a ser menor que o seu novo custo. Um trabalho empírico realizado pelos economistas David Card e Alan Krueger, de Princeton, no início da década de 1990, sugeria que tais efeitos não existiam, pelo menos no que se refere a pequenos
aumentos no salário mínimo. 20 Essa heresia despertou críticas severas, não apenas daqueles cujos interesses eram diretamente atingidos como também de economistas enfurecidos. O prêmio Nobel James Buchanan escreveu no Wall Street Journal que permitir que as evidências contradigam a teoria dessa maneira implicava que “não há o mínimo conteúdo científico na economia”, de forma que “aos economistas resta apenas escrever como advogados de interesses ideológicos”. Em sua conclusão, ele parabenizava a maioria dos economistas que “ainda não se tornaram um bando de prostitutas a serviço de qualquer trupe que passa
pela região”. 21
Embora haja na economia poucas evidências empíricas que não possam ser contestadas, acusações de parcialidade ideológica ou alegações autoproclamadas de integridade científica — normalmente vistas em ambos os lados da discussão — são particularmente comuns quando, como aqui, há um enfrentamento entre interesses políticos. Não obstante, neste caso uma parte da evidência empírica não tem nada de controversa. Entre aqueles que efetivamente têm emprego, quedas no salário mínimo aumentam a desigualdade entre remunerações porque permitem salários mais baixos do que os permitidos anteriormente. Esse efeito não terá relevância para grupos ou ocupações nos quais as pessoas são relativamente bem pagas, de forma que há poucas pessoas abaixo do mínimo; mas será muito importante em áreas de salários baixos, em ocupações de baixa remuneração, ou entre grupos, como mulheres ou afro-americanos, cujos
ganhos são relativamente inferiores.22
Se a erosão do salário mínimo desde 1970 foi parcialmente responsável pela queda geral dos ganhos reais entre os trabalhadores com remunerações mais baixas, por que a atuação política não impediu que isso acontecesse? Uma das razões é o enfraquecimento dos sindicatos de trabalhadores, em especial do setor privado, no qual a parcela de sindicalizados caiu de 24% em 1973 para apenas 6,6% em 2012. Apesar de ter crescido nos anos 1970, o número de filiados de sindicatos de trabalhadores do setor público está estagnado desde 1979; hoje, a maioria dos sindicalizados está concentrada no setor público. A diminuição do poder político dos sindicatos acentuou-se ainda mais devido ao fato de existirem outros grupos que não têm nem direito a voto. Imigrantes ilegais obviamente não votam, mas tampouco os imigrantes legais que não são cidadãos. Entre 1972 e 2002, a proporção de não cidadãos em relação à população total com idade para votar cresceu quatro vezes, ao mesmo tempo em que ficaram mais pobres em relação à população como um todo. À medida que mudaram as políticas de imigração, os imigrantes legais saíram da condição de relativamente prósperos para a de relativamente pobres; sua voz política fragilizou-se mesmo quando o poder político dos sindicatos perdeu vigor.
Há ainda outro grupo importante de indivíduos cujos direitos foram tolhidos, apesar de serem cidadãos. Somente os estados de Vermont e Maine permitem que presidiários votem, mas em dez outros estados criminosos condenados perdem para sempre o direito de votar, mesmo depois de cumprirem pena e condicional. Em 1998, as ONGs Sentencing Project e Human Rights Watch estimavam que 2% da população em idade de votar estava momentânea ou permanentemente privada desse direito; um terço desses eram homens afro-americanos, ou seja, 13% dessa fatia da população não podia votar; calcula-se que esse percentual ultrapasse 30% no Alabama e esteja quase nesse nível no Mississippi. Mesmo em um estado relativamente liberal como New Jersey, que não priva presidiários perpetuamente do direito de votar, 18% dos homens negros estão proibidos de ir às urnas. Embora muitas das pessoas nessa condição provavelmente não votariam de qualquer maneira, não deixam de ser eleitores em potencial e sua exclusão da política participativa os impede de se organizarem como força política efetiva, o que leva políticos a não ter motivos para dar ouvidos às suas demandas.
Aposentados não são diretamente afetados pelos movimentos do mercado de trabalho, embora suas pensões dependam do seu histórico laboral, das suas economias, de suas próprias contribuições ou de seus antigos empregadores aos planos de pensão, e das regras do sistema de Seguridade Social, responsável pelo depósito do benefício. Esses pagamentos são objeto de uma terceira frente de disputa e exercício de poder político. Apesar de não serem particularmente ricos, idosos formam um contingente numeroso (cada vez mais, devido ao envelhecimento da geração do baby boom) e a organização lobista que defende seus interesses, a AARP, é uma das mais poderosas (e temidas) de Washington.
O contraste entre o que aconteceu com o salário mínimo e com a Seguridade Social é prova eloquente do declínio do poder dos sindicatos e do crescente poder dos idosos. Estes também recebem (cada vez mais) benefícios caros através do Medicare, o programa governamental responsável por lhes fornecer serviços de saúde; se o custo desse programa for computado como parte da renda dos beneficiários, constataremos que idosos estão em melhor situação do que apenas sua renda deixa entrever. Uma vez mais, o poder dos idosos foi e permanece importante para a manutenção desses benefícios, apesar da atuação de outros lobbies poderosos, como fornecedores de serviços de saúde, seguradoras e laboratórios farmacêuticos.
A tributação é tema central da agenda política. Os impostos federais e estaduais sobre a renda são progressivos: tiram mais dos ricos que dos pobres, que em alguns casos podem até receber créditos tributários, de forma que a distribuição de renda líquida (após descontados os impostos) é, por princípio, mais igualitária que a distribuição antes dos impostos. A progressividade do sistema tributário é permanentemente contestada em debates, por exemplo, sobre se ganhos de capital ou dividendos devem ser tratados como outras receitas ou se, por justiça, deve-se promover redistribuição (visão da esquerda), ou se todo mundo deve pagar sua parte (visão da direita).
Cerca de metade das famílias americanas não paga imposto de renda federal; mesmo assim, a tributação não teve papel muito importante nas mudanças ocorridas na desigualdade desde os anos 1970, a maior parte das quais foram impulsionadas pela renda bruta, isto é, antes de impostos. Nos anos 1980, houve ligeiro incremento das disparidades graças a políticas tributárias de reduções de impostos que favoreceram os mais ricos, ao passo que, nos anos 1990, verificou-se o contrário, com aumentos de impostos no topo e expansão do programa Earned Income Tax Credit de benefícios para pessoas de baixa renda. Desde 2001, cortes de impostos passaram a favorecer novamente contribuintes de alta renda. O Congressional Budget Office, órgão apartidário do legislativo dedicado à produção e análise de informações sobre o orçamento e a economia, estima que, entre 1979 e 2007, a desigualdade (medida pelo Coeficiente de Gini, mas em bases ligeiramente diferentes) subiu em cerca de 20% para a renda bruta (antes da tributação) e em cerca de 33%, se for considerada a renda líquida (inclusive o valor do Medicare). Essa grande discrepância é motivada em parte pelo fato do sistema tributário ter se tornado menos progressivo durante o período e, por outro lado, pelo crescimento de benefícios para estratos mais ricos da distribuição de renda, na medida em que os benefícios para idosos (politicamente poderosos) cresceram em relação aos
dirigidos aos pobres (politicamente frágeis). 23
Salários e famílias
Quem trabalha fora traz para casa o salário e o divide com outros membros da família, alguns dos quais têm suas próprias fontes de renda. Muitas famílias, por outro lado, não têm ninguém que gere qualquer renda, inclusive aposentados que vivem de pensão privada ou pública. A organização da vida familiar e do trabalho dos seus membros molda a distribuição de rendimentos familiares para além do que acontece com os salários no mercado de trabalho. Algumas tendências, como o crescimento da remuneração das mulheres em relação à dos homens, e da remuneração dos negros em relação à dos brancos até 1985, compensaram o crescimento da desigualdade de salários no mercado de trabalho. Se examinarmos os ganhos de todas as pessoas, independentemente de terem um emprego ou não e de sua raça e sexo, o crescimento da desigualdade de renda se revela muito menor do que o que verificamos quando limitamos a análise apenas a quem está trabalhando. O aprofundamento da desigualdade entre trabalhadores foi parcialmente compensado pela entrada na força de trabalho de pessoas que antes não trabalhavam e não tinham nenhuma receita, especialmente mulheres casadas. Além disso, embora a desigualdade tenha crescido dentro de grupos — por exemplo, homens brancos com empregos em período integral —, houve declínio da desigualdade entre eles, com o aumento dos salários de mulheres em relação aos de homens e dos afro-americanos em relação aos de brancos.
Outras mudanças contribuíram para aprofundar as diferenças de renda familiar ainda mais que os salários. Homens com boa formação educacional tendem a se casar com mulheres com boa formação educacional. Até cinquenta anos atrás, as chances de esposas de homens com alta remuneração trabalharem eram menores que as de esposas de homens com remuneração baixa; muitas vezes, aquelas também tinham boa formação educacional, mas, seguindo o costume da época, se dedicavam a cuidar do lar para seus bem-sucedidos maridos. Hoje em dia, maridos e esposas seguem equiparados em termos de educação, mas agora as chances de elas próprias terem altos salários são maiores, e não menores. “Casais de sucesso”, em que ambos têm altos salários, são fator importante para puxar o topo da distribuição de renda (familiar) mais para cima em relação ao topo da distribuição de salários (individual). Essa constatação pode ser comprovada se analisarmos os dados das pesquisas, divorciarmos (apenas estatisticamente!) todos os casais, os recasarmos aleatoriamente com outros cônjuges e, por fim, recalcularmos a distribuição da renda familiar. Fazer isso não elimina a desigualdade de renda familiar, mas a reduz substancialmente.
Ao mesmo tempo em que o topo da distribuição de renda é puxado para cima pelos “casais de sucesso”, a base é puxada para baixo por pessoas que não têm nenhum parceiro, em especial mulheres solteiras, cuja presença na sociedade cresceu mais rápido que o total de domicílios, e têm chances significativamente maiores de estarem na pobreza.
Para ampla maioria das famílias nos Estados Unidos, as forças impessoais do mercado de trabalho foram o fator de maior influência em suas rendas propriamente ditas bem como na sua posição relativa na comparação com a renda de outras pessoas. Também mudanças na composição das famílias contribuíram para aumentar a distância entre as rendas, assim como ações de formuladores de políticas em resposta a pressões de grupos com poder político. No mercado de trabalho, a interação entre educação e tecnologia foi a grande protagonista, com papéis menores, mas ainda assim importantes, desempenhados pela globalização e pelo declínio dos salários mínimos. O crescimento em ritmo acelerado dos custos de saúde foi um peso negativo permanente para os níveis salariais. Os incentivos para se ter uma boa educação aumentaram muito, assim como cresceu a penalização para quem ignora tais incentivos, que atingiu os que optaram por não melhorar sua educação ou foram impedidos de fazê-lo devido à falta de capacidade ou formação prévia. Como na analogia com os filhos bagunceiros e ordeiros, incentivos maiores levaram a desigualdades maiores. As desigualdades no mercado de trabalho criaram novos empregos no topo e na base, deixando um vazio no meio. Pobres perderam espaço no cenário político em virtude também da ocorrência de três processos: evasão de membros e perda de força política dos sindicatos; crescimento da proporção de imigrantes mais pobres sem direito a voto em relação à força de trabalho como um todo; não participação de afro-americanos como eleitores em pleitos (tanto por opção própria quanto por estarem legalmente impedidos). As condições de vida dos (não tão pobres) idosos melhoraram constantemente graças ao seu crescimento em termos de proporção da população, poder eleitoral e representação política. No entanto, o grupo com melhor resultado, tanto no mercado quanto na política, é o que está no ponto mais alto da distribuição de renda e de salários. É neles que passo a focar a partir de agora.
O topo da pirâmide — as rendas mais altas nos Estados
Unidos
O estudo da desigualdade de renda foi revolucionado por um trabalho de 2003 de dois economistas, Thomas Piketty, da Escola de Economia de Paris, e Emmanuel Saez, da
Universidade da Califórnia, em Berkeley. 24 Há muito tempo se sabe que os dados sobre renda levantados em pesquisas domiciliares não eram muito adequados para examinar rendas muito altas: o número de pessoas nesse estrato é pequeno demais para aparecer nas pesquisas com abrangência nacional (e mesmo que abordadas de modo aleatório, é provável que dificilmente elas se dispusessem a responder). Piketty e Saez ampliaram de maneira significativa um método originalmente usado em 1953 pelo prêmio Nobel de economia Simon Kuznets, que usou dados diretamente extraídos do
imposto de renda. 25 Como qualquer mortal, ricos também têm de apresentar declaração de renda, ou seja, estão cem por cento representados nos bancos de dados da receita federal. Os resultados obtidos por Piketty e Saez mudaram a forma de pensar sobre desigualdade de renda, especialmente no topo da distribuição de renda. Estudos posteriores de dados levantados em outros países demonstram que essas ideias se aplicam também fora dos Estados Unidos.
Guardei este material para o final deste capítulo porque desejo dar a ele atenção especial, por conta da sua tremenda importância para entendermos o que aconteceu no mercado de trabalho, no mercado de capitais e na política. Acredito também que rendas mais altas têm peso particularmente significativo pelas enormes cifras envolvidas em si.
A Figura 4 é uma versão atualizada de um dos gráficos-
chave do trabalho de Piketty e Saez.26 Os dados cobrem o período que se estende desde a introdução do imposto sobre a renda nos Estados Unidos, em 1913, até 2011, durante a Grande Recessão; passam pelas duas Grandes Guerras, sinalizadas por faixas verticais em tom mais claro; e pela Grande Depressão, sinalizada por uma faixa vertical mais escura. As três curvas mostram estimativas dos percentuais da renda familiar total (incluindo ganhos de capital) recebidos pelos contribuintes pertencentes ao 1% mais rico (a curva mais ao alto), ao 0,5% mais rico (a curva do meio) e ao 0,1% mais rico (a curva de baixo). Os valores em dólares à direita são as rendas médias desses estratos em 2011: 1,1 milhão para o 1% mais rico; 1,7 milhão para o 0,5% mais rico; e 5 milhões para o 0,1% mais rico. Os 0,01% com maior renda (não mostrados na figura) tiveram renda média superior a 24 milhões de dólares em 2011 e receberam 4,5% da renda total. Com valor bem mais modesto, os 10% mais ricos como um todo receberam, em 2011, 47% da renda total, 255 mil dólares na média (contribuinte e família não são unidades idênticas, assim como renda, para fins de imposto, não é a mesma coisa que outras medidas de rendimento, mas há suficientes pontos em comum entre elas para afirmar que as tendências aqui mostradas são verdadeiras).
FIGURA 4 Parcela da renda total recebida pelos estratos mais ricos (ganhos de capital incluídos) 1913-2011
A figura mostra que a fração da renda total recebida pelos mais ricos nos Estados Unidos durante o século passado tem formato de U. Os percentuais experimentaram queda acentuada durante as duas Grandes Guerras — os impostos que custearam a contribuição americana para os conflitos advinham principalmente das corporações, resultando em fortes reduções dos dividendos pagos aos ricos — e também durante a Grande Depressão. Depois da Segunda Guerra, a queda continuou, porém mais suave, e acabou sendo enfim interrompida e revertida no final dos anos 1970 e início dos 1980. Houve em 1986 um crescimento brusco nas fatias abocanhadas pelos mais ricos, seguido de outras altas, de sorte que, quando chegou 2008, os contribuintes com maiores rendimentos estavam recebendo a mesma parcela do total da renda que recebiam às vésperas da Primeira Guerra. Também em 1986, uma grande reforma tributária alterou a definição de renda tributável, provocando o pico registrado naquele ano.
Não foi apenas a participação na renda total que oscilou significativamente para os mais ricos: também os tipos de pessoas que recebem os rendimentos mais altos mudaram. Nos primeiros anos, as rendas mais altas provinham do capital e as pessoas mais ricas eram o que Piketty e Saez chamaram de “coupon clippers” — colecionadores de cupons de dividendos —, cuja renda vinha majoritariamente de dividendos e juros. As fortunas que geravam esses recebimentos foram erodidas ao longo do século por impostos sobre a renda e sobre herança e patrimônio crescentemente progressivos. Aqueles que costumavam viver das suas fortunas (ou de seus ascendentes) foram substituídos no topo por geradores de renda, como presidentes de grandes empresas, banqueiros de Wall Street e gestores de fundos de hedge, cuja renda é recebida na forma de salários, bônus e opções de ações. Rendas recebidas por empresários eram importantes cem anos atrás e continuam sendo hoje; a parcela que representam no bolo total da renda permaneceu relativamente constante. Isso contrasta radicalmente com a grande novidade: a substituição dos colecionadores de cupons de dividendos — podemos chamá-los de “ricos ociosos” — pelos “ricos que trabalham”. Nas vertiginosas alturas onde estão os 0,10% com renda mais alta, os ganhos gerados pelo capital ainda têm peso maior do que no grupo dos 10%, mas a renda oriunda de salários é a mais representativa: quase 75% no grupo dos 10% com maior renda, e 43% no grupo dos 0,10%. Em 1916, apenas 10% da renda dessa elite eram gerados por salário. Dividendos e juros ainda são importantes, mas estão distribuídos mais amplamente, porque muitas ações de empresas estão nas mãos de fundos de pensão.
Nos últimos 35 anos, observamos um pronunciado contraste entre o bem-estar da maioria das pessoas e o das pessoas que estão no topo da distribuição. Desde 1980, a renda antes de impostos (corrigidas para compensar a inflação) dos 90% na base da distribuição cresceu a menos de 0,10% a.a., ou seja, um crescimento total de 1,9% em 28 anos. As gerações mal conseguem manter os padrões de vida de seus pais. Os números melhoram um pouco quando tomamos os dados de renda após impostos desse mesmo grupo de 90% na base, em especial se consideradas as imputações relativas aos custos do Medicare. Segundo o Congressional Budget Office, entre 1979 e 2007 os 80% dos domicílios na base da distribuição tiveram crescimento perto
de 25% na renda após impostos, ou seja, menos de 1% a.a. 27 O Medicare é sim um programa valioso, mas seus benefícios vão para os idosos, e o dinheiro não pode ser usado para pagar o aluguel ou a conta do supermercado.
Um cenário radicalmente oposto se revela quando observamos os dados de renda antes de imposto do grupo de 1% no topo da distribuição: suas rendas cresceram 2,35 vezes. Para pais e filhos que tiveram a sorte de fazer parte desse grupo tanto em 1980 quanto em 2011, o progresso foi real. Na faixa mais alta (acima do que aparece na figura), a renda média do grupo dos 0,01% com maior renda cresceu mais de quatro vezes. Esses números referem-se a rendas antes de impostos, ou seja, com as reduções dos impostos incidentes sobre as rendas mais altas implementadas em 2001, os contribuintes no topo tiveram resultados ainda melhores na medição após impostos. Esses contrastes acentuados entre as experiências da maioria da população e as da afortunada minoria ajudam a explicar a aparente incoerência entre as Figuras 1 e 2: como é possível que, em uma economia que cresceu tanto, houve tão pouco avanço na redução da pobreza? Tais incongruências mostram também que não foram apenas os pobres que tiveram pouca melhora em seu padrão de vida.
O que aconteceu e por que isso é importante?
Os ricos ficaram mais ricos às custas dos demais ou eles simplesmente, como sucede com outras pessoas talentosas e com elevado nível educacional, se tornaram mais produtivos inventando, por exemplo, novas e melhores formas de fazer as coisas que beneficiaram a todos? Em um mundo assim, em que todos estão prosperando (porém, alguns mais que outros), queixas contra a desigualdade são legítimas ou não passam de expressões de inveja? De mais a mais, por que damos tanta importância à desigualdade? Se todo mundo começa com as mesmas chances, por que deveríamos nos preocupar se aqueles que trabalham mais duro se saem melhor? Ou, se as pessoas não começam com chances iguais, talvez devêssemos nos preocupar com igualdade de oportunidades e não igualdade de resultados.
É possível invocar muitos argumentos em favor da igualdade de oportunidades e da não penalização das pessoas que alcançam o sucesso graças a seu próprio trabalho duro. No entanto, comparado com outros países ricos, e a despeito da crença popular no sonho americano de que qualquer um pode triunfar, os Estados Unidos na realidade não são muito efetivos quando se trata de produzir igualdade de oportunidades. Uma forma de medi-la é analisar a correlação entre rendas de pais e filhos. Em uma sociedade com total mobilidade e plena igualdade de oportunidades, não deveria haver nenhuma interdependência entre as rendas de filhos e pais e a correlação entre elas seria zero; em contraste, em uma sociedade de castas com direitos hereditários, em que os empregos são transferidos de uma geração para outra, tal correlação deveria ser um. Nos Estados Unidos, a correlação é de aproximadamente 0.5, a mais alta dos países da OCDE, superada apenas pelas da China e de um punhado de países da América Latina. Com efeito, países com grande desigualdade de renda são países em que há forte correlação
entre as rendas de pais e filhos;28 países desiguais, os Estados Unidos entre eles, são aqueles onde parece haver menos igualdade de oportunidades. Mesmo se acreditarmos que nosso desejo maior é por igualdade de oportunidades e que não nos importamos com desigualdade de resultados, ambas tendem a caminhar juntas, sugerindo que a desigualdade em si é um obstáculo para que haja oportunidades iguais.
E a inveja de quem é rico? Economistas têm grande apreço por algo chamado critério de Pareto, mencionado na Introdução: se algumas pessoas ficaram em melhor condição e ninguém em pior, o mundo melhorou. Inveja não deve entrar na discussão. A máxima é frequentemente invocada como razão para concentrarmos nossa atenção na pobreza e não no que está acontecendo no topo. Nas palavras de Martin Feldstein, economista de Harvard, “desigualdade de renda
não é um problema que precisa ser solucionado”.29 Há muito a dizer em defesa do critério de Pareto, mas, como veremos, não se pode dele deduzir que o aumento da desigualdade de renda não é um problema. Todavia, para chegarmos a esse ponto, precisamos saber mais sobre por que as rendas mais altas cresceram tão rapidamente nos últimos anos e quais foram as consequências.
Uma versão é a de que o topo não é assim tão diferente do resto da distribuição, apenas tem cores mais fortes. Graças às novas tecnologias, novas oportunidades surgiram para quem tinha mais educação e criatividade; em alguns casos extremos, alguns com mais educação e criatividade, ou pelo menos os mais sortudos desse grupo, construíram extraordinárias fortunas. Os exemplos mais eloquentes são Bill Gates, na Microsoft, Steve Jobs, na Apple, e Larry Page e Sergey Brin, no Google. Artistas do show business e grandes atletas agora podem ser admirados pelo mundo inteiro e não mais apenas por seus públicos locais, o que se traduz em ganhos proporcionais à audiência incrementada. A globalização permite que empresários, assim como artistas de grande sucesso, ampliem seus mercados e aumentem seus lucros. Não resta dúvida: mais pessoas ao redor do mundo podem agora desfrutar de seus incríveis talentos.
Outro grupo com presença destacada entre os de maior renda é o dos altos executivos de bancos e de fundos de hedge. Também eles têm formação de primeiro nível e usaram suas qualificações e criatividade para conceber novos produtos. Não há unanimidade entre economistas sobre em que medida o possível valor social desses novos instrumentos financeiros é compatível com os lucros que geram para seus inventores. É difícil não ver com simpatia a afirmação de Paul Volcker de que a última inovação financeira verdadeiramente útil foi o caixa eletrônico. Se os incentivos privados recebidos por banqueiros e financistas forem maiores que os incentivos coletivos da sociedade, teremos banqueiros e financistas demais, e a desigualdade que eles causam é indefensável.
Serviços financeiros tiveram importante papel no custeio de inovações em todos os setores da economia; a alocação eficiente de capital é uma das mais preciosas tarefas em uma economia de mercado. Mas há uma suspeita generalizada de que algumas atividades financeiras altamente lucrativas resultam em poucos benefícios para a população como um todo, e podem até ameaçar a estabilidade do sistema financeiro — é o que o investidor e empresário Warren Buffett chamou de armas financeiras de destruição em massa. Se for o caso, as próprias remunerações altíssimas a elas associadas são ao mesmo tempo injustas e ineficientes. O recrutamento agressivo das melhores mentes para o campo da engenharia financeira é uma perda para o restante da economia, provavelmente levando à diminuição da inovação e do crescimento em outras áreas. Muito menos controverso é o fato de a garantia implícita de que o governo salvaria as maiores instituições — elas próprias bastante interconectadas entre si — ter levado a riscos excessivos que foram fartamente recompensados, apesar de terem resultado em colapso e sofrimento para os milhões que perderam seus empregos, tiveram suas rendas ceifadas ou acabaram contraindo dívidas que jamais terão esperança de conseguir pagar. As pessoas brincarem com seu próprio dinheiro ou de seus clientes para ficarem ricas é uma coisa; fazer isso com dinheiro público é outra completamente diferente. Se essas atividades trazem danos à sociedade como um todo, a situação é intolerável.
O aumento agudo das remunerações não se restringiu apenas a empresas do setor financeiro ou a inovadores supercriativos, mas alcançou também grandes executivos de muitas corporações americanas. Também em relação a esse ponto, alguns argumentaram que a natureza do trabalho de gestão nos níveis mais altos mudou, que as corporações agora são maiores e que mudanças na tecnologia da informação permitiram que altos executivos passassem a comandar grupos maiores de pessoas. No entanto, muitos duvidam de que essa tendência seja suficiente para explicar o aumento nas remunerações de quem está no topo; para começar, as mudanças mostradas na Figura 4 aconteceram rápido demais para serem plausivelmente justificadas por progresso técnico. Além disso, como veremos no próximo capítulo, várias outras economias ocidentais registraram aumentos muito menores — algumas nenhum aumento — nos salários de seus administradores de alto escalão, apesar de também terem acesso às novas tecnologias de gestão e concorrerem nos mesmos mercados globais. Uma possível explicação é o fato da globalização favorecer mais executivos cuja língua materna é o inglês, por ser este o idioma da economia global, o que facilitaria o trabalho de vender seus serviços aos melhores clientes em diferentes países. Com efeito, os aumentos das remunerações mais altas foram maiores em países de língua inglesa.
Um estudo mostrou que os ganhos de dirigentes de companhias petrolíferas eram maiores quando os preços do petróleo estavam em alta, sugerindo que os bônus eram pagos porque havia dinheiro, e não porque os executivos
fizeram alguma coisa especial para merecê-los.30 Quando as corporações estão com sorte, pagam mais a seus administradores; mas, quando a sorte acaba, não há redução correspondente. Comitês de remuneração, que normalmente estabelecem os salários mais altos, são formados por diretores teoricamente independentes. Mas, como observaram Warren Buffett e outros, uma parcela grande da renda total dos membros desses comitês muitas vezes vem de sua participação no conselho, o que os deixa, na prática, sob controle do CEO. Buffett também chamou a atenção para o papel das firmas de consultoria de remuneração, que contribuem para a disseminação de pacotes salariais gigantescos nas empresas. O uso dessas firmas, aliado à prática comum de CEOs fazerem parte dos conselhos de administração de outras empresas, talvez explique por que pacotes de remuneração estratosféricos, antes restritos a companhias do setor financeiro, passaram a ser adotados mais amplamente no mundo corporativo como um todo. Ao mesmo tempo, as normas sociais que levaram à tributação fortemente progressiva, e consequente equalização depois da Segunda Guerra, tinham sido em grande medida erodidas ao final do século; e rendas muito altas passaram a ser socialmente mais aceitas do que teriam sido cinquenta anos atrás.
O governo também ajudou a promover o rápido crescimento das remunerações mais altas. A garantia embutida na tese “grande demais para falir” e as centenas de milhões de dólares em ganhos que ela tornou possível são expressão da falta de regulação governamental. Os economistas Thomas Philippon e Ariell Reshef mostraram como a remuneração no setor financeiro, que era alta nos anos 1920, caiu na esteira da regulação da era pós-
Depressão, e tornou a subir, especialmente depois de 1980. 31 Eles mostram que mudanças em quatro tipos de regulação e desregulação financeira — permitir a bancos atuar em outros estados além do estado de origem; separação de bancos comerciais e de investimentos; tetos para taxas de juros; e separação de bancos e companhias de seguros — podem juntas coincidir com mudanças de padrões de remuneração no setor financeiro. A promulgação da lei Glass-Steagall em 1932, e sua revogação em 1999, são os marcos dessa trajetória.
O Congresso não promulga ou revoga tais leis à toa. O lobby de potenciais beneficiários e prejudicados é intenso, e interesses com boa retaguarda financeira sabem como usar o dinheiro para apoiar ou castigar campanhas políticas. Para os cientistas políticos Jacob Hacker e Paul Pierson, atividades de lobby tiveram papel crucial no aumento dos rendimentos mais
altos;32 eles observam que o número de empresas representadas por lobistas cadastrados em Washington aumentou de 175 em 1971 para 2.500 em 1982, em boa medida como reação à onda de regulação governamental dos negócios oriunda do projeto Grande Sociedade, do presidente Johnson. Mudanças em regras de funcionamento de mercados, aparentemente enigmáticas ou obscuras, que determinam o que empresas podem e não podem fazer, ou em normas de contabilidade, podem significar imensas somas de dinheiro para grupos de interesse específicos. Isso foi verdadeiro no caso da revogação da lei Glass-Steagall assim como em várias outras situações ao longo do período que culminou na Grande Recessão, e também logo depois. Um exemplo explosivo foi o da companhia financeira semipública de securitização de hipotecas Fannie Mae, que era tocada por operadores com boas conexões políticas que enriqueceram — e permitiram que também seus executivos mais graduados faturassem fortunas — graças a uma estratégia de risco que se provaria catastrófica, enquanto mantinha longe reguladores por meio de campanhas de pressão política generosamente
irrigadas por recursos financeiros.33
Se essa versão dos fatos for correta, mesmo que apenas em parte, existe o perigo de o rápido crescimento das maiores remunerações se autoalimentar lastreado por acertos políticos que só o dinheiro pode comprar. Regras são estabelecidas não em nome do interesse público, mas sim do interesse dos ricos, que as usam para ficar ainda mais ricos e influentes. Os países da OCDE que tiveram os maiores aumentos nas fatias da renda recebidas pelo topo da distribuição são os mesmos que promoveram os maiores cortes de impostos incidentes
sobre as rendas mais altas. 34 Estudos sobre o voto de congressistas, realizados pelos cientistas políticos Larry Bartels e Martin Gilens, comprovam como os votos dos parlamentares dos dois campos partidários são sensíveis aos desejos dos eleitores ricos e nada comprometidos com os dos
pobres. 35
O desvio de talentos para atuar em lobbies é tão prejudicial para a economia quanto a sangria de talentos para a socialmente questionável engenharia financeira. Há muito tempo se sabe que essas “atividades diretamente improdutivas voltadas apenas para auferir lucros” foram sério obstáculo ao crescimento econômico em muitos países em desenvolvimento — exemplo clássico é o da Índia de antes dos anos 1990, com seu conjunto de regulações do setor privado conhecido como licença Raj. Graças a seus imensos retornos com baixo custo, a atividade de lobby desvia talentos de atividades produtivas e de inovação, das quais depende o
crescimento econômico. 36 Despesas governamentais e de campanhas são temas sempre comentados, mas mesmo os custos das recentes eleições presidenciais são mínimos se comparados, por exemplo, com os orçamentos anuais de publicidade das montadoras de automóveis. O preço de apoiar alguém politicamente é bem baixo diante dos potenciais benefícios.
Um dia, em um voo de Délhi para Jaipur, no Rajastão, sentei-me ao lado do fabricante de algum produto (nunca descobri qual exatamente, apenas que precisava ser protegido contra concorrentes importados), que me explicou em pormenores como eram perversos os reguladores governamentais e como ele perdia tempo (como nessa viagem) entrando com pedidos de licenças, flexibilidade em relação a normas e interpretações favoráveis de regras. Seu desprezo por tais indivíduos era ilimitado. Depois de tomarmos, a convite dele, um belo café da manhã no Rambagh Palace, um luxuoso hotel cinco estrelas na capital indiana, ele sussurrou ao se despedir para encontrar o abominado burocrata: “Ah-hã, professor Deaton, os lucros, os lucros!” Sanford Weill, que só pôde criar o Citigroup porque a lei Glass-Steagall tinha sido revogada, provavelmente teria dito a mesma coisa.
O processo de causalidade circular e cumulativa impulsionado por dinheiro e política está longe de ser comprovado, apesar de cientistas políticos e economistas demonstrarem sério interesse no tema. O que atualmente nos falta são noções mais precisas dos tamanhos dos vários efeitos — que parcela do crescimento nas remunerações mais altas é causada por lobby ou outras atividades políticas; que parcela pode ser atribuída à alta produtividade de quem as recebe; e qual é a extensão exata da pressão política exercida por esse grupo de interesse em oposição a vários outros, como a dos sindicatos, também eles muito bem representados em Washington. Tampouco entendemos porque tal influência acabou se tornando tão mais poderosa ao longo do tempo, se é que de fato isso aconteceu. As respostas a essas questões são cruciais para decidirmos se devemos nos preocupar com o aumento das rendas mais altas e por que a preocupação com o fato de os ricos ficarem mais ricos envolve muito mais aspectos do que simplesmente inveja.
Se a democracia vira plutocracia, quem não é rico acaba efetivamente privado de direitos. É bem conhecido o pensamento do juiz da Suprema Corte Louis Brandeis: os Estados Unidos podem ter ou democracia ou concentração de riqueza nas mãos de poucos, mas ter os dois é impossível. A igualdade política indispensável à democracia vive sob ameaça permanente da desigualdade econômica, e quanto mais extrema for essa desigualdade econômica, maior a
ameaça à democracia.37 Se esta for fragilizada, haverá perda direta de bem-estar porque as pessoas têm razões de sobra para dar grande valor à sua capacidade de participar da vida política; a perda dessa capacidade é uma estrada aberta para outras perdas. Os muito ricos pouco precisam de educação ou saúde públicas e têm muitos motivos para defender cortes no programa Medicare e para lutar contra aumentos de impostos; de outro lado, não têm motivo nenhum para apoiar seguro-saúde para toda a população ou se preocupar com a baixa qualidade das escolas públicas de boa parte do país. Eles se oporão a qualquer regulação de bancos que restrinja lucros, mesmo que isso ajude aqueles que não conseguem pagar as prestações do financiamento da casa ou proteja o público contra empréstimos predatórios, propaganda enganosa ou até
mesmo evite uma repetição da crise financeira. 38 Preocupar-se com essas consequências da desigualdade extrema não tem nada a ver com inveja de quem é rico e tudo a ver com o temor de que aumentos em ritmo acelerado das rendas mais altas sejam uma ameaça ao bem-estar do restante da população.
Não há nada errado com o critério de Pareto, e não devemos nos incomodar com a boa sorte dos outros se ela não nos prejudicar. O erro está em aplicar o critério a apenas uma dimensão do bem-estar — dinheiro — e ignorar outras dimensões, como a possibilidade de termos participação ativa em uma sociedade democrática, termos boa educação e boa saúde e não sermos vítimas de terceiros em sua busca voraz por enriquecimento. Se aumentos nas rendas mais altas não contribuem para a diminuição de outras faixas de renda, mas comprometem outros aspectos do bem-estar, o critério de Pareto não pode ser invocado. Dinheiro é uma coisa, bem-estar é outra!
Mesmo se focarmos exclusivamente na renda e ignorarmos as perdas em outras dimensões, nossa visão sobre se desigualdades de renda são injustas ou não depende do quanto aumentos nas rendas mais altas beneficiam todos ou apenas aqueles que as recebem. É improvável que a grande consternação pública provocada pela morte de Steve Jobs acontecesse diante da morte precoce de algum dos banqueiros mais proeminentes do país.
Os Estados Unidos de hoje são ilustração evidente dos temas deste livro. A economia americana cresceu desde a Segunda Guerra, não às taxas mais altas de sua história, mas em ritmo bastante respeitável, se comparado com os padrões históricos. Os bens e serviços produzidos por essa expansão melhoraram a vida de muitos. Ainda que não tenha sido uma fuga da pobreza e da degradação — em 1945, o país já era rico pelos padrões históricos —, os efeitos do crescimento no bem-estar não devem ser desprezados. As pessoas têm mais segurança e melhores moradias, podem viajar de maneiras impensáveis por seus avós, têm acesso a uma gama incrível de informações e entretenimento produzidos no mundo (antes disponíveis a uma reduzidíssima minoria) e podem se comunicar de formas jamais sonhadas. Todavia, como acontece com frequência, com o crescimento vieram fraturas: alguns se saíram melhor que outros, principalmente desde meados dos anos 1970, período em que o crescimento desacelerou e foi menos inclusivo. Essas fraturas podem ser produtivas e, como vimos em muitos casos, criam tanto as oportunidades quanto os incentivos para quem está atrás se equiparar a quem está na frente, e também para distribuir para muitos os benefícios de poucos. Na história americana recente, esse processo está concentrado na “corrida entre educação e tecnologia” e nos portentosos aumentos no número de americanos com boa formação educacional.
Crescimento, desigualdade e equiparação entre os que estavam atrás e os da frente são o lado positivo da moeda. O lado negativo aparece quando o processo é capturado e, em consequência, a equiparação nunca chega. São contundentes os escritos do historiador Eric Jones sobre os motivos que levaram o Ocidente a se desenvolver depois de 1750 e o sul e o oriente a permanecerem estagnados. Na visão dele, não se pode dizer que o resto do mundo nunca experimentou crescimento; na verdade, houve sim desenvolvimento, em
vários momentos. 39 Mas ele era abortado por governantes poderosos ou por religiosos que se apropriavam das inovações para seus próprios fins, ou baniam as atividades inteiramente porque ameaçavam suas posições. Seja como for, o crescimento econômico sustentável nunca chegou a se consolidar, e a galinha que poderia ter botado os ovos de ouro foi asfixiada no nascimento. A extrema desigualdade de poder em tais sociedades resultou em um ambiente no qual o crescimento não pôde se firmar, destruindo assim uma rota de libertação.
Os historiadores econômicos Stanley Engerman e Kenneth Sokoloff têm uma versão diferente para a narrativa que
associa desigualdade a (falta de) crescimento.40 Em países onde o poder estava concentrado em poucas mãos — por exemplo, economias baseadas no sistema plantation de monocultura agrícola na América Latina ou no sul dos Estados Unidos, ao contrário do norte do país —, os ricos se opunham à concessão de direitos políticos à maioria e restringiam a educação à elite, da qual eles próprios faziam parte. Essas ausências de participação política e de educação para todos privaram as pessoas de instituições que são a raiz do crescimento econômico generalizado. Em contraste, a implementação da educação pública universal nos Estados Unidos foi fator decisivo para seu sucesso econômico no longo prazo.
A tese de que instituições moldadas para atender à elite são inimigas do crescimento econômico também é defendida pelos economistas Daron Acemoğlu e Simon Johnson, do MIT, em texto escrito em parceria com o cientista político James
Robinson, de Harvard.41 Potências coloniais que puderam estabelecer colônias povoadas por seus próprios cidadãos trouxeram consigo suas instituições (casos dos Estados Unidos, Austrália, Canadá e Nova Zelândia), ao passo que em países onde era difícil demais a adaptação (por exemplo, devido a alta incidência de doenças), foram estabelecidos estados “extrativistas” que em essência pilhavam recursos (casos de Bolívia, Índia e Zâmbia, por exemplo) com instituições projetadas para servir a elite dominante, mas que não podiam promover e sustentar o crescimento econômico. Regimes extrativistas normalmente não têm interesse em proteger a propriedade privada ou em consolidar o estado de primazia da lei; sem tais instituições, é improvável o florescimento do empreendedorismo e da busca da inovação. Países que eram relativamente ricos e populosos no período da expansão colonial eram alvos especialmente atraentes a serem conquistados, a tal ponto que houve depois uma inversão histórica de seus destinos. Entre os países que foram conquistados pelas potências europeias, os que eram ricos agora são pobres e os que eram pobres agora são ricos.
Tais inversões de destino deveriam servir como alertas para não nos acomodarmos achando que a prosperidade e o crescimento econômico modernos estão permanentemente garantidos, como se fossem algo que sempre existiu e nunca desaparecerá. Rent-seeking pode levar à substituição de crescimento econômico por guerras internas devastadoras em que cada grupo luta cada vez mais ferozmente por fatias de
um bolo cada vez menor.** Grupos de interesse podem encher os cofres de poucos à custa de muitos, em um processo em que cada um destes muitos perde tão pouco que não compensa se organizarem para evitar a pilhagem; os efeitos cumulativos disso podem corroer as estruturas internas
de uma economia e sufocar o crescimento. 42 Elites ricas e poderosas amordaçaram o crescimento no passado e podem voltar a fazê-lo se lhes for permitido minar as instituições das quais depende o crescimento amplo e geral.
* Bolsa Alimentação distribuída mensalmente a cidadãos de baixa renda. (N. do T.)
** Na teoria econômica, rent-seeking ocorre quando um agente mobiliza recursos para aumentar sua participação na riqueza produzida pela sociedade, sem que esses esforços contribuam para criar novas riquezas. Lobbies para limitar a competição ou instaurar monopólios em determinados setores são exemplos clássicos desse tipo de comportamento. (N. do R.T.)