A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

Florestan Fernandes · Capítulo 10 de 15 · parte 4/4

Páginas do PDF

A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

2. Os diferentes níveis da desorganização social

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

Antes, o depoente só conhecera o ambiente dos cortiços e os “bailes de negros do Piques”. Daí a sensação que teve, de se pôr em contato com um mundo completamente novo e diferente.

Esse contraste sugere algo de vital importância. A maior parte da “população de cor” não estava plenamente envolvida e identificada com os valores sociais, que incluíam o casamento, a família e as obrigações domésticas na esfera axiológica básica da cultura da sociedade inclusiva. Em consequência, um rapaz negro ou mulato podia “dar em cima” de uma moça da mesma cor. Se esta correspondesse e se deixasse seduzir, ele a largaria ao próprio destino. Entendia-se que a moça “infelicitada” “não servia para casar” – “se deixou um, deixa outro”, era o raciocínio do rapaz, muitas vezes empenhado em aumentar sua “coleção de cabaços”; “não fico com restos dos outros”, era o raciocínio dos demais. Em suma, “ninguém se casa com uma mulher que perde o cabaço”. Na medida em que a virgindade não constituía um valor social, esse traço não deixava de ser extremamente sociopático. Os comentários das vizinhas e a reação dos pais evidenciam que, em regra, a ocorrência era recebida com relativa naturalidade. Portanto, a norma servia para acobertar a frustração sistemática, pelos homens, dos deveres resultantes da aventura pré-matrimonial. Daí a conjugação sintomática do namoro com a sedução física e a rejeição do casamento. Vários casos demonstram que o jovem preferia “pegar cadeia” a se casar; e que, com frequência, não dispunha de condições econômicas para “sustentar a casa”, mesmo com a colaboração da mulher. Os informantes usaram o termo “irresponsabilidade” para designar os comportamentos descritos. E ele é preciso, desde que se entenda que a falta de ego-envolvimento e de identificação com os valores sociais em causa teria de acarretar a frustração sistemática das expectativas de comportamento consagradas socialmente. Um dos exemplos permite acentuar bem esse aspecto: um jovem “fizera mal” à namorada e, de acordo com a norma, recusou-se a casar. O pai da moça o procurou. Não o obrigou a nada. Disse-lhe, apenas, o que representava o seu comportamento e as consequências previsíveis de sua “falta de responsabilidade”. O rapaz “se convenceu” e casou com a moça. O exemplo mostra muito bem que as inconsistências da socialização prévia podiam ser corrigidas. No entanto, a tradição cultural não favorecia o processo. O rapaz que agisse assim não se olhava nem era visto pelos outros como “esperto”. Seria “correto”, mas nesse assunto esse epíteto equivalia a “trouxa”. Uma informante relatou o caso de um jovem que se casara com uma “moça infelicitada”. Ele se apaixonou por ela. Contudo, ela “endireitara” depois do primeiro erro; não lhe deu “nenhuma liberdade” e só consentiria em “manter relações sexuais” depois de casada. Pareceu-lhe que não haveria “nada de mau” em se casar. Depois do casamento, enfrentou comentários sarcásticos e maliciosos de amigos e conhecidos. Ele ficara com “restos dos outros”. Estava sem saber como agir e “desesperado”. No conjunto, o contexto da situação consagrava uma conduta sexual extremamente leviana por parte do homem. O curioso é que a contrapartida dessa norma permitia à mulher o direito equivalente e que não existiam mecanismos repressivos de correção de seus efeitos nocivos. Quanto ao primeiro ponto, é ilustrativo o caso de uma jovem que se apaixonou por um rapaz mas “não foi correspondida”. Ela não teve dúvidas em tomar as iniciativas necessárias para lograr seus intentos. O rapaz, por sua vez, disse-lhe abertamente que “amava outra mulher” e ia se casar com ela. Isso não serviu de empecilho. A jovem, apesar de virgem, entregou-se “sem pretender nada”. Segundo o informante, sentia-se feliz em ter essa oportunidade de pertencer ao homem a quem amava. Quanto ao segundo ponto, não só os mecanismos legais eram esquecidos ou não funcionavam cabalmente, como o próprio indivíduo se reservava o direito de agir “como entendesse”. Um dos exemplos merece ser apontado. O rapaz “infelicitou” a moça e se recusou, como de praxe, a se casar. Mas ela engravidara e “o filho era mesmo seu”. Casou “contra a vontade”. Depois do casamento, vivia com a mulher, levando “a vidinha de sempre”. Ou seja, gastava consigo o dinheiro que ganhava, dispunha livremente do tempo, frequentava os bares e os botequins ou “fazia as suas farras” como antes. A mulher tinha de trabalhar para sustentar a casa e o filho.

Tais deficiências precisam ser compreendidas como parte da herança da escravidão. Elas não surgem como o desvio sociopático de um padrão. Mas como uma debilidade institucional típica. A ausência de socialização apropriada para os papéis sociais de “namorado”, de “noivo” ou “marido” produzia, certamente, efeitos sociopáticos. Contudo, é importante assinalar que se tratava sobretudo de uma contingência. A “irresponsabilidade” não nascia de uma propensão natural e irreprimível para a “leviandade sexual”. Provinha, claramente, da inexistência de padrões de comportamento e de mecanismos sociais de controle que assegurassem a difusão e a observância, no “meio negro”, de certos valores universais da sociedade inclusiva.

Essa explicação também é válida com referência a outros ajustamentos, que envolviam o homem e a mulher como “marido” e “esposa” ou como “pai” e “mãe”. Anteriormente relatamos um dos casos típicos do “negro malandro”. Depois de se casar, continuou a cultivar os centros de interesse da vida de solteiro, disputando com os filhos o ganho da mulher e até contaminando-a com “doenças venéreas”. Trata-se de um caso extremo, mas que não era raro. O homem não discernia completamente as obrigações decorrentes da condição de “chefe de família” e para ele era natural que “suas necessidades” contassem em primeiro plano. Os resultados de uma história de vida nos mostraram que um homem de “caráter exemplar” (em termos dos padrões de cultura da sociedade brasileira) agiu no mesmo sentido, embora por outros motivos. Absorvido em “rodas boêmias” em que se discutiam os problemas do negro em São Paulo, relegou a família a plano secundário. No final das contas, foi abandonado pela mulher; a filha se perdera e se prostituíra; e o filho passara, lentamente, da vadiagem à malandragem e à gatunagem. Com relação à mulher, é curioso que a mãe solteira procurasse se livrar dos filhos, abandonando-os em instituições de caridade, dando-os ou entregando-os aos cuidados de terceiros para “não perder a liberdade”. Vários informantes deixaram patente que, em muitos casos, haveria até anuência dos patrões para que as empregadas criassem os filhos no serviço. Estas se recusavam, porque teriam de “ficar presas”, tomando conta da criança durante a noite. Doutro lado, como o homem, a mulher também se evadia, parcial ou totalmente, de suas “obrigações domésticas”. O gosto de frequentar bailes, de sair no Carnaval ou de “luxar” podia acarretar gastos incontroláveis pelo marido e que comprometiam economicamente o orçamento da família. Se fosse “contrariada”, “embirrava” até que seus “caprichos” fossem satisfeitos. Entre os casos registrados, um deles mostra que a mãe solteira, quando gostava “de beber e de farrear”, não se impunha nenhuma limitação (negligenciou, por exemplo, de tal maneira a assistência à filha menor, que esta foi seduzida e encaminhada para a prostituição). O mais interessante, porém, é que, assim como “não queria prender o homem contra a vontade” – mesmo que servisse de parceira sexual dele ou fosse “mãe de seus filhos” –, também “não se prendia a nenhum homem contra a vontade”. Casada ou amasiada, se lhe “desse na veneta”, abandonava o homem – levando os filhos consigo (se existissem); deixando-os com ele; ou dando-os a algum parente “para criar”.

Por aí se vê que a inconsistência e a labilidade dos laços conjugais se prendiam, diretamente, a falhas de socialização da pessoa. Como a família se achava em plena formação, os indivíduos não adquiriam, antes do casamento, do amasiamento, ou da vida sexual mais ou menos livre, associada à idade adulta, atitudes e comportamentos que suscitassem identificações ou lealdades relativamente fortes diante dos valores consagrados pela sociedade inclusiva e das obrigações sociais deles decorrentes. A mesma razão fazia com que, depois do casamento, do amasiamento ou de uma ligação “para ver no que vai dar”, o convívio contínuo das pessoas fosse insuficiente, por si mesmo, para corrigir e suplementar os lapsos da socialização prévia. Se não interferissem outros fatores, a estabilidade da união, a devoção recíproca e a predisposição para o altruísmo passavam a depender, largamente, dos laços de simpatia. “Gostei dele ou dela”, “deixei de gostar dele ou dela” funcionavam como o fundamento indiscutível e inapelável das decisões que levavam o homem e a mulher a “juntar” ou a “separar seus trapos”.

A composição estrutural da “família negra” também contribuía para precipitar e manter certas anomalias. As interferências sociopáticas mais frequentes se associavam ao empobrecimento permanente do núcleo da família. A ausência do “pai” não só impedia o funcionamento normal da instituição, privada dos papéis masculinos do “marido” (ou “companheiro”, “amásio” etc.), do “pai” e do “chefe da casa”; ela prejudicava, irremediavelmente, o equilíbrio básico (tanto estrutural, quanto funcional) do agrupamento, fazendo com que: 1o – os demais papéis se concretizassem de modo deformado; 2o – se congestionassem as obrigações do membro adulto presente e responsável (a “mãe solteira” ou sua substituta eventual, quase sempre a “avó materna”); 3o – prevalecesse um clima moral tão funesto para a ressocialização desse membro, quanto para a socialização dos imaturos. De tudo isso, resultava um conjunto de forças e de influências que atuavam no sentido de perpetuar indefinidamente aquele estado extremo de desintegração, em vez de contribuírem para a sua superação rápida e definitiva. A sobrecarga das responsabilidades da mulher, sua incapacidade crônica de corresponder a todos os papéis sociais (masculinos e femininos), concentrados na posição de “mãe solteira”, e a inexistência de mecanismos básicos de solidariedade, que a compensassem da vida penosa que se impunha, concorriam imperceptivelmente para identificá-la com a personalidade-status que assim adquiria e estimulavam-na a procurar nessa direção as fontes de compensações possíveis. Isso explica as atitudes de conformismo diante desse tipo de arranjo estrutural, sua enorme difusão e a própria propensão das mulheres a preservar os arranjos decorrentes. Muitas “mães solteiras” possuíam e mantinham filhos de duas, três ou mais aventuras sucessivas. Doutro lado, o próprio “meio negro” não contava com mecanismos de solidariedade e de compreensão para corrigir, compensar ou pelo menos amparar eficazmente, no terreno material e no plano moral, a mulher e seus filhos. A solidão, a penúria e a humilhação marcavam o caminho seguido pela mulher que tivesse a coragem indomável de ficar com “o fruto de suas fraquezas” e de lutar pela sua sobrevivência. Os próprios parentes apenas eventualmente podiam “auxiliá-la” com algum dinheiro ou “confortá-la” com algum conselho. Mesmo nas “maiores aflições”, quando ela via, desesperada, seu destino renascer na filha, “infelicitada” por algum branco ou por algum namorado ou vizinho da mesma cor, eles não sabiam senão condená-la por “deixar a menina largada”. Nos maiores apertos, nem sequer podia apelar para o pai fisiológico das crianças. Ou não sabia mesmo quem poderia ter sido; ou tomava por padrão de honra “não contar para ninguém” (mesmo para o próprio filho), “não amolá-lo” e de “resolver sozinha seus problemas”. Por acaso, somente, pela indiscrição de algum parente ou conhecido, ficava o menor “sabendo quem era seu pai”. Por meio de uma história de vida podemos focalizar como isso ocorria:

Até por volta dos 15 anos sabia apenas que ele [o pai] era rico e importante, e isto mesmo, através dos italianos, pois sua mãe “não gostava de falar dele”. Foi por iniciativa de M., um dos filhos do italiano, barbeiro de um salão do centro, do qual seu pai era freguês, que se viu à frente dele, embora, na ocasião, não soubesse quem era “aquele senhor”. Tinham-no mandado levar um peru e uma carta, cuja resposta deveria esperar. Apareceu um senhor, examinou-me bem e disse: “diga a seu patrão que está entregue”. Deu-me 10$000. Só depois, por intermédio da mulher de M., ficou sabendo quem era o senhor que vira. Então, compreendi a razão do exame.

 

Isso não adiantava muito; era apenas um “consolo”. O pai, ausente até essa data, assim continuaria. A maioria dos filhos nessa condição, porém, não tinha sequer o “consolo” de “saber quem era o pai”. O estado de privação da criança era, portanto, ainda mais complexo, pernicioso e insanável. Tinha de “crescer ao léu”, na “escola das ruas”, pois a mãe saía para o trabalho desde cedo, largando sobre os seus pequenos ombros a responsabilidade de olhar pela casa, por si próprio e de discernir, entre os companheiros mais velhos e os adultos, os que seriam “verdadeiros amigos” e os que gostariam de “tirar proveito” de sua ingenuidade. Se o acaso ajudasse, podia aprender alguma coisa ou arranjar, com pequena idade, um “patrão caridoso”. Nada disso supriria a carência de cuidados paternos, a vulnerabilidade das relações com a mãe e a total ignorância do que seria a condição normal de “filho”. A criança, que só tangencial, deformada e esporadicamente se via tratada como tal pela mãe, nos breves momentos em que ela permanecia em casa sem “cuidar da comida e da roupa”, crescia se polindo muito pouco como “pessoa”. Está claro que ignoraria a existência e a utilidade de certos papéis socais, em que adultos e imaturos se defrontam como “pai”, “esposa-mãe”, “filho” e “filha”. Mas isso não era o pior. Na “escola” em que se criava, raramente teria oportunidade de aprender a respeitar e a obedecer aos outros por amor. Vigorava um código rudemente egoísta e individualista: para sobreviver, o indivíduo precisava ser “sabido”, mesmo nas relações com a mãe ou com os irmãos.

O congestionamento estrutural constituía outra alternativa em que a morfologia da “família negra” produzia consequências sociopáticas. Contudo, aí o fator de perturbação passava a ser contingente. O apinhamento de pessoas num espaço reduzido pode provocar – mas não provoca necessariamente – uma diferenciação sociopática das condições de existência ou do comportamento humano. O que conseguimos saber a respeito mostra que isso ocorria de fato. As interferências sociopáticas do congestionamento estrutural da “família negra” se prendem a lapsos dos mecanismos de socialização e de controle. Ou os pais não se davam conta de que a maior discrição seria insuficiente para cercar de completo sigilo suas atividades no coito. Ou os imaturos e principalmente os adultos se permitiam “liberdades” que deveriam ser proscritas (pela própria iniciativa dos indivíduos, ou pela repressão dos outros). De qualquer maneira, as maiores vítimas eram os imaturos, que se iniciavam nos segredos do sexo por portas erradas ou serviam como repasto à concupiscência de companheiros mais velhos ou dos adultos.

Já descrevemos esses fatos no devido lugar. Aqui, importa-nos mencionar sua significação sociológica, em face do funcionamento da “família negra”. O meio exterior circundante não lhe oferecia o suporte institucional necessário. Para funcionar normalmente, a “família negra” integrada deveria ser autossuficiente. Ninguém impediria um “mau passo” de uma jovem; ou que um menor saciasse o apetite sexual do irmão mais velho, do padrasto ou de outro adulto. Em compensação, os comentários fervilhavam depois, “marcando” bem as pessoas, especialmente a “vítima”. O “sedutor” ou o “fanchona” não seriam “malvistos” – pelo menos, a ponto de “perder o conceito” na opinião dos outros. A jovem “infelicitada” ou o menor “fresco” (ou simplesmente “trouxa”) podiam ficar marcados. Atrás dos primeiros heróis, viriam outros, que acabariam forçando uma definição sistemática: da jovem como “leviana” ou “fácil”; e do menor como “veado”. Ora, os parentes não ficavam impassíveis. Por pouco que fizessem, eles reagiam ao “falatório” e procuravam intervir. Os “mais espertos” se mudavam logo de lugar. Dizia-se que agiam assim para “esconder sua vergonha”. No entanto, procediam também por outros motivos. A permanência no mesmo lugar constituía um desafio à “sorte”. Todos sabiam que outros iriam tentar “tirar uma casquinha” ou “aproveitar também”. Tais exemplos são claramente ilustrativos. A “família negra” carecia de condições próprias para funcionar normalmente, de acordo com os padrões estabelecidos no seio da sociedade inclusiva. Todavia, o “meio negro”, longe de fornecer um suporte institucional para auxiliá-la a preencher suas funções normais, desencadeava interferências de teor sociopático. Seja porque não propiciava os mecanismos de reação societária que poderiam operar corretivamente, seja porque permitia, tanto passiva quanto ativamente, o livre florescimento de várias debilidades daquela instituição. Com isso, os ajustamentos sociopáticos, que minavam a “família negra” por dentro ou por fora, quase todos procedentes da socialização insuficiente ou defeituosa, encontravam campo propício para expansão, propagação e fortalecimento.

Por fim, a concentração excessiva de obrigações nos papéis sociais da mulher constituía outra combinação estrutural que acarretava consequências sociopáticas, onde quer que se manifestasse (na família completa, fosse ela do tipo conjugal ou composta, ou nos casais amancebados). Essa sobrecarga projetava a mulher para fora do lar, com frequência desde manhã cedo até depois do jantar; ou, então, mantinha a mulher dentro do lar, mas terrivelmente ocupada, em lavar e passar roupa “para fora”, em costurar ou em outras obrigações porventura realizáveis “em casa”. Pondo de lado o que isso representava, como fonte de exaustão, essa condição impunha a supressão parcial ou total, de forma permanente, de vários papéis essenciais ao funcionamento equilibrado da família. A negligência involuntária dos filhos avultava como o efeito mais pernicioso do envolvimento tão intenso e prolongado da mulher em ocupações remuneradas. Mas não era menos funesta a tendência a conceber como “normal” e, portanto, “condigna” uma espécie de parasitismo, pelo qual o “marido”, o “amásio” ou o “amante” viviam às expensas da mulher. Embora a situação econômica da maioria dos casais “pobres” tornasse inevitável a suplementação do ganho do “chefe da casa” pela “mulher”, aquele parasitismo levava a uma servidão disfarçada, pois a mulher fornecia casa, comida e outros cuidados em troca, praticamente, de compensações sexuais e do conforto de possuir “o seu homem”. A mulher não relutava quando se via posta diante dessa “sina”. Achava que “tinha sido infeliz no casamento” (ou na escolha do “companheiro”, se fosse um casal amasiado) e “cuidava de sua vida”, sem recriminações. Se sucedesse ser o marido ou o amásio, além de “vagabundo contumaz”, “bêbado inveterado”, essa serenidade da mulher negra ou mulata, diante do sacrifício cotidiano e infindável, representava uma “tábua de salvação”. Todos sabiam que dela sempre proviria o mínimo para o sustento da família e a “força moral” necessária para enfrentar as pequenas ou as grandes tempestades. As consequências sociopáticas dessa relação não terminavam, porém, na exploração ocasional ou sistemática da “mulher” pelo “homem”. As crianças aprendiam a encarar a situação como “normal” e os jovens, a praticá-la. Um rapaz sem ganhar o suficiente para casar (e mesmo “sem ter uma profissão”, ou seja, uma perspectiva de ganho de vida) não trepidava em seduzir uma jovem e em “consertar a burrada” casando-se, com a certeza de que a esposa iria se empregar como doméstica. As moças, por sua vez, não tinham dúvidas em seguir o “exemplo da mãe”, vendo nele apenas o lado que se entendia enobrecedor da “mulher de caráter”.

Os resultados dessa análise mostram, pois, as principais consequências sociopáticas, resultantes dos arranjos estruturais inerentes aos diversos tipos de “família negra”. Se eles indicam alguma coisa, é que a mulher – e não o homem – constituía a figura dominante, onde persistia alguma sorte de desintegração nos laços familiares ou conjugais. A mulher negra avulta, nesse período, qualquer que seja a depravação aparente de seus atos ou a miséria material e moral reinante, como a artífice da sobrevivência dos filhos e até dos maridos ou “companheiros”. Sem a sua cooperação e suas possibilidades de ganho, fornecidas pelos empregos domésticos, boa parte da “população de cor” teria sucumbido ou refluído para outras áreas. Heroína muda e paciente, mais não podia fazer senão resguardar os frutos de suas entranhas: manter com vida aqueles a quem dera a vida! Desamparada, incompreendida e detratada, travou quase sozinha a dura batalha pelo direito de ser mãe e pagou mais que os outros, verdadeiramente “com sangue, suor e lágrimas”, o preço pela desorganização da “família negra”. Nos piores contratempos, ela era o “pão” e o “espírito”, consolava, fornecia o calor do carinho e a luz da esperança. Ninguém pode olhar para essa fase do nosso passado sem se enternecer diante da imensa grandeza humana das humildes “domésticas de cor”, agentes a um tempo da propagação e da salvação do seu povo.

Ao lado da família incompleta ou desintegrada, existia também a “família negra” integrada. Em regra, ela tendia para o tipo da família conjugal: o afã de manter as aparências de “bom nível de vida”, com renda mais ou menos baixa, pressupunha uma repulsa decidida da solidariedade agregativa. Aliás, nos círculos em que essa família aparece, dos “negros de elite”, já se condenava a “promiscuidade” dos cortiços – com a sua causa: o apinhamento provocado pela concepção de que o parente ou amigo “rico” tinha “obrigação de ajudar”; e com os seus efeitos: o desamparo material e moral das crianças, a precocidade da iniciação sexual, a contaminação das doenças etc.

Esse tipo de manifestação da família no “meio negro” nos interessa por várias razões. Em primeiro lugar, porque evidencia um estado de consolidação estrutural e funcional da instituição que não era geral. Como se explica esse fenômeno? Já salientamos que a permanência mais ou menos demorada em zonas rurais (equivalente da participação do negro ou do mulato “livres” do passado rústico paulistano) facilitava a aquisição de padrões de organização da família imperantes em nosso mundo agrário. Os segmentos das levas migrantes da “população de cor” que tinham condições e encontravam oportunidades de conquistar uma fonte permanente e satisfatória de ganho obtinham, assim, também uma situação favorável à preservação e à consolidação da herança cultural transplantada do mundo rústico. Esses personagens, pelas informações coligidas, contavam com a proteção de famílias brancas importantes. Em geral, sabiam ler e escrever. Movimentavam-se com liberdade no meio dos “brancos”. Não se intimidavam com sua presença e “davam conta” de seus ofícios. Na maioria, trabalhavam como faxineiros, contínuos e serventes das repartições públicas. Outros eram choferes ou operários (em número mais reduzido). Sua renda não era, pelo que se diz, maior que a do “branco” empregado nas mesmas ocupações (os informantes negros e mulatos insinuam, até, que seria menor). Ainda assim, podiam construir o aparato material que iria suportar a vida familiar organizada. Isso realça, gostemos ou não, a conclusão de que a exclusão do sistema urbano de ocupações conta, centralmente, como o fator básico da deterioração dos padrões de vida (inclusive da desorganização da família) do negro e do mulato em São Paulo. Em segundo lugar, porque esse tipo de família completa e integrada revela melhor a natureza das acomodações, postas em prática pelo negro e pelo mulato, para manter “elevado nível de moralidade familiar”, e as inconsistências sociodinâmicas que elas pressupõem. Como este é o aspecto que nos interessa verdadeiramente aqui, só a ele daremos alguma atenção.

O lado sociopático da “família negra” integrada não está propriamente em sua estrutura e funcionamento, mas no padrão de sua integração dinâmica à ordem social da sociedade inclusiva. Os resultados da análise precedente põem em relevo quanto o ambiente circundante contribuía ativamente para “corromper” o equilíbrio da vida doméstica. Para não estender a discussão, deixamos de lado outros fatos conhecidos, apontados na descrição dos problemas sociais ou a serem mencionados adiante, quando trataremos de maneira mais ampla das relações raciais. O “branco” – como “patrão”, “amigo”, “colega”, “vizinho”, “namorado” etc. – era sempre uma fonte de perigo potencial, especialmente no terreno do sexo. Quisesse ou não, sua presença e as consequências que dela resultavam fomentavam ou agravavam as tensões que destruíram pela base o equilíbrio da “família negra”. Não era só pela sedução sexual que isso ocorria. O vizinho branco, no cortiço por exemplo, “punha lenha na fogueira” quando se identificava tanto com a defesa intransigente dos valores da cultura rústica que não podiam (ou não deviam) ser respeitados, em dadas circunstâncias, para “não piorar as coisas”. Se a filha fosse “infelicitada”, não raro a mãe conseguia acalmar o pai, levá-lo a reconsiderar a decisão de expulsar a filha etc. Nos falatórios e nas “conversas francas”, não era raro o vizinho branco “meter o bedelho”, deixando bem claro os “pontos de honra” que, justamente, “azucrinavam a paciência” do outro. Coisa semelhante ocorria diante de eventos já descritos – se um rapaz decidia se casar com uma mulher “infelicitada”, mas “séria” – e com outros assuntos (falatórios relacionados com o trabalho da mulher, com os “costumes” ou com o passado da família, com as manifestações rotineiras de entreajuda etc.). A quase totalidade dos casos analisados demonstra que o negro e o mulato tiveram de escolher a reclusão ou um severo isolamento como mecanismo para conjurar essas influências, quer resultassem da debilidade institucional do “meio negro”, quer se prendessem à dualidade ética disfarçada dos brancos do “ambiente”.

Esse efeito merece especial consideração. Embora os dados acumulados não permitam uma sondagem suficientemente profunda, parece fora de dúvida que, no estado de desenvolvimento estrutural-funcional em que se achava, a família negra não se manteria estável e integrada sem se isolar de tais influxos. Ela não dispunha de mecanismos para manipulá-los e corrigi-los construtivamente. Portanto, a normalidade era conquistada sob o preço de um isolamento anormal. Pondo de lado o que isso significava, em si mesmo, e tendo em vista a integração do negro e do mulato à sociedade inclusiva, essa condição provocava interferências de evidente natureza sociopática. Acima e antes de tudo, aquele isolamento fez com que a família negra completa e integrada se divorciasse demais do processo de transformação da sociedade inclusiva. Ela ficou uma espécie de relíquia da área polida do mundo rústico, incrustada numa cidade convulsionada pela urbanização e pela revolução industrial. Assim, ela perpetuou e refinou hábitos convencionais que os “brancos” já haviam abandonado definitivamente ou estavam abandonando e que faziam pouco sentido no contexto da civilização urbano-industrial emergente. Ninguém põe em dúvida a importância das formas conspícuas de existência, do formalismo polido, do exclusivismo aparentemente “aristocrata” de certos hábitos e refinamentos para a autoafirmação do negro e do mulato. Tanto nas suas relações com o “branco”, quanto nas distinções e nas separações que se estabeleceriam entre o “negro de elite” e o “negro malandro”. Mas é patente que a integração da família envolvia o risco de uma separação indesejável. Isolando-se para conjurar determinados perigos, o “negro” criou outros igualmente graves, entre os quais avulta a própria paralisação do desenvolvimento da “família negra integrada”.

Em segundo plano, vêm certas debilidades organizatórias dessa família, todas elas mais ou menos ligadas às precárias bases de seu padrão de equilíbrio interno. Algumas das debilidades mencionadas produziam interferências sociopáticas, de forma permanente ou ocasional. Por isso, seria conveniente mencioná-las. A rigidez com que se define o apego às normas tradicionais é a mais séria, frequente e marcante. “Pobre” ou “rico”, o negro e o mulato “ordeiros” se opunham tenazmente, como “ponto de honra”, a certos meios-termos ou compromissos inevitáveis. Se a família precisava da contribuição pecuniária da mulher, eles só aceitariam o fato consumado tarde demais; se uma filha cedia aos riscos incontroláveis do meio e se “infelicitava”, eles não se cobriam de sua “vergonha” senão escorraçando-a de casa e expondo-a a perigos ainda maiores; se um amigo ou parente “se amigava”, cometia uma ação desaprovada socialmente etc., eles “cortavam as relações”; por aí afora. Tudo isso criava, naturalmente, um clima de insegurança disfarçada e de preocupação obsessiva pela posição social, pelo prestígio, pela consideração dos outros, que acabava minando as relações entre os cônjuges, dos pais com os filhos e destes entre si. Ao mesmo tempo, acentuava a transformação do “chefe de família” num pequeno déspota doméstico, que decidia inapelavelmente entre o “bem” e o “mal”, o que se “devia” e o que “não se devia” fazer. Doutro lado, qualquer contratempo – desemprego involuntário prolongado, morte de um dos cônjuges (principalmente do marido), um “passo perigoso” (principalmente da mulher) etc. – desmoronava todo o edifício, como se fosse um castelo de areia. Como essa expectativa sempre se mantinha constante, ninguém queria “ouvir falar dela” nem se preparava para enfrentá-la. O resultado é que, sobrevindo infortúnios, ninguém estava capacitado para suportá-los.

Por fim, a dificuldade de encontrar “ambiente” fora de casa se convertia num tremendo fantasma. A comunicação com os vizinhos e com outras famílias do “meio negro” estava submetida a uma vigilância desconfiada e rigorosa. Se a filha ou o filho pretendessem convívio com jovens da sua idade, ou se a mulher fosse propensa a se divertir, surgiam complicações. Só os que dispunham de mais traquejo e de alguma renda podiam resolver a contento esses dilemas, participando dos clubes respeitáveis e exclusivistas do “meio negro”. Ao lado dessas debilidades organizatórias, mais ou menos gerais, podiam ocorrer duas espécies de consequências altamente sociopáticas. A maior parte de informações sobre fricções domésticas, associadas a preferências pela cor dos filhos, dizem respeito a essas famílias. O cônjuge mais claro não ocultava sua ansiedade (às vezes compartilhada de modo ambivalente pelo cônjuge mais escuro), de que o filho ou a filha nascesse ou ficasse “escurinho”. Tais preferências fomentavam tensões nas relações dos cônjuges entre si ou com os filhos e destes entre si e com os pais.

Há também referências a “pais cultos”, que acalentavam grandes ambições com relação ao futuro dos filhos, mas que não se animavam a incentivá-los. Eles conheciam, por experiência própria, a sutileza e a força das barreiras sociais opostas à “ascensão dos negros”. Por isso, ao mesmo. tempo que estimulavam os filhos a terem uma “vida ordeira”, a “andarem direito”, a casarem, a serem respeitáveis, e as filhas a serem “boas donas de casa”, “não permitirem liberdades”, a não namorarem “qualquer um” etc., atreviam-se muito mal, ou a medo, a incutir altas aspirações no ânimo dos filhos. Alguns informantes deram exemplos, até, de pais que convenceram os filhos a desistirem dos estudos, movidos pelo temor de que viessem a sofrer decepções insanáveis. Conviria mencionar, por último, o aparecimento (ou o fortalecimento patológico) de preferências irracionais em torno do sexo dos filhos. O medo de que as filhas “poderiam se perder”, vinculado à crença de que seria mais fácil “educar o filho” e que este poderia “se arranjar melhor sozinho”, predispunha pais e mães a esperanças que conduziam a desenganos, frustrações e, algumas vezes, a animosidades ou tensões dentro do lar.

A importância da “família negra” integrada está, portanto, em demonstrar que o negro e o mulato podiam desenvolver padrões de vida conjugal altamente respeitáveis e conspícuos. Numa época em que poucos tinham varado a barreira seletiva imposta pelos “brancos” à ascensão dos “negros”, ela evidenciava que estes seriam tão capazes de “organizar conspicuamente” sua vida quanto os brancos. Tudo dependia de oportunidades econômicas e sociais. O fluxo da absorção de padrões e instituições da sociedade inclusiva apresentava deficiências ou oscilações perturbadoras por causa da exclusão do negro e do mulato – não porque eles fossem incapazes de concretizá-la. Não obstante, mesmo quando não se viam à margem, compartilhavam daquelas oportunidades de tal modo que se viam forçados a contemporizar, a se imporem acomodações que redundavam numa segunda forma de exclusão: a do isolamento voluntário, escolhido como um caminho de pureza e de autoafirmação pela “moralidade”.

Se considerássemos a “família integrada” e a “família desintegrada” do “meio negro” em conjunto, veríamos que a primeira era mais eficiente nos três níveis que procuramos considerar – no da ordenação das relações dos sexos; no da socialização dos imaturos; e no do controle das gerações adultas. Ela abrangia regularmente maior número de mecanismos, que operavam na sociedade inclusiva, e seus efeitos socializadores ou de controle eram mais profundos. Ela não só suscitava maior identificação e lealdade para com os valores explícitos, que davam fundamento às atitudes e aos móveis das ações sociais, mas também resguardava melhor o negro e o mulato de comportamentos conformistas ou de atitudes de desalento e de desilusão social, nascidas da convicção perniciosa mas generalizada de que “a vida do negro é assim mesmo”, “o negro nasceu para sofrer”, “o negro não serve para outra coisa”, que lavravam destrutivamente no meio social desorganizado, em que se recrutavam as “famílias desintegradas”. Não obstante, essas diferenças eram apenas de grau. Ou seja, em média, a “família integrada” protegia mais a “normalidade” da vida familiar que a “família desintegrada”. Contudo, ela estava longe de produzir os efeitos integrativos, socializadores e de controle que deveria satisfazer na sociedade inclusiva, o que se verificaria, facilmente, comparando-a quer com a família dos imigrantes, quer com a “família tradicional” dos brasileiros das camadas dominantes. Até a “família desorganizada” entre os italianos, por exemplo, possuía decididas vantagens sobre a “família negra” a esse respeito. Muitas inconsistências solapavam o equilíbrio e o rendimento organizatório da “família negra integrada”, favorecendo a fácil liberação de influências perniciosas potencialmente submetidas a controle social. Daí os temores constantes da ocorrência de “alguma desgraça”, de incontinência sexual da filha moça, da sedução da malandragem sobre o filho moço, de decepção na carreira futura de ambos, das incertezas que ameaçavam de maneira permanente a segurança econômica da família etc. A esse fato, de as referidas diferenças serem tão somente de grau e segundo uma escala quase insignificante, acrescia-se outro ainda mais grave: a “família negra”, integrada ou desintegrada, não preparava os imaturos e, em especial, os jovens para enfrentar os riscos com que se defrontariam tanto no “meio negro” quanto nas relações com o “branco”. A propensão a “procurar o prazer” podia ser severamente atacada e reprimida. Mas nada se fazia para capacitar o jovem e a jovem para lidar eficientemente com os ajustamentos sexuais, tão difíceis e acidentados num clima de tamanhas facilidades, seduções ou tentações. A mesma coisa sucedia com os ajustamentos econômicos e sociais: o temor das decepções conduzia à filosofia de “evitar que as coisas acontecessem”, quando a orientação que se impunha aos pais seria a de predisporem os filhos a tomarem consciência das manifestações dissimuladas do preconceito de cor e da discriminação e de como se premunirem contra suas consequências insidiosas. Portanto, à luz dessas reflexões parece claro que, mesmo onde era mais produtiva e eficaz, como agente de socialização, de integração e de controle, a “família negra” apresentava graves deficiências sociodinâmicas. Ela mantinha as gerações ascendentes mais ou menos privadas de disposições de ajustamento competitivo que seriam essenciais; e reduzia drasticamente o campo de atuação refletida, voluntária e construtiva, socialmente ordenada e autônoma, das gerações adultas.

Esse resultado aconselha a que se dê maior atenção a certos mecanismos de socialização e de controles coordenados pela estrutura da família ou dirigidos por meio de suas funções básicas. Escolhemos, para esse fim, a ordenação das relações sexuais e a escolarização, por serem áreas centrais, como sintomas ou fatores tanto de desorganização pessoal e social, quanto de integração à sociedade inclusiva. Por aí se poderá ver, com objetividade, o número reduzido de condições e de forças psicossociais e socioculturais do ambiente que eram diferenciadas e organizadas de forma autônoma pela “família negra”, integrada ou desintegrada. Certos ajustamentos podiam emergir e transcorrer variavelmente; podiam, mesmo, ser desejados como socialmente ideais, em conformidade com o sistema axiológico da sociedade inclusiva. O grau de institucionalização que eles atingiam, porém, não lhes conferia suficiente poder coercitivo para lograrem um mínimo de generalidade, de regularidade e de eficácia. Tudo se passava como se, a esse respeito, eles não constituíssem uma porção social do ambiente, configurando uma esfera de atuação dentro da qual à liberdade de decisão correspondesse plena capacidade (garantida socialmente) de alcançar os fins ou os objetivos visados.

Quanto à motivação, à ordenação e à regulamentação da vida sexual, parece patente que existia um conflito aberto e insuperável entre as concepções dominantes de prazer sexual e os ideais de casamento ou de vida doméstica. Na realidade, a situação de penúria tornava problemática uma coincidência das duas áreas. Isso estimulava a busca de satisfação sexual fora do casamento ou do amasiamento e também compelia os jovens e indivíduos extremamente dependentes ou de personalidade desorganizada a se valerem de recursos proibidos (homossexualismo, perversão sexual de menores, práticas sexuais incestuosas etc.). Todavia, aí se evidencia, meramente, uma correlação estrutural. Interessa-nos muito mais saber por que, fora ou acima dessas contingências, a sexualidade do negro e do mulato se mostrava tão rebelde à regulamentação exterior. Os dados de que dispomos são parciais e inconsistentes. Ainda assim, eles subministram algumas hipóteses presumivelmente comprováveis. Parece que, além do prazer erótico, o fluxo mais ou menos livre das relações sexuais operava como uma fonte ímpar tanto de acumulação de prestígio social, quanto de satisfação de necessidades vitais para o equilíbrio do eu. Os informantes salientaram insistentemente certas noções a respeito da sexualidade do negro e do mulato ou da negra e da mulata: que são “quentes” (e “mais quentes que as brancas”); que a “foda de branco” seria “como gado”, sem o verdadeiro culto à deusa do amor; que as atividades sexuais representavam um centro de interesse absorvente e o único derivativo para a autoafirmação do homem e da mulher etc. Mas a análise sugere que atrás da “sexualidade negra” estavam envolvidos outros valores, de natureza supraerótica. Na esfera do amor é que as “pessoas de cor” competiam, entre si e com os “brancos”. Além disso, nessa esfera as pessoas podiam sentir-se um valor – tanto como “presa”, com os riscos e as compensações da “caça amorosa” (sendo que a iniciativa e o papel ativo podia caber ao homem ou à mulher), quanto como algo ardentemente desejado, perseguido e disputado. Desse ângulo, a “sedução amorosa” valia e significava muito mais que a “relação sexual”. O joão-ninguém se sentia “gente”: encontrava quem o amasse, gratuitamente, pelo prazer do amor; a mulher ressentida e amargurada se via como a “rainha de um coração”. A aventura retemperava a confiança em si, distendia frustrações, projetava a criatura na posse da condição humana, abrindo-lhe perspectivas de encontrar alguma coisa que “valesse a pena”, numa vida de privações, vazia e “sem sentido”. Daí a importância da ostentação. Ela precisava ser notória, divulgada, conhecida. Se ela se destinasse a aplacar a ânsia erótica, podia permanecer encoberta. Como ela respondia a uma necessidade mais complexa de autoafirmação psicológica e social, tinha de ser revelada, às vezes com todos os pormenores mais crus. Não por desrespeito humano, por “falta de consideração” pelo parceiro ou parceira da mesma ou de outra cor. Mas porque a “relação amorosa” só se completava pela participação da sociedade no segredo do par amoroso. Vê-se, pois, que a aparente leviandade do jovem negro ou mulato, que “dava em cima” de uma garota e depois fazia o relato mítico, incluindo mais um “cabaço” em sua coleção, ou da jovem negra ou mulata, que não tinha pejo de violar o homem amado ou de corresponder de “modo fácil” ao cerco masculino, não ocultava nenhuma perversão do código amoroso e das atividades sexuais. Ao contrário, ela enfatizava, de forma ingênua, uma concepção pura, integral e sem ambiguidades do amor pela posse sexual.

A questão que se coloca delineia-se claramente. Como o casamento, o amasiamento e a estabilidade do grupo doméstico poderiam preencher as funções psicossociais dessa concepção de amor? Está claro que a classificação como “namorado”, “noivo”, “marido”, “pai” e “chefe de família” (ou, alternativamente, como “namorada”, “noiva”, “esposa” e “mãe”) encerrava suas compensações, fornecia prestígio e dava segurança. Pondo-se de lado a questão dos números (quantas pessoas poderiam se classificar assim?), por mais que se desejasse “imitar os brancos”, isso sempre envolvia algum despojamento da tradição cultural e um empobrecimento. Para que a mudança tivesse sentido e as duas soluções se tornassem equivalentes psicossociais, seria necessário que o negro e o mulato absorvessem, previamente, todo o estilo de vida do “branco”. Por isso, aqueles que tinham caminhado mais depressa nessa direção e lograram organizar “famílias de alto padrão de moralidade” viviam atormentados pelo temor de que alguém muito caro sucumbisse às tentações do “homem branco”, do “rabo de saia” ou da “veneta da mulher”. Essa desconfiança obcecada lançava raízes, portanto, num conhecimento realista das coisas e da natureza humana em uma situação de existência. Se o casamento e a vida familiar “ordeira” representassem, em si, uma compensação vantajosa, indiscutível e definitiva, aquelas atitudes seriam ociosas. Na transição incipiente de um estilo de vida para outro, ela pressupunha que o negro e o mulato realizassem um verdadeiro sacrifício. Não é à toa que os membros das famílias “direitas” dizem, tratando de suas filhas ou de suas irmãs: “Graças a Deus, todas elas casaram” ou “O meu tio não teve a mesma sorte com as filhas dele”. Antes de neutralizar os fatores que fomentavam as aventuras pré-matrimoniais ou extramatrimoniais e sem fornecer autênticos equivalentes psicossociais dessas aventuras, constituía uma empresa arrojada, difícil e penosa impor aos jovens e aos adultos um código sexual individualista, secularizado e egoísta, sob muitos aspectos condenável por sua hipocrisia e farisaísmo. Tudo isso dificultava uma transição rápida e convertia o comportamento sexual em algo incontrolável, verdadeiro foco de perpetuação indefinida do passado no presente.

Os dilemas da escolarização conduzem as nossas reflexões na direção oposta. Os relatos mostram uma situação difícil. Os pais ignoravam a existência e a utilidade das escolas. Ou a criança abandonada, que se via impelida para o trabalho prematuro e a precocidade no vício. Ao acaso, alguém aconselhava o amigo a colocar o filho na escola ou incitava a própria criança a frequentá-la. Coisa de prática dificílima. Ir à escola exigia uma vida organizada e disponibilidade de recursos. Raramente as duas condições se apresentavam em conexão. Com frequência, a “mãe solteira” ou os pais rústicos temiam que o filho estudasse, por pensarem que, mais tarde, ele se “envergonhasse da gente”. Ou os pais mais ou menos instruídos, das famílias “ordeiras”, quando muito deixavam os filhos “fazerem o grupo”. Assim procedendo, pensavam lhes evitar dissabores futuros; não obstante, bem que gostariam que eles “chegassem a doutor”. Agiam daquele modo porque “sabiam” que iriam encontrar “todas as portas fechadas”. Por isso, havia uma conspiração natural das circunstâncias para manter as crianças negras e mulatas fora das escolas, na pior ignorância, porque essa fonte de instrução não era suprida por outra influência educacional alternativa.

Na verdade, as tendências predominantes de absorção do homem e da mulher “negros” no sistema ocupacional da cidade não favoreciam uma consciência nítida da importância da instrução em face do estilo de vida social emergente. Em regra, eram ocupações que exigiam aptidões manuais, facilmente adquiríveis no trabalho. Doutro lado, os empregos mais valorizados não eram obtidos em regime de concorrência e por causa das qualificações intelectuais dos “candidatos de cor”, mas graças à proteção dos brancos. Arranjado o emprego, a aprendizagem se processaria, fatalmente, no serviço. Essa situação operou, visivelmente, como um fator de inércia, mantendo no “meio negro”, indefinidamente, o desinteresse pela alfabetização, imperante no mundo rústico brasileiro. As experiências acumuladas pelo convívio com os adultos não eram totalmente inúteis, malgrado os influxos sociopáticos da vida social desorganizada. A precocidade com que a “criança negra” era introduzida em vários centros de interesses – inclusive sexual, mas também na esfera prática – fazia com que ela tivesse maior maturidade que a criança “branca”, do mesmo sexo, em idade correspondente. Ela sabia “se defender mais” e era “mais sabida”, possuindo algumas vezes melhor tirocínio para “ganhar dinheiro”, através de expedientes ou pelo trabalho. Releva notar que também podia aprender, graças à insistência dos adultos, alguma coisa a respeito da importância das boas maneiras, da afabilidade e da aparência decorosa, coisas muitas vezes negligenciadas nas famílias brancas do mesmo nível econômico. Contudo, a educação informal raramente lhe abria a porta para a aprendizagem de alguma profissão ou ofício, como em regra sucedia entre as famílias dos imigrantes. Por acaso, quando passava a trabalhar e a viver na casa dessas famílias, a “criança negra” melhorava o teor de suas experiências, podendo “aprender um ofício” ou, mesmo, ser orientada para “os estudos”. Em duas histórias de vida, pudemos observar que essa condição permitiu que um dos sujeitos frequentasse o ginásio e, outro, uma escola superior. Algumas vezes, a criança descobria por conta própria a existência da escola, mas não podia frequentá-la até o fim da escolarização. Eis o que nos indica um dos relatos:

Minha vida foi na rua, onde cresci, aprendendo a ler um pouco aqui, outro lá. Cheguei a fazer uma tentativa para frequentar escola. Via muitos meninos com quem brincava irem à escola. Depois de rondar durante algum tempo uma delas (Escola Mista 13 de Maio, particular), indo muitas vezes esperar a saída de meninos conhecidos, acabei me apresentando à professora. Disse que desejava ir à escola mas não tinha dinheiro para pagá-la – propunha-me então a prestar serviços a troco do ensino. Três meses depois a professora, que viera do interior por causa de um noivo e montara a escola para se manter aqui, tendo desmanchado o compromisso, fechou a escola e voltou para o interior. Na última aula, ao despedir-se, deu-me alguns livros, aconselhou-me a ir procurando ler e me disse que uma das coisas que mais sentia era deixar-me. Perante a classe, indicou-me como exemplo. Foi a minha grande alegria dessa época.

 

As mais afortunadas eram colocadas pelos pais nos grupos escolares. A maioria dos pais achava que as filhas “não precisa-vam estudar” e propendia a interromper “os estudos” dos filhos, logo que estes aprendiam os rudimentos da leitura e da escrita. Por fim, cumpre assinalar que os chamados “negros de elite” alimentavam ambições que não podiam concretizar. Em virtude de suas relações com os “brancos” das camadas dominantes, orientavam-se pela concepção tradicionalista do mundo e acreditavam que o importante seria “estudar para doutor”. Como encontrassem essa via bloqueada, olhavam com escasso interesse os sacrifícios por outros tipos de estudos.

Portanto, a “criança negra” tinha estreitas possibilidades de aproveitar as oportunidades educacionais do ambiente. Embora essas oportunidades fossem potencialmente acessíveis, a forma de organização da “família negra”, tanto a integrada quanto a desintegrada (e esta em escala muito maior), não incluía essa função nas relações normais dos adultos com os imaturos. Em consequência, um fator que poderia acelerar a transformação do horizonte cultural transplantado do mundo rústico deixava de ser mobilizado de modo produtivo. A “família negra” se mantinha neutra, pois, diante de influências sociais construtivas, que poderiam concorrer para melhorar a posição das novas gerações na ordem social competitiva, assegurando-lhes perspectivas de uma participação mais intensa e vantajosa na expansão urbana. Ao comprometer a situação da criança e do jovem, vedando-lhes a absorção regular de um requisito normal da competição com os brancos e da integração ao meio social urbano, ela exercia uma influência negativa perturbadora, que iria prejudicar, irremediavelmente, o futuro do negro e do mulato na cidade.

 

OceanofPDF.com