A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

Florestan Fernandes · Capítulo 14 de 15 · parte 2/3

Páginas do PDF

A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

2. Os padrões tradicionalistas de relações raciais

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

parar. Quando parei, três homens assaltaram o carro na frente dela.[264] [...] Eu achei ruim. Falei que a vez era da moça. Eles eram dois brancos e um preto. [...] O preto disse que não tinha nada com isso [com a precedência da mulher]. ‘O que eu quero é que você me ponha na Praça Clóvis Bevilacqua depressa!’ Eu fiquei danado da vida. Falei que eles não mandavam em mim e que os gritos deles não adiantavam. Se quisessem mandar, comprassem um automóvel.” Resultado: decidiu não servir a ninguém e encostou o automóvel. “Agora, podem gritar à vontade. Daqui eu não saio nem que chamem o D.S.T.” Eis o seu comentário final: “Porra, tinha que ser justo o preto que tinha de falar! Se eu gostasse de carvão, comprava uma carvoaria. Se fosse um dos brancos que falasse, ainda vá lá. Mais do negro, não! Vão mandar na puta que os pariu!”

Essas indicações mostram, em conjunto, como se objetivava socialmente o padrão de assimetria nas relações raciais e o que resultava de sua inobservância. Em regra, se o “negro” tentasse frustrar as expectativas de comportamento “submisso”, deixando de “se colocar em seu lugar” e, principalmente, se ele procurasse se impor como “igual” ou “superior”, o “branco” reagia de modo desfavorável (às vezes com violência insopitável), tornando-se imprevisíveis o curso e o desfecho das ações de um e de outro.

Portanto, a cordialidade para com o “negro” não traduzia ausência pura e simples de distância social e de intolerância racial. Mas algo deveras mais complicado: a vigência de uma etiqueta de relações raciais que regulava, de forma extensa e firme, as atitudes e os comportamentos apropriados a cada circunstância. Ao estipular como cada agente social devia se comportar, nas situações rotineiras, de contato racial, semelhante etiqueta disciplinava os sentimentos e emoções dos agentes sociais, conformando suas ações às convenções estabelecidas socialmente. Ao mesmo tempo, essa etiqueta proibia ou proscrevia o recurso sistemático à violência, identificando como indecorosas as ações que pressupunham perda de autodomínio no trato com pessoas de situação social “inferior”. Se o “negro” deixasse de corresponder, de moto próprio, às expectativas convencionais, impunha-se “lhe dar uma lição”, servindo seu almoço na cozinha ou se negando, abertamente, aquiescência às suas pretensões.

Na medida em que o sistema tradicional de etiqueta entrara em crise e em que o “negro” se insubordinava contra as discriminações decorrentes de sua observância, surgiam situações ambíguas, às quais eram inerentes ressentimentos e tensões que acabavam evoluindo na direção do conflito. Vários exemplos permitem aprofundar a descrição desse aspecto, que demonstra cabalmente quanto se estava longe do limiar de um autêntico consenso democrático na avaliação e na aceitação do “negro”. Parece que, afora desatenções propositadas, era no trabalho que se achavam as principais fontes de atritos. Em uma das histórias de vida deparamos com o seguinte incidente: “Em 1917, arranjaram-lhe um emprego de fiscal de consumo. Não o pôde ocupar, por não ter habilitação. Conseguiram-lhe um lugar de escrevente. Tudo ia muito bem, até o dia que o chefe mandou que ele lavasse as escarradeiras. Revoltou-se. O homem lembrou-lhe que ele era preto e quase analfabeto, num assomo de mau humor. Rebelou-se. Não lavou as escarradeiras e não apareceu nunca mais no emprego”.

Pelo jeito, as mulheres de cor também reagiam assim, quando “provocadas”. E. N. era costureira numa casa de modas do centro. “Um dia a patroa queria que eu fosse levar a menina dela para casa. Eu respondi: ‘Não vou porque não sou pajem’. A patroa retrucou: ‘Sua negrinha! Você vai ou não vai?’ ‘Não vou!’ ‘Você pode ir embora então!’ Saí na mesma hora”. Outro exemplo interessante diz respeito a uma promoção esporádica e temporária de um jovem, que trabalhava como escriturário em uma repartição pública federal. O chefe da seção precisou se ausentar por alguns dias. Fez os arranjos necessários e o encarregou de responder pelo expediente durante sua ausência. “Os colegas brancos ficaram furiosos. Alguns não se continham e chegavam a dizer-me que não queriam servir sob as ordens de um negro. ‘Onde se viu, um negro mandar na gente?!’ [...] Fiquei um pouco abalado no início. Depois não liguei mais. Eu era o chefe e eles tinham de me obedecer. Que achassem ruim à vontade. Quem mandava era eu!”

Experiências dessa natureza marcavam, naturalmente, tanto o “branco” quanto o “negro”. Em nosso levantamento, contamos com vários tipos de “queixas” dos “brancos”, que já não entendiam o “negro”, nem o seu comportamento. Muitos tomaram consciência viva de que este “não procurava o branco por amizade mas por interesse” e ficaram chocados com as atitudes de independência, que tendiam a classificar como de “ingratidão” e de “revolta”. Um dos informantes, que declarou “sentir simpatia pelo negro” e que disse “procurar ajudá-los sempre que pudesse”, forneceu um relato amargo de suas decepções. Os dois “pretos” que tentou auxiliar “deram-lhe dor de cabeça”, levando-o a “experiências muitos tristes”. Em seu entender, “são muito revoltados e voltam-se contra os que os auxiliam, ficando violentos”. Exemplificou que seus dois protegidos o trataram asperamente e lhe deram respostas malcriadas a observações delicadas que precisou fazer. “Os pretos se ofendem à toa, e quanto mais eles dependem da gente, mais altivos se mostram. Os brancos são diferentes. Eles não se esquecem de um favor e sempre demonstram gratidão pelos favores que recebem.” Por isso, formou-se a convicção de que “os pretos são ingratos” e que “se esquecem logo das obrigações que devem aos outros”. O “negro”, por sua vez, defrontava-se com um dilema. O seu modo de ser, no trato com o “branco”, é que decidia do aproveitamento final de suas aptidões, e não, como gostaria, o seu valor como pessoa. Isso transparece no seguinte depoimento de J. L.: “Existem as possibilidades de realizar os meus desejos, através de coisas incompatíveis com os meus princípios e com o meu caráter. A bajular políticos e a mendigar um direito que tenho adquirido do meu próprio esforço e trabalho”.

O padrão assimétrico de relação racial produzia, naturalmente, certos

efeitos psicossociais normais.[265] Atendo-nos ao essencial, vamos descrever aqui cinco aspectos básicos: as consequências dinâmicas do apego ao padrão tradicionalista de acomodação racial; influxos deformadores do padrão de tratamento racial assimétrico na organização da personalidade do “branco”; influxos deformadores do padrão de tratamento racial assimétrico na organização da personalidade do “negro”; tendências da identificação diferenciadora associadas ao padrão assimétrico de relação racial; efeitos específicos da ausência de reciprocidade de perspectivas nas relações raciais.

Parece óbvio que o apego ao padrão tradicionalista de relação racial constituía o requisito psicossocial da própria perpetuação de larga parte do antigo regime na esfera dos contatos entre negros, brancos e mulatos. Ele estava na base, pois, da lentidão com que se transformou a ordem racial herdada do fim do século. Contudo, não era para essa questão geral que pretendíamos chamar a atenção. Mas para algo que ficava atrás disso tudo como o verdadeiro dínamo das atitudes e comportamentos conservantistas de “brancos” e “negros”. O apego àquele padrão de relação racial não só mantinha, como revitalizava e atualizava socialmente, a imagem que o “branco” fazia do “negro” e vice-versa; e, o que é substancial, projetava essas imagens como se a revolução abolicionista e a implantação da República não contassem na esfera das acomodações raciais.

Em suma, a imagem do “bom negro” se associa a expectativas bem definidas de submissão, lealdade e conformismo diante da situação de interesses da “raça dominante”. Quanto mais o negro e o mulato se identifiquem com os ideais da personalidade democrática, concatenados em torno da figura do cidadão e dos direitos fundamentais da pessoa, tanto mais eles são incompreendidos, avaliados etnocentricamente e depreciados. Ao inverso, quanto mais se prender ao modelo do criado fiel e devotado ou fizer jus aos atributos correlatos (mesmo sem ser empregado ou dependente), mais o “negro” encontra correspondência afetiva, compreensão e consideração no ânimo do “branco”. O velho criado,

descrito em “O prêto Leôncio”, por Pelágio Lôbo,[266] configura o paradigma do negro dedicado, zeloso e querido pelo “branco”. Eles ficavam na memória dos senhores e dos patrões.

Como era boa a Joaquina! Nela estava personificada a devotada afeição que os africanos sentem em geral pelas crianças. Quando estavam doentes, levava-lhes alimento e o remédio que a mamãe mandava; quando adormeciam, sentava-se no chão, ao pé da cama, vigiando-lhes o sono; quando sãos, contava-lhes histórias... Era um prazer ouvir as lendas africanas sobre meninas roubadas que, metidas em sacos, cantavam pelas ruas. Ou, então, sobre cavaleiros

perseguidos, que fugiam a todo o galope do inimigo e atiravam para trás um alfinete que se transformava em bosque de espinhos.[267]

 

Ficavam como que “parte da família”, gozando do seu convívio e proteção, como nos esclarecem os dois excertos seguintes:

Nunca admitimos que se dissesse que a Malva era preta; Malva era “de cor”, era “muito morena”. Uma das chateações que meus tios usavam contra nós, para nos ver danados, furiosos (e acabávamos chorando de raiva, quantas e quantas vezes!), era repetir: “A Malva? É um tição. É mais preta que pó de carvão. É tão preta que no escuro some. É a mamãe preta de vocês”. Provocavam respostas furiosas, entre as quais esta, que era usada como argumento supremo: “A Malva é preta por fora, mas a alma dela é mais branca do que a de vocês todos!” Apesar das dedicações de Nhá Benta, da Rosa cozinheira, da Malva, mamãe sempre disse preferir empregadas brancas às pretas e mulatas; acha que os pretos e mulatos são mandriões, preguiçosos, malandros, não têm gosto pelo trabalho nem pela limpeza. No entanto, geralmente tínhamos empregadas de cor; e nunca se estabeleceu, com as empregadas brancas, o clima de afeição que tantas vezes se criou entre nós e as pretas. Não falo já da Malvina, que é um caso à parte, nem das antigas agregadas da família; mas uma quantidade de criadas pretas e mulatas que aqui em casa estiveram trabalhando continuam a nos visitar, a trazer presentes, mostrando uma afeição que nenhuma das brancas que por aqui passaram conservou, a não ser Evangelina (portuguesa). Geni, Isaltina, Sebastiana, Heloísa, Luzia, Cecília, Chica, volta e meia apareciam para saber notícias e dar uma prosinha; elas se sentem “da família”, participam das alegrias e das tristezas da casa; e sabem que quando precisam podem recorrer “aos seus brancos”.

 

Essa imagem do “bom negro” encontraria, mais tarde, viva repulsa entre os negros e mulatos envolvidos nos movimentos sociais pela “redenção da raça negra”. Elaboraram uma contrarrepresentação que expunha essa imagem, impiedosamente, como a do “negro trânsfuga.” Ao mesmo tempo, opuseram avaliações próprias, que pretendiam desmascarar as representações piegas dos “brancos”! Em sua explicação do êxito rápido da Frente Negra, na década de 1930, por exemplo, salienta José Correia Leite:

O fundo psicológico, que permitiu a pronta aceitação desse movimento e o entusiasmo com que os negros aderiram a ele, liga-se ao fato de que o negro estava cansado de viver numa situação de descaso e de ser visto sempre, em suas aspirações e anseios, a partir de um falso sentimentalismo, mais do que prático, pelos homens de responsabilidade pública, historiadores e sociólogos. Estes, sempre que se referiam ao negro, era para contar aquela velha ladainha de que tinham mamado no seio de uma negra, como se isso trouxesse, para o negro, alguma vantagem ou favor. Quando não isto, era a também velha história de que

o negro madrugou nos alicerces da formação da nacionalidade, que era bom, afetivo, tendo sempre acompanhado o branco, desde o berço até a sepultura.[268]

 

Mas essa foi a imagem que vingou historicamente, inculcando no “branco” não só as ideias que fazia do “negro” como, ainda, as distinções correntes a respeito do “negro bom” e do “negro que não presta” ou do “negro safado” e as convicções correlatas, pertinentes ao modo de “tratar o negro para mantê-lo na linha”, de corresponder à sua afeição ou solicitações etc. Mesmo depois da consolidação da Frente Negra e do aparecimento de outras organizações congêneres, essa imagem continuou a seduzir o próprio “negro”, que se via socialmente através das representações construídas pelos “brancos”.

Semelhante clima moral fazia com que nos diferentes círculos sociais do “meio branco” predominassem atitudes e expectativas que tornavam o “branco” mais ou menos intolerante a manifestações de autonomia ou de igualdade no comportamento das “pessoas de cor”. Um advogado arguto, de família tradicional, situou bem a questão no contexto histórico-social apontado. Ao descrever os “pretos de caráter”, que conhecia, salientou: “... dentro do conceito de caráter que o branco quer que exista”. Por isso, certa rigidez e um mínimo residual de intolerância vinham a ser a pitada de sal com que os “brancos” temperavam o “sentimentalismo piegas” e a compreensão católico-cristã do homem em suas relações com os “negros”. Inclusive minúcias podiam ser selecionadas e interpretadas à luz das implicações daquela imagem, toda vez que o “preto” se afastasse dela. Um caso é bastante ilustrativo. Trata-se de um descendente de portugueses, que vivera no interior antes de morar em São Paulo. Ele usava o carro da família sem possuir a necessária habilitação. Um único guarda o obrigava a parar e procedia contra o transgressor – “um preto”. Tais ocorrências não levaram o informante a identificar o guarda como “cumpridor de seus deveres”. Porém, ao contrário, a representá-lo como um “preto ressentido” e “pedante”. O normal seria que tolerasse a transgressão e ainda procurasse ser útil ao transgressor...

Mais chocantes que a ostentação de comportamentos individuais inesperados (e por isso desaprovados) pelos “brancos” são as afirmações coletivas dos “negros”. Manifestações desse gênero sempre foram vistas com inquietação e eram reprimidas no passado. Concentrações do tipo das que se começaram a fazer nos passeios da rua Direita eram inconcebíveis antigamente e traduziam, em si mesmas, uma alteração fundamental na situação social do “negro” na cidade. Pois bem, houve informantes brancos que focalizaram, espontaneamente, esse episódio para externar a opinião de que os participantes desses passeios não seriam os “pretos” típicos. “Na rua Direita às noites de sábado e domingo há muita gente de cor, mas eu acho que aí não adianta a gente reparar... não dá nada! São pessoas de cor que guardam raiva de serem pretos ou mulatos, que querem fazer acinte, mostrar despeito. São pessoas de cor envenenadas, com recalque... Esses não adianta observar, não são as verdadeiras pessoas de cor.” Voltamos, pois, ao ponto de partida. As “verdadeiras pessoas de cor” são aquelas que agem dócil e passivamente, conforme as expectativas expressas ou não dos “brancos”. Essas encontram simpatia e apoio até entre brancos conscientemente preconceituosos e intolerantes. Um exemplo ilustrativo nos é fornecido por um informante que atribuía ao “negro” má influência sobre o “branco”. “Os pretos constituem uma raça degenerada: ao lado da minha casa dois homens (um preto e um loiro) fizeram um coberto e passaram a viver ali. Estavam sempre sujos, bêbados, largados. Um dia o preto sumiu, o dono do terreno cercou-o e o branco fez uma casinha no fundo sozinho. Passo pelo terreno todos os dias e verifiquei como a situação do branco foi melhorando. Já usa roupas mais limpas e melhores, anda de barba feita e outro dia, qual a minha surpresa, estava de gravata. Era o preto que levava o branco para a vida largada.” No entanto, o mesmo informante asseverou o seguinte: “Conheço também ótimos pretos em Pernambuco, onde estive no ano passado e encontrei um que tinha ido com o filho cumprimentar meu pai, seu padrinho. Tinha 75 anos e toma bênção de papai – é um grande sujeito!”

Para merecer semelhante avaliação e conseguir as vantagens decorrentes, o próprio “negro” não só absorvia a imagem que o “branco” fazia dele. Agia de acordo com ela em tudo que fosse vital, como se uma mola o orientasse na escolha dos ajustamentos esperados. Aí, no entender do “branco”, adquiria o caráter do “negro de alma branca”, da “verdadeira pessoa de cor” ou do “preto sem recalques”. O caso mais expressivo, com referência à época considerada, é o do tenente G. Ele sentou praça em 1900. Numa das peripécias de sua carreira na Força Pública, foi parar no batalhão de uma cidade do interior cujo comandante tinha fama de “ser terrível” e de que “não gostava de pretos”. “Chamou-me à sua presença e perguntou se eu bebia. Eu disse que não: só bebo água. O comandante respondeu, ríspido: está querendo brincar comigo? Fiquei com medo. Pensei que, pela primeira vez, iria conhecer o quadrado. Mas não fui.” De acordo com suas lembranças, “o homem era duro, mas não injusto”. Eis como obteve sua proteção. “Então, procurei conquistá-lo através da esposa. Aproximei-me dela, cativei a simpatia dela e por seu intermédio tive as boas graças do comandante. Ele foi bom para mim.” No seu entender, “poucos pretos procuraram agir com essa cautela, que seria recomendável para melhorar as relações com os brancos”. Alguns informantes negros e mulatos salientaram que comportamentos dessa natureza constituem uma espécie de técnica social, empregada com fitos racionais. Segundo um dos informantes, “o negro que sobe” precisa colocá-la em prática, para conquistar a posição, mantê-la ou melhorá-la. Em consequência, esse tipo “se torna mais educado e afável que os próprios brancos”. “Nas repartições, por exemplo, se tornam mais urbanos e afáveis no trato do público. Pode ver, que entre um branco e um preto, o que serve melhor o público é o preto. Mesmo os chefes preferem esses funcionários.”

O apego ao padrão tradicionalista e assimétrico de relação racial aparecia invariavelmente ligado a dois componentes, entre os “brancos”. De um lado, à noção de que “o negro só serve para trabalhos braçais” e que, portanto, “não deve assumir cargos de responsabilidade e de mando”. As seguintes ideias de um dos informantes brancos, de família tradicional, são esclarecedoras: “Os pretos são melhores que os brancos para trabalhos braçais, por causa da força bruta”. Mas, referindo-se à carreira no Exército, asseverou:

Eu acho que os pretos não subiam além de cabo, rarissimamente a sargento, devido à falta de capacidade... Porque, de mil negros, há um que se destaca! [...] O comportamento do negro que sobe a um posto superior no Exército é, em geral, intragável. Por se sentir superior começa a maltratar os antigos colegas, e tratá-los como inferiores, a perseguir. Eu acho que por um sentimento de inferioridade ou de insegurança, trazido pela posição quase sempre inferior que ocupam na sociedade, ou talvez por tudo que sofreram antes, preconceitos e outras coisas, o preto quando sobe começa a se dar ares de importante, muito mais que qualquer outra pessoa; de um lado para convencerem os outros e mostrarem que subiram, de outro para se convencerem a si mesmos. Os poucos que subiram, no Exército, quando estive lá, ficaram insuportáveis para com os antigos companheiros. Estes naturalmente, maltratados, se afastaram, mas isolavam-se do preto que subia, devido ao seu comportamento e não devido a preconceitos.

 

De outro lado, essa técnica de convivência excluía o “negro”, naturalmente, da condição de igual. Mesmo quando ele era aceito, sua posição era a de “protegido”, de alguém que “recebia favores” e tinha de “prestar obrigações”. Embora a estrutura social compatível com a prática do paternalismo estivesse em crise, tudo isso permitia eliminar o “negro” do horizonte cultural do “branco” como um competidor legítimo em potencial. Como antigamente, a sua ascensão só seria aceita, tolerada e proclamada com simpatia quando nascesse da iniciativa do “branco” e envolvesse compromissos tácitos de lealdade total para com a pessoa ou os interesses deste. A ordem social competitiva se fechava discretamente para o “negro”, pois sua mobilidade vertical dependia, estreita e diretamente, da vontade pessoal do “branco”. Sem que este reconhecesse o seu valor e tomasse providências para colocá-lo numa “posição condigna”, ele ficaria vegetando no “seu lugar”, ou seja, em alguma posição subalterna. O que significa que a sociedade só era aberta para o “negro” ao velho estilo, segundo a técnica da infiltração pessoal e da acefalização da “população de cor”; mas, com o desaparecimento do sistema estamental e de castas e com a concorrência dos imigrantes ou de seus descendentes, as oportunidades de ascensão social daí resultantes minguavam continuamente. Quanto ao “negro”, o apego ao padrão tradicionalista e assimétrico de relação racial servia como uma fonte permanente de obnubilação da consciência racial. Negros e mulatos ficavam insensivelmente atrelados à concepção do mundo da “raça dominante”, submetendo-se em massa às técnicas vigentes de capitulação passiva e espontânea em face dos desígnios ou das expectativas dos “brancos”. Os que pretendessem fugir a essa sina tinham de apelar, como assinalamos, ou ao isolamento (condição da maioria), ou a um estilo de vida formalista, que reproduzia caricaturalmente os pendores aristocráticos das elites dominantes (condição da minoria, muito rala na ocasião). Até para dançar, em um baile misto, o indivíduo precisava comparecer com uma parceira previamente combinada. Se não, “levava tábua”. O pior é que o horizonte cultural inerente à concepção tradicionalista do mundo não abria perspectivas para a tomada de consciência da realidade subjacente a ambos os ajustamentos. Isolando-se para esconder sua miséria, sua desilusão e sua frustração, ou congregando-se em pequenos grupos de aparência brilhante mas igualmente segregado em seu nível social, o “negro” não tinha elementos para perceber que era posto e se colocava, simultaneamente, fora da órbita dinâmica da sociedade competitiva.

Esse padrão de tratamento racial introduzia, natural e inevitavelmente, certas deformações bem conhecidas na organização da personalidade do “branco” e do “negro”. Quanto ao primeiro, parece evidente que ele fomentava um tipo peculiar de autoritarismo que tem sido descrito sob os conceitos de mandonismo e de paternalismo. A tradição escravocrata associou de tal modo “cor” e “posição social”, que o “branco”, recém-egresso do regime de castas, ainda se comportava como se fosse o senhor e revelava extrema intransigência diante de qualquer quebra ostensiva da velha etiqueta das relações raciais. Por isso, atitudes, comportamentos e avaliações intolerantes tendiam a ocorrer nos ajustamentos raciais que envolvessem as posições recíprocas das duas “raças” na estrutura de poder da sociedade. Como sucedia no passado, a elevação de um “preto” não alterava aquelas posições, operando-se por meio de mecanismos que individualizavam o processo e convertiam a “pessoa de cor” em ascensão numa espécie de “exceção que confirma a regra”. Os líderes “negros” de São Paulo perceberam com nitidez e profundidade a natureza desse processo: “Quando um negro se impõe pelo real valor, os brancos o respeitam mais pela admiração – é como se fosse um fenômeno”, disse-nos um deles. Em consequência, as alterações de status das “pessoas de cor” não afetavam, por paradoxal que seja, as posições recíprocas das duas

“raças” na estrutura de poder da sociedade.[269]

Todavia, era intensa e viva a acuidade dos “brancos” diante das atitudes e comportamentos das “pessoas de cor” em questão. O que elas fizessem em discrepância ou em dissonância com as expectativas convencionais servia para registrar a incapacidade do “negro” para exercer os papéis sociais concebidos como parte das prerrogativas naturais dos “brancos”. Se o guarda-civil, o sargento ou o chefe de escritório “preto” ou “mulato” fizessem algo notável, isso não beneficiaria o estoque racial a que pertencessem. Contudo, onde chocassem as normas e os costumes ou se revelassem certos deslizes, eram tidos e apontados como protótipos e expostos como evidências concludentes das “limitações”, dos “defeitos” ou das “taras” da “raça negra” (ou dos mestiços). Esse mecanismo de percepção e de identificação facultava ao “branco” meios eficientes de defesa da posição dominante da “raça branca”, ao mesmo tempo que o tornava invulnerável às causas e aos efeitos dos ressentimentos do “negro”. Em suma, o “negro” em ascensão não abria caminho para outros nem contribuía para liberalizar o horizonte cultural do “branco”. Ao contrário, expunha aos olhos de todos, ao vivo e de público, “por que” seria incapaz de assumir, em condições de igualdade, certos encargos e responsabilidades sociais. Portanto, é terrivelmente sutil e complexa a intolerância que se ocultava por detrás do padrão assimétrico de tratamento racial. Sem visar e sem pôr em causa, de modo direto e franco, as qualidades inatas da “raça negra”, produzia o mesmo resultado por vias mascaradas e indiretas.

Nada disso impede que seja verdade que o “branco” não ofendia nem atacava o “negro”, mas resguardava a sua própria situação social, com as aparências e as atribuições correspondentes. Se não o aceitava como um “igual” e o repelia como “superior”, fazia-o em nome da experiência secular, que demonstraria, cabalmente, a inviabilidade de substituir um por outro – já que um nascera para e se acostumara ao exercício do mando; e outro nascera para e se acostumara à obediência e à subordinação. A concepção tradicionalista do mundo fornecia, assim, o sistema de referência para a compreensão da natureza do ser humano, da posição simétrica do “branco” e do “negro” na estrutura da sociedade e das relações normais que se deveriam estabelecer entre as duas “raças” em presença. O fato de esse universo se achar em plena revolução social, em vez de atenuar, acirrava o ânimo agressivo do “branco”. Se alguém oferecesse o almoço na cozinha a um “preto em ascensão”, este não voltaria mais àquela casa. E por aí afora. Como as atitudes e as disposições dos “brancos” se mantinham constantes, eles pensavam que eram os “pretos” que se transformavam – e se transformavam para pior, adquirindo vícios insanáveis e deletérios no regime de liberdade e de “irresponsabilidade”. Repontam assim as primeiras convicções de que o “problema negro” estava surgindo “por obra e graça do próprio preto”. No afã de se tornar igual e superior ao “branco”, o “negro” estaria engendrando prevenções que não existiam antes e forjando um preconceito invertido, dele contra o “branco”.

Esse rápido bosquejo cobre vasta gama de relações individuais. Alguns “brancos”, pertencentes às diferentes classes sociais, compartilhavam exaltadamente da concepção democrática do mundo e punham em prática uma filosofia de competição leal com o “negro”. Outros eram indiferentes a questões dessa ordem. Entre os dois extremos, situavam-se os que se apegavam à concepção tradicionalista do mundo e davam o tom definitivo ao “modo de tratar o preto”. A caracterização precedente vale para pessoas que caíam nesta categoria. Mas mesmo nela as gradações eram flagrantes. Pelas indicações coligidas, parece que prevaleciam duas inclinações. Uma consistia no temor de “ser mandado por um negro”. Em documento escrito pelo próprio informante, este asseverou que temera tal relação porque “o mal dos pretos é terem o recalque da cor e quando sobem querem pisar sobre os brancos”. Concebia-se, como escreveu outro informante, que ele se misturasse “com o branco atrasado, que está à sua altura moral, intelectual”, mas nunca com “a nata da sociedade”. A outra inclinação predominante dizia respeito às evidências de observância estrita das convenções estabelecidas. Entendia-se que se deviam manter, por todos os meios, as “boas relações” entre “brancos” e “pretos”. Todavia, só eram representadas desse modo as relações que ficavam fiéis “ao antigo sentido hierárquico”. Delas se excluíam tanto o convívio com “pessoas de cor” que discrepavam na norma (como as empregadas “pretas” modernizadas, que se pintavam, usavam roupa e meias de seda, respondiam às patroas etc.) quanto o contato com qualquer “preto insolente” (que falava em tom alto com o interlocutor “branco”, emitindo opiniões próprias de sentido agonístico, interrompendo ou trocando de assunto sem a menor deferência etc.).

O passado ainda pesava tão opressivo, que não se via com naturalidade a democratização de certos comportamentos. Parecia não só impróprio que o “negro” falasse ou agisse como o “branco”. Pensava-se ser falta de educação admitir familiaridades com um “preto”, especialmente em público. Um informante nos relatou, a respeito, um caso extremamente curioso. Ele se achava com o sogro em certa região do litoral. Antes do almoço, queriam tomar uma caninha, mas não havia bares no local. Viram que um casal de caiçaras mulatos possuía pinga. O genro lembrou a possibilidade de pedirem um pouco ao casal. O sogro replicou: “Você está louco! Era só o que faltava, eu pedir pinga para negro!” Se a resistência à democratização de comportamentos e modos de falar ou de ser era tão grande, a resistência à nivelação de direitos sociais tinha de ser, forçosamente, muito mais drástica. O exemplo mais notório se relaciona com a revogação de uma portaria que proscrevia a entrada de “negros” na Guarda Civil. Graças ao discurso pronunciado pelo deputado Orlando de Almeida Prado, na 13ª sessão ordinária da Câmara dos Deputados de São

Paulo, em 31 de julho de 1928,[270] essa portaria teve de ser revogada. Ao receber a determinação revocatória, o diretor da G. C. comentou, azedamente, diante de testemunhas: “Com a entrada de negros, podemos abrir a porta a morféticos e a portadores de defeitos físicos”. Por fim, manifestações ativas de solidariedade entre os “negros” já não eram temidas com terror pânico, como no passado. Continuavam, porém, malvistas e incompreendidas. T. G. nos relatou um episódio marcante, que mostra como o “branco” interferia negativamente em tais processos, procurando “dividir para reinar”. Quando era sargento, encarregava-se das aulas de instrução aos soldados:

Havia coisas que os brancos, por causa da convivência, da comunicação entre si e da educação anterior, não precisavam aprender, porque sabiam. Com os pretos não acontecia a mesma coisa. Para ajudar os irmãos negros, tentava dar-lhes em separado os conhecimentos de que precisavam ou então insistir nos pontos ministrados, para torná-los mais inteligíveis. Quando terminava a aula, mandava os soldados brancos debandar; e dizia para os pretos, nomeando-os, para ficar. Aí, fazia o que era necessário, encompridava a lição, descia a outras explicações etc. Os soldados pretos demonstravam que estavam entendendo a minha conduta. A toda coisa, diziam logo que tinham entendido, que estava tudo claro etc. Então, mandava-os embora, daí 10 ou 15 minutos. Para mim, aquilo não importava. Eu era instrutor. Só podia interessar a eles. Pois os soldados brancos esperavam os companheiros e os cercavam: – O que o homem queria de vocês?

– Nada! Era só para explicar melhor.

– Que explicação, que nada! Vocês não veem que ele não gosta de preto? Ele faz isso para castigar vocês!

[...] Os brancos faziam intrigas, desmanchando o que eu procurava conseguir, criando desconfiança no espírito dos subordinados da minha cor.

 

A deformação da personalidade do “negro” seguia a mesma trilha, mas no sentido inverso. Os dados transcritos insinuam o que se pretendia fazer dele: um autômato de carne e osso, sem pretensões nem dilemas morais, sempre submisso, respeitosamente cônscio de “seu lugar”, dedicado, operoso e servil. Em cada circunstância, cabia-lhe provar espontaneamente, a si próprio e ao “branco”, por palavras, gestos e ações, o caráter simétrico de suas relações, anulando-se como pessoa, como se não fosse e nunca pudesse ser “gente”.

Os dados expostos comprovam abundantemente essa ilação. O “preto” só era benquisto, compreendido, retribuído e amado quando surgia e se mantinha como appartenance do “branco”. Os dados expostos são suficientes para fundamentar essa caracterização. Não obstante, gostaríamos de acrescentar uma situação típica – a de filha ou irmã de criação. Lea, “preta que nem carvão”, vivia nessa condição na casa de dona E. Fora educada como “filha” e era tratada como “igual” pelos parentes e amigos da família. Tudo sacrificou aquela senhora: a sua mocidade e a idade madura. Devotava-se a seus interesses e ao seu conforto com todo o empenho e dedicação. Nunca pensou em casar ou em seguir alguma carreira, pois isso a afastaria de dona E. No relato, a pesquisadora salienta: “quer morar com dona E., tomar conta da casa de dona E., cozinhar e costurar para dona E., diz que é feliz assim”. Nas festas ou reuniões da família, apesar de sua condição de “filha de criação” e de se encontrar diante de antigos companheiros dos folguedos da infância, limita-se a mandar parabéns por meio de dona E. “Se comparece na casa dos mais íntimos, obstina-se em ficar na copa, dizendo que é o lugar dela. Não demonstra nenhum constrangimento, nem ressentimento, nem desajustamento, embora tenha uma posição um tanto ambígua.” O “negro que sobe”, laboriosamente, graças ao próprio esforço, oferecia o outro extremo do panorama racial. Como ele se afirma diante do “branco”? A seguinte citação, relativa às experiências pessoais de um “dentista de cor”, esclarece-nos perfeitamente:

Quando me apresentei para tomar posse do cargo para o qual havia sido nomeado, a diretora do Parque pensou que eu fosse mais um zelador, conforme confessou-me mais tarde. Esse tipo de recepção não me afetou e tratei de estabelecer relações cordiais. Um preto na posição em que estou precisa ser muito mais simpático que um branco para conseguir o mesmo. Acho que esta atitude é a ideal porque, estando em contato amigável com todos acabo por deixá-los à vontade no tocante ao problema de cor – há negros que não admitem que se fale em cor e isto os afasta das pessoas –, a conversa nesse campo fica livre, não deixando ninguém constrangido.

 

Enfim, como no caso de T. G., procura cativar seus interlocutores “brancos”, conquistando a sua simpatia por meio de técnicas específicas. Os que não fossem capazes de um ajustamento ou de outro, teriam de trilhar, voluntariamente, o penoso caminho aberto pelo isolamento voluntário.

Os “brancos” perceberam toda a pungente extensão desse drama, que levou Humberto de Campos a escrever que “os negros brasileiros vão se

deixando anular sem protesto, antes com a volúpia de servir”.[271] Um dos informantes chegou, mesmo, a relacioná-la com as manifestações persistentes do preconceito de cor. “O preconceito de cor, bastante atenuado atualmente, ainda é um obstáculo muito grande a ser vencido, eis que os próprios pretos, quase em sua maioria, aceitam-no como uma condição inevitável, limitando as suas pretensões e colocando-se, a si próprios, numa situação de inferioridade.” No entender desse informante, a “passividade do preto” seria uma decorrência dessa situação e da maneira segundo a qual o preconceito de cor se manifesta. Mas foram os próprios “negros” que se preocuparam com o seu diagnóstico e a sua superação, através de comportamentos tolhidos, desaprovados ou proscritos pelos “brancos”. De um lado, eles descobriram que o retraimento, o isolamento e a aparente subserviência constituíam mecanismos adaptativos. Desse ângulo, como patenteou Jorge Prado Teixeira, “o negro é obrigado a assumir um elemento de defesa, um campo de defesa, um organismo de defesa e esta ideia está

num complexo de inferioridade”.[272] Ao se submeter passivamente ou ao se retrair e se isolar voluntariamente, estaria pondo em prática os “melhores” ajustamentos, aqueles que reduzem a área de atritos com o “branco” ou atenuam o “drama íntimo” provocado por suas frustrações. De outro, verificaram que, de fato, “negro tem preconceito”, mas este não prejudica o “branco”, além de ser útil ao próprio “negro”. “Isto não inclui o fato de o negro também ter preconceito para com o branco. Aliás o preconceito que o negro tem para com o branco é ainda humilhante para si e lisonjeiro para o branco porque é um conceito que ele tem também de que o

branco é superior.”[273] Essa consciência da realidade dá alento à ambição de reproduzir as palavras, os gestos, as ações e os modelos de organização da personalidade do “branco”. Em resumo, criou o afã de superar as causas e os efeitos do preconceito de cor pela anulação progressiva da distância social existente entre as duas “raças”. Eis como se refere ao assunto um dos artífices dos movimentos sociais que nasceram das contradições da situação racial que estamos descrevendo:

O negro precisa de uma educação separada, para ele tomar brios, para encarar o complexo de inferioridade que lhe foi incutido desde menino. Isto é que se precisa fazer. Foi isso que fiz. Foi essa minha função. Educar o negro para revidar, não ficar de cabeça baixa, na decadência da própria personalidade, de chapéu na mão. Como disse, não ofendíamos ninguém. Enquanto os negros estivessem de chapéu na mão, eles ficariam com complexo de inferioridade e quem padece desse complexo é o Brasil. Fica-se um país servil, inferior, sem personalidade internacional. Com a situação que estamos, temos de ser um país

fraco, e que está ao sabor de todas as potências do mundo.[274]

 

No entanto, as coisas não se alteram tão depressa. Mesmo antigos membros ativíssimos da Frente Negra reconheceram, nas entrevistas, que “o negro é tímido e medroso; quando o branco com certa presença faz alguma coisa, ele titubeia, fica intimidado”. E, o pior, a deformação autoritária deixou marcas profundas. Juntamente com o princípio básico do convívio racial no mundo tradicionalista – “cada macaco no seu galho” –, persistiu vigorosa, mesmo e principalmente no seio da “população de cor”, a ideia de que “o negro precisa de um freio”. Em entrevista com uma personalidade bem representativa dos “negros em ascensão”, ouvimos opiniões amplamente compartilhadas que demonstram a continuidade desse pathos cultural:

Democracia é uma palavra à toa. O Brasil está na adolescência. Precisa de um governo forte, para o bem da Nação. A liberdade é impossível. Em cada casa sempre existe um chefe. É o pai. Lá não há democracia. Não é lugar que cada um faça o que entende. Fazem o que podem, o que têm de fazer ou o que é direito fazer. O pai é quem manda, secundado pela mulher. Se fosse o contrário, o filho com oito anos exigia a chave da casa. E a filha fazia o mesmo. Isso não seria liberdade. Seria anarquia. Ora, muito mais que o branco, o negro precisa de sujeição. Ele precisa de uma disciplina, de alguém que mande nele, alguém que o obrigue a fazer isto e a não fazer aquilo. Como uma criança ou um adolescente, ele ainda não sabe orientar-se sozinho. Não atingiu a sua maioridade. Daí o seguinte: o governo devia disciplinar o negro como um meio de compeli-lo a melhorar de situação econômica e de vida, a educar os filhos. Se não, cadeia nele. Devia obrigá-lo a ter uma profissão regular, a trabalhar de maneira organizada. Forçá-lo a abandonar certos hábitos e costumes ruins. Quem não tivesse uma profissão e não trabalhasse, depois de certo tempo devia ser mandado para abrir estradas e para trabalhar na lavoura. Cada um deve sustentar-se com seu trabalho e possuir com o que viver. A cadeia e o trabalho compulsório seriam a terapêutica para os recalcitrantes. O negro precisa de disciplina e não violentaria a liberdade o governo que procurasse fazer o bem para eles ainda que por meios violentos e contra a sua vontade.

 

Malgrado o que esse depoimento testemunha como progresso na absorção de ideias, técnicas culturais e valores da ordem social competitiva, ele sugere claramente que as amargas experiências na esfera da liberdade conduziram o “negro” a posições ambíguas e a uma espécie de desfalecimento. Antes, a escolha se fazia pela miséria com liberdade. No período que estamos analisando, a liberdade já representava pouca coisa. Era uma condição da degradação inevitável das “populações negras desorganizadas”. Por isso, para muitos seria preferível sacrificá-la, em troca de uma vida segura, respeitável e próspera. Ao contrário dos “negros pobres”, que aceitavam estoicamente o impacto destrutivo e desmoralizado da desorganização social, as ralas “elites negras” não temiam os riscos de uma ordem social autoritária, calcada nos princípios da dominação senhorial.

Os dados discutidos permitem situar outra faceta da relação racial tradicionalista e assimétrica: ela pressupunha a manifestação regular de certos processos de identificação diferenciadora associados à cor e à condição social das “raças” em contato. Na medida em que o uso de certas palavras, a realização de certos gestos ou ações, a fruição de garantias e direitos sociais, a faculdade de agir com maior ou menor autonomia e o dever de ser mais ou menos submisso, a distribuição das probabilidades de acumulação de riqueza, de prestígio e de poder e das oportunidades correspondentes de ascensão social etc. eram estritamente regulados por determinações nascidas da situação social de cada estoque racial, tornava-se necessário dar fundamento convencional e legitimação moral às práticas resultantes de semelhante participação desigual da cultura. A orientação que prevaleceu lembra, em parte, o que se fizera no passado com o escravo e, principalmente, com o liberto. Só que as manipulações foram muito mais complexas e cruéis. Certos atributos, qualidades ou peculiaridades do “negro” foram escolhidos como marcas ou símbolos do que “eram” ou do que se “podia esperar” das “pessoas de cor”. Surgiram, difundiram-se e consolidaram-se clichês terríveis, que atualizavam antigas representações e avaliações raciais, mas que possuíam o pendão de exagerar, com frequência, o que havia de negativo, de funesto ou de odioso naquelas representações e avaliações. Compreende-se que, para manter intato o paralelismo entre a cor e a estrutura social, em condições em que esta se alterava rapidamente, não havia outra saída senão apelar para uma despersonalização impiedosa dos contatos categóricos. No contexto do regime senhorial e escravocrata, a cor eliminava, por si mesma, grande número de situações ambíguas, e a simples condição mecânica fazia o resto, impedindo ou contendo a democratização de padrões de comportamento, níveis de vida, aspirações de carreira, formas de liderança e de exercício do poder etc. Na situação histórico-social criada pela formação e expansão da ordem social competitiva, porém, os mecanismos que produziam tais resultados ou deixaram de existir ou operavam com eficácia reduzida. A preservação da distância social entre o “negro” e o “branco” passou a depender da revitalização de procedimentos aplicados antes no “congelamento” do liberto e da cristalização de novas técnicas sociais de manipulação dos comportamentos das “pessoas de cor”. Dessas complexas motivações históricas emergiram as várias tendências de redefinição do “negro”, que produziram uma imagem do “preto” tão negativa, restritiva e impressiva, que se estabeleceram facilmente os marcos de referência para o uso da “cor” como elemento de classificação e de exclusão recíprocas nos contatos categóricos que envolviam interação racial.

Com isso, não só foram reelaboradas certas representações taxativas, que excluíam o “negro” como escravo (e, em parte, também como liberto) da condição de pessoa (ou, pelo menos, de sua fruição plena), como a que se objetivava na noção de que “negro não é gente”. Ressurgiam e se fortaleciam outras avaliações, que se exprimiam na fórmula severa, que sempre imperou nos círculos exclusivistas da “raça dominante” – “escapou de branco é negro” – e em outras similares: “fazer papel de negro”, “negro que não suja na entrada, suja na saída”, “dê a mão ao negro que ele te toma o braço”, “não passa de negro”, “negro pensa que já virou gente” ou “negro está querendo virar gente”, “negro já não conhece o seu lugar”, “é preciso ensinar o seu lugar para esse negro” ou “para as negras”, “o que se pode esperar de um negro”, “não é um negro?”, “coisas de negro”, “negro é para isso mesmo”, “está provando que é negro”, “preto que nem carvão”, “aceito o negro, desde que ande direito” ou “desde que se comporte como gente”,

“coitado, ele não tem culpa de ser negro”, “negro de alma branca” etc.[275] Ao lado disso, a estigmatização do “negro” ganhava tons sombrios, que não possuía antes. Coligimos imenso material, que infelizmente não pode ser arrolado aqui, sobre os novos estereótipos, que focalizavam a “cor” de maneira degradante para o “negro”. Nessas representações, não só o “preto” era associado à personalidade-status que se pode extrair dos “serviços de negros”, dos trabalhos braçais e mecânicos mais rudes.

A focalização das qualidades do “negro” sofre brusca reorientação. A vida social desorganizada ofereceu o sistema de referência para o processo de reavaliação. “Negro” e “cachaceiro” ou “pingueiro”, “negro” e “vagabundo”, “negro” e “desordeiro”, “negro” e “ladrão”, “negra” e “mulher à toa” etc. tornaram-se termos alternativos. Ao mesmo tempo, os atributos psicológicos do “negro” sofreram uma reinterpretação drástica. Ainda se conservavam avaliações favoráveis, nascidas da experiência escravocrata ou da coexistência nos mesmos níveis sociais. Contudo, tornam-se intensas certas crenças, como a de que “não se pode (ou não se deve) confiar em negro”, “negro é falso”, “só louco confia em negro”, “quando menos se espera, zás! O negro faz uma das dele”, “negro é que nem o tinhoso”, “confie no negro e verás!”, “negro é falso que nem satanás” e por aí afora. Nas entrevistas, existe retenção de qualidades positivas. Mas elas próprias entram em um contexto pouco dignificador no universo humano da sociedade de classes. Trata-se da fidelidade, da devoção ao branco, da capacidade de trabalho bruto. Com maior frequência, o que se ressalta é a deslealdade potencial, a inveja, o medo, a falsidade, a insegurança, o ódio contra o branco ou “tudo que é bom” etc., em conexão com a capacidade de trabalho braçal e a limitação da “inteligência”. Até as crianças eram criadas num clima de temor e de afastamento diante do negro. Não só se representavam o “cuca” e o “homem do saco” como negros; ainda se cantava

“Olhe o negro velho

Em cima do telhado;

Deixa o nenê

Dormir sossegado”

 

e se dizia aos peraltas: “Olhe que eu chamo aquele negro pra te pegar!” ou “Olhe que o homem do saco vem te pegar!” etc.

Também se procurava ridicularizar os traços negroides, estigmatizando-se seus portadores. “Cabelo de negro” ou “pixaim de negro”, “beiço rombudo”, “negro beiçudo”, “catinga de negro”, “sujo que nem negro”, “negro porco”, “feder que nem negro”, “coçar atrás da orelha”

ou “acho que fulano coça atrás da orelha, coçando que nem bode”[276] etc. O que nos importa, desse vasto material, são duas coisas essenciais. Primeiro, as representações negativas forçavam uma redefinição da personalidade do “negro”, altamente desfavorável à sua aceitação livre e franca como um “igual”. Segundo, os traços raciais degradavam, inevitavelmente, o indivíduo na condição de “negro”, conferindo ao branco a faculdade (e, em algumas circunstâncias, o dever) de tratá-lo como tal. Se um “indivíduo de cor” pretendesse um emprego, ofereciam-lhe trabalho braçal; se ele fosse tomar posse de seu cargo, embora fosse dentista, tomavam-no por um servente ou porteiro; se ele estivesse trabalhando (como costureiro, bedel ou escriturário, não importa), seria legítimo tirá-lo a qualquer momento de suas tarefas e mandá-lo realizar “serviços de negro”; se ele visitasse algum conhecido, amigo ou protetor, seria indecoroso recebê-lo na sala de visitas, tratá-lo como amigo ou simplesmente como igual e reprovável expor as demais visitas à “desconsideração” de serem colocadas “em pé de igualdade com um negro”; e por aí afora, como nos sugerem os diversos casos já relatados. Outros dados evidenciam que se entendia (e por isso também se temia) ostentar em público amizade com “negros”, admitir “liberdades” no trato com eles etc. Havia maior condescendência no julgamento das relações com os antigos “crias da casa”, “irmãos” ou “filhos de criação” etc. Mas mesmo essas relações precisavam ser “condignas”, transcorrer se mantendo “cada um em seu lugar”.

Essa forma de percepção deformada das “pessoas de cor” justificava vários tipos de ajustamentos categóricos deprimentes ou odiosos para os indivíduos em causa. Na documentação coligida sobre a época considerada existem vários casos significativos. Um amigo recomendou a outro um protegido seu, esquecendo-se de mencionar que “era de cor”. O protegido foi aceito. Quando se apresentou no trabalho, se descobriu que era “preto”. Então, não podia ser aproveitado, pois “os fregueses não gostariam de ser atendidos por um vendedor preto”. Oferece-se ao candidato outro emprego, dizendo-se que, infelizmente, a vaga não se dera. Ele aceita. Aí verifica que é “para trabalhar na vassoura”. Sai indignado. Os dois amigos, depois, se reencontram e comentam a “ingratidão dos negros”... Em certos bares, não se atendiam “pessoas de cor”. Em outros, que não observavam semelhante proibição, os “pretos” estavam sujeitos a um tratamento discriminativo. Procuravam servi-los só na ponta interna do balcão, afastados dos lugares em que estivessem os fregueses “brancos”; ou, o que às vezes era recebido com verdadeiro rancor, iam lhes servindo pinga em cálices, antes de qualquer pedido prévio.

Anteriormente, já indicamos como estavam expostos, o homem e a mulher, ao risco de serem identificados como “vagabundos” ou como “mulher da vida” e serem “levados pela carrocinha”. A deformação do processo de percepção e de identificação das “pessoas de cor” respondia, portanto, à necessidade de “mantê-las em seu lugar”; ao intento mais ou menos profundo, compartilhado em escala coletiva pelos “brancos”, de preservar inalterável a distância que os separava dos “negros” tanto social quanto culturalmente. Só num ponto não se estabelecia plena concordância nos ajustamentos dominantes. Alguns pensavam que o “mulato” seria “superior” ao “negro” e, portanto, “preferível” pelo “branco”. Como afirmou certo informante: “Quanto mais escuro, o empregado revela menos eficiência. Neste sentido o mulato se aproxima mais do branco”. Outros preferiam abertamente o negro, pois julgavam que seria mais conformado, submisso e obediente, não faltando os que admitiam que ele seria mais trabalhador, ordeiro e desinteressadamente devotado aos interesses dos patrões. Nesse contexto, havia decidida repulsa diante das prevenções do “mulato” e do seu inconformismo em ser tratado como “preto”. Pensava-se que, por isso, ele seria “pior que o preto”, mostrando-se “muito metido” e “pernóstico”, o que o levaria a agir como se “fosse igual aos brancos”.

Continuar: parte 3 de 3