A Noite das Bruxas
Capítulo 8
Eram seis horas da tarde na Colina dos Pinheiros. Hercule Poirot pôs na boca um pedaço de salsicha, seguido logo após de um gole de chá. O chá estava forte e, para o gosto de Poirot, intragável. Mas a salsicha estava deliciosa, cozida com perfeição. Olhou, com uma expressão de cumprimento, para o outro lado da mesa, onde a Sra. McKay presidia a um grande bule de chá. Elspeth McKay era completamente diferente de seu irmão, o inspetor Spence. Onde ele era largo, ela era angular. Seu rosto magro, ovalado, abria-se para o mundo com uma arguta avaliação. Era fina como uma agulha. Não obstante, havia certa semelhança entre eles, sobretudo os olhos e o contorno do queixo. "Podia confiar em ambos", pensava Poirot, "por seu critério e bom senso". Expressavam-se de maneira diferente, mas era só isso. O inspetor Spence falava devagar e media as palavras, como resultado de contínuas e devidas meditações e deliberações. A Sra. McKay ia rápida e diretamente ao assunto, como um gato perseguindo um rato.
– Muita coisa depende do caráter daquela criança – disse Poirot. Joyce Reynolds. É isso que mais me intriga. Olhou indagadoramente para Spence. – Não se baseie em mim – disse Spence. Moro aqui há muito pouco tempo. É melhor perguntar a Elspeth. Poirot olhou para o outro lado da mesa, com as sobrancelhas levantadas em atitude indagadora. A Sra. McKay, como de costume, reagiu prontamente. – Eu diria que era propriamente uma pequena mentirosa, disse ela.
– O tipo de menina em quem não se confia e em cujas palavras ninguém acredita? Elspeth assentiu com a cabeça, taxativamente. – Exatamente. Inventar uma história, ah, isso sim ela sabia fazer, e com que perfeição. Eu, porém, nunca acreditei nela.
– E inventava com o objetivo de se exibir?
– Perfeito. Já lhe contaram a história da Índia, não foi? Muita gente acreditava. Alguém da família viajou realmente para o exterior. Não sei se foi seu pai ou sua mãe, seu tio ou sua tia, mas foram à Índia. Ela voltou daquelas férias com histórias fantásticas, dizendo tê-los acompanhado naquela viagem. Inventou uma história interessante de tudo isso. A história de um marajá e de uma caçada ao tigre, e a elefantes – ah, e não lhe faltava audiência e muita gente daqui acreditava nela. Mas via-se logo que contava muito mais do que tinha acontecido. No início eu achava que estivesse apenas exagerando. Mas a história crescia cada vez que ela a contava. Havia sempre mais tigres, acho que o senhor me compreende. Cada vez mais tigres do que era possível. E elefantes, também, para completar. Eu já a vira antes, também, contando histórias extravagantes.
– Sempre para chamar atenção?
– Sempre. Era a maior nisso.
– Pelo fato de uma criança inventar uma história sobre uma viagem que nunca fez – disse o inspetor Spence –, não se pode dizer que toda história exagerada que contasse fosse mentira.
– Poderia não ser – concordou Elspeth –, mas eu diria que a probabilidade é de que, de modo geral, fosse.
– Então, na sua opinião, se Joyce Reynolds saísse com uma história extravagante de ter assistido a um crime, você diria que provavelmente estaria mentindo e não acreditaria na autenticidade da história?
– Acho que sim – respondeu a Sra. McKay.
– Talvez você se enganasse – disse o irmão.
– É claro – assentiu a Sra. McKay. – Qualquer um pode se enganar. É a velha história do garoto que vivia pedindo socorro, gritando "Lobo! Lobo!" Mas o fazia tão repetidamente, por brincadeira, que, quando apareceu um lobo de verdade ninguém acreditou nele, e o lobo o comeu. Resumindo... Continuo achando que toda probabilidade é de que não estivesse dizendo a verdade. Mas sou justa. Talvez estivesse, quem sabe? Poderia ter visto algo. Não tanto quanto disse que viu, mas alguma coisa.
– E por isso foi morta – disse o inspetor Spence. – É preciso que você leve isso em conta, Elspeth. Joyce foi assassinada.
– Isso é verdade -– disse a Sra. McKay. – É por isso que estou dizendo que posso estar fazendo mau juízo dela. E, se assim for, sinto muito. Mas perguntem a qualquer pessoa que a tenha conhecido e lhes dirá que a mentira era um fraco de Joyce. Lembrem-se de que estava numa festa e excitada. Ela haveria de querer fazer uma encenação.
– De fato, ninguém a levou a sério – disse Poirot. Elspeth balançou a cabeça numa expressão de dúvida.
– Quem ela poderia ter visto sendo assassinado? – perguntou Poirot, desviando seu olhar do irmão para a irmã.
– Ninguém -– respondeu a Sra. McKay, com firmeza.
– Deve ter havido alguma morte aqui nesses últimos três anos.
– É evidente – disse Spence. – Os casos comuns: morte de pessoas idosas ou de inválidos; ou talvez casos de acidentes de trânsito com fuga do motorista...
– Nenhuma morte fora do comum ou não esperada?
– Bem... – Elspeth hesitou. – Quer dizer... Spence a interrompeu. – Rabisquei alguns nomes aqui – estendeu um pedaço de papel a Poirot. – Evitei muita dificuldade fazendo perguntas por aí. – São estas as possíveis vítimas?
– Não chegam talvez a tanto. Digamos, dentro do raio de possibilidade. Poirot leu em voz alta. – Sra. Llewellyn-Smythe. Charlotte Benfield. Janet White. Lesley Ferrier... – parou, olhou para o outro lado da mesa e repetiu o primeiro nome: – Sra. Llewellyn-Smythe.
– Pode ser – disse a Sra. McKay. – Talvez o senhor consiga alguma coisa aí. Acrescentou uma palavra que soou como "ópera".
– Ópera? – Poirot ficou intrigado. Não tinha ouvido falar de nenhuma ópera.
– Sumiu da noite para o dia – disse Elspeth –, e nunca mais se ouviu falar dela.
– Da Sra. Llewellyn-Smythe?
– Não, não. A au pair girl, a ajudante estrangeira que trabalhava lá. Poderia ter facilmente adicionado alguma coisa aos medicamentos. E entraria no dinheiro todo ou assim pensava, na ocasião. Poirot olhou para Spence como quem pede esclarecimento. – E nunca mais se ouviu falar dela – disse a Sra. McKay. – Essas estrangeiras são todas iguais. Poirot compreendeu o sentido da palavra "ópera".
– Ah, uma au pair girl – disse ele –, uma acompanhante.
– Isso mesmo. Morava com a velha e, uma semana ou duas depois da morte da patroa, desapareceu por completo.
– Fugiu com algum sujeito, suponho – disse Spence.
– Bem, se havia esse sujeito, ninguém sabe – esclareceu Elspeth. – E por aqui em geral se fala muito. É comum se saber exatamente quem anda com quem.
– Alguém teria notado algo de anormal com referência à morte da Sra. Llewellyn-Smythe? – perguntou Poirot.
– Não. Ela morreu de distúrbio cardíaco. Recebia regularmente a visita do médico.
– Mas a senhora iniciou sua lista de possíveis vítimas com ela.
– Bem, era uma mulher rica, muito rica mesmo. Sua morte não foi inesperada, mas foi súbita. Foi tão de improviso que surpreendeu o próprio Dr. Ferguson, embora só um pouco. Acho que esperava que ela vivesse mais. Mas os médicos têm também dessas surpresas. A Sra. Llewellyn-Smythe não era do tipo que obedece a prescrições médicas. Recebera recomendações para evitar a estafa, mas agia a seu bel-prazer. Primeiramente, era apaixonada por jardinagem, e esse é o tipo de atividade que não faz bem ao coração. Elspeth começou a contar a história. – Ela veio morar aqui quando sua saúde começou a se abalar. Anteriormente morava no exterior. Veio para morar perto de seu sobrinho e de sua sobrinha, o Sr. e a Sra. Drake, e comprou a Mansão da Pedreira. Uma grande casa vitoriana que incluía uma pedreira abandonada, que a atraiu como passível de aproveitamento. Gastou milhares de libras transformando-a num jardim rebaixado ou coisa que o valha. Tinha um paisagista de Wisley a seu serviço para projetá-lo. Oh, posso-lhe assegurar que vale a pena ver.
– Irei lá olhar – disse Poirot. – Quem sabe isso dê alguma ideia...
– Se eu fosse o senhor, não deixaria de ir. Vale mesmo a pena ver.
– A senhora disse que ela era rica? – perguntou Poirot.
– Era viúva de um grande construtor de navios. Não sabia onde botar o dinheiro.
– Sua morte não foi surpresa, dado o seu estado de deficiência cardíaca, mas foi súbita – disse Spence. – Ninguém duvidou de que sua morte fora devida exclusivamente a causas naturais. Colapso cardíaco ou um outro nome mais comprido que os médicos costumam usar, não sei o que das coronárias.
– Não se levantou a questão de uma autópsia? Spence meneou a cabeça. – A morte se antecipou – disse Poirot. – Uma senhora idosa a quem é dito para tomar cuidado, para não subir nem descer escadas, para não trabalhar muito em jardinagem, e assim por diante. Mas se se trata de uma mulher enérgica, que foi durante toda a vida uma jardineira entusiasta e acostumada a fazer o que quer, então, jamais tratará essas recomendações com o devido respeito.
– É a pura verdade. A Sra. Llewellyn-Smythe fez uma maravilha da pedreira – ou antes, o paisagista. Trabalharam nisso durante três ou quatro anos, ele e a patroa. A Sra. Llewellyn-Smythe viu algum jardim, creio que na Irlanda, quando participou de uma excursão de visitas a jardins, organizada pela Nacional Trust. Com o que tinha em mente, transformaram totalmente o lugar. Oh, é preciso ver para crer.
– Foi, portanto, uma morte natural disse Poirot –, atestada pelo médico local. É o mesmo médico que reside aqui e com quem me encontrarei daqui a pouco?
– Sim, é o Dr. Ferguson. Um senhor com mais ou menos sessenta anos, bom profissional e muito estimado na cidade.
– Mas a senhora suspeita, por quaisquer outras razões além das que já me deu, de que a morte da Sra. Llewellyn-Smythe poderia ter sido um assassinato?
– A au pai girl, por exemplo – disse Elspeth.
– Por quê?
– Bem, ela deve ter forjado o testamento. Quem o teria falsificado, senão ela?
– A senhora deve ter mais coisas para me contar – disse Poirot. Que negócio é esse de testamento forjado?
– Bem, houve muita confusão no momento da legitimação, ou coisa semelhante, do testamento da velha.
– Era um testamento novo? – Era o que eles chamam de... qualquer coisa como codi... ah, codicilo. Elspeth olhou para Poirot, que assentiu com a cabeça.
– Ela já fizera testamentos antes – disse Spence. – Sempre a mesma coisa. Doações a instituições de caridade, legados a velhos criados, mas o grosso de sua fortuna foi sempre destinado ao sobrinho e à esposa, que eram seus parentes mais próximos.
– E o tal de codicilo?
– Deixava tudo para a au pai girl – disse Elspeth –, "por causa de sua dedicação e bondade." Algo semelhante.
– Conte-me mais sobre a au pair girl.
– Veio de algum país da Europa Central. Tinha um nome um tanto comprido.
– Quanto tempo ficou com a velha senhora?
– Exatamente um ano.
– A senhora chama sempre a Sra. Llewellyn-Smythe de velha. Que idade tinha ela?
– Uns sessenta e tantos, digamos, 65 ou 66.
– Não é idade de velhice – disse Poirot incisivamente.
– Segundo consta, ela teria feito vários testamentos – continuou Elspeth. – Como Bert lhe disse, quase todos a mesma coisa. Deixava dinheiro para uma ou duas casas de caridade, e talvez, em seguida, mudava as casas e algumas diferentes lembranças para velhos criados e tudo o mais. Mas o grosso de sua fortuna ia sempre para o sobrinho e a esposa, e acho que para uma outra prima velha que já morreu, mas naquela época ainda vivia. Deixou o bangalô que construíra para o paisagista, para residir nele quanto tempo quisesse, e alguma renda que lhe possibilitasse conservar o jardim rebaixado e permitir sua visitação pelo público. Mais ou menos assim.
– Suponho que a família tenha alegado que seu equilíbrio mental estivesse perturbado, que deveria estar sob influência indébita.
– Acho que poderiam chegar a isso – disse Spence. – Mas os advogados descobriram logo a falsificação. Não era uma falsificação muito convincente, evidentemente. Eles a identificaram quase imediatamente. – Os fatos demonstraram que a au pai girl poderia facilmente ter feito tudo aquilo – disse Elspeth. – O senhor sabe, ela escreveu muitas e muitas cartas para a Sra. Llewellyn-Smythe e, ao que parece, a velha senhora detestava mandar cartas datilografadas a amigos. Se não se tratasse de uma carta de negócios, ela sempre dizia: "Escreva a mão e procure tanto quanto possível imitar minha letra e assine meu nome." A Sra. Minden, a faxineira, ouviu-a dizer isso um dia, e creio que a moça habituou-se a fazer isso e a copiar a escrita da patroa e, de repente, deve ter tido a ideia de fazer o que fez. Foi assim que aconteceu tudo. Mas como disse, os advogados foram argutos e descobriram logo.
– Os próprios advogados da Sra. Llewellyn-Smythe?
– Sim. Fullerton, Harrison e Leadbetter. Uma firma muito respeitável de Medchester. Eles sempre trataram dos negócios legais dela. De qualquer maneira, mandaram fazer perícia e a moça foi interrogada e chegaram à conclusão. A moça um dia saiu, como se a passeio, e desapareceu, deixando a metade dos pertences. Os advogados estavam se preparando para lhe mover uma ação, mas ela não esperou por isso. Simplesmente sumiu. Realmente, não é lá muito difícil sair deste país, desde que se faça no momento oportuno. A gente pode viajar por alguns dias para o continente sem necessidade de passaporte. E mais ainda: com a ajuda de pessoas do outro lado, tudo pode ser arranjado muito antes que haja qualquer denúncia ou perseguição. Ela, provavelmente, deve ter voltado para o seu país ou mudou de nome e vive com amigos.
– Mas todo o mundo achou que a Sra. Llewellyn-Smythe morreu de morte natural? – perguntou Poirot.
– Sim, não me lembro de que se tenha levantado qualquer dúvida a respeito. Acho apenas que seja possível, pois essas coisas aconteceram antes que o médico tivesse qualquer suspeita. Suponhamos que a menina Joyce tivesse ouvido alguma coisa, tivesse visto a au pair girl dando remédios à Sra. Llewellyn-Smythe e a tivesse ouvido dizer: "Este remédio tem um gosto diferente." Ou "Oh, como é amargo" ou "É esquisito."
– Pode-se dizer que você mesma estava ali ouvindo essas coisas, Elspeth – disse o inspetor Spence. – Tudo é fruto de sua imaginação.
– Quando foi que ela morreu? – perguntou Poirot. – Pela manhã, à noite, dentro de casa, fora de casa, em casa ou não?
– Oh, em casa. Ela acabara de fazer seus trabalhos rotineiros no jardim, respirando pesadamente. Disse que estava muito cansada e que ia repousar um pouco na cama. Resumindo, nunca mais acordou. O que parece perfeitamente natural em termos médicos. Poirot tirou do bolso uma caderneta de anotações. No alto da página já havia o título "Vítimas". Embaixo ele escreveu: "n° 1 – Sra. Llewellyn-Smythe, possível." Nas páginas seguintes de sua caderneta lançou os outros nomes que Spence lhe passara.
– Charlotte Benfield? – indagou. – Uma comerciária de 16 anos – respondeu Spence prontamente. – Muitos ferimentos na cabeça, Foi encontrada numa estrada perto do Bosque da Pedreira. A suspeita caiu sobre dois jovens. Ambos saíam com ela de vez em quando. Nenhuma prova.
– Forneceram alguma pista à polícia em seus interrogatórios? perguntou Poirot.
– Como você diz, é um chavão batido. Não forneceram pista alguma. Estavam atemorizados. Disseram algumas mentiras, contradisseram-se. Não chegaram a ser indiciados como possíveis assassinos. Mas ambos poderiam ter sido.
– Como eram eles?
– Peter Gordon, 21 anos de idade. Desempregado. Teve um ou dois empregos, mas nunca os mantinha. Preguiçoso. Boa aparência. Esteve uma vez ou duas sob sursis por causa de pequenos furtos, coisas desse gênero. Nenhum registro anterior de violência. Gostava de frequentar um grupo nojento de prováveis delinquentes juvenis, mas de modo geral procurava evitar complicações mais graves.
– E o outro?
– Thomas Hudd. Vinte anos. Gago. Tímido. Neurótico. Queria ser professor mas não conseguiu formar-se. A mãe dele é viúva. O tipo da mãe extremosa. Afastava suas amiguinhas. Trazia-o agarrado às suas saias. Ele arranjou emprego numa papelaria. Não tem antecedentes criminais, mas há a possibilidade psicológica, assim parece. A garota troçava muito dele. O ciúme parece ter sido a causa de tudo, mas não havia provas. Ambos arranjaram álibis. Hudd estaria na casa de sua mãe, que jurou por todos os santos que ele esteve em casa com ela durante toda aquela noite, e ninguém podia dizer que não esteve ou que o tivesse visto em algum lugar ou nas proximidades do local do crime. Gordon conseguiu um álibi com um de seus amigos menos respeitáveis. Não era um grande álibi, mas não podia também ser rejeitado.
– Isso aconteceu quando?
– Há 18 meses.
– E onde?
– Numa estrada campestre não muito longe de Woodleigh Common.
– Há cerca de um quilômetro daqui, informou Elspeth.
– Perto da casa de Joyce, da casa dos Reynolds?
– Não, foi do outro lado da cidade.
– Não parece provável que Joyce tivesse SE referido a esse crime, disse Poirot pensativo. – Se ela visse uma moça ser golpeada na cabeça por um jovem, provavelmente seria logo levada a pensar num crime. Não iria esperar um ano para começar a pensar em assassinato. Poirot leu outro nome. – Lesley Ferrier.
– Escriturário, 28 anos, empregado dos advogados Fullerton, Harrison e Leadbetter, da Market Street, em Medchester.
– Não são os procuradores da Sra. Llewellyn-Smythe?
– Sim. São eles mesmos.
– O que foi que aconteceu a Lesley Ferrier?
– Foi apunhalado pelas costas. Não muito longe da hospedaria Green Swan. Dizem que ele tinha um caso com a mulher do senhorio, Harry Griffin. Era uma mulher atraente, e na verdade ainda é. Talvez esteja ficando já madura. Cinco ou seis anos mais velha do que ele, mas o fato é que gosta de homens mais jovens do que ela.
– E a arma usada?
– A faca não foi encontrada. Dizem que Lesley tinha rompido com ela e andava com alguma outra moça, mas que moça era essa nunca se soube satisfatoriamente.
– Ah! E nesse caso, quem era o suspeito? O senhorio ou a esposa?
– Muito bem – disse Spence. – Ambos. Mais provavelmente a mulher. Era meio cigana e um bocado temperamental. Mas havia outras possibilidades. Nosso Lesley não levava uma vida exemplar. Já aos vinte anos andou implicado em falsificação de contas em algum lugar. Ficou conhecido como falsário. Dizia-se que viera de um lar desfeito e tudo o mais. Seus patrões o defenderam. Pegou uma sentença pequena e, quando saiu da prisão, foi admitido no escritório de Fullerton, Harrison e Leadbetter.
– E depois, tornou-se honesto?
– Bem, não se pode provar. Pelo menos assim parecia no que dizia respeito a seus patrões. Mas se metera em algumas transações duvidosas com amigos. Ele é o que se poderia chamar de um errado cauteloso.
– De modo que a outra alternativa era?...
– Que poderia ter sido abatido por um dos amigos menos respeitáveis. Quando se vive no meio de elementos perigosos, não é difícil receber uma facada se não se faz o que eles querem.
– Mais alguma coisa? – Bem, ele tinha dinheiro na conta bancária. Depositado em espécie. Não houve meio de se descobrir a origem. Isso já seria motivo de indagações.
– Talvez surrupiado dos cofres de Fullerton, Harrison e Leadbetter, não? – sugeriu Poirot.
– Eles dizem que não. Mandaram um perito contador estudar e examinar minuciosamente o assunto.
– E a polícia não teve a menor ideia da procedência do dinheiro?
– Não.
– Ainda desta vez – disse Poirot –, não é o crime de Joyce. Leu o último nome.
– Janet White.
– Foi encontrada estrangulada numa estrada que fazia um atalho entre o prédio escolar e sua casa. Ela partilhava o apartamento com outra professora, Nora Ambrose. Conforme Nora Ambrose, Janet White vez por outra lhe falava de viver preocupada com um certo homem com quem rompera relações um ano antes, mas que vivia mandando cartas ameaçadoras. Nada se conseguiu apurar sobre esse homem. Nora Ambrose não sabia nome nem onde morava.
– Ah – disse Poirot –, estou gostando mais disso. E marcou com um V preto e bem forte o nome de Janet White.
– Por quê? – perguntou Spence.
– É o assassinato mais provável para uma criança da idade de Joyce ter assistido. Ela poderia ter reconhecido a vítima, uma professora primária que conhecesse e talvez tivesse sido sua professora. É possível que não conhecesse o criminoso. Pode ter visto uma luta, ter ouvido uma discussão entre a jovem que ela conhecia e o homem desconhecido. Mas não teria mais pensado naquilo na época. Quando Janet White foi assassinada?
– Faz dois anos e meio.
– Isso também vem ao encontro de minhas suposições – disse Poirot. – Não só por não compreender que o homem que ela poderia ter visto com as mãos no pescoço de Janet White não estava simplesmente acariciando a moça, mas também poderia a estar matando. Depois, quando ficou maior, compreendeu exatamente o que se passara. Olhou para Elspeth. – A senhora concorda com meu raciocínio?
– Compreendo o que o senhor quer dizer – respondeu Elspeth. – Mas não estaria no caminho errado? Procurando uma vítima de um crime passado em vez de procurar o assassino de uma criança aqui em Woodleigh Common há não mais de três dias?
– Passaremos do passado ao futuro – disse Poirot. – Chegaremos, diríamos, de dois anos e meio a três dias atrás. E, por conseguinte, teremos de considerar o que, sem dúvida, a senhora já considerou: quem estava em Woodleigh Common entre as pessoas presentes à festa e que poderia ter relação com o crime mais antigo.
– Poderíamos reduzir muito mais ainda a questão – disse Spence. Isto é, a aceitar a sua hipótese de que Joyce foi assassinada pelo fato de ter afirmado durante o dia ter assistido a um assassinato. Ela disse essas palavras durante os preparativos para a festa. Pense bem, podemos estar errados ao acreditar que esse tenha sido o motivo de seu assassinato, mas não creio que estejamos errados. Digamos, portanto, que ela afirmasse ter visto o crime e que alguém presente durante os preparativos para a festa da noite a tenha ouvido e agido o mais cedo possível.
– Quem estava presente? – perguntou Poirot. – Presumo que você deva saber.
– Sim, fiz uma lista para você.
– Conferiu-a cuidadosamente?
– Sim, conferi e tornei a conferir, mas deu trabalho. Eis aqui 18 nomes. Lista das pessoas presentes durante os preparativos para a festa de Halloween. Sra. Drake (dona da casa) Sra. Butler, Sra. Oliver, Srta. Whittaker (professora), Rev. Charles Cotterell (pároco), Simon Lampton (vigário), Srta. Lee (assistente do Dr. Ferguson), Ann Reynolds, Joyce Reynolds, Leopold Reynolds, Nicholas Ranson, Desmond Holland, Beatrice Ardley, Cathie Grant, Diana Brent, Sra. Garlton (auxiliar de serviço), Sra. Minden (faxineira), Sra. Goodbody (ajudante).
– Está certo de que só são estas?
– Não – disse Spence. – Não estou certo, nem poderia estar. Ninguém pode estar certo. Pessoas estranhas levaram encomendas, você sabe, não é? Alguém trouxe lâmpadas coloridas; outra pessoa chegou com espelhos encomendados. Havia algumas chapas extras. Alguém emprestou um balde de plástico. São pessoas que entravam trazendo objetos, trocavam uma ou duas palavras e se iam. Não ficavam para ajudar. Por conseguinte é possível que alguém pudesse passar despercebido e ninguém se lembrasse da sua presença. Mas esse alguém, mesmo se apenas tivesse posto um balde na varanda, poderia ter ouvido o que Joyce estaria dizendo na sala de estar. Ela falava em voz alta, sabe. Não nos podemos limitar a esta lista, mas é o que de melhor podemos fazer. Aqui está. Dê uma olhadela. Fiz uma pequena nota descritiva junto a cada nome.
– Obrigado. Apenas uma pergunta. Você deve ter interrogado algumas dessas pessoas; aquelas, por exemplo, que estiveram também na festa. Teria qualquer uma delas mencionado o que Joyce disse a propósito do crime a que teria presenciado?
– Acho que não. Não há nenhum registro oficial sobre o assunto. A única vez que ouvi falar do assunto foi por seu intermédio.
– Interessante – disse Poirot –, poder-se-ia mesmo dizer, curioso.
– Evidentemente, ninguém a levou a sério disse Spence. Poirot assentiu com a cabeça, pensativo. – Tenho um encontro marcado com o Dr. Ferguson, depois de uma operação – disse Poirot, preparando-se para sair. Dobrou a lista de Spence e a pôs no bolso.