A Noite das Bruxas

Agatha Christie · Capítulo 17 de 30

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A Noite das Bruxas

Capítulo 16

 

Hercule Poirot contemplava com interesse o rosto da Sra. Goodbody. Realmente, era o modelo perfeito de uma feiticeira. Sua extrema amabilidade, porém, não desfazia a ilusão. Ela falava com gosto e prazer. – Sim, eu me saí muito bem lá. Eu sempre desempenho o papel de feiticeira por aqui. O pároco me felicitou no ano passado e disse que representei tão bem nos mistérios, que me daria um chapéu de cone novo. O chapéu de feiticeira se estraga como qualquer outra coisa. Ah, sim, eu me saí muito bem naquele dia. Eu faço versos, o senhor sabe? Versos para as meninas, usando seus respectivos nomes de batismo. Um para Beatrice, outro para Ann. Eu os passo a quem quer que esteja representando a voz do espírito que os recita para a menina no espelho, e os rapazes, Nicholas e Desmond, põem fotografias flutuando. Só me falta morrer de rir de algumas delas. Ver aqueles rapazes grudando cabelo no rosto e se fotografando. E como se vestem! Vi o Desmond um dia desses, e, se lhe dissesse o que ele estava usando, o senhor não acreditaria. Um paletó cor-de-rosa, calças marrons. Eles põem as moças loucas. Tudo que elas pensam é levantar cada vez mais as saias, e isso não é muito bom para elas, porque precisam usar mais roupas de baixo. Eu me refiro àquelas coisas que elas chamam de calças de malha, que, no meu tempo, eram usadas por mulheres de cabaré. Gastam todo o dinheiro nessas coisas. Mas os rapazes, por favor, parecem martins-pescadores ou aves do paraíso. Bom, gosto muito de coisas coloridas e penso sempre que, nos tempos antigos, tudo devia ser muito interessante, conforme vemos no cinema. Sabe, todo o mundo com laços e cachos e os cavalheiros de chapéu, e tudo o mais. Chamavam a atenção das moças. Gibões e calças estreitas. Antigamente, todas as moças usavam saias-balão e muitos franzidos em torno do pescoço! Minha avó costumava contar que as jovens senhoras – ela foi criada de uma boa família vitoriana, sabe, e essas jovens senhoras (acho que era gente de antes da época de Vitória), era no tempo do rei que tinha uma cabeça parecida com uma pera, Guilherme IV, não era? Bem, então, essas jovens senhoras, refiro-me às jovens senhoras de que minha avó falava, usavam vestidos de musselina tão compridos que chegavam até os tornozelos, muito bem-comportados, mas costumavam umedecer a musselina com água para que o vestido ficasse colado no corpo. Sabe, ficando bem aderente mostrava tudo que tinha de mostrar. Aparentemente sempre modestas, mas excitavam os homens, e como... Emprestei minha bola de feiticeira à Sra. Drake para a festa. Comprei aquela bola num bazar não sei onde. Lá está, pendurada perto da chaminé, o senhor está vendo? Um lindo e brilhante azul-escuro. Eu a conservo em cima de minha porta.

– A senhora lê a sorte?

– Não devo dizer que leio, devo? – respondeu rindo à socapa. – A polícia não gosta disso. Não que eles se incomodem com a espécie de sorte que leio. Nada disso, como se poderia dizer. Num lugar como este, todo o mundo sabe o que se passa com o vizinho, de modo que o negócio é fácil.

– A senhora poderia consultar agora sua bola para saber quem matou a pequena Joyce?

– O senhor está misturando as coisas – disse a Sra. Goodbody. Essas coisas se veem numa bola de cristal e não numa bola de feiticeira. Se eu lhe disser quem eu acho que fez isso, o senhor não vai gostar. Dirá que é contra a natureza. Mas muitas coisas que são contra a natureza acontecem.

– Há um fundo de verdade nisso.

– Este lugar é muito bom para se morar, de modo geral. Quero dizer, o povo é correto, na sua maioria, mas, como em toda parte, o demônio tem sempre alguns de seu lado. Nascidos e criados para o mal.

– A senhora se refere à magia negra?

– Não, não me refiro a isso – respondeu a Sra. Goodbody, desdenhosa. – Isso não tem sentido. Isso é para pessoas que gostam de se disfarçar e fazer tolices, sexo e tudo mais. Não, refiro-me àqueles que o demônio já tocou com a sua mão. Nasceram assim. São os filhos de Lúcifer. Para eles, matar não significa nada, contanto que tirem vantagem disso. Quando querem uma coisa, querem de qualquer jeito. E são impiedosos em consegui-la. Às vezes são lindos como anjos. Ouvi falar do caso de uma garotinha. Sete anos. Matou o irmãozinho e a irmãzinha. Eram gêmeos. Tinham cinco ou seis meses, no máximo. Sufocou-os em seu carrinho-berço.

– Isso foi aqui em Woodleigh Common?

– Não, não foi em Woodleigh Common. Foi em Yorkshire. Lembro como se fosse hoje. Coisa horripilante. Era também uma linda criaturinha. Parecia um anjo. Bastaria lhe amarrar um par de asas, levá-la para o tablado, fazê-la cantar hinos de Natal, e ela se sairia às mil maravilhas. Mas não era um anjo. Estava podre por dentro. O senhor compreende o que quero dizer. O senhor não é mais criança. Conhece a perversidade que anda pelo mundo.

– Infelizmente – disse Poirot. – A senhora tem razão. Eu também sei disso muito bem. Se Joyce realmente viu um assassinato...

– Quem disse que ela viu? – perguntou a Sra. Goodbody.

– Ela própria.

– Não há razão para se acreditar. Ela estava sempre dizendo mentiras – olhou de relance para Poirot. Acho que o senhor não acredita nisso, acredita?

– Sim, acredito – respondeu Poirot. – Muita gente já me disse isso, para que eu continue não acreditando.

– Acontecem coisas estranhas em certas famílias – disse a Sra. Goodbody. – Tomemos a família Reynolds, por exemplo. O Sr. Reynolds. Trabalha no ramo imobiliário. Nunca fez grande coisa nisso, e nunca fará. Nunca progrediu, como se diz. E a Sra. Reynolds, sempre preocupada e sobressaltada. Nenhum dos três filhos puxou aos pais. Ann, por exemplo, tem miolos. Ela está indo muito bem nos estudos. Vai para a universidade, não tenho a menor dúvida, e será professora. Mas veja, é cheia de si mesma. É tão autossuficiente que não admite que ninguém possa enganá-la. Nenhum rapaz olha para ela duas vezes. E depois era Joyce. Não era tão inteligente como Ann, nem como o irmãozinho Leopold, mas queria ser. Queria sempre saber mais do que todo mundo e ter feito melhor do que qualquer pessoa, e qualquer coisa para chamar a atenção dos outros. Mas não pense que tudo que ela dizia era verdade. Pois em cada dez coisas que dizia, nove eram mentira.

– E o garoto?

– Leopold? Bem, é um menino de apenas nove ou dez anos, mas é bastante sabido. Muito habilidoso, é ótimo em trabalhos manuais. Diz que vai estudar física. É muito bom também na matemática. Os professores na escola se surpreendem com ele. Sim, é muito inteligente. Será um desses cientistas, espero. Se quiser saber as coisas que fará quando for cientista e em que coisas pensará... bem, serão coisas sujas como bombas atômicas! Ele é daquela espécie de gente que estuda e imagina coisas que possam destruir a metade do globo com todos nós, pobres criaturas, nele. Cuidado com Leopold! Ele prega peças nas pessoas, sabe, e vive escutando às escondidas. Descobre todos os segredos dos outros. Gostaria de saber de onde tira o dinheirão que traz no bolso. Certamente não é nem do pai nem da mãe. Eles não têm condições de lhe dar tanto. Está sempre com muito dinheiro. Guarda numa gaveta enrolado num pé de meia. Compra coisas. Brinquedos caros. Onde ele arranja esse dinheiro? É o que eu gostaria de saber. Fica sabendo das fraquezas dos outros, eu acho, e depois os obriga a pagar para guardar segredo. Fez uma pausa para respirar. – Bem, sinto muito, mas não posso ajudar o senhor.

– A senhora me prestou um grande serviço, disse Poirot. – O que aconteceu à moça estrangeira que, segundo consta, teria fugido?

– Não foi longe, na minha opinião. "Ding dong dell, pussy's in the well" [Ding dong dell, o gatinho está no poço.] Foi o que sempre achei.